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09/02/2025

Minha frase célebre

Até eu já posso posar como ladrão de frase. É que certa vez escrevi: Nasci, modéstia a parte, em Cachoeiro de Itapemirim — mas escrevi parodiando declaradamente uma letra de Noel Rosa sobre Vila Isabel. A letra de Noel foi esquecida por muita gente, e várias vezes, através dos anos, encabulei ao ganhar elogios pela “minha” frase. O remédio é a gente silenciar, “pondo a modéstia de parte”, como dizia o bom Noel. Afinal ele escreveu tanta coisa bonita que com certeza não se importaria muito com este pequeno furto. Em todo caso, Noel, desculpe o mau jeito.

Rubem Braga, em Recado de primavera

15/02/2022

Palpite infeliz | Noel Rosa, 1936


Outro fruto da célebre polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, “Palpite infeliz” é um recado direto a seu oponente. O samba foi escrito em 1936 e gravado no mesmo ano por Aracy de Almeida.
Após o sucesso obtido por Noel com “Feitiço da Vila”, Wilson voltou à carga com
Conversa fiada”. Sem rodeios, ele questionava diretamente o rival: “É conversa fiada / dizerem que o samba / na Vila tem feitiço…”
O Poeta da Vila, mais uma vez, acusou o golpe e respondeu no mesmo tom: “Quem é você que não sabe o que diz? / Meu Deus do céu, que palpite infeliz!”
Farpas à parte, “Palpite infeliz” se impôs pela bela melodia, fundamento em que Noel sempre foi um mestre, e por oferecer uma crônica do samba urbano carioca em seus primeiros anos. Após os dois versos endereçados a Wilson, ele faz um mapeamento dos redutos de bambas da época (“Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, / Oswaldo Cruz e Matriz”), que vê como irmãos do bairro de Vila Isabel, onde nasceu e passou quase toda a sua breve e louca vida.
Morto aos 26 anos, vítima da então incurável tuberculose, Noel deixou uma grande e influente obra, que fez enorme sucesso nos carnavais, logo caiu na boca do povo e foi gravada e cantada no rádio pelos maiores intérpretes da época e por ele mesmo. No início dos anos 1950, após uma década de relativo esquecimento – período em que contemporâneos como Ary Barroso, Dorival Caymmi, Custódio Mesquita e Lamartine Babo não pararam de enriquecer a música brasileira –, os sambas de Noel foram redescobertos por meio da voz e da musicalidade de Aracy de Almeida, e voltaram a encantar as novas gerações, tornando-se referência do samba urbano e da crônica de costumes.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

03/02/2022

Feitiço da Vila | Noel Rosa e Vadico, 1934


Noel Rosa foi um dos inventores do samba urbano, com letras sem literatices, usando da linguagem coloquial das ruas em rimas elaboradas, que continuam atuais quase um século depois de criadas. Composto em parceria com Vadico (Oswaldo Gogliano, 1910-1962) e lançado em disco em dezembro de 1934 pelo cantor João Petra de Barros (1914-1948), “Feitiço da Vila” é exemplar da força e da beleza alcançadas por sua arte.
Com essa declaração de amor ao samba e ao bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, onde nasceu e viveu, Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) dava prosseguimento à sua célebre polêmica com o compositor Wilson Batista (1913-1968), que rendeu grandes canções de ambos os lados. Em 1933, o então iniciante Batista tinha apresentado suas armas com “Lenço no pescoço”, samba que fazia apologia à malandragem. Noel não gostou da associação e deu início à briga com “Rapaz folgado”. E, quase dois anos depois, reafirmou sua posição, acenando com um samba de “feitiço decente, sem farofa, sem vela e sem vintém”.
Houve quem enxergasse, na referência pejorativa ao candomblé, traços de racismo na canção, mas a obra e a vida de Noel não deixam dúvidas. Boêmio e farrista inveterado, o Poeta da Vila esteve mais perto da malandragem, que contestou na polêmica com Batista, do que da classe média, cujo balde chutou sonoramente. Largou o curso de Medicina para fazer samba numa época em que artista era considerado sinônimo de vagabundo e malandro. Teve convivência estreita com sambistas negros, entre os quais Cartola e Ismael Silva, numa relação de parceria e amizade, sem a exploração e a compra de músicas que, então, era prática comum de tantos intérpretes e compositores brancos. Ele também trocava o dia pela noite, transitando entre a Lapa, o Estácio e os morros do Rio, e a sua paixão pela boêmia é exaltada em “Feitiço da Vila”:
O sol da Vila é triste / Samba não assiste / Porque a gente implora: / Sol, pelo amor de Deus, / não vem agora que as morenas / vão logo embora.”

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

15/02/2017

Futebol, samba e Noel

Hoje meio barrigudo.
Mas já fui moleque muito bom centromédio. Pelo menos Biluca assegurava que eu era. E nunca peguei cerca nos quatro anos de U.M.P.A. — queria dizer: União dos Moços de Presidente Altino. A voz de Biluca mandava, porque era técnico e dono das camisas. Se era técnico de verdade, não sei. Sei que as camisas eram suas, e sem elas não havia jogo. Mas a família se mudou, o ginásio chegou e a presunção de bom centromédio foi-se embora.
Na Mooca, agora, eu via os moleques do Caiovás F.C. Papai vivia me apertando na escola. Era o único jeito, porque não estudaria de outro. Eu via os moleques e não podia jogar.
À boca da noite os grilos e os sapos já cantavam nas poças do campo da U.M.P.A. Depois da janta, cada um vinha do seu lado e a gente se juntava na sede. Então, folgados, fumávamos à vontade e contávamos coisas. Havia certo ar de homem na gente enquanto fumávamos. Sérios nas calças curtas, o dedo batendo no cigarro, a cinza caindo no chão. Contávamos coisas, vantagens.
Pois é. Eu bem podia ter quebrado aquele cara. Eu é que não quis.
Não que Biluca tivesse ódio do cara, não tinha raiva de ninguém, longe de ter raiva. É que falava de um jogo que perdêramos.
Ali pelas oito horas a vontade já crescia. Os mais velhos iam ajeitando as coisas, Biluca no seu cavaquinho, eu repicava na frigideira. Havia um surdo que um sujeito da Força Pública tocava (ele também era bom no pandeiro). As vozes se chegavam, se uniam e a gente batucava com vontade.
Naquelas noites da U.M.P.A., na pequena sede que era só um quartinho, alugado com dificuldades, a mensalidade pingada de cada um… Naquelas noites me surgia uma tristeza leve, uma ternura, um não sei quê, como talvez dissesse Noel… Eu estava ali, em grupo, mas por dentro estava era sozinho, me isolava de tudo. Era um sentimento novo que me pegava, me embalava. Eu nunca disse a ninguém, que não me parecia coisa máscula, dura, de homem. Não os costumes que a turma queria. Mas eu moleque gostava, era como se uma pessoa muito boa estivesse comigo, me acarinhando. As letras dos grandes sambas falavam de dores que eu apenas imaginava, mas deixava-me embalar, sentia.

Aos pés da santa cruz
Você se ajoelhou,
E em nome de Jesus
Um grande amor você jurou…

E depois, só depois, Noel nas noites de várzea. Pareceu-me engraçado que uma música tivesse dono, fosse feita por uma pessoa. Necessário também que eu diga — a primeira atração pelo sambista me nasceu dum fato obscuro. Para mim, Noel nem era nome de gente, Noel era nome de coisa, apenas cabia como nome de Papai Noel… E para mim, Papai Noel era coisa e não pessoa. Papai Noel, Saci, São Jorge montado no cavalo eram coisas, pessoas não.
Aos domingos a gente trepava num caminhão e ia jogar noutras vilas. Havia batucada na ida e na volta. Ou melhor, às vezes, voltávamos de cabeça baixa, maldizendo juiz, campo que a gente não conhecia, tudo para justificar a derrota.
Por esse tempo, comecei a prestar atenção nas letras dos sambas, e vi, mesmo sem entender, que o tamanho de Noel era outro, diferente, maior, tocante, não sei. Havia uma tristeza, uma coisa que eu ouvia e não duvidava que fosse verdade, que houvesse acontecido. O gosto aumentou, eu fui entendendo as letras, apanhando as delicadezas do ritmo que me envolvia. Hoje, quando a melodia me chega na voz mulata do disco, volta a tristeza de menino e os pelos pretos do braço se arrepiam.
Sobraram restos de memória dos jogos suados na U.M.P.A.
Rememoro-me, por exemplo, a marcar o maior gol decente da vida. Talvez o único realmente. Desenvolvido com estilo, cabeçada firme, resultado bom dum centro inteligente do ponta. Dando tudo certo. Goleiro estatelado no centro da meta. Sem entender nada. Eu me envergonhei porque Aldônia estava comendo pipocas do lado de lá do campo. E viu tudo. (Aldônia era uma espécie desajeitada de namoro que eu andava engendrando.) Deu em nada — um dia, ela me pilhou fumando escondido, na maior folga, perfeitamente um macaco trepado num abacateiro.
Contou. Danada! Em casa me bateram porque ela contou. Raiva — escrevi-lhe num bilhete palavrões infamantes, muito piores do que aqueles que escrevíamos nos armários do vestiário da U.M.P.A. “Sua isso, sua aquilo.” Tolice enorme. Surra dobrada, em casa. Papai me esperando com o bilhete na mão. A diaba contava tudo porque sabia que eu apanhava mesmo. Aquilo já era me fazer de palhaço.
Não fala mais comigo.
Engraçado — Aldônia até hoje não presta.
João Antônio, in Afinação da arte de chutar tampinhas

16/11/2011

Não tem tradução, de Noel Rosa


O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone.

27/06/2011

Filosofia


O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.

Não me interessa
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
Pois cantando nesse mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.

Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.

Noel Rosa