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23/05/2022

O travesseiro de penas

Sua lua-de-mel foi um longo calafrio. Loura, angelical e tímida, o temperamento sisudo do marido lhe gelou as sonhadas fantasias de noiva. E no entanto ela o amava muito, às vezes com um ligeiro estremecimento quando, à noite, voltando juntos para casa, dava uma furtiva olhadela à alta estatura de Jordán, que na última hora não pronunciara uma só palavra. Ele também a amava muito, profundamente, mas sobre isso não dizia nada.
Durante os três meses – casaram-se em abril – viveram uma felicidade peculiar. Certamente ela teria desejado menos sobriedade nesse rígido céu de amor, uma ternura mais expansiva e menos controlada. Mas o impassível semblante do marido sempre a refreava.
A casa onde moravam também contribuía para seus calafrios. A brancura do pátio silencioso – frisos, colunas, estátuas de mármore – produzia a outonal impressão de uma palácio encantado. Dentro, o brilho glacial do estuque, sem uma única e superficial fissura nas altas paredes, corroborava a desconfortável sensação de frio. Na passagem de uma peça para outra, os passos ecoavam por toda a casa, como se um longo abandono lhe tivesse aguçado a ressonância.
Nesse singular ninho de amor, Alícia passou todo o outono. Lançara um véu sobre os antigos sonhos e vivia como dormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada até a hora em que chegasse o marido.
Não surpreendia que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de influenza que acabou se arrastando, insidiosamente, por dias e dias.
Não melhorava nunca. Num fim de tarde pôde ir ao jardim, apoiada no braço do marido. Olhava para um lado e outro, indiferente.
Jordán, com ternura passou-lhe a mão na cabeça, e Alícia pôs-se a chorar, pendurada em seu pescoço. Chorou longamente todo seu espanto calado, redobrando o pranto à mínima carícia. Depois os soluços foram diminuindo e ela continuou abraçada nele, sem mover-se e sem nada dizer.
Foi esse o último dia em que Alícia se levantou. No dia seguinte amanheceu prostrada. O médico de Jordán veio vê-la e recomendou repouso absoluto.
Não sei o que ela tem – disse a Jordán em voz baixa, já na porta da rua. – É uma fraqueza que não entendo. Sem vômitos, sem nada… Se amanhã despertar como hoje, manda me chamar.
No outro dia Alícia estava pior. Veio o médico e constatou uma anemia em progresso acelerado, completamente inexplicável.
Alícia não teve mais desmaios, mas era visível que caminhava para o fim. Durante o dia todo o quarto permanecia com a luz acesa e em silêncio. Corriam as horas sem que se ouvisse o menor ruído.
Ela dormitava.
Jordán passava o dia na sala, também com todas as luzes acesas.
Andava sem cessar de um lado para outro, com incansável obstinação, o carpete abafando-lhe os passos. De vez em quando entrava no quarto e continuava em seu mudo vaivém ao longo da cama, detendo-se um instante em cada extremo a olhar para a mulher.
Em seguida Alícia começou a ter alucinações. A princípio eram confusas, variadas, depois se fixaram no chão do quarto. Com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia outra coisa senão fitar o tapete dos dois lados da cabeceira da cama. Uma noite, com o olhar fixo, abriu a boca para gritar, com as narinas e os lábios perlando suor.
Jordán! Jordán! – clamou, por fim, rígida de espanto e sem deixar de vigiar o tapete.
Jordán acudiu e Alícia, ao vê-lo, deu um grito.
Sou eu, Alícia, sou eu!
Ela olhou como perdida, logo para o tapete, tornou a olhar para o marido e, depois de um momento de de atônita confrontação, acalmou-se. Sorriu e, tomando entre as suas a mão de Jordán, acariciou-a por uma longa meia hora, sempre tremendo.
Entre suas alucinações mais pertinazes, houve uma que era a de um antropóide no tapete, erguendo-se na ponta dos dedos e com o olhar cravado nela.
Os médicos voltaram a examiná-la, sempre em vão. Era uma vida que se acabava, dia a dia se dessangrando, hora a hora, sem que soubessem como e por que aquilo acontecia. Na última consulta, Alícia jazia em estupor enquanto lhe verificavam o pulso, um passando ao outro aquele braço inerte. Demoradamente a observaram em silêncio e depois passaram à sala.
É um caso gravíssimo – e o médico de Jordán balançou a cabeça, desalentado. – Pouco ou nada se pode fazer.
Era só o que faltava – desabafou Jordán, dedos tamborilando na mesa com violência.
Alícia se esvaía em subdelírios de anemia. Nas primeiras horas da tarde seu mal se atenuava, agravando-se com a chegada da noite.
A doença parecia não avançar durante o dia, mas no dia seguinte ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia mesmo que que tão-só durante a noite sua vida escorria em novas vagas de sangue.
Ao despertar, tinha a sensação de estar esmagada na cama por um milhão de quilos. Desde o terceiro dia essa prostração não mais a abandonara. Mal podia mover a cabeça e não quis que trocassem os lençóis e a fronha. Seus terrores crepusculares avançavam agora sob a forma de monstros que se arrastavam até a cama e subiam laboriosamente pela colcha.
Perdeu a consciência. Nos dois dias finais delirou sem cessar à meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, ouviam-se apenas o delírio monótono que vinha da cama e os surdos passos de Jordán.
Alícia morreu por fim. A criada, entrando mais tarde no quarto para arrumar a cama vazia, olhou intrigada para o travesseiro.
Senhor – chamou em voz baixa. – No travesseiro há manchas que parecem de sangue.
Jordán aproximou-se rapidamente. De fato, na fronha, em ambos os lados da concavidade deixada pela cabeça de Alicia, viam-se manchas escuras.
Parecem picadas – murmurou a criada, depois de um instante de atenta observação.
Traz a lâmpada para cá.
A criada levantou o travesseiro e logo o deixou cair, pálida, trêmula.
Sem saber por quê, Jordán sentiu que seus cabelos se eriçavam.
O que houve? – perguntou, rouco.
Pesa muito – gaguejou a criada, sem deixar de tremer.
Jordán o ergueu. Pesava demais. Levaram-no para a mesa da sala e ali Jordán cortou a fronha e o envoltório interno. As penas à superfície voaram, e a criada, com a boca escancarada, deu um grito de pavor, levando as mãos crispadas aos bandós. No fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, havia um animal monstruoso vivente e viscosa. Estava tão inchado que quase não se distinguia sua boca.
Noite a noite, desde que Alicia ficara acamada, aplicara aquela boca – aquela tromba, melhor dito – às têmporas dela, para sugar-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. A mudança diária da fronha havia impedido, a princípio, seu desenvolvimento, mas desde que a moça não pudera mais mover-se, a sucção fora vertiginosa. Em cinco dias e cinco noites ele esvaziara Alicia.
Esses parasitas das aves, diminuto no meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece lhes ser especialmente favorável e não é raro que sejam encontrados em travesseiros de penas.

Horácio Quiroga, in Passado Amor e Outras Histórias

15/05/2022

A insolação

O cachorro Old saiu pela porta e atravessou o pátio com passo firme e preguiçoso. Deteve-se no limite do pasto, tomou o rumo do monte, entrecerrando os olhos, o focinho inquieto, e se sentou tranquilo. Via a monótona planura do Chaco, com suas alternâncias de campo e monte, monte e campo, sem mais cor do que o bege do pasto e o negro do monte. Este fechava o horizonte, a duzentos metros, por três lados da chácara. Em direção ao oeste, o campo se alargava e se estendia num vale, que entretanto a iniludível linha sombria marcava ao longe.
Naquela hora em que ainda era cedo, a distância, ofuscante de luz ao meio-dia, adquiria repousada nitidez. Não havia uma nuvem ou um sopro de vento.
Sob a calma do céu prateado o campo emanava tônica frescura que trazia à alma pensativa, ante a certeza de outro dia de seca, melancolias de um trabalho mais bem recompensado.
Milk, o pai do cachorro, cruzou por sua vez o pátio e se sentou ao lado dele, com um preguiçoso gemido de bem-estar. Ambos permaneciam imóveis, pois ainda não havia moscas.
Old, que olhava fazia tempo a encosta do morro, observou:
A manhã está fresca.
Milk acompanhou o olhar do cachorro e se imobilizou com a vista fixa, piscando distraído. Depois de um tempo disse:
Naquela árvore há dois falcões.
Desviaram a vista indiferente para um boi que passava e continuaram olhando as coisas por hábito.
Entretanto, o oriente começava a adquirir um tom púrpura e o horizonte tinha já perdido sua precisão matinal. Milk cruzou as patas dianteiras e, ao fazê-lo, sentiu uma leve dor. Olhou seus dedos sem mover-se, decidindo-se por fim a cheirá-los. No dia anterior havia arrancado uma farpa e, à recordação do que havia sofrido, lambeu longamente o dedo enfermo.
Não conseguia caminhar — exclamou em conclusão.
Old não compreendeu a que se referia e Milk acrescentou:
Há muitas farpas.
Desta vez o cachorro compreendeu. E retrucou por sua vez, depois de um bom tempo:
Há muitas farpas.
Um e outro calaram de novo, convencidos.
O sol saiu e, ao primeiro banho de sua luz, os pavões do monte lançaram ao ar puro o tumultuoso alarido de sua cantoria. Os cães, dourados ao sol oblíquo, semicerraram os olhos, dulcificando sua moleza com beatífico pestanejar. Pouco a pouco a dupla foi aumentando com a chegada dos outros companheiros: Dick, o taciturno preferido; Prince, cujo lábio superior, rasgado por um quati, deixava ver os dentes; e Isondú, de nome indígena. Os cinco fox terriers, estendidos e inebriados de bem-estar, dormiram.
Ao cabo de uma hora ergueram a cabeça; do lado oposto do bizarro rancho de dois andares — o inferior de barro e o superior de madeira, com corredores e varanda de chalé —, haviam sentido os passos de seu dono, que vinha descendo a escada. Mister Jones, toalha ao ombro, deteve-se um momento no canto do rancho e olhou o sol, já alto. Tinha ainda o olhar baço e o lábio pendente depois de seu solitário serão de uísque, mais prolongado do que os habituais.
Enquanto se lavava, os cachorros se aproximaram e lhe cheiraram as botas, abanando o rabo com preguiça. Como as feras amestradas, os cães conhecem o menor indício de bebedeira de seu dono. Afastaram-se com lentidão, para se estirar outra vez ao sol. Porém o calor crescente logo os fez abandonar a claridade pela sombra dos corredores.
O dia avançava igual aos precedentes de todo esse mês: seco , límpido, com 14 horas de sol calcinante que parecia conservar o céu em fusão e que num instante gretava a terra esfaqueada em crostas esbranquiçadas. Mister Jones foi à chácara, contemplou o trabalho do dia anterior e retornou ao rancho. Em toda essa manhã, nada fez. Almoçou e subiu para dormir a sesta.
Os peões voltaram às duas para a capina, não obstante a hora de fogo, pois as ervas não abandonavam o algodoal. Atrás deles foram os cachorros, muito amigos do cultivo desde o inverno passado, quando aprenderam a disputar com os falcões os vermes brancos que o arado levantava. Cada cachorro se jogou sob um pé de algodão, acompanhando com seu arquejo os golpes surdos da enxada.
Entretanto o calor crescia. Na paisagem silenciosa e cegante de sol, o ar vibrava de todos os lados, maltratando a vista. A terra removida exalava bafo de forno, que os peões suportavam sobre a cabeça, envolta até as orelha; no lenço flutuante, com o mutismo de seus trabalhos de chácara. Os cachorros trocavam a todo momento de planta, à procura de sombra mais fresca.
Estendiam-se de comprido, mas a fadiga os obrigava a sentarem-se nas patas traseiras, para respirar melhor.
Reverberava agora a sua frente um pequeno descampado de argila que nem se tentara arar. Ali, o cachorro viu de imediato Mister Jones, sentado sobre um tronco, fitando-o fixamente. Old se pôs de pé abanando o rabo. Os outros também se levantaram, mas eriçados.
É o patrão — disse o cachorro, surpreendido pela atitude dos demais.
Não, não é — replicou Dick.
Os quatros cães estavam reunidos, grunhindo surdamente, sem tirar os olhos de Mister Jones, que continuava imóvel, olhando-os. O cachorro, incrédulo, começou a avançar, mas Prince lhe mostrou os dentes:
Não é ele, é a Morte.
O cachorro se eriçou de medo e retrocedeu para o grupo.
O patrão está morto? — perguntou ansioso. Os outros, sem responder, puseram-se a ladrar com fúria, sempre em atitude temerosa. Mas já Mister Jones se desvanecia no ar ondulante.
Ao ouvir os latidos, os peões haviam erguido os olhos, sem nada divisar.
Viraram a cabeça para ver se algum cavalo havia entrado na chácara e outra vez se curvaram.
Os fox terriers voltaram a passo rápido para o rancho. O cachorro, ainda eriçado, adiantava-se e retrocedia em curtos trotes nervosos e soube, pela experiência de seus companheiros, que quando uma coisa vai morrer, a morte aparece antes.
E como sabem que esse que vimos não era o patrão vivo? — perguntou.
Porque não era ele — responderam-lhe displicentes.
Logo viria a Morte, e com ela a troca de dono, as misérias, os pontapés!
Passaram o resto da tarde ao lado de seu patrão, sombrios e alertas. Ao menor ruído grunhiam, sem saber em direção a quê.
Por fim, o sol sumiu por trás do negro palmeiral do arroio e, na calma da noite prateada, os cachorros se puseram em redor do rancho, em cujo andar superior Mister Jones recomeçava sua vigília de Uísque. À meia-noite ouviram seus passos, em seguida, as botas caindo rio piso de tábuas; e a luz se apagou. Os cães então sentiram mais a próxima troca de dono e, sozinhos ao pé da casa adormecida, começaram a chorar. Choravam em coro, soltando soluços convulsivos e secos, como que mastigados, num uivo de desolação, que a voz caçadora de Prince sustentava, enquanto os outros tornavam a soluçar. O cachorro só podia ladrar. A noite avançava e os quatros cães mais velhos, agrupados à luz da lua, o focinho estendido e intumescido de lamentos — bem alimentados e acariciados pelo dono que iam perder —, continuaram chorando alto sua miséria doméstica.
Na manhã seguinte Mister Jones foi pessoalmente buscar as mulas, atrelou-as à capinadeira, e trabalhou até as nove. No entanto, não estava satisfeito. Além de a terra nunca ter sido bem rastreada, as lâminas não tinham fio e, com o passo rápido das mulas, a capinadeira saltava. Levou-a de volta e afiou as relhas; mas um parafuso, em que já havia notado uma falha ao comprar a máquina, se quebrou quando ele a montava. Mandou um peão à oficina próxima, recomendando-lhe cuidado com o cavalo, um bom animal, porém fogoso. Levantou a cabeça para o sol de derreter do meio-dia e insistiu para que não galopasse em nenhum momento. Almoçou em seguida e subiu.
Os cães, que durante a manhã não haviam se afastado de seu patrão um segundo sequer, deixaram-se ficar pelos corredores.
A sesta pesava, agoniada de luz e silêncio. Todo o entorno estava brumoso pela canícula. Ao redor do rancho a terra esbranquiçada do pátio ofuscava no sol a pino, parecia deformar-se em trêmulo fervor, que adormecia os olhos pestanejantes dos fox terriers.
Não apareceu mais — disse Milk.
Old, ao ouvir a palavra aparecer, levantou vivamente as orelhas. Incitado pela evocação, o cachorro se pôs de pé e latiu, buscando o quê. Depois de um tempo calou, entregando-se com seus companheiros a sua defensiva caçada de moscas.
Não veio mais — acrescentou Isondú.
Havia uma lagartixa sob a raiz — recordou pela primeira vez Prince.
Uma galinha, de bico aberto e asas afastadas do corpo, cruzou o pátio incandescente com seu pesado trote calorento. Prince a seguiu preguiçosamente com os olhos e saltou de um golpe.
Lá vem outra vez — gritou.
Pelo norte do pátio avançava sozinho o cavalo em que o peão havia ido.
Os cães se arquearam sobre as patas, ladrando com fúria contra a Morte, que se aproximava. O cavalo vinha de cabeça baixa, aparentemente indeciso sobre que rumo devia seguir. Ao passar em frente ao rancho, deu alguns passos na direção do poço e foi se desvanecendo progressivamente na luz crua.
Mister Jones desceu; não tinha sono. Dispunha-se a continuar a montagem da capinadeira, quando viu chegar inesperadamente o peão a cavalo. Apesar de sua ordem, tinha de ter galopado para voltar a essa hora. Mal se viu livre, concluída sua missão, o pobre cavalo, em cujos arquejos era impossível contar as palpitações, tremeu baixando a cabeça e caiu de lado. Mister Jones mandou o peão para a chácara, ainda de chapéu e rebenque, para não ter de despedi-lo, se continuasse a ouvir suas desculpas jesuíticas.
Porém os cães estavam contentes. A Morte, que buscava a seu dono, se havia conformado com o cavalo. Sentiam-se alegres, livres de preocupação, e por isso dispunham-se a ir à chácara atrás do peão quando ouviram Mister Jones que gritava para ele, pedindo-lhe o parafuso. Não havia parafuso: o armazém estava fechado, o encarregado dormia etc. Mister Jones, sem replicar, pegou o chapéu e saiu ele próprio em busca do utensílio. Resistia ao sol como um peão e o passeio fazia maravilhas contra seu mau humor.
Os cães saíram com ele, mas se detiveram à sombra do primeiro algodoeiro; fazia calor demais. Dali, firmes sobre as patas, o cenho contraído e atento, viam distanciar-se o dono. Por fim o temor da solidão foi mais forte e, com agoniado trote, seguiram atrás dele. Mister Jones conseguiu seu parafuso e voltou. Para cortar caminho, desde o início, evitando a poeirenta curva da estrada, seguiu em linha reta para a sua chácara. Chegou ao riacho e se embrenhou pelo matagal, o diluviano matagal de Saladito, que tem crescido, secado e revivescido desde que existem ervas rasteiras no mundo, sem conhecer fogo. A vegetação, arqueada em abóbada à altura de seu peito, se entrelaça em blocos maciços. A tarefa de atravessá-la já seria muito dura com o dia fresco. Mister Jones a atravessou, no entanto, bracejando entre o mato farfalhante e poeirento por causa do barro que deixavam as enchentes, assolado pela fadiga e pelas acres exalações de nitrato.
Saiu por fim e se deteve na linha divisória; era porém impossível permanecer parado sob esse sol e com esse cansaço. Caminhou de novo. Ao calor abrasador que aumentava sem cessar fazia já três dias, agregava-se agora a sufocação do tempo impiedoso. O céu estava branco e não se sentia um sopro de vento. O ar faltava, com angústia cardíaca que não permitia concluir a respiração.
Mister Jones se convenceu de que havia transposto seu limite de resistência. Há algum tempo lhe golpeava os ouvidos o latejar das carótidas.
Sentia-se zonzo, como se de dentro da cabeça lhe empurrassem o crânio para cima. Mareava-se olhando o pasto. Apressou a marcha para acabar com isso de uma vez… E em seguida voltou a si e se achou num local diferente: havia caminhado uns cinquenta metros sem dar-se conta de nada. Olhou para trás e a cabeça se perdeu em uma nova vertigem.
Enquanto isso os cachorros seguiam atrás dele, trotando com a língua toda de fora. Às vezes, asfixiados, detinham-se à sombra de um esparto; sentavam-se, precipitando seu arquejar, para em seguida voltarem ao tormento do sol.
Por fim, como a casa já estava próxima, apressaram o trote.
Foi nesse momento que Old, que ia na frente, viu, para além do alambrado da chácara. Mister Jones, vestido de branco, caminhando na direção deles. O cachorro, com súbita lembrança, voltou a cabeça para seu dono e o advertiu.
A Morte, a Morte! — uivou.
Os outros haviam visto também e ladravam eriçados e por um instante acreditaram que ia se equivocar; porém, quando chegou a cem metros, se deteve, olhou o grupo com seus olhos celestes e seguiu em frente.
Que o patrão não caminhe ligeiro! — exclamou Prince.
Vai esbarrar nele! — uivaram todos.
Com efeito, a outra, após breve hesitação, havia avançado, não diretamente sobre eles como antes, mas numa linha oblíqua e aparentemente errônea, que no entanto devia levá-la exatamente ao encontro de Mister Jones. Os cachorros compreenderam que desta vez tudo chegava ao fim, porque seu dono continuava caminhando no mesmo passo como um autômato, sem se dar conta de nada. A outra já estava chegando. Os cães baixaram o rabo e correram de lado, ladrando. Passado um segundo, o esbarrão aconteceu. Mister Jones se deteve, girou sobre si mesmo e desabou.
Os peões, que o viram cair, o levaram apressados para o rancho, mas toda a água foi inútil; morreu sem voltar a si. Mister Moore, seu irmão por parte de mãe, chegou de Buenos Aires, passou uma hora na chácara, em quatro dias liquidou tudo, voltando em seguida para o sul. Os índios dividiram entre si os cachorros, que viveram daí por diante magros e sarnentos e iam toda noite com faminto sigilo roubar espigas de milho nas chácaras alheias.

Horácio Quiroga, in Passado Amor e Outras Histórias

10/05/2022

Os imigrantes

O homem e a mulher caminhavam desde às quatro da manhã. O tempo, decomposto na asfixiante calma que precede a tempestade, tornava ainda mais pesado o vapor nitroso do pântano. A chuva caiu por fim, e durante uma hora o casal, encharcado até os ossos, avançou obstinadamente.
A chuva parou. Os dois se olharam, então, com uma angustiante desesperança.
Você tem força para caminhar ainda mais um pouco? — disse ele. — Talvez os alcancemos…
A mulher, lívida e com profundas olheiras, balançou a cabeça.
Vamos — concordou, prosseguindo pelo caminho.
Porém, logo se deteve, interrompendo a caminhada, encolhendo-se, crispada em um galho. O homem, que caminhava adiante, virou-se ao ouvir o gemido.
Não posso mais!… — murmurou ela com a boca retorcida e toda molhada de suor. — Ai, meu Deus!…
O homem, depois de olhar tudo ao seu redor, convenceu-se de que nada poderia fazer. Sua mulher estava grávida. Então, sem saber para onde dar o próximo passo, alucinado pela excessiva fatalidade, cortou folhas e ramos, estendeu-os no solo e deitou sua mulher em cima. Sentou-se numa das extremidades e colocou a cabeça dela sobre suas pernas.
Passou quinze minutos em silêncio.
Logo, a mulher estremeceu bruscamente e foi necessária toda a sua força para conter aquele corpo, que se projetava violentamente para todos os lados pela eclampsia.
Passado o ataque, ficou por um momento sobre a mulher, cujos braços ele prendia na terra com os joelhos. Por fim, restabelecido, afastou-se alguns passos, vacilante, esmurrou o ar à sua frente e tornou a colocar sobre as pernas a cabeça da mulher, estática, mergulhada agora em profundo torpor.
Houve outro ataque de eclampsia, do qual a mulher saiu ainda mais inerte.
Pouco depois, um outro. Porém, ao fim deste, a vida também findou.
O homem percebeu quando ainda estava montado sobre a mulher, reunindo todas as forças para conter as convulsões.
Ficou estarrecido, com os olhos fixos na borbulhante espuma da boca, cujas bolhas sanguinolentas agora escorriam da cavidade escura.
Sem saber o que fazer, tocou a mandíbula dela com o dedo.
Carlota! — disse, com uma voz branca, que não tinha entonação alguma.
O som das palavras fez com que ele voltasse a si. Recompôs-se e olhou para todos os lados com um olhar perdido.
É muita fatalidade — murmurou.
É muita fatalidade… — murmurou outra vez, esforçando-se, entretanto, para entender o que havia ocorrido. Vinham da Europa, disso não havia dúvida. Tinham deixado lá o seu primogênito de apenas dois anos. Ela estava grávida e iam a Makallé com outros companheiros… Estavam bem atrasados e sós, pois ela não podia caminhar normalmente… E em más condições, talvez… talvez sua mulher pudesse correr algum perigo…
Bruscamente, o homem se virou com um olhar enlouquecido:
Morta. Aí!…
Sentou-se de novo, e voltando a colocar a cabeça morta da mulher sobre suas coxas, pensou por quatro horas no que faria.
Não chegou a concluir nada. Quando a tarde caiu, o homem, carregando a esposa sobre seus ombros, tomou o caminho de volta.
Margeavam outra vez o pântano. O matagal se estendia sem fim pela imóvel noite prateada e cheia de zumbidos de mosquitos. O homem, com a nuca inclinada, caminhou com passos iguais, até que a mulher caiu dos seus ombros, bruscamente. Por um instante ele continuou em pé, rígido, e caiu depois dela.
Quando despertou, o sol queimava.
Comeu algumas bananas de filodendro, embora desejasse algo mais nutritivo, pois sabia que, antes de poder depositar em solo sagrado o cadáver de sua esposa, ainda passariam vários dias.
Colocou outra vez sobre os ombros o cadáver, mas suas forças diminuíam.
Amarrando-o, então, com cipós entrelaçados, fez dele um fardo e avançou assim com menos fadiga.
Durante três dias, descansando e seguindo novamente, sob um céu branco de calor, devorado de noite pelos insetos, o homem caminhou e caminhou, sonâmbulo de fome, envenenado por miasmas cadavéricos, toda a sua missão concentrada em uma única e obstinada ideia: arrancar daquele país hostil e selvagem o corpo adorado de sua mulher.
Na manhã do quarto dia, viu-se obrigado a interromper a caminhada e só à tarde pôde prosseguir. Porém, quando o sol já se escondia, um profundo calafrio percorreu-lhe os nervos esgotados, e estendendo o corpo morto sobre a terra, sentou-se ao seu lado.
A noite já havia caído, e o monótono zumbido dos insetos enchia o ar solitário. O homem pôde senti-los tecer uma teia dolorida sobre seu rosto.
Do fundo de sua medula gelada ele não conseguia controlar os calafrios.
A lua ocre-minguante surgiu finalmente por trás do pântano. O mato alto e rígido brilhava até o horizonte em fúnebre mar amarelado. A febre perniciosa subia rapidamente.
O homem olhou para a horrível massa mole que jazia ao seu lado, e cruzando os braços em torno dos joelhos fixou o olhar no pântano venenoso, em cujas distâncias o delírio desenhava uma pequena aldeia da Silésia, para onde ele e sua mulher, Carlota Phoening, regressavam felizes e ricos para buscar seu adorado primogênito.

Horácio Quiroga, in Contos