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21/01/2021

Nós

A píton engole qualquer coisa por inteiro.

Isso é tudo, no fim, uma litania de loucura – as cores, os sons que faz em noites pesadas, o gorjeio no ombro pela manhã. Pense em breves insanidades dentro de você, não apenas as que floresceram conforme você se tornava uma versão mais alta e pecaminosa de si, mas as que nasceram com você, escondidas atrás do fígado. Considere-nos, por exemplo.
Não viemos sozinhos. Com uma força como a nossa, arrastamos outras coisas conosco – um pacto, pedaços de ossos, uma rocha ígnea, veludo gasto, e uma faixa de couro humano amarrando tudo. Este objeto composto se chama iyi-uwa, o juramento do mundo. É uma promessa que fizemos quando éramos livres e flutuávamos, antes de adentrarmos A Ada. O juramento diz que voltaremos, que não ficaremos neste mundo, que somos leais ao outro lado. Quando espíritos como nós são colocados dentro de carne, este juramento se torna um objeto real, que funciona como uma ponte. Fica normalmente enterrado ou escondido, porque é o caminho de volta, se você compreende que a porta é a morte. Humanos com bom senso sempre procuram o iyi-uwa, para desenterrá-lo ou arrancá-lo de carne, de qualquer lugar secreto onde esteja, para destruí-lo, de modo que o corpo de seu filho não morra. Se o ventre de Ala carrega o mundo inferior, então o iyi-uwa é o atalho de volta para ele. Se os pais humanos de A Ada o encontrassem e o destruíssem, nunca poderíamos voltar para casa.
Não éramos como outros ogbanje. Não o escondemos debaixo de uma árvore ou dentro de um rio ou nas fundações enroladas da casa de Saul na aldeia. Não, nós o escondemos muito melhor. Nós o desmontamos e o espalhamos. A Ada veio com ossos, de qualquer modo – quem perceberia os fragmentos entrelaçados? Escondemos a rocha ígnea na boca de seu estômago, entre o revestimento mucoso e a camada muscular. Sabíamos que a atrasaria, mas Ala carrega um mundo de almas mortas dentro de si – o que seria uma simples pedra para sua filha? Colocamos o veludo dentro das paredes da vagina e cuspimos no couro humano, molhando-o como um riacho. Ele se ondulou e ganhou vida, e nós o esticamos sobre as omoplatas, colocando-o sobre as costas e costurando-o à sua outra pele. Nós a transformamos no juramento. Para destruí-lo, eles teriam que destruí-la. Para mantê-la viva, eles teriam que mandá-la de volta.
Nós a fizemos nossa de diversas maneiras, e mesmo assim esmagávamos a criança. Mesmo que nos mantivéssemos enrolados e inativos dentro dela, ela já sentia a perturbação que nossa presença causava. Dormimos tão mal naquela primeira década. A Ada vivia tendo pesadelos, sonhos aterrorizantes que a levavam de novo e de novo para a cama dos pais. Eram as horas escuras da manhã e ela despertava em um medo de suar frio e entrar no quarto deles na ponta dos pés, abrindo a porta gentilmente com um rangido. Saul sempre dormia no lado da cama mais perto da porta, com Saachi a seu lado, perto da janela. A Ada ficava ao lado da cama com lágrimas escorrendo pelo rosto, abraçando o travesseiro até um deles sentir que ela estava lá e acordar para encontrá-la soluçando no escuro, vestindo o pijama vermelho com blusa listrada de branco.
– O que aconteceu? – mil vezes.
– Tive um pesadelo.
Coitadinha. Não era culpa dela – ela não sabia o que vivia dentro de si, não ainda. Como uma criança chutando enquanto dorme, atingíamos sua mente inconsciente, mexendo-a e virando-a. Os portões estavam abertos e ela era a ponte. Não tínhamos controle; estávamos sempre sendo puxados de volta para casa, e quando ela estava inconsciente, havia mais deslize, mais impulso naquela direção.
A Ada nos surpreendeu, no entanto, quando começou a adentrar nosso domínio. Acontecia um pesadelo, suspiros cortados de medo enquanto nos batíamos, e então, em uma noite, de repente, ela estava lá ao nosso lado, observando o sonho, tentando sair. Ela tinha sete ou oito anos e seus olhos eram jovens e calculistas – ela era brilhante, mesmo antes de a afiarmos. Era um dos motivos por que Saul casara com Saachi; ele dizia que precisava de uma mulher inteligente para lhe dar filhos que seriam gênios.
No sonho, A Ada imaginou uma colher. Foi estranho, só uma colher de sopa normal, flutuando. Mas era de metal e fria, o que a tornava real. Perto dela, toda a bile que vínhamos criando era tão obviamente falsa. Ela olhou para a colher, identificou a que domínio pertencia (ao dela, não ao nosso), e acordou. Ela fez isso de novo e de novo, escapando de pesadelos. Chegou um momento em que nem precisava mais da colher. O sonho se retorcia, ficando escuro, e A Ada lembrava a si de quem era, que, sim, ela estava em um sonho cheio de horror, mas ela ainda tinha o poder de ir embora. Com isso, ela se arrastava para fora através de camadas viscosas de consciência até estar acordada, totalmente, as costelas doendo. Ela, nossa coleçãozinha de carne, tinha construído uma ponte sozinha. Ficamos tão orgulhosos. Nós a assistíamos de nosso domínio, naqueles tempos em que não estávamos prontos para acordar.
E então, um dia, chegou o despertar.
Era dezembro, durante o harmatão, quando A Ada estava na aldeia. Saul sempre levava a família para Umuecheoku para o Natal, e depois A Ada ia para Umuawa passar o Ano Novo com a melhor amiga, Lisa. A família de Lisa era um clã bagunceiro e barulhento, pessoas que seguravam A Ada em seus braços e lhe davam beijos de boa noite e bom dia. A Ada não era acostumada a tanto contato. Saul e Saachi não tinham o costume de abraçar, não assim. Então ela amava a família de Lisa, e foram eles que a levaram à cerimônia mascarada onde nosso despertar chegou.
Aquela noite estava preta como tamarindo aveludado, espessa de um jeito que fazia as pessoas andarem juntas umas das outras, amontoadas em um grupo que se movia até a praça da aldeia. A Ada ouviu a música antes de chegarem à multidão pulsante. Uma por uma, as pessoas ao redor começaram a amarrar bandanas e lenços sobre o nariz e a boca antes de mergulhar na nuvem de poeira onde estavam todos dançando e se jogando na música, nos sons do ekwe e do ogene.
Lisa entregou-lhe um lenço branco, o algodão caindo sobre seus dedos como a asa de uma garça. A Ada pausou na beirada, os chinelos afundando brevemente na areia pálida e pesada, e observou. A batida rápida do ekwe era alta e baixa, baixa baixa baixa, alta alta, o som forte e ensurdecedor. Lisa entrou na multidão, os olhos enrugados de riso acima da bandana vermelha enrolada no rosto. A Ada sentiu o coração cambalear com o ogene. Amarrou o lenço ao redor do rosto e os pés levantaram, arremessando-a para dentro da massa dançante. A poeira flutuava no ar, leve contra o rosto, gentilmente arranhando os olhos. Respirava na pele. Areia voejou por seus pés e a pele em suas costas comichou.
Os tambores balançavam tudo, e a multidão se separou em uma pressa frenética quando os mascarados se lançaram sobre as pessoas, brandindo chicotes e rompendo o ar. A ráfia voava selvagem ao redor deles, o couro de vaca brotando como uma fonte de suas mãos. As coleiras estavam amarradas ao redor de suas cinturas e os domadores gritavam e puxavam enquanto os mascarados açoitavam as pessoas com nítido deleite. A música cantava comandos em uma antiga linguagem herdada. Ela adentrou nosso sono, nosso repouso inquieto; nos chamava tão claramente quanto sangue.
Você já nos esqueceu?
Arrepiamos. A voz era familiar, em camadas e muito, muito metal rasgando o ar. O chão tremeu.
Não esquecemos nenhuma de suas promessas, nwanne anyi.
O ar rachou quando nos lembramos. Era o som de nossos irmãosirmãs, os outros filhos de nossa mãe, os que não atravessaram conosco. Ndi otu. Ogbanje. Suas máscaras terrenas atravessavam os humanos e tinham o cheiro dos portões, calcário azedo. Cerimônias mascaradas convidam espíritos, dando-lhes corpos e rostos, e por isso eles estavam aqui, nos reconhecendo em meio a suas brincadeiras.
O que vocês estão fazendo dentro desta menina tão pequena?
A Ada levantou os braços e girou. As pessoas ao redor espalharam-se repentinamente e ela correu junto, gritando quando um mascarado se jogou em sua direção. Ele parou e levantou-se, balançando suavemente. Tinha uma cara grande da cor de ossos velhos, uma boca crua e vermelha. Estava envolto em panos roxos e equilibrava um ornamento esculpido na cabeça, pintado em cores vivas. A luz da lua se derramava sobre sua forma. Estremecemos em nosso sono, o gosto de calcário limpo passando através de nós. Irmãoirmã inclinou a cabeça e o ornamento angulou-se agudamente contra o céu escuro. Estava com raiva.
Acorde!
Com o som de sua voz, bem dentro de A Ada, mais fundo do que as cinzas de seus ossos, nossos olhos rasgaram-se. O domador do mascarado puxou a corda que estava em sua cintura e eles se afastaram. A Ada ficou paralisada por um momento até Lisa aparecer, agarrando suas mãos e girando em círculos.
Foram embora um pouco depois da meia-noite, os primos de Lisa rindo e quebrando garrafas de cerveja no chão em um jato de vidro verde. Em casa, A Ada desamarrou o lenço e o segurou, desdobrado. Havia três marcas marrons, duas para suas narinas, uma para sua boca. Queríamos que ela o tivesse guardado, mas humanos são assim. Coisas importantes escapam no momento, quando ele está nítido e eles são jovens o bastante para acreditar que o sentimento permanecerá. Depois, A Ada lembraria daquela noite com estranha clareza como um dos poucos momentos genuinamente felizes de sua infância. Naquele momento, quando nossos olhos abriram na praça empoeirada da aldeia e acordamos no mundo dela e no nosso pela primeira vez, foi tudo puro esplendor. Éramos um, juntos, em equilíbrio por um breve momento aveludado em uma noite aldeã.
Perguntamo-nos nos anos que se seguiram o que ela teria sido sem nós, se ela ainda teria enlouquecido. E se nós tivéssemos permanecido adormecidos? E se ela tivesse ficado para sempre naqueles anos em que pertencia a si? Olhe para ela, rodopiando pelo condomínio vestindo shorts pretos de batik e uma camiseta de algodão, o longo cabelo preto trançado em dois arcos amarrados com fitas coloridas, os dentes brilhando e um chinelo arrebentado. Como um sol ofegante.
A primeira loucura foi que nascemos, que enfiaram um deus em um saco de pele.

Akwaeke Emezi, in Água Doce

13/01/2021

Saul

          Então. A Ada pertencia a nós e a Ala e a Saachi, e enquanto crescia, chegou um momento em que não se movia de quatro, como a maior parte dos bebês faz. Escolhia, em vez disso, contorcer-se, deslizando com a barriga, colando-se no chão. Saachi a observava e perguntava-se distraidamente se ela era gorda demais para engatinhar direito, assistindo as pregas de carne nova escorregando pelo carpete. “A criança engatinha como serpente”, ela mencionou, no telefone, para a mãe, do outro lado do Oceano Índico.
Na época, Saul gerenciava uma pequena clínica no dormitório dos meninos no prédio em que eles viviam na Avenida Ekenna, Número Dezessete, feito de milhares de pequenos tijolos vermelhos. A Ada tomou uma vacina antitetânica naquela clínica quando o irmão, Chima, entregou à irmãzinha um pedaço de madeira com um prego preso e disse, “Bata nela com isso”. Não acreditamos que ela faria isso, então não estávamos preocupados, mas ele era o primogênito e ela nos surpreendeu. Sangramos muito e Saul nos deu a vacina, mas A Ada não tinha cicatriz então talvez esta lembrança não seja real. Nós não culpamos a irmãzinha, porque a amávamos. Seu nome era Añuli. Ela foi a última nascida, o amém no fim da oração, sempre uma criança doce. Houve um tempo em que ela falava em uma língua que só nós entendíamos, sendo recém-chegada do outro lado (mas inteira, não como nós), então conversávamos com ela e traduzíamos para os pais do nosso corpo.
Cedo de manhã, antes de Saul e Saachi acordarem, A Ada (nosso corpo) escapava do apartamento para visitar os filhos do vizinho. Eles a ensinaram a roubar leite em pó e colá-lo ao céu da boca com a língua, despedaçando-o aos poucos, aquela doçura de cheiro de bebê. Depois de alguns anos, Saul e Saachi mudaram a família mais para frente na rua, para o Número Três, que tinha mais quartos e mais um banheiro. O Número Dezessete acabou sendo demolido e alguém construiu outro imóvel lá, uma casa que não se parecia em nada com a antiga, sem tijolos vermelhos.
Mas os tijolos vermelhos ainda estavam lá quando Saachi desfraldou nosso corpo, usando um penico com assento de plástico azul. A Ada talvez tivesse três anos, metade de seis, algo assim. Ela entrou no banheiro onde o penico estava e abaixou as calcinhas, sentando cuidadosamente, porque ela era boa nisso. Ela era boa em outras coisas também – chorar, por exemplo, que a enchia de propósito, reabastecendo todas aquelas fendas vazias. Então quando levantou os olhos e viu uma cobra enorme enrolada no piso em frente ao penico, a primeira coisa que nosso corpo fez foi gritar. A píton elevou a cabeça e parte do corpo, o resto enrolado, as escamas deslizando gentilmente em si mesmas. Ela não piscou. Através de seus olhos Ala olhava para nós, e através dos olhos de A Ada nós olhávamos para ela – todos nós olhando uns para os outros pela primeira vez.
Foi um bom grito: alto, usando quase todo o pulmão. Pausamos apenas para inspirar rajadas quentes de ar para a próxima rodada. Esses gritos foram uma das primeiras coisas percebidas por Saachi quando nosso corpo era bebê. Tornou-se piada na família: “ iyoh, você tem uma bocona!”.
Chima fora uma criança muito quieta, então ninguém esperava que A Ada fosse ser tão barulhenta. Depois de Saachi alimentar e banhar Chima, ela podia deixá-lo no cercadinho e ele ficaria brincando, tranquilamente, sozinho. Quando nosso corpo tinha seis meses, Saachi nos levou para Malásia, no outro lado do Oceano Índico, pela Pakistan Airlines com escala em Carachi. A equipe entregou-lhe um bercinho para nos colocar, mas nós choramos com tanta força que Saachi deu para A Ada um pouco de hidrato de cloral para fazê-la calar a boca.
Em Aba, Chima nos encarava maravilhado porque nosso corpo gritava sempre que não conseguíamos o que queríamos. Há limitações na carne que intrinsecamente não fazem sentido, restrições deste mundo que são diametralmente opostas às liberdades que tínhamos quando acompanhávamos aquelas paredes azuis e entrávamos e saíamos do nosso corpo quando queríamos. Este mundo devia se dobrar – era como havia funcionado antes de nosso corpo deslizar por anéis e paredes de músculo, abrir os olhos e anunciar nossa chegada em um grito. Permanecemos adormecidos; porém, nossa presença moldou o corpo e o temperamento de A Ada. Ela arrancava todos os botões das almofadas e desenhava nas paredes. Todos já estavam tão acostumados à má-criação e aos gritos que quando A Ada estava encarando a cobra, petrificada de medo e projetando seu pavor pela boca, eles não lhe deram atenção. “Ela só quer as coisas do jeito dela”, disseram, sentados na sala, bebendo garrafas de cerveja Star. Mas desta vez, ela não parou. Saul franziu o cenho e trocou um olhar com a esposa, preocupação em seus rostos. Levantou-se e foi atrás da criança.
Veja, Saul era um homem Igbo moderno. Ele havia estudado medicina com uma bolsa de estudos na União Soviética, e depois passado muitos anos em Londres. Ele não acreditava em bobagens, em qualquer coisa que dissesse que uma cobra significava qualquer coisa além de morte. Quando viu A Ada, seu bebê, com lágrimas escorrendo pelo rosto, chorando de medo de uma píton, um medo invernal tomou seu coração. Ele a agarrou e levou-a embora, pegou um machete, voltou e despedaçou a píton. Ala (nossa mãe) se dissolveu entre escamas quebradas e pedaços de carne; ela voltou, não retornaria. Saul estava com raiva. Era um sentimento que trazia conforto, como chinelos velhos. Ele andou de volta para a sala, a mão segurando metal ensanguentado, e gritou para o resto da casa.
– Quando aquela criança chorar, não ignorem. Vocês ouviram?! – A Ada se encolheu nos braços de Saachi, tremendo.
Ele não tinha ideia do que havia feito.

Akwaeke Emezi, in Água doce

03/01/2021

A Ada

          Nós viemos de algum lugar – é assim com tudo. Quando é feita a transição de espírito para carne, os portões devem ser fechados. É uma gentileza. Seria cruel não os fechar. Talvez os deuses tenham esquecido; às vezes eles são assim, distraídos. Não é malicioso – ao menos, normalmente. Mas são deuses, afinal de contas, e não se importam com o que acontece com a carne, principalmente porque ela é lenta e entediante, estranha e grosseira. Eles não prestam muita atenção à carne, exceto quando está sendo coletada, organizada e almada.
Quando ela (nosso corpo) moveu-se para fora e para dentro do mundo, molhada e mais barulhenta do que uma aldeia de tempestades, os portões foram deixados abertos. Deveríamos ter sido ancorados a ela naquele momento, adormecidos dentro de suas membranas e sincronizados com sua mente. Esse teria sido o jeito mais seguro. Mas já que os portões estavam abertos, não fechados contra lembranças, ficamos confusos. Éramos, ao mesmo tempo, velhos e recém-nascidos. Éramos ela, porém, não. Não estávamos conscientes, mas estávamos vivos – na verdade, o principal problema é que éramos um nós distinto, em vez de ser completamente e simplesmente ela.
E lá estava ela: um bebê gordo com cabelos pretos espessos e molhados. E lá estávamos, novos neste mundo, cegos e famintos, em parte presos à sua carne, e o resto de nós ficando para trás em ondas, do outro lado dos portões abertos. Sempre quisemos acreditar que foi alguma distração o que os deuses fizeram, e não negligência deliberada. Mas o que pensamos quase não importa, mesmo sendo o que somos para eles: filhos. Eles são incognoscíveis – qualquer um sabe disso – e são tão gentis com os próprios filhos quanto com os seus. Talvez até menos, porque seus filhos são apenas frágeis sacos de carne com uma alma com data de validade. Nós, por outro lado – os filhos deles, as crias, semideuses, ogbanje – aguentamos muito mais horror. Não que isso importe – era óbvio que ela (o bebê) ficaria louca.
Permanecemos adormecidos, mas com os olhos abertos, ainda agarrados ao seu corpo e à sua voz enquanto ela crescia, naqueles primeiros anos lentos em que nada e tudo acontece. Ela era mal-humorada, inteligente, um sol ofegante. Violenta. Gritava muito. Era gordinha e linda e insana, se qualquer um soubesse o bastante para enxergar. Eles diziam que ela puxava ao lado do pai, à avó que já era morta, por sua pele escura e cabelos pretos. No entanto, Saul não escolheu seu nome em homenagem à mãe, como outro homem talvez tivesse feito. Era sabido que pessoas retornavam em corpos renovados; acontece o tempo todo. Nnamdi. Nnenna. Mas ao olhar para dentro do escuro molhado dos olhos dela, ele – surpreendentemente, para um homem cego, um homem moderno – não cometeu este erro. De alguma maneira, Saul sabia que o que quer que o olhava através dos olhos da filha não era sua mãe, mas outra pessoa, outra coisa.
Todos pairavam no ar ao seu redor, beliscando suas bochechas e a camada de gordura debaixo delas, atraídos por ela, eles pensavam, mas, na verdade, era por nós. Mesmo adormecidos, há coisas que não conseguimos evitar, como atrair humanos. Eles nos atraem também, mas um por vez; somos seletivos. Saachi observava os visitantes se amontoarem ao redor do bebê, preocupação brotando nela como um ramo verde. Tudo isso era novidade. Chima fora tão quieto, tão tranquilo, frescor para o calor de Saachi. Perturbada, ela procurou um pottu e encontrou, um círculo escuro de preto aveludado, um terceiro olho portátil, e o colou na testa do bebê, naquele espaço macio de pele novinha. Um sol para afastar mau-olhado e desviar as intenções de pessoas perversas que bajulavam uma criança e ao mesmo tempo a amaldiçoavam em sussurros. Ela sempre foi uma mulher pragmática, Saachi. Havia boas chances de o bebê sobreviver. Ao menos os deuses haviam escolhido humanos responsáveis, humanos que a amavam intensamente, já que nesses primeiros anos a chance de perdê-los é maior. Mesmo assim, não justifica o que aconteceu com os portões.
O pai humano, Saul, perdeu o parto. Nunca havíamos prestado muita atenção nele enquanto éramos livres – ele não era do nosso interesse; não continha recipientes ou universos em seu corpo. Ele estava comprando refrigerantes para os convidados enquanto a esposa lutava conosco por uma libertação de outro tipo. Saul sempre foi esse tipo de homem, preocupado com status e imagem e capital social. Coisas humanas. Mas ele concedeu o nome dela e foi mais tarde, quando estávamos acordados, que ficamos sabendo disso e compreendemos, finalmente, por que ele havia sido escolhido. Muitas coisas começam com um nome.
Depois de o menino Chima nascer, Saul pedira por uma filha, então, quando nosso corpo chegou, ele deu-lhe um nome do meio que significava “Deus atendeu”. Ele quis dizer deuses atenderam. Ele quis dizer que nos chamou e nós atendemos. Ele não sabia o que quis dizer. É comum humanos rezarem e esquecerem o que suas bocas conseguem fazer, esquecerem que todos os ouvidos estão escutando, que quando você direciona seus desejos para os deuses, eles podem encarar como um pedido pessoal.
A igreja havia se recusado a batizar a criança sem aquele nome do meio; eles consideram o primeiro nome anticristão, pagão. No batizado, Saachi ainda era tão magra e angular quanto em Londres, mas o estômago de Saul estava um pouco mais convexo do que antes, um inchaço estabelecido. Ele vestia um terno branco com lapelas largas, uma gravata branca deitada em uma camisa preta, e ficou observando, as mãos apertadas, enquanto o padre marcava a testa do bebê aninhado no colo da mulher. Saachi espiava através dos óculos espessos, focada na criança, com uma seriedade calma, o chapéu branco pressionando seus longos cabelos pretos, o veludo bordô do vestido austero nos ombros. Chima estava ao lado do pai, vestindo sarja verde-oliva, pequeno, a cabeça chegando apenas até as mãos de Saul. O padre seguiu falando e nós dormíamos na criança quando o gosto velho de água benta penetrou a testa dela e se estendeu para dentro de nosso domínio. Eles ficavam chamando o nome de um homem, um cristo, outro deus. A água velha o chamava e, em paralelo a nós, ele virou a cabeça.
O padre continuava falando enquanto o cristo se aproximou, espalhando fronteiras, carregando um oceano preto atrás de si. Ele passou as mãos por cima do bebê, água de romã e mel sob as unhas. Ela tinha adormecido no colo de Saachi e se agitou um pouco com o toque dele, as pálpebras tremendo. Nós nos viramos. Ele inclinou a cabeça, aquela espuma de cachos pretos, aquela pele de casca de noz, e recuou. Eles a ofereceram a ele, e ele aceitaria; não se importava de amar a criança. Água escorreu para dentro das orelhas dela enquanto o padre chamava seu segundo nome, a resposta de deus, aquele exigido pela igreja por não saberem que o primeiro nome continha mais deus do que poderiam imaginar.
Saul havia consultado seu irmão mais velho durante a escolha do primeiro nome. Esse irmão, um tio que morreu antes de podermos lembrar dele (pena; se alguém saberia o que fazer sobre os portões, seria ele), chamava-se De Obinna e era um professor que viajara por aquelas aldeias do interior e conhecia as coisas que eram praticadas lá. Diziam que ele frequentava a igreja Cherubim and Seraphim, e parece que era verdade, quando morreu. Mas ele também era um homem que conhecia as músicas e danças do Uwummiri, a devoção que se afoga em água. Toda água é conectada. Toda água doce sai da boca de uma píton. Quando Saul teve o bom senso de não dar à criança o nome da avó, De Obinna interveio e sugeriu o primeiro nome, aquele com muito deus.
Anos depois, Saul disse à criança que o nome significava apenas “preciosa”, mas essa tradução é vaga e insuficiente, ao mesmo tempo correta e incompleta. O nome significava, em sua forma mais verdadeira, o ovo de uma píton.
Antes de uma amnésia induzida por cristo atingir os humanos, é sabido que a píton era sagrada, mais do que réptil. É a fonte do riacho, a carne da deusa Ala, que é a terra mesma, a juíza e mãe, criadora da lei. Em seus lábios o homem nasce e lá passa toda a vida. Ala carrega o mundo inferior repleto no ventre, os mortos flexionando e alisando sua barriga, uma lua crescente sobre sua cabeça. Era tabu matar a píton e quanto ao ovo, diziam, não se pode encontrá-lo. Pois o ovo de uma píton é cria de Ala, e a cria de Ala não é, e nunca será, feita para você.
Esta é a criança pela qual Saul pediu, a carne da oração. É melhor nem dizer seu primeiro nome.
Nós a chamávamos de A Ada.

Akwaeke Emezi, in Água Doce

16/11/2020

Nós

Já vivi muitas vidas neste corpo.
Vivi muitas vidas antes de me colocarem neste corpo.
Viverei muitas vidas depois de me tirarem dele.

Na primeira vez que nossa mãe veio, nós gritamos.
Éramos três e ela era uma cobra, enrolada no piso frio do banheiro, esperando. Mas tínhamos passado os últimos anos acreditando em nosso corpo – pensando que nossa mãe era outra, uma humana magra com bochechas coradas e grandes óculos com lentes fundo de garrafa. Então, gritamos. As demarcações não são tão claras quando você é novo. Houve um tempo antes de termos nosso corpo, quando ele ainda estava se formando célula por célula dentro da humana magra, produzindo órgãos meticulosamente, fazendo sistemas. Costumávamos entrar e sair para ver como o feto estava, cortando pela água em que flutuava e harmonizando com as canções que a mulher magra cantava, hinos católicos de sua família, as cinzas de seus corpos armazenadas nas paredes de uma catedral em Kuala Lumpur. Nos divertíamos distorcendo o ritmo da música, enrolando-a ao redor do feto até que ele chutasse, feliz. Às vezes, saíamos do corpo da mulher magra para flutuar atrás dela e explorar a casa de que ela cuidava, seguindo-a por entre as paredes azuis, assistindo-a moldando a massa e chapatis borbulhando sob suas mãos.
Ela era pequena, com olhos e cabelos escuros, pele marrom-clara, e seu nome era Saachi. Nascera a sexta de oito filhos, no décimo primeiro dia do sexto mês, em Malaca, no outro lado do Oceano Índico. Mais tarde, foi para Londres e se casou com um homem chamado Saul em uma rajada de sari, véu e flores brancas. Ele era um homem forte, com um sorriso torto, pele de um marrom-escuro profundo, e cachos pretos cortados rente ao couro cabeludo. Ele cantava Jim Reeves em um barítono exagerado, falava russo fluentemente e sabia latim, e dançava valsa. Havia doze anos entre eles, mas, mesmo assim, o casal era lindo, combinavam bem, movendo-se pela cidade cinza com elegância.
Enquanto nosso corpo estava incrustado nas paredes dela, eles se mudaram para a Nigéria, e Saul estava trabalhando no Hospital Queen Elizabeth em Umuahia. Eles já tinham um menino, Chima, que havia nascido em Aba três anos antes, mas para este bebê (para nós), era importante que eles retornassem a Umuahia, onde Saul tinha nascido, e seu pai, e o dele antes disso. O sangue seguindo caminhos no solo, lubrificando os portões, transformando a reza em carne. Depois haveria outra menina, nascida em Aba, e Saul cantaria para as duas meninas em seu barítono, as ensinaria a valsar, e cuidaria de seus gatos quando elas o deixassem.
Mas antes de as meninas nascerem, eles (a mulher magra e o homem forte) viviam em uma casa grande no bairro dos médicos, o lugar com o hibisco na parte de fora e o azul por dentro. Saachi era enfermeira, uma mulher pragmática, então, contando com os dois, havia boas chances de o bebê sobreviver. Quando nos cansávamos da casa, voejávamos e mergulhávamos, brincando no condomínio e observando os ramos das batatas subindo pelas varas, a seda do milho secando com o amadurecimento, as mangas inchando e ficando amareladas antes de cair. Saachi sentava e assistia a Saul encher dois baldes com aquelas mangas e trazê-las até ela. Ela as comia desde a casca até a carne úmida até os dentes rasparem a semente como osso seco. Depois fazia geleia de manga, suco de manga, tudo de manga. Comia dez a vinte por dia, e alguns abacates grandes, cortando-os na altura do caroço e retirando o interior amanteigado, que lhe descia pela garganta. E assim nosso corpo-feto era alimentado e o visitávamos, e quando nos cansávamos do mundo deles, íamos para o nosso. Naquele tempo, ainda éramos livres. Era simples escapar, seguindo os fluxos amargos do giz.
Naqueles dias do Queen Elizabeth, o motorista de táxi era um homem que estampava o interior do carro com o slogan NÃO HÁ ATALHOS PARA O SUCESSO. As mesmas palavras, engrossando conforme os adesivos eram empilhados um em cima do outro, alguns já descascando, outros ainda brilhando. Todos os dias, Saachi deixava o filho pequeno, Chima, em casa com a babá, e o taxista a levava do condomínio até a clínica de Saul, no interior da aldeia. Naquela manhã (o dia em que morremos e nascemos), o parto começou enquanto eles dirigiam por estradas sinuosas avermelhadas. O motorista deu meia-volta, seguindo ordens arfantes, e a levou para o Hospital Aloma. Enquanto o corpo dela nos chamava e se retorcia, Saachi só conseguia pensar naqueles adesivos, aglomerados ao redor dos assentos, lembrando-a de que não existiam atalhos.
Enquanto isso, éramos puxados, arrastados pelos portões, pelo rio, e pela porta dos fundos do útero da mulher magra, empurrados para dentro da água ondulante e do pequeno corpo que flutuava nela. Estava na hora. Enquanto o feto estava abrigado, tínhamos nossa liberdade, mas agora ele ficaria sozinho, não mais carne dentro de um abrigo, mas um abrigo em si, e nós estávamos destinados a viver ali. Estávamos acostumados aos baques quentes de dois batimentos cardíacos separados por paredes de carne e líquido, acostumados à possibilidade de ir embora, de voltar ao lugar de onde viemos, livres como espíritos devem ser. Sermos isolados e trancados na consciência turva de uma mente pequena? Nos recusamos. Seria loucura.
O corpo da mulher magra tinha tendência a partos rápidos. O menino, o primeiro filho, havia nascido em uma hora, e um ano depois de nascermos, a terceira criança levaria apenas duas horas. Nós, o meio, seguramos o corpo contra o puxo por seis. Sem atalhos.
Era o sexto dia do sexto mês.
No final, os médicos introduziram uma agulha em Saachi, medicando-a intravenosamente, revidando nossa resistência com remédios, expulsando o corpo que estava se tornando nosso. Então fomos aprisionados por este nascimento estranho, esta abominação dos feitos-de-carne, e foi assim que acabamos aqui.

Akwaeke Emezi, in Água doce