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27/02/2012

Turing, criptógrafo

Turing, criptógrafo

O Reino Unido celebra este ano o centenário de nascimento de um de seus mais importantes cientistas do século 20: o matemático Alan Turing. Lembrado como um dos pais da computação, ele foi também o nome mais conhecido da equipe britânica que decodificou o sistema infernal de criptografia usado pela marinha alemã na Segunda Guerra Mundial: as máquinas Enigma.
Esses dispositivos eletromecânicos tinham uma série de rotores que permitiam embaralhar as letras com bilhões de combinações diferentes, de forma virtualmente indecifrável. O sistema foi usado comercialmente nos anos 20 e depois apropriado pelos militares para suas comunicações estratégicas. Eles acreditavam se tratar de um código impossível de ser quebrado.
Os primeiros a quebrar o sistema foram os poloneses liderados pelo matemático Marian Rejewski, no início dos anos 1930, num dos feitos mais importantes da criptografia do século 20. Sem que os alemães soubessem, os criptógrafos poloneses interceptaram e decifraram suas mensagens ao longo daquela década. Antevendo a iminência da guerra, eles dividiram suas informações com os ingleses e franceses – poucos dias depois, a Polônia foi invadida pela Alemanha.
A informação foi essencial para que o grupo de Alan Turing pudesse quebrar a Enigma naval, uma versão posterior mais complexa do sistema de cifragem. Com Gordon Welchman, Turing projetou a Bombe, uma máquina capaz de identificar os ajustes dos rotores usados na cifragem das mensagem pelos alemães. O grupo de criptoanalistas britânicos trabalhou em Bletchley Park, 80 km a noroeste de Londres. No mesmo lugar, funciona hoje o Museu Nacional da Computação e o Centro Nacional de Códigos, um museu de criptografia que abriga uma coleção de máquinas Enigma.
Embora seja hoje amplamente reconhecido por seus feitos para a computação e a criptografia, Alan Turing teve um fim melancólico. Em 1952,  foi condenado por manter um relacionamento homossexual – considerado um crime no Reino Unido naquela época. Foi obrigado a se submeter a uma ‘organoterapia’ – eufemismo para castração química. Suicidou-se dois anos depois, aos 41, envenenado por cianureto.
Em 2009, o então primeiro-ministro Gordon Brown disse que o matemático recebera um tratamento “aterrorizante” e “totalmente injusto”. Sua condenação, no entanto, foi mantida. Na semana passada, o Reino Unido perdeu a oportunidade de anistiar um de seus maiores heróis científicos, quando a Câmara dos Lordes rejeitou um pedido de perdão póstumo a Alan Turing, possivelmente para não ter que estender o benefício a outros cidadãos. O abaixo-assinado eletrônico cobrando do governo o perdão a Turing já tem mais de 30 mil adesões.
Bernardo Esteves, in Revista Piauí

18/09/2011

O torneiro e o poeta

Inspirado por Drummond, metalúrgico quer viver dos seus versos
Há três anos, quem ousasse falar de poesia a Rodrigo Inácio seria recebido com um olhar atravessado de reprovação. Era melhor que ficasse longe, guardando um perímetro seguro do interlocutor. O jovem metalúrgico tinha uma opinião fechada sobre quem gostava de versos e rimas. “Eu achava que poesia era coisa de viado”, lembrou, sem tergiversar. Tudo mudou quando precisou correr atrás de palavras definitivas para se dirigir a uma moça. Ciente das próprias limitações lexicais, viu-se obrigado a consultar o grande repositório da sabedoria universal e foi ao Google. No campo de busca, Inácio digitou “Frases bonitas”. No primeiro clique, deparou-se com o poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Os versos que leu na tela não contribuíram para melhorar seu juízo sobre os poetas. “O cara deve ser idiota para escrever um negócio desses”, concluiu, no que foi a sua primeira crítica literária.
Inácio não se deu por derrotado. Por ironia, acabou gostando mesmo foi de um verso atribuído erroneamente a Drummond na internet – aquele que diz que “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Aquilo, sim, soava bem. Esmerou-se na escolha da fonte e despachou o verso à sua bela, que respondeu dizendo ter achado “interessante”. A reação foi suficientemente animadora para incentivar Inácio a gastar mais Drummond para cima da moça – agora do legítimo, não do falsificado. Num sebo, comprou O Amor Natural para dar-lhe de presente. Não sabia, claro, que aquele era o livro de poemas eróticos do autor, no qual línguas lambem pétalas vermelhas e o poeta suga e é sugado pelo amor. O rapaz se envergonhou de lembrar do caso. “Você é um besta de me mandar um livro daqueles”, foi a resposta que a menina lhe deu.
Para não repetir gafes dessa magnitude, Inácio passou a estudar com afinco a obra de Drummond. Ficou abismado quando leu “Memória” (“As coisas tangíveis/ Tornam-se insensíveis/ À palma da mão/ Mas as coisas findas/ Muito mais que lindas,/ Essas ficarão”). Era muita frase bonita para um poema só. Inácio ficou de bem com o autor mineiro. Mas continuou encucado com “No meio do caminho”. “Só depois de passar um longo tempo amistoso com Drummond é que fui entender e gostar desse poema”, explicou, em um notável exercício de revisão no qual muitos críticos deveriam se espelhar.
De Drummond para outros autores foi um pulo. Inácio continuou exigente. “Vinícius de Moraes era muito mulherengo”, não demorou a constatar. Experimentou também um pouco de prosa. Encantou-se com Clarice Lispector. Gostou de A Hora da Estrela e A Paixão Segundo G. H. “Acho que, no fundo das palavras dela, há um certo tom de feitiçaria”, ponderou. “Ela era bem doida. Tadinha, morreu de câncer.”
Aos 21 anos, Inácio mora em Diadema, na periferia de São Paulo. Para ir e voltar do serviço, no bairro do Ipiranga, na capital, pega seis conduções diárias, entre ônibus, trólebus e trem. Estudou só até o 3º ano do ensino médio. Como preparador de torno no ramo industrial, ganha dois salários mínimos. Mesmo assim, pagou 200 reais num raro disco de vinil intitulado Antologia Poética, em que Drummond declama seus versos.
Sem receio de melindrar seu ídolo, Inácio disse que queria comprar também o disco de poemas de Cecília Meirelles. “Mas o dela está a 450”, lamentou, após pesquisar na internet. A triste verdade é que os áureos dias de Drummond já se foram. “Hoje gosto mais da Cecília”, admitiu o torneiro. “Não estou desmerecendo Drummond, mas a Cecília, além de ser linda, muito linda, escreve muito bem”, derreteu-se.
Para o jovem metalúrgico, o único problema com sua paixão pela poesia é não ter com quem conversar. No serviço, há quem ache que Rodrigo Inácio é viado. “Mas eu não ligo”, assegura. A única pessoa com quem fala sobre poemas é uma garota que conheceu num ponto de ônibus. Ele puxou assunto quando viu que conhecia o livro que ela lia – Pollyanna. “É sobre uma menina bobinha que acha que tudo no mundo é belo”, explicou.
Com familiaridade crescente com as letras, era natural que Inácio acabasse tendo vontade de desenvolver sua própria produção poética. Começou a fazer poemas, alguns sobre amores malfadados, outros inspirados pelas coisicas do cotidiano. “Já escrevi um poema porque vi um pássaro voando.” Diz já ter pelo menos uns trinta. Tudo na gaveta. “A crítica é inevitável, mas tenho medo de as pessoas acharem os poemas tristes”, alegou para justificar o ineditismo. Mas o pior mesmo, disse o torneiro, é quando alguém lê e não entende os versos. Poesia não é remédio para precisar de bula.
O poeta Rodrigo Inácio hesitou, mas criou coragem e mostrou alguns de seus escritos tirados de uma pasta. Um poema chamado “Canção esmorecida” trata da insignificância da existência e da passagem inexorável do tempo. “Apenas uma árvore triste que sou/ Tão fria e tão silenciosa/ Que não sente o tempo passar/ Que não sabe se ama ou gosta”, dizem os primeiros versos. A estrutura se repete nas estrofes seguintes. A última delas é melancólica: “Apenas uma simples hera que sou/ Que olha o mundo inteiro passar/ Que observa cada rosto/ Mas que não sabe até quando irá durar.”
O uso de “hera” e outros termos do registro mais erudito é herança daquele que um dia desdenhara. “É Drummond.” Inácio gostaria de trocar o torno pela pena. Chegou a pedir a uma amiga, que é professora, aulas particulares de metrificação. Como pagamento, está disposto a oferecer o próprio disco do Drummond, o seu maior tesouro.
Daqui a um ou dois anos, pretende largar a metalurgia e começar a trabalhar com tecnologia da informação, uma carreira que paga bem e lhe permitirá conciliar a sonhada faculdade de letras. Para isso, será inevitável estudar ciências exatas para o vestibular. Inácio não vê essa perspectiva com serenidade. “O cara que descobriu a matemática, mano, tem que morrer de madeirada”, queixou-se. Vai ser uma pedra no seu caminho.
Fábio Fujita, in Revista Piauí n° 60