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22/07/2014
31/01/2014
12/10/2013
Zélia Duncan - Borboleta
Música é que nem borboleta, ela voa pra
onde quer
Ela pousa em quem quiser, não é homem e nem mulher
Música que sai da gaveta, se traveste na voz de alguém
Quando entra dentro da cabeça, não é sua e nem de ninguém.
Ela pousa em quem quiser, não é homem e nem mulher
Música que sai da gaveta, se traveste na voz de alguém
Quando entra dentro da cabeça, não é sua e nem de ninguém.
Te invade, te assalta e te faz refém
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Se não decorar a letra, pode cantar
"na-na-ná-na-nahã"
A melodia pode assoviar, pode até dar um berro pode berrar
Às vezes ela é como um ladrão ou como um convidado trapalhão
Depois que entra não quer mais sair, quer repetir, repetir, repetir.
A melodia pode assoviar, pode até dar um berro pode berrar
Às vezes ela é como um ladrão ou como um convidado trapalhão
Depois que entra não quer mais sair, quer repetir, repetir, repetir.
Te invade, te assalta e te faz refém
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Verde, branca, azul ou vermelha, também
tem música de toda cor
De acalanto, de baile, de amor, de restaurante, de elevador
Música que tem borboleta sai do casulo do alto-falante
Do carrossel e da roda-gigante, pra que você e todo mundo cante.
De acalanto, de baile, de amor, de restaurante, de elevador
Música que tem borboleta sai do casulo do alto-falante
Do carrossel e da roda-gigante, pra que você e todo mundo cante.
Te invade, te assalta e te faz refém
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Se a rima não vem já sabe, bater palma com a mão
E quando chegar o refrão, bater com os pés no chão.
Composição:
Marcelo Jeneci
24/04/2013
22/06/2011
A alegria é a prova dos nove
Existem vários tipos de músicos e formas de lidar com a música, obviamente de acordo com o talento e as escolhas de cada um. Há compositores diversos que não tocam instrumentos, porém compõem de boca, como se diz, verdadeiros clássicos. Alguns se resolvem em caixinha de fósforo, o que também é uma arte. Ciro Monteiro e Elton Medeiros não me deixam mentir. Que os cigarros desapareçam se for o caso, mas nunca essa chama em pacotinho, promessa de suingue tão brasileiro!
Há os compositores-mestres, que dominam com singularidade seus instrumentos, como por exemplo, João Bosco, Ivan Lins, Chico Buarque, Joyce, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento, Luiz Tatit. Alguns da minha geração, Chico Cesar, Lenine, Moska, Pedro Luis, Zeca Baleiro. Há os compositores-maestros, como Tom Jobim, Radamés Gnatalli, Francis Hime, Edu Lobo. Os dois últimos foram recentemente convidados da OSESP, orquestra paulista , a mais importante da América Latina, para orquestrarem peças próprias, executadas por cordas, madeiras, metais, coro e tudo mais que se espera de uma grande orquestra.Há ainda os autodidatas geniais como Itamar Assumpção ou os sábios irreverentes, como Tom Zé e Jorge Mautner.
A gente sempre esbarra, em algum momento da vida, com aquela antológica foto de Pixinguinha na cadeira de balanço. É muito bonito constatar a relação de um grande músico com seu instrumento. O saxofone é como uma extensão de suas mãos, um link de harmonia com o céu que ele contempla ali. A visão da completude.
Quando ainda morava em Brasília, fui assistir ao Hermeto Pascoal. Reza a lenda (olha ela aí!) que, antes do show, vez em quando, ele invade seu próprio palco e “rouba” as partituras dos músicos . Foi um show que me marcou pra sempre, pois além de vê-lo tocando não só os convencionais instrumentos, tocou chaleira. Isso mesmo, chaleira, aquela que esquenta água pro café. Ao final, foi saindo do palco, em fila indiana com sua banda que, seguida por toda plateia, deu a volta no teatro pelo lado de fora. Nós todos fomos seguindo aquela literal mistura de flautista de Hamelin com Papai Noel, sem questionar, apenas constatando o quanto a vida pode ser surpreendente e alegre. Procurem assistir a um video dele com sua trupe, dentro dágua, soprando uns vidros. É de outro mundo. Hermeto diz que quando você não toca o instrumento, ele te abandona…
Outro mago impressionante é o amado percussionista Naná Vasconcelos. Naná viveu durante muitos anos fora do Brasil, tocou com grandes nomes internacionais. Hoje mora em Olinda, comanda a abertura do carnaval de Recife, entre muitas outras coisas. Naná é envolvido com as nações de maracatu, coisa séria e profunda. Tem vários álbuns gravados e o dom de hipnotizar a platéia e fazê-la cantar sons da natureza. Uma coisa de louco, uma epifania coletiva. Certa feita, num ensaio, ele começou a olhar pro teto e perguntar: “hã?” Todo mundo fez silêncio e ele continuava, “hã? O que? Ah, o suingue? Calma, já tá chegando!” e caiu na gargalhada! E ainda sabe cozinhar esse Naná! Ora, ora, Deus às vezes não é justo!
Mas creio que o primeiro a quem assisti ao vivo foi Egberto Gismonti, que lançou álbuns antológicos pela lendária gravadora ECM. No show, anos 80, ele trazia a novidade de um sintetizador no palco, o tal do OBXA. Tudo parecia vir de outro planeta. Recomendo um álbum em especial, onde ele toca apenas violão, se não me engano, chamado Solo. Não, não, tem o Água e Vinho, ou melhor, um que se chama Palhaço, não, nada disso, fechem os olhos, escolham qualquer um, a viagem é certa.
Tive o privilégio de ver Raphael Rabello e seu sete cordas ao vivo, o que também era uma experiência à parte. O cara tinha um coração em cada mão e uma técnica absurda. E ainda uma característica muito interessante: adorava acompanhar eventualmente uma voz, coisa que não é comum entre vistuosos. Fã incondicional da diva Elizeth Cardoso, gravou com ela - quando ele já era uma grande estrela de seu instrumento -, um álbum vigoroso, apaixonado e não à toa intitulado Todo Sentimento. Ouça e se chorar, saiba que não foi o primeiro e nem será o último.
Tudo isso veio à tona em minha memória porque fui convidada para um “pequeno” sarau, onde Hamilton de Holanda e Yamandu Costa tocariam um arranjo especial de Noel Rosa, para um pequeno grupo de pessoas amigas.
Pra falar de Hamilton e sua obra, que já é vasta, precisaria de um post só pra isso. Assim como Yamandu, esse gaúcho arretado, que já tem estrada e reconhecimento de sobra por aí. Mas os dois juntos causam uma terceira sensação que ficou marcada em quem esteve presente. Eles nos “enganaram”, dizendo, “vamos ensaiar primeiro”! Digo enganaram, porque tudo ali soa encontro, tudo parece certo, até os descaminhos e atalhos. Um olhar aqui, uma franzida de testa ali, uma risada que só eles entendem e lá vem a melodia de Noel, descendo a ladeira, pra subir de novo logo ali. E são desempenhos tão elevados, que tudo parece muito fácil. Parecia que, se eles parassem, a música prosseguiria. E de repente a rainha Alcione, que já tinha cantado e calado tudo que é passarinho, desvenda: “vocês parecem duas crianças!”. Bingo! Alegria de criança! É exatamente isso. O segredo desses dois caras ali, fazendo misérias… e sorrindo, como quem solta uma pipa, ou anda num carrinho de rolimã, cujo freio existe, mas ninguém aciona. Improvisar é meio isso. O freio improvável.
Tive o privilégio de gravar e viajar com Hamilton. Ele foi o único músico até hoje que olhava pra mim, no meio da canção, nós dois marejados de música, enquanto seus dedos não largavam das dez cordas de seu bandolim e sussurrava:” tá lindo!”.
Não posso deixar de pensar que a alegria emocionante do músico brasileiro, que se sente bem resolvido com sua profissão, sempre o vai diferenciar do resto do mundo. Não essa alegria tipo exportação surtada, mas a alegria que foi detectada faz tempo, por Oswald de Andrade. Aquela que não desgruda da gente quando desfrutamos da nossa mistura e quando estamos sendo nós mesmos.
Zélia Duncan, in Revista Piauí n° 57 (junho)
14/06/2011
Porta de Luz
De onde vem
Essa mania de saber
Como é bom
Quando estou perto de você
Parece o mundo
Que acabou de começar
Num movimento
De paixão e de silêncio
Essa mania de saber
Como é bom
Quando estou perto de você
Parece o mundo
Que acabou de começar
Num movimento
De paixão e de silêncio
De onde foi
Que essa estrela apareceu
Que oceano ou que céu iluminou
A minha estrada tão comprida
Vai chegar ao seu final
Quando abraçar você
Que essa estrela apareceu
Que oceano ou que céu iluminou
A minha estrada tão comprida
Vai chegar ao seu final
Quando abraçar você
Só agora compreendi
Que o caminho que segui
Veio dar na sua porta de luz
Tudo agora está tão fácil
E seguro para nós
Minha voz está bem dentro da sua
Que o caminho que segui
Veio dar na sua porta de luz
Tudo agora está tão fácil
E seguro para nós
Minha voz está bem dentro da sua
Se for buscar
Aquele sonho
Eu vou
Para provar
Que amo só você.
Aquele sonho
Eu vou
Para provar
Que amo só você.
Composição: Zé Ramalho
23/05/2011
A mulher que canta
A música sempre me pareceu ser a arte mais imediata de todas, a que mais tem a capacidade de nos assaltar nas mais surpreendentes ocasiões. Claro que as artes plásticas também têm essa capacidade de, de repente, nos transportar pra outro mundo, só por uma combinação de cores ou da falta delas. Mas a música é assim, mais despudorada e invasiva. Música tem cheiro, música é teletransporte. Quando eu era bem adolescente, me sentia mulher feita ouvindo certos sons que tinham profundidade. Hoje, mulher feita, posso voltar aos dias mais fresquinhos da juventude, por causa de um refrão ou do timbre de uma voz.
Outro dia fui ao cinema. Taí outra arte que me desbunda, me arrebata, me leva pra onde quiser. E faz o que quer da música. Quando os filmes eram mudos, havia o carinha tocando piano ao vivo nas sessões. O cinema não pode – nem deve – abrir mão da música. No cinema, música é imagem. O filme nada tinha de especialmente musical, pelo contrário, ali a música auxiliava nos climas, mas não tinha um papel determinante na história toda. Porém, no meio de um roteiro duro, em que uma mulher jovem, que morava numa aldeia do Líbano nos anos 70, transgride e vê seu namorado ser assassinado por seus irmãos, ao mesmo tempo em que se descobre grávida, um detalhe me tocou especialmente. Essa mulher, por motivos religiosos e políticos, comete um delito e vai parar numa terrível prisão, onde passa quinze longos anos de sua vida, sendo torturada, obviamente. Mas com uma força interior impressionante, essa mulher vira meio que uma lenda, porque numa noite, em meio aos gritos de outra cela, ela começa a cantar baixinho. Não, não tinha uma extensão impressionante, e nem virou uma pop star, pois o filme é canadense e não americano! Mas ela canta pra achar uma saída pra sua sanidade. Você não fica ouvindo a mulher cantar durante o filme, mas ela fica conhecida e de certo modo respeitada na sua dor, porque se tornou "a mulher que canta".
O canto, de certo modo, salvou sua vida e deixou um rastro para que alguns mistérios fossem desvendados. Inevitavelmente, me lembrei do filme Piaf. Há uma cena, entre tantas emocionantes, que me marcou profundamente. Quando, já na fase final, ela cai no palco, diante de uma plateia repleta, seu empresário manda as cortinas baixarem, a leva pro camarim, dizendo que terminou. Piaf entra em total desespero e implora a ele que volte atrás. Ela diz algo como: “você não entende, eu não tenho outra opção, eu tenho que voltar”. O pedido é tão dramático e verdadeiro, que eles a levam de volta ao palco, ela ainda consegue cantar de novo, mesmo que por pouco tempo. Era um pedido de socorro.
A grande Billie Holiday, dama definitiva do jazz, com sua voz de carne viva, tem uma história de vida que também parece fantasiosa de tão surpreendente. Aos 14 anos já vivia a prostituição e, mais tarde, desesperada pela falta de dinheiro, caminhando pelas ruas do Harlem, resolve entrar num estabelecimento que dizia admitir dançarinas. Billie, dançarina desastrosa, acaba por acaso fazendo também um teste para cantar e se torna a cantora mais comovente que já se ouviu, até os dias de hoje. Seu timbre carrega a dureza de sua vida, seus vícios e possíveis alegrias. Viciada em heroína, numa audição que nem precisa ser especializada, percebe-se a mudança da voz com o passar do tempo. Não menos comovente e importante, porém menos melódica, mais arranhada. Billie sobreviveu e deu algum sentido à sua vida, graças à sua voz, que estava ali, esperando por ela o tempo todo.
A voz é um instrumento misterioso. Ela mora dentro da pessoa. Não existe luthier possível, é você e ela. É uma extensão do corpo porque se expressa através dele e por causa dele. Então fica tudo ali, corpo físico e sentimento, mais a história de cada um, que vai influenciar não só o jeito de cantar, mas as escolhas.
Adoro ouvir atentamente as gravações de grandes cantoras, ligada nas suas respirações. Quando elas puxam o ar, já existe uma intenção que emociona. Claro que vai depender do tipo de gravação e de música. Recomendo Ella Fitzgerald e Joe Pass, voz e guitarra, e, para dar um exemplo mais próximo de nós, Elis e Tom. Um álbum sensacional, clássico, gravado em Los Angeles em comemoração aos dez anos de carreira de Elis Regina. Ouçam “O que tinha de ser”, de Tom e Vinicius. Se liguem na voz e chorem com Elis ao final.
A gravação de Gal Costa da canção “Minha voz, minha vida” soa aos ouvidos (aos meus!) como uma oração. É perturbador guardar dentro de si, de forma tão literal, a razão maior da sua vida. Saber que mora ali, no seu corpo, o que vai ser sua expressão nesse mundo. Naqueles dois musculozinhos chamados cordas vocais e que são muito mais que isso pra quem vive delas.
“A mulher que canta” comove no filme – que se chama Incêndios – porque, cantando, consegue superar e sobreviver às torturas que lhe foram impostas. Em nada difere de Billie, Piaf, Gal, Elis e tantas outras.
Zélia Duncan, in revista Piauí.
30/04/2011
Naquela mesa
Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.
Composição: Sérgio Bittencourt
Chora o cavaco de Nilze, envolve a voz de Zélia, mas o Bandolim magistral de Hamilton de Holanda se sobrepõe.
Chora o cavaco de Nilze, envolve a voz de Zélia, mas o Bandolim magistral de Hamilton de Holanda se sobrepõe.
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