12/08/2026

1636 – Quito



A terceira metade

Durante vinte longos anos foi o mandão do reino de Quito, presidente do governo e rei do amor, dos baralhos e da missa. Todos os outros caminham ou correm ao ritmo de sua cavalgadura.
Em Madrid, o Conselho das Índias delcarou-o culpado de cinquenta e seis malvadezas, mas a má notícia não cruzou ainda o mar. Terá de pagar multa pela loja que há vinte anos instalou na Auditoria Real, para vender as sedas e os tafetás chineses que tinha trazido de contrabando, e por infinitos escândalos com casadas, viúvas e virgens; e, também por causa do cassino que instalou na sala de bordar de sua casa, ao lado da capela privada onde comungava todos os dias. As rodas de baralho deixaram para dom Antonio de Morga duzentos mil pesos de lucro pelas entradas que cobrou, sem contar as façanhas de seus ágeis dedos depenadores. (Por dívidas de dez pesos, dom Antonio condenou muitos índios a passarem o resto de suas vidas atados aos teares nas oficinas.)
Mas a resolução do Conselho das Índias ainda não chegou a Quito. Não é isso o que o preocupa.
Está em pé na sala, despido na frente do espelho lavrado em ouro, e vê outro. Busca seu corpo de touro e não o encontra. Debaixo do adiposo ventre e entre as pernas magras balança, muda, a chave que tinha sabido abrir todas as fechaduras de mulher.
Busca a sua alma no espelho, e não a encontra. Quem roubou a metade piedosa do homem que dava sermões aos frades e era mais devoto que o bispo? E o fulgor em seus olhos de místico? Só há escuridões e rugas sobre a barba branca.
Dom Antonio de Morga dá alguns passos até roçar o espelho e pergunta por sua terceira metade. Tem que existir uma região onde buscaram refúgio os sonhos sonhados e esquecidos. Tem que existir: um lugar onde os olhos, gastos de tanto olhar, tenham guardado as cores do mundo; e os ouvidos, já quase surdos, as melodias. Busca algum sabor invicto, algum aroma que não tenha sumido, alguma calidez que persista na mão.
Não reconhece nada que esteja a salvo e mereça ficar. O espelho só lhe devolve um velho vazio que morrerá esta noite.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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