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31/08/2021

Composição e divisão



Uma pessoa comete a falácia da composição ao inferir que, como as partes de um todo têm um determinado atributo, então o todo também deve ter aquele mesmo atributo. Mas, parafraseando Peter Millican, se cada ovelha num rebanho tem uma mãe, não se deduz que o rebanho tem uma mãe. Veja outro exemplo: “Cada módulo desse sistema de software foi submetido a testes de unidade e passou em todos. Portanto, quando os módulos forem integrados, o sistema inteiro não irá violar qualquer das invariantes verificadas pelos testes das unidades.” Na realidade, juntar as partes individuais para formar um sistema introduz um outro nível de complexidade, devido à interação entre as partes, o que poderá apresentar novas possibilidades de erros.
Na falácia da divisão, acontece o inverso. É cometida quando se infere que as partes devem ter um atributo que pertence ao todo. Por exemplo: “Nosso time é imbatível. Cada um dos nossos jogadores conseguirá se destacar mais que qualquer jogador do time adversário.” Embora possa ser verdade que o time como um todo seja invencível, isso poderia ser resultado de como as habilidades de cada jogador funcionam juntas, em equipe – portanto, não se pode usar o sucesso do time como evidência de que o talento individual de cada jogador seja imbatível por si só.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

14/08/2021

Raciocínio circular

 


O raciocínio circular é um dos quatro tipos de argumentos falaciosos conhecidos como petição de princípio (Damer), em que a conclusão é tomada, implícita ou explicitamente, em uma ou mais das premissas. No raciocínio circular, ou a conclusão aparece de forma óbvia como premissa, ou – como é mais comum – é uma repetição da premissa, mas usando palavras diferentes. Por exemplo: “Você está completamente equivocado, pois o que falou não faz o menor sentido.” Nesse caso, as duas proposições significam a mesma coisa, já que estar errado e não fazer sentido têm o mesmo significado nesse contexto. O argumento está simplesmente afirmando que “por causa de x, portanto x”, o que não significa nada.

O argumento circular às vezes depende de premissas não declaradas, o que pode torná-lo mais difícil de detectar. Considere alguém que diz a um ateu que ele deveria acreditar em Deus porque, do contrário, irá para o inferno. A premissa não declarada por trás de alguém ir para o inferno é a de que existe um Deus capaz de mandá-lo para lá. Portanto, a premissa “existe um Deus que manda os descrentes para o inferno” é usada para apoiar a conclusão de que “Deus existe”. É como disse o comediante Josh Thomas à personagem Peg no seriado da TV australiana Please Like Me: “Você não pode ameaçar um ateu com o inferno, Peg. Não faz nenhum sentido. É como um hippie ameaçando socar a sua aura.”

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

04/08/2021

Ad hominem

 


O argumento ad hominem (do latim “ao homem”) ataca a pessoa, em vez da opinião que ela está dando, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente. Por exemplo: “Você não é historiador; por que não se atém aos assuntos da sua área?” O fato de alguém não ser historiador não tem qualquer impacto no mérito de seu argumento – a não ser em um caso em que somente historiadores possam estar corretos sobre o assunto –, portanto, isso não reforça em nada a posição do atacante.
Esse tipo de ataque pessoal é o ad hominem ofensivo. Há um segundo tipo, o ad hominem circunstancial, que ataca a pessoa por motivos cínicos, geralmente ao fazer um juízo negativo de suas intenções. Por exemplo: “Você não se importa realmente em reduzir o crime na cidade. Quer apenas que as pessoas votem em você.” Mas mesmo que uma pessoa se beneficie (no caso, com votos) com a aceitação de seu argumento, isso não significa que a ideia seja necessariamente ruim ou incorreta.
Um ataque ad hominem às vezes consegue desviar o assunto ao rebaixar o debate a uma troca de falácias tu quoque. Por exemplo, John diz: “Este homem está errado porque não tem integridade; pergunte a ele por que foi demitido de seu último emprego”, ao que Jack retruca: “Que tal se falarmos do bônus substancial que você recebeu ano passado, apesar dos cortes de metade do pessoal na sua empresa?” Nesse ponto, a discussão já foi completamente desvirtuada. Dito isso, realmente existem algumas situações em que é legítimo questionar a credibilidade de uma pessoa, como durante um depoimento judicial.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

28/07/2021

Apelo à hipocrisia


Também conhecida por seu nome em latim, tu quoque (você também), esta falácia ocorre quando se aponta uma suposta contradição entre o argumento da pessoa e suas ações ou afirmações anteriores (Engel). Portanto, ao rebater uma acusação com outra acusação, o objetivo é desviar a atenção do mérito do argumento e colocá-la na pessoa que expressou aquela ideia. Essa característica torna o apelo à hipocrisia um tipo de ataque ad hominem. E, claro, mesmo que haja inconsistência da pessoa, o argumento dela ainda pode ser correto.
Num episódio do programa Have I Got News for You, da TV britânica BBC – que, de forma bem-humorada, faz perguntas sobre notícias a celebridades –, um dos convidados criticou um protesto em Londres contra a ganância dos empresários por conta da aparente hipocrisia dos manifestantes, usando o surrado argumento de que eles não podiam ser contra o capitalismo enquanto usavam smartphones e tomavam café latte.
Outro exemplo vem do filme Obrigado por fumar, de Jason Reitman, onde um diálogo com várias falácias tu quoque é concluído da seguinte maneira por um carismático e inescrupuloso lobista da indústria do fumo, Nick Taylor: “Só acho engraçado o senador de Vermont me chamar de hipócrita, quando ele, num mesmo dia, deu uma coletiva de imprensa defendendo a queima de todas as plantações de tabaco no país, para depois pegar um jatinho particular e ir até o festival de rock Farm Aid, onde dirigiu um trator no palco e lamentou o declínio do agricultor americano.”

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

14/07/2021

Culpar por associação

 


Culpar por associação é desacreditar uma ideia ao associá-la a algum indivíduo ou grupo malvisto em determinados setores sociais. Por exemplo: “Meu oponente quer um sistema de saúde semelhante ao de países socialistas. Claro que isso seria inaceitável.” O fato de o sistema de saúde proposto se assemelhar ou não ao de países socialistas não serve como critério de qualidade do plano; trata-se de um non sequitur total. Ou seja, uma inferência ou conclusão que não é consequência lógica da premissa apresentada.
Outro argumento, repetido exaustivamente em algumas sociedades, é o seguinte: “Não podemos deixar as mulheres dirigirem, porque nos países infiéis elas têm permissão para dirigir.” Essencialmente, o que esses exemplos tentam argumentar, sem sucesso, é que um determinado grupo seria tão absolutamente mau que compartilhar qualquer atributo com ele tornaria a pessoa um membro dessa categoria maléfica.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

07/07/2021

Falácia genética

 


A falácia genética é cometida quando um argumento é desvalorizado ou defendido somente por causa de suas origens. Em vez de examinar a validade da proposta, ataca-se a sua origem histórica, ou a origem da pessoa que a defende. Como aponta T. Edward Damer, fica difícil avaliar o mérito do argumento quando se está apegado emocionalmente às origens de uma ideia.
Considere o seguinte argumento: “Claro que ele apoia os sindicalistas em greve; afinal, ele nasceu na mesma comunidade que eles.” Aqui, não se avalia o mérito de apoiar a greve; em vez disso, tenta-se levar os outros a concluir que a opinião do oponente não teria valor somente porque ele veio da mesma região que os trabalhadores parados. Veja este outro exemplo: “Estamos no século XXI, não podemos continuar mantendo essas crenças da Idade do Bronze.” Por que não?, poderíamos perguntar. Devemos descartar todas as ideias originadas na Idade do Bronze simplesmente porque são muito antigas?
Por outro lado, há quem invoque a falácia genética num sentido positivo, para defender uma opinião, dizendo algo como: “As visões de Jack sobre arte não podem ser contestadas. Ele vem de uma longa linhagem de artistas ilustres.” Assim como nos exemplos anteriores, também falta evidência a esse argumento.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

27/06/2021

Nenhum escocês de verdade

 


Este argumento costuma aparecer quando alguém faz uma generalização sobre um determinado grupo e depois é desafiado com evidências que o desmentem. Em vez de reavaliar sua posição ou contestar a evidência, a pessoa foge do desafio redefinindo arbitrariamente o critério para se pertencer àquele grupo.

Por exemplo, alguém alega que programadores são criaturas antissociais. Se outra pessoa repudiar essa afirmação dizendo “mas o John é programador e extrovertido, sem dificuldade alguma de se relacionar socialmente”, isso pode provocar a seguinte resposta: “Sim, mas o John não é um programador de verdade.” Aqui, não está claro o que ele considera um verdadeiro programador; a categoria não é precisamente definida como, por exemplo, as de pessoas de olhos azuis. A ambiguidade permite que a mente teimosa redefina as coisas a seu bel prazer.

Essa falácia foi descrita pela primeira vez em 1975 por Antony Flew em seu livro Thinking about Thinking (Pensando sobre pensar), em que ele nos dá o seguinte exemplo: Hamish está lendo o jornal e se depara com uma notícia sobre um inglês que cometeu um crime hediondo, à qual reage dizendo: “Nenhum escocês cometeria algo tão terrível”. No dia seguinte, ele lê outra notícia em que um escocês é autor de um crime ainda pior. Em vez de mudar sua opinião sobre os escoceses, Hamish afirma: “Nenhum escocês de verdade faria tal coisa” (Flew).

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

21/06/2021

Apelo à ignorância

 


Este tipo de argumento tenta convencer que algo é verdadeiro simplesmente porque não foi comprovado como falso. Assim, a ausência de prova é transformada em prova por ausência. Carl Sagan nos deu este exemplo: “Não há evidência definitiva de que os OVNIs não estejam visitando a Terra; portanto, os OVNIs existem.” De forma semelhante, antes de se descobrir como foram construídas as pirâmides, alguns concluíram que, na falta de prova em contrário, as estruturas teriam sido erguidas por um poder sobrenatural. Mas o fato é que o ônus da prova é sempre da pessoa que faz a alegação.
O posicionamento mais lógico seria questionar o que é mais provável, baseado nas evidências a partir de observações feitas ao longo do tempo. Ou seja: há probabilidade maior de que um objeto voando pelo céu seja um artefato construído pelo homem, algum fenômeno natural, ou alienígenas vindo de outro planeta? Como já observamos frequentemente os dois primeiros casos – e nunca discos voadores –, é muito mais razoável concluir que OVNIs não sejam extraterrestres vindo do espaço sideral.
Uma forma específica de apelo à ignorância é o argumento da incredulidade pessoal, onde a incapacidade de entender ou imaginar algo leva a pessoa a acreditar que aquilo é falso. Por exemplo: “É impossível imaginar que o homem realmente pisou na Lua, portanto, isso nunca aconteceu.” Diante de afirmações desse tipo, o ideal é uma resposta sarcástica, como: “É por isso que você não virou cientista da NASA.”

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

14/06/2021

Generalização precipitada

 


Esta falácia é cometida quando alguém tira uma conclusão a partir de uma amostra pequena ou específica demais para ser representativa. Por exemplo, perguntar a 10 pessoas na rua o que elas pensam do plano do presidente para reduzir o déficit não é suficiente para medir o sentimento da nação inteira.
Embora convenientes, as generalizações precipitadas podem levar a resultados custosos e catastróficos. Por exemplo, é possível que uma conclusão errada de engenheiros tenha levado à explosão do foguete Ariane 5 durante seu primeiro voo-teste: o software de controle havia sido testado satisfatoriamente com o modelo anterior, Ariane 4, mas, infelizmente, aqueles testes não cobriram todos os cenários possíveis para o Ariane 5, portanto foi um erro presumir que a programação iria funcionar da mesma forma no modelo novo. Essas decisões cruciais dependem da habilidade de engenheiros e autoridades para argumentar e tirar conclusões, por isso é tão relevante aprender sobre este e outros exemplos na nossa discussão sobre falácias lógicas.
Outra forma de generalização apressada está no capítulo do lago de lágrimas no livro Alice no País das Maravilhas, onde Alice deduz que, como ela está boiando em água salgada, alguma estação de trem – e portanto ajuda – deve estar por perto: “Alice tinha ido à praia apenas uma vez na vida. E tinha chegado à conclusão de que, em qualquer lugar no litoral inglês, você encontraria cabines de banho, crianças cavando a areia com uma pá, uma fileira de casas de veraneio e, atrás disso tudo, uma estação de trem.” (Carroll)

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

29/04/2021

Apelo ao medo

 


Esta falácia aposta no medo do público, criando a ameaça de um futuro assustador caso uma determinada proposta seja escolhida. Em vez de oferecer provas concretas de que essa proposta levaria mesmo a tal cenário sombrio, esse tipo de argumento é baseado apenas em retórica, ameaças ou mentiras descaradas. Por exemplo: “Peço que todos os funcionários dessa empresa votem no meu candidato na próxima eleição. Se o outro candidato ganhar, ele irá aumentar impostos e vocês irão perder seus empregos.”
Aqui vai um outro exemplo, do livro O processo (Kafka): “É melhor você me entregar todos os seus objetos de valor antes que a polícia chegue aqui. Senão, os policiais vão colocá-los num depósito, e as coisas tendem a se perder no depósito.” Embora seja quase uma ameaça, ainda que sutil, há uma tentativa de argumentação. Ameaças ostensivas ou ordens que não tentem oferecer alguma evidência não podem ser confundidas com esta falácia, mesmo que busquem explorar o medo de alguém (Engel). Quando um apelo ao medo descreve uma série de eventos aterrorizantes que irão ocorrer como resultado de uma determinada opção – sem conexões causais claras entre a proposta e essas consequências –, o argumento fica próximo à falácia da bola de neve. E quando a pessoa fazendo o apelo ao medo oferece apenas uma alternativa à proposta atacada, a falácia também pode ser um tipo de falso dilema.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

12/04/2021

Causa questionável

 


Também conhecida como causa falsa, esta falácia define como causa de um evento, sem provas, uma ocorrência anterior ou simultânea àquele evento. A correlação entre os dois eventos pode ser pura coincidência ou resultado de algum outro fator. Mas sem evidências não é possível concluir que um evento causou o outro. “O terremoto aconteceu porque nós desobedecemos ao rei” não é um argumento válido.
Esta falácia tem dois tipos específicos: “depois disso, logo, por causa disso” (post hoc ergo propter hoc) e “com isso, logo, por causa disso” (cum hoc ergo propter hoc). No primeiro tipo, o evento anterior é considerado causa do que vem depois. No cum hoc, como os eventos ocorrem ao mesmo tempo, um deles é escolhido como causa do outro. Em várias disciplinas, especialmente pesquisas científicas, esse erro é conhecido como confundir correlação com causalidade.
O comediante Stewart Lee nos dá um exemplo: “Eu não posso dizer que, como em 1976 eu fiz o desenho de um robô e logo depois Guerra nas Estrelas foi lançado, então eles copiaram a ideia de mim.” Li outro exemplo recentemente num fórum on-line: “Um hacker derrubou o site da companhia ferroviária, daí quando fui checar o horário dos trens, foi batata, estavam todos atrasados!” O autor do post não levou em consideração que trens podem se atrasar por vários motivos, portanto sem provas concretas ou controle científico, a conclusão de que o hacker foi a causa dos atrasos é infundada.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

02/04/2021

Falso dilema

O falso dilema é um argumento que apresenta apenas duas categorias possíveis e parte do princípio de que tudo no âmbito da discussão deva pertencer somente a uma ou a outra destas possibilidades opostas. Assim, ao rejeitar uma das opções, a pessoa não teria alternativa a não ser aceitar a outra. Por exemplo: “Na guerra ao fanatismo, não há neutralidade: ou você está do nosso lado, ou está com os extremistas.” Na realidade, há uma terceira opção, a de estar neutro; e uma quarta, de ser contra os dois lados; e ainda uma quinta opção, de concordar com razões de ambos.
O livro The Strangest Man, biografia do gênio da física quântica Paul Dirac, escrito por Graham Farmelo, reproduz uma divertida parábola contada pelo físico Ernest Rutherford: Um homem comprou um papagaio numa loja de animais, mas depois voltou pedindo outro, porque o pássaro não falava. O gerente da loja não quis fazer a troca, mas depois de várias outras visitas e reclamações do cliente, ele finalmente cedeu. “Ah, é mesmo! Você queria um papagaio falante. Por favor, me perdoe. Eu lhe dei um papagaio pensante.” Rutherford estava claramente aludindo à personalidade silenciosa e genial de Dirac, mas é possível imaginar que alguém usaria tal linha de raciocínio para sugerir que ou alguém é silencioso e pensador, ou é falante e imbecil.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

27/03/2021

Equívoco

 


A falácia do equívoco (também chamada de equivocação) explora a ambiguidade da linguagem, alterando o sentido de uma mesma palavra durante o argumento e usando esses significados diferentes para sustentar uma conclusão infundada. (Quando se emprega o mesmo sentido para uma palavra em todo o argumento, ela está sendo usada de modo unívoco ou inequívoco.) Considere o seguinte argumento: “Como você pode dizer que não tem fé, quando age com fé o tempo todo? Fecha negócios, confia em amigos e até fica noivo?” Aqui, o significado da palavra “fé” parte da crença espiritual num criador e depois muda para uma questão de confiança em outras pessoas.
Essa falácia é muito utilizada em discussões sobre ciência e religião, onde o termo “por que” pode ser adotado em sentidos diferentes. Num contexto, é a busca de causas – motivadora da ciência – e no outro, é a busca de um propósito, de um sentido maior – mais relacionada à moralidade e a questões pessoais em que a ciência pode não ter respostas. Veja este exemplo: “A ciência não pode nos dizer por que as coisas são como são. Por que existimos? Por que temos moral? Portanto, nós precisamos de outra fonte, como a religião, para nos dizer por que as coisas acontecem.”

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

14/03/2021

Apelo a uma autoridade irrelevante

 


Embasar um argumento na opinião de uma autoridade é um apelo à modéstia das pessoas, ao senso de que sempre haverá outros com maior conhecimento do que nós (Engel) – o que pode até ser verdade, mas nem sempre. Claro que é correto citar uma autoridade competente, como os cientistas e acadêmicos costumam fazer. A grande maioria das coisas em que acreditamos, como os átomos e o sistema solar, são confirmadas por autoridades confiáveis, assim como todos os fatos históricos (na acepção de C.S. Lewis). Mas é muito mais provável que o argumento seja falacioso quando há um apelo à opinião de uma autoridade irrelevante, que não é especializada no assunto em questão. Uma falha de argumentação nessa linha é o apelo a uma autoridade vaga, em que uma ideia é atribuída a um coletivo indefinido. Por exemplo: “Professores na Alemanha demonstraram que isso é verdadeiro.”
Um tipo comum de apelo a autoridades irrelevantes é o apelo à sabedoria antiga, onde uma ideia é presumida como verdadeira somente porque foi originada num passado distante. Por exemplo: “A astrologia era praticada há milênios na China, uma das civilizações tecnologicamente mais avançadas da Antiguidade.” Esse tipo de apelo costuma ignorar o fato de que o conhecimento científico atual é muito superior e que muitos costumes e normas podem mudar ao longo do tempo. Por exemplo: “Nós não dormimos o suficiente hoje em dia. Poucos séculos atrás, as pessoas costumavam dormir nove horas por noite.” Havia uma série de razões pelas quais elas dormiam mais horas no passado. O simples fato de que dormiam mais não oferece evidências suficientes para sustentar o argumento de que devemos fazer o mesmo hoje em dia.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

06/03/2021

Falácia do espantalho

 


A falácia do espantalho consiste em apresentar de forma caricata o argumento da outra pessoa, com o objetivo de atacar essa falsa ideia em vez do argumento em si. Deturpar, citar de maneira incorreta, desconstruir e simplificar demais o ponto de vista do adversário são formas de cometer essa falácia. Em geral, o argumento espantalho é mais absurdo que o argumento real, facilitando o ataque. Além disso, acaba levando o oponente a perder tempo defendendo-se da interpretação ridícula de seu argumento, em vez de sustentar sua posição original.
Por exemplo, um cético em relação à teoria de Darwin poderia dizer: “Meu oponente está tentando convencer você de que nós evoluímos dos macacos que se balançavam em árvores; uma afirmação realmente grotesca.” Essa é uma deturpação do que a biologia evolutiva afirma de fato, que é a ideia de que humanos e chimpanzés compartilharam um ancestral comum há milhões de anos. Deturpar a ideia é muito mais fácil do que refutar suas evidências.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

26/01/2021

Argumento a partir das consequências

 


O argumento a partir das consequências consiste em defender ou refutar a veracidade de uma declaração apelando às consequências que ela teria se fosse verdadeira (ou falsa). Mas o fato de uma proposição levar a um resultado desfavorável não significa que ela seja falsa. Da mesma forma, o simples fato de ter consequências positivas não torna a afirmação automaticamente verídica. Como afirma o professor David Hackett Fischer: “Não se deduz que uma qualidade ligada a um efeito seja transferível à sua causa.”
Se as consequências forem positivas, o argumento pode alimentar esperanças, por vezes tomando a forma de pensamento positivo. Já se forem negativas, o argumento pode suscitar temores. Vamos analisar a citação de Dostoievski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido.” Deixando de lado as discussões morais, o apelo às consequências sombrias de um mundo puramente materialista não prova nada sobre a existência ou não de Deus.
É preciso perceber, porém, que tais argumentos são falaciosos somente quando usados para afirmar ou negar a veracidade de uma declaração, e não quando dizem respeito a decisões ou políticas públicas (Curtis). Por exemplo, um parlamentar pode logicamente se opor ao aumento de impostos por receio de que haja um impacto negativo na vida de seus eleitores.
A falácia do argumento a partir das consequências pode ser reconhecida como uma pista falsa ou manobra de distração, porque sutilmente desvia a discussão da proposição original – neste caso, em direção ao resultado e não ao mérito da proposta em si.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos