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14/12/2025

A língua

Conta-me Cláudio Mello e Souza. Estando em um café de Lisboa a conversar com dois amigos brasileiros, foram eles interrompidos pelo garçom, que perguntou, intrigado:
Que raio de língua é essa que estão aí a falar, que eu percebo tudo?

Rubem Braga, em Recado de primavera

13/04/2025

A língua

Conta-me Cláudio Mello e Souza. Estando em um café de Lisboa a conversar com dois amigos brasileiros, foram eles interrompidos pelo garçom, que perguntou, intrigado: — Que raio de língua é essa que estão aí a falar, que eu percebo tudo?

Rubem Braga, em Recado de primavera

05/10/2024

Babel

A Babel começou com todo mundo falando línguas diferentes. Quando Deus quis que os homens se desentendessem fez todos falarem a mesma língua.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

24/09/2024

Introdução: como damos nomes às coisas

Toda simplificação incorre em um paradoxo, porque, depois de simplificada, a coisa ainda precisa ser explicada. Cria-se um círculo vicioso da simplificação que precisa de outra simplificação. É a Pedra filosofal do Simples.
No contexto de uma epocalidade marcada pela massificação do conhecimento, a linguagem tende a se reduzir a um puro instrumento por meio do qual se entra em contato com o mundo. Eis o problema fundamental. Partindo-se do pressuposto de que a linguagem é puro instrumento, cria-se o ideal de torná-la menos complicada e o mais simplificada possível, daí porque simples reduções, abreviações e quejandos não são inocentes. Da abreviação da linguagem, o que sobra é algo sintético. Algo sempre diferente. E algo certamente menor.
Há mais de dez anos a Coluna Senso Incomum está no ar no site Consultor Jurídico. Nesse decênio fui criando conceitos e neologismos para melhor conseguir comunicar o que estou pensando.
Por vezes se diz “não tenho palavras para dizer o que sinto”. Pois é verdade. A palavra é condição de possibilidade para dizer as coisas do mundo. Desde a aurora da civilização essa questão se põe. No primeiro grande livro de filosofia da linguagem, o Crátilo, Platão, pela boca de Sócrates, faz um capítulo cujo fantasma nos persegue até hoje: “Da Justeza dos Nomes”. Por que as coisas e os humanos têm nomes?
A literatura captou bem essa fenomenologia. Já a Bíblia o faz em João, 1, 1: “no princípio era o verbo”. Graciliano Ramos, em Vidas Secas, bem mostra isso – embora essa passagem do livro não cause um bom espanto nos leitores (basta ver no Google: ninguém deu bola para essa parte tão importante de Vidas Secas): “A opinião dos meninos assemelhava-se à dela. Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilão. E conferenciavam pasmados. Tinham percebido que havia muitas pessoas no mundo. Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem-vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem. guardar tantas palavras? Baleia cochilava, de quando em quando balançava a cabeça e franzia o focinho. A cidade se enchera de suores que a desconcertavam”.
Mais tarde, Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão, também retorna ao mito bíblico do logos: “naquela pequena Macondo, as coisas ainda eram tão recentes que, para dirigirmo-nos a elas, ainda precisávamos apontar com o dedo. Porque elas ainda não tinham nome”.
Como nomeamos? Temos as palavras? Por vezes temos de construir novas e até mesmo criar conceitos para que as coisas melhor lhes caibam.
Veja-se: a linguagem surge na medida em que faz falta. A angústia é um fenômeno moderno, por exemplo. Mas tinha-se angústia mesmo não se sabendo que se tinha. A partir de Kierkegaard, considerado o primeiro filósofo de cunho mais existencial, e depois com Sartre e Heidegger, é que a temática da angústia teve o lugar central. Freud entendeu bem isso e buscou explicar o papel da angústia, como também articulou outro tema fundamental em seus escritos: o inconsciente. Dessa fenomenologia, angústia e inconsciente tornaram-se temas importantes não porque inexistiam, mas porque não se sabia que existiam. A linguagem desvelou esses fenômenos, mas não os criou.
Por isso, o presente dicionário. Com uma centena de verbetes. Para que eu não precise dizer “estou sem as palavras para dizer isto ou aquilo...”.
Por fim, a máxima heideggeriana de que o texto só é no seu contexto não pode ser ignorada. O que apresento neste pequeno livro não é uma glosa totalizante de qualquer conceito. Ativismo judicial e judicialização da política, por exemplo, são fenômenos inseridos dentro de uma prática, e quaisquer dos conceitos a seguir apresentados devem ser vistos como um ponto de partida que alcança sentido quando compreendidos dentro de um contexto maior. Seja a partir da leitura de outros textos ou da lida com a facticidade, a compreensão só se torna um fenômeno possível a partir dessa fusão de horizontes.

Lenio Streck, em Dicionário Senso Incomum – mapeando as perplexidades do Direito

05/09/2024

As cem maneiras de estudar idiomas


Tendo passado parte da vida a ensinar, estudar e esquecer línguas, sempre me interessei pelo método de aprendê-las; menos pela maneira meio inconsciente da criança, a quem as inculcam na escola, ou por aquela, custosa mas cômoda, de ir passar uma temporada nos países onde elas se falam, do que pelo esforço consciente do autodidata que, fechado num quarto, com alguns livros, experimenta, a cada palavra nova, uma sensação de prazer que não lhe dariam os ensinamentos ministrados por um mestre vivo.
Provavelmente não haverá nenhum método certo para aprender uma língua sem mestre; isto é, haverá tantos métodos quantos indivíduos. O espírito alemão, quimérico de tão sistemático, produziu, é verdade, séries de manuais uniformes para o aprendizado solitário de todos os idiomas. Lembro-me ainda desses grandes estojos de papelão, cada um com vinte cadernos enormes, que encerrava o sumo de cada língua. Nada faltava nessas obras excelentes: leituras, gramática, exercícios, tabelas, transcrição fonética, vocabulário… Apenas era preciso ser alemão para não perder a coragem e a paciência antes de chegar ao fim; e, quem ali chegasse, ficaria fatalmente com a impressão árida de ter esgotado completamente o idioma estudado e perderia o entusiasmo inicial.
Quão mais excitante a gente atirar-se de ponta-cabeça na obra de um bom escritor do idioma ignorado, e, armado apenas de um dicionário e de uma gramática, partir à descoberta de ignoradas regiões! Se esse modo de estudar não mira a nenhum intuito imediatista, no final das contas não é menos prático do que outro qualquer. Aí, também, se requer uma grande persistência, mas o caminho é bem mais acidentado, cheio de encontros inesperados e divertidos. Cumpre, porém, não desistir depois de haver passado três horas sobre uma frase de cinco palavras, perfeitamente claras quando separadas. Fica-se exposto, igualmente, a tomar por uma originalidade do autor um rodeio comum do idioma ou por uma característica deste último uma simples fantasia poética; mas são precisamente esses enganos que encantam, com a condição de se observar a regra essencial do jogo: a de só recorrer a um professor ou conhecedor mais adiantado do idioma em casos extremos.
Às vezes os jornais referem casos de poliglotismo, mas não se mostram interessados em divulgar os métodos pelos quais foi obtido o resultado. Há tempos, li uma nota acerca de um funcionário sueco, o qual, tendo de fazer duas viagens diárias de uma hora entre a casa e a repartição, aproveitava-as metodicamente e, aposentado ao cabo de trinta anos de serviço, via-se dono de doze idiomas. À falta de pormenores no tocante ao método empregado, podemos concluir, apenas, que nos compartimentos dos trens suecos não há muita conversa; e, também, que suas condições de conforto devem ser diferentes das da nossa Central.
O certo é que os momentos perdidos em espera forçada, em filas, em condução podem ser aproveitados otimamente pelo aprendiz de línguas. Um ex-aluno meu, senhor já de idade, para tal fim trazia sempre consigo num dos bolsos do colete regular número de papeletas, nas quais inscrevera palavras francesas com a tradução no verso. Nas folguinhas do dia, retirava-as e examinava-as uma por uma, arrumando depois as que sabia num segundo e as que não sabia num terceiro bolso do mesmo colete, e reservando um quarto às que principiava a saber. Por mais satisfatório que lhe tenha sido o resultado, o método, infelizmente, não é adotável no Rio, onde as únicas pessoas que andam de colete, os condutores de bonde, são precisamente aquelas que não podem consagrar ao estudo o tempo que passam em condução.
Ocorre-me ainda o caso de um poeta meu conhecido, boêmio e vadio, que um dia resolveu aprender o italiano, decorando todo o dicionário de Cappuccini. Com uma assiduidade que surpreendeu a todos, chegou ao fim da letra A, onde desistiu. Encontrei-o mais tarde na Itália e observei-lhe mais de uma vez a conversa pitoresca. Tinha uma riqueza vocabular extraordinária: nomes de bichos e plantas, provérbios e rifões, expressões de sabor clássico e termos regionais, mas todos começados por A; ao passar dessa letra, não fazia senão balbuciar.
Mais atraentes, porém, do que tais casos de esquisitões anônimos, são os de escritores de valor, isto é, de pessoas para as quais as línguas aprendidas se tornaram efetivamente meios de alargar o horizonte, de ampliar a sua visão do mundo e das coisas. É pena os testemunhos serem tão raros.
Mariano Catalina, ao contar a vida de Alarcón, consigna o original sistema inventado por este: “O método de que se valeu para entender as obras escritas em línguas que não sabia é a um tempo tão engenhoso e simples e demonstra com tal evidência e energia a capacidade de seu autor que não podemos renunciar a descrevê-lo… Sem gramáticas e sem dicionários, com dois exemplares da Jerusalém libertada, um em francês e outro em castelhano, conseguiu entender a língua de Montaigne; para conhecer aquela em que Tasso tinha escrito, contentou-se com a Eneida em latim e em italiano.” Método pessoal este, sem dúvida, e que tem a desvantagem (ou o prazer, segundo a pessoa) de forçar o aprendiz a reinventar toda a gramática de uma língua.
Muito valioso o depoimento de Alfieri sobre seus estudos do grego. O poeta italiano, famoso por sua força de vontade (foi quem escolheu como tema: Volli, sempre volli, fortissimamente volli), pôs-se a estudar a língua de Homero com quarenta e oito anos, principalmente por teimosia, ao notar que os caracteres gregos lhe perturbavam a vista e que tinha grandes dificuldades em pronunciar as palavras gregas. Levou meses a ler em alta voz textos de que quase nada entendia, ao mesmo tempo em que decorava as regras da gramática; não somente acabou entendendo os clássicos mais difíceis como se tornou tradutor de alguns deles. De todas as façanhas de sua vida acidentada, foi dessa que mais se orgulhou, a ponto de inventar uma ordem de Homero e de se nomear a si mesmo cavaleiro dela. É com essa confissão algo pueril e ao mesmo tempo comovedora que termina a sua autobiografia.
Nada encontrei a respeito do método adotado por Tolstói, outro estudioso do grego que iniciou a aprendizagem ainda mais tarde, depois dos cinquenta anos. Romain Rolland cita-lhe uma carta inédita em que se patenteia todo o deslumbramento que lhe trouxe o novo estudo: “Sem o conhecimento do grego, não há instrução… Estou convencido de que até agora eu nada sabia de tudo aquilo que no verbo humano é realmente belo, de uma beleza simples.” (O deslumbramento foi tão durável que dois anos depois a esposa de Tolstói lhe pedia que abandonasse o estudo, que, segundo ela, o alheava do presente, fazendo-o como que um homem antigo, um morto.)
Dos escritores que aprendiam línguas com mestres, merecem nota dois casos bastante divertidos. Com doze anos, Benjamin Constant era um menino de inteligência precoce, mas terrivelmente indócil e convencido. Seus professores precisavam de recursos especiais para fazê-lo estudar. Um deles veio propor-lhe que inventassem uma língua que fosse apenas deles. O menino apaixonou-se pela ideia e os dois puseram-se à obra inventando sucessivamente um alfabeto, um dicionário e uma gramática. O trabalho ia de vento em popa, e dentro em pouco a língua desconhecida estava completa, rica e harmoniosa, mais bela que todas as conhecidas. O que não era de admirar, pois era a língua grega.
O caso contado por Montaigne não é menos curioso. Seu pai, convencido de que a inferioridade dos franceses da época em relação aos gregos e aos romanos da Antiguidade provinha do fato de perderem muito tempo com o estudo desses dois idiomas, lembrou-se de confiar o filho pequeno, em vez de a uma ama-seca, a um professor de latim que também dava lições ao resto do pessoal da casa. Assim, até a idade de seis anos, o menino não ouviu em torno de si outra língua senão a de Cícero: daí a facilidade com que ele se familiarizou com as letras clássicas. Montaigne pai, que pode ser considerado um dos inventores do método direto, excogitou depois outro sistema para o filho aprender o grego, fazendo com que aprendesse as declinações e as conjugações como que jogando bola.
Em tudo isso, porém, as gerações novas levam vantagem às antigas: enquanto estas desperdiçavam tempo em aprender as línguas alheias, aquelas descobriam a maneira de viver muito bem sem saber nem sequer a própria.
1950

Paulo Rónai, em Como aprendi o português e outras aventuras

21/08/2024

As línguas que não aprendi


São duas mil, três mil ou mais? De qualquer maneira o seu número é exatamente igual ao das que nunca hei de aprender. Confissão triste e humilhante para quem desde menino sente pelos idiomas uma espécie de paixão e que, ainda hoje, cada vez que na rua ouve pessoas falarem uma língua desconhecida, tem estremecimentos de inveja.
Quando, pela primeira vez em minha vida, vi uma cédula graúda – podia ter meus sete anos – provavelmente experimentei o desejo de possuí-la, como qualquer um. Se o tive, esqueci-o. Mas lembro-me nitidamente da inquieta curiosidade com que me pus a decifrar as duas palavras – CEM COROAS – que aquela nota ostentava nas oito línguas da desde então finada Monarquia austro-húngara.
Adolescente, alimentei em segredo a esperança de assenhorear-me, com o tempo, do maior número possível de idiomas: vinte, trinta, talvez ainda mais. Um de meus professores assegurava-me que só os quinze primeiros eram difíceis. E nos meus passeios pelos sebos da Europa, ia apanhando cada livro esquisito para dele fazer uso depois, em lazeres que não poderiam deixar de vir: uma gramática ladina ou reto-romana com a chave da pronúncia; o malgaxe em vinte lições; um livro de leitura para o segundo ano primário das escolas de La Valetta, Malta, sem uma única vogal no título; um manual da língua sueca para italianos… verdadeiro bazar de alfarrábios disparatados que os livreiros viam envelhecer na última prateleira e me empurravam quase de graça.
Mas o tempo passou, os lazeres não vieram, a minha biblioteca dispersou-se definitivamente no assédio a Budapeste e todos aqueles idiomas continuam intactos, não revelados, a troçar de mim. Outro terá aprendido, em meu lugar, o malgaxe em vinte lições. E limito-me a sonhar com as oportunidades maravilhosas que perdi.
Num livro islandês teria talvez encontrado resposta às minhas dúvidas; o poeta que melhor exprimiu as minhas angústias, talvez o tivesse feito em haicais japoneses. Mas não nos encontraremos nunca, como se eles não existissem ou eu mesmo não existisse.
O que mais me atormenta são as línguas que principiei a estudar e depois abandonei por falta de tempo, de entusiasmo, de perseverança.
Não me consolo de não haver aprendido o hebraico, que me ensinaram durante alguns anos. Ler os profetas, o Cântico dos Cânticos no original! Mas os meus professores não tinham a menor perícia pedagógica: cortavam o texto em pedacinhos de quatro ou cinco palavras e ditavam a correspondente tradução, literal, estúpida. A gente decorava aquilo e depois recitava-o, soletrando penosamente o original – e era o bastante para inspirar à criança uma aversão insuperável por aqueles caracteres hieráticos, que de início a atraíam tanto.
Outra língua que perdi, já adulto, foi o finês. Em virtude de um pálido, longínquo parentesco com o magiar, os candidatos a professor de húngaro tinham de estudá-lo. Eu era um deles. A gramática finesa ensinou-me muita coisa: por exemplo, que a minha língua materna tinha declinações com mais de uma dúzia de casos e que, até então, usava às mil maravilhas sem suspeitar-lhes a existência. Invejei os finlandeses por possuírem um verbo de negação que permite negar de um modo vago, sem especificação do que se nega – verbo ótimo para senhoras; e lamentei-os por faltarem na sua língua exatamente a letra f e o som correspondente. Nada disso, porém, interessava ao meu examinador; ele só queria saber de mim o desenvolvimento das labiodentais no finês, estoniano, vogul, ostíaco e zurieno. Passei no exame, mas nunca mais pus os pés na aula desse famoso linguista, que em apenas cinquenta anos de ensino conseguiu tirar a um país inteiro a vontade de conhecer outro.
Caso parecido foi o do sânscrito, pelo qual entrei a sentir um começo de paixão. Infelizmente, para o meu mestre o santo idioma da Índia não tinha palavras: era uma coleção de meros radicais. A pedra enchia-se de flechas, traços e símbolos matemáticos que ligavam à raiz sânscrita a flor grega ou o fruto latino que dela brotaram. Só anos depois descobri que o sânscrito também possuía palavras completas e até frases inteiras; mas já era tarde.
Um terceiro professor, a quem só vi uma vez, postou-se à porta do dinamarquês para impedir-me a entrada. Era na primeira aula de um curso da Sorbonne. Havia, além de mim, mais cinco estudantes, todos suecos. O professor passou todo o tempo a corrigir-lhes a pronúncia, eivada de influência sueca. Como a minha pronúncia não estivesse eivada de coisa alguma, não compareci nem à segunda aula nem às outras.
Mais desculpável, acho eu, é a minha ignorância do etrusco. Bem que havia na Universidade de Perugia um curso de etruscologia. Para nos dar o gosto de disciplina, o professor levou-nos a ver um famoso túmulo etrusco nos arredores da velha cidade. Mas os etruscos do túmulo estavam demasiado mortos, em contraste com uma loura estudante norueguesa, chamada Solveig. Desisti do etrusco.
O turco, deixei-o escapar por causa de uma gramática onde havia poucas regras, menos leituras e nenhum exercício de conversação, mas um sem-número de provérbios. Uns bonitos até, como este “A morte é um camelo negro, ajoelha-se a todas as portas”. Eu teria preferido lições mais práticas e larguei o livro apesar de tanto gostar da lei da assimilação vocálica, de que resultam palavras de dez sílabas com outros tantos ii e uu. Talvez a coisa fosse outra, se no livro houvesse pelo menos uma daquelas longas histórias todas em gerúndio: “Um eremita, passando pela floresta, ouvindo o canto de um passarinho, detendo-se e deliciando-se com o canto…” com um único pretérito perfeito – no desfecho rápido e brutal: “… foi devorado por um tigre”.Mas isto só me contaram depois.
Houve também idiomas, não adianta negá-lo, que deixei de aprender por minha culpa. Foi uma leviandade, se não um crime, não ter estudado chinês com meu amigo Kan Woo em Paris, onde ele, por mais estranho que pareça, colhia materiais para um estudo sobre literatura húngara. Mas certas confidências suas me assustavam. Almoçávamos juntos, quase diariamente, no restaurante chinês da rua Victor Cousin, ele com varinhas, eu, por obséquio especial do garçom, de colher e garfo.
Como vai o ensaio, sr. Kan Woo? – perguntei-lhe um dia.— Zá está quase plonto – respondeu-me em sua linguagem frouxa, mas correta. – Só falta copial.
O estudo fora feito em dois meses. A cópia arrastava-se por um ano, e ainda não estava concluída. Quando manifestei a minha estranheza, o meu amigo explicou: o difícil não era escrever o estudo, mas sim caligrafá-lo.
O amigo sabe, estou ploculando intloduzil no meio alguns sinais de tlaçado muito complicado que não folam emplegados há mais de um século. Também nem semple é fácil encontlal telceila lima. E as alitelações, então!
Não quis acreditar que um simples ensaio exigisse rima, aliteração e sinais tão rebuscados, mas o meu amigo assegurou-me que aquilo era assim mesmo. E um ano depois chegou de Xangai a revista Ki ta wen hio yen tsi k’ouan – que até hoje guardo com carinho especial – em que Kan Woo mostrou o meu nome em caracteres latinos, ladeado de hieróglifos os mais esquisitos.
É uma dedicatólia que fiz pala o amigo – disse-me. — Tem duas letlas muito lalas.
Tivesse eu, pelo menos, estudado o sogdiano. Num dos milhares de “campos de trabalho” inventados pelos nazistas, onde passei cinco meses, topei um dia com um amigo querido, especialista, já famoso, em línguas orientais. Os dois nos defendíamos contra o desespero com a leitura nas horas que não levávamos a derrubar uma casa para construir outra, exatamente igual, cinco metros mais adiante. O meu amigo trazia no bolso um texto sogdiano. Era, se bem me lembro, a língua sagrada da antiga Pérsia, conhecida – explicava-me ele – por uns dez filólogos no mundo. E eu podia ser o décimo primeiro! Mas no estábulo onde nos recolhíamos para pernoitar, eu tinha como vizinho um astrólogo. Este me predisse que ia escapar do campo, chegar a uma terra longínqua, e iniciar uma carreira completamente nova. Pois em todas elas o sogdiano me era dispensável. (Viverá ainda o pobre astrólogo? E o meu sábio filólogo, tão desambientado naquela desumana realidade? Terá sobrevivido ao campo de concentração, à deportação, às matanças?).
Em outras línguas que apareceram ao meu alcance não podia mexer, por constituírem exclusividade de amigos. Tocar no catalão seria entrar nos domínios de um bom camarada que, anos após, ensinaria húngaro (a quem?) na Universidade de Barcelona. Outro rapaz de minhas relações apropriara-se do japonês. Mas sobretudo as línguas fino-úgricas, parentes pobres do húngaro, tinham cada uma o seu dono. Um amigo anexara o tcheremisso, e ninguém mais o tirara dali. Durante a Primeira Guerra Mundial desaninhou, entre milhares de prisioneiros russos, um tcheremisso analfabeto, e, com a anuência das autoridades, tomou conta dele, espremendo-lhe do cérebro volumes de contos populares, que saíram num alfabeto especialmente inventado para esse fim. (Um desses contos figura no primeiro volume de Mar de histórias.) Outro conhecido mostrara-me, entre as relíquias da família, uma alentada monografia do pai sobre os pronomes voguis. Ninguém devia bulir naquilo.
Mas que adianta responsabilizar homens, livros e circunstâncias? O que se tinha de aprender, aprendia-se mesmo. Há vinte anos, ao passar por um sebo de Paris, vi exposto na rua um enorme dicionário português por dez francos. Ia comprá-lo, mas a pessoa com quem estava dissuadiu-me:— Ora essa! Nunca você precisará de um dicionário português.
Mas, voltando pela mesma rua, sozinho, duas horas mais tarde, não resisti à tentação e fui procurar o meu dicionário. Tinham-no vendido, e eu julgava encerradas as minhas relações com a última flor do Lácio.
Talvez seja até melhor que tantas línguas me tenham ficado fechadas, recusando-se a entregar-me o seu mistério. Que decepção se verificasse que o armênio era também fecundo em lugares-comuns e a língua de Hafiz se prestava excelentemente aos chavões mais desmoralizados!
1948

Paulo Rónai, em Como aprendi o português e outras aventuras

15/08/2024

Como aprendi o Português


Às vezes me perguntam como aprendi o português. Respondo geralmente que não o aprendi e provavelmente nunca hei de aprendê-lo. Mas a pergunta me evoca o meu primeiro encontro com o idioma em que, por circunstâncias de todo imprevisíveis, passei a exprimir-me com naturalidade e até a pensar.
Naquela época eu ensinava latim e italiano num ginásio de Budapeste. Uma vez por semana frequentava um café onde se reuniam meus amigos linguistas. Um deles estudava o sogdiano, outro preparava um ensaio sobre os pronomes voguis, um terceiro acabara de publicar dois grossos volumes de contos tcheremissos. Só interessados em idiomas exóticos, tinham verdadeira paixão pelas línguas difíceis e desprezavam minhas modestas excursões no domínio neolatino.
Mas, afinal, você sabe espanhol? – perguntei certo dia a um deles, perito em linguística fino-úgrica.
Ora essa! – respondeu-me.
Mas sabe mesmo? – insisti.
Ainda não experimentei – replicou altivo, como se se tratasse de andar a cavalo ou de bicicleta.
Calei-me, humilhado. Realmente o espanhol não se comparava com nenhum daqueles dialetos fabulosos. De mais a mais, era falado por um número excessivo de pessoas, e os meus amigos só apreciavam idiomas extintos ou, quando muito, falados por meia dúzia de pescadores analfabetos.
Assim, nem tive coragem de relatar-lhes que principiara a aprender o português – tanto mais que essa língua me parecia, de início, fácil demais: um desses começos de namoro em que tudo corre bem e nada faz prever as atrapalhações subsequentes.
Lembro-me ainda do dia em que o primeiro livro português me veio ter às mãos. Foi a antologiazinha As cem melhores poesias líricas da Língua Portuguesa, de Carolina Michaëlis. Possuíra outras antologias da mesma coleção: a francesa, a italiana, a espanhola. Inferi que devia haver uma portuguesa também, e mandei-a vir da Livraria Perche, de Paris.
O livrinho chegou-me às nove da manhã num dia das férias de Natal. Às dez, já eu tinha descoberto o único dicionário português existente nas livrarias de Budapeste, o de Luísa Ey, com tradução alemã. Atirei-me então às poesias com sôfrega curiosidade. Às três da tarde, o soneto “Sonho oriental”, de Antero de Quental, estava traduzido em versos húngaros; às cinco, aceito por uma revista, que o publicaria pouco depois.
De todos os escritores húngaros que eu conhecia, Desidério Kosztolányi era o único que se aventurara a abordar o estudo do português. Certa vez falou-me nesta língua, que lhe parecia alegre e doce como um idioma de passarinhos. A mim, sob seu aspecto escrito, dava-me antes a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes? E olhava espantado para palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restava das palavras latinas, cheias e sonoras.
Era aliás justamente a pronúncia que me causava algum medo.
As nasais, tão numerosas, arrepiavam-me, tanto mais que a gramática, arranjada não sei onde, as cercava do maior mistério. É impossível, diziam Gaspey, Otto e Sauer, explicar a pronúncia de tais sons; a única maneira de aprendê-la era pedir a um natural do país que os pronunciasse grande número de vezes. Mas como ia eu arranjar em Budapeste um natural de Portugal? E entrei a meditar sobre enigmas fonéticos, como, p. ex., os diversos valores do x, que em húngaro nem existe e mesmo nas outras línguas não passa de uma letrinha à toa, ao passo que em português se encarnava de quatro maneiras diferentes.
Lembro-me ainda de algumas reações minhas ante os fenômenos do novo idioma. Foi com certa impaciência que acolhi ilogismos que ela me oferecia, totalmente esquecido dos que engolia sem protestos, a cada instante, na minha própria língua. Não me conformava, em particular, com o gênero feminino da palavra criança. Nem queria admitir que nomes tão franceses como chapéu ou paletó pudessem ser incorporados ao português sem mais nem menos. Mas reconhecia com alvoroço palavras cuidadosamente guardadas da velha estirpe latina e que outros idiomas românticos tinham malbaratado: lar e ônus vinham familiares, embelezados pela longa tradição. Vozes em que reencontrava vestígios da formação latina, como bebedouro e nascedouro, e mesmo horrendo e nefando, sorriam-me. Os vocábulos de origem árabe se apresentavam solenes, muito mais presos à origem do que realmente são; parecia-me até impossível que um alfaiate cortasse paletós e calças pelo modelo inglês, em vez de só fazer albornozes.
Não somente o vocabulário: fenômenos sintáticos também me provocaram reações sentimentais. A descoberta do infinitivo pessoal foi uma surpresa e abalou-me bastante o orgulho patriótico, pois julgava-o riqueza exclusiva do húngaro. Afeiçoei-me logo às formas mesoclíticas dos verbos: falar-te-ei, lembrar-nos-íamos apresentavam-me como que em corte anatômico palavras já irreparavelmente fundidas no francês ou no italiano, e faziam supor dotes de análise e síntese em todos os que as empregavam. Admirei também a sábia economia que se manifestava em expressões compostas de dois advérbios, como demorada e pacientemente, só imagináveis numa língua que teimasse em não se afastar de suas raízes etimológicas.
Aos poucos, sem ainda saber ler em voz alta, ia adivinhando no português uma melodia nova e diferente, e continuava familiarizando-me com o volumezinho das 100 poesias. Traduzi “Os cinco sentidos”, de Almeida Garrett, a romança da “Nau Catarineta”, e um punhado de quadras, das quais a começada por “O anel que tu me deste” ainda hoje me parece um milagre de simplicidade patética.
O problema consistia em arranjar outros livros. De Estrasburgo consegui um exemplar de Os Lusíadas, na Biblioteca Românica. Graças a uma boa tradução húngara e as reminiscências de Virgílio e de Tasso, pude tê-los sem grande dificuldade. Mas ainda não tinha conseguido um texto contemporâneo, um documento de português vivo.
Foi quando um dos livreiros, alertado por mim, desensebou um volume roto e sujo, de um autor português moderno – Samuel Ribeiro, se bem me lembro. Aí a coisa ficou ruim, pois logo na primeira página apareceram vinte palavras não registradas por Luísa Ey. Era uma história rústica, provavelmente meio regional, e o autor parecia divertir-se em chamar os bichos e as plantas pelos seus lindos mas incompreensíveis nomes alentejanos ou minhotos. Alguém, ao saber do meu embaraço, me apresentou a um funcionário do Consulado do Brasil a quem mostrei a página rebelde. Examinou-a com atenção e declarou-me que ou aquilo não era português, ou então no Brasil se falava outra língua. Em compensação, pronunciou para mim várias nasais, que procurei imitar sem muito êxito.
Deixei de lado o livro de Samuel Ribeiro e pus-me a ler poetas brasileiros.
Meu primeiro livro brasileiro foi uma Antologia de poetas paulistas, arranjada por intermédio de uma livraria húngara de São Paulo, cujo endereço obtivera por acaso. Lembro-me ainda desse volumezinho, de apresentação péssima, muito mal-organizado (e que depois nunca mais consegui encontrar aqui no Brasil). Continha os retratos horrorosos de trinta poetas de São Paulo e uma poesia de cada um deles, geralmente um soneto. As dificuldades começavam pelo título, pois o Wörterbuch de Luísa Ey, naturalmente, não continha a palavra paulista.
Se não cheguei a entender a maioria dos poemas, adivinhei o sentido de alguns e acabei traduzindo um poemeto de Correia Júnior, que publiquei numa revista. Ao reler a minha versão, alguns anos mais tarde, já aqui no Brasil, descobri humilhado um enorme contrassenso. O poeta falava da rede na qual descansava a aguardar os sonhos; pois eu, que nunca tinha visto semelhante objeto, julguei tratar-se de uma imagem poética e pus no texto húngaro “a rede dos sonhos tecida pela imaginação”.
Em seguida “adivinhei” e verti mais alguns poemas do livro. Salvo uma única exceção, eram todos, como mais tarde verifiquei com espanto, de autores que no Rio de Janeiro ninguém conhecia. Um acaso fez cair uma dessas traduções nas mãos do então cônsul do Brasil em Budapeste, que me chamou, me deu um volume de Bilac, outro de Vicente de Carvalho e três números antigos do Correio da Manhã.
A este jornal mandei, com breve carta, um recorte da “primeira poesia brasileira vertida para o húngaro”. Nunca recebi resposta a essa carta, mas um dia, com grande surpresa minha, chegou-me um envelope volumoso coberto de selos exóticos e cheio dos poemas, ainda inéditos, de um jovem poeta carioca, o qual, depois de ter lido no Correio um tópico a respeito de minha esquisita mania, me julgara a pessoa mais idônea para emitir a primeira opinião acerca de suas composições clandestinas.
Essa mensagem foi seguida de outras, escritas por outros leitores do jornal, todos poetas. Daí a pouco recebia regularmente farta correspondência do Brasil: cartas com versos datilografados ou recortados de jornais, revistas, livros. Estes me chegavam sem nenhum sistema, mandados por algumas repartições, por amigos e desconhecidos. Havia entre eles uns valiosos, outros regulares e alguns fracos. Mas faltava-me o fio condutor para me orientar naquela multidão de nomes novos e estabelecer uma escala certa de valores.
De certos poetas, tradicionalistas na expressão e na forma, não sabia se eram de 1850 ou de hoje. Ao mesmo tempo, tomava por originalíssimos alguns poetas de 15 anos (de quem recebia os inéditos), por lhes desconhecer os modelos. Assim, quando afinal obtive um volume de Jorge de Lima, a obra deste grande poeta não me deu mais a surpresa feliz de uma descoberta, pois já conhecera vários de seus discípulos.
Ao lado dessas incertezas, havia as da língua, pois ainda continuava com o dicionariozinho da sra. Ey, e um português-francês, não muito melhor, de Simões da Fonseca, ambos feitos na Europa, e que por isso ignoravam totalmente os brasileirismos. Aí tinha de recorrer de novo ao sistema arriscado das conjecturas.
Nem todas eram fáceis. No “Acalanto do seringueiro”, de Mário de Andrade, o uirapuru só podia ser pássaro. Mas quanto tempo não levei para atinar que o cabra resistente do mesmo poema não designava bicho, mas homem.
Noutros casos, a falta de noção equivalente no meio centro-europeu tornava a tradução quase impossível. Tive de dar tratos à bola para fabricar um termo composto de três palavras (kaucsukfacsapoló) para verter o próprio nome do seringueiro. Não me atrevi a empregá-lo senão depois de experimentá-lo em vários poetas amigos e verificar-lhes a reação favorável.
O que, porém, me atrapalhava sobretudo eram as palavras mais corriqueiras, mais simples. Os sábios glotologistas do meu café, embora com relutância, tiveram de concordar comigo quando lhes mostrei que uma das palavras brasileiras mais difíceis de traduzir e encaixar num verso húngaro era dezembro. O nosso december, etimologicamente idêntico, mas que evocava noções de gelo, neve e miséria, não poderia sugerir a nenhum leitor húngaro a imagem de um Natal carioca, tórrido e abafado. Ou então, que significava a palavra Nordeste? Foi necessária uma longa carta de Ribeiro Couto (então cônsul na Holanda) para dar-me uma ideia aproximativa do complexo sentido geográfico, antropológico, sociológico e, sobretudo, poético, dessa denominação. Com sua compreensiva inteligência, o poeta de Província esboçou um sucinto retrato espiritual da região nordestina, da qual, à falta de outra documentação, me desenhou um mapa esquemático. Tive menos sorte com um jovem poeta esquerdista em cujos poemas encontrara inúmeras alusões aos morros cariocas. Pensando que eu não entendesse a palavra, respondeu à minha consulta com uma lista de sinônimos: colina, outeiro etc. Só depois de nova troca de cartas cheguei a entender que, contrariamente ao que se dava na minha cidade, onde os morros, cobertos de luxuosos palacetes, só abrigavam gente rica, no Rio eles eram sinônimos de favelas, isto é, “conjuntos de habitações populares toscamente construídas e desprovidas de recursos higiênicos”.
A publicação em jornais e revistas de algumas dessas traduções de poesias brasileiras motivou episódios curiosos. Numa das minhas aulas de latim, por exemplo, um aluno me pediu, no meio da expectativa zombeteira de seus colegas, que lhe explicasse um estranho poema lido por ele na véspera e pôs-se a recitar “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Embora não gostasse de interromper as minhas aulas, dessa vez não resisti à tentação e citei outros versos do poeta. Falei da iconoclastia necessária da poesia moderna, da salutar reação ao “poético” estereotipado, do valor profundo das sensações primitivas e virgens; mostrei como as exigências do lirismo e da lógica são diferentes; insisti sobre o poder emocional do elemento grotesco; disse da importância da colaboração do leitor com o poeta. A explicação transformara-se, nessa altura, em animada conversa, e por fim meus alunos concordaram comigo em que cada época tinha a sua expressão literária, diversa das anteriores. Chegados a esse resultado, pudemos voltar à leitura de Horácio. Já então os meus discípulos leram com interesse muito maior a ode em que o poeta romano, considerado até então por muitos deles um versificador de lugares-comuns, se desculpava da ousadia revolucionária com que introduzira na literatura latina formas e expressões “nunca antes divulgadas”.
O aparecimento das traduções num volume intitulado Mensagem do Brasil foi acolhido pela crítica com o interesse que o momento permitia. (Estávamos em agosto de 1939.) Pela primeira vez na Europa Central liam-se versos brasileiros e se podia entrever a existência no Brasil, até então só conhecido como produtor de café, de uma civilização digna de estudo e mesmo de admiração. O crítico Jorge Bálint – que mais tarde os nazistas haviam de assassinar – deu a seu artigo este título: “O Brasil chegou-se para mais perto”.
Foi essa, realmente, a minha impressão durante três dias. No quarto dia, os tanques alemães cruzaram a fronteira da Polônia. Uma cortina de fumaça passou a esconder o Brasil, a poesia, a alegria de viver.
Entretanto, ao cabo de 15 meses, cujos sofrimentos e angústias não cabem relatar aqui, lá estava eu de malas prontas para conhecer o Brasil de perto. A viagem tinha de ser feita através de Portugal, única saída da Europa já em chamas. Rumei para Lisboa com todas as preocupações do exilado, mas algo consolado pela interessante experiência linguística à minha espera. Que mal me podia acontecer, se já conhecia as formas mesoclíticas e o infinito pessoal?
Sofri, porém, decepção tremenda. Passei seis semanas em Lisboa sem que conseguisse entender patavina da língua falada. Pegava do jornal e compreendia-o perfeitamente; o porteiro do hotel ou o garçom do café diziam três palavras, e eu me via outra vez no mato sem cachorro. Humilhação ainda maior: os intelectuais portugueses, aos quais fui apresentado, depois de uma tentativa frustrada de falarem a sua língua comigo, recorreram ao francês. Assisti à representação de uma peça de teatro (de Carlos Selvagem, se bem me lembro), e saí tonto, sem ter compreendido o enredo; a uma aula de colégio, sem saber se os alunos tinham respondido bem ou mal; a uma defesa de tese na Faculdade de Filosofia, sem descobrir até o fim qual fora o assunto focalizado pelo candidato. Que diriam os filólogos de Budapeste, se me vissem em tais apuros?
Durante a minha permanência na capital portuguesa costumava tomar diariamente determinado bonde e saltar no mesmo ponto, onde o mesmo condutor lançava o mesmo grito. Sentava-me perto do homem, apurava os ouvidos para entendê-lo, tudo em vão. Poderia perguntar, é claro, mas não seria fair play: preferia saltar envergonhado e infeliz, até que, na véspera da minha partida, veio a revelação. O condutor gritava era “Restauradores”; apenas, suprimia três das vogais da palavra, carregando nos rr e sibilando os ss. Fui correndo verificar na placa da esquina: tinha acertado! Mas já era tarde. No dia seguinte embarquei no Cabo de Hornos com destino ao Rio de Janeiro, atormentado por negros pressentimentos.
Cheguei uns 20 dias depois. Que alívio logo de entrada! O Brasil recebia-me com uma linguagem clara, sem mistérios. Ainda não desembarcara, e já não perdia nenhuma das palavras do carregador, que, em compensação, perdeu uma das minhas malas. Entendi igualmente o funcionário da alfândega; e, de tão satisfeito, não lhe rebati a surpreendente afirmação de que o português e o húngaro eram línguas irmãs. O deslumbramento continuou na rua, no primeiro táxi, no hotel. O idioma que eu aprendera em Budapeste era mesmo o português!
1944 – 194

Paulo Rónai, em Como aprendi o português e outras aventuras

04/05/2024

Línguas

Contenho vocação pra não saber línguas cultas.
Sou capaz de entender as abelhas do que alemão.
Eu domino os instintos primitivos.

A única língua que estudei com força foi a portuguesa.
Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.

A língua dos índios Guatós é múrmura: é como se ao dentro de suas
palavras corresse um rio entre pedras.

A língua dos Guaranis é gárrula: para eles é muito mais importante o rumor
das palavras do que o sentido que elas tenham.
Usam trinados até na dor.

Na língua dos Guanás há sempre uma sombra do charco em que vivem.
Mas é língua matinal.
Há nos seus termos réstias de um sol infantil.

Entendo ainda o idioma inconversável das pedras.
É aquele idioma que melhor abrange o silêncio das palavras.

Sei também a linguagem dos pássaros — é só cantar.

Manoel de Barros, in Ensaios fotográficos

02/05/2024

Roçar a língua de Luís de Camões

Este livro não é uma história aprofundada da língua portuguesa — ou da língua portuguesa brasileira, ou ainda da língua brasileira, para quem prefere essas denominações. No momento, eu não quero nem mesmo tentar resolver essa questão dos nomes. No fundo, esse não é o maior dos nossos problemas, nem o mais premente.
Como professor e usuário desse idioma, eu me beneficio o tempo todo da leitura de textos acadêmicos e de interesse geral que, esses sim, têm o tamanho, o escopo e a solidez para permitir análises mais aprofundadas. Muitos deles, inclusive, aparecem na lista de leituras recomendadas no fim deste livro. Eles estão lá para quem sentir vontade de se informar melhor sobre algum dos temas que encontrar por aqui.
O meu objetivo é mais modesto.
Eu pretendo fundamentalmente expor as etapas do trajeto de formação da língua que nós falamos todos os dias. Iluminar quanto de um passado muito antigo às vezes se esconde por trás de algo que, para nós, é tão presente quanto o ar à nossa volta. Elencar, também, as diferentes tradições, culturas e povos que contribuíram para a formação do nosso idioma: a família gigante que possibilitou que hoje você fale o que fala, e que fale como fala.
A ideia, com isso, é te levar a fazer perguntas, a pensar mais detidamente sobre coisas que talvez você nem conhecesse ou que até aqui pode ter visto sem prestar muita atenção. É como naquela famosa piada dos peixes que não sabem responder à questão “Como está a água?” porque nunca pararam para se perguntar o que é a água, de tão literalmente imersos estão nela — nossa relação com o idioma que falamos desde o berço pode nos passar quase despercebida. Esse idioma forma nosso mundo de maneiras tão profundas e tão incontornáveis que talvez, sem ajuda, a gente nunca chegue a parar de verdade para pensar sobre ele.
Mas podemos tentar.
Outro complicador, surgido em várias conversas sobre o tema, é que nós, como sociedade, fazemos com o nosso passado o mesmo que qualquer pessoa faz no nível individual. Com o passar do tempo, vamos montando uma história que parece coerente e que funciona bem para explicar o estado de coisas que queremos compreender hoje, nos termos que queremos ver vigorar hoje. Ou seja, vamos selecionando alguns fatos, deixando outros de fora até serem esquecidos, organizando os restantes em belas cadeias de “explicações” e depois transformando essa narrativa (que nunca deveria deixar de ser vista como apenas uma entre várias possibilidades) numa história com ares de coisa sagrada, inquestionável, exatamente porque ela explica não o mundo como ele é, mas o mundo que corresponde ao que queremos ver. Nós editamos a história para que ela responda às perguntas que são importantes para nós neste momento.
E a história da língua que falamos não é uma exceção a essa regra, sendo também alvo de simplificações e carecendo de necessárias revisões periódicas.
Mas no caso do nosso idioma essa trajetória de visões e revisões, que idealmente seguiria rumo a uma percepção cada vez mais fiel, acaba sendo atravancada de uma maneira toda sua. Isso porque cada falante se sente (devidamente) dono da língua, e assim ele tem, por vezes, dificuldade para ouvir opiniões que contrastem com o que acredita saber perfeitamente bem. Todo falante se julga uma autoridade em questões de língua. E isso pode fazer com que certas “verdades” ganhem uma couraça: fica difícil mostrar que devem ser questionadas.
Dentre as pretensas verdades que existem na relação dos brasileiros com a sua língua está a estranha e paradoxal tendência de descreditar nossa posse do idioma. Assim, parecemos teimosamente dispostos a crer em discursos que relativizem o nosso domínio da língua. Esses discursos podem vir da escola, da imprensa, de certa tradição gramatical, e acabam determinando de maneira muito nítida a imagem que o falante tem de si próprio e de sua competência, criando a mais do que conhecida ideia de que ninguém “fala certo” no Brasil; seja porque o português é uma língua terrivelmente difícil, seja porque somos todos uns broncos, uns ignorantes (ao contrário, é claro, dos portugueses).Podemos dar início à conversa refletindo um pouquinho sobre essa primeira ideia encouraçada, só para ilustrar o tipo de questionamento que pode surgir aqui. Vamos começar pela hipótese (tantas vezes repetida) de que o português é uma língua particularmente complicada.
Talvez a primeira coisa em que as pessoas pensem quando mencionam essa ideia seja a morfologia. Em específico, as formas do verbo. E, até certo ponto, é verdade que a nossa morfologia verbal (aquelas formas todas que o verbo adota quando muda de pessoa, número, e tempo — eu faço, você fazia, eles farão) é relativamente rica. Sobretudo se você a compara com a do inglês, tão mais compacta.
Contudo, vale dizer logo de saída que, na verdade, o inglês é que é a língua anômala nessa comparação. Quem precisa se explicar são eles!
Todas as línguas mais proximamente aparentadas ao inglês (o frísio, o holandês, o sueco, o alemão) se assemelham mais à nossa nesse quesito. Alguma coisa aconteceu na história do inglês para que esse idioma se comporte hoje de maneira tão singular. E esse mesmo acontecimento, que no caso deles ocorreu nada menos que duas vezes, vai aparecer depois em nossa conversa sobre a língua brasileira: trata-se da situação em que um grande grupo de adultos precisa aprender um idioma novo em condições difíceis. Isso não pode deixar de marcar um idioma, e normalmente na direção do que parece ser uma simplificação de suas formas.
A segunda coisa importante a mencionar é que existem muitas, mas muitas línguas com morfologias bem mais complexas do que a nossa (o russo é um caso óbvio). E quando eu digo “bem mais complexas” quero dizer “bem mais complexas”. Mas para ficarmos com um exemplo de fato radical, vamos pegar o archi, língua falada na antiga república soviética do Daguestão. Só para você ter uma ideia, estima-se que em archi um único verbo possa assumir mais de um milhão de formas diferentes em situações reais de uso. Em outro campo, se você acha muito ter que decorar quatro formas de um adjetivo — masculino, feminino, singular e plural (bom, boa, bons, boas) —, imagine esse processo em sânscrito, que, para começo de conversa, tem singular, dual e plural, masculino, neutro e feminino, além de oito casos nominais que variam de acordo com a função da palavra na frase. No limite, isso produz 72 formas diferentes da palavra.
Por outro lado, línguas com sistemas morfológicos que tendem à economia e à contenção, a exemplo do mandarim na China, e mesmo do dinamarquês, podem se caracterizar por um altíssimo grau de complexidade em outros níveis de análise. Como em seus sons. Talvez você até saiba disto, mas em línguas tonais, como o mandarim (e várias línguas asiáticas, africanas e indígenas do Brasil), é preciso, digamos, cantar as sílabas para alterar o sentido ou a função das palavras na frase. E o dinamarquês, embora não seja tonal, tem 27 sons vocálicos distintivos.
[…]

Caetano W. Galindo, in Latim em pó: Um passeio pela formação do nosso português

01/01/2024

Pá, Pá, Pá

A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa, por isto prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita atenção.
Achava curioso, por exemplo, o “pois é”. Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o “pois é”. Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro dizia “pois é”. Ela não aguentava mais o “pois é”.
Também tinha dificuldade com o “pois sim” e o “pois não”. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa.
Pois não – disse eu, polidamente.
É exatamente isso! O que quer dizer “pois não”?
Bom. Você me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse “pois não”.
Quer dizer, “pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às suas ordens...”
Em outras palavras, quer dizer “sim”.
É.
Então por que não se diz “pois sim”?
Porque “pois sim” quer dizer “não”.
O quê?!
Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou acho difícil de acreditar, eu digo “pois sim”.
Que significa “pois não”?
Sim. Isto é, não. Porque “pois não” significa “sim”.
Por quê?
Porque o “pois”, no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz “pois não”, está-se dizendo que seria impossível, no caso, dizer “não”. Seria inconcebível dizer “não”. Eu dizer não? Aqui, ó.
Onde?
Nada. Esquece. Já “pois sim” quer dizer “ora, sim!”. “Ora se aceitar isso.” “Ora, não me faça rir. Rã, rã, rã.”
– “Pois” quer dizer “ora”?
Ahn... Mais ou menos.
Que língua!
Eu quase disse: “E vocês, que escrevem ‘tough’ e dizem ‘tâf'’?”, mas me contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:
Seria mais fácil não dizer o “pois”.
Eu já estava com preguiça.
Pois é.
Não me diz “pois é”!
Mas o que ela não entendia mesmo era o “pá, pá, pá”.
Qual o significado exato de “pá, pá, pá”.
Como é?
– “Pá, pá, pá”.
– “Pá” é . “Shovel”. Aquele negócio que a gente pega assim e...
– “Pá” eu sei o que é. Mas “pá” três vezes?
Onde foi que você ouviu isso?
É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre entra o “pá, pá, pá”.
Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a nós, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:
Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando chega o Túlio.
Conversa vai, conversa vem e coisa e tal e pá, pá, pá... Eu e a americana nos entreolhamos.
Funciona como reticências – sugeri eu. – Significa, na verdade, três pontinhos. “Ponto, ponto, ponto.”
Mas por que “pá” e não “pó”? Ou “pi” ou “pu”? Ou “et cétera”?
Me controlei para não dizer – “E o problema dos negros nos Estados Unidos?”.
Ela continuou:
E por que tem que ser três vezes?
Por causa do ritmo. “Pá, pá, pá.” Só “pá, pá” não dá.
E por que “pá”?
Porque sei lá – disse, didaticamente.
O outro continuava sua história. História de brasileiro não se interrompe facilmente.
E aí o Túlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá...
É uma expressão utilitária – intervim. – Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece ser reproduzida. São palavras que...
Mas não são palavras. São só barulhos. “Pá, pá, pá.”
Pois é – disse eu.
Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papeando sozinho.

Luís Fernando Veríssimo, in Comédias Para se Ler na Escola

22/09/2023

Angolanês

 


Durante a Guerra Fria em Angola (que de fria só tinha mesmo o medo que gelava a espinha sempre que o nosso sangrento conflito civil se intensificava), aprendi desde cedo a conviver com autoritarismos de toda espécie. Quando vim ao mundo, em 1978, o país já era uma nação independente, mas, à medida que me foi sendo ensinada a arte da sobrevivência, a palavra “liberdade”, dependendo do lugar e do interlocutor, acarretava o risco de ser recebida como uma ofensa ou um sonho impossível. Isso implicava uma intervenção urgente, pois, se não nos curássemos dessa enfermidade com urgência urgentíssima, alguém pouco preocupado com a nossa saúde poderia vir bater-nos à porta de madrugada e fazer de nós um exemplo.
A liberdade, principalmente a individual, me foi apresentada como sendo coisa de louco, bêbado ou poeta. Algo que só está ao alcance de uns poucos destemidos que a história tende a nos apresentar como mártires. Liberdade para mim estava e está ainda na mesma categoria da felicidade: não as discutimos com estranhos e se, por alguma razão, sentíssemos a comichão de o fazer, teríamos de seguir meticulosamente o sigilo conspiratório digno de um romance policial, com portas trancadas, persianas corridas e o rádio ligado para congestionar os microfones que a nossa paranoia imaginava existirem escondidos nas paredes. Puro medo, mas, por via das dúvidas, púnhamos o volume do rádio no onze, pois já dizia a sabedoria popular: camarão que dorme, a onda leva.
Quando passei a residir no hemisfério norte, ainda que o estatuto de estrangeiro ditasse a forma como me relacionava com a palavra “liberdade”, foi com o uso diário e exclusivo das línguas europeias que me apercebi que dificilmente nos livraríamos dessa ressaca colonial que nos embacia a mente. Ao transformar a literatura no meu ofício, tenho feito uso do pretuguês e do inglês como um par de ferramentas nas mãos de um mecânico para desenroscar parafusos culturais, aceitando sem muito questionar o rótulo de “literatura lusófona” que me é empregue e sentindo-me ora incompleto e ora envergonhado por não estar a contribuir para a construção de uma literatura angolana descolonizada. Uma literatura que respondesse à minha inquietação: sem a presença, a compreensão e o uso das línguas que carregam as memórias dos nossos ancestrais, como poderemos gritar alto que a nossa história não começa com a chegada dos europeus a África?
Um dos livros mais importantes para estudar o uso das línguas europeias nas literaturas africanas é o seminal Decolonising the Mind: the Politics of Language in African Literature [Decolonizando a mente: as políticas da linguagem na literatura africana], de Ngũgĩ wa Thiong'o, editado nos anos 1980. A obra aborda não só questões literárias, mas também as contradições do neocolonialismo em África, as ditaduras opressivas, as guerras e os saques pornográficos dos recursos do continente patrocinados pelos países do Ocidente e pela China. Uma obra que continua a ser atual e demarca como poucas a frase de Frantz Fanon: “A língua é uma tecnologia de poder”.Como eu, os angolanos nascidos depois da independência e que cresceram nas áreas urbanas não falam as nossas línguas autóctones. Quando visitamos os nossos familiares no interior, nos vemos na situação caricata de precisar de um tradutor, que em muitos casos acabam por ser os nossos pais — a geração que abraçou a tarefa de construir não só um país, mas também a sua identidade num mundo pós-colonial. Sou-lhes grato pelos sacrifícios, mas é-me difícil compreender o porquê de terem descartado o ensino das línguas bantus aos seus filhos. A resposta com que nos têm brindado sobre as razões de tal descaso é a de que, por não pertencer a nenhuma etnia, o português foi a língua que melhor serviu ao projeto de unidade nacional em Angola.
Na década de 1950, Óscar Ribas, Tomaz Vieira da Cruz e Castro Soromenho intensificaram a dança entre as línguas de origem bantu e o português, trazendo para a literatura a linguagem dos musseques. Porém, com exceção da Bíblia, de alguns poemas e fábulas, nenhum romance foi publicado nas nossas oito línguas nativas. Mesmo que existissem, a maior parte da população não tem até hoje uma relação com a palavra escrita na sua língua materna. Por isso, a expressão oral e a música ditam como a cultura é produzida e consumida em todo o território.
A nossa dívida para com o grupo N'gola Ritmos, liderado por Liceu Vieira Dias, é eterna. Foi através da música produzida por eles nos anos 1950 que conseguimos não só resgatar muito da nossa identidade cultural, mas também vislumbrar um futuro no qual a música contemporânea angolana poderia dialogar com o passado sem comprometer em nada a sua essência. As aparições do N'gola Ritmos na televisão portuguesa, em 1964, precisam ser melhor estudadas, pois aconteceram na altura em que os movimentos de libertação combatiam nas matas o exército português. E, embarcando na ilusão do luso-tropicalismo, Portugal chamou para a metrópole Nino Ndongo, Fontinhas, Xôdo, Zé Cordeiro, Lourdes Van-Dúnem e Gégé. Cantaram em quimbundu canções de protesto e canções de dor que narram a condição do angolano — para mim, as mais belas canções do mundo.O nosso primeiro presidente, António Agostinho Neto, discursando na União dos Escritores Angolanos em 1977, disse: “O uso exclusivo da língua portuguesa, como língua oficial, veicular e utilizável atualmente na nossa literatura, não resolve os nossos problemas. E tanto no ensino primário, como provavelmente no médio, será preciso utilizar as nossas línguas. E dada a sua diversidade no país, mais tarde ou mais cedo deveremos tender para a aglutinação de alguns dialetos, a fim de facilitar o contato”. Ou seja, o que propunha era a criação do “angolanês”. Especulo o que ele diria se ouvisse o vernáculo do kuduro, derivação da linguagem dos musseques, e que acredito ser o mais próximo que conseguimos chegar do sonho do autor do “Caminho do mato”. Convido o leitor a ouvi-lo na voz de Belita Palma. É cantado em português, mas, quando o ouço, imagino-o numa versão de Aline Frazão em quimbundu.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

18/09/2023

Cuidado com o livro


Sabem do que tenho mais saudades? Do livro aberto. Sim, isso mesmo, tenho saudade de ver um livro escancarado na mão de um leitor. Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público. Ler em público, ou até carregar um livro debaixo do braço, passou à história, é hoje praticamente figura de museu, alimento da nostalgia de poetas, romancistas e cronistas, para se empanturrarem até arrotarem os seus desvarios e estórias, que por vaidade ou capricho masoquista se dão ao trabalho de publicar em livros, que ficarão para sempre calados.
Nutrimos pelos livros o mesmo que sentimos por certos cães: medo. As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra “Livraria” são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações onde nos portões se lê “Cuidado com o cão”. As nossas bibliotecas estão para nós como os canis municipais: nunca pomos lá os pés. Ninguém quer ver, ninguém está para se comover com aquela quantidade de livros abandonados, engaiolados nas prateleiras numa agonia sem fim.
Quando kandengues, nossos pais, para incutir sentido de responsabilidade, nos davam de presente livros, e com eles as mesmas recomendações que forneciam quando nos ofereciam o nosso primeiro cachorrinho: “Cuida bem dele, leva-o a passear, é o teu melhor amigo”. Nós, na emoção inicial, brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil. Quando cresceram, ou melhor, quando nós crescemos, os abandonámos com a sua coleira/prateleira num canto qualquer, até morrerem de velhice.
O desaparecimento do livro do espaço público me leva de volta ao tempo em que em Luanda, anos 1980-90, se não me falha a memória, os cães que circulavam pela cidade desapareceram de forma repentina. Dizem as más-línguas que os responsáveis seriam um grupo de cooperantes filipinos cuja culinária, de tão vasta e exótica, incluía alguns quitutes e guisados confeccionados com carne de rafeiro. Um mito urbano que alimentou o nosso imaginário coletivo durante anos e, até hoje, repousa num anexo nos fundos da nossa memória.
Caros leitores, amigos da provocação e da conversa fiada, do largo da Maianga aos cafés da Restinga, de estímulo e afeto, românticos e nostálgicos, amantes da velha e quase extinta arte da leitura, permitam-me que vos dedique estas palavras, perdoem a vaidade deste vosso humilde cronista, tão pecador como qualquer outro, mas que vos tem na mais alta estima. A vocês, caros companheiros das manhãs aborrecidas de terça-feira, cuja utilidade, para além de ser mais um dia de labuta semanal, é apenas a de nos lembrar que o fim de semana ainda vem longe.
Se tencionam iniciar uma coleção de livros, estimados leitores, eis aqui algumas informações úteis que temos a obrigação de não respeitar:

Logo a partir dos primeiros meses, todos os livros, sem exceção, devem ser vacinados anualmente contra a raiva;
Os livros não devem ter livre acesso à rua;
Ao sair com o livro, mantenha-o sob controlo, utilizando coleira e guia;
Nunca provoque um livro;
Não toque em livros estranhos, feridos ou que estejam se alimentando;
Não separe lutas entre livros, nem mexa com escritores e as suas criações;
E em caso de acidentes por mordedura: lavar o ferimento com água e sabão e procurar orientação médica; identificar o livro agressor e o seu proprietário; caso o livro seja conhecido, observar o objeto por dez dias.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas