Mostrando postagens com marcador John Keats. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Keats. Mostrar todas as postagens

13/09/2022

Sentado, a reler o Rei Lear

Ó romance de linguagem dourada, com sereno alaúde!
Bela Sereia emplumada, Rainha dos confins!
Deixa a melodia neste dia de inverno,
Cerra as velhas páginas, e te cala.
Adeus! Novamente, contenda feroz
Entre a maldição e o barro apaixonado
Devo abrasado passar; provando humilde mais uma vez
O agridoce desta fruta Shakespeariana.
Poeta maior! E vós nuvens de Albion,
Geradoras de nosso profundo e eterno tema!
Quando atravessar a antiga Floresta de carvalhos,
Não me deixeis divagar num sonho estéril,
Mas, quando no fogo me consumir,
Dai-me novas asas de Fênix para que voe a meu desejo.

John Keats, in Nas invisíveis asas da poesia 

24/09/2021

Ao gato

Gato, já está em idade avançada,
Quantos camundongos e ratos em sua vida comeu?
Quantos petiscos roubou?
Olhe com estes lânguidos e brilhantes segmentos de verde,
Ergue as orelhas de veludo
Mas por favor não espetes tuas garras latentes em mim
E mia mais alto — e me conta tuas contendas
Por peixes e camundongos, ratos e tenros galetos.
Não, não baixes os olhos nem lambas teus punhos delicados.
Apesar de teu arfar asmático,
Apesar de teu rabo cortado,
Apesar de muitas empregadas te terem batido,
Tua pele ainda é tão suave como quando duelavas
Na juventude sobre os muros entre cacos de vidro.

John Keats

26/08/2016

Do ‘Endymion’

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida.
John Keats