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25/12/2025
24/12/2025
O que fizeram do Natal
Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.
As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.
Carlos Drummond de Andrade, em Alguma Poesia
24/12/2024
Natal
A
grande ocorrência
Que
nos conta o sino
É
que, na indigência
Nasceu
um menino.
Mil
e novecentos
E
cinquenta e três
Anos
são peremptos
Dessa
meninez.
Muito
tempo faz...
Mas
ninguém olvida
Que
é um dia de paz...
Porque
fez-se a vida!
12.1953
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
30/12/2015
28/06/2015
27/05/2015
15/05/2015
A banda potiguar Far From Alaska: "About Knives"
De
Natal para o mundo: Far
From Alaska
é uma banda de rock de Natal/RN nascida no primeiro semestre de 2012
e formada por nomes bem conhecidos e experientes da cena potiguar:
Emmily Barreto (vocal), Cris Botarelli (synth, lap steel e voz), Edu
Filgueira (baixo), Rafael Brasil (guitarra) e Lauro Kirsch (bateria).
Com
um estilo eclético, experimental e alternativo, é uma das melhores
bandas que surgiram nos últimos dez anos no Brasil.
13/05/2015
A produção musical de Natal nunca esteve tão bem
Natal
é a terra que não consagra e nem desconsagra ninguém. Foi Câmara
Cascudo que disse isso, certo? Pois parece que as coisas andam
querendo mudar. Querendo porque consagração, como sucesso, é muito
relativo. O que é o sucesso para a Jubarte Ataca e para o Far From
Alaska?
Desde
o fim dos anos 60 e começo dos anos 70 Natal produz boas bandas e
artistas. Modus Vivendi, Cabeças Errantes, Leno, Impacto Cinco,
Deadly Fate, General Junkie, Florbela Espanca, Bugs, The Automatics,
Peixe Coco, Os Bonnies, Jane Fonda, Camarones Orquestra
Guitarrística, DeadFunnyDays, Far From Alaska, Jubarte Ataca (que
apesar de ser de Mossoró, todos os integrantes moram em Natal),
Kataphero, Orchestre Noire, Tesla Orquestra, Igapó de Almas, Clara e
A Noite, Talma & Gadelha, Son Of A Witch, Orquestra Boca Seca,
DuSouto, Mahmed… São muitas, muitas mesmo.
O
Impacto Cinco, com Leno (da dupla Leno e Lilian) já como produtor,
foi a primeira banda natalense a conseguir projeção por uma grande
gravadora. De lá para cá, o que se conhecia como indústria
fonográfica não existe mais. Em entrevista ao documentário
“Independência na Terrra do Sol” Paulo Souto (DuSouto, General
Junkie) afirmou que para gravar um disco antigamente era necessário
ter o dinheiro de um carro e que os estúdios preparados para gravar
forró ignoravam o que era o rock e pop local.
As
mudanças na indústria musical e tecnológica fizeram com que o
“faça você mesmo” se tornasse a prática da maioria da música
produzida no país. O que chega atualmente as rádios e televisões
do país não representam as produções locais, regionais ou
nacional. A tecnologia trouxe mais informação e quem antes era
dependente se tornou dono das ferramentas. Trouxeram novas formas de
produzir, de gravar, de circular as produções sem precisar de
deslocar para fora de Natal. Claro que tocar é primordial para
qualquer músico, mas escoar a produção também é imprescindível
para formar público.
Nos
dias atuais Natal exporta (a palavra talvez seja forte demais para
alguns) bandas para todo o país e até para fora. As fronteiras são
quebradas a cada dia e se a época do circuito de festivais e dos
coletivos passou, a força do “faça você mesmo” nunca vai
deixar de existir. Sendo assim, atualmente a cidade atende por bandas
tão distintas como Plutão Já Foi Planeta (pop) e Deuszebul
(grindcore) com a mesma importância, cada uma dentro de seu nicho, é
claro. O mais interessante é que há consumo para todos. É possível
na mesma noite ver lado a lado (é raro, mas acontece) reggae, samba
e rock psicodélico, duelando na Rua Chile e levando bom público a
todos os eventos. Tudo graças a tecnologia que permite produzir e
difundir aliadas a força de vontade de fazer acontecer na hora que
sair do virtual.
O
que antes só era possível com o dinheiro de um carro, hoje é
possível com um bom computador em casa, criatividade e paciência.
Dessa forma nossos artistas e bandas vêm produzindo e lançando um
disco atrás do outro e chegando cada vez mais longe. Se alguém vai
ser consagrado ou não, o tempo dirá. Mas a satisfação é de cada
um. Ter um disco lançado, tocar para os amigos ou para um grande
público em um festival é de cada um o que é sucesso e
reconhecimento.
Natal
hoje é um pólo de produção musical como nunca foi.
Hugo
Morais, in www.somsemplugs.com.br
01/11/2014
21/10/2014
08/08/2013
Cidade do Natal do Rio Grande do Norte
Na edição de agosto de 1928 Câmara
Cascudo publica na Revista de Antropofagia, porta-voz dos modernistas, e
um mês depois – setembro do mesmo ano – na Revista da Semana, Rio, um texto
ágil, erguido em estilo fragmentado, como se as palavras fossem flashes
luminosos. É uma descrição de Natal há 85 anos, quando tinha 35 mil almas, dois
jornais, as mulheres já votavam e o governador guiava automóvel e viajava nos
aviões do Aero Club. Leiam Cascudo. Bem humorado, a pintar num texto cheio de
ritmos o primeiro retrato de uma Natal moderna.
35.000
patriotas. Fundada em 1599. Nasceu cidade como filho de Rei é príncipe.
Padroeira: Nossa Senhora da Apresentação que veio dentro de um caixote, lento e
manso do rio. Século XVIII. Tem um rio e tem o mar. Campo da Latecòere. Tênis.
Cinemas. Autos. Cinco farmácias. Bispado. Dois jornais diários. As mulheres
votam. O Presidente guia automóveis e viaja de avião. O secretário mais velho
roda os quarenta anos. Sal de Macau. Algodão do Seridó. Cera de carnaúba.
Couros. Açúcar de quatro vales largos e verdes. Boiadão histórico que em 1799
mandava dezesseis mil cabeças para Pernambuco. Instituto Histórico. Escola
Doméstica numero um no Brasil.
Aero-Club-de-Natal com dois aviões e seis
campos no sertão. Grupo-Escolar, grupo-escolar, grupo-escolar. Todo o sertão se
estorce no polvo das rodovias. O pneu amassa o chão vermelho dos comboios
lerdos, langues, lindos. Poetas. Poetisas. Crônicas elegantes.
Avenidas abertas para todos os ventos. Se
escuros. Nem buracões sornentos de espanta-guri. Árvores aparadinhas estilo
Nuremberg. Ruas calçadas, macias no escorrego das descidas. Raros-raros “mi dê
uma esmola”. Associações de caridade. Meia grosa de grupos de Foot-Ball. Não há
Rotary-Club, nem Automóvel-Club, nem Street-Club, Radio mania.
- É o que lhe digo. Peguei os discursos
de propagando do Hoover.
-
O que está dizendo?…
-
Morros, areias, orós, mangues, siris e aratus grudados nas pedras. Pescaria em bote
com terra encoberta. Três botes destes foram ao Rio. Centros Operários.
Discursos, relatórios. Batalhão do Exército. Item da Policia. Musica aos
domingos nos jardins com autogiros perenes de soldados e criadas e vice-versa.
Sorvete, pirulito, folhado. Uma livraria e duas casas de livros.
-
Já chegou o ultimo livro de Ardel?
-
Não senhora. Temos aqui agora o grande Marden.
Não
há revistas nem Academia de Letras. Cidade pintada de sol com uma alegria de
domingo.
Jornais
do Rio. Política. Simpatias furiosas aos Prestes Júlio e Luís Carlos.
-
Você vai ver a saída de Minas…
-
Nem Pelége…
Noticias
de trinta horas, via até… Lazado. Sábados monótonos com cinza triste de
nada-fazer. Feijoadas heróicas. Pescaria de covo. À noite, pesca de aratu com
facho, nas praias longe – Areia Preta. Cajueiros, coqueiros, mongubeiras.
Bailes do Natal-Club. “É favor entregar esta sobrecarta na entrada”. “Toilette
preta”. Janeiro. Festa dos Santos Reis. Congos compostos e ganzás roucos e
surdeadores.
“Acorda
quem está dormindo
na
serena madrugada
venham
ver o Rei dos Congos
general
de nossa Armada”.
Dezembro. Lapinhas e Pastoris com músicas
de cem anos teimosos e recordadores.
A
remígio bate o galo
soltando
a voz maviosa”
Bois. Bumba-meu-boi pedindo cinco dedos
para riscar em papel aquelas toadas maravilhosas.
Novembro.
Festa da Padroeira. Irmandade dos Passos, soleníssima Confederação Católica.
Escola de Comércio. Atheneu. Colégio Pedro II. Luar impassivelmente romântico.
Serenatas. Violões gementes assanhando pruridos nostálgicos.
“Noites
nunca hei de ter como já tive
na
escuridão polar de teu cabelo”
Bó-nito!
Grog à frio. Magestic, Anaximandro, Cova da Onça. Risco de navalha rombuda.
-
Nem me fale! Pois este Jorge não escreveu dizendo que dava a certidão do
nascimento de Dom Antonio Felipe Camarão por cinco mil pés de laranja da Bahia?
Avenida
Tavares de Lyra. Cafés, prosa estirada à café manhoso.
-
Gostei de seu artigo!
-
Qual?
- Ontem, francamente… aquele… eu sei que
li… não estou bem lembrado… aquele…
Por Vicente
Serejo, in www.jornaldehoje.com.br,
de 03/08/2013
27/12/2012
24/12/2012
Noel num vem
Im todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.
Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.
Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.
Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?
Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?
Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.
O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.
Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.
Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.
Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.
Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio Oliveira,
poeta mossoroense
Conto de Natal
Sem
dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se
deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem
compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.
—
Que é?
O
homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios
de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o
segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:
—
Porcaria...
Tirou
o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro
lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro
lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame
arrebentado ou dois fios mais afastados.
—
Péra aí...
Andou
para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo
pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.
—
Vamos ver aqui...
Com
esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.
Com
o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.
Ela
curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro
lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!
—
Mulher!
Passando
os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois
passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.
—
Péra aí...
Arranjou
afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até
a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.
O
sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O
calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.
De
tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e
meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não aguentava mais andar.
E pensou em voltar até o sítio de ‘seu’ Anacleto.
—
Não...
Ficaram
parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos
grossos de chuva. O menino choramingava.
—
Eh, mulher...
Ela
não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de
um carro de bois.
—
Oh, graças a Deus...
Às
7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha.
O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava
gritos de dor.
—
Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.
O
carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do
fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
—
Eu acho que o jeito...
O
carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer
jeito junto de uma vaca e um burro.
No
dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de
noite na casa de ‘siá’ Tomásia, mas ‘siá’ Tomásia tinha ido à festa na Fazenda
de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se
tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.
Faustino
agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada,
mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre
um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.
—
Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!
—
Natal?
Com
a pergunta de Faustino a mulher acordou.
—
Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...
Ela
fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não
ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando
embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:
—
Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!
A
mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um
lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e
estava mexendo no embrulho de trapos:
—
Eh, pai, vem vê...
—
Uai! Péra aí...
O menino Jesus Cristo estava morto.
Rubem
Braga, in Nós e o Natal
17/12/2012
25/07/2012
19/07/2012
DoSol inaugura hoje sua sede em território mossoroense
Um
abrigo para o rock - e outras sonoridades - na maior cidade do oeste potiguar.
O Centro Cultural DoSol abre hoje a sua sede em Mossoró, estabelecendo uma
firme rede de contatos, projetos e parcerias entre os espaços natalense e
mossoroense. O novo ambiente está localizado no corredor cultural da cidade,
quase em frente ao Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, contando com estrutura
para shows, estúdio, quarto de hóspedes e escritório.
Novo palco para o rock: Camarones Orquestra Guitarrística toca hoje para convidados da abertura
"O DoSol mossoroense é um espaço multiuso. Desde os primeiros
trabalhos que fazíamos em Mossoró a gente sentia como era difícil agendar shows
por falta de um espaço. Resolvemos trazer nosso know-how sobre mercado,
estrutura e produção para incrementar o cenário musical local", diz o
produtor Anderson Foca. O prédio de dois andares conta com espaço climatizado
estilo pub, balcão de bar, palco com som e luz, escritório, quarto de
hospedagem (para até seis pessoas), e estúdio de ensaio e gravações. O
local é totalmente fechado para não infringir leis ambientais.
Para a primeira semana de abertura, a trilha sonora já apresentará o que
o público quer ouvir. Nesta quinta, a Camarones Orquestra Guitarrística fará as
honras da casa, a partir das 21h, tocando seu dançante rock instrumental; a
festa será para convidados, imprensa e a comunidade cultural da cidade. No
sábado será a vez da "prata da casa" roqueira de Mossoró tocar, com a
DeserTour ao som de Red Boots, High Desert, Monster Coyote e Dead Pixel. E no
domingo terá a Metal Mossoró, com as bandas Sodoma (PB) e Kataphero (RN), além
de discotecagem só com músicas do Slayer.
O DoSol mossoroense não funcionará como uma simples filial da natalense,
segundo Anderson Foca. "Mossoró terá uma equipe fixa que cuidará dos
interesses da cidade, e nós ficaremos em um bate-bola constante. Eles terão
gestão de espaço, direção executiva e agendas independentes das natalenses. É
importante que a sede tenha as características da cidade", ressalta.
Foca afirma que o público ainda não é tão numeroso
quanto o de Natal, mas o cenário autoral mossoroense é profissional, ativo e
diverso. O centro cultural deve ficar aberto todos os dias da semana para uso
de estúdio e do quarto de hóspedes - que poderão ser locados de acordo com as
necessidades dos artistas. O pub vai abrir de quinta a sábado com programação
de shows, discotecagens, festas temáticas e exibições de filmes e
documentários.
Fonte: www.tribunadonorte.com.br
18/03/2012
Uma cidade. Qual cidade?
“A cidade
era atrasada, iluminada por um motorzinho que funcionava num semestre e se
quebrava no outro (…)” (Demétrio Vieira Diniz, in “Sob o Céu de Natal”, Sarau das
Letras, 2012).
**
“O lugar onde vivi meus primeiros dez anos, e
que me marcou com desolação e aridez, era um deserto” (idem).
***
“– Não adianta, você começa num canto, mas
termina sempre em Mombaça.” (idem, ibidem).
Tenho em mãos o mais novo livro de Demétrio
Vieira Diniz: o conjunto de contos intitulado “Sob o Céu de Natal”. Trata-se de
um empreendimento editorial bem cuidado, bonito graficamente, capa dura, da
editora “Sarau das Letras” capitaneada pelos competentes Clauder Arcanjo e
David Leite, e que contém material literário numa linguagem não menos bem
elaborada por Demétrio Diniz, reconhecido poeta potiguar, que escreve, dessa
feita, como um ourives, como um certo tipo de relojoeiro, montando cuidadosa e
minuciosamente (às vezes com certa timidez, pudor racional, recato extremo que
atrasam a emoção do texto) as peças de seu delicado artefato.
Surpreendi-me, de pronto, ao buscar espelhado
no conteúdo a expressão gravada no título. Talvez, tenha sido mais uma das
licenças poéticas do autor, que ali teria retomado as origens de seu gênero
literário inaugural. Na verdade, o texto do livro me parece propor antes um
resgate da próprias origens territoriais e memorialísticas.
Deparei-me – diferentemente do que imaginava –
com uma espécie de Natal rural, além de arcaica e quase irreconhecível, quase
inocente, frente à cidade meio cosmopolita e ainda meio provinciana, mas
selvagem num certo sentido, que temos hoje situada em meio ao caos imobiliário,
ao caos do tráfego, ao caos do tráfico…
Expressões como “Coronel”, “cria da casa”,
“caritó”, “terno de linho branco”, “faca de esfolar os bodes”, ” raiz de mato”,
“rês no pasto”, “capim alto”, “mastruço misturado ao leite do curral”,
“casa-grande” – dentre muitas outras e seus temas e contos correlatos – falam,
possivelmente, de uma outra cidade que não se assemelha, no mais das vezes, à
Natal de hoje, ou mesmo àquela de trinta ou quarenta anos atrás.
Sob o calor de Natal? Sob o caos de Natal? Onde
se passam as histórias/estórias do livro de Demétrio? Sob o céu ou sob o véu?
De qual cidade? De todas as cidades do mundo… poderia até ser essa uma resposta
plausível, esforçadamente convincente. A outra resposta para a eleição do
título poderia, simplesmente, ser a escolha pelo homônimo conto que está às
págs. 109/114 (“Aos cem anos Maria Eugênia…). Por sinal, um dos mais
interessantes do livro.
Demétrio fotografou uma Natal (ou um mundo)
inocente? Ou outro lugar? Uma Natal antiga e adormecida? Talvez, um lugar da
memória, um lugar do inconsciente demetriano, de escadas velhas e rangentes
(deliciosas, melancólicas, telúricas, assombrosas) dos escaninhos da alma
e da mente do poeta e de seus (nossos) antepassados.
Mas, vale firmar que Demétrio possui potenciais
e recursos que demonstram arte de valor em sua prosa e força narrativa. Como
nesse “sprint”, nesse arranque, em que exibe a perturbação profunda e o
enlouquecimento de um suspeito e tirânico juiz de interior (v. pág. 18):
“”O juiz passou a entrar e sair rápido do
fórum, e não despachava mais nos autos, só os folheando para frente e para
trás. Andava inquieto e falando sozinho uma língua cheia de erres como o turco,
o som parecido com latido de cão, em nada recordando o aramaico de Jesus.
Gastou uma manhã carimbando folhas em branco. Já havia desperdiçado uma resma e
pedido a segunda, quando o escrivão o tirou daquele transe, lembrando a hora do
almoço.
Um dia se deixou seduzir pela magia do circo e
fugiu com a trupe. Muitos anos depois, uma romeira que voltava do Cariri,
revelou tê-lo visto no Juazeiro. Envelhecido, a barba comprida e branca, vendia
óleo de sucuri para asma e reumatismo. O réptil, capaz de moer um boi,
enroscado em seu pescoço.”
De qualquer sorte, para que se prove que a
cidade do livro são todas as cidades, vale a pena procurar (e encontrar) a
peculiar poesia na neófita prosa de Demétrio. E acompanhar essa nova tendência
migratória/pendular (poesia-prosa-poesia) das letras (natalenses?).
Lívio
Oliveira, in www.substantivoplural.com.br
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