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10/07/2015

A árvore


Ó árvore quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências – que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos -

demorastes aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
E dize-me: há esperança para o Homem?
Geir Campos

03/07/2015

Ser e tempo

Ser é durar… Somos, então,
nesses momentos em que a vida
excede a própria duração?
Nesses momentos quando o amor
(fruto a multiplicar-se em gomos,
em cada gomo outro sabor)
é uma surpresa repetida
— que somos nós? Acaso
somos?
Geir Campos

26/06/2015

Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.
Geir Campos

11/06/2015

Poética

Eu quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
— rosa!
todos soubessem o que haviam de pensar.

Mais: quisera ser claro de tal forma
que ao dizer
— já!
todos soubessem o que haviam de fazer.
Geir Campos

02/06/2015

Do amor

Se deveras não cabe, entre criaturas
modeladas em barro e ao barro adstritas,
mais do que o essencial esfarinhar-se
(durando, gastam-se as coisas mais duras)
— às criaturas será sempre estrangeira
a força que as redime, se as atrita,
queimando auroras sobre grãos de poeira.
Geir Campos

23/05/2015

Apresentação

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma lima, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.
Geir Campos

18/05/2015

Descante

Nunca te pedirei
o que não possas dar,
ai — pedir sombra ao sol,
doçura ao mar?

Tampouco pedirei
mimo que não tenha preço,
ai — de pobre que sou
bem me conheço.

Não saberia aliás
que prenda acrescentar,
brilho ao sol, talvez,
salina ao mar...

E nem te valeria
a espera na promessa,
ai — eterno é o que passa
mais depressa.
Geir Campos

16/05/2015

Tema sem variação

Sequer apago as passadas
deste meu vagar sozinho,
sozinho em tantas estradas:
triturador de caminhos,
move-me um remoinho
de frescas águas passadas.
Geir Campos

09/05/2015

Sugestão no cais

Aos carnívoros peixes que na guerra
sozinhos ou sem bandos avisados
tiveram seus banquetes numerosos
à sombra dos navios afundados
e ali comerem ávidos e quietos
as carnes de marujos e soldados
e tripulantes e passageiros
de barcos mercantes torpedeados,
pergunte-se:

A que sabem os miolos
por tantas agonias transitados
e os corações vazios de esperança
e os músculos com seu gestos truncados?

Pergunte-se, e o pavor será tamanho
que os peixes permanecerão calados.
Geir Campos

29/04/2015

Vertical morte

Paraquedista, a que distância
escolherás o teu lugar
sobre as vogais de tantos olhos,
tu, leviano como til?
Tão moço, tinha moço amor
além da mãe, da irmão, do irmão,
do companheiro antes alegre
e triste já pelo que viu:
saltaram dez, saltaram cem…

Negra metade do que fora
o claro salto de um tiziu
ou, mais, crisântemo de seda
entre o chão duro e o fofo anil.
Mas nem foi de abelha o zumbir…

O paraquedas não se abriu.

E era um exercício de paz:
da paz que as armas não baniu.
Geir Campos

22/04/2015

Vigília

Não, meu amigo, não precisas ter
nenhum cuidado: havendo o que cuidar,
cuidarei eu constantemente a te poupar
coitas que vão teu coito arrefecer.

Coitado de quem deixa a noite ser
vinda fora de tempo e de lugar
sombreando as alturas do prazer
com rasteiras tribulações do lar.

Antes que venha a noite, vai o dia
mostrando os horizontes de alegria
que tem a palmilhar no corpo dela:

são costas, são gargantas, são colinas
toda uma geografia em que te empinas
enquanto pelo teu meu amor vela.
Geir Campos

18/04/2015

O moralista

Em vez de levar a sério
o que o moralista diz,
eu me pergunto primeiro:
o moralista é feliz?
Geir Campos

15/04/2015

Alba

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
Geir Campos

27/09/2012

Poema-bilhete

Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...

Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora. 
Geir Campos, in Poesia sempre

07/05/2011

Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos