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09/10/2026

1644 – Jamestown

Opechancanough

Antes que um soldado inglês o fulmine pelas costas, o chefe Opechancanough se pergunta: “Onde está o guardião invisível de minhas viagens? Quem roubou-me a minha sombra?”.
Aos cem anos, foi derrotado. Tinha ido ao campo de batalha em uma liteira.
Faz mais de oitenta anos que o almirante Pedro Menéndez de Avilés levou-o a Cadiz. Apresentou-o na corte de Felipe II: Eis aqui um belo príncipe índio da Florida. Puseram-lhe calças, gibão e gola. Em um convento dominicano de Sevilha ensinaram-lhe a língua e a religião dos castelhanos. Depois, no México, o vice-rei deu-lhe seu nome de presente e Opechancanough passou a chamar-se Luis de Velasco. Ao mesmo tempo regressou à terra de seus pais, como intérprete e guia dos jesuítas. Sua gente achou que ele voltava da morte. Predicou o cristianismo e depois despiu-se e degolou os jesuítas e tornou a chamar-se como antes.
Desde aquele tempo, matou muito e viu muito. Viu as chamas devorando aldeias e campos de cultivo e viu seus irmãos vendidos a quem pagava mais, nesta região que os ingleses batizaram de Virgínia em memória a uma rainha virgem de espírito. Viu a varíola engolindo homens e o tabaco, faminto, devorando terras. Viu como eram apagados do mapa dezessete das vinte e oito comunidades que existiam aqui, e como as outras recebiam a possibilidade de escolher entre a diáspora e a guerra. Trinta mil índios deram as boas-vindas aos navegantes ingleses que chegaram à baía de Chesapeake, em uma fresca manhã de 1607. Sobrevivem três mil.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

05/10/2026

1641 – Madrid

A eternidade contra a história

O conde-duque de Olivares morde os punhos e amaldiçoa baixinho.
É muito o que manda, depois de vinte anos de tanto fazer e desfazer na corte, mas mais forte pisa Deus.
A Junta de Teólogos acaba de rejeitar o projeto de canalização dos rios Tejo e Manzanares, que tanto bem faria para os páramos de Castilha. Os rios ficarão como os fez Deus, e ao arquivo irão os projetos dos engenheiros Carducci e Martelli.
Na França anunciam que logo se abrirá o grande canal do Languedoc, para unir o Mediterrâneo com o vale do Garona. Enquanto isso, nesta Espanha que conquistou a América, a Junta de Teólogos decide que atenta contra a Divina Providência quem tenta melhorar o que ela, por motivos inescrutáveis, quis que seja imperfeito. Se Deus quisesse que os rios fossem navegáveis, os teria feito navegáveis.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

02/10/2026

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

Eduardo Galeano, em As Palavras Andantes

27/09/2026

1641 – Mbororé

As missões

Chegam os mamelucos da região de São Paulo, caçadores de índios, devastadores de terras: avançam ao som da caixa, bandeira estendida e ordem militar, troar de guerra, vento de guerra, através do Paraguai. Trazem longas cordas com colares para os índios que agarrarão, e venderão como escravos nas plantações do Brasil.
Os mamelucos ou bandeirantes estão há anos arrasando as missões dos jesuítas. Das treze missões do Guayrá, não sobram mais que pedras e carvão. Novas comunidades evangélicas nasceram do êxodo, águas abaixo do Paraná; mas os ataques, incessantes, continuam. Nas missões, a serpente encontra os passarinhos reunidos e engordados, milhares de índios treinados para o trabalho e a inocência, sem armas, fáceis para o bote. Sob a tutela dos sacerdotes, os guaranis partilham uma vida regulada, sem propriedade privada nem dinheiro nem pena de morte, sem luxo nem escassez, e caminham para o trabalho ao som das flautas. Nada podem suas flechas de taquara contra os arcabuzes dos mamelucos, que provam os aços de suas alfanjes fendendo em duas partes as crianças e que como troféu levam tiras esfarrapadas de batinas e caravanas de escravos.
Mas desta vez uma surpresa espera pelos invasores. O rei da Espanha, assustado pela fragilidade destas fronteiras, ordenou que entregassem armas de fogo aos guaranis. Os mamelucos fogem em debandada.
Das casas brotam penachos de fumaça e cantos de alabança a Deus. A fumaça, que não é de incêndio e sim de lareiras, celebra a vitória.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

24/09/2026

1641 – Lima

Ávila

Interrogou milhares e milhares de índios, sem encontrar um que não fosse herege. Destruiu ídolos e adoratórios, queimou múmias; raspou cabeças e esfolou costas a chibatadas. Em seu caminho, o vento da fé cristã purificou o Peru.
O sacerdote Francisco de Ávila tem sessenta e cinco anos quando vê que as forças o abandonam, anda meio surdo e sente que até a roupa dói; e decide que não se irá do mundo sem conseguir o que vem querendo desde que era menino. Solicita, então, seu ingresso na Companhia de Jesus.
– Não,
responde o reitor dos jesuítas, Antonio Vazquez.
– Não,
porque por mais que diga que é homem douto e grande lenguaraz, Francisco de Ávila representa sua condição de mestiço.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

20/09/2026

1640 – São Salvador, Bahia




Vieira

Cintila a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Bahia, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta Antônio Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos tão pretos para eles como os índios para nós. Do púlpito, o dono da palavra desafia os donos da terra e das pessoas:
– “Não pode haver maior inconsideração do entendimento nem maior erro de juízo entre homens, que cuidar em que hei de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que vos haveis de ser meu escravo porque nascestes mais perto”.
Na igrejinha da Ajuda, a mais antiga do Brasil, Antônio Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
– Ainda que nós somos os pecadores, Deus meu, vós haveis de ser, hoje, o arrependido.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

14/09/2026

1639 – Potosí



O testamento do mercador

Entre as cortinas, aparece o nariz do escrivão. A alcova tem cheiro de cera e de morte. À luz da única vela, se adivinha a caveira debaixo da pele do moribundo.
– Que esperas, abutre?
Não abre os olhos o mercador, mas sua voz soa invicta.
– Minha sombra e eu discutimos e decidimos – diz. E suspira. E ordena ao tabelião:
– Não haverás de acrescentar ou tirar coisa alguma. Me ouves? Te pagarei duzentos pesos em aves, para que com suas plumas, e as que usas para escrever, voes aos infernos. Me estás ouvindo? Ai! Cada dia que vivo é um dia que alugo. Cada dia mais caro me custa. Escreve, anda! Depressa. Mando que com a quarta parte da prata que deixo se façam na pracinha da ponte umas grandes latrinas, para que nobres e plebeus de Potosí rendam homenagem ali, cada dia, à minha memória. Outra quarta parte de minhas barras e moedas haverão de enterrar-se no curral desta minha casa, e em suas portas se porão quatro cães dos mais bravos, para guardar este enterro.
Não enrola a língua e continua, sem tomar fôlego:
– E que com outra quarta parte de minhas riquezas se cozinhem os mais esplêndidos manjares e postos em minhas travessas de prata se metam em um barranco profundo, com todos os mantimentos de minha despensa, porque quero que se fartem os vermes, como farão comigo. E mando...
Agita o dedo indicador, que projeta uma sombra de bastão sobre o muro branco:
– E mando... que a meu próprio enterro não acuda pessoa alguma, e que acompanhem meu corpo todos os asnos que existam em Potosí, vestidos em riquíssimos vestidos e joias melhores, que serão compradas com o que reste de meus dinheiros.

Dizem os índios:

Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence... Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

08/09/2026

1639 – São Miguel de Tucumán

De uma denúncia contra o bispo de Tucumán, enviada ao Tribunal de Inquisição de Lima

Com a sinceridade e verdade que a tão santo Tribunal se deve falar, denuncio da pessoa do reverendo bispo de Tucumán, dom Fr. Melchor Maldonado de Saavedra, do qual ouvi coisas gravíssimas suspeitas em nossa santa fé católica, e correm geralmente entre todo este bispado. Que em Salta, estando confirmando, chegou uma menina de bom parecer, e disse a ela: “Melhor é vossa mercê para tomada que para confirmada”; e em Córdoba este passado ano de 1638 chegou outra em presença de muita gente e erguendo-lhe a saia disse: “Zape! Que não a hei de confirmar para baixo e sim para cima”; e com a primeira amancebou-se com publicidade…

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

03/09/2026

1639 – Lima

Martín de Porres

Tocam fúnebres os sinos das igrejas de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.
Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.
Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

30/08/2026

1637 – Mystic Fort




Da descrição de John Underhill, puritano de Connecticut, sobre uma matança de índios pequot.

Eles não sabiam nada de nossa chegada. Estando perto do forte, nos encomendamos a Deus e suplicamos Sua assistência em tão pesada empresa...
Não pudemos outra coisa além de admirar a Divina Providência quando nossos soldados, inexperientes no uso das armas, lançaram uma carga tão cerrada que parecia que o dedo de Deus tivesse posto fogo na mecha. Ao romper do dia, a andanada provocou terror nos índios, que estavam profundamente adormecidos, e escutamos os gritos mais cheios de lamento. Se Deus não tivesse preparado os corações nossos para o Seu serviço, teríamos sido movidos à comiseração. Mas havendo Deus nos despojado de piedade, nos dispusemos a cumprir nosso trabalho sem compaixão considerando o sangue que os índios tinham derramado quando trataram barbaramente e assassinaram a uns trinta de nossos compatriotas. Com nossas espadas na mão direita e nossas carabinas ou mosquetões na mão esquerda, atacamos...
Muitos morreram queimados no forte... Outros foram forçados a sair e nossos saldados os recebiam com as pontas das espadas. Caíram homens, mulheres e crianças; os que escapavam de nós, caíam nas mãos de nossos índios aliados, que esperavam na retaguarda. Segundo os índios pequot havia umas quatrocentas almas nesse forte, e nem mesmo cinco conseguiram escapar de nossas mãos. Grande e lastimável foi a visão do sangue para os jovens soldados que nunca tinham estado na guerra, vendo tanta almas que jaziam de boca arfante no chão e tão amontoadas que em algumas partes não se podia passar.
Se poderia perguntar: por que tanta fúria? (Como alguém disse.) Não deveriam os cristãos ter mais clemência e compaixão? E eu respondo recordando a guerra de David. Quando um povo chegou a tal ponto de sangue e pecado contra Deus e o homem, David não respeita as pessoas, e sim as rasga e destroça com sua espada e lhes dá a morte mais terrível. Às vezes as escrituras declaram que as mulheres e as crianças devem perecer junto a seus pais. As vezes se dão casos diferentes, mas não vamos discutir isso agora. Suficiente luz recebemos da Palavra de Deus, para nossos procederes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

22/08/2026

1637 – Baía de Massachusetts



“Deus é inglês”,

disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

17/08/2026

1637 – Boca do rio Sucre

Dioguinho

Há poucos dias, o padre Thomas Gage aprendeu a escapar dos jacarés. Se a gente foge em zig-zag, os jacarés ficam desnorteados. Eles só sabem correr em linha reta.
Em compensação ninguém ensinou-o a escapar dos piratas. Mas, será que alguém conhece a maneira de fugir de dois bons navios holandeses em uma fragata lenta e sem canhões?
Recém-saída ao mar Caribe, a fragata arria as velas e se rende.
Mais desinflada que as velas, rola pelo chão a alma do padre Gage. Viaja com ele todo o dinheiro que juntou na América durante os doze anos que passou salvando sacrílegos e arrancando mortos do inferno.
Os esquifes vão e vêm. Os piratas levam o toucinho, a farinha, o mel, as galinhas, a banha e os couros. Também quase toda a fortuna que o padre trazia em pérolas e em ouro. Não toda, porque respeitaram a sua cama e ele tinha costurado no colchão boa parte de seus bens.
O capitão dos piratas, um mulato fornido, o recebe em seu camarote. Não lhe dá a mão, mas oferece-lhe assento e um jarro de rum com pimenta. Um suor frio brota da nuca do padre e percorre as suas costas. Toma o trago depressa. O capitão Diogo Grillo é conhecido, o padre ouviu falar dele. Sabe que pirateava sob as ordens do terrível Perna de Pau e que agora rouba por conta própria, com patente de corsário dos holandeses. Dizem que Dioguinho mata para não perder a pontaria.
O padre implora, balbucia que não lhe deixaram nada além da batina que veste. Enquanto enche o jarro, o pirata conta, surdo, sem pestanejar, os maus-tratos que sofreu quando era escravo do governador de Campeche.
– Minha mãe ainda é escrava, em Havana. Não conheces minha mãe? É tão boa, a coitada, que dá vergonha.
– Eu não sou espanhol – geme baixinho o padre. – Eu sou inglês – diz e repete, em vão. – Minha nação não é inimiga da vossa. Não são boas amigas, a Inglaterra e a Holanda?
– Hoje ganho, amanhã perco – diz o corsário. Retém um gole de rum, o envia pouco a pouco à garganta.
– Olhe – ordena, e arranca a casaca. Mostra as costas, as costuras dos açoites.
Escutam-se ruídos que chegam da coberta. O sacerdote os agradece, porque ocultam as batidas de seu coração desbocado.
– Eu sou Inglês...
Uma veia lateja, desesperada, na testa do padre Gage. A saliva se nega a passar por sua garganta.
– Levai-me à Holanda. Vos rogo, senhor, levai-me à Holanda. Por favor! Não pode um homem generoso abandonar-me assim, despido e sem...
De um puxão, o capitão solta seu braço das mil mãos do padre no chão com uma bengala e acodem dois homens.
– Fora com ele!
Despede-se de costas, enquanto se olha no espelho.
– Se passas por Havana – diz –, não deixes de visitar minha mãe. Mande-lhe lembranças. Diga-lhe... diga-lhe que as coisas estão indo muito bem para mim.
Enquanto regressa para a sua fragata, o padre Gage sente câimbras na barriga. Andam fortes as ondas e o padre amaldiçoa quem lhe disse, lá em Jerez de la Frontera, há doze anos, que a América estava com as ruas cobertas de ouro e de prata, e que era preciso caminhar com cuidado para não tropeçar com os diamantes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

12/08/2026

1636 – Quito



A terceira metade

Durante vinte longos anos foi o mandão do reino de Quito, presidente do governo e rei do amor, dos baralhos e da missa. Todos os outros caminham ou correm ao ritmo de sua cavalgadura.
Em Madrid, o Conselho das Índias delcarou-o culpado de cinquenta e seis malvadezas, mas a má notícia não cruzou ainda o mar. Terá de pagar multa pela loja que há vinte anos instalou na Auditoria Real, para vender as sedas e os tafetás chineses que tinha trazido de contrabando, e por infinitos escândalos com casadas, viúvas e virgens; e, também por causa do cassino que instalou na sala de bordar de sua casa, ao lado da capela privada onde comungava todos os dias. As rodas de baralho deixaram para dom Antonio de Morga duzentos mil pesos de lucro pelas entradas que cobrou, sem contar as façanhas de seus ágeis dedos depenadores. (Por dívidas de dez pesos, dom Antonio condenou muitos índios a passarem o resto de suas vidas atados aos teares nas oficinas.)
Mas a resolução do Conselho das Índias ainda não chegou a Quito. Não é isso o que o preocupa.
Está em pé na sala, despido na frente do espelho lavrado em ouro, e vê outro. Busca seu corpo de touro e não o encontra. Debaixo do adiposo ventre e entre as pernas magras balança, muda, a chave que tinha sabido abrir todas as fechaduras de mulher.
Busca a sua alma no espelho, e não a encontra. Quem roubou a metade piedosa do homem que dava sermões aos frades e era mais devoto que o bispo? E o fulgor em seus olhos de místico? Só há escuridões e rugas sobre a barba branca.
Dom Antonio de Morga dá alguns passos até roçar o espelho e pergunta por sua terceira metade. Tem que existir uma região onde buscaram refúgio os sonhos sonhados e esquecidos. Tem que existir: um lugar onde os olhos, gastos de tanto olhar, tenham guardado as cores do mundo; e os ouvidos, já quase surdos, as melodias. Busca algum sabor invicto, algum aroma que não tenha sumido, alguma calidez que persista na mão.
Não reconhece nada que esteja a salvo e mereça ficar. O espelho só lhe devolve um velho vazio que morrerá esta noite.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

07/08/2026

1634 – Madrid



Quem se escondia no berço da tua mulher?

O Conselho Supremo do Santo Ofício da Inquisição, velando pela limpeza do sangue, decide que de agora em diante se fará cuidadosa investigação antes que seus funcionários contraiam matrimônio.
Todos os que trabalham para a Inquisição, o porteiro e o fiscal, o torturador e o verdugo, o médico e o ajudante de cozinha, deverão apresentar a genealogia de dois séculos da mulher que escolheram, para evitar que se casem com pessoas infectas.
Pessoas infectas, ou seja: com litros ou gotas de sangue índio e ou sangue negro, ou com tataravós de fé judia ou cultura islâmica ou devoção a qualquer heresia.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

03/08/2026

1633 – Pinola


Gloria in excelsis deo

O bicho-de-pé é menor que uma pulga e mais feroz que um tigre. Se mete pelos pés e derruba quem se coça. Não ataca os índios, mas não perdoa os estrangeiros.
Dois meses passou em guerra o padre Thomas Gage, deitado em uma cama, e enquanto celebra sua vitória contra o bicho-de-pé, faz um balanço do tempo vivido na Guatemala. A não ser pelo bicho-de-pé, não pode se queixar. Nos povoados o recebem ao som das trombetas, debaixo de um pálio de ramagens e flores. Tem os criados que quer e um palafreneiro que leva seu cavalo pelo bridão.
Cobra seu salário, pontualmente, em prata, trigo, milho, cacau e galinhas. As missas que oferece aqui em Pinola e em Mixco, são pagas por separado, e por separado os batismos, matrimônios e enterros, e as orações que reza por conta para conjurar gafanhotos, pestes ou terremotos se incluem as oferendas aos santos a seus cuidados, que são muitos, e as da Noite de Natal e da Semana Santa, o padre Gage recebe mais de dois mil escudos por ano, livres, limpinhos, além do vinho e da batina grátis.
O salário do padre vem dos tributos que pagam os índios a dom Juan de Guzmán, dono desses homens e destas terras. Como só pagam tributo os casados, e os índios são rápidos no saber e na malícia, os funcionários obrigam ao casamento os meninos de doze e treze anos e o padre os casa enquanto lhes cresce o corpo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

31/07/2026

1629 – Caranguejeiras




Bascuñán

A cabeça range e dói. Estendido no barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro, metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele. Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é o que apagou as mechas. Perdeste. Escutas os índios, que discutem a tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
“É o verdugo”, pensa Francisco. “Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao sul.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

25/07/2026

1631 – Guatemala Antiga




Uma tarde de música no convento da Conceição

No jardim do convento, Juana canta e tange o alaúde. Luz verde, troncos verdes, verde brisa: estava morto o ar até que ela o tocou com as palavras e a música.
Juana é filha do juiz Maldonado, que distribui os índios da Guatemala em lavouras, minas e oficinas. De mil ducados foi o seu dote para o casamento com Jesus, e no convento seis escravas negras a servem. Enquanto Juana canta letras próprias ou alheias, as escravas, paradas à distância, escutam e esperam.
O bispo, sentado na frente da monja, não pode conter as caretas. Olha a cabeça de Juana inclinada sobre o mastro do alaúde, o pescoço nu, a boca que se abre, iluminada, e dá a si mesmo a ordem de ficar quieto. Tem fama de jamais mudar de expressão quando dá beijos ou os pêsames, mas agora franze essa cara imutável: sua boca se torce e batem asas, rebeldes, as suas pálpebras. Seu pulso firme parece alheio a essa mão que segura, trêmula, um cálice.
As melodias, alabanças a Deus ou melancolias profanas, se elevam na folhagem. Longe, ergue-se o verde vulcão de água e o bispo gostaria de concentrar-se naquelas plantações de milho e trigo e nos mananciais que brilham na ladeira.
O vulcão tem a água presa. Quem se aproxima escuta fervores de marmita. A última vez que vomitou, faz menos de um século, afogou a cidade que Pedro de Alvarado tinha fundado aos seus pés. Aqui, a cada verão treme a terra, prometendo fúrias; e vive a cidade em pânico, entre dois vulcões que cortam a sua respiração. Este a ameaça com o dilúvio. O outro, com o inferno.
Nas costas do bispo, frente ao vulcão de água, ergue-se o vulcão de fogo. As chamas que aparecem pela boca permitem ler cartas a uma légua, em plena noite. De tempos em tempos soa um troar de canhões e o vulcão bombardeia o mundo a pedradas: dispara pedras tão grandes que não as moveriam vinte mulas e enche o céu de cinza e o ar de um enxofre que fede.
Voa a voz da moça.
O bispo olha para o chão, querendo contar formigas, mas seus olhos deslizam até os pés de Juana, que os sapatos ocultam e delatam, e o olhar percorre este corpo bem lavrado que palpita debaixo do hábito branco, enquanto a memória desperta de repente e viaja até a infância. O bispo recorda aquelas vontades que sentia, incontíveis, de morder a hóstia em plena missa, e o pânico de que a hóstia sangrasse; e depois navega por um mar de palavras não ditas e cartas não escritas e sonhos não contados.
De tanto calar, o silêncio soa. O bispo percebe de repente que faz um bom tempo que Juana deixou de cantar e tocar. O alaúde repousa sobre seus joelhos e olha para o bispo, sorrindo muito, com esses olhos que nem ela merece ter. Uma auréola verde flutua ao redor.
O bispo sofre um ataque de tosse. O anis cai no chão e suas mãos ficam com bolhas-d’água de tanto aplaudir.
– Farei de ti superiora! – geme. – Farei de ti abadessa!

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

21/07/2026

1630 – Lima

Maria, matrona da farândula

– Cada dia tenho mais problemas e menos marido! – suspira Maria del Castillo. Aos seus pés, o tramoísta, o apontador e a primeira atriz oferecem consolos e brisas de seu leque.
No turbio crepúsculo, os guardas da Inquisição arrancaram Juan dos braços de Maria e atiraram-no ao cárcere porque línguas envenenadas dizem que ele disse, enquanto escutava o evangelho:
– Eia! Que não tem outra coisa que viver e morrer!
Poucas horas antes, na praça da matriz e pelas quatro ruas que dão esquina aos mercadores, o negro Lázaro tinha apregoado as novas ordens do vice-rei sobre os teatros de comédias.
Manda o vice-rei, conde de Chinchón, que uma parede de pau a pique separe as mulheres dos homens no teatro, sob pena de cárcere e multa a quem invada o território do outro sexo. Também dispõe que acabem as comédias mais cedo, ao repicarem os sinos de oração, e que entrem e saiam homens e mulheres por portas diferentes, para que não continuem as graves ofensas contra Deus. Nosso Senhor na escuridão dos becos. E se isso fosse pouco, o vice-rei decidiu que baixem os preços das entradas.
– Nunca me terá! – clama Maria – Por muita guerra que me declare, nunca me terá!
Maria del Castillo, grande chefa dos cômicos de Lima, leva intacto o ar e a beleza que a fizeram célebre, e aos sessenta longos anos ainda ri das tapadas, que com um xale cobrem um olho: como ela tem belos os dois, a cara descoberta olha, seduz e assusta. Era quase menina quando escolheu este ofício de maga; e faz meio século que enfeitiça multidões nos palcos de Lima. Mesmo que queira, explica, já não poderia mudar o teatro pelo convento, pois não gostaria Deus de tê-la como esposa, depois de três matrimônios tão desfrutados.
Por muito que agora os inquisidores a deixem sem marido e que os decretos do governo pretendam espantar seu público, Maria jura que não entrará na cama do vice-rei:
– Nunca, nunca!
Contra o vento e as marés, sozinha e solitária, ela continuará oferecendo obras de capa e espada em seu teatro de comédias, atrás do mosteiro de Santo Agostinho. Daqui a pouco reporá A Monja Alferez, do notável engenho peninsular Juan Pérez de Montalbán, e estreará um par de obras bem apimentadas, para que todos dancem e cantem e tremam de emoção nesta cidade onde nunca acontece nada, tão chata que morrem todos bocejando.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

16/07/2026

1630 – Motocintle


Não traem seus mortos

Durante quase dois anos tinha predicado frei Francisco Bravo neste povoado de Motocintle.
Um dia anunciou aos índios que tinha sido chamado da Espanha. Ele queria regressar à Guatemala, disse, e ficar para sempre aqui junto a seu querido rebanho, mas lá na Espanha seus superiores lhe negariam a permissão.
– Somente o ouro poderá convencê-los – advertiu frei Francisco.
– Ouro não temos – disseram os índios.
– Sim, têm – desmentiu o padre. – Eu sei que existe um criadeiro de ouro escondido em Motocintle.
– Esse ouro não nos pertence – explicaram eles. – Esse ouro é de nossos antepassados. Nós só estamos cuidando dele. Se faltar alguma coisa, o que lhes diremos quando voltem ao mundo?
– Eu só sei o que dirão meus superiores na Espanha. Me dirão: Se tanto te amam os índios desse povo onde queres ficar, como estás tão pobre?”
Se reuniram os índios em assembleia para discutir o assunto.
Um domingo, depois da missa, vendaram os olhos de Frei Francisco e o fizeram dar voltas até ficar tonto. Todos foram atrás dele, dos velhos às crianças de peito. Ao chegar ao fundo de uma gruta, tiraram-lhe a venda. O padre piscava os olhos, machucados pelo fulgor do ouro, mais ouro que o de todos os tesouros das mil e uma noites, e suas mãos trêmulas não sabiam por onde começar. Transformou em saco a sua batina e carregou o que pôde. Depois jurou por Deus e os santos evangelhos que jamais revelaria o segredo e recebeu uma mula e comida para a viagem.
Com o tempo, chegou à Real Auditoria da Guatemala uma carta de frei Francisco Bravo do porto de Veracruz. Com grande dor na alma cumpria o sacerdote seu dever, no ato de serviço ao rei por tratar-se de importante e esmerado negócio. Dava notícias do possível rumo do ouro: “Creio ter andado a escassa distância da aldeia. Corria à esquerda um arroio...” Enviava algumas pepitas como amostra e prometia empregar o resto em devoções a um santo de Málaga.
Agora aparecem a cavalo em Motocintle o juiz e os soldados. Vestindo túnica vermelha e com uma vara branca pendurada no peito, o juiz Juan Maldonado trata de convencer os índios a entregar o ouro.
Promete e garante bom tratamento.
Ameaça com rigores e castigos.
Tranca uns quantos na prisão.
A outros aplica cepo e dá tormento.
Outros faz subir as escadas do patíbulo.
E não adianta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

08/07/2026

1629 – Comarca de Repocura



Para dizer adeus

Lua após lua, passou o tempo. É muito o que Francisco escutou e aprendeu nestes meses de cativeiro. Conheceu, e algum dia a escreverá, a outra versão desta longa guerra do Chile, justa guerra que os índios moveram contra os que os enganaram e ofenderam e tiveram como escravos, e pior ainda.
No bosque, ajoelhado na frente de uma cruz feita de galhos, Francisco reza orações de gratidão. Esta noite empreenderá o caminho até o forte do Nascimento. Lá será trocado por três chefes araucanos prisioneiros. Viajará protegido por cem lanças.
Caminha, agora, até o rancho. Debaixo do cipoal, o espera um círculo de ponchos esfarrapados e rosto de barro. De boca em boca anda a chicha de morango ou de maçã.
O venerável Tereupillán recebe o galho de canela, que é a palavra, e erguendo-o dedica uma longa alabanca a cada um dos caciques presentes. Elogia depois Maulicán, guerreiro bravio, que na batalha obteve um preso tão valioso e soube guardá-lo vivo.
– Não é de corações generosos – diz Tereupillán – tomar a vida a sangue-frio. Quando nós tomamos as armas contra os espanhóis tiramos que perseguidos e vexados nos tinham, só nas batalhas não senti compaixão por eles. Mas depois, quando cativos os via, grande dor e pena me causavam e machucada a alma me tinham, que verdadeiramente não odiávamos suas pessoas. Suas cobiças, sim. Suas crueldades, sim. Suas soberbas, sim.
E virando para Francisco, diz:
– E tu, capitão, amigo e companheiro, que te ausentas de nós e nos deixas machucados, tristes e sem consolo, não nos esqueça.
Tereupillán deixa cair o ramo de canela no centro do círculo e os araucanos despertam a terra, golpeando-a com os pés.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos