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27/06/2022

Por que Almocei meu Pai | 5


Andávamos sempre à procura de peças de madeira boa e direita para, com as nossas raspadeiras de sílex, as transformar em lanças, com as quais abatíamos facilmente caça miúda. A sua fraqueza, porém, sempre fora a ponta. Mesmo para matar um pequeno animal era preciso estar muito perto dele, porque a alguma distância, mesmo que pequena, a ponta da lança tinha muito pouco poder de penetração. É difícil chegar a quatro metros e meio de um cervo, e nós perdíamos mais caça do que a que conseguíamos abater. As nossas lanças apenas faziam ricochete no revestimento de animais maiores, e chegar perto da maior parte deles era uma tarefa perigosa. O melhor estratagema era atacar em bando e depois seguir os animais feridos até eles estarem demasiado exaustos para lutar. Porém, às vezes, tudo o que conseguíamos era segui-los até um leopardo ou um leão lhes deitar as garras.
As novas lanças endurecidas pelo fogo tornaram tudo diferente. Para a zebra, por exemplo, elas eram letais a trinta metros, e nós praticávamos regularmente com alvos a sessenta metros. Eu conseguia acertar no olho de um crânio de zebra a cinquenta e cinco metros e o Oswald a sessenta ou até setenta se a lança fosse boa. Evidentemente, praticávamos com lanças rombas porque para endurecer as pontas para a caça tínhamos que recorrer novamente ao fogo. Depois de alguns arremessos as pontas ficavam rombas. Isto limitava indubitavelmente a vantagem das novas armas, mas a sua introdução generalizada foi seguida de um enorme incremento do nosso abastecimento de comida. Já não andávamos tantas vezes gelados e esfomeados.
Começamos a caçar regularmente cavalos e zebras e, claro, sempre que tínhamos hipótese disso, abatíamos também impalas, veados, kongonis, antílopes, cefos, orix e carneiros. Aproximávamo-nos deles furtivamente por entre a erva da altura de um homem que cobria a planície, correndo curvados mas endireitando-nos para observar e fixar a nossa presa. Embora as manadas colocassem sentinelas para as avisarem da presença de perigo, esta capacidade de correr curvados e de nos endireitarmos ou subir a árvores para nos orientarmos funcionava a nosso favor. Só as girafas conseguiam ver por sobre a erva alta melhor do que nós e, normalmente, descobriam-nos quando íamos ainda a caminho. Então, a velocidade de que as suas pernas eram capazes levava-as para bem longe do nosso alcance. Não conseguíamos apanhá-las em grande número e tínhamos mais sorte com os calicotherium cujos pescoços eram ligeiramente mais curtos mas que, se estivessem feridos ou acossados, eram mais perigosos que as girafas, porque podiam abrir-nos rasgões horríveis com os seus chifres de grande envergadura. As novas lanças permitiam-nos também caçar búfalos, mas eles são animais demasiado perigosos e, de início, muitos caçadores perderam a vida por não conseguirem espetar as lanças com a profundidade necessária. Ninguém corre mais depressa que um búfalo mesmo com uma lança espetada no dorso.
Na floresta, sempre caçáramos porcos, javalis, macacos, pequenos antílopes e animais do mesmo gênero, mas agora também podíamos atacar o enorme javali. Nos rios, experimentamos as novas lanças contra crocodilos e hipopótamos, mas elas davam-nos pouca segurança adicional nesses lugares perigosos, onde, tal como outros animais, tínhamos muitas vezes que arriscar as nossas vidas por um golo de água.
Imitando os crocodilos, fazíamos emboscadas aos animais que vinham ao rio e a charcos de água para beber. A observação do terror de um animal cercado, enredando-se em matas de espinhos e afundando-se em pântanos de papiros, deu-nos a ideia de construir armadilhas. O Pai estava particularmente interessado nelas mas para nós, rapazes, não eram assim tão interessantes, já que nos cabia a tarefa de cavar os fossos para onde os animais deveriam cair. Cavar um fosso de três metros e meio de profundidade por quatro em cada lado significa remover mais de cinquenta metros cúbicos de terra, e isto não tem muita piada quando o instrumento que temos para cavar é um pau com a ponta endurecida pelo fogo, uma omoplata de cavalo e as mãos nuas. No entanto, o Pai insistia em que o fizéssemos. O que ele apreciava nas armadilhas, disse-nos, era a sua qualidade automática. “Bem sei que é um trabalho duro”, concordou, “mas a ideia está certa. Só precisamos de inventar um equipamento mais eficiente para remover a terra”. No entanto, nunca o fizemos, e foi para nós um alívio quando, mais tarde, ele teve a ideia de, com uma corda de trepadeiras, suspender uma lança com a ponta para baixo, entre duas árvores, de tal modo que a corda passasse à volta da lança e entre as árvores, à altura exata das presas de um javali antes de ser amarrada na posição correta de um dos lados. Quando o javali partia a corda, aí vinha a lança espetando-se entre as suas espáduas. “A origem do feedback”, disse o Pai enigmaticamente, e teria equipado toda a floresta com o aparelho não fosse o risco de esquecermos as suas localizações e cairmos nós próprios nele. Uma vez, o Tio Vanya escapou por um triz e veio queixar-se.
Caçávamos muito e longe, com uma nova autoconfiança nascida das nossas lanças e da segurança da nossa caverna defendida pelo fogo. Quando matávamos, esfolávamos e cortávamos a vítima aos bocados no próprio local onde caía, banqueteando-nos com o sangue, os miolos e as entranhas, ao som do alegre chip-chip-chip das facas de sílex sendo afiadas por turnos. Depois, esquartejávamos o animal e levávamos os bocados para casa sobre os ombros: eram troféus vistosos comparados com coelhos, texugos, esquilos e pequenos antílopes que, em tempos, haviam sido frequentemente as nossas únicas presas. Com as lanças, facilmente afastávamos quaisquer hienas que quisessem juntar-se a nós e podíamos transformar numa vantagem para nós a guerra civil entre os animais. Procurávamos as lutas entre rinocerontes ou elefantes na época de acasalamento e dávamos o golpe final no animal vencido, ferido e exausto, após o que a horda inteira se concentrava na carcaça, qual bando de abutres, e comia dela durante um fim de semana inteiro. Os enormes machados subiam e desciam enquanto as poderosas vértebras eram cortadas e os enormes fêmures, tão maciços como os troncos de árvore caídos na floresta, eram abertos à procura do seu rico tesouro de tutano. Uma caça mais eficiente permitia às mulheres ficarem mais tempo em casa em vez de seguirem os caçadores para conseguirem a sua parte na matança. “O lugar das mulheres é na caverna”, começou o Pai a dizer.
Nós rapazes participávamos da caçada, não só porque éramos necessários mas também porque o Pai achava que não havia qualquer alternativa ao método direto em educação. Desde a mais tenra idade, evidentemente, uma das nossas tarefas indiscutíveis era lascar sílex. Do ponto de vista do Pai, um rapaz que não estivesse realmente a dormir ou a caçar com o grupo devia estar entregue à lascagem. Também achava que nunca era demasiado cedo para começar. Quase imediatamente após o nascimento, eram colocados seixos em cada uma das pequeninas mãos do bebé e, depois de engolir alguns, ele rapidamente aprendia a bater com eles uns nos outros imitando os mais crescidos.
— Nunca esqueçamos, — dizia então o Pai —, que tudo depende da nossa capacidade de enviesar os olhos. Embora tenhamos duas mãos e visão estereoscópica, não nos seria possível lascar sem focar o olhar.
As raparigas também tinham que lascar sílex.
— Uma rapariga deve ser capaz de se sustentar a si própria, — dizia o Pai —, mesmo nestes tempos. Uma rapariga que consegue obter uma aresta realmente afiada num pedaço de obsidiana nunca terá problemas em encontrar um companheiro ou uma boa refeição.
Assim, a tarefa de lascar sílex nunca estava acabada, e o Pai nunca se cansava de falar acerca dos pormenores importantes desta arte. Por exemplo, quando nos queixávamos da fragilidade das arestas que produzíamos com tanto esforço, ele encorajava-nos de imediato.
— Não esqueçam — dizia-nos —, que a fragilidade das lascas tornou possível a ascensão do Homem. Durante milhares de anos, os macacos usaram ferramentas antes de pensarem em fabricá-las, e isto porque uma lasca produzida acidentalmente proporciona frequentemente uma peça com um bordo afiado, e tudo o que há a fazer é apanhá-la para que seja nossa. Então, alguém deixou cair uma e viu como isso acontece, e durante mais alguns milhares de anos a arte de fabricar ferramentas resumiu-se a deixar cair um pedaço de sílex sobre uma rocha e apanhar os bocados utilizáveis. Se vocês pensam que o que estão a fazer é trabalho duro, então tentem produzir as vossas raspadeiras dessa forma! Finalmente, em vez de deixar cair o sílex, os homens começaram a bater nele, rodando o núcleo ao acaso por entre golpes para descobrir a melhor face para o golpe seguinte. Foi assim que todos nós começamos. Vocês sabem que não conseguimos uma lasca decente em cada dez com este método. Os métodos modernos acabaram com este desperdício de tempo e material. Agora removemos uma lasca de um lado do núcleo – assim! — e depois usamos essa superfície como plataforma para golpes de modo a conseguir novas lascas assim! Uma! Duas! Três! Quatro! — que beleza! Veem agora como as lascas são uniformes, e como é mais leve o golpe que é preciso desferir no sílex? E podem variar a intensidade da força. Levemente — assim! — para uma lasca, ou mais forte — assim! — quando a superfície o exige. E agora, fazem favor, quero ver todas essas lascas retocadas antes do almoço.
O segundo grande departamento de educação era o estudo dos animais que caçávamos e dos que nos caçavam a nós. Tínhamos que aprender onde viviam, de que viviam, como passavam o tempo, que cheiros produziam e que linguagem utilizavam. Desde a mais tenra idade éramos capazes de reproduzir o rugido do leão, o pigarrear do leopardo, o bumbum do avestruz, o trompetear do elefante, o bufar do rinoceronte e o triste gemido da hiena. Aprendemos porque é que as zebras e os cavalos, com pés tão ligeiros, se atreviam a relinchar tanto e porque é que os impalas e as gazelas se mantinham tão calados. Em segurança nas árvores, os macacos podiam conversar uns com os outros, tal como nós o podíamos fazer, lança em riste, no chão, mas as grandes manadas moviam-se silenciosamente, rodeadas de inimigos. Aprendemos onde encontrar os ovos das tartarugas e dos crocodilos e como roubar as pequenas crias nos ninhos dos pássaros. Sabíamos como apanhar o escorpião e destruir a sua cauda antes de o comer.
Também estudamos economia botânica. Alguns frutos, fungos e raízes podiam ser comidos; outros não. Durante toda a Idade da Pedra, pioneiros tinham dado as suas vidas para descobrir exatamente quais eram uns e outros. O instinto tornara-se demasiado atrofiado para nos avisar. Tínhamos que aprender a diferença vital entre a raiz de mandioca que alimentava e a que matava. Tínhamos que aprender quais eram os frutos interditos e mantermo-nos afastados da árvore proibida, a Aconcanthera abyssinica, cuja simples seiva era morte certa.
Quando começamos a caçar o cavalo e a zebra com regularidade, começamos a pensar nos grandes felinos menos como inimigos e mais como rivais e até exemplos a seguir na mesma profissão. Observávamo-los em ação: leopardos e chitas nas montanhas altas, leões e tigres dentes-de-sabre nas planícies, pumas, ocelotes e caracais na selva e nas árvores, e hienas por toda a parte. Não podíamos deixar de ficar impressionados pela maneira como estavam equipados para a perseguição: olhos que viam, bigodes sensitivos na escuridão, garras retrateis para agarrar a presa e trepar às árvores, trinta poderosos dentes, uma boa camuflagem para se aproximarem silenciosa e furtivamente da presa e uma velocidade considerável, com uma aceleração de ponta de mais de cem quilômetros por hora.
O Pai admirava-os tanto como todos nós mas avisou-nos para não exagerarmos.
— É apenas especialização — disse-nos. — Máquinas soberbas com um único propósito: caçar. Matam a caça com a máxima perfeição, e essa é a sua fraqueza. Não há nada mais que possam fazer. Não evoluirão muito mais, acreditem-me. Vocês podem pensar que o farão, com toda aquela força e astúcia, mas eu duvido. Duvido mesmo muito. Se a caça desaparecesse, eles passariam fome: não sobreviveriam à base de cocos! Alguns deles já passaram mesmo os limites. Reparem no tigre dentes-de-sabre. É capaz de dilacerar a jugular de um rinoceronte, mas quem é que quer alimentar-se de rinoceronte? Aqueles dentes, na maior parte do tempo, incomodam-no horrivelmente. O tigre dentes-de-sabre tinha tudo a seu favor quando os animais eram maiores do que o são agora, e não há dúvida de que matou Brontops, Amebelodon, Megatherium e os outros antigos mamíferos de que o meu pai me falava quando eu era criança. Os seus sabres fizeram-no poderoso na terra quando a velocidade era muito menor do que é agora mas, hoje em dia, ele passa metade do tempo a tropeçar neles. Lembrem-se do que vos digo: ele, por exemplo, está a caminho da extinção. Os outros talvez se aguentem por mais algum tempo, mas chegará o dia em que virão pedir-nos os restos das nossas refeições.
Rimo-nos disto, mas o Pai abanou a cabeça.
— Podem rir-se, mas ainda haveremos de reduzir o leão às suas devidas proporções. Não estou a afirmar que não há outros animais que o não possam fazer mais depressa e melhor. Mas seriam provavelmente antropoides. Eu estou sempre alerta para esse perigo. Nunca se sabe o que se anda a preparar por aí. De qualquer forma, o importante é manter uma firme noção de alguns princípios sólidos e corretos. E estou bastante seguro de que o princípio da especialização faz parar a evolução, mais cedo ou mais tarde. No entanto, os animais são fatalmente atraídos por ele. Reparem no velho calicotherium, por exemplo. Ele não é um cavalo, um veado ou uma girafa. O seu pescoço é demasiado curto para lhe permitir ver melhor que os outros ou para chegar à folhagem mais alta das árvores quando as grandes manadas comeram toda a erva. Mas é demasiado longo para que possa fazer uso eficaz dos seus chifres. Não tem cascos adequados e, por isso, não é capaz de uma verdadeira velocidade. Não é uma coisa nem outra, e os verdadeiros especialistas vão empurrá-lo para a extinção.
— Mas nós também não somos nem uma coisa nem outra — disse eu.
Os olhos baixos e salientes do Pai estavam pensativamente semicerrados.
— Lá isso é verdade, meu rapaz, lá isso é verdade. Nós abandonamos as árvores e tornamo-nos predadores. Porém, faltam-nos os dentes e a velocidade dos felinos. Mesmo assim, a nossa força está em não sermos especializados. Seria retrógrado voltarmos a andar sobre as quatro patas e deixar crescer os caninos. Os gatos e os cães podem caçar. Mas que mais podem fazer? Absolutamente nada.
— Mas, Pai, quem é que quer fazer outras coisas? Perguntou o Oswald.
— Admito que tu és um pouco especializado, Oswald — disse o Pai acidamente. — Mesmo assim, gostaria que deixasses a tua mente primitiva meditar ocasionalmente em assuntos mais elevados.
— Mas o que mais há para fazer? — insistiu o Oswald.
— Espera e verás — disse o Pai, comprimindo os lábios. — Espera e verás.

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai

20/06/2022

Por que Almocei meu Pai | 4


O fogo proporcionava-nos luz depois do sol desaparecer, e aprendemos o infinito luxo de podermos nos descontrair à sua volta durante o serão, mastigando a nossa comida, chupando tutano e contando histórias. Estas, nesses primeiros tempos, vinham sobretudo do Pai, e a melhor de todas era a história de como nos trouxera o fogo selvagem. Lembro-me dela palavra por palavra.
— Todos vocês se lembram — disse o Pai, instalando-se confortavelmente com um pau para afiar, pois quase nunca o víamos inativo. — Todos vocês se lembram como a vida era difícil nesses dias. Estávamos sendo acossados e dizimados até à extinção. Vocês perderam tios, tias, irmãos e irmãs no massacre. Os carnívoros tinham-se voltado para nós como perspectiva de refeição por causa da escassez de caça ungulada nesta região. Não tenho a certeza da causa desta escassez de ungulados. Talvez tenha sido causada por uma série de estações secas que reduziram as pastagens, ou talvez alguma nova doença de gado tenha reduzido o seu número. De qualquer modo, desde que os felinos começaram a nos comer à sua vontade, tomaram o gosto e o hábito e, claro, achavam-nos mais fáceis de abater.
— Podereis perguntar porque é que eu não decidi levar-vos para áreas mais seguras. Claro que ponderei esta possibilidade longa e ansiosamente. Mas para onde iríamos? Para o Norte, para o meio das planícies, onde os carnívoros nos acompanhariam cobrando o seu tributo à medida que avançássemos? Para a floresta de novo, onde mesmo agora o Vanya sente cada vez mais dificuldade em sobreviver? Para mim, era impensável sacrificar centenas de milhares de anos de evolução e de cultura da Idade da Pedra recomeçando de novo como macacos nas árvores. O meu velho pai ter-se-ia revolvido na sua sepultura, que fica na barriga de um crocodilo, se eu tivesse traído dessa maneira tudo aquilo por que ele tinha lutado. Tínhamos que ficar, mas tínhamos que usar a cabeça. Tínhamos que encontrar alguma forma de fazer com que os leões parassem, de uma vez por todas, de nos comer. De que maneira? Acabei por perceber que esta era a questão-chave. É esta a beleza do pensamento lógico: podemos eliminar sistematicamente as alternativas até ficarmos apenas com a questão-base que deve ser respondida.
O Pai retirou do fogo um galho carbonizado e examinou pensativamente a sua ponta fumegante.
— Eu sabia, como todos nós sabemos, que os animais temem o fogo. Nós próprios temos medo dele, sendo animais como os outros. Volta e meia temo-lo visto borbulhar e ferver escorrendo pelas encostas das montanhas incendiando florestas inteiras. Nessa altura, todas as espécies de animais fogem para longe dele aterrorizadas. Nós corremos quase tão depressa como os veados e o perigo irmana leões e homens-macaco. Já vimos montanhas inteiras explodirem em fumo e chamas e todos os animais em pânico a correrem de um lado para o outro. Não é frequente, mas sabemos quais as consequências quando ocorre. Não há pior dor do que a de uma queimadura nem pior morte do que morrer queimado. Ou pelo menos assim parece. Então, o meu problema era conseguir o efeito de um vulcão sem eu próprio explodir. O que eu queria era um vulcão pequeno e portátil. A ideia genérica ocorreu-me com uma súbita e viva clareza quando, uma noite, estava fortalecendo as barricadas. Mas a ideia geral, a solução teórica, é uma coisa; uma aplicação concreta é muito diferente. Ideias na cabeça não expulsam ursos para fora de cavernas. Sentia-me muito orgulhoso com a elegância da minha teoria, mas apercebi-me de que, se não fizesse alguma coisa além de apreciá-la, seria infalivelmente comido com o resto da minha família.
Como funcionava o fogo? A segunda ideia decisiva, que me ocorreu algum tempo depois, foi a de que devia subir até ao cimo de um vulcão e observar. Era obviamente o que havia a fazer e, depois de ter pensado nisso, garanto-vos que me amaldiçoei por não me ter ocorrido antes. Agora teria que o fazer no meio de uma emergência. Mas era evidente que a minha única esperança de encontrar o tipo de fogo limitado, tamanho-família, que eu pretendia, era subir ao cimo de um vulcão e tentar, de alguma maneira, retirar um pedaço. Não havia mais nenhum lugar onde procurar nem tempo para pensar onde procurar. Decidi arriscar tudo numa última tentativa.
Assim, subi ao Ruwenzori. Guiei-me pelas chamas que emergiam do topo e, contornando os glaciares por um dos lados, subi firmemente. A montanha está rodeada por uma cintura florestal, sobretudo de cânfora e euforbiácea, e atravessei-a o mais depressa que pude, parte do caminho pelo chão e parte dele pelas árvores. A princípio tinha a companhia de animais (javalis africanos, macacos, bastantes felinos e outros animais semelhantes) e de bandos de pássaros. Mas gradualmente, à medida que as árvores iam rareando, vi-me cada vez mais sozinho. Ouvia-se um barulho de roncos subterrâneos que lembravam os de um leão. Finalmente, encontrei-me numa espécie de savana de rochas escurecidas, canteiros de relva e árvores atrofiadas. Estava um frio de morte e havia mesmo manchas de neve. O ar estava a tornar-se rarefeito e eu respirava em arfadas dolorosas. Agora estava completamente só, à exceção de um Tetratomis, voando em círculos bem acima do topo das árvores que eu há muito deixara para trás, e que àquela distância não parecia maior do que uma águia. Um vento gelado soprava lugubremente quando atingi uma região desolada onde os meus ombros tremiam de frio e, no entanto, com as rochas, muitas vezes, dolorosamente quentes sob os meus pés. Comecei a perguntar-me porque é que, de todo, ali tinha ido: à minha frente estendia-se apenas rocha escarpada e lava solidificada e, lá no alto, sob uma nuvem de fumo negro, erguiam-se as bordas gretadas da cratera. A louca presunção da minha procura abateu-se sobre mim: procurar um instrumento que chamuscasse os pelos de um leão num lugar onde as rochas estavam queimadas como se de madeira morta se tratasse. Senti um profundo desânimo e uma desesperada vontade de desistir. Mas apercebi-me que voltar de mãos vazias era o mesmo que não voltar. O puro interesse pela cena que se desenrolava à minha frente fez-me avançar.
A minha persistência foi subitamente recompensada. Descobri que não podia, como era minha intenção, escalar a direito até à beira da cratera porque as rochas erguiam-se diante de mim na vertical por uns seiscentos metros ou mais. Não tinha outro remédio senão mover-me em espiral à volta da cratera mas, quando cheguei à face oposta da montanha, vi uma coisa que reacendeu as minhas esperanças. Vi que não seria necessário ir mesmo até ao cimo, o que poderia, de facto, ter-me levado dias, mesmo que conseguisse sobreviver a uma noite passada ao relento naquele local. Agora, porém, podia ver que, daquele lado da montanha o fumo e o vapor brotavam de um lugar mais baixo, apenas um pouco acima do lugar onde me encontrava. Alguma forma de fogo devia portanto estar acessível mais abaixo e muito mais longe dos perigos da própria cratera, brilhando e borbulhando a milhares de graus Fahrenheit. Consequentemente, atravessei obliquamente a montanha em direção ao fumo. Aí, depois de duro trabalho, contemplei algo providencial. O interior líquido da montanha estava sendo espremido para fora e a escorrer lentamente pela encosta abaixo. Era como se a montanha tivesse sido rasgada por um inimigo e as suas entranhas vermelhas estivessem sendo obrigadas a sair pelo corte, ou então talvez tivesse tido alguma espécie de ataque bilioso e estivesse a vomitar. Acredito que isto me aproximou da verdade acerca do modo como o próprio mundo foi feito. Mas, infelizmente, só tinha tempo para fazer observações muito apressadas. O que me interessava de forma mais imediata era o facto de que, quando o vômito quente tocava uma árvore que estivesse no seu caminho, essa árvore imediatamente irrompia em chamas.
Portanto, ali estava o que eu queria: uma ligação entre o fogo elementar existente na terra e o fogo portátil que eu procurava. Observando o fenómeno, em breve compreendi o seu segredo: sempre que uma árvore se incendiava, qualquer outra árvore que lhe tocasse pegava fogo em seguida. Aqui estava o princípio da transmissão do fogo, demonstrada na Natureza. Se tocares o fogo com alguma coisa que ele goste de comer, essa coisa incendeia-se. Isto é agora mais que óbvio para vocês, mas lembrem-se de que eu estava a vê-lo pela primeira vez.
O pau que o Pai estava a trabalhar tinha deixado de deitar fumo e ele começou a raspar distraidamente a sua ponta escurecida com uma lâmina de sílex.
— O vulcão era o fogo-Pai. As árvores eram filhos e filhas, mas também elas podiam tornar-se, por sua vez, paus de fogo se tocadas por outra árvore combustível. A simples aplicação da coisa apresentou-se-me num relâmpago. Eu precisava apenas de apanhar um ramo caído, empurrá-lo contra uma das árvores em fogo e depois levá-lo comigo. Tentei imediatamente: foi um trabalho difícil, porque a muralha de lava exalava um calor tremendo e eu tive que me aproximar dela a uma distância de cerca de trinta metros. Mas resultou! O meu ramo tinha fogo! Eu tinha o fogo na mão. Gritei de pura alegria enquanto levava o ramo para longe das árvores em fogo, segurando-o no ar, e vi que um pequeno vulcão brilhava e fumegava realmente sobre a minha cabeça. Com aquela terrível tocha na mão, sabia que podia apavorar até à loucura qualquer leão. Não me demorei mais e apressei-me a voltar para casa. Só quando já tinha andado mais de um quilómetro e meio é que descobri que o meu ramo tinha parado de fumegar e já não era mais do que um toco negro que me queimou a mão.
Assim, voltei para trás para fazer mais algumas experiências. Vi que um pequeno fogo come muito depressa o seu alimento e torna-se necessário dar-lhe mais senão morre. Apercebi-me de que, para o transportar, teria que arranjar uma espécie de muda. Primeiro peguei fogo a um ramo. Depois transportei-o o mais longe possível até ele estar quase a morrer ou ter ardido até à minha mão. Em seguida, arranquei um ramo da árvore mais próxima, peguei-lhe fogo e transportei-o em substituição do anterior. E assim por diante. Tudo muito simples e lógico depois de o ter feito, mas não antes disso. Este esquema funcionou admiravelmente, embora eu tenha descoberto que algumas árvores não ardem tão bem como outras. Mas, com cuidado, consegui chegar até aqui são e salvo, transportando o seiscentésimo décimo nono ramo da série, com o qual assustei os leões para longe e acendi uma fogueira dentro da paliçada. Foi esse mesmo fogo que trouxemos para aqui e desde então nunca mais se apagou. Mas mesmo que se tivesse apagado, seria muito simples de...
O Pai parou subitamente, de boca aberta, olhando fixamente o pau que segurava.
— Deus do céu! — arquejou ele. — Enquanto estive a falar convosco, e sem sequer pensar nisso, inventei uma coisa importantíssima: a lança para caça grossa, com ponta endurecida pelo fogo!

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai

03/05/2022

Por que Almocei meu Pai | 3

 


Naquele tempo éramos um pequeno grupo, dizimado pela violenta perseguição de que fôramos alvo até o Pai trazer o fogo da montanha. Creio que éramos cerca de uma dúzia começando juntos uma nova vida. Havia a minha Mãe, chefe das mulheres, mas tínhamos também cinco tias. A Tia Mildred era uma fêmea gorda e tola, incapaz de atirar uma pedra com alguma precisão; na verdade, pertencia ao Tio Vanya, mas ele abandonara-a quando descobrira que ela também era uma negação ao trepar nas árvores. Ela possuía uma razão especial para gostar do fogo, já que isso fazia com que o Tio nos visitasse de vez em quando, podendo assim manter a pretensão de que ainda eram um casal. A Tia Angela era uma pessoa bastante simpática, acasalada com outro dos irmãos do meu pai, o Tio lan, do qual ouvíramos contar muitas coisas quando éramos pequenos mas que nunca víramos, porque andava sempre viajando pelo estrangeiro. Como não podia enviar-nos sequer um postal para dizer que estava vivo e não era visto havia anos, a Mãe e as outras tias achavam que ele morrera; mas a Tia Angela tinha a certeza de que ele voltaria.
— O menino vai voltar na tarda — afirmava, com o seu sotaque característico, se o nome do tio aparecia na conversa. — El’ é o me m’nino, um viajanti incorrigível, mas ê própria estaria co’ ele, com’ele bem sabi, na fora o me pobre coração.
A Tia Angela sofria de palpitações. Mas tinha algo por que esperar, e isso era mais do que se podia dizer da Tia Aggie, da Tia Nellie e da Tia Pam. O companheiro da Tia Aggie fora morto por um leão. A Tia Nellie devia a sua viuvez a um rinoceronte lanudo e a Tia Pam a uma jiboia.
— Ele tentou comê-la, — queixava-se ela — embora eu lhe dissesse que não podia de modo nenhum fazer-lhe bem. Mas ele por acaso ouviu-me? Nem pensar! É o mesmo que comer uma cobra, disse-me. Bom, de qualquer modo, pelo amor de Deus corta-a em bocados, respondi-lhe eu. Mas não. Nem isso fez. Só porque eu lho disse, evidentemente. Disse-me que ela nunca cortava o que comia e, portanto, porque havia ele de fazer doutro modo? Tudo o que ela podia fazer, ele achava que também podia. É claro que não podia. Nem mesmo metade! Mas quando aquele maldito e obstinado doido foi forçado a admitir que, como sempre, eu tinha razão, era demasiado tarde. Que seja uma lição para ti.
Ela contava sempre esta história a qualquer criança que se engasgasse por tentar engolir demasiada comida sem mastigar o suficiente. Noutras ocasiões, porém, a sua expressão amarga ficava úmida das lágrimas; o seu nariz tornava-se vermelho como um morango e ela balançava o corpo anguloso para a frente e para trás numa agonia de remorso.
— Podia tê-la cortado eu mesma após alguns metros, — gemia ela — e ele ainda estaria vivo. Não o fiz porque pensei que aprenderia a lição. Deixei-o ir longe demais, vários metros longe demais. Oh, Monty, Monty, porque me provocaste tanto?
Nesses momentos, ela tornava-se uma figura trágica, e a Tia Aggie e a Tia Nellie sentavam-se, conversando com ela, tentando confortá-la; isto acabava com todas elas gemendo e chorando por causa dos companheiros que haviam perdido.
— Ah, o me lindo m’nino! — lamuriava-se a Tia Aggie. — O leão levô-ti, Patrick, e põe’ proveo l’e fzeste, ao velho Cromwell!
Nessas ocasiões, as mulheres diziam todos os disparates que lhe vinham à cabeça.
— E um rinoceronte lanudo! — soluçava a Tia Nellie.
— Não tinha nada que estar aqui em África, bruto mau, odiento e metediço. Porque não ficou na Riviera, onde há gelo? Claro que perdeu a cabeça, vindo para cá e ficando ridiculamente quente!
Não me lembro de todas as crianças da ninhada e, de qualquer modo, algumas delas acabavam sempre por ser comidas pelos lobos antes de terem tempo de crescer. O mais próximo de mim era o meu irmão Oswald que, desde muito novo, se evidenciou pela sua extraordinária habilidade para caçar e apanhar animais, incluindo peixes. Quando era pequeno pendurava-se durante horas sobre o rio observando os peixes e tentando apanhá-los, tal como via os pássaros fazerem. Acabou por apanhar um peixe grande e tentou comê-lo, quase morrendo como o Tio Monty. Só muito mais tarde encontramos uma forma verdadeiramente satisfatória de comer peixe.
— Mas devia ser possível comê-lo! — afirmou irritado. — Já vi um leopardo fazê-lo.
— Com a tua idade, não tens nada que andar para aí a observar leopardos! — descompô-lo a Mãe. — Como te atreves, criança desobediente! Vai lascar sílex!
Oswald obedeceu carrancudo; ao contrário de Wilbur, não havia nada que ele mais detestasse. Mesmo quando muito criança, Wilbur possuía uma aptidão natural para lascar. “Muito bem, meu rapaz”, dizia o Pai quando ele batia no bolbo de percussão com uma precisão espantosa para um rapazinho da sua idade. No entanto, embora muito hábil com o sílex e o quartzo, não era muito independente e costumava quase sempre seguir a mim e ao Oswald. Fazia os nossos trabalhos mais pesados, transportando as nossas mocas, afiando as nossas pontas de sílex e carregando para casa tudo o que caçávamos; na maior parte das vezes, era ele quem preparava as armadilhas para a caça miúda e era normalmente o escolhido para roubar mel das colmeias para todos nós.
Também costumávamos encarregar o nosso outro meio irmão, Alexander, dessas tarefas; no entanto, embora demonstrasse bastante boa-vontade, tornava-se difícil contar com ele, já que raramente terminava uma tarefa se não estivesse sendo vigiado e não fosse admoestado sempre que parava. Não é que lhe faltasse inteligência ou persistência, mas tendia a dispersar-se numa grande curiosidade por tudo o que via, sobretudo animais. Nessa altura entrava em transe e tornava-se necessário bater-lhe na cabeça com uma pedra para ele acordar. Ele próprio não sabia explicar isto. A sua observação dos animais era extraordinariamente precisa, mas parecia fazê-la sem uma clara intenção de relacioná-la com técnicas de caça, como fazia o Oswald; e ficava igualmente feliz observando pássaros, a maior parte dos quais é, naturalmente, inútil, a não ser por avisarem da proximidade de caça grossa. O Alexander podia às vezes ajudar-nos em expedições de caça por esta razão. O problema é que ele estava igualmente interessado em papa-moscas, avestruzes ou garças-boieiras.
— Aquele rapaz tem um grande potencial, tenho a certeza, — ouvi um dia o Pai dizer à Mãe depois de o Alexander lhes ter dito que o rinoceronte fêmea caminha sempre exatamente atrás do macho —, mas não faço a menor ideia para quê.
Referia-se frequentemente ao Alexander como “o nosso jovem naturalista”.
Eu tinha ainda um outro irmão muito mais novo, o William, mas o grupo que ajudava o Pai nas expedições de caça era sempre constituído pelo Oswald, o Wilbur, o Alexander e eu.
Dentre as meninas, a minha melhor companheira era a minha irmã Elsie. Tínhamos decidido formar um casal quando crescêssemos. Ela era alta e graciosa como uma jovem gazela e era capaz de correr, saltar e atirar como qualquer rapaz. Tornou-se a ajudante preferida da minha mãe e, à medida que crescíamos, participava cada vez menos nas nossas expedições de caça. Nunca compreendi porque é que, exatamente quando estávamos para sair, a Mãe encontrava sempre algo urgente para ela fazer. Havia nos seus grandes olhos castanhos um desejo ardente quando me dizia:
— Tenho que ficar cuidando do fogo e dos bebês, Ernest, mas traz-me alguma coisa, sim?
Eu trazia sempre. Os olhos de todos os animais que matava, ou um osso inteiro cheio de tutano, ou uma folha cheia de mel ou puré de formigas brancas.
— Obrigada, obrigada, querido Ernest — dizia ela enquanto a metia de uma só vez na sua boca vermelha e voluptuosa. — Eu sabia que não me esquecerias.
Depois quando punha os braços à minha volta e me abraçava deliciada, eu sentia que valera a pena não ter desfrutado do prazer que ela estava sentindo. Não conseguia imaginar mais ninguém por quem o fizesse.
Tínhamos três outras irmãs: Ann, Doreen e Alice. Estava assente entre nós rapazes que, quando fôssemos adultos, o Oswald teria a Ann (que era uma rapariga forte, capaz de transportar caça para casa), o Alexander teria a Doreen (que era maternal e gostava muito dele) e o Wilbur teria a Alice. Ia ser muito simples.

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai

21/04/2022

Por que almocei meu pai | 2

 


Apesar de tudo o que disse, o tio Vanya voltou muitas vezes para repetir os seus avisos, de preferência em noites frias ou chuvosas. O nosso progresso gradual no controle do fogo em nada apaziguava os seus receios. Bufava incrédulo quando lhe mostrávamos como o apagar, como poia ser dividido, tal como se fosse uma enguia, em vários outros fogos, e como podia ser transportado na ponta de um ramo seco. Apesar de todas estas experiências serem cuidadosamente vigiadas pelo Pai, eram condenadas pelo tio Vanya: ele considerava que a Botânica e a Zoologia eram as únicas disciplinas de uma verdadeira educação científica, e opunha-se terminantemente a juntar a Física ao currículo.
Não obstante, todos nós aprendemos com rapidez a lidar com o fogo. A princípio, as mulheres eram um pouco lentas a afastarem-se dele, queimando-se com frequência, e durante algum tempo parecia que a geração mais nova não iria sobreviver. Mas o Pai achava que toda a gente devia cometer os seus próprios erros. “Uma criança queimada respeita o fogo”, dizia ele, confiante, quando outro bebé começava aos berros depois de tentar agarrar um daqueles escaravelhos incandescentes. E tinha toda a razão.
Estes eram, afinal, acidentes insignificantes em comparação com o progresso obtido. O nosso nível de vida subiu de forma quase irreconhecível. Antes de termos o fogo, a nossa existência era muito precária. Havíamos descido das árvores e possuíamos o machado de pedra, mas não tínhamos muito mais e todos os dentes, garras, e cornos da natureza pareciam estar contra nós. Embora nos considerássemos animais de terra firme, tínhamos que trepar rapidamente a uma árvore se nos víamos envolvidos em qualquer espécie de sarilho. A nossa alimentação ainda dependia em grande parte de bagas, raízes, e frutos secos, e ficávamos satisfeitos com algumas lagartas e larvas gordas como suplemento proteico. Sofríamos de uma escassez crônica de alimentos energéticos embora necessitássemos deles desesperadamente para sustentar o desenvolvimento do nosso físico. Uma razão importante para abandonar a floresta era conseguirmos mais carne para a nossa dieta. Havia muita carne nas planícies, o problema era que toda ela estava em cima de quatro patas. As grandes pastagens estavam cheias de caça: grandes manadas de bisontes, búfalos, impalas, orix, várias espécies de antílopes, gazelas, zebras, cavalos, para só mencionar alguns dos que gostaríamos de comer ao jantar. Mas perseguir carne de quatro patas, quando ainda se está a tentar andar sobre duas, é um jogo absurdo, e nós éramos forçados a tentar levantarmo-nos para poder ver acima da erva da savana. Mesmo se apanhássemos um grande ungulado, que podíamos fazer com ele? Dar-nos-ia um coice.
Por vezes conseguíamos perseguir e derrubar um animal coxo, mas depois tínhamos de enfrentar os seus cornos e era necessária uma horda de homens-macaco para o apedrejar até à morte. Com uma horda pode-se cercar e abater a caça; mas para manter uma horda reunida é preciso um grande e regular fornecimento de alimentos. É o mais antigo dos círculos viciosos em economia: para conseguir qualquer tipo de captura regular é preciso uma equipa de caçadores, mas, para manter uma equipa de caçadores, é necessário assegurar uma captura regular. De outro modo, as refeições são tão irregulares que, na melhor das hipóteses, só é possível alimentar um grupo de três ou quatro elementos.
Por conseguinte, começamos de baixo e tivemos de percorrer a custo um longo caminho. Em primeiro lugar foram coelhos, hiraces e pequenos roedores, os quais podem ser mortos com uma pedrada; depois perseguimos tartarugas e cágados, lagartos e serpentes, animais que podem ser capturados se estudarmos assiduamente os seus hábitos. Depois de morta, a pequena caça pode facilmente ser cortada com facas de sílex, e embora a melhor parte da carne não seja fácil de rasgar e comer sem os grandes caninos dos carnívoros, pode ser cortada e triturada com pedras antes de mastigada pelos molares, inicialmente concebidos para uma dieta frutívora. Geralmente, as partes macias não são as mais agradáveis, mas indivíduos esfomeados pelo esforço de andarem na vertical sobre as patas traseiras durante todo dia, e que querem alimentar os seus cérebros, não se podem dar ao luxo de ser muito exigentes. Disputávamos as partes mais macias e dávamos muito valor a animais de consistência esponjosa, pois aliviavam o esforço imposto aos dentes e ao estômago.
Duvido que haja muita gente que ainda se lembre das agonias que passamos com as indigestões naqueles primeiros tempos, ou mesmo de quantos a elas sucumbiram. Os humores eram permanentemente azedados por distúrbios gástricos, e o esgar deprimido e sorumbático, mesmo feroz, desses pioneiros sub-humanos tinha muito menos a ver com insociabilidade ou selvajaria do que com o estado dos seus tecidos estomacais. A melhor boa-disposição podia ser minada por uma colite crônica. Portanto, é um engano absoluto pensar que, pelo facto de termos descido das árvores recentemente e, por extensão, estarmos mais “perto da natureza”, poderíamos comer de tudo, por mais intragável e fibroso que fosse. Bem pelo contrário, alargar os nossos hábitos alimentares de uma dieta puramente vegetariana (e, mesmo assim, quase só frutívora) até chegar a uma omnívora, foi um processo difícil e penoso, exigindo imensa paciência e persistência para descobrir como manter no estômago aquelas coisas que não só nos repugnavam como nos faziam sofrer. Só uma ambição sem limites, o desejo de melhorar o lugar no seio da natureza, e uma impiedosa autodisciplina, podem explicar que alguém aguente tal transição. Não nego que se encontrassem acepipes inesperados, mas a vida não pode ser só caracóis e moleja. Uma vez decidido sendo omnívoro, há que aprender a comer de tudo e numa altura em que não se sabe de onde nem quando virá a próxima refeição, há que comer tudo. Quando crianças, fomos estritamente educados dentro destas regras, e uma criança que se atrevesse a dizer: “Mas, mamãe, eu não gosto de sapo!”, estava a pedir um par de estalos nas orelhas. “Come tudo. É bom para ti”, foi o lema da minha infância e, claro, era verdade. A natureza maravilhosamente adaptável conseguiu, de algum modo, robustecer as entranhas dos nossos pequenos estômagos, de maneira a digerirem o indigerível.
Deve recordar-se que, quando nos tornamos comedores de carne, tínhamos de mastigar, e consequentemente saborear, toda esta comida rica e imprópria. Os carnívoros (os grandes felinos, os lobos, os cães e os crocodilos) rasgavam simplesmente a sua comida em pedaços e engoliam-na, sem se preocuparem se era espádua, bife da anca, fígado ou tripas. Nós não podíamos engolir a comida sem mastigar. “Mastiga cem vezes antes de engolir”, outra máxima da minha infância, era baseada na certeza de que ignorá-la resultaria numa violenta dor de barriga. Por muito horrível que fosse o naco de carne, naqueles tempos primitivos, tinha de ser bem explorado pela boca e pelo paladar. A fome era o nosso único tempero, mas disso tínhamos com fartura.
Daí resultava a enorme inveja pelos banquetes de carne que os leões e os tigres dentes-de-sabre abatiam tão descuidadamente e comiam com tanto desperdício, deixando por vezes três quartos de uma carcaça para os chacais e abutres. A nossa maior preocupação era, portanto, estarmos presentes, sempre que possível, quando o leão atacava e, depois de ele ter retirado a sua parte, levarmos o resto. Com os nossos machados, as nossas pedradas certeiras e as nossas lanças afiadas, estávamos, no mínimo, ao nível dos chacais e dos abutres, embora muitas vezes tivéssemos de lutar duramente. As nossas melhores refeições deviam-se à prática de observar os abutres e persegui-los até ao lugar certo, com a desvantagem de sendo necrófagos ficarmos nas proximidades do assassino, ainda por cima esfomeado. O que implicava o risco de nós próprios servirmos de refeição.
E era um grande risco. O chacal e a hiena podem correr e o abutre voar, mas o pobre macaco acabado de descer das árvores tem que andar com cautela nas planícies. Muitos de nós não se interessavam por esta vida perigosa e limitavam-se à pequena caça, a maior parte das vezes sórdida, e à pouco estimulante e provinciana sociedade que aquela podia sustentar. Os indivíduos melhor alimentados, maiores e mais empreendedores, eram sem dúvida aqueles que seguiam os grandes felinos — leão, tigre dentes-de-sabre, chita, lince, e o resto da tribo — e jantavam quando eles abandonavam a mesa. Era um trabalho perigoso, mas aqueles que preferiam os seus benefícios afirmavam que, de qualquer maneira, os grandes felinos haveriam sempre de comer carne de primata, nem que fosse para variar a dieta. Sendo assim, manter-se próximo deles, não aumentava substancialmente o risco de se ser comido, com a vantagem de se aprenderem muitas coisas úteis acerca dos seus hábitos, o que permitia mais facilmente as ações evasivas em caso de necessidade. E então, quando se tinha mesmo de fugir, estava-se bem alimentado e bem treinado. O principal era saber quando o leão estava com fome ou não estava. A observação deste pequeno pormenor reduzia as baixas a metade. Já ouvi objetar que caçar com o leão foi o que lhe deu o gosto por nós, mas aqueles primeiros caçadores negavam com veemência tal sugestão, e reagiam também à acusação de que eram meros parasitas dos carnívoros superiores. Tem de aceitar-se que, afinal, adquiriram profundos conhecimentos sobre os predadores, o que foi de permanente utilidade para a humanidade.
Embora conhecendo alguma coisa dos carnívoros, não éramos adversários para eles. Não nos atrevíamos a enfrentá-los. Eles eram os senhores da criação e a sua vontade era lei. Mantinham reduzido o nosso número e não podíamos fazer grande coisa contra isso, a não ser voltar para as árvores e desistir de tudo, como se de uma tarefa fracassada se tratasse. Mas, como o Pai estava convencido que nos encontrávamos no bom caminho, não se punha essa questão, exceto para pessoas como o tio Vanya. O Pai estava sendo plenamente confiante de que aconteceria algo que mudaria o nosso destino. Tínhamos depositado a nossa confiança na inteligência, num grande cérebro e num grande crânio que o continha, e era preciso acreditar nisso para encontrar uma saída. Entretanto, era necessário ter um par de pernas tão bom quanto possível.
— Não há nenhuma razão neste mundo — ouvi muitas vezes o Pai dizer —, para que um homem-macaco não seja capaz de correr cem metros em dez segundos, pular por cima de uma moita de espinhos de dois metros ou, usando uma lança, saltar outra de quatro metros e meio. Um avanço razoável e bíceps para saltar de ramo em ramo, deveria ser suficiente para o livrar de apuros noventa vezes em cada cem. Ele próprio já tinha dado provas de o poder fazer.
Tudo isto era muito bonito, mas não resolvia o problema principal nem remediava a série de pequenos inconvenientes que são inevitáveis quando a tribo dos felinos é a classe dominante. Um deles era sem dúvida o alojamento. Toda mulher-macaco ambiciona um lugar decente onde criar a família, um verdadeiro lar, confortável, quente e, acima de tudo, seco. Ninguém negará, creio eu, que basicamente isto significa uma caverna. Nada mais resolve, de facto, o problema do prolongamento da infância, da continuação estável do processo educacional a seguir ao nível primário, que é a característica mais marcante da nossa espécie. Lá no alto, nos ramos de uma árvore, está-se comparativamente mais seguro, mas dorme-se encavalitado num ramo, meio suspenso, e todos que já o fizeram e poucos de nós, surpreendidos pela necessidade, mesmo nestes tempos esclarecidos, o não fizeram — sabem como é extremamente desconfortável. Por vezes, mesmo os chimpanzés chegam a cair quando têm pesadelos — aquela horrível sensação de queda que, ao acordar, se torna afinal verdadeira. Para uma mulher é ainda pior porque tem de segurar uma ou mais crianças ao mesmo tempo, o que se torna cada vez mais difícil à medida que deixa de lhe crescer pelo no peito e as crianças vão perdendo as suas reações hereditárias de preensão cada vez mais cedo.
Claro que se pode construir um ninho no chão. O instinto de nidificar é muito comum, e mesmo que não fosse podia aprender-se com os pássaros. Pode-se entretecer um pequeno e confortável ninho em poucas horas com qualquer material apropriado, como o bambu ou folhas de palmeira, e uma residência de ramos bastante imponente pode ser construída numa semana se se pretender prolongar a estadia. Num ninho destes é possível dormir estendido, mas não aguenta uma chuvada forte, nem afasta sequer um pequeno leopardo. Por mais que se disfarce cuidadosamente com folhas, por mais que se esconda nos arbustos, tende-se a apanhar reumatismo e a perder o bebé.
Toda mulher-macaco anseia por uma caverna, mesmo uma caverna pequenina, com um teto por cima da cabeça, rocha sólida nas suas costas e uma abertura estreita onde possa resistir e defender as suas crias com alguma possibilidade de êxito. Pode então barrar a entrada com uma árvore derrubada e pode até ter, no interior, um nicho alto onde possa esconder o bebé ou utilizar como despensa. Mas, claro que os animais conhecem isto tão bem como nós, tanto os ursos como os leões ou os tigres dentes-de-sabre, e não há cavernas que cheguem para todos. São poucas, apesar de tudo, as que não poderiam ser ocupadas por várias famílias desalojadas de qualquer espécie. Mas ninguém as partilha, talvez com exceção para as cobras. Descobrimos que se um dos grandes felinos ocupava uma caverna, éramos por regra obrigados a deixá-lo ficar com ela e, se ela nos pertencia e ele a queria, tínhamos por regra de fazer as malas e partir. Mas isto nunca impediu as mulheres de se queixarem.
De modo nenhum. Queixavam-se e voltavam a queixar-se sobre o assunto. Metade das suas conversas versava o tema das cavernas: as adoráveis cavernas que tinham tido... até os seus machos permitirem que um bruto de um urso qualquer os expulsasse de lá; as cavernas maravilhosas na região mais próxima que poderiam ser ocupadas se tivessem em consideração os pontos de vista femininos, afugentando para outra zona um pequeno grupo de leões (onde, aliás, havia muitas mais cavernas); cavernas ótimas que podiam ser encontradas, sem nenhum leão a ocupá-las, se apenas se procurasse um pouco, em vez de arranjar desculpas acerca da necessidade de passar todo o dia a lascar pedra; e a inutilidade da mísera caverna que atualmente tinham e que nem sequer podia ser considerada como tal, antes um mero refúgio rochoso, um pedacinho de rocha com uma pequena saliência interior onde a chuva entrava empurrada pelo vento, e... ouçam a horrível tosse do bebé.
É verdade que, à noite, estávamos frequentemente tão molhados e com frio como esfomeados, e também assustados, quando a escuridão era invadida pelo rugir do leão levantando a caça, ou pelos latidos das matilhas de cães farejando-a. Podia-se ouvir o inimigo aproximar-se cada vez mais enquanto nos agachávamos contra o mísero pedaço de rocha — pelo qual começaria, inexplicavelmente e sempre, a correr um rio de água gelada —, as mulheres segurando as crianças, os machos empunhando os seus machados de pedra ou as suas lanças, e até mesmo as crianças segurando pedras para arremessar. Os caçadores aproximavam-se mais e mais, e ouvia-se o longo grito de algum veado abatido, pelo que a nossa vez ainda não chegara. Uma hora ou duas de um sono intermitente e a caçada recomeçava. Olhos cintilantes observavam a pequena horda desde a linha negra da selva, brilhando por um instante e passando adiante ou aproximando-se da pobre e fraca fila de paus afiados que defendiam a nossa toca e nos dava mais alguns segundos para atirar as pedras ou trespassar com as lanças. Depois, como um grande projétil, abatia-se sobre nós o enorme corpo, olhos em brasa, mandíbulas entreabertas, o rosnado aumentando num crescendo de triunfo. Erguíamo-nos com o nosso grito de desafio e depois tudo era confuso: paus volteando no ar, pedras voando, mandíbulas abocanhando e garras afiadas irrompendo e rasgando coxas nuas e barrigas expostas. Depois o súbito atacante desaparecia deixando-nos maltratados e a sangrar... e um dos mais fracos teria desaparecido.
Que desilusão para a nossa crença na inteligência contra o puro músculo e as garras retrateis! Algumas vezes saíamos vencedores mesmo contra um ataque frontal. Quando estávamos abrigados numa saliência situada mesmo fora de alcance (e que era proporcionalmente desconfortável) e descarregávamos o nosso vocabulário de insultos no indignado focinho do agressor. Ou quando uma pedrada certeira obrigava o gigantesco atacante a afastar-se com uma enorme dor de cabeça. Lembro-me de uma vez que matamos, e prontamente devoramos, um enorme tigre dentes-de-sabre, que tinha perdido os sabres com outra vítima e pensava que nós seriamos comida mais fácil. Mas as minhas recordações mais fortes são das longas noites de espera numa posição exposta e mal fortificada, dos rugidos cada vez mais fortes do inimigo, dos olhos cintilantes e da carga final.
Não se podia fazer nada a não ser esperar e escutar, a boca seca, um buraco no estômago, o coração aos pulos, os joelhos dobrados preparados para entrarem em ação. Passamos longas noites de vigília nas piores épocas, quando parecíamos perseguidos por hordas de carnívoros que nos atacavam por turnos. Os homens iam desaparecendo, mortos de imediato ou em consequência dos ferimentos, e rapazes ainda pequenos ocupavam as primeiras filas. E eles continuavam a atacar. E então, uma noite, demos também pela ausência do Pai. Naquela manhã tinha observado a cena da carnificina deixada pela batalha da noite anterior. A sua expressão estava cinzenta de cansaço e sulcada de tristeza. Depois voltou-se e, abrindo caminho, embrenhou-se na floresta dizendo apenas:
“Voltarei esta noite. Tenho que fazer uma coisa importante”. A Mãe suspirou e continuou a ligar, com folhas e uma das peles de cobra que guardava para tais emergências, um rasgão horrível no ombro do meu irmão. Naquela noite tinha perdido Pepita, a minha irmã mais nova. Mas quando escureceu de novo, o Pai ainda não tinha voltado. Todos os dias, ao anoitecer, costumava supervisionar a reconstrução e o reforço da paliçada, insistir com todos para que comêssemos algo, nem que fossem apenas raízes e bagas, verificar os machados e afiar as lanças. Sabíamos o que significava a sua ausência — um encontro com um mamute, um pé descuidado em cima de um crocodilo — e, entristecidos, preparamo-nos para fazer o que sempre nos havia ensinado. Por fim, uma lua em forma de foice emergiu entre as estrelas e soubemos que ia ser outra daquelas terríveis noites.
Eles chegaram e olharam-nos ferozmente com os seus olhos incandescentes. Descreveram um círculo à nossa volta e continuaram, disseram à lua que tinham fome e precisavam comer, e foram caçar e de novo voltaram para nós. Então, vi aproximar-se de muito longe uma besta desconhecida só com um olho. Ainda meio adormecido, vi-a, dentro da minha cabeça, como um enorme lagarto com um vulcão a arder na testa, enquanto se dirigia implacavelmente na nossa direção, Um imenso leviatã com armadura que nos engoliria da forma mais amistosa, pondo fim àquela insuportável situação. E caminhava ao nosso encontro, esmagando criaturas mais pequenas, cada vez mais perto, maior e mais brilhante, determinado a apanhar-nos antes que os leões e os leopardos escolhessem os melhores petiscos ou os lobos se precipitassem, vorazes, sobre nós. E exatamente quando todos os dentes da selva pareciam convergir para a nossa paliçada, de súbito a estranha besta saltou, pequena, ágil, castanha e bípede, para o meio de nós e rasgou a escuridão da noite com uma brecha vermelha. Era o Pai, de mão levantada bem ao alto. E, na sua mão, cativo num pau, cintilando e fumegando ameaçador, afastando a selva muito para além do salto de um leão, estava o fogo.
Na manhã do dia seguinte o Pai conduziu-nos, numa pequena e enlameada procissão, daquele lugar ensanguentado para a melhor caverna da região. Tinha um belo pórtico rematado por um arco, cuja largura rondaria os quatro metros e meio e a altura os seis, protegido por uma saliência rochosa, graciosamente erodida, de onde tombavam raminhos de buganvília formando uma cortina. Em frente, uma plataforma rochosa suave e polida, de agradável aspecto solarengo servia ao mesmo tempo de soleira e varanda; era flanqueada por uma alameda de cedros por onde corria um constante abastecimento de água fresca, boa para beber, tomar banho e despejar detritos. No interior, a caverna era espaçosa: a sala central tinha um comprimento superior a dez metros e meio e uma largura pouco menor com um teto abobadado. Para ambos os lados abriam-se diversas cavernas interiores e alcovas, enquanto ao fundo um túnel estreito conduzia até às entranhas das colinas. Os meus pais inspecionavam estas comodidades modernas com a maior satisfação.
— Pelo menos as pequenas terão um pouco de privacidade, — disse a Mãe.
— Cavernas interiores, — disse o Pai, espreitando para dentro do túnel. — Boas perspectivas para desenvolvimento. Morcegos, claro, mas depressa os eliminaremos. Malcheirosos, mas muito nutritivos. Um quarto privativo interior, uma, num..., uma adega, qualquer dia, quem sabe?
— E bastante espaço em frente para o depósito de lixo — disse a Mãe.
— Sim, minha querida, — concordou o Pai. — Julgo que ficaremos muito bem instalados aqui.
A caverna fora durante muito tempo o lar de uma grande família de ursos que nos fitaram estupefatos quando nos dirigimos a eles para os expulsar. Mal podiam acreditar no que viam. Deve ter-lhes parecido que o jantar estava sendo servido. Então, de repente, o Pai estava a atirar tições incandescentes para o meio deles. Rugindo de fúria e espanto, saíram de roldão da caverna, enchendo o ar com cheiro de pelo chamuscado. O seu chefe, que conhecíamos bem como o maior brigão das redondezas, carregou selvaticamente sobre nós, mas logo descobriu que não éramos presa fácil quando nos colocamos em formação para enfrentar a sua carga, machado numa mão e tição flamejante na outra. O fumo erguia-se em grandes rolos ameaçadores da nossa linha de batalha e o senhor dos ursos estacou subitamente. Os seus seguidores fitaram-no perplexos ao verem o seu campeão hesitar e rosnar em vez de nos atacar. Outro míssil flamejante saiu disparado da nossa pequena falange, deixando atrás de si um rasto curvilíneo de fumo, acertando-lhe em cheio entre os olhos, e incendiando por momentos as suas sobrancelhas espessas. Isto arrumou o assunto de vez. Dando patadas no focinho, enquanto lágrimas de dor e humilhação corriam pelo seu nariz abaixo, o senhor dos ursos bateu em retirada seguido pelo resto do seu grupo.
— Vencemos! — foi o nosso grito, transbordante de alegria mas ainda incrédulo. — Vencemos.
— Claro que vencemos, — disse o Pai. — E aprendam que a Natureza não está necessariamente do lado dos grandes batalhões. A Natureza está do lado da espécie que possui vantagem tecnológica sobre as outras. No momento, somos nós quem detém essa vantagem. — Fitou-nos fixamente, e havia um aviso no seu olhar. — Eu disse “no momento”. Não deixem que uma simples vitória vos suba à cabeça. Ainda temos uma longa caminhada pela frente, — uma longa caminhada. Mas, por enquanto, tomemos posse efetiva desta sedutora residência.
Assim, mudamo-nos para o nosso novo lar e constatamos que era uma melhoria substancial em relação a todos os outros que ocupáramos antes. Os ursos voltaram várias vezes, sobretudo quando pensavam que o Pai tinha saído para caçar, mas encontraram sempre uma fogueira luminosa e acolhedora ardendo em frente da caverna e mudaram sempre de ideia quanto a atacar-nos. Os leões e os outros felinos também vieram espreitar mas, depois de examinarem o fogo à distância, tentavam fingir que de qualquer modo já tinham um lugar melhor e partiam com toda a dignidade que conseguiam reunir, ao som das nossas gargalhadas trocistas.
— Qualquer dia — disse o Pai — pedirão que os deixemos sentar à volta desta agradável e quente fogueira.
— E nós responderemos “Põe-te a andar, vagabundo!” — disse o meu irmão Oswald.
— Talvez — respondeu o Pai pensativamente. — Ou podemos deixá-los... com certas condições.
— Eu gostaria de ter um gatinho só meu, esganiçou-se William, o meu irmão mais novo.
— Não enchas a cabeça das crianças com disparates, — disse a Mãe.

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai

13/04/2022

Por que Almocei meu Pai | 1


Quando os ventos do Norte sopravam com força, trazendo a gélida lembrança da permanente progressão da grande calota de gelo, tentávamos convencer-nos de que a poderíamos enfrentar e vencer, por mais ao Sul que avançasse, mesmo chegando à África. E, assim, tratávamos de empilhar as nossas reservas de ramos secos e pedaços de árvore em frente da caverna, fazendo uma enorme fogueira.
Era-nos difícil manter um suprimento de combustível suficiente para alimentar uma grande fogueira, ainda que com uma boa aresta de quartzito conseguíssemos cortar um ramo de cedro, de dez centímetros de espessura, em dez minutos. Eram os elefantes e os mamutes que nos mantinham quentes com o seu atencioso hábito de arrancar árvores para testarem a força das suas presas e das suas trombas. O Elephas Antiquus era ainda mais dado a este procedimento que o elefante moderno, porque tinha algumas dificuldades em evoluir, e não há nada que preocupe mais um animal em evolução do que saber como progride a sua dentição. Os mamutes, que nesse tempo consideravam a si mesmos quase perfeitos, apenas arrancavam árvores quando estavam coléricos ou quando queriam se exibir perante as fêmeas. Na época de acasalamento, apenas tínhamos de seguir as manadas para recolher madeira para o fogo, mas nas outras ocasiões uma pedrada certeira atrás da orelha de um que estivesse pastando, produzia verdadeiras maravilhas, podendo prover-nos de lenha suficiente para um mês. Conheço bem esse jogo ardiloso com os grandes mastodontes, mas um baobá arrancado pela raiz custa muito a arrastar para casa. Queima bem, mas mantém-nos a uma distância de quase trinta metros. Não faz sentido levar as coisas a esses extremos. De modo geral conseguíamos manter uma boa fogueira quando estava muito frio e as calotas de gelo do Kilimanjaro e do Ruwenzori desciam abaixo dos três mil metros.
Nas frias e límpidas noites de inverno as fagulhas voavam em direção às estrelas, a madeira verde crepitava, os ramos secos estalavam, e a nossa fogueira tinha o efeito de um enorme farol pelo Vale do Rift abaixo. Quando a temperatura do solo baixava o bastante ou a chuva cerrada trazia uma humidade que fazia estalar e doer as articulações, o tio Vanya vinha visitar-nos. Durante uma calmaria no barulho do tráfego da selva era possível ouvi-lo chegar com um som sussurrante pelas copas das árvores, pontuado por um ocasional e sinistro estalido de um ramo esforçado a partir-se, e uma praga abafada que se tornava num grito de raiva incontida quando ele acabava mesmo por cair.
Uma figura maciça chegava, por fim, arrastadamente ao círculo de luz em volta da fogueira, com os longos braços quase roçando o solo, a cabeça quadrada enterrada entre os ombros largos e peludos, os olhos ejetados de sangue, os lábios franzidos do esforço que costumava fazer para manter os caninos espetados fora da boca. Isto dava-lhe, quando acontecia, o aspecto de alguém que põe um sorriso totalmente falso numa festa de que só quer se livrar, o que para mim, como criança, era aterrorizador. No entanto, mais tarde descobri que por detrás das suas manias e excentricidades, pelas quais ele era o primeiro e único a sofrer, se escondia uma pessoa bondosa que arranjava sempre um pouco de zimbro ou alguns figos para oferecer a uma criança que ele, afetuosamente, supunha assustada com a ferocidade natural do seu aspecto.
Mas como falava! Como discutia! Mal nos saudava, inclinando a cabeça na direção da tia Mildred, mal estendia as suas pobres mãos, azuis de frio, para a fogueira, começava a investida contra o Pai, tal qual um rinoceronte de cabeça baixa, apontando o seu longo dedo acusador contra todo mundo, como se fosse a ponta do seu corno. O Pai deixava-o desabafar e descarregar os seus sentimentos, até aí reprimidos, numa torrente de denúncia. Então, depois de ele ter se acalmado um pouco e comido talvez uns ovos de epiórnis e uns duriões, o pai juntava-se à refrega, travando as investidas do tio Vanya com as suas brandas e irónicas interjeições, reduzindo-o por vezes a um silêncio estupefato, ao admitir alegremente as suas barbaridades e ao gabar-se delas com orgulho.
Acredito que no fundo gostavam muito um do outro, apesar de terem passado a vida inteira em violento desacordo. E dificilmente seria de outro modo, uma vez que eram homens-macaco de inabaláveis princípios, vivendo em estrita concordância com as suas crenças, as quais eram totalmente opostas em todos os aspectos. Cada um seguia o seu próprio caminho, firmemente convencido que o outro estava tragicamente enganado quanto ao rumo de evolução da espécie antropoide. A sua relação pessoal, embora atravessada por estas disputas, mantinha-se incólume. Discutiam, por vezes gritavam um com o outro, mas nunca chegavam a vias de facto. E, apesar de normalmente partir furioso, o tio Vanya acabava sempre por voltar.
A primeira discussão de que consigo lembrar-me entre os dois irmãos, tão diferentes em aparência e comportamento, foi sobre a questão de dispor ou não de uma fogueira acesa nas noites frias. Eu estava acocorado bem longe daquela coisa vermelha, revolteante, ferida mas voraz, olhando o pai a alimentá-la com uma esplêndida mas circunspecta indiferença. As mulheres estavam agachadas em monte, tagarelando enquanto se catavam umas às outras. A minha mãe, que ficava sempre um pouco à parte, contemplava o Pai com os seus olhos sombrios e melancólicos, enquanto mastigava papa para os bebés já desmamados. O tio Vanya surgiu no meio de nós como uma figura ameaçadora que falava em tom de condenação.
— Desta vez arranjaste-a bonita! Edward — trovejou ele — Eu devia ter adivinhado que isto iria acontecer mais tarde ou mais cedo, mas pensei que, mesmo para a tua loucura, havia limites. Mas claro que estava enganado! É só voltar as costas por uma hora e venho encontrar-te com uma nova idiotice. E agora isto! Edward, se alguma vez te avisei, se alguma vez te implorei, como teu irmão mais velho, para pensares duas vezes antes de continuares no teu catastrófico rumo, para arrepiares caminho antes que te envolvas a ti e aos teus num desastre irremediável, deixa agora que te diga com redobrada ênfase: Para! Para, Edward! Antes que seja tarde demais — se realmente ainda vais a tempo, pára...
O tio Vanya recuperou o fôlego antes de acabar este discurso impressionante mas obviamente difícil de levar a bom termo, e o Pai aproveitou para intervir.
— Ora viva, Vanya, há muito tempo que não te víamos por aqui. Vem aquecer-te, meu caro. Por onde tens andado?
O tio Vanya fez um gesto de impaciência.
— Não muito longe. Tem sido uma estação bastante fraca para a fruta e os vegetais de que tanto depende a minha dieta...
— Eu sei — disse o Pai num tom compreensivo. Parece que, apesar de tudo, sempre vamos entrar num período interpluvial. Tenho notado como a seca tem se alastrado ultimamente.
— Mas não é só isso, de maneira alguma — continuou o tio Vanya irritado. — Há muito para comer na floresta se soubermos procurar. Acontece que cheguei à conclusão que na minha idade devo ter cuidado com aquilo que como. Daí que, como faria qualquer primata razoável, fui um pouco mais longe para encontrar o que queria. Até ao Congo, para ser exato, onde há de tudo e em muita quantidade para toda a gente, sem que tenhamos de fingir ter os dentes de um leopardo, o estômago de um bode ou o gosto e as maneiras de um chacal.
— Estás exagerando, Vanya — protestou o Pai.
— Voltei ontem — continuou o tio Vanya — já com a intenção de te fazer uma visita. Ao anoitecer, como é lógico, percebi que havia alguma coisa errada. Tenho conhecimento de onze vulcões nesta região, Edward, mas doze!? Soube logo que vinham problemas por aí e pressenti que tu estavas na sua origem. Esperando sinceramente estar enganado, mas no fundo com receio, apressei-me a chegar aqui. Mas tinha mesmo razão! Vulcões privados, francamente! Desta vez arranjaste-a bonita, Edward!
O Pai sorriu com malícia.
— Achas mesmo, Vanya? — perguntou. — Quero dizer, será mesmo este o momento decisivo? Eu pensei que pudesse ser, mas é difícil ter a certeza. É com certeza um momento decisivo na ascensão do homem, mas será o momento decisivo?
O Pai semicerrou os olhos numa expressão de bem-humorado desespero que lhe era característica em determinados momentos.
— Não sei se é um momento decisivo — disse o tio Vanya —, nem me interessa o que pensas que andas fazendo, Edward. A passar das marcas, talvez. Digo-te é que isto é a coisa mais perversa e antinatural...
— E antinatural, não é? — interrompeu bruscamente o Pai. — Mas, pensando bem, Vanya, tem havido sempre um elemento artificial na vida sub-humana desde que adotamos os primeiros artefatos de pedra. Talvez tenha sido esse o passo decisivo, e isto seja simplesmente o seu desenvolvimento. E mesmo tu utilizas lascas de sílex, portanto...
— Já falamos disso outras vezes — disse o tio Vanya. Dentro de limites razoáveis, as ferramentas e os artefatos não transgredem a natureza. As aranhas apanham a presa através da sua teia; os pássaros constroem melhores ninhos do que nós; e muitas são as vezes que apanhas com um coco na tua dura cabeça atirado por um macaco, como bem sabes. Se calhar foi isso que te deu cabo do juízo. Ainda há poucas semanas vi um bando de gorilas dar uma sova num grupo de elefantes — elefantes, vê bem! — com paus. Estou disposto a aceitar que simples pedras lascadas estejam de acordo com a natureza, desde que não nos tornemos demasiado dependentes delas e não seja feita qualquer tentativa indevida de aperfeiçoá-las. Eu não sou um conservador, Edward, e aquilo ainda aceito. Mas isto, Edward! Isto é bem diferente. Isto pode acabar sabe-se lá onde. Afeta todo mundo.
Até a mim. Com isto podes queimar toda a floresta. E depois para onde é que eu vou?
— Não penso que chegue a tanto, Vanya — disse o Pai.
— Ah não? Então pergunto, Edward, és capaz de controlar totalmente essa coisa?
— Hummm... mais ou menos. Mais ou menos, sabes...
— Que queres dizer com mais ou menos? Ou és capaz ou não és. Deixa-te de evasivas.
Podes apagá-la, por exemplo?
— Se não a alimentar apaga-se por si mesma — disse o Pai na defensiva.
— Edward, — disse o tio Vanya. — Eu aviso-te. Começaste algo que podes não conseguir parar. Pensas então que se apaga se não a alimentares! E já te ocorreu que pode um dia resolver alimentar-se a si própria? E nesse caso o que poderás tu fazer?
— Isso ainda não aconteceu — disse o Pai, zangado. A verdade é que perco todo o meu tempo mantendo-a acesa, sobretudo nas noites úmidas.
— Nesse caso, o meu mais veemente conselho é que não a mantenhas acesa mais tempo — disse o tio Vanya — antes que provoques uma reação em cadeia. Há quanto tempo é que andas brincando com o fogo?
— Oh, já o descobri há alguns meses — disse o Pai. E, sabes Vanya, é a coisa mais fascinante que existe. As possibilidades são fantásticas. Há tanta coisa que se pode fazer com ele. Muito para além do mero aquecimento central, embora já seja um grande passo em frente. Ainda mal comecei a trabalhar as suas possíveis aplicações. Mas considera apenas a fumaça: acredites ou não, sufoca as moscas e afugenta os mosquitos. Claro que o fogo é um material complicado. É difícil de transportar, por exemplo. Tem um apetite voraz: come como um cavalo. É maldoso e, se não tiveres cuidado, a sua picada é muito dolorosa. E é de fato uma novidade, abrindo boas perspectivas de…
Mas, de repente, ouviu-se um grito estridente e o tio Vanya começou aos saltos num só pé. Eu tinha estado observando com grande interesse o fato de, já há algum tempo, ele estar pisando em um tição em brasa. Estava tão excitado com a discussão com o Pai, que não dera por nada, e muito menos pelo barulho ciciante ou pelo peculiar cheiro que se seguiu. Mas agora a brasa tinha atravessado a planta do pé.
— Aaaaaah! — rugiu o tio Vanya. — Edward, seu maldito louco! Mordeu-me! Foi isso que o teu infernal monte de artimanhas fez! Aaaaah! O que é que eu te tinha dito? Vai acabar por vos comer a todos! A sentar-se em cima de um vulcão em atividade, é o que vocês estão fazendo! Não te digo mais nada, Edward! Vão ser extintos, todos vocês, num abrir e fechar de olhos! Conseguiste! Aaaaah! Eu vou voltar para as árvores! Desta vez passaste da medida, Edward! Foi exatamente isso que os Brontossauros fizeram!
Coxeando, afastou-se até o perdermos de vista, mas os seus uivos ouviram-se no mínimo durante mais quinze minutos.
— De qualquer maneira, acho que foi o Vanya quem passou dos limites — disse o Pai a Mãe enquanto varria cuidadosamente a soleira com um farfalhudo ramo de árvore.

Roy Lewis, in Por que Almocei meu Pai