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30/10/2024

A Contadora de Filmes | [43]


Creio que sou a única mulher que vive sozinha num povoado fantasma. Aqui, faço as vezes de guia. Ofereço folhetos que falam da história do salitre, ofereço fotos antigas, revistas Écran, bonecas de pano, caminhõezinhos de lata, coisas que encontro quando percorro as casas abandonadas.
Algumas pessoas que vêm ver os restos deste salitral abandonado me perguntam, atônitas, como pudemos viver nesses descampados.
Acham que a paisagem é pouco menos que a de uma província do inferno.
E eu respondo, orgulhosa, que para nós era o paraíso. Conto a vida que levávamos no povoado. Aqui ninguém morria de fome. Aqui um ajudava o outro. De noite podíamos dormir com a porta aberta que não acontecia nada. Os visitantes me escutam incrédulos. Alguns, com uma certa pena. Não faltam os que me chamam de saudosista. De romântica. De folhetinesca.
Muitos acham que sou louca.
Não me importa. Pelo contrário: quando estou mais inspirada, faço com que venham até esta casa – ou o que restou dela –, que é a casa onde morei minha vida inteira. E aqui conto para eles a história da menina contadora de filmes. E me escutam assombrados. Principalmente os jovens; no mundo tecnológico de agora, uma contadora de histórias é, para eles, inacreditável.
Ao entardecer, quando eles se retiram em seus veículos para as suas cidades, volto a ser o que sou: o fantasma de uma aldeia abandonada.
Ou serei uma estátua de sal?
Então, subo até a torre da igreja para contemplar o horizonte. Cada crepúsculo é como a panorâmica final de um velho filme, um filme em tecnicolor e cinemascope – e o ruído do vento batendo nas chapas de zinco é a trilha sonora. Um filme repetido dia após dia. Às vezes triste, às vezes menos triste.
Mas o final é sempre o mesmo:
Ao fundo dessa grande tela entardecida vejo meu pai se afastar em sua poltrona de rodas, vejo meus irmãos se afastarem, um a um, e minha mãe com seus lenços de seda ao vento. Vejo-os irem como se fossem os habitantes da Mina, vejo-os se dissiparem no horizonte como se fossem uma miragem, enquanto a música vai se apagando pouco a pouco e em cima de suas silhuetas emerge rotunda, fatal, a palavra que ninguém na vida quer ler:
[FIM]

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

18/10/2024

A Contadora de Filmes | [42]

Depois, como é sabido, chegou a hora em que fecharam a Mina. Todo mundo foi embora.
Todo mundo foi chorando.
Eu fiquei. Fiquei sozinha. Não tinha para onde ir, nem com quem.
De meu irmão Mirto, que fugiu com a viúva, eu nunca mais soube nada. A mesma coisa de Manuel, o jogador de futebol; jamais se ouviu falar dele em algum clube da capital. Alguém me disse certa vez que foi visto bêbado num bordel de Valparaíso.
E Mariano continua na cadeia. Quando estava a ponto de cumprir a sentença pela morte do agiota, teve uma briga com outro preso e o matou. Ele ficou ferido. Foi condenado a outros tantos anos. Só consegui ir visitá-lo umas poucas vezes.
Ele me pediu que não fosse mais.
Disse que fazia mal para ele.
A mim também fazia mal. Em seus gestos eu via o gesto dos bandidos dos filmes (falava cuspindo entre os dentes). Além do mais, depois de matar o agiota tinha parado de gaguejar. E isso me causava uma espécie de pavor inexplicável.
Minha última visita foi quando levei a notícia da morte da nossa mãe.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

12/10/2024

A Contadora de Filmes | [41]

Foi nesse tempo que aconteceram algumas coisas que mudaram o mundo. Apareceram os hippies. O homem chegou na Lua (apareceu na televisão). Salvador Allende chegou ao poder. Uma vez, o comandante Fidel Castro passou pela rua principal do povoado (a gente só conseguiu ver, pelos vidros de uma camionete, sua barba flutuando).
No sul, em sua cidade natal, minha mãe se suicidou. Dependurou-se numa figueira. Disseram que tinha sido com um de seus lenços de seda, daqueles que ela adorava tanto.
Eu fiquei sabendo dois meses depois.
E então, aconteceu o golpe de Estado do general Pinochet. Com o golpe, desapareceram muitas coisas. Desapareceu gente. Desapareceu o trem. Desapareceu a confiança.
Desapareceu o senhor administrador.
Puseram um militar para ocupar o seu lugar.
E eu tornei a ficar sozinha. Ele foi embora sem se despedir.
Diziam que havia voltado para o seu país (outros murmuravam que tinha sido fuzilado). No fim, eu havia tomado algum carinho pelo gringo. Embora às vezes ele se embebedasse e batesse em mim, não era má pessoa.
Até me deu uma televisão de presente.
No fundo, era um solitário e um sentimental.
Sofria muito por causa da sua esterilidade. De certa forma, era como o meu pai: inútil da cintura para baixo.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

06/10/2024

A Contadora de Filmes | [40]

A televisão foi se apoderando do povoado feito uma epidemia desconhecida e altamente contagiosa. E, ao que parecia, sem antídoto conhecido.
Depois da confeitaria de dom Primitivo, foi o Clube dos Empregados, onde instalaram um novo aparelho. Antes que se passasse um ano, todo mundo tinha um em casa. Os peões, de 14 polegadas; os funcionários e a chefia, de 23. Os tetos das vielas de casas se transformaram em bosques de antenas e uma chuva de palavras novas começou a ser ouvida por todos os cantos: áudio, sinal, seletor, canal, set.
A televisão tinha vindo para ficar.
Pela primeira vez começaram a aparecer fileiras inteiras de assentos vazios no cinema. Da mesma forma, as pessoas deixaram de ir sentar-se na praça. Até as ruas começaram a parecer mais desertas do que sempre pareciam, principalmente na hora em que a televisão passava Barnabás Collins, um açucarado seriado de vampiros.
Quanto a mim, só de vez em quando alguma anciã enferma – e sem televisão – mandava me buscar para que contasse um filme antigo. Ou me convidavam para cantar no Sindicato dos Peões um número de fundo em algum sarau artístico.
Nessas ocasiões, e embora os aplausos já não fossem os mesmos de antes, eu voltava a ser feliz.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

30/09/2024

A Contadora de Filmes | [39]


Quando a televisão chegou, fazia uma semana que tinham levado meu irmão para a cadeia.
Certa manhã de segunda-feira, quando eu já começava a me perguntar por que ninguém da companhia mineradora vinha me comunicar que eu devia entregar a casa, apareceu o rosto vermelho do senhor administrador, emoldurado na janela.
Embora no deserto o sol jorre quase todos os dias do ano, aquela era uma dessas raras manhãs nubladas. Naquela altura eu já tinha claro que as coisas ruins me aconteciam em dias nublados. Se fosse verdade que “as aranhas só tecem em dias nublados”, como dizia meu pai que sua avó repetia sempre, minha má sorte viria a ser uma espécie de aranha das mais laboriosas.
Quando o gringo pôs a cara na janela e me chamou com seu cômico sotaque estrangeiro, eu tinha posto o vestido da minha mãe, o rendado de bolinhas vermelhas que papai odiava tanto e que em mim já ficava perfeito.
Falei para ele entrar.
Entrou me olhando do mesmo jeito que tinha me olhado no cemitério. Com aquele mesmo brilhozinho que vi nos olhos do agiota quando eu, toda boba, sentada em seus joelhos contava o filme para ele. Mas o senhor administrador tinha melhor estampa que o velho roto do agiota. E tinha os olhos azuis. As pessoas diziam que era um gringo simpático.
Usava chapéu panamá.
Fumava cachimbo.
Falava um espanhol que fazia rir.
Também se falava que era casado quando chegou por estes pagos, mas que a mulher preferiu voltar para seu país quando viu a insuportável paisagem do deserto de Atacama. “Aqui as mulheres se transformam em estátuas de sal”, dizem que ela falou.
O senhor administrador me perguntou se eu sabia que precisava entregar a casa.
Eu disse que sim.
Ele me perguntou se eu tinha para onde ir.
Eu disse que não.
Ele me perguntou se eu queria ficar.
Eu disse que sim.
Ele me perguntou se eu sabia fazer alguma outra coisa além de contar filmes.
Eu disse que não.
Então ele ficou me olhando. Sabido. Como se olhasse um cavalo de corrida.
Depois, deu uma pensativa tragada em seu cachimbo e começou a passear recortado contra a parede branca onde eu contava meus filmes. Comecei a observá-lo em silêncio. Quando parou e, com a mão no queixo tornou a me olhar, recordei – pelo seu gesto de pôr a mão no queixo – tê-lo visto em casa uma vez, falando com a minha mãe. Aquilo foi nos tempos em que meu pai ainda trabalhava.
Vamos ver o que se pode fazer por você, mocinha”, disse ele enfim.
A questão é que terminei trabalhando de empacotadora no armazém durante o dia e, durante as noites, dormindo nos braços do senhor administrador.
Embora não estivéssemos no campo, e aqui não fosse costume, eu tinha catorze anos e o gringo, cinquenta e um.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

25/09/2024

A Contadora de Filmes | [38]

Saí da confeitaria com sensações que se enfrentavam. Por uma parte, sentia que era verdade o que se dizia: que se a televisão conseguisse se difundir ia matar irremediavelmente o cinema.
Mas sentia também uma pequena esperança para o meu ofício, pois logo depois de saber de que assunto se tratava, disse a mim mesma que ninguém ia preferir olhar aquelas imagens fantasmagóricas – e naquela caixa tão fria – a ouvir como eu contava os filmes.
Embora percebesse perfeitamente que o aparelhinho exercia uma fascinação irresistível sobre quem olhasse para ele, também entendi que, uma vez passada a novidade, todos iam despertar, sacudir-se do feitiço como os cachorrinhos se sacodem da água, e iam voltar de novo ao cinema e à sala da minha casa.
E eu tornaria a contar meus filmes.
A tele – como alguns já a chamavam com intimidade – era assim como um chiclete novo: uma vez mastigado o suficiente, já não tinha gosto de nada e acabava sendo cuspido sem remédio.
Eles iam ver só.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

21/09/2024

A Contadora de Filmes | [37]


Na confeitaria, com o catálogo nas mãos e ajudado pelo eletricista do povoado, dom Primitivo estava pelejando para fazer a geringonça funcionar. Havia sido instalada numa das prateleiras atrás do balcão, entre os frascos de caramelos e a estantezinha dos cigarros. O lugar estava mais cheio que nunca. Até o par de guardas, que fazia sua primeira ronda noturna, tinha ficado para ver a novidade.
Enquanto o eletricista verificava tomadas e conexões, dom Primitivo, revirando o catálogo como se fosse o mapa de um tesouro de pirata, fazia girar botões e apertava teclas como se estivesse ruim da cabeça. Ao mesmo tempo, lá no telhado dois homens mexiam a antena em todas as direções, conforme as pessoas lá embaixo iam gritando em coro:
Mais para lá!”
Um pouquinho mais para cá!”
Mais para cá!”
Um pouquinho mais para lá!”
Todo mundo ficava com os olhos grudados na tela esperando ver a qualquer momento alguma espécie de aparição celestial.
No entanto, com um insuportável ruído de cigarra cantando, tudo que se via eram simples listas ou pontinhos em ebulição, algo parecido a uma praga de gafanhotos que eu havia visto num filme.
Passado um tempinho, na tela começaram a surgir as primeiras imagens do que parecia ser um filme de guerra. As figuras surgiam borradas, como pessoas se movendo debaixo d’água. Mas não se ouvia absolutamente nada, só a fritura de torresmo – pois era isso que parecia ser aquele crepitar – e, de vez em quando, intermitentemente, alguns fiapos de frases que entusiasmavam a plateia.
Nos fugazes momentos em que imagem e som confluíam, as pessoas armavam um escândalo tremendo gritando para os homens da antena:
Agora sim!”
Mas em seguida voltavam o crepitar e a praga de gafanhotos.
Eu olhava as pessoas emboladas na frente do aparelho – muitas delas assíduas de minhas narrações – e via como seus olhinhos brilhavam naqueles segundos em que imagem e som coincidiam. Brilhavam como quando na minha casa, mostrando a máscara de Zorro, eu dava uma cambalhota com a espada e com três talhos certeiros deixava o Z claramente desenhado no ar.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

14/09/2024

A Contadora de Filmes


[36]

O dia que chegou o primeiro aparelho de televisão no povoado foi um verdadeiro espetáculo.
Dom Primitivo, o dono da confeitaria, havia propagado aos quatro ventos que estava viajando até o porto para trazer “um rádio com desenhos animados”. Inclusive já tinha mandado fazer uma antena de cobre de seis metros de altura. E com isso, na tarde em que desembarcou com uma enorme caixa de papelão como única bagagem, metade do povoado estava esperando por ele.
O mais corpulento dos jovens botou no ombro a caixa que dizia Westinghouse e começou a andar rodeado pela multidão. Enquanto um bando de meninos saltava ao seu redor tratando de tocar a caixa, os mais velhos, excitados pela emoção, diziam a ele que andasse devagarinho, que aqueles bicharocos eram delicados. Como se de verdade tivesse se tratado da imagem da Virgem de Tirana, o aparelho chegou na confeitaria seguido por uma verdadeira procissão de fiéis.
Isso foi o que me contaram depois. Naquela hora eu estava vendo um filme de caubói, com Gary Cooper. Quando cheguei em casa não havia ninguém me esperando. Preparei uma xícara de chá, que tomei tratando de pensar em nada mais além do filme que tinha acabado de ver.
Esperei um pouco, sentada à mesa.
Depois, pus o cinturão com os revólveres de pau e o chapéu de aba larga, e na frente do espelho comecei a treinar o “olhar de aço” de Gary Cooper. Treinei um pouco o “saque”: puxava os revólveres o mais rápido possível, atirava, fazia com que girassem em meu dedo indicador e tornava a colocá-los no coldre.
Fazia pouco que eu tinha aprendido que os caubóis engraxavam as cartucheiras e poliam a mira para sacar mais rápido. Meus revólveres não tinham mira, portanto eu só precisava engraxar as cartucheiras. Pensei: amanhã mesmo vou conseguir um pedaço de graxa no armazém.
Depois fiquei parada na porta.
Mas não chegou ninguém.
Alguém passou correndo e me gritou da outra calçada que todo mundo estava lá no dom Primitivo, vendo a novidade da televisão.
Fechei a casa e fui ver que alvoroço era aquele.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

08/09/2024

A Contadora de Filmes | [35]



A primeira coisa que aconteceu depois da morte de meu pai foi a tragédia de meu irmãozinho Marcelino. Uma noite, enquanto brincava de esconde-esconde no beco, foi atropelado pelas rodas traseiras do caminhão de lixo. Morreu na hora.
Como chorei, grudada em sua cabecinha de livro!
Tempos depois, meu irmão Mirto, que nunca tinha namorado, se engraçou com uma viúva jovem que andava pela Mina de visita, uma viúva negra que sorveu seus miolos de tal forma que ele não titubeou em ir com ela para a cidade de Coyhaique. Mais de quatro mil quilômetros ao sul do país!
Foi-se embora sem avisar ninguém.
Ele tinha dezesseis anos, a viúva tinha vinte e oito.
Depois, um clube de futebol profissional que andava de excursão pelo norte fez um jogo amistoso com o time da Mina.
Quando viram meu irmão Manuel jogar, ficaram tão impressionados com seus dribles e passes firulados que o levaram para a capital, para treinar nas divisões inferiores.
Ele, pelo menos, se despediu.
No entanto, a coisa verdadeiramente triste – tão triste como a morte de meu irmão Marcelino – foi o que aconteceu com Mariano, meu irmão mais velho. Como já trabalhava na Companhia e ganhava um salário de homem feito, se deu para a bebida. Do trabalho ia beber com seus amigos. Certa noite, bêbado feito uma cabra, teve a infeliz ideia de contar no balcão do bar, e a toda voz, que foi ele quem matou o sacana do agiota. Dois dias depois os detetives do porto vieram buscá-lo e ele foi levado preso.
Nunca disse que tinha matado para vingar a sujeira que o homem havia feito comigo. Só se limitou a dizer que foi para roubar dinheiro, e que nos bolsos do avarento de merda só achou farelo de pão.
Para fechar o quadro, naqueles mesmos dias chegou no povoado o primeiro aparelho de televisão, artefato que, segundo previam todos, acabaria de uma vez e para sempre com o cinema. A prisão de Mariano e a chegada da televisão, coisas que aconteceram quase em uníssono, definiram meu destino.
Com a ausência de meu irmão eu ficava sem casa, e com o assunto da televisão eu corria o perigo de ficar sem ofício.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

02/09/2024

A Contadora de Filmes | [34]

E assim continuamos morando no povoado e ocupando a mesma casa, agora entregue ao meu irmão mais velho. Naquele ano saí da escola e passei a ser a dona da casa.
Além de fazer as camas e lavar os pratos, tive que aprender a cozinhar e a lavar roupa.
De tarde continuava contando filmes.
Quando estava quase fazendo catorze anos, a mesma idade da minha mãe ao ter seu primeiro filho, me fiz amante do senhor administrador. Mas durante o tempo entre a morte de meu pai e a chegada dos meus catorze anos, ocorreu uma série de acontecimentos na minha vida, um rosário de circunstâncias nefastas que foram me levando irremediavelmente para os braços do gringo.
Um gringo velho e avermelhado, de “assinatrados” olhos azuis, que fazia tempo andava “arrastando a asa para o meu lado”, como dizia meu pai sobre os homens que ele achava que andavam atrás de mamãe.
Isso de “assinatrados olhos azuis”, vocês sabem, é por causa de Frank Sinatra, outro de meus atores favoritos.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

24/08/2024

A Contadora de Filmes | [33]


Meses mais tarde, meu pai morreu.
Expirou uma tarde, em casa, sentado em sua poltrona de rodas, enquanto eu contava um filme mexicano. Acho que foi justo nos instantes em que me ouvia interpretar Ela, o mais belo tema de José Alfredo Jiménez.
Eu não tinha como saber que aquela canção fazia que ele recordasse a traição de minha mãe.

Me cansei de rogar,
Me cansei de dizer
Que sem ela eu
De pena morro.
E não quis me escutar,
E se seus lábios se abriram
Foi só para me dizer: “Já não te amo”.

E lá ficou ele, sentadinho direitinho em sua poltrona, com sua manta boliviana cobrindo suas pernas inúteis; ficou com os olhos abertos, agarrado em sua caneca de vinho tinto. Nós só percebemos sua morte no final da minha narração, quando não irrompeu em aplausos como era seu costume.
O praticante do povoado falou em enfarte.
Além da dor de ficarmos sozinhos no mundo, havia o problema da casa: meus irmãos e eu íamos ficar sem ter onde morar. Depois do acidente, a companhia tinha deixado meu pai continuar usando a casa por causa de sua impecável folha de vida laboral. Em todos aqueles anos de trabalho jamais faltou, nem mesmo por doença. Trabalhava de segunda a domingo, inclusive feriados, sem excluir Natal ou Ano Novo, e até em dois turnos seguidos quando era necessário (essa era uma das coisas de que minha mãe reclamava). Mas agora que ele não estava mais e não havia nenhuma pessoa maior que respondesse pela família, o normal é que tivéssemos que entregar a casa.
Por sorte, Mariano, que faltava só alguns meses para completar dezoito anos, conseguiu um trabalho de mensageiro. Por isso a companhia nos deixou continuar morando na casa.
Muita gente disse que tinha sido de pena do senhor administrador. Mas eu, com meus treze anos feitos – e com um corpo que aparentava pelo menos dezesseis –, percebia que não tinha sido de pena.
Percebi pela maneira com que o gringo não deixou de me olhar no dia do funeral de meu pai.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

17/08/2024

A Contadora de Filmes | [32]

O tempo passou lento e tranquilo, como deve passar, eu acho, em todos os desertos do mundo. Eu estava por fazer treze anos, usava minissaia (recém-inventada por Mary Quant) e continuava contando meus filmes.
Tinha cada vez mais público.
Havia crianças que recebiam dinheiro de seus pais para irem ao cinema, e preferiam vir para a minha casa, fazer uma doação mínima e gastar o resto em bobagens. E muitos adultos analfabetos, quando o filme era “com letras”, escolhiam ouvi-lo contado por mim em vez de ir ao cinema e não entender nada. E descobri também que tinha gente que vinha me ouvir não porque não pudesse pagar a entrada do cinema, mas porque o que gostavam de verdade era que alguém contasse os filmes.
Alguns diziam que eu era tão boa para caracterizar os personagens que, só com piscar os olhos, podia passar da expressão de candidez de Branca de Neve à ferocidade do leão da Metro Goldwyn Mayer. E que me ouvir era como ouvir aquelas radionovelas que eram transmitidas dia a dia lá da capital, pois, além de imitar vozes e fazer caras, eu sabia manter a plateia em suspense.
Naquele tempo descobri que todo mundo gosta que alguém conte histórias. Todos querem sair da realidade um momento e viver esses mundos de ficção dos filmes, das radionovelas, dos romances. Gostam até que alguém lhes conte mentiras, se essas mentiras forem bem contadas. Essa é a razão do êxito dos embusteiros de fala hábil.
Sem nem ter pensado nisso, para eles eu tinha me transformado numa fazedora de ilusões. Numa espécie de fada, como dizia a vizinha. Minhas narrações de filmes os tiravam daquele amargo nada que era o deserto, e mesmo que fosse por um instante os transportava a mundos maravilhosos, cheios de amores, sonhos e aventuras. Em vez de vê-los projetados numa tela, em minhas narrações cada um podia imaginar esses mundos ao seu bel prazer.
Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado – com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar –, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.
Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

Hernán Rivera Letelier, em A contadora de Filmes 

11/08/2024

A Contadora de Filmes | [31]


Duas semanas mais tarde, na manhã de uma quinta-feira, dia de pagamento, acharam o agiota morto em sua guarita de vigilância. Estava jogado no chão de tábuas baldeadas com petróleo, com todas as carteiras de identidade espalhadas sobre seu cadáver. Tinha sido morto a golpes com o cabo de uma pá.
Os quatro guardas que formavam a guarnição do destacamento – todos gordos e frouxos de inatividade –, finalmente tiveram com que se distrair. Além de envenenar cachorros e percorrer as ruas com displicência, com as mãos entrelaçadas nas costas, o único trabalho que faziam era levar presos, cada fim de semana, dois ou três bebadinhos para que varressem o destacamento e limpassem a bunda dos cavalos.
Os primeiros suspeitos foram os donos dos documentos empenhados. Os guardas interrogaram cada um deles, em especial os maridos de um par de mulheres que para recuperar os documentos – todo mundo no povoado sabia disso – entravam de noite na casa do agiota. Mas todos se livraram de qualquer acusação.
Como o morto não tinha familiares conhecidos, passado um breve tempo os habitantes do acampamento se esqueceram do assunto, e ninguém se importou que seu assassinato ficasse sem se esclarecer. Pelo contrário, eram muitos os que não conseguiam dissimular a cara de contente, pois com sua morte a dívida de todos ficou anulada. Falava-se que até os guardas andavam com um sorriso de orelha a orelha. Eles também viviam enforcados pelos empréstimos de dom Nolasco.
Além disso, por aqueles dias anunciou-se no cinema Os dez mandamentos.
Ninguém falava de outra coisa.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

05/08/2024

A Contadora de Filmes | [30]

De tarde, fui ao cinema como sempre. Depois, em casa, contei o filme rapidamente e sem nenhum entusiasmo. Disse que estava com dor de cabeça. Ainda bem que havia quase só crianças, e as reclamações foram poucas. Depois levei meu irmão mais velho para o pátio e, sentados num dormente, contei o que tinha acontecido.
Para minha própria surpresa, contei sem chorar. Estava embargada de uma rara serenidade que me mantinha flutuando no ar. Ele me ouviu o tempo todo em silêncio.
Não pronunciou uma única palavra.
Quase não pestanejou.
No final – presa de um vago sentimento de culpa – fiquei com a sensação de que não devia ter contado nada.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

29/07/2024

A Contadora de Filmes | [29]


O homem vivia numa casa escura e silenciosa, na última rua do povoado, pelo poente. Era domingo quando fui contar o filme.
E estava nublado.
As ruas, como sempre na hora da sesta, pareciam solitárias. E mais ainda naquele dia em que no campo de futebol, nas vizinhanças do povoado, estava sendo disputada a final do campeonato local. O futebol era a outra coisa que salvava as pessoas do árido tédio do deserto.
Quando cheguei na casa dele, com meu irmão Manuel (que meu pai obrigou a sair do campo para me ajudar), o agiota apareceu na porta, me olhou fixo e perguntou para quê era aquele caixote. Quando expliquei, disse, lacônico:
Nada de disfarces.”
Manuel, contentíssimo, se mandou imediatamente com o caixote para casa, e de lá, a todo vapor, para o campo. Eu, no começo, pensei que o cavalheiro queria imaginar os personagens do jeito que bem entendesse. Até achei que estava certo. Mas em seguida pressenti um traço de malícia na sua atitude. Mesmo assim, não dei importância ao meu palpite. Achei que devia ser influência de tantos filmes que vi.
O agiota morava sozinho. A cortina da janela estava fechada e a casa parecia penumbrosa. O que me chamou a atenção foi como a sala estava atopetada, tantos móveis antigos e baús empoeirados. Minha casa podia até não ter móveis, mas era muito mais luminosa que aquela.
As prateleiras estavam cobertas de coisas que as pessoas iam empenhar: rádios, máquinas fotográficas, aparelhos de louça, cortes de casimira inglesa. Imaginei dentro dos baús centenas de relógios e anéis de ouro. No canto do aparador, atado com elástico de prender dinheiro, via-se o maço de carteiras de identidade que as pessoas empenhavam. O povoado inteiro sabia que o agiota era tão receoso que levava as carteiras com ele para todos os lados, inclusive para a guarita onde trabalhava, para o caso de algum peão receber dinheiro do céu e querer resgatar o documento.
O homem estava pronto para receber dinheiro as vinte e quatro horas do dia.
Dom Nolasco sentou-se num sofá. E, de pé na frente dele, comecei a contar o filme.
Ele havia pedido uma fita do John Wayne, uma que tinham passado no cinema fazia pouco. Pela primeira vez, senti que minhas pernas tremiam.
Pela primeira vez não encontrava as palavras para começar minha narração. E me arrependi de ter deixado meu irmão ir embora.
Sentia medo.
O homem era o homem mau do povoado.
Quando eu estava começando a narração ele me interrompeu de maneira dura para me dizer que não ouvia bem de um ouvido, que me aproximasse mais. Depois me disse que seria melhor contar o filme sentada em seus joelhos.
Falou num tom cortante, que não me atrevi a desobedecer.
Sentada nos ossos de seus joelhos, comecei de novo. O homem me olhava de um jeito esquisito. Então percebi que o filme não interessava nem um pouco. Mas era tarde demais.
Naquele momento o agiota começou a me fazer o que me fez. O medo transformou meu corpo em gelatina e não atinei a nada. O homem fez comigo o que quis, principalmente da cintura para baixo.
Embora eu tivesse feito alguma coisa com alguns amigos de meus irmãos, nos tempos em que os acompanhava até as salitreiras velhas, aquilo não havia passado de brincadeira de criança. Agora sentia que tinham me rasgado por dentro.
E saí dali como se estivesse aluada.
Enquanto caminhava de volta para casa, como se pisasse sobre esponjas, fui deixando cair, uma a uma, o punhado de moedas que o homem pôs à força em minha mão antes de me deixar ir embora. Uma infinita sensação de vergonha embaraçava meu espírito. Eu me sentia impura até mesmo para receber o ar que respirava.
Ao dobrar a esquina de minha viela avistei meu pai na porta e tratei de dissimular da melhor maneira que consegui. Não queria vê-lo sofrer mais do que já sofria. Meu pobre velho cochilava com a cabeça abatida sobre o peito. Meus irmãos o haviam deixado ali, acompanhado pela sua garrafa de vinho. Fiquei olhando para ele, afundado em sua poltrona de rodas – imprestável da cintura para baixo. Então, de repente, e de uma forma obscura, entendi a razão de fundo pela qual minha mãe o havia abandonado.
Recordei, além do mais, que quando ela foi-se embora o céu estava nublado.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

19/07/2024

A Contadora de Filmes | [28]

Nosso povoado era um dos mais pobres da região. As pessoas não tinham nada para ver nem para fazer nas longas tardes do deserto. Não havia uma orquestra para ir dançar, não tínhamos banda de música que tocasse valsinhas nos fins de semana, no coreto da praça. Não tínhamos nem mesmo o dia do trem, que nos outros povoados onde havia estação era dia de festa.
A única coisa que nos restava era o cinema.
Acontece que o salário nem sempre dava para comprar a entrada. Todo mundo vivia de fiado, e para conseguir algum dinheiro antes dos dias de pagamento a maioria acudia para empenhar a carteira de identidade com o agiota.
O agiota se chamava dom Nolasco.
Era um homem comprido, todo cheio de ossos, furtivo feito cachorro do deserto. Com o tempo tinha chegado a se transformar no homem mais odiado da Mina. Não apenas por ser tão avarento, mas porque, além disso, trabalhava como vigilante no único galpão de solteiros do povoado. Lá, tinha de cuidar para que nenhum homem entrasse com bebida ou mulheres em seus quartinhos. E nessas coisas, dom Nolasco era tão rigoroso como na hora de cobrar seus empréstimos.
Nada passava debaixo de seus olhos de coruja.
Nas quintas-feiras, dia de pagamento na Mina, era comum ver as esposas dos peões rogando que, por favor, dom Nolasco, pago metade agora e o resto deixamos para a semana que vem, o que o senhor diz? É que preciso comprar leite para o bebê.
Mas não tinha jeito, o homem era duro e insensível como uma crosta de salitre.
Algumas vezes acompanhei mamãe para empenhar a carteira de identidade do meu pai e vi a cara inexpressiva do homem.
De verdade, parecia osso puro.
Ninguém jamais o havia visto sorrir.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

11/07/2024

A Contadora de Filmes | [26]



A primeira pessoa que me contratou foi dona Mercedes Morales, a costureira que vivia em frente da praça, uma das melhores mulheres que conheci na vida. Dona Mercedes mandou me buscar para que eu contasse La Violetera, filme interpretado por Sarita Montiel e Raf Vallone, que tinha passado no cinema uma semana antes. Ela não assistiu porque havia ido até o porto comprar tecidos e botões.
Eu me lembrava perfeitamente do filme. E a canção que dava o título eu sabia de cor, porque sempre tocava no rádio.
Além disso, na tarde em que cantei essa canção em casa havia recebido um dos aplausos mais longos da minha nascente carreira.
Assim que naquele dia, depois do almoço, parti para a casa da costureira. Meu irmão Mirto, forçado por meu pai, me ajudou a levar o caixote de chá com toda a minha cenografia espanhola. A mulher ficou encantada e foi muito generosa. Além de me dar uma blusa de tafetá de presente, de cor púrpura e com rendinhas, me pagou mais do que juntávamos em dois dias de doações em casa.
Dali em diante começaram a chegar montões de convites de outras casas.
Quase sempre era para contar filmes a anciãs ou anciões doentes, que não podiam ir até o cinema. O problema é que alguns me pediam filmes muito antigos, ou que eu não tinha visto. Com os antigos não tinha problema, partindo do pouco que eu me lembrava e com o muito que eu punha da minha própria lavra, dava muito bem para seguir em frente. Só uma vez me atrevi a contar um filme que eu não tinha visto. Foi quando dona Filiberta, a dona da única loja de balas e caramelos do povoado, mandou me chamar.
A anciã, meio louca segundo todo mundo dizia, estava a ponto de morrer e queria que eu contasse para ela um velho film – disse assim mesmo: film – de Libertad Lamarque. O filme se chamava Besos brujos, e dona Filiberta, revirando os olhos em branco, disse que lhe trazia recordações de um amor inesquecível. E me contou que a cena que mais recordava era quando Lamarque, banhando-se num belo lago de águas azuis (embora os filmes daquele tempo fossem em branco e preto, ela disse águas azuis), cantava uma canção linda que se chamava Feito o passarinho.
Você viu esse filme, menina? – me perguntou ela.
Eu menti, disse que sim, mas que não me lembrava muito bem. Que quando vi ainda era muito pequena. Mas que se ela me refrescasse um pouco a memória… A anciã, além de me fazer uma longa sinopse, com variados detalhes de trajes e paisagens, cantou inteirinha a canção do passarinho. Com isso tudo armei rapidamente uma história e fiquei contando o filme até que ela adormeceu.
Dona Filiberta, que já tinha noventa e dois anos de idade, e que havia enviuvado três vezes, morreu dois dias depois de eu ter estado em sua casa. Seus parentes, após o funeral, contavam a história de que a vovó Fili, como a chamavam, tinha dito que o filme que a menininha contou “nem chegava perto” do que ela havia visto, mas que ainda assim tinha gostado muito. Até mesmo mais que do outro.
O outro durava apenas uma hora e quinze”, ela havia dito sorrindo. “E essa menininha me contou um de quase duas horas”.
Os parentes diziam que ela tinha morrido feliz.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

07/07/2024

A Contadora de filmes | [25]

Enquanto isso, minha fama crescia cada vez mais. Tanto assim, que de repente começaram a me chamar para contar filmes a domicílio. Principalmente os funcionários e os comerciantes, que eram os mais abastados da Mina.
Então, como o dinheiro que juntávamos em minhas apresentações estava sendo suficiente para que nos déssemos pequenos luxos, como comprar bebidas para o almoço e me mandar ao cinema praticamente todo dia – apesar de quase todo meu lucro ir para as garrafas de vinho de meu pai, que aumentaram visivelmente em quantidade e qualidade –, não sei de quem foi a ideia de mandar imprimir cartões de visita. Com filetes dourados e uma letra cheia de firulas:

FADA DOCINE
Contadora de filmes

Foi aí que começou a minha desgraça.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de filmes

01/07/2024

A Contadora de Filmes | [24]

Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos sonhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.
Contar um filme é como contar um sonho.
Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

28/06/2024

A Contadora de Filmes | [23]

Depois dessas sessões os aplausos ficavam ressoando em mim a noite toda, a ponto de eu não conseguir conciliar o sono. Em meus desvelos pensava em minha mãe, e chorava em silêncio debaixo das cobertas. Quando ela nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E como a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.
Tanto assim eu amava minha mãe.
Tanto assim eu sentia falta dela.
Como ela se sentiria orgulhosa agora, eu dizia a mim mesma, se visse como as pessoas me ouvem e me aplaudem!
Será que a aplaudem tanto como a mim, depois de suas danças? Será que ela mudou seu nome por outro, mais artístico? Será que continua usando aqueles lenços de seda, tão bonitos? Sufocando-me debaixo das cobertas, eu a imaginava dançando seminua, num palco enfeitado com luzes coloridas que acendiam e apagavam. É que num daqueles dias eu tinha ficado sabendo, por algumas mulheres na fila do pão, que minha mãe havia ido embora para ser dançarina num teatro de revista.
Diziam que “a cabeça oca da Magnólia” tinha sido embromada pelo diretor de uma companhia picaresca que passou pela Mina, e levou-a para a capital com a promessa de transformá-la em vedete. O que não entendi direito foi o que uma delas disse, piscando para as outras: que vários viúvos tinham ficado chorando a sua fuga, e que o mais triste de todos era o senhor administrador.
Minha mãe tinha vinte e seis anos quando foi embora. E apesar de ter tido cinco filhos em cinco anos seguidos (o primeiro ela teve aos catorze) conservava um porte invejável. Disso eu me lembro perfeitamente porque várias vezes, quando estávamos as duas sozinhas em casa, eu a vi dançar com roupa íntima na frente do espelho.
No entanto, seu rosto ia se desvanecendo em mim, ia se apagando como o de uma atriz que tinha parado de fazer filmes há muito tempo. Outra coisa que me acontecia era que, de tanto ver e contar filmes, muitas vezes eu os embaralhava com a realidade. E me custava lembrar se determinada coisa eu tinha vivido ou visto projetada na tela. Ou se havia sonhado. Porque acontecia que até meus próprios sonhos eu confundia depois com cenas de filmes.
A mesma coisa acontecia com as lembranças mais lindas da minha mãe. As imagens dos poucos momentos felizes vividos com ela iam se desvanecendo na minha memória, inapelavelmente, como cenas de um filme velho.
Um filme em branco e preto.
E mudo.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes