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27/06/2021

Velas

Perde-se no tempo a origem dos barcos a vela. Os mais antigos de que se tem notícia datam de quatro mil anos antes de Cristo, e resquícios ou registros foram encontrados em muitas partes do planeta, no Pacífico, no Índico, no Mediterrâneo ou no Mar do Norte.
Dentre as muitas tarefas para manter uma embarcação a vela — a limpeza, a mastreação, o cuidado com a quilha, o pastilhão, o leme, as manobras, o treinamento, a alimentação, o conhecimento das estrelas —, a dobra eficiente e rápida das velas é uma das mais necessárias para o ofício de um marinheiro.
Não é um trabalho fácil. Nas embarcações mais antigas, especialmente, havia tantas velas, seus formatos eram tão variados e a necessidade de manejá-las ao longo de uma viagem tão essencial, que o cuidado com sua dobra era habilidade fundamental para uma navegação eficaz. Ser um marinheiro capaz, na Antiguidade, era ter a vida garantida, com comida e abrigo para sempre. Os mestres na arte da dobra dos velames tornavam-se pessoas respeitadas, quando navegar já não lhes era mais possível e faltavam ao seu corpo forças para continuar dobrando.
Não espanta, por isso, que tanto se tenha cantado e elogiado o marinheiro e as embarcações:

Manobra o Timoneiro, a nave se desloca,
E sem nenhuma aragem;
Os marujos se põem a trabalhar nas cordas,
E tal como antes agem;
Instrumentos sem vida tornam-se seus membros(Coleridge)

Vela de seda e cordas de sândalo
Tais como brilham no antigo folclore;
E o canto dos marinheiros,
E a resposta que vem da costa!… (Longfellow — tradução livre)

Ó Capitão! Meu capitão! Nossa terrível viagem se cumpriu,
O Navio cruzou tormentas, é nosso o prêmio pio,
O porto vê-se ao perto os sinos dobram, o povo espera,
Olhos que à quilha firme tornam, desta nave forte e fera;
Mas ó coração, coração!
Ó gotas de vermelho brio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio. (Walt Whitman)

Ou, em Portugal, do mar que, saudoso, pergunta pelo marinheiro que foi para a Terra:

E o espírito do mar pergunta:
Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaços e vazios
De ondas brancas e fundas
e de verde vazio? (Sophia de Mello Breyner Andresen)

O desenrolar da história se dá não pelas vitórias dos imperadores, pelos acordos entre grandes estirpes ou pelas derrotas sofridas pelos menos afortunados, mas a partir dos botões bem ou mal costurados urdidos em noites insones, o grude mais ou menos eficaz dos lacres, as pernas dos mensageiros e as velas mais ou menos bem dobradas pelos marinheiros. Disso dependia a rapidez com que os barcos singravam os mares e, no final das contas, a vitória na batalha, uma transação comercial, o transporte de bens e da princesa prometida.
Entretanto, embora o ofício tenha sido tão cantado, pouco se sabe — ou talvez nada — sobre a relação entre alguns termos do vocabulário especificamente ligado à dobra das velas e algumas palavras importantes de nosso léxico atual.
O encontro consonantal “pl”, cujo som lembra o de um “plic”, “plic” ou o da manipulação de algo macio — e que também pode ser substituído por “fl” —, acabou resultando, em várias línguas, em palavras que remetem ao ato de dobrar: plier, em francês; plesti, em eslavo; plekein, em grego; ou fletir, em português. E era justamente esse um dos gestos mais importantes dos marinheiros, “plier les voiles”, dobrar as velas. As instruções para esse exercício precisavam ser claras e rápidas, ditas com as palavras mais incisivas possíveis. E foi daí que vieram os gritos urgentes durante as tempestades da história da navegação:
Simplificar!
Explicar!
Complicar!
Duplicar!
Aplicar!
Ou, traduzindo: igualar as dobras!; tirar as dobras!; aumentar as dobras!; dobrar mais uma vez ou, mais singelamente, apenas dobrar!
Mas disso ninguém sabe e usam-se essas palavras com significados filosóficos ou abstratos, como se a filosofia, coitada, fosse mais importante do que a dobra das velas.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

13/06/2021

A teia

Georges Bataille tentava, mas não conseguia lembrar onde tinha guardado as Passagens, que Walter Benjamin lhe confiara antes de partir para a Espanha. Acordou, no meio de uma noite agitada e pensou: o ato sexual é, no tempo, o que o tigre é no espaço. Não sabia, a princípio, qual a relação entre essa ideia e os manuscritos de Benjamin. Voltou a adormecer e, de manhã, enquanto preparava o café, lembrou-se. Guardara tudo na mesma prateleira onde estavam os livros de Herman Melville em espanhol. Como várias vezes acontece, sua mente operara a teia sem que ele mesmo soubesse.
A caça à baleia branca era, no tempo e no espaço, o sexo e o tigre. E Walter Benjamin lhe dera as pistas, quando disse, alguns dias antes de partir e, misteriosamente, desaparecer (para sempre, soube-se depois): “Georges, eu vou, mas na verdade fico. Tudo, para o verdadeiro colecionador, se funde numa enciclopédia mágica, cuja quintessência é o destino do seu objeto”. Bataille entendeu então a lógica que unia Moby Dick, o tigre, o sexo e o livro das Passagens e, nessa noite, seu sono, embora intermitente, foi menos agitado.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

13/05/2021

Uma agulha

Alguns textos neste livro são verdadeiros, mas parecem falsos; outros são falsos, mas parecem verdadeiros. Outros, ainda, misturam as duas categorias, propondo uma espécie de indistinção entre elas. O caso que se conta aqui, entretanto, é totalmente verdadeiro, embora seja difícil acreditar que ele realmente aconteceu.
Gosto muito de Horacio Quiroga, esse autor uruguaio/argentino, de vida trágica e ficção não menos terrível, que criou um tipo de linguagem em que o leitor não sabe se está a ler contos de terror ou tratados científicos. Em seus contos, ele consegue de tal forma confundir objetividade e absurdo que o impacto de suas histórias se amplia por uma sensação do mais puro realismo. E dentre todas elas, uma das mais conhecidas, não à toa, é “A galinha degolada”, que também dá nome a um de seus livros. Nesse conto, um casal jovem e apaixonado, para completar sua felicidade, dá à luz um menino forte e saudável. Tudo corre às mil maravilhas, até que no décimo sétimo mês — e aqui estou certa dessa contagem, mas faço questão de me manter numa margem de incerteza, porque, por mais que já tenha relido o conto algumas vezes depois do que me aconteceu, a literatura de Quiroga é tão movediça que quero ficar nessa bruma de indefinição, como se ela fosse a atitude mais coerente e respeitosa para com o autor — começa a se desenvolver uma doença no menino. Ele vai se tornando imóvel e alheio a tudo e os pais o entregam aos cuidados de uma criada, desesperados. Depois de algum tempo, decidem dar nova chance ao destino e têm um outro bebê, a quem enchem de cuidados, temendo a repetição da doença. E, aos dezessete meses, novamente ela se manifesta, condenando o segundo filho também ao mutismo e ao isolamento. O casal, quase sem esperanças e com seu relacionamento em frangalhos, resolve ter ainda mais um filho, com quem a história se repete, nas mesmas condições e prazo. E ainda com um quarto, deixando o casal em estado de total desolação. Aos poucos, os pais dos meninos abandonam os filhos à própria sorte. Os quatro ficam o dia inteiro sentados no quintal, em frente a um muro, calados, somente sensíveis à luz do sol e às cores, que os afetam visivelmente. Depois de alguns anos, o casal tem uma menina, a quem, obviamente, tratam como uma princesa e que não apresenta a doença. Finalmente, certa paz parece retornar ao lar e os pais acreditam que podem ser felizes de novo. Esquecem-se completamente dos rapazes, inclusive deixando-os sujos e desamparados. Um dia, a cozinheira da casa, ao preparar uma galinha para o almoço, degola-a na frente dos quatro irmãos, que observam o ato, impressionados com a vermelhidão do sangue que escorre de seu pescoço, chegando até o quintal. Na cena seguinte, os pais e a menina estão retornando de um passeio e a garota se solta das mãos de ambos para correr para o quintal, onde ela sobe no muro para espiar algo na casa vizinha. Novamente, não tenho certeza absoluta da sequência dos fatos, nem mesmo do que ela foi procurar ali no muro. Os irmãos se entreolham e, como que tacitamente, tomam uma decisão silenciosa. Puxam-na para baixo e, sem demora, degolam-na como havia sido feito à galinha. Os pais, dando-se conta do sumiço da menina, começam a chamá-la, mas, quando desconfiam do que pode ter acontecido, já é tarde demais.
No conto não há uma condenação do gesto dos irmãos e creio que tampouco do descuido dos pais, embora esta última alternativa seja mais plausível. O que fica, como nos outros contos de Quiroga, é uma constatação sobre a imponderabilidade do trágico.
Poucos dias depois da leitura dessa história, precisei fazer uma viagem ao exterior. Estava no saguão do aeroporto, aguardando a chamada para o embarque, quando, a pouca distância de mim, avistei um rapaz jovem e forte se aproximando de um homem que parecia ser seu pai. Ele o abraçou carinhosamente e foi correspondido. Quando eles se viraram, vi que o garoto era portador de síndrome de Down, lembrei-me do conto e me alegrei de ele ser tratado com tanto afeto. Pouco tempo depois, outro rapaz aproximou-se da dupla e, da mesma forma, abraçou o pai. Vi que ele tinha a mesma característica e fiquei ainda mais admirada, para, em seguida, surgir ainda um terceiro, também portador da síndrome, comportando-se da mesma forma. Não podia acreditar. Um pai e três filhos especiais, todos abraçando-se e demonstrando camaradagem. Não imaginava que isso pudesse existir, ainda mais porque aquele homem parecia estar viajando sozinho com os garotos.
Na cadeira ao meu lado, um homem estava com um livro aberto fazia algum tempo. Sempre que percebo alguém lendo perto de mim em espaços públicos, coisa cada vez mais rara, gosto de espionar qual é o livro, como se isso pudesse estabelecer um tipo de pacto entre nós. Mas mal pude crer quando vi que a leitura era “A galinha degolada”, e não apenas o livro, mas o próprio conto. A cena até certo ponto similar à história de Quiroga — mas invertendo o aspecto trágico — se passava empiricamente, à minha frente e, literariamente, ao meu lado.
Fiquei sem saber o que sentir, pensar, como interpretar, assim que recuperei parte dos sentidos. Aquilo estava mesmo acontecendo? Será que eu estava dentro de uma história de Borges, dentro de um espelho, existiria mesmo o eterno retorno nietzschiano, será que eu estava afetada pelas muitas histórias que vinha lendo, como uma Bovary desqualificada? Ou seria tudo um sonho, do qual eu iria logo despertar, ou então não, meus sonhos noturnos é que eram reais e todo o resto é falso e a vida não passa de uma narrativa mal escrita? Aquilo tudo poderia ser um aviso, um sinal enviado por deuses ociosos, uma brincadeira inconsequente do destino em que não acredito. Mas sinal de quê e por quê?
Não. Era tudo não mais do que uma coincidência muito implausível, mas, ainda assim, uma coincidência.
Porém, mal chegando a essa conclusão pragmática e frustrante, fui levada a refletir sobre o significado das coincidências e passei o resto da viagem, movida por aquelas duas cenas, pensando sobre isso.
Seria uma tentativa pueril de explicar o inexplicável ou uma forma madura e lúcida de compreender os significados dos eventos, de sua multiplicidade?
Um pai, três filhos, o saguão de um aeroporto, eu a olhá-los, um homem lendo “A galinha degolada”, alguns dias depois de eu ter lido o conto de Horacio Quiroga.
Não sei aproveitar essa agulha que o tempo ofereceu e nela enfiar algum fio, costurar alguma história. Na verdade, não quero.
Vou deixar essa coincidência para a enciclopédia inexistente dos mistérios esquisitos, que, como o nome diz, não existe. Mas é lá que ele vai ficar.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

04/05/2021

H

Às margens do rio Eufrates, ao pé de uma colina extensa, Berosus mais uma vez observava a abóbada celeste, a parte superior do ovo dentro do qual todos nos encontrávamos. Como poderia decifrar aquela pele de cor mutante, de caminhos sempre outros, se não tinha como sair daquele ovo? Sabia que só pelo lado de fora da casca conseguiria ver com precisão os mistérios daquela porção do estranho círculo. Berosus já sabia tratar-se de um círculo. Tinha certeza de que as interpretações dos sacerdotes Marduk e Uruk, de tradição suméria, estavam equivocadas. Caso todos estivéssemos planando sobre uma reta, apoiados nas costas dos deuses, como aqueles sacerdotes teimavam em afirmar, não haveria mudanças no céu. As estrelas continuariam sempre no mesmo lugar, seriam sempre as mesmas, e os navegantes não atracariam com notícias sobre diferentes luas, noites que não acabam e sóis que não se põem. Para tudo isso ocorrer, Berosus sabia, era preciso o círculo. Mais uma vez, ficou horas observando a clareza da concavidade celeste e, mais uma vez, voltou desapontado para casa. Como poderia ler, na casca interna do ovo, os códigos secretos, mas essenciais, que os deuses nos enviavam? Ele sabia ser o escolhido para o cumprimento daquela missão; sabia que, se não a realizasse, algum desastre se abateria sobre a Caldeia. Já tinha, até aquele momento, anotado a existência de cinco astros errantes: Samas, Nabu, Delebat, Neberu e Salbatanu. Samas era o guardião, o Rei do Ano, e atravessava o céu num barco. Nascia ao leste todos os dias, pela manhã, brilhava e comandava os outros príncipes errantes, e descansava a oeste, todo fim de tarde. Comandava as colheitas, as cheias e as quatro estações. O filho de Marduk, Nabu, que aparecia tanto de manhã como à tarde, era o deus nervoso, por isso considerado protetor das águas e da escrita. Afinal, as águas se movimentavam geniosamente de acordo com sua imprevisível atividade pelos céus, e as letras daquela nova escrita em forma de cunha teimavam em reagir sempre de forma diferente ao que o escriba previa. Nabu regia as mudanças e devia, certamente, estar anunciando alguma coisa ruim. Delebat, astro gigantesco que só aparecia durante a escuridão e que parecia estar tão próximo de Nabu, era o deus do amor. Sob seus auspícios, a colheita era farta e os casamentos felizes. Já o astro que trilhava a rota constante através dos céus, Neberu, guiava os aventureiros e navegadores, indicando-lhes o caminho certo e mais cheio de bons augúrios. Era o deus da benevolência e do otimismo, o deus da lei, que Berosus não temia, mas, ao contrário, em quem confiava para salvar a ele e a todos os caldeus das ameaças de Nabu, o nervoso, e de Salbatanu, o deus da guerra, aquele de cor avermelhada. Juntos, Nabu e Salbatanu planejavam certamente assaltar a Caldeia, o Egito e a Suméria. Tudo isso viria sob a forma de uma grande enchente, que duraria quarenta dias e quarenta noites. Como Berosus transmitiria isso à população? Como diria a todos nós, contrariando Marduk e Uruk, que vivíamos sobre um espaço esférico, ovalado, sem ter onde nos apoiar, ou, o que é ainda pior, que vivíamos dentro desse espaço e que, se não nos defendêssemos, nos afogaríamos sem piedade num líquido viscoso, presos para sempre à condição de filhotes antes do nascimento? Como poderíamos nascer? Berosus sabia que a única forma de nos livrarmos dessa maldição seria a saída do interior daquela casca ou a aceitação inevitável de que vivíamos numa esfera e precisávamos nos proteger. Com o amparo sagrado de Nabu, o temeroso, deus da escrita, Berosus tentou proclamar ao povo caldeu a semiesfera côncava, sob a qual devíamos aceitar nossa existência. A enchente viria, era urgente que nos protegêssemos e que Berosus escondesse suas tábuas e avisasse Antíoco sobre o lugar do esconderijo. O astrônomo veio até mim e, juntos, pois eu era talvez o único a acreditar fielmente nele e a visualizar a esfera côncava do céu, pensamos numa maneira de convencer o povo, tão afeito às superstições do hábito e às previsões de Uruk e Marduk, que o manipulavam ardilosamente para manterem a hegemonia absoluta sobre o trono do templo. Minha impressão era a de que as letras em cunha, de tão difícil decifração e tão resistentes à inscrição na pedra, deveriam ser substituídas por símbolos mais retilíneos e definidos, que possibilitassem uma compreensão mais imediata por parte de todos. Pela primeira vez, Berosus concordou comigo. Era preciso encontrar um sinal que indicasse a semiesfera. Cavoucamos uma reta vertical sobre a pedra macia e definimos que aquela era a representação de Delebat e de Samas, nossos protetores, que olhavam por nós contra Nabu e Salbatanu. Outra reta, paralela àquela primeira, seria o signo do povo, os caldeus, ameaçados e necessitados de proteção. Uma reta horizontal, ligando aquelas duas, éramos nós mesmos, os enviados, e, acima de tudo, a fé na esfera, que nos aconselhava a construir uma arca, antes que os astros errantes entrassem em alinhamento e nos conduzissem à eterna asfixia dentro do ovo. Aquele sinal, as duas retas verticais unidas pela reta horizontal, era o som aspirado, o sopro vindo dos deuses, o signo da redenção e da aliança. Espalharíamos aquela letra por toda a Babilônia, nos templos, casas e banhos, e estaríamos sempre prontos a explicar e fazer soar aquele som aspirado e forte, símbolo do hemisfério e da arca da aliança. Muitos séculos mais tarde, os manuscritos escondidos por Berosus no monastério de Amorium seriam encontrados pelo califa Mutasim, que os repassaria a um grego conhecido como Tales de Mileto, astrônomo que reconheceria naquele texto a previsão e o acerto das interpretações de Berosus, que já reconhecera na esfera semicôncava o que Tales viria a chamar de “hemisfério”, em homenagem àquele símbolo que juntos havíamos criado e que, em nome da aspiração de sua pronúncia, veio a se chamar letra H. Hoje em dia, sobreviventes que somos daquela enchente, e já do lado de fora da casca do ovo, não sabemos mais utilizar em nosso favor a aspiração dessa letra, como representação que é do sopro divino, e, em nossa descrença, eliminamos seu som e seu sinal de aliança, utilizando-a somente como adorno inútil, em palavras de resto tão fundamentais como “homem”, “hoje” e “horizonte”.

Noemi Jaffe, in A verdadeira história do alfabeto

28/04/2021

Diálogo

Nossa, este é o último lugar em que eu esperava encontrar alguém.
Sim, também nunca poderia imaginar encontrar alguém aqui dentro.
Você sempre vem aqui? Esta é a primeira vez que venho. Tenho pensado em refugiar-me aqui já faz algum tempo, mas só hoje tomei coragem e, num momento de distração, corri e consegui.
Sim, já frequento este lugar há alguns meses. É um tipo de esconderijo que eu tenho. Mas fico contente que mais uma pessoa o tenha descoberto. Não sinto ciúmes daqui e gostaria que muita gente viesse se juntar a mim, na verdade. Mas até hoje ninguém mais tinha aparecido. Quer um pedaço? Posso te dar metade.
Puxa, obrigado. Você é uma pessoa diferente. Por que está dividindo isso comigo? É claro que eu quero.
Tenho um fornecedor regular. Troco isso por canções, acredita? Sou cantor de óperas italianas. Você é de onde?
Italiano também, de Turim. Químico de profissão. Também faço trocas, mas nenhuma tão vantajosa quanto a sua.
É difícil falar em vantagem aqui dentro, como também em sorte, oportunidade ou destino. Já não sei mais o que significam essas palavras. Acho que o que aconteceu comigo é acaso e é só por isso que gosto de dividir tudo com os outros. Porque não penso que o ocultamento dos meus lances de sorte vai melhorar minha vida. Como tenho isso hoje, posso não ter mais amanhã ou mesmo daqui a um minuto. Não sei quem você é, pode até ser que seja um espião, mas não me importo. Não me importo com nada.
E você acha que é isso que pode estar te favorecendo?
Não, também não. Nada favorece nada. Não existem mais causas e consequências, nada que se possa mapear ou determinar e dizer: isso é por causa disso. Acho que, aqui dentro, nem mais a chuva é causada pelas nuvens. A ordem das coisas foi invertida ou subvertida, não sei, e só o que existe é cada minuto, segundo talvez. Quer mais um pedaço?
Concordo com você, totalmente. Vejo pessoas atribuindo a sorte a Deus, à higiene, à esperteza. Outros, ao contrário, atribuem seu azar à descrença ou também ao mesmo Deus que nos teria abandonado. Não associo nada a nada. Você acha que vamos sair daqui algum dia, que voltaremos a nos ver?
É estranho. Por que será que é tão necessário e até bom pensar sobre o futuro e sobre o passado, enquanto estamos aqui? Encontro alguém e geralmente esta é a primeira coisa em que penso. Será que algum dia voltarei a vê-lo? Será uma espécie de masoquismo?
Ao contrário. Acho que é credulidade, não sei, ingenuidade. Um prazer possível, estar ao lado das pessoas e pôr-se a imaginar encontros remotos, localidades desconhecidas. O que você mais gostaria de fazer na vida?
Isso é fácil. Comer não um, nem dois, mas três pedaços de pão quente seguidos. Só isso. Depois eu poderia morrer. Feliz. E você?
Claro, comer, comer e comer. Mas também tomar um banho quente e deitar numa cama com um lençol limpo.
Não pensa em encontrar alguém querido, um parente, uma namorada antiga?
Não. É estranho, mas essas vontades estão no fim da lista. Tenho medo, na verdade. Medo de encontrá-los e de não encontrá-los, medo do que foi feito de cada um de nós e deles, medo do que poderei dizer, porém mais ainda do que não poderei dizer, medo de lembrar e medo de esquecer. Quem são, quem serão as pessoas que deixamos para o lado de lá, o lado de cá que não é o mesmo para nenhum de nós, como dizer o que nem nós sabemos entender? Como dizer esse nosso encontro, agora? Quem é você, quando não estivermos mais aqui, daqui a um minuto ou daqui a dois, três anos, agora que já sabemos que as coisas estão se aproximando do fim?
Sim, é por isso que só penso em comer. A comida não faz perguntas. A língua da comida é universal. Por que nos pusemos tão prontamente a filosofar, aqui dentro, nessas condições?
Penso que não existem condições melhores para isso. É aqui que nasce toda a filosofia. E porque tudo isso é muito engraçado e preciso rir. Você não quer cantar uma ária de ópera para mim?
Quero sim, claro. Mas me desculpe, minha voz não está nada boa.
Assim que nos virmos novamente, vou fazer questão de dividir alguma coisa minha com você.
Não se preocupe, você já está dividindo. E não é sua amizade, conversa ou presença, não. Não é tampouco o fato de você falar italiano ou gostar de ópera. O que você está me dando é concreto, material.
Mas o quê? O que é que estou te dando além de te obrigar a dividir este nabo comigo?
Você usou uma palavra que não ouço há muito tempo. Já tinha até me esquecido dela. Falou “medo”. Disse tantas vezes, afirmou tantas vezes seguidas todos os medos que você tem, sem nenhum pudor de dizê-lo, que me deixou um pouco menos descrente. Não sei muito bem por quê. Mas precisava ouvir essa palavra, dita assim, em italiano mesmo, com tanto desprendimento. Obrigado. Quer mais um pedaço?

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

23/04/2021

Paradoxos

recuar também pode ser uma forma de avançar. entregar-se também pode ser uma forma de resistir. negar também pode ser uma forma de dar. dar também pode ser uma forma de possuir. ficar também pode ser uma forma de ir.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

01/04/2021

O beijo

 



São muitas as tentativas de descobrir o que diferencia o humano dos outros animais. A história de que os humanos são os únicos que pensam é balela. Já há tempos se relativizou o conceito de pensamento, e sabe-se que ele não se restringe mais à noção de lógica causal ou de raciocínios encadeados. Portanto, o velho corolário de que os humanos são superiores por serem racionais já pode ser descartado.
Dentro desse mesmo espírito da racionalidade, há outros estudiosos que afirmam que os humanos sabem representar, enquanto aos animais cabe apenas repetir aquilo que está em seu código genético. Nesse sentido, haveria, da parte dos hominídeos, uma capacidade inata de inventar, a partir de uma herança biológica, formas infinitas de comunicação: as palavras, os gestos, as carícias, a arte, os objetos, tudo como representação simbólica de um desejo expressivo. Mas, contra essa hipótese, há inúmeras pesquisas zoológicas que apontam variações inesperadas em danças desempenhadas por abelhas; nos movimentos de alguns pássaros, nos barulhos das baleias, nos saltos dos golfinhos, nas tomadas de decisão de macacos quando dentro de uma cela, na capacidade aparentemente interminável de aprendizado por parte dos cachorros e dos cavalos. Ao mesmo tempo, nós humanos vamos, cada vez mais, nos dando conta de nossa própria incapacidade em conhecer o que significa a representação e quais são seus limites.
Já se falou muito que os humanos são os únicos seres que guardam os restos mortais de seus parentes, mas isso também é polêmico. Se os elefantes, como se sabe, se encaminham para um local distante quando pressentem seu passamento e o mesmo fazem os gatos; se várias espécies de macacos, quando perdem um parceiro ou parceira, passam semanas enlutados, sem vontade de comer ou de brincar, e se cenas parecidas se repetem com vários outros animais, não se pode afirmar categoricamente que eles não se importem com seus mortos ou que não tenham noção do que significa o desaparecimento.
Mas, depois de muita reflexão, creio ter chegado a uma diferença infalível e duvido que alguém retire de mim a grandeza dessa descoberta.
O que definitivamente distingue o animal humano dos outros animais é o beijo.
Não falo de uma simples aproximação entre bocas, narizes, boca e bochecha, boca e alguma outra parte do corpo. Tampouco quero considerar como beijo equivalentes toques corpóreos, verificáveis em outros animais. Falo do beijo que faz “smack”, que estala, que diz respeito a uma contração calculada e minuciosa dos lábios, formando um pequeno bico que, ao encostar na superfície epitelial de outra pessoa (boca, bochecha, testa, mão, seio, perna etc.), contrai-se ainda mais, produzindo um som pitoresco, resultado de uma aproximação projetada entre os lábios superior e inferior. E o beijo agregado de complementos, como o beijo de língua, que pode demorar, nos casos de paixões adolescentes, até cerca de algumas horas. Ou o beijo roubado, uma categoria especial, beirando o indescritível, porque é o beijo-que-se-sente-vontade-de-dar-em-alguém-de-surpresa-sem-que-essa-pessoa-saiba-e-a-pessoa-fica-feliz-em-recebê-lo. E as diferenças que foram se estabelecendo entre os tipos de beijos: na testa, paternal, independente de quem o dê; na bochecha, fraternal ou burocrático, variando conforme a circunstância, mas sempre identificável; na boca, curto ou longo, comunicando amor, paixão, amizade ou, em alguns lugares, lealdade eterna; nos seios, expressão erótica por excelência; nos pés, índice fetichista ou de promessa de fidelidade; na mão, servilismo. Entre mulheres, entre homens, mulheres e homens, mães e filhos, amigos, crianças, velhos, inimigos, chefes e empregados, amantes, o beijo da extrema-unção e o do nascimento, nos olhos, o de chegada e o de despedida, o do despertar e o de dormir. O beijo em português, que vem de suavis, sinalizando agrado e maciez, ou de ósculo, que significa boca pequena. O beijo em inglês, kiss, mais literal, tocar com os lábios. Neshikah, em hebraico e outras línguas semíticas, que é o mesmo que apertar, juntar com força. E as metáforas baseadas no beijo, como o mar que beija a areia, o beijo suspenso invisível na boca das meninas e o beijo que é a véspera do escarro. O beijo esfregadinho, de japonês; de faxininha, limpando as gengivas; de louco, quase encostando na garganta; o do beijoqueiro, o do beija-flor, o beijo que só se manda soprando com a mão e a boca e o imperdoável “bj”, que me persegue as noites insones.
O beijo, essa inutilidade, não nos salvará do irremediável, porque ele não salva. Ele será somente nossa marca do demasiadamente humano, quase encostando no bicho, tão perto que, por causa dele, nos tornamos ainda mais humanos, porque o smack e a língua prolongada sempre nos lembrarão do porquê de termos vindo ao mundo: para beijar.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

27/03/2021

Uma coberta, uma manta

O hospedeiro é o senhor dos estranhos.
Esta é a história e a não história do mundo, desde o início até hoje, e foi com essa frase que tudo começou e não com “no princípio era o verbo” ou “no princípio Deus criou os céus e a terra”.
No princípio havia um habitante. De uma caverna, palhoça, cabana, estalagem, casa, castelo, mansarda, mansão, vivenda, moradia, domicílio, residência, armazém, estabelecimento, mercado, igreja, mosteiro, convento, templo, fazenda, chácara, sítio, entreposto, prédio, mercearia, edifício, estância, pousada, um abrigo. Veio alguém, um desconhecido, e bateu, pedindo pouso, comida e agasalho. Um habitante olhou desconfiado para o estranho, fez uma cara feia, uma careta, e bateu nele com um pau. A história ficou estagnada.
Outro habitante não teve medo. Abriu a porta, deu-lhe de comer sua melhor comida, mesmo pouca, cedeu-lhe a cama, o que tinha, uma coberta, uma manta e aproximou-o do fogo, aquecendo-o, para que, no dia seguinte, ele pudesse continuar a jornada. Não lhe perguntou a procedência nem o destino. Acolheu-o.
Assim teve início a viagem do tempo pelo espaço e a história das trocas, das línguas e das promessas, porque, depois que aquele estranho tinha se estabelecido em algum canto, foi ele a hospedar um outro estranho que lhe veio pedir guarida.
Hospedar é o gesto mais sagrado da humanidade. Para filósofos como Lévinas e Derrida e para um poeta como Edmond Jabés, a hospitalidade está acima da responsabilidade e da liberdade, porque as contém.
Host e guest, anfitrião e visitante, em inglês, têm a mesma origem, porque são a mesma coisa, apenas em lugares casualmente alternados. Ambos são estranhos um ao outro, embora aquele que hospeda já pertença a uma comunidade, enquanto quem pede abrigo vem de fora. Hospedar é trazer para dentro o que vem de fora, é tornar menos estranho o estrangeiro. Para Derrida, o hospedeiro deve fazer com que o hóspede se sinta como se fosse ele o anfitrião.
Estrangeiro, ou estranho, que são sinônimos, são os que não pertencem. O estrangeiro é vindo de um lugar a que pertencia para outro que ainda desconhece, e essa é a condição mais solitária possível, especialmente se não houve escolha. O o estrangeiro. Para Derrida, o hospedeiro deve fazer com que o hóspede se sinta como se fosse ele o anfitrião. Estrangeiro, ou estranho, que são sinônimos, são os que não pertencem. O estrangeiro é vindo de um lugar a que pertencia para outro que ainda desconhece, e essa é a condição mais solitária possível, especialmente se não houve escolha. O estrangeiro é tido como perigoso e para ele, contra ele, criaram-se fronteiras. Por causa dele, inventaram-se as ideias de dentro e de fora. Por causa dele, associou-se o estrangeiro, o estranho, à ideia de louco, esquisito. O estranho-louco é nada mais do que o que não está dentro. Ele fala palavras que não entendo; faz coisas a que não estou habituado. Ele me ameaça porque vem de fora. Estranho, em latim, é o mesmo que alienado. Também de fora. Alienação é perda de controle sobre alguma coisa ou sobre si mesmo; sinônimo de loucura e apatia. Só o hospedeiro é capaz de trazer o alienado de volta para um abrigo e indicar-lhe a estrada, para que ele reconquiste o controle sobre si.
Na Albânia, como conta Ismail Kadaré no seu Abril despedaçado, é-se obrigado a hospedar até mesmo o assassino do filho do hospedeiro e servi-lo com a melhor panela da casa, o melhor prato, a melhor porção. Quem transgride as regras da boa hospedagem estará sujeito a maldições e vingança. Aquele que não hospeda é o hostil, e o local que não hospeda é inóspito. Hostil é aquele que quer manter as fronteiras, fazer com que o de fora sinta-se permanentemente nessa condição e pense que é seu destino ser de fora e que a ideia de dentro só cabe ao hospedeiro hostil, o que teve a sorte e o acaso de estar dentro.
Diante da hostilidade, acabam-se os presentes e acaba-se também o tempo presente, que é o tempo da hospedagem, quando as coisas se dão. Dar-se ou acontecer, ocorrer, é fazer o presente existir. O agora é a hospedagem do ser no tempo, que nos recebe sem nada nos perguntar. Somos todos hóspedes do tempo, adentrando-o, mas sempre, de alguma forma, dele alienados, nele viajando temporariamente, por vezes mais dentro, outras mais fora. Ao recebermos um hóspede, cedendo-lhe abrigo e pousada, fazemos nós as vezes do tempo, concedendo-lhe efemeramente um cadinho no espaço.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

20/03/2021

Uma espécie de bênção

          Antes da construção malsucedida da Torre de Babel, falava-se uma única língua na Terra, muito semelhante à do Jardim do Éden. No jardim, falavam-se basicamente os substantivos próprios, que em tudo coincidiam com as coisas que nomeavam. Por exemplo: a palavra cão era o próprio cão e não era preciso qualificá-lo para se saber o tipo de cão, sua personalidade e características. Dizer cão dizia tudo.
A construção da Torre de Babel durou quarenta e três anos, até que Deus desceu ao local e, como punição aos indivíduos que desejavam, com a torre, espalhar seu nome e tornar-se famosos, confundiu-os todos, criando as muitas línguas que os impediram de se comunicar, e espalhou-os por todos os cantos da Terra. A ambição do nome, paradoxalmente, foi o que os tornou mais comuns do que já eram.
Logo em seguida a esse castigo, portanto, as criaturas que ali se encontravam passaram de um entendimento completo a uma completa confusão. Mães e filhos não mais se entendiam — pois Deus não estabeleceu a confusão segundo critérios lógico-operacionais —, maridos e mulheres perguntavam e não entendiam as respostas, vizinhos iniciaram disputas insolúveis e amigos se estranharam. As próprias pessoas que passaram a falar outras línguas a princípio não dominavam o que elas mesmas diziam, pois precisavam aprender os sons que saíam de suas bocas. Foi só pela convivência com outras pessoas que articulavam sons semelhantes que elas, pouco a pouco, começaram a decifrar o que falavam. Antes disso, precisaram sair à caça de seus pares, gritando palavras soltas para todos os lados e identificando-se das formas mais esdrúxulas, pois não tinham controle algum sobre o que diziam. O resultado foi que comunidades inteiras se formaram quase aleatoriamente, baseadas na articulação de sons comuns, que depois foram denominados de línguas. Nessas comunidades conviviam indivíduos antes inimigos, grupos majoritariamente masculinos ou femininos e inúmeros desequilíbrios que só foram se dissolvendo depois de muitas gerações.
No meio dessa barafunda toda, de pessoas falando sem saber o que diziam, de uns procurando por outros que articulavam os mesmo sons, de pais perdidos de filhos e patrões perdidos de criados, surgiu a necessidade urgente de uma função até então nunca imaginada: a tradução. Etimologicamente, ela não é mais do que o deslocamento de um objeto de um lugar para o outro. Pois era justamente isso o que faziam os tradutores que, rapidamente, apareceram aos montes na sequência da destruição da torre, desde os mais fajutos, que se aproveitaram da situação de balbúrdia e desespero, aos mais sérios, que realmente buscavam estabelecer melhor compreensão entre os perdidos. Esses tradutores basicamente transladavam pessoas de um lugar para o outro, fazendo-as encontrarem seus possíveis pares, a partir da identificação de sons semelhantes e possíveis significados. Também havia a necessidade, é claro, do deslocamento de objetos, pois, para muitas palavras desconhecidas, era preciso apontar ou mesmo trazer as coisas diante das pessoas, para que elas certificassem o significado do que diziam.
Um desses tradutores era chamado Natanael. Seu nome significa “presente de Deus” naquela língua única que todos anteriormente falavam e, por isso, ele foi um dos primeiros a entender o que se dizia nas várias línguas que subitamente emergiram. Natanael sempre tinha sido contra a construção da torre e, talvez por isso, Deus o tenha presenteado com uma capacidade singular de distinguir os sentidos das palavras.
Natanael, naquela tarde do dia fatídico, circulava freneticamente pelos escombros da torre e pelas ruas daquele vale de Sinar, ouvindo todos aqueles sons desconhecidos, aquelas pessoas enlouquecidas balbuciando absurdos, desesperadas procurando por seus familiares. Rapidamente, ele assimilou o que estava acontecendo e concebeu uma operação de salvamento. Começou a identificar semelhanças entre algumas palavras que iam sendo pronunciadas e, com isso, a agrupar as línguas em classes mais ou menos próximas umas das outras. Verificou aquelas em que predominavam as consoantes sibilantes, as fricativas, as guturais e as líquidas; outras em que as vogais pareciam mais importantes; algumas em que parecia quase não haver palavras qualificativas e outras em que elas abundavam; línguas em que o nome principal vinha somente no final da frase e outras em que ele vinha no começo; dialetos em que as palavras se aglutinavam, formando palavras gigantescas, que assustavam até os falantes e outros em que os vocábulos saíam rápidos, sumários, quase não ditos. Em menos de três dias, Natanael já tinha catalogado várias línguas, agrupadas em cinco classes distintas. Em cada um desses grupos, o tradutor foi reunindo falantes assemelhados, pedindo-lhes que se mantivessem próximos, falando entre eles o máximo que conseguissem, mesmo sem se entenderem. E foi um tal de apontar para cá, apontar para lá, risadas, choros, imprecações, orações, penitências, espancamentos e tanta correria, que Natanael quase desistiu muitas vezes da empreitada absurda que tinha concebido para si e para o mundo novo que se criava. Mas nada o fez desistir.
Depois de semanas e semanas de insistência e muitas brigas, ele já tinha chegado à seguinte lista: fenício, sumério, semítico, persa, bengali, acadiano, aramaico, babilônio, assírio e hitita.
Em cada uma dessas línguas, Natanael percebeu que havia palavras razoavelmente parecidas, algumas surpreendentemente iguais. Entre elas, por exemplo, estavam as palavras “mãe” e “mar”, que em todas as línguas tinham o som “m”; “vento”, sempre com sons que a ele se assemelhavam; “não” e “sim”, invariavelmente monossilábicas e com sons opostos; “trovão”, com um som trovejante, e muitas outras que imitavam os sons da natureza e dos instrumentos musicais. “É claro”, pensou Natanael. “Deus não teve tempo de elaborar tão bem as diferenças, e é isso que vai me permitir verter os significados de uma língua para a outra.” E foi justamente o que ele começou a fazer, estabelecendo, com isso, uma compreensão que parecia impossível entre todas aquelas pessoas que, aos poucos, passaram a se reconhecer e comunicar.
Gradualmente, não apenas ele, mas também outras pessoas, entre elas vários tradutores, começaram discretamente a se perguntar, em meio a todos os preparativos para as migrações que a partir dali aconteceriam, se a multiplicidade das línguas não tinha sido, no lugar de uma maldição, uma espécie de bênção. Pois foi por causa dela que os desentendidos principiaram a inventar alfabetos, escrever poemas, criar rezas, fazer imitações teatrais; por causa da confusão linguística foram criadas milhares de piadas e canções; surgiram as onomatopeias, as rimas e o esforço de compreender bem o que os outros diziam. É certo que também apareceram mais guerras, mais disputas de poder e todos os problemas decorrentes das brigas comerciais, mas isso tudo já havia mesmo antes do aparecimento das línguas.
Natanael, depois de alguns meses, quando as comunidades já haviam se espalhado por vários cantos do planeta, guardou seus pertences todos numa maleta, os papiros todos anotados, fechou-a com cuidado e partiu para uma expedição rumo ao desconhecido. Ele partia satisfeito. Iria encontrar, pelo mundo, milhares de palavras e de significados novos, sempre prontos para a tradução. Ele sabia ser impossível encontrar a tradução perfeita e que o ofício do tradutor está fadado ao fracasso. Mas ele também sabia que a própria língua é feita de imperfeições e preferia isso ao estado anterior, em que a compreensão plena entre as pessoas não permitia a invenção de significados novos.
Seria mesmo pecaminosa a soberba humana? E teria mesmo sido soberbo o desejo de construir a torre? Natanael não chegava a conclusão alguma, mas agradecia a Deus pela punição alcançada e aos homens pelo pecado cometido.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

11/03/2021

Uma lembrança

          Lembro-me muito bem de Pedro, meu tataraneto, embora não tanto de sua irmã Noêmia, nome dado em minha homenagem. Vejo-o como num filme, brincando na areia com seus bonecos de montar, encaixando todas as peças desde muito pequeno, como se já definisse ali, na infância, que ele viria a ser engenheiro mais tarde.
Essas lembranças do futuro são bem diferentes das lembranças do passado. Quando me recordo de coisas antigas, as imagens aparecem nubladas, recobertas por uma bruma, fazendo com que as coisas pareçam quase não ter acontecido. Ficamos sempre na dúvida, com essas memórias do que já foi, se elas são nossas ou de outra pessoa, se as vimos em algum sonho ou filme e nos perguntamos se elas realmente aconteceram. Elas se mantêm protegidas por uma película de esquecimento, pois o esquecimento só se refere ao passado. Eu, pelo menos, não me recordo de jamais haver esquecido as coisas que ainda vão acontecer. Quanto ao passado — ai de mim —, esqueço mais do que lembro, e muito do que lembro, esqueço no instante seguinte, e quando rememoro essas outras coisas, esqueço de já tê-las esquecido antes.
Minhas lembranças do futuro, entretanto, são perfeitamente nítidas. Vêm precisas e coloridas, sem nunca se misturar com os riscos do esquecimento. Nunca me esqueci de nada que ainda não tenha acontecido e posso, por exemplo, enumerar uma a uma, detalhe por detalhe, todas as peças do quarto de Pedro, seus hábitos e seus brinquedos. Acompanho com gosto o desenvolvimento de sua infância, adolescência, maturidade e só não consigo ainda vê-lo muito bem na velhice. Ele, contudo, apesar de pesquisar com interesse sobre seu passado e de volta e meia ir atrás de fotografias antigas e velhos arquivos, mal consegue saber algo sobre mim. Sua bisavó, ainda viva quando Pedro era adolescente e a quem ele fez inúmeras perguntas a meu respeito, não se recordava de quase nada sobre minha aparência e minha vida.
É uma situação estranha — eu me lembrar tanto dele e ele nada de mim. Não sei bem por quê, dentre todas as memórias que cultivo de meu futuro, as de meu tataraneto são as que mais me preenchem, aquelas com as quais mais me identifico. Gosto de me recordar de outros parentes também, mas com ninguém me divirto tanto quanto com Pedro. Ele parece viver mais dedicado ao passado do que ao seu próprio tempo, quem sabe seja por isso. E também porque faço tudo o que posso para que minha imagem não seja, para ele, como aquelas que vejo nos filmes antigos e nas fotografias desbotadas. Gostaria que ele me visse colorida, vivaz, da mesma forma como eu o conheço. O problema é que sem relatos, sem imagens, ele não tem como lembrar de mim, porque jamais me conheceu. Talvez, no futuro, as pessoas já possam rememorar o que e quem não conheceram. Assim, Pedro poderá me ver aqui, em seu passado, lembrando-me dele e, junto comigo, poderá ver-se a si mesmo vendo-me.
O tempo, afinal, é feito de lembranças. Ou de esquecimentos, não sei. A amnésia de todos que por ele passaram, deixando pedaços espalhados por toda parte. Cada um os recolhe como pode.
Ultimamente, entretanto, tenho me lembrado que Pedro já é pai e percebo que ele não se dedica mais com o mesmo empenho em buscar informações sobre seu passado e tenho reparado que minha própria imagem no espelho tem ficado cada dia mais embaçada. Mesmo assim, tenho certeza de que não vou morrer. Estou, aos poucos, tornando-me, também eu, só uma lembrança.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

02/03/2021

O que vou fazer eu?

       O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Tudo isso Clarice Lispector nos conta, no tão conhecido conto “Amor”, de onde esse trecho foi extraído. Mas, seja por razões de natureza literária, seja por razões pessoais — não há como saber —, Clarice deixa de mencionar uma parte muito importante dessa história, que acontece justamente em seguida.
E o caso se deu de modo que, logo após o pesado saco de tricô ter despencado no chão do ônibus, deixando espalhar as gemas dos ovos que Ana carregava, ela resolutamente acenou ao motorista, pedindo que parasse o bonde, na verdade instando-o a fazê-lo, e desceu correndo, afobada, quase pulando em cima do cego que mascava chicletes.
(Pode mesmo ser que Clarice tenha saltado essa parte em nome da economia narrativa, a fim de guardar a verdadeira epifania do conto para uma passagem posterior, que ocorre dentro do Jardim Botânico, quando Ana depara com visões luxuriantes da vegetação do parque. O efeito de estranhamento certamente não seria o mesmo, caso ela optasse por duas grandes epifanias numa mesma história. Eu mesma só sei de tudo isso porque, casualmente, me encontrava no mesmo ônibus que Ana e, por mera curiosidade, acabei seguindo-a.)
É claro que o cego, nisso, não continuou parado e, assustado, recuou um bocado, avançou um pouco para a frente e, tentando recompor-se, balbuciou um “ah, hã, o que foi isso?”, desequilibrando-se um pouco, até estacar novamente. Ana, é claro, gritou ainda uma vez, tentando desculpar-se, enquanto se refazia dos dois sustos anteriores — o dos ovos e o da visão de alguém que não vê e ao mesmo tempo masca chicletes. Disse: “Desculpe, sou eu, quer dizer, o senhor não me conhece, não quis assustá-lo, desci esbaforida, esbarrei, não queria”. “Imagine, minha senhora, não foi nada, por um instante pensei que era um atropelamento, algo assim, mas isso acontece. É que eu não enxergo, a senhora está vendo.” “Sim, claro, desculpe mais uma vez. Posso fazer alguma coisa?” “Não, está tudo bem. Fique tranquila.” E continuou mascando o chiclete.
Ana tinha envelhecido. Estava cansada, as roupas pendiam quase como trapos em seu corpo que, como os ovos, também parecia ter despencado; ela ainda olhou para o ônibus à distância, pensando nas gemas derramadas e levemente no jantar que teria de fazer à noite. Andou alguns passos, parou, voltou para o ponto, pensando em pegar o ônibus seguinte, mas olhando para o cego outra vez, de repente aprumou as costas, ergueu a cabeça, aproximou-se e, decidida, lançou: “Por que o senhor masca chicletes, se é cego? Um cego não deveria abster-se de algo tão divertido? Um cego não é uma pessoa séria, recolhido à sua entrega de não ver? Pode um cego, ao mascar chicletes, voltar, de alguma forma, a ver? O senhor por acaso sabe como tudo é fácil, para nós que enxergamos? Peço, por favor, que o senhor cuspa esse chiclete agora. Se a vida para um cego não for triste como eu pensava, o que vou fazer eu, com minha felicidade?”.
Tudo soava por demais estranho. Eu achava que essas coisas só pudessem ser pronunciadas pela própria Clarice Lispector, jamais por Ana, sua personagem. Achava que Ana, como todas elas, era alguém que demonstrasse na prática as especulações da autora e não alguém que as expressasse. Mas foi isso mesmo o que ela disse e daí cheguei a pensar que talvez Clarice se inspirasse também em Ana para arrazoar sobre a vida. Não sei o que foi, mas fiquei bem perturbada. Enfim, não sou eu que estou em jogo aqui e sim Ana e o cego.
Não pude ouvir a resposta do cego, que falou pouco e bem baixo. Mas vi que Ana sorria, já bem mais corada agora, com o semblante apaziguado.
Eles apertaram as mãos, afastaram-se um pouco e Ana endireitou-se na decisão aparente de espera do próximo ônibus.
O que o cego teria dito a ela?
Como ele teria respondido ao apelo de Ana para que ele, por favor, não mascasse chicletes?
Aguardei ansiosa que Ana entrasse no carro seguinte e, entre temerosa e ousada, me aproximei do cego, a quem nada parecia incomodar. Nem as perguntas de Ana, nem os carros que iam e vinham. Será que ele não aguardava a vinda de algum ônibus? Como será que saberia em qual deles entrar?
Desculpe, senhor. Sei que o senhor acaba de ser abordado por outra senhora e que talvez suas perguntas incisivas não tenham sido muito agradáveis. Mas não posso resistir. Sou leitora desta história há vários anos — quero dizer, a história de Ana, da qual o senhor casualmente veio a fazer parte e da qual, neste momento, talvez venha a se tornar um novo protagonista — e, por pura curiosidade, acabei seguindo-a e ouvi as questões que ela tão deselegantemente lhe formulou. Desculpe, não pude deixar de ouvi-las. Mas vi que ela rapidamente se satisfez e que parecia até algo aliviada. Será que o senhor poderia me dizer a resposta que lhe deu ao ouvi-la pedindo que cuspisse seu chiclete? E o que foi que lhe disse sobre ela aguentar a felicidade?”
Não, imagine. Não se trata de incômodo algum. Ouvi como ela estava exaltada e é natural que outras pessoas tenham escutado o que ela dizia. Mas não foi nada demais. Eu disse somente que, quando masco chicletes, sinto que a terra é redonda, consigo realmente perceber os contornos esféricos das coisas, o tempo passando, como se a goma fosse um condutor mastigável da passagem do tempo, como se tudo se suspendesse e voltasse, suspendesse e voltasse. Disse que me sinto um menino de novo e que esse elástico que mastigo me faz lembrar de alguns restos de borracha que meu pai deixava largados no quintal. Quando masco, me lembro dele. Também disse a ela que entre mascar chicletes e a cegueira não há relação alguma. E que ela fosse embora tranquila. Eu ainda sou infeliz. Ela pareceu ter gostado desta última parte. Apertou-me a mão e, sorrindo, partiu.”
Sabia que, com essa resposta, Ana poderia realmente prosseguir sua história em paz. Nada tinha se modificado e entendi o porquê de Clarice ter subtraído essa parte da narrativa e optado apenas por uma única grande epifania.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

24/02/2021

Um dicionário

             Alegria — Egoísmo generoso.
Amizade — Tu te tornas temporariamente irresponsável por aquilo que libertas.
Amor — Ela coça o lóbulo da orelha quando fica nervosa.
Arte — Tentativa de fazer coincidirem o que se diz com a forma como se diz. Nostalgia das coisas. Vontade de, com a língua, livrar-se dela.
Aurora — Pontualidade da promessa, disse Edmond Jabés.
As coisas — Não são sempre assim.
Certeza — vide Medo.
Cinismo — Patologia derivada do ressentimento, cujo disfarce é o pessimismo.
Destino — Construção narrativa de acasos.
Deus — O casco da tartaruga.
Dorival Caymmi — “Mas se, por exemplo, chover.”
Esquecimento — Verdade.
Exceção — O que deve abrir-se.
Fato — Versão.
Fatores — Diversos outros.
Felicidade — Nunca de frente; só de lado.
Ferida — Aquilo que, soprando, alivia.
Fotografia — Estranhamento de verem vivos os mortos.
Frase linda — Suprimir.
Futuro — Flecha tardia.
Hospital — Lugar onde o doente não deve ofender os médicos.
Imanência — “Minha filha, todo mundo é difícil.”
Instante — O tempo nos instando.
Kafka — A punição atrás do culpado.
Mãe — Sim.
Medo — Retesamento excessivo das partes moles do corpo e da alma.
Memória — Ficção.
Metáfora — Tudo, menos a vaca.
Mexerica — Integração perfeita entre natureza e civilização.
Ódio — À maionese.
Oportunidade — Perdê-la.
O que poderia ter acontecido — Também é um acontecimento.
Paciência — Raiva mascarada.
Perfeito — Particípio passado de “perfazer”.
Poesia — Recuperação do grau de impenetrabilidade das palavras.
Polícia — Quem a salvará de si?
Portabilidade — vide Tristeza 3.
Relativas — Algumas coisas não são.
Responsabilidade — Saber responder.
Reza — Perguntas certas.
Saudade e saudades — A coisa em si e a coisa com objeto.
Si — Aquilo sobre o que não se deve escrever.
Testemunha — Aquela sobre a qual ninguém dá testemunha.
Tristeza — 1. Passeio vespertino das palavras. 2. Enfileiramento desalinhado das palavras. 3. Palavras em casamata.
Vaca — O que não se pode metaforizar.
Vão — Para dizer o nome de Deus.
Vingança — “Cê vai se ver!”

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

12/02/2021

Faixa

Para Claudia Mello

Alguém disse que, para sua idade, ela estava ótima. Impressionante. Ninguém dizia, parecia até oito, dez anos a menos. As amigas da filha se admiram. A mãe delas não é tão jovial assim. Jovial, ela pensa. Jovial é a velha que tem espírito jovem. Nenhum jovem é jovial.
O médico disse: na sua faixa de idade, é isso e isso e isso o que se espera, entende? Ela não ficou feliz. Não queria pertencer a uma faixa. Esticava a pele no espelho, vendo como era seu rosto de antes. Ficava feio, artificial.
Experimentou tirar uma fotografia de si mesma rindo. Contou quarenta e oito rugas embaixo e nas laterais dos olhos, mais no lado esquerdo do que no direito. Será por ser canhota?
Ela ficava olhando as fotos antigas, o rosto liso, o sorriso de quem não desconfia de que a velhice virá um dia, e com ela o sorriso da morte e dos netos, o passado promissor e o futuro inviável. Nas fotos de agora, essas de celular, seu olhar, mesmo quando sorria, não esperava mais nada. Não havia a pupila saltando para a frente, uma credulidade. Faria uma plástica, um preenchimento, adiantaria?
Ainda não era bem velha. Era de meia-idade. Odiava esse “meia”, igual à “faixa”. Uma senhora. Conservada, enxuta. Soava como se ela estivesse acondicionada em um pacote a vácuo, cuja validade expiraria em “x” anos; ou como um daqueles produtos que, quando abertos, fazem um barulho do ar saindo e então tudo murcha dentro da embalagem.
Que ela não exagerasse, os filhos diziam. Ainda tinha tanto tempo pela frente, era tão produtiva, que não chorasse de barriga cheia.
Mas e umas manchas marrons nas mãos e nas pernas? Quem iria contá-las junto com ela, a quem dizer que não é nada disso, não a morte nem a velhice, mas a vida, a vida mesmo, a face do tempo nas comissuras da boca, que caem, formando bolsas nas laterais das bochechas, ter chegado ao meio, a dois terços, três quartos, não sei, ter se estabelecido, os filhos grandes e a velhice por aguardar, uma velhice tranquila, o sucesso, os frutos colhidos do que se plantou, as dívidas pagas, tempo de receber, é justo, afinal você já fez tanto, agora os outros é que vão te reconhecer, a quem contaria a tristeza dessa plenitude? Com quem dividir a angústia dos provérbios enfim confirmados?

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou