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17/08/2024

A casa número 18 da rua Archer


Quando Michael Dunbar e a Noiva do Nariz Quebrado se casaram, a primeira coisa que fizeram foi empurrar o piano outra vez pela rua Pepper, até o número 37. Precisaram da ajuda de mais seis homens da vizinhança e também de um engradado de cerveja. (A exigência era a mesma dos garotos de Bernborough: a cerveja tinha que estar gelada.) Entraram pelos fundos da casa para não terem que subir os degraus.
— A gente tinha que ter chamado os mesmos caras da outra vez — disse Michael mais tarde. Apoiou um dos braços no tampo de nogueira, como se ele e o piano fossem bons amigos. — Eles entregaram o piano no endereço certo, no fim das contas.
Penny Dunbar apenas sorriu.
Estava com uma das mãos apoiada no instrumento.
E a outra nele.

***

Alguns anos depois, eles compraram a casa dos sonhos e para lá se mudaram. Era relativamente perto, próximo a um hipódromo, com uma pista e cocheiras logo atrás.
Fizeram a visita numa manhã de sábado:
Uma casa na rua Archer, número 18.
O corretor aguardava lá dentro e perguntou o nome deles, os únicos que deve ter ouvido naquele dia, porque pelo visto mais ninguém havia demonstrado interesse pelo imóvel.
Na casa da rua Archer havia corredor, havia cozinha. Havia três quartos, um banheirinho, um quintalzão com um grande varal redondo, e a imaginação de Penny e Michael ganhou asas; viram crianças correndo pelo gramado e surtos de caos pueril. Para eles, era o paraíso, amor à primeira vista:
Com um dos braços na haste do varal e os olhos focados nas nuvens acima, Penny ouviu um barulho. Ela se virou para o corretor e indagou:
— Com licença, mas que barulho é esse?
— Perdão?
Era o momento que ele mais temia, possivelmente a razão de ter perdido os outros casais a quem mostrara a propriedade — todos com sonhos e ideais parecidos sobre a vida naquela casa. Era provável que também houvessem imaginado as mesmas crianças risonhas arrumando confusão por causa de trapaças nos jogos de futebol ou arrastando bonecas pela relva e pela terra.
— Não está ouvindo? — insistiu ela.
O homem ajustou a gravata.
— Ah, isso?

***

Na noite anterior, quando estudaram o mapa do bairro no guia de ruas, viram que havia um terreno atrás da casa, e a legenda dizia apenas Cercanias. Agora Penny estava certa de que ouvia cascos se aproximando nos fundos e decifrou o cheiro que pairava no quintal — de animal, feno e cavalos.
O corretor se apressou para levá-los para dentro da casa.
Não deu certo.
Penny estava hipnotizada pelo trote vindo do outro lado da cerca.
— Ei, Michael! — chamou ela. — Pode me levantar?
Ele cruzou o quintal e foi até ela.
Os braços dele, as coxas de varapau dela.

***

Do outro lado, Penny viu as cocheiras, o hipódromo.
Atrás da cerca, uma pista de asfalto fazia a curva ao redor da casa; a sra. Chilman era a única vizinha. Então Penny viu o gramado e as construções com telhado inclinado, e a cerca branca, obrigatória no esporte — dali, mais pareciam palitos de dente.
Cavalariços conduziam os animais do hipódromo para as cocheiras, a maioria sem notar a presença dela, alguns acenando com a cabeça. Um ou dois minutos depois, um deles, bem mais velho do que os outros, se aproximou, guiando o último cavalo. O animal baixou a cabeça, e o homem o enxotou com desdém. Pouco antes de avistar Penny, deu um tapinha na boca do animal.
— Vem logo!
Penny, como não poderia deixar de ser, sorriu diante da cena.
— Bom tarrrde! — Ela pigarreou. — Olá!
O cavalo notou a presença dela na hora, mas o cavalariço continuou alheio.
— Ué? Tem alguém aí? — perguntou o homem.
— Aqui em cima.
— Jesus amado, assim você me mata do coração!
Era um tipo atarracado, de cabelo encaracolado, com rosto e olhos úmidos, e o cavalo o arrastava pelo terreno, se aproximando de Penélope. O animal tinha um raio branco traçado do topo da cabeça até as narinas, e o resto era marrom-nogueira. O cavalariço viu que não tinha saída. O cavalo não ia chegar à cocheira tão cedo.
— Tá certo. Vai com tudo, meu bem.
— É sério?
— Sim, pode fazer carinho. Esse aqui é um baita de um bunda-mole.
Penny checou se estava tudo bem com Michael, porque, verdade seja dita, ela era leve, mas não era feita de vento, e os braços do marido estavam começando a tremer.
Ela mergulhou a mão no pelo aveludado da faixa branca e reluzente do animal e mal pôde conter a alegria. Ela encarou seus olhinhos curiosos. Açúcar. Por acaso tem açúcar aí, senhora?
— Qual é o nome dele? — perguntou Penélope.
— Bom, o nome de corrida é Patrimônio da Cidade. — Ele deu um tapinha no peito do cavalo. — Nas cocheiras, chamam de Sangue nos Olhos, mas ele não faz jus ao nome.
— Ele não é muito rápido?
O cavalariço riu.
— Você é mesmo nova por aqui, não é? Os cavalos dessas cocheiras são uns inúteis.
Ainda assim, Penélope ficou encantada, dando risada quando o cavalo sacudiu a cabeça, pedindo mais carinho.
— Oi, Sangue nos Olhos.
— Aqui, dá isso aqui pra ele. — Ele ofereceu alguns torrões de açúcar encardidos para ela. — Pode dar. Esse pangaré é uma causa perdida, não tem jeito.
Debaixo dela, Michael Dunbar estava concentrado em seus braços, se perguntando por quanto tempo ainda conseguiriam aguentá-la.
Enquanto isso, o corretor só pensava: vendida.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

11/08/2024

Guerra das rosas


Mais uma vez, o tempo passou.
Passaram-se semanas, quase um mês, dias e dias aproveitados das mais diversas formas.
Os dois começaram, como manda o figurino, pelo mais difícil:
No rio, escavando a terra.
O sol ia e vinha, e eles trabalhavam, rezando para a chuva não cair e levar seus esforços rio abaixo. Se o Amahnu descesse, e costumava descer com tudo, traria consigo silte e terra.
À noite, sentavam-se na cozinha ou na sala, na beirada do sofá, e ficavam debruçados sobre os modelos na mesa de centro. Juntos, projetaram um andaime e fizeram duas maquetes — do cimbre e da ponte propriamente dita. Michael Dunbar gostava de fazer cálculos e era metódico com as angulações das pedras. Conversava com o garoto sobre a trajetória dos arcos e sobre como cada bloco demandava perfeição. Clay estava cansado de pensar em aduelas, enjuntas e todos aqueles termos difíceis.
Exausto física e mentalmente, cambaleou até o quarto e leu um pouco. Então pegou a caixa e tirou todos os itens de dentro. Acendeu o isqueiro apenas uma vez.
Sentia cada vez mais falta de todos, até que chegou correspondência. Na caixa de correio, encontrou um envelope com duas cartas escritas à mão.
Uma de Henry.
Uma de Carey.
Clay esperava por isso desde que botou os pés no rio Amahnu, mas não leu as cartas de imediato. Beirando o rio, subiu até as pedras e os eucaliptos, e se sentou à luz do sol, filtrada pelos galhos.
Leu na ordem em que as encontrou.

Oi, Clay.
Obrigado pela carta semana passada. Esperei um pouco para compartilhar com os outros — não sei por quê. Estamos com saudade. Você quase não abre a boca, mas estamos com saudade. O telhado é quem mais sente a sua falta, eu diria. Bom... ele, e eu, aos sábados... Estou levando Tommy para me ajudar nas vendas de garagem, mas o garoto é mais inútil que as tetas de um touro. Você conhece a peça.
O mínimo que você poderia fazer é nos visitar. Só precisa se resolver antes com... você sabe quem. Sério, quanto tempo leva para construir a porcaria de uma ponte?
Atenciosamente,
Vossa Excelência Henry Dunbar
P.S.: Me faz um favor? Quando for voltar, antes me liga e me diz que horas acha que vai chegar em casa. Nós todos temos que estar aqui. Vai que…

Ao ler a carta, Clay sentiu apenas gratidão, pela henrysse das palavras. A ladainha dele era mesmo inesgotável, mas Clay morria de saudade mesmo assim. E, convenhamos, Henry era muito afetuoso; as pessoas se esqueciam disso, ofuscadas pelo egocentrismo e pela ganância. Henry fazia da gente pessoas melhores.
Depois veio Tommy, e estava claro que Henry pedira a ele e Rory que contribuíssem com algumas palavras.
Ou, mais provável, coagira os dois.
Tommy primeiro:

Oi, Clay.
Não tenho muita coisa pra falar, só que o Aquiles está com saudade. Agora é o Henry me ajuda a checar os cascos dele. ISSO é o que eu chamo de INÚTIL!!!!!!
(Também estou com saudade.)

Depois Rory:

Ei, Clay... Vem pra casa, porra! Pelo amor de Deus! Sinto falta das nossas conversas ezistenciais.
Rá!
Acha que não lembro das palavras difíceis, né?
Olha, me faz um favor. Dá um abraço no pai por mim.
Brincadeira! Vê se dá um chute no saco dele, tá? Um chutão daqueles.
Diz assim: PRESENTE DO RORY, CARALHO!
Vem pra casa.

Embora Tommy fosse gentil e prestativo, curiosamente era sempre Rory quem mexia com ele, quem fazia Clay sentir as coisas com mais intensidade. Talvez porque Rory fosse do tipo que não amava nada nem ninguém de verdade, mas amava Clay, e demonstrava das maneiras mais esquisitas.

Querido Clay,
Impossível colocar numa carta quanto sinto a sua falta ou como é ficar de bobeira nas Cercanias aos sábados, imaginando você do meu lado. Não fico deitada no colchão. Não faço nada. Só chego lá e torço pra você aparecer, mas você não aparece, e eu sei por quê. É assim que tem que ser, acho.
Que saco! As últimas semanas foram as melhores da minha vida, e não tenho nem como contar pra você.
Semana passada, montei pela primeira vez. Dá pra acreditar??? Foi na quarta-feira, num cavalo chamado Guerra das Rosas. É meio velhinho e usado mais para treinos e tal, só entrou no páreo pra fazer volume, mas não precisei levantar o chicote nenhuma vez. Só dei uma palavrinha e corri até a linha de chegada, equilibrada na sela, e ele ficou em terceiro. Terceiro!!! Cacete, dá pra acreditar? Foi a primeira vez em anos que minha mãe foi a um hipódromo. A farda era preta, branca e azul. Pode deixar, conto tudo quando você voltar pra casa, mesmo que demore. Tenho outra montaria semana que vem...
Meu Deus, tem tanta coisa acontecendo que nem perguntei.
Como você tá?
Sinto falta de ver você no telhado.
Por fim, terminei O marmoreiro de novo. Já sei por que você gosta tanto desse livro. Ele fez tantas coisas extraordinárias. Torço para que você faça algo extraordinário por aí também. Você vai. Tem que fazer. Você vai.
A gente se vê em breve, espero. Nas Cercanias.
Ainda quero te dar.
As dicas.
Prometo.
Com amor,
Carey

Bem, o que você faria? O que você diria?
Com o rio logo abaixo, ele leu tudo, repetidas vezes, e entendeu.
Depois de um bom tempo refletindo, concluiu que já haviam se passado setenta e seis dias desde que saíra de casa e que ele e o Amahnu ainda teriam um longo futuro pela frente — mas já era hora de voltar e me encarar.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

06/08/2024

A noiva do nariz quebrado


Eles iam se casar, e não havia muito o que organizar, então foi tudo bem rápido. Em certo ponto, Michael pensou no que fazer com as obras de arte — os quadros de Abbey —, se deveria guardar, destruir ou jogar tudo fora; Penélope foi categórica.
— Se eu fosse você, guardava ou vendia. Seus quadros não merecem ser destruídos. — Com delicadeza, ela tocou em uma das obras. — Nossa, ela é tão linda...
Foi quando, sem querer, ela sentiu:
Uma fagulha de ciúmes.
Por que não posso ser assim?, ela se perguntou, pensando no vasto e longínquo terreno dentro dele, onde às vezes ele se enfiava e desaparecia, bem do lado dela. Em momentos como aquele, era o que ela queria, desesperadamente — ser mais e melhor que Abbey. Mas os quadros eram evidências em vias de formação: provas de que tudo aquilo um dia já pertenceu a Abbey.
Foi um alívio, no fim das contas, quando venderam os quadros:
Expuseram uma das maiores telas em uma rotatória perto da rua Pepper, junto a um cartaz com a data do leilão, e mais tarde, ao anoitecer, roubaram a obra. O evento na garagem não durou uma hora sequer; a coleção foi embora rápido, porque as pessoas simpatizavam com elas; tanto com Abbey quanto com Penny.
“Você tinha que pintar essa aqui, isso sim”, diziam muitos dos compradores, apontando para Penélope, e Michael apenas sorria.
“Essa aqui é muito melhor em pessoa”, dizia.

***

O obstáculo seguinte na jornada foi fruto da típica sorte de Penélope:
Não foi exatamente obra do destino — foi mais falta de discernimento —, mas só poderia ter acontecido quando aconteceu: na manhã antes do casamento. Ela fez a curva na rua Lowder para pegar a estrada Parramatta, no velho sedan de Michael.
Ela nunca chegou a pegar no volante no Bloco do Leste, mas seu olhar estava treinado para conduzir na pista oposta. Aqui, ela fez autoescola, passou com relativa tranquilidade e volta e meia dirigia o carro de Michael. Jamais tivera problemas, mas, naquele dia, isso pouco importou. Ela fez uma curva perfeita à direita, porém na pista errada.
No banco de trás estava o modesto e esvoaçante vestido de noiva que ela havia acabado de buscar, e o carro foi atingido na lateral, como se um demônio tivesse tirado um naco com uma mordida. Penélope fraturou as costelas. Seu nariz foi deslocado, quebrado; o rosto atingira o painel.
O homem do outro carro só fazia xingar, mas parou assim que viu o sangue.
Ela se desculpou em duas línguas.

***

Logo chegou a polícia, além de homens competitivos em guinchos de reboque, que negociavam, suavam e fumavam. Quando chegou a ambulância, tentaram convencê-la a ir para o hospital, mas disseram que não poderiam forçá-la.
Penny insistiu que estava bem.
Via uma mancha estranha diante dela:
Um longo mural de sangue.
Não, ela iria ao médico do bairro mesmo, e todos concordaram: a imigrante era mais casca-grossa do que parecia.
Os policiais brincaram, fingiram que a prendiam (só porque a levariam na viatura) e a conduziram devagar até sua casa. O oficial mais jovem, o que mascava chiclete de menta, cuidou do vestido.
Com delicadeza, ele o ajeitou no porta-malas.

***

Em casa, ela sabia o que precisava fazer.
Limpar-se.
Tomar uma xícara de chá.
Ligar para Michael, e então para a seguradora.
Como era de se esperar, não fez nenhuma dessas coisas.
Não; ela reuniu todas as forças, estirou o vestido no sofá e se sentou ao piano, completamente abatida, arrasada. Tocou metade de “Sonata ao luar”, sem enxergar uma nota sequer.

***

No médico, uma hora depois, ela não deu um pio.
Michael segurou sua mão enquanto as costelas eram pressionadas de leve, e o nariz, golpeado de volta ao lugar.
Penélope só prendeu a respiração e engoliu em seco.
Na saída do consultório, no entanto, ela se contorceu e se deitou no chão da sala de espera. As pessoas se esticaram para ver.
Quando Michael se agachou para ajudá-la, notou em um canto o típico acervo de brinquedos no consultório, mas deu de ombros e logo afastou o olhar. Ele a carregou porta afora.

***

No sofá usado de casa, ela se deitou com a cabeça no colo dele. Então pediu que ele lesse a Ilíada, e Michael foi tomado por uma percepção reveladora — em vez de pensar o óbvio, algo como “não sou seu falecido pai”, ele destrinchou algo muito mais profundo. Percebeu e se acostumou a uma verdade: ele a amava muito mais do que a Michelangelo ou a Abbey Hanley juntos.
Ele secou a lágrima na bochecha dela.
Havia sangue ressequido em seus lábios.
Pegou o livro e leu, e ela chorou, e pegou no sono, ainda sangrando...
Lá estavam o rápido Aquiles, o engenhoso Odisseu e todos os demais deuses e guerreiros. Os favoritos dele eram Heitor, o provocador — conhecido também como domador de cavalos —, e Diomedes, filho de Tideu.
Ele passou a noite toda sentado com ela.
Lia, virava as páginas e lia.

***

Então veio o casamento, realizado conforme os planos, no dia seguinte.
17 de fevereiro.
Eram poucos convidados:
Alguns amigos peões no lado de Michael.
Um grupo de faxineiras junto a Penny.
Adelle Dunbar estava presente, bem como o velho Weinrauch, que ofereceu anti-inflamatórios à noiva. Felizmente, o inchaço tinha diminuído; ela ainda sangrava de quando em quando, e um olho roxo cintilava através da camada de maquiagem, por mais que tivessem tentado ocultá-lo.
A igreja era pequena, mas um tanto cavernosa. Os vitrais exibiam um Cristo torturado e colorido e quebravam um pouco da escuridão. O padre era alto e calvo, e riu quando Michael se aproximou de Penélope e disse:
—Viu? Nem mesmo um acidente de carro te livrou dessa.
Mesmo com a brincadeira, ele não conseguiu esconder o ar de tristeza quando a primeira gota de sangue pingou no vestido e se expandiu como uma inundação varrendo a cidade.
Convidados de ambos os lados se apressaram para socorrê-la, e Penny respondeu com um sorriso enternecido. Pegou o lenço oferecido por Michael e proclamou:
— Você está se casando com uma noiva de nariz quebrado.
— Muito bem — disse o padre, quando o sangue foi estancado, e prosseguiu timidamente, e o Cristo colorido assistiu a tudo, até que homem e mulher se tornaram Michael e Penélope Dunbar.
Eles se viraram, como fazem quase todos os casais, e sorriram para a congregação.
Assinaram os devidos papéis.
Marcharam pela nave da igreja, em direção às portas que se abriam para a luz branca e escaldante do sol que os recebia, e quando penso na cena, vejo aquela mesma sedução; saíram de lá puxando pela mão a felicidade indomável e levaram-na para a vida.
Naquelas vidas antes de nós, ainda restavam dois capítulos.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

31/07/2024

O garoto que saiu do forno


— Não acredito no que estou vendo. Achei que você só fosse dar uma adiantada no serviço.
Foi o que Michael Dunbar disse sobre a vala gigantesca cavada por um único garoto em menos de uma semana. Não deveria ficar surpreso.
— Mas como diabos você fez isso? Cavou dia e noite sem parar?
Clay olhou para baixo.
— Dormi um pouco também.
— Com a pá do lado?
O Assassino viu as mãos dele, e o garoto levantou a cabeça.
— Jesus... — disse o homem.
Quando Clay me contou essa façanha, focou mais no resultado do que no processo em si. Ele estava louco para visitar a rua Archer, e as Cercanias, mas não podia, claro; por dois motivos.
Em primeiro lugar, não estava em condições de me encarar.
Segundo, voltar e não me encarar seria covardia da parte dele.
Não; depois do cemitério, Clay pegou o trem de volta para a estação Silver e passou alguns dias se recuperando. Não havia um pedaço dele que não estivesse doendo. No entanto, as mãos cheias de bolhas eram a pior parte, e ele dormia, passava noites em claro, e esperava.

***

Quando o Assassino voltou, estacionou o carro do outro lado do rio, entre as árvores.
Desceu a margem e parou no fundo do fosso cavado.
Dos dois lados, havia ondas gigantescas de pedregulhos e de terra.
Ele observou a vala e balançou a cabeça, incrédulo, então se voltou para a casa. Lá dentro, procurou Clay e o fuzilou com o olhar; suspirou, relaxou os ombros e balançou a cabeça mais uma vez, entre o choque e a decepção. E finalmente pensou em algo para dizer:
— Tenho que admitir, garoto... Você tem coragem.
Clay não se conteve.
Aquelas palavras.
Elas iam e vinham sem parar, e agora Rory estava na cozinha, como se tivesse saído do forno, direto do parque Bernborough, da lendária marca dos trezentos metros:
Tenho que admitir, garoto...
Exatamente as mesmas palavras que Rory dissera a ele.
E Clay não conseguiu se conter.
Disparou pelo corredor e irrompeu no banheiro, batendo a porta e se jogando no chão, e...
— Clay? Clay, tá tudo bem?
A pergunta foi como um eco, como se ouvisse aqueles berros debaixo d’água; ele veio à tona para respirar.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

24/07/2024

Pintura no piano


Logo eles se casariam.
Penélope Lesciuszko e Michael Dunbar.
Em termos de tempo, levou aproximadamente um ano e sete meses.
Em outros termos, mais difíceis de medir, levou uma garagem repleta de retratos e uma pintura no piano.
Foi uma curva à direita e uma colisão.
E uma figura — a geometria do sangue.

***

Esse período costuma vir em lampejos.
O tempo reduzido a momentos.
Por vezes, são momentos muito dispersos — como o inverno, e ela aprendendo a dirigir. Ou setembro, e as horas preenchidas por música. Há todo um novembro de esforços desastrosos dele para tentar aprender a língua dela, e então dezembro e depois fevereiro chegando a abril, e algumas visitas à cidade em que ele cresceu, e o suor e o calor vigoroso do local.
Claro, havia os filmes (e ele não ficava de olho para ver se ela riria ou não de suas partes preferidas), e a paixão que ela desenvolveu por eles — possivelmente os melhores professores de inglês que teve. Ela gravava os filmes que passavam na TV para praticar: um catálogo da década de 1980, de E.T.: O Extraterrestre a Entre Dois Amores, de Amadeus a Atração Fatal.
Havia a leitura contínua da Ilíada e da Odisseia. Partidas de críquete na TV. (Como era possível uma coisa daquelas durar cinco dias inteiros?) E incontáveis passeios de balsa por aquela água salgada reluzente e de ondinhas brancas.
Também havia turbilhões de dúvidas quando ele desaparecia, ia a algum lugar, resguardando-se com todas as forças dentro de si. O terreno interno da ausência de Abbey novamente; um cenário tão vasto quanto árido. Ela o chamava pelo nome, mesmo estando ao lado dele:
— Michael. Michael?
Ele levava um susto.
— Que foi?
Eles pisavam nos limites da raiva, em brechas de pequenas irritações, ambos ensaiando para ir mais fundo. Mas, assim que ele pensava em dizer: “Não venha atrás de mim, não insista”, pousava a mão no braço dela. E assim, com o passar dos meses, os medos dela foram apaziguados.

***

De vez em quando, contudo, os momentos se estendem.
Param, desdobrando-se por completo.
Para Clay, esses eram os momentos que Penny descrevera nos últimos meses de vida — quando estava sob o efeito da morfina, ardendo de febre e desesperada para contar tudo direito. Dois foram mais memoráveis, ambos passados na mesma data, com exatos doze meses de intervalo.
Penélope se referia a eles por títulos:
A noite em que ele finalmente me mostrou.
E Pintura no piano.

***

O dia era 23 de dezembro, antevéspera de Natal.
No primeiro ano, jantaram juntos na cozinha de Michael e, assim que acabaram, ele se virou para ela e murmurou:
— Vem cá. Vou te mostrar.
Os dois saíram da casa e foram até a garagem.
Era estranho como, em tantos meses, ela nunca pisara naquele lugar. Em vez de entrar pela porta lateral, por dentro da casa, ele abriu o portão automático, que fez o estrondo de um trem.
Quando ele acendeu a luz e removeu os lençóis, Penny ficou estupefata — envoltas por grãos flutuantes de pó havia inúmeras telas, todas esticadas sobre chassis de madeira. Algumas eram enormes. Outras, do tamanho de um bloco de papel. Em cada uma delas estava Abbey, e às vezes ela era uma mulher, às vezes, uma garota. Ora cheia de malícia, ora com a camisa abotoada até o pescoço. O cabelo batendo na cintura, as corredeiras de madeixas amparadas pelos braços, ou cortadas na altura dos ombros. Em todas as obras, contudo, ela era uma força vital cuja ausência não perdurava por muito tempo. Penélope se deu conta de que qualquer pessoa que visse aqueles quadros saberia que o autor sentia muito mais do que sugeria nos retratos. Estava em cada pincelada diante dela e em cada pincelada omitida. Era a precisão da tela esticada, e os erros mantidos perfeitamente intactos — como o pingo de violeta no tornozelo dela, ou a orelha que pairava a um milímetro do rosto.
A perfeição não importava:
Tudo estava certo.
Em um quadro, o maior deles, no qual os pés dela afundavam na areia, Penny quase pediu emprestados os sapatos que a mulher segurava com as mãos delicadas. Enquanto ela estudava as pinturas, Michael se sentou no chão e se recostou na parede, e quando Penny viu tudo que lhe cabia ver, se sentou ao lado dele, joelhos e cotovelos se roçando.
— Abbey Dunbar? — perguntou.
Michael fez que sim.
— Antes Abbey Hanley, agora não faço ideia.
Ela sentiu o coração quase sair pela boca e, devagar, o forçou a voltar para o lugar.
— Me desculpa... — Ele mal conseguia reunir forças para falar. — Por não ter mostrado antes...
— Você sabe pintar?
— Sabia. Não sei mais.
Seu primeiro instinto foi medir o que pensaria ou faria a seguir — mas depois se recusou veementemente. Não pediria para ser pintada; não, jamais competiria com aquela mulher, e agora passava a mão pelo cabelo dele.
— Não quero que você me pinte, jamais. — Ainda um pouco desnorteada, ela se recompôs e tomou coragem. — Tente fazer alguma outra coisa...
Aquela era uma memória que Clay guardava com carinho, pois foi difícil para ela contar tudo (a morte foi uma motivação e tanto); Penny contou como Michael se aproximou, e ela o conduziu diretamente ao ponto onde Abbey o deixara, onde outrora ele estivera largado, arrasado, no chão.
“Eu disse a ele...”, relatara ela, já definhando. “Eu disse: Me mostre exatamente onde você estava, e ele mostrou na hora.”
Sim, os dois foram até lá e se abraçaram e cederam e se bateram e brigaram e escorraçaram tudo que não desejavam. Havia a respiração dela, o som dela, e uma enchente do que se tornaram; assim ficaram pelo tempo que se fez necessário — e entre os turnos, deitavam-se e conversavam; quase sempre Penélope falava primeiro. Ela contou que fora uma criança solitária e que queria pelo menos cinco filhos, e Michael disse que tudo bem. Ele até brincou:
— Minha nossa, só espero que a gente não tenha cinco meninos!
Deveria ter sido mais cuidadoso.
— Vamos nos casar.
Foi ele quem disse — simplesmente saiu.
Estavam totalmente esfolados a essa altura, cobertos de hematomas; braços, cotovelos e costas.
Ele continuou.
— Vou dar um jeito de fazer o pedido. Talvez nessa mesma época, ano que vem.
E, debaixo dele, abraçou-o com força.
— Claro — respondeu, beijando-o e rolando com ele, ficando por cima.
E então, quase em silêncio, um último “de novo”.

***

E no ano seguinte veio o segundo título.
Pintura no piano.
23 de dezembro.
Era segunda à noite, a luz se avermelhando do lado de fora.
O barulho dos garotos da vizinhança invadiu a casa. Estavam jogando handebol. Penélope tinha acabado de passar por eles.
Todas as segundas, ela chegava em casa por volta desse horário, pouco depois das oito e meia; fizera a última faxina do dia, em um escritório de advocacia, e naquela noite seguiu a rotina de sempre:
Entrou em casa e deixou as sacolas na porta.
Dirigiu-se ao piano e se sentou — mas daquela vez algo parecia diferente. Ela abriu a tampa e viu as palavras pintadas nas teclas, letras simples, mas muito bonitas:

P | E | N | É | L | O | P | E    L | E | S | C | I | U | S | Z | K | O
Q | U | E | R    C | A | S | A | R    C | O | M | I | G | O

Ele lembrou.
Ele lembrou, e ela levou as mãos à boca, e abriu um sorriso gigante, e sentiu faíscas saindo dos olhos; toda a dúvida foi levada para longe, distante já naquele momento, em que ela hesitava diante das letras. Ela não queria perturbá-las ou borrar a tinta. Por mais que estivessem secas havia horas...
Mas ela logo se resolveu.
Deixou os dedos pousarem com delicadeza no meio das palavras CASAR e COMIGO.
Ela se virou e chamou.
— Michael?
Nada de resposta, então ela saiu de casa, e os garotos já haviam ido embora, e havia apenas a cidade, o céu vermelho e a rua Pepper.
Ele estava sentado, sozinho, na entrada de sua casa.

***

Depois, muito depois, enquanto Michael Dunbar dormia na cama de solteiro que volta e meia dividiam no apartamento dela, Penélope deixou o quarto no escuro.
Acendeu a luz da sala.
Girou o interruptor até a penumbra e se sentou ao piano. Devagar, suas mãos deslizaram, e com cuidado ela apertou as notas mais altas. De leve, mas com vontade e precisão, onde usara a tinta restante.
Ela tocou as teclas S | I | M.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

11/07/2024

O tradicionalista


Na estação Silver, ele viu o brilho do trem noturno que se aproximava.
De longe, parecia uma tocha mágica se movendo em câmera lenta.
Por dentro, era o paraíso.
O vento estava fresco, e o assento, quentinho.
O coração dele era uma engrenagem com defeito.
Os pulmões, feitos de cera.
Ele se deitou e dormiu.

***

O trem parou na cidade pouco depois das cinco da manhã de domingo.
— Ei, garoto. Garoto! Chegamos — avisou um homem, que o sacudia para acordá-lo.
Clay levou um susto, mas se levantou, e, apesar de tudo — da enxaqueca colossal, da dor lancinante ao pegar a mala —, o chamado era inconfundível.
Ele sentiu o fulgor do lar.
Em sua cabeça, já estava lá, assistindo ao mundo contido na rua Archer; estava no telhado, via a casa de Carey. Se olhasse para trás, encontraria as Cercanias. Clay já ouvia, inclusive, o filme passando na TV da nossa sala de estar — mas não. Ele não poderia passar por lá, muito menos naquele estado. Precisava esquecer que aquele lugar existia.
A rua Archer teria que esperar mais um pouco.

***

Em vez disso, saiu andando.
Percebeu que, quanto mais se movia, menos doía, então se arrastou pela cidade, pela rua Hickson, até chegar debaixo da ponte, onde parou e descansou um pouco, encostado na estrutura inclinada. Os trens chacoalhando acima, o porto tão azul que ele mal conseguia olhar, os rebites enfileirados acima da cabeça dele, o grande arco cinzento que se estendia até o infinito.
Não era à toa que aquela era a ponte preferida dele. Ali ele ficou, recostado, e custou a ir embora.

***

À tarde ele finalmente conseguiu sair dali, percorrendo as curvas do terminal de balsas da cidade, o Circular Quay, passando por palhaços, um guitarrista, além dos tradicionais didjeridus.
O pessoal da balsa de Manly acenou para ele.
O cheiro de batata frita quase foi sua ruína.
Ele pegou o trem, fez baldeação em Town Hall, contou as paradas e seguiu a pé. Teria rastejado, se fosse preciso. Ao menos a um lugar aonde poderia ir.
Quando chegou lá, no topo da colina, pela primeira vez em muito tempo, prestou a devida atenção à lápide:

PENÉLOPE DUNBAR
UMA MULHER DE MUITOS NOMES:
a Rainha dos Erros, a Garota do Aniversário, a Noiva do Nariz Quebrado e Penny
*****
MUITO AMADA POR TODOS, MAS EM ESPECIAL PELOS GAROTOS DUNBAR

Enquanto lia, ele se agachou.
Sorriu com a última linha e se deitou. Nosso irmão ficou ali sozinho um bom tempo, o rosto colado na terra, e chorou em silêncio, por quase uma hora.
Volta e meia penso nisso, em como queria ter estado lá com ele. Como aquele que logo lhe daria uma surra, o derrubaria e o puniria por seus pecados, lamento por não saber de tudo na época.
Eu teria tomado aquele menino nos braços e falado bem baixinho.
Eu teria dito: Clay, vem pra casa.

Markus Zusak, em O construtor de pontes

05/07/2024

Feito esquiadores no topo da montanha


Naquela primeira noite, na rua Pepper, no número 37, ficou combinado.
Ele a acompanhou de volta e disse que no sábado, às quatro da tarde, passaria na casa dela.
A rua estava escura e vazia.
Nada mais foi dito.
Quando o sábado chegou, ele apareceu de barba feita e com margaridas.
Demorou um pouco até ela tocar piano e, quando tocou, Michael ficou ao seu lado, o dedo pousado na última tecla da direita.
Ela assentiu, para que ele a apertasse.
Acontece que a nota mais alta de um piano é instável.
Se você não apertar forte o bastante, ou do jeito certo, não sai nada.
— De novo — disse ela, e sorriu, nervosa, e ele sorriu também, nervoso, e dessa vez deu certo.
Como um tapinha na mão de Mozart.
Ou no pulso de Chopin ou Bach.
E dessa vez foi ela:
Havia hesitação e constrangimento, mas ela lhe deu um beijo na nuca, bem de leve, bem suave.
E então comeram os biscoitinhos amanteigados.
Até não sobrar nenhum.

***

Quando penso nisso hoje, recapitulo tudo que me disseram, e especialmente tudo que disseram a Clay, e me pergunto o que é mais importante.
Imagino que tenha sido o seguinte:
Durante seis ou sete semanas, eles se viram, alternando pontos de encontro, pra lá e pra cá na rua Pepper. A todo instante, Michael Dunbar tinha a impressão de que algo estava brotando em meio à novidade e ao cabelo louro de Penélope. Quando a beijava, sentia o gosto da Europa, mas também o gosto da ausência de Abbey. Quando se levantava para ir embora e ela apertava suas mãos, Michael sentia o toque de um refugiado, e era ela, mas também ele.

***

Finalmente, ele contou a ela, nos degraus do número 37.
Era domingo de manhã, um dia cinza e ameno, e os degraus estavam frios — e ele já tinha sido casado, e se divorciado; o nome dela era Abbey Dunbar. Ele ficou prostrado no chão da garagem.
Passaram um carro e uma garota de bicicleta.
Ele contou que ficou arrasado, seguiu em frente, aguentou firme, sozinho. Contou que queria ter ido ao encontro dela muito antes. Queria, mas não foi capaz. Não poderia arriscar uma queda como aquela de novo, não mais.
É curioso ver como se desenrolam as confissões:
Admitimos quase tudo, e é o quase que conta.
No caso de Michael Dunbar, duas coisas foram deixadas de fora.
Em primeiro lugar, ele simplesmente não admitiu que também era capaz de produzir algo próximo à beleza — as pinturas.
Além disso, como extensão do primeiro item, ele não revelou que, no fundo, nos recônditos mais obscuros de sua alma, seu maior medo não era ser deixado novamente, mas condenar alguém a ser o segundo melhor, a ficar em uma posição inferior. Era assim que ele se sentia em relação a Abbey e à vida que um dia tivera e perdera.

***

Mas até aí, que escolha ele tinha?
Aquele era um mundo onde a lógica era desafiada por entregadores de piano briguentos e desajeitados. Onde o destino poderia bater à porta, ao mesmo tempo pálido e corado. Por Deus, até Stálin estava envolvido. Como ele poderia dizer não?
Há quem diga que não nos cabe tomar decisões. Talvez seja verdade.
Achamos que estamos no controle, mas não estamos.
Damos voltas na vizinhança.
Passamos por certa porta.
Quando apertamos uma tecla de piano e não sai nada, apertamos de novo, porque temos que apertar. Precisamos ouvir algo e esperamos que não seja um erro...
Para começo de conversa, não era nem para Penélope estar ali.
Não era para nosso pai ter se divorciado.
Mas lá estavam, seguindo em frente, dando o melhor de si rumo a uma linha de chegada. Esperaram a contagem regressiva, feito esquiadores no topo da montanha, e pressionaram a tecla na hora do já. O resto é história.

Markus Zusak, em O construtor de pontes