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08/08/2026

Bicho

Hesitei horas
antes de matar o bicho.
Afinal,
era um bicho como eu,
com direitos,
com deveres.
E, sobretudo,
incapaz de matar um bicho,
como eu.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

16/07/2026

Gente do bem

Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

12/12/2025

20/06/2025

Vão

vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros
vãs
todas as coisas que vão.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

09/04/2025

1988

(na passagem da constelação alice)

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

22/03/2025

Campo de sucatas

saudade do futuro que não houve

aquele que ia ser nobre e pobre

como é que tudo aquilo pôde

virar esse presente poder

e esse desespero em lata?

pôde sim pôde como pode

tudo aquilo que a gente sempre deixou poder

tanta surpresa pressentida

morrer presa na garganta ferida

raciocínio que acabou em reza

festa que hoje a gente enterra

pode sim pode sempre como toda coisa nossa

que a gente apenas deixa poder que possa.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

07/01/2025

Sonho

sonho
que estou tentando
tanto
fazer uma coisa
mas outras coisas
me atrapalham
desvios, falhas, enganos,
obstáculos
espetaculares, perigos
de morte, lapsos
de memória, acidentes,
catástrofes, pormenores
irrelevantes, pessoas
que desaparecem
ou se transformam
em outras ou
surgem repentinamente
como se já estivessem ali
há muito tempo,
ou se perderam
e esperam
que alguém (eu,
é claro)
as leve
de volta
ao caminho —
e me afasto da meta
que persigo
flecha
cada vez mais longe
do arco
e do alvo
quando então
do alto
do teto
caio
no colchão
do quarto
em que desperto
Sísifo
dissidente
do círculo
eternamente
incompleto.

Arnaldo Antunes, em Agora aqui ninguém precisa de si

25/11/2024

Feliz coincidência

qualquer coincidência
é mera semelhança
enquanto o quixote pensa
sancho coça a sancha pança
todas as coisas sejam iguais
que o vermelho seja verde
o azul seja amarelo
e sempre seja nunca mais
este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor
casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor
misto de tédio e mistério
meio dia/meio termo
incerto ver nesse inverno
medo que a noite tem
que o dia acorde mais cedo
e seja eterno o amanhecer
azuis como os sorrisos das crianças
e pesados como os provérbios das velhas
anos cultivei a ideia do poema,
coisa inteira, ovo, ânsia e antena,
meus poemas são ideias
ontem, coisa inteira, hoje, apenas manchas.

Paulo Leminski, em Toda poesia

16/10/2024

luto por mim mesmo

a luz se põe
em cada átomo do universo
noite absoluta
desse mal a gente adoece
como se cada átomo doesse
como se fosse esta a última luta
o estilo desta dor
é clássico
dói nos lugares certos
sem deixar rastos
dói longe dói perto
sem deixar restos
dói nos himalaias, nos interstícios
e nos países baixos
uma dor que goza
como se doer fosse poesia
já que tudo mais é prosa
Faça os gestos certos,
o destino vai ser teu aliado,
ouço uma voz dizendo
do fundo mais fundo do passado.
Hoje, não faço nada direito,
que é preciso muito mais peito
pra fazer tudo de qualquer jeito.
Ai do acaso,
se não ficar do meu lado.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

25/05/2024

abaixo o além

de dia
céu com nuvens
ou céu sem
de noite
não tendo nuvens
estrela
sempre tem

quem me dera
um céu vazio
azul isento
de sentimento
e de cio

isso sim me assombra e deslumbra
como é que o som penetra na sombra
e a pena sai da penumbra?

A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.

As romãs que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

06/05/2024

bicho alfabeto

o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

15/04/2024

alvorada em alfa

todo o peso
com que me meço
vejo e invejo
e neste largo ver
me largo vendo
até não mais poder
descompreendendo
o que vi
foi puro e longo ver
quem vi
ver verá
só o que vira
virá
e no que ver
virará

Paulo Leminski, in Toda Poesia

11/04/2024

O que passou passou?

Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

16/03/2024

Água em água

pedirem um milagre
nem pisco
transformo água em água
e risco em risco
Esta vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

07/03/2024

Ao pé da pena

todo sujo de tinta
o escriba volta pra casa
cabeça cheia de frases alheias
frases feitas
letras feias
linhas lindas
a pele queima
as palavras esquecidas
formas formigas
todas as palavras da tribo
por elas
trocou a vida
dias luzes madrugadas
hoje
quando volta pra casa
página em branco e em brasa
asa lá se vai
dá de cara com nada
com tudo dentro
sai.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

26/02/2024

Ópera fantasma

Nada tenho.
Nada me pode ser tirado.
Eu sou o ex-estranho,
o que veio sem ser chamado
e, gato, se foi
sem fazer nenhum ruído.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

10/02/2024

ao pé da pena

todo sujo de tinta

o escriba volta pra casa

cabeça cheia de frases alheias

frases feitas

letras feias

linhas lindas

a pele queima

as palavras esquecidas

formas formigas

todas as palavras da tribo

por elas

trocou a vida

dias luzes madrugadas

hoje

quando volta pra casa

página em branco e em brasa

asa lá se vai

dá de cara com nada

com tudo dentro

sai.

Paulo Leminski, in Toda Poesia 

23/01/2024

Profissão de febre

Quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
Sete e dez.
Aqui jaz o sol,
sombra a meus pés.
Trevas.
Que mais pode ler
um poeta que se preza?

Paulo Leminski, in Toda Poesia

17/01/2024

Erra uma vez

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

11/12/2023

Sete dias na vida de uma luz

Durante sete noites
uma luz transformou
a dor em dia
uma luz que eu não sabia
se vinha comigo
ou nascia sozinha
durante sete dias
uma luz brilhou
na ala dos queimados
queimou a dor
queimou a falta
queimou tudo
que precisava ser cauterizado
milagre além do pecado
que sentido pode ter
mais significado?

Hospital S. Vicente
Ala dos Queimados
Curitiba, outubro de 1987

Paulo Leminski, in Toda Poesia