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13/05/2024
19/04/2023
02/03/2022
Rosa | Pixinguinha e Otávio de Souza, 1937
A
valsa de Pixinguinha repousava esquecida na voz de Orlando Silva até
Marisa Monte relançá-la em 1991, acompanhada pelo pianista e
compositor japonês Ryuichi Sakamoto, em seu segundo álbum solo,
Mais.
Uma
façanha surpreendente, porque, se a belíssima melodia de
Pixinguinha era de construção sofisticada, a enorme letra de Otávio
de Souza já soava arcaica quando foi lançada por Orlando Silva em
1937. Tanto na construção rebuscada das frases quanto no abuso de
palavras que começavam a cair em desuso, hoje relegadas aos
dicionários, como “olor”, “lanceado”, “remir”, “olente”…
Mas as literatices inflamadas não impediram o retumbante sucesso na
época, em grande parte ajudado por “Carinhoso”, o lado A do 78
rpm lançado pela RCA Victor.
“Tu
és divina e graciosa / Estátua majestosa do amor / Por Deus
esculturada / E formada com ardor / Da alma da mais linda flor / De
mais ativo olor / Que na vida é preferida pelo beija-flor.”
Orlando
teria conhecido as duas músicas quando participou de uma serenata a
convite de Pixinguinha. Era a festa de um casamento em Bangu, e a
certo momento da noite o compositor mostrou a letra que João de
Barro tinha feito para o choro “Carinhoso” e também a então
inédita “Rosa”. Faro apurado, Orlando quis gravar as duas, o que
fez numa única sessão, em 28 de maio de 1937, para o disco lançado
um mês depois.
Na
época da gravação de Orlando Silva, compositores como Noel Rosa,
Ary Barroso e Lamartine Babo já tinham incorporado com sucesso a
linguagem coloquial das ruas às suas canções, muitas delas usando
construções e termos que poderiam ser escritos hoje. Apesar de seu
romantismo exacerbado (ou por isso mesmo), “Rosa” bateu fundo no
coração do público de Orlando. E refloresceu mais bela ainda cinco
décadas depois na voz de Marisa, em gravação intimista, que contou
apenas com o piano e os teclados de Sakamoto e a cuíca de Armando
Marçal.
Nelson
Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
21/02/2022
Carinhoso | Pixinguinha e João de Barro, 1937
Esta
é daquelas que parecem ter sempre existido no coração de
brasileiros de diversas gerações. Mas até chegar a esse status
permaneceu por duas décadas ignorada. Inicialmente sem letra, foi
escondida pelo próprio compositor, Pixinguinha (Alfredo da Rocha
Vianna Filho, 1897-1973), que tinha 20 anos quando, em 1917, criou a
melodia. Inseguro pelo fato de aquele ser um choro fora dos padrões
habituais do gênero, com apenas duas partes quando o normal eram
três, ele deixou a partitura guardada na estante. Só em 1928, o
também flautista, saxofonista, arranjador e maestro finalmente
decidiu gravar “Carinhoso”, em disco de 78 rpm lançado pela
Orquestra Típica Pixinguinha-Donga. Dois outros registros
instrumentais foram feitos, em 1929 e 1934, mas sem muita
repercussão.
A
história de sucesso sem fim de “Carinhoso” só iria começar em
1937, quando a canção foi lançada em disco por Orlando Silva, um
dos grandes cantores da época, já com os versos feitos por João de
Barro, ou Braguinha, como também ficou conhecido Carlos Alberto
Ferreira Braga (1907-2006). Carioca de classe média, Braguinha
trocou a faculdade de Arquitetura pela música popular após ter
participado do Bando dos Tangarás, ao lado de Noel Rosa e Almirante.
Com
letra simples, uma cantada escancarada e direta na melhor tradição
romântica brasileira, “Carinhoso” foi esnobada por dois outros
grandes cantores da época, Francisco Alves (1898-1952) e Carlos
Galhardo (1913-1985), ambos com mais prestígio do que Orlando Silva.
Este, já no auge de sua técnica vocal e pronto para se tornar o
Cantor das Multidões, aceitou a missão e não se arrependeu.
Lançado num 78 rpm que vinha acompanhado de “Rosa”, outro
clássico de Pixinguinha, o samba-choro virou um sucesso instantâneo
e foi adotado como o prefixo musical do cantor. O que não impediu
que, a partir daí, “Carinhoso” também entrasse no repertório
de todos os grandes intérpretes brasileiros, regravado por Elizeth
Cardoso, Ângela Maria, Sílvio Caldas, Dalva de Oliveira, Elis
Regina, Maria Bethânia e muitos outros.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
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