A terceira metade
Durante vinte longos anos foi o mandão
do reino de Quito, presidente do governo e rei do amor, dos baralhos
e da missa. Todos os outros caminham ou correm ao ritmo de sua
cavalgadura.
Em Madrid, o Conselho das Índias
delcarou-o culpado de cinquenta e seis malvadezas, mas a má notícia
não cruzou ainda o mar. Terá de pagar multa pela loja que há vinte
anos instalou na Auditoria Real, para vender as sedas e os tafetás
chineses que tinha trazido de contrabando, e por infinitos escândalos
com casadas, viúvas e virgens; e, também por causa do cassino que
instalou na sala de bordar de sua casa, ao lado da capela privada
onde comungava todos os dias. As rodas de baralho deixaram para dom
Antonio de Morga duzentos mil pesos de lucro pelas entradas que
cobrou, sem contar as façanhas de seus ágeis dedos depenadores.
(Por dívidas de dez pesos, dom Antonio condenou muitos índios a
passarem o resto de suas vidas atados aos teares nas oficinas.)
Mas a resolução do Conselho das
Índias ainda não chegou a Quito. Não é isso o que o preocupa.
Está em pé na sala, despido na
frente do espelho lavrado em ouro, e vê outro. Busca seu corpo de
touro e não o encontra. Debaixo do adiposo ventre e entre as pernas
magras balança, muda, a chave que tinha sabido abrir todas as
fechaduras de mulher.
Busca a sua alma no espelho, e não a
encontra. Quem roubou a metade piedosa do homem que dava sermões aos
frades e era mais devoto que o bispo? E o fulgor em seus olhos de
místico? Só há escuridões e rugas sobre a barba branca.
Dom Antonio de Morga dá alguns passos
até roçar o espelho e pergunta por sua terceira metade. Tem que
existir uma região onde buscaram refúgio os sonhos sonhados e
esquecidos. Tem que existir: um lugar onde os olhos, gastos de tanto
olhar, tenham guardado as cores do mundo; e os ouvidos, já quase
surdos, as melodias. Busca algum sabor invicto, algum aroma que não
tenha sumido, alguma calidez que persista na mão.
Não reconhece nada que esteja a salvo
e mereça ficar. O espelho só lhe devolve um velho vazio que morrerá
esta noite.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:
Postar um comentário