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25/12/2024

Canto de Muro | Depoimento



Now that this book is printed, and about
to be given to the world, a sense of its
short comings, both in style and contents,
weighs very heavily.
H. Rider Haggard: King Solomons’s Mines

Para muito leitor parecerá estranha esta atividade inesperada num velho professor provinciano, convertido à sedução da História Natural e aos encantos divulgativos de leituras recentes. Canto de Muro, entretanto, é um livro de poucos meses, vivido em muito mais de quarenta anos.
Muito antes de 1918, segundanista de Medicina, no Rio de Janeiro, andava eu colecionando insetos, criando escorpiões (chamados no Nordeste “lacraus”), aranhas caranguejeiras e formigas saúvas, na grande chácara que meu pai possuía no bairro do Tirol, na cidade do Natal. Ali moraram Sofia, na mangueira escura e copada, o sapo Fu, pássaros agora fixados, o senhor Ka, no estábulo, e, nas gaiolas, a coruja Maroca e o Xexéu imitador. Ali ocorreu a nuvem de borboletas, creio que nos finais de 1919, tido como presságio de grande seca. O bacurau-mede-léguas vivia próximo, e no quintal ondulavam a jararaca e a cobrinha-de-coral. No quarto da lenha penduravam-se os morcegos. No tabuleiro derredor, o povo da rainha Ata. No canto de muro, perto do tanque, morada de Dica, estavam as telhas com as baratas, e no alpendre velho, onde apodrecia o carro, dormiam os filhos de Musi. Gô corria por este mundo, e o seu caso fatal, deixando o rabo numa ratoeira e a cabeça noutra, sucedeu numa mercearia do meu primo, Bonifácio Dario, onde está o Edifício Natal, na Praça Augusto Severo. Os dois urubus, um morto e outro atropelado pelo automóvel, foram vítimas do veículo em que viajavam meu pai e o Coronel Manuel Maurício Freire, na reta da Tabajara, caminho para a cidade da Santa Cruz.
Minha curiosidade fez muitas vítimas para a lupa e o microscópio, com corantes e fixadores inauditos. Os cadernos se foram enchendo de notas mas nunca delas me aproveitei. Quase todos os episódios ocorreram na saudosa Vila Cascudo, paraíso perdido em 1932. A pesquisa sobre morcegos, frutívoros ou hematófogos, é da praça Sete de Setembro, assim como o estudo no estômago do senhor Ka. O caso da raposa e o avião passou-se entre a Fazenda Taborda e a Vila de Parnamirim, em 1943. O namoro dos pombos foi observado duma janela do apartamento do meu filho, no Recife, julho de 1957. À batalha da jararaca com a acauã assistiu meu pai nos arredores do Acari. O grilo, as lavadeiras, o bem-te-vi, o caminho novo das saúvas são fatos de minha atual residência, na Avenida Junqueira Aires. Os xexéus e as tapiucabas foram vistos no Engenho Mangabeira, do Coronel Filipe Ferreira, em Arez. O duelo e o bailado de Titius foram presenciados no Tirol, assim como a briga das caranguejeiras.
Verificações posteriores foram feitas com aparelhagem emprestada pelo Dr. Onofre Lopes, então diretor da Faculdade de Medicina, e colaboração do Dr. Grácio Barbalho, professor de Bioquímica.
Nunca deixei de interessar-me pelo assunto, lendo o possível e tomando notas desinteressadas. Os caderninhos do Tirol estavam esquecidos e eu mesmo perdi o que tratava das lesmas, minhocas, e de um grande gafanhoto de jurema. Ainda possuo as observações pessoais sobre a pesca do voador e a caça das ribaçãs, parcialmente aproveitadas no trabalho que presentemente me ocupa, da etnografia geral, pesquisas e notas do curso na Faculdade de Filosofia do Natal.
Em fins de dezembro de 1956, meu filho adoeceu gravemente no Recife. Dáhlia e Anna Maria, mulher e filha, foram para junto dele. Fiquei sozinho e desesperado de angústia. Inexplicavelmente, pensei nos meus bichos de outrora e no convívio inesquecido da longínqua chácara do Tirol. Escrevi o primeiro capítulo. José Pires de Oliveira, então gerente do Banco do Estado de São Paulo, tomou-se de amores, contagiando-me o entusiasmo e prestando-se a repetir experiências. Na ansiedade em que vivia, o esforço foi uma derivação sublimadora e o livro nasceu com violência. Revi o material, atualizando documentação e verificações. Num clima de inquietação e susto Canto de Muro se ergueu, página a página.
Fernando Luís veio convalescer no Natal. O livro estava pronto e nele não passa uma figura humana, um problema, a sombra do Homo sapiens. Não pensava publicá-lo, e se o fizesse seria sob pseudônimo. Os meus amigos José Olympio e Daniel Pereira aceitaram, generosamente, todas as condições, livro com nome suposto, sigilo, animando-me. Mas minha mulher, filhos, o Bambi (José Pires de Oliveira) e, por fim, Daniel Pereira, teimavam gentilmente em que eu assinasse o livro. Acabaram vencendo.
Nenhum outro possui, como este, a tonalidade emocional. Por isso, relativamente aos já publicados, no es que fuera mejor ni peor – es otra cosa!
377, Av. Junqueira Aires, Natal

Luís da Câmara Cascudo, em Canto de Muro

12/06/2024

Namoro de pombos


Com o olhar aumentado pelo meu Bausch & Lomb, acompanho, desde a janela de 18º andar, um interminável namoro de pombos.
A fêmea é branca, graciosa, leve, em inquietação permanente e movimento contínuo. O macho é manchado de cinza sobre um fundo claro, retrizes escuras e as rêmiges cendradas com matiz mais intenso e decorativo.
Depois do almoço fico assistindo àquele processo inacabável de assistência amorosa. Todos os dias, horas e horas, vejo as várias técnicas sedutoras que não me parecem alcançar solução prática ou visível, digna de menção. Canso-me e vou tratar de outras coisas. Acidentalmente, voltando ao apartamento e olhando a janela, revejo o casal na perseguição obstinada e afetuosa que desanimaria qualquer enamorado da espécie humana.
Creio que esta conquista paciente e de repetição sem fim é mais uma excitação que forma de fixação da fêmea no campo da simpatia. Não há competidor nas cercanias, nem a requestada distância do contato seu corpinho airoso e fugitivo, intermitentemente arredio aos afagos do amorudo pombo. Deduzo que todo esse cortejo de evitações e oferecimentos, em que se afaste demasiado do raio da insistência do companheiro, manterá em estado de ebulição crescente seu desejo sexual que necessitará deste longo estado de provocação e incitamento para que os hormônios preparem a fase decisiva do ato fecundante. E para a companheira esses preparativos darão receptibilidade de alto rendimento.
É preciso tenacidade para este namoro infindável.
A fêmea fica no bordo do muro, paradinha, fazendo que nada vê. O pombo voa do caixote-pombal e pousa junto à sua amada. Fica quieto um momento. A fêmea inicia um passeio de passos miudinhos e é seguida de perto. Um minuto depois a fêmea voa para o caixote-pombal ou rebordo da janela próxima. O macho pensa uns instantes se deve ou não insistir, mas sempre a continuidade é a regra. Voa também para junto da amada, que repete a manobra anterior, terminada em voo e acompanhamento fatal do apaixonado. E assim horas e horas... Aquele plano de perseguição circular, no mesmo âmbito e com atitudes repetidas, daria título lógico de convite à fuga num compasso ad libitum.
A fêmea tem ocasião de “dar o fora” mais de mil vezes no seu enamorado, e este, de insistir na fidelidade seguidora, tudo no espaço de algumas horas. Durante o dia seguinte a cena se repete, monotoníssima para nós e encantadora para os participantes.
O casal é de vida doméstica e recatada. Não voa buscando alimentos fora do recinto familiar. Em cima do caixote-pombal enxergo a mancha dos alimentos acumulados, esperando a fome da parelha. Não há grandes voos e descidas rumorosas, catando invisíveis e presentes cibos na areia ou calçadas urbanas. Enquadrado pelos arranha-céus o casal comparta-se num ritmo de adaptação resignada ao ambiente do seu destino ecológico. Ao crepúsculo, quando a tarde esfria, vejo-os ensaiar um voo mais ousado e amplo, roçando os telhados vizinhos e findando no muro, aeródromo das suas façanhas aladas.
Não sei por que se afirma o dogma do amor ardente dos pombos e sua impaciência sexual. Como todos seus arrulhos e voejos aperitivais demonstram positivamente a necessidade de uma excitação prolongada e prévia, tanto mais extensa quanto significativa da lentidão com que o sexo desperta. Nem a proximidade da companheira consegue diminuir o inevitável ciclo das andanças e voos, horas e horas, indispensável à junção conubial. A companheira precisará fugir e fugir, sem distanciar-se para uma área desanimadora e decepcionante, como elemento não apenas de captação fixadora como de preparação fisiológica do tipo masculino. O pombo, como certos playboys que precisam de uma longa antecipação preparatória de canto, dança, olhar e contato, música, álcool e movimento da gaiola dourada de um Night Club, tem como fatalmente obrigatória a fase do cortejo sedutor, da provocação contínua, da perseguição próxima, horas e horas, avivando as brasas da ardência fecundadora.
Parece que as afirmativas clássicas dos amores fulminantes, independentes de preâmbulos de conquista, merecem revisão tranquila. Os modelos deste ímpeto sexual, imediato e bruto, nunca dispensaram a corte teimosa ao elemento feminino. Bodes, macacos, cães seguem cativamente as namoradas com notórias mostras de predileção e esperança de aceitação. Só o homem conhece o pecado da violação bárbara, da posse cruel e sem o consentimento da fêmea subjugada. Mesmo os gigantescos gorilas são tão amorosos que esperam o gesto de consentimento da possante companheira inda que seja de companhia habitual e certa.
Lúbrico como o macaco” diz o ditado feito parcialmente. São dignas de vista as gatimonhas, trejeitos e reviravoltas do macaco ao derredor da predileta cobiçada. Só se vendo... O cortejo obstinado de cães atrás da cadela, as batalhas pela posse, a defesa do “objeto amado”, o estágio até que “ela” faça “o gesto que consente”, rua acima e rua abaixo, sob pedradas dos moleques de todas as cores, chuva, sol, desdéns e dentadas, é merecedor de registro encomiástico. A série apaixonada dos bufos do bode percorre escala dodecaédrica, variando de acentos e timbres, na persistência do apelo sexual. Não apenas os bufos terão intencionalidade melódica, mas os saltos mimosos e repetidos, as atitudes erguidas com as patas dianteiras juntas, em súplica ou ostentação estética, merecem destaque e relevo como significações requerentes de feliz amor. Tantas amostras de protocolo amoroso têm sido negadas e o bufador bailarino reduzido a ser expressão típica de estuprador bestial.

Luís da Câmara Cascudo, em Canto de muro

30/05/2024

A raposa e o avião



Um homem da cidade, perambulando no campo é suspeito. Se levar uma espingarda, explica-se perfeitamente a sua presença. Há sempre compreensão para um argumento belicoso. Troca-se um olhar de cumplicidade e a arma sugere reminiscências de velhas caçadas infrutíferas, que são lembradas como sucessos felizes.
Inútil espingarda! Encosto-a à primeira árvore de sombra e estiro-me na areia fofa e fulva, esperando a intimidade casual dos insetos e das aves. O tufo das manjeriobas bronzeadas esconde-me como um biombo. As formigas negras desfilam em cadência impecável, um a fundo. Duas aranhas tecem armadilhas baixas e sedutoras. Uma cobra verde suja deslizou e desapareceu. Invisível cigarra espalha sua cantilena atritante e teimosa. Vou adormecendo, embriagado de silêncio, quietação, serenidade.
Bruscamente, surgida do capão de pau-de-ferro que os cipós entrelaçam harmoniosamente, sai uma raposa ouro-cinza, viva, inquieta, ágil, farejadora. Num momento se detém perto de mim. O vento sopra-lhe no focinho escuro e fino, ocultando-lhe meu rastro pela inevitável emanação do cheiro de homem, índice de perigo mortal. Posso vê-la em liberdade, senhora de seus movimentos instintivos, na plenitude da força graciosa, da astúcia milenar, da feiticeira desenvoltura juvenil. O pelo igual e liso, acamado sem a ondulação de um arrepio, indica ausência de qualquer suspeita. A cauda na espessura normal roça o solo, sinal de tranquilidade. Camarada raposa não malda a proximidade de um espectador com uma linda carabina de repetição ao alcance do gesto.
Suas orelhas recortam-se, hirtas, sensíveis à captação da mais longínqua denúncia inimiga. Fica imóvel como uma pedra. O focinho desloca-se, vagaroso, num amplo raio verificante, perscrutador, irradiando suspicalidade. As orelhas funcionam como detentores dos ruídos distantes. Ninguém! Se o vento mudar de quadrante serei localizado, pelo meu aroma inconfundível, às suas narinas delicadas. Dará um arranco sacudido, princípio de carreira olímpica, quase sem barulho audível, e desaparecerá como uma sombra, diluída na orla mosqueada da mataria rala. Avança, leve e fácil, fincando as patas na areia tépida, numa indizível elegância vulpina. No céu escampo de nuvens, de incomparável azul, perpassa um surdo, persistente e rouco zumbido que faz vibrar a paisagem silenciosa na tarde lenta de verão. O rítmico ronronar enche de sonoridade estranha o descampado solitário. Durante segundos, a raposa procurou fixar o som nas vizinhanças, virando o focinho para todas as direções, orelhas erguidas e paralelas, a cauda alteada, os olhos faiscantes de curiosidade e medo inicial. Estacou: patas dianteiras retesadas e firmes, vibrantes como alavancas de aceleração, e as traseiras curvas, trêmulas, ansiosas para o salto salvador na solução da escapula.
Na linha do horizonte passava o pássaro de prata, de asas estendidas, haloado pela luz do sol que o incendiava de branco, deixando a trauta inusitada daquele ruído atordoador. Era um avião de carreira, rumando para o aeroporto.
Vejo a raposa imóvel, focinho apontado para cima, olhando o avião sonoro. A bocarra úmida entreabre-se num espanto inconcebível, mandíbula decaída, mostrando a ponta escalarte da língua, a cauda baixa e grossa, os quadris curvados, as orelhas atentas, duras como se armados em latão, seguindo a ave reboante; dois olhos escancarados, luzentes, crescidos de assombro, fitam o mistério presente, ruidoso e alto, acompanhado pelas patrulhas do rumor. Sinto que a curiosidade chumbou-a ao solo quando o corpo palpitante anseia pela libertação veloz. Filha do mato, primitiva, arrebatada, fiel a todos os seus velhos instintos de fome e de sexo, ladra, fugitiva, predadora, covarde, rebelde aos amavios humilhantes da domesticação, incapaz de figurar num circo, aprender um bailado, obedecer a um gesto, livre, faminta e rústica, a raposa olha o avião sereno, semeador de ecos.
Durante dois minutos o animal está estático, inteiramente possuído por aquele centro de interesse de inaudita novidade. A cabeça afunilada acompanha automaticamente a trajetória do avião cintilante. As patas dianteiras mergulham na areia, duras, esticadas como de madeira rija; as traseiras têm um leve e visível frêmito de impaciência e pavor. Como o mirmecólio tinha a frente de leão e o final de formiga, a raposa ostenta a coragem da atenção obstinada por diante e o medo incontido por detrás. Está tremendo mas parada, quieta, subjugada pela visão inesperada da grande ave prateada e canora.
Se a raposa “pensa” por uma sucessão de imagens, não haverá nenhuma anterior para determinar-lhe o processo da comparação assimiladora. É uma imagem nova, virgem e de impossível cotejo no fichário mental das reminiscências raposinas. Qual será a reação íntima e maravilhosa dessa contemplação? Quais as soluções mais ou menos duradouras, subsequentes ao conhecimento visual da aeronave? Com que a raposa comparará o avião atravessando nuvens com seus motores sonorizantes? Tê-lo-á como uma ave gigantesca, jamais anteriormente vista, feita, como todas as aves deste mundo, de carne, penas e sangue, susceptível de mastigação e deglutição saboreadas? O focinho, seguindo obedientemente o voo, não seria uma muda perseguição ideal, prevendo e observando o local do pouso da imensa caça voadora?
Creio que a raposa, a dar-se crédito ao seu “romance” onde é personagem clássica, terá muito pouco de sentimentalismo e de visão abstrata das coisas inidôneas para um bom almoço. Admite-se que o sapo cante às estrelas e o veado duele por amor, valentemente, como um canário, uma lagartixa ou um escorpião. Ninguém, sob a cúpula do céu, evoca uma raposa lírica e sim perpetuamente ligada ao programa rendoso de utilitarismo imediato e prático, cientemente cumprido como num master plan da United States Information Agency.
Águias já têm morrido enfrentando aviões, atraídas pelo seu estridor e, quem sabe, batendo-se pelo monopólio do domínio aéreo. A raposa, a deduzir-se pelo que dela sabemos, lemos e vemos, terá no avião uma possibilidade mental de refeição inacabável e de sabor nunca degustado.
Talvez deduza que o ronco do motores é um resfolegar de agonia, de próximo declínio fatal. E quando o aparelho desapareceu pensaria na felicidade das outras raposas porventura vigilantes nas proximidades do pouso. A imensa presa iria para outras gargantas, outros estômagos mais afortunados.
Aqui onde estou dista dois quilômetros das casas que rodeiam a vila vizinha. A raposa será familiar frequentadora dos galinheiros providos para a festa do Natal. Já viu automóvel, certamente. Ouviu os clamores dos rádios domésticos e deve ter encontrado semelhança entre a sua e a voz de certas glórias cantantes nos microfones submissos.
Está a poucos metros de mim, olhando o avião que se tornou pequenino. O focinho continua no mesmo nível anterior, patas dianteiras firmes, as traseiras trêmulas, recurvadas, os olhos ansiosos, tontos, abismados na sedução irresistível que se desfaz na altura da tarde.
Guardará o segredo deste conhecimento de imagem nova ou comunicá-la-á às companheiras no fortuito convívio dos comandos predatórios da madrugada?
Minha impressão é bem diversa, meus senhores. Parece-me que a raposa hipnotizada está fazendo um esforço milagroso para compreender. Toda ela é tensão, nervos polarizados na direção única de encontrar um processo dedutivo de assimilação, uma assimilação que leve a imagem para o fichário das imagens anteriores, vulpinas e úteis. Que íntimas reações permanecerão na memória deste Canis vulpis depois de haver contemplado a retumbante ave platinada? No meio de toda numerosa fauna, onde conta vítimas e perseguidores implacáveis, como deverá incluir a existência do possante pássaro roncador voando sem bater asas brilhantes?
Agora o avião não é mais avistado. O rumor morreu no ar. A raposa volta à última forma. O focinho vira para o chão, areia, gravetos, rastros de animais, folhas secas, banais. Apruma-se e trota, airosa, para frente, sem mais olhar o céu pálido do entardecer onde passara a grande ave de prata.
Com as pernas formigando de cãibras ergo-me, apanho a espingarda incólume e caminho, trôpego. Na vereda, fundos, estão os quatro orifícios do rastro da raposa, denúncia de sua atenção inquieta, de sua curiosidade sôfrega, de sua expectativa despremiada.
Pode ser que, na meia-noite, ao esgueirar-se para o assalto às galinhas dorminhocas, passe, rápida e sonora, a visão fulgurante daquele pássaro estranho e branco, tão grande, bem maior que dois carros de bois, rugindo dez vezes mais, fazendo-a deter-se e olhar para o alto, para onde raramente as raposas olham.

Luís da Câmara Cascudo, in Canto de Muro

17/05/2024

Ka ou a inutilidade virtuosa


A entrada do senhor Ka no canto de muro foi realmente triunfal. Apenas superior contar-se-á de Dondon, carijó heroica que iniciou as façanhas devorando uma centopeia de dezesseis centímetros, dando uma carreira olímpica em Gô e obrigando Titius e Licosa a uma quarentena rigorosa nos aposentos particulares, assombrados com a belicosidade do galináceo invicto. A cobrinha-de-coral também teve o seu minuto de celebridade mas noutra acepção.
O senhor Ka impôs-se pela originalidade de sua presença e naturalidade dos gestos que decidiram sua aceitação na comunidade.
Passou num voo baixo e zumbidor, chamando atenção e despertando curiosidades. Os élitros estendidos, imóveis, protegiam a vibração das asas membranosas, propulsoras, varando o espaço. Parecia um helicóptero. Passou raseiro, numa reta que não teria fim deduzível. Enfiou-se por uma teia de aranha no tinhorão e atravessou-a, deixando o rasgão poligonal que sobremaneira indignou a proprietária e construtora. Perdendo o equilíbrio, precipitou-se numa descida de cabeça, capotando espetacularmente nos arredores do sapotizeiro. Ficou de pernas para o ar, agitando-se como se fizesse ginástica muscular, procurando alcançar o chão com uma das patas posteriores. Conseguindo-o, empurrou o corpanzil teimosamente, ajudando-se com uma pata dianteira e voltou-se, retomando a posição comum a todos os coleópteros deste mundo e unanimidade zoológica, exceto um peixe Synodontis, do Nilo, que se dá ao excentrismo de nadar com a barriga para cima.
Meio enleado nos restos da teia que destroçara, o senhor Ka continuou a marcha pedestre, firme e decidida na pista da brecha do muro e por ela se meteu, resoluto, desaparecendo.
No campo vizinho, logo à esquerda da fenda no muro, segue-se uma linha de montes de esterco. Foram deixados pelas vacas, bezerros e cavalos que vêm aproveitar o capim novo no terreno abandonado. Não podem ser motivos de atenção pública e sim acidental interesse individual porque, três ou quatro vezes por ano, são removidos para a vendagem como adubos de jardins. Cada monte de estrume é um mundo com seus habitantes, meios de vida, uma fauna e uma flora próprias, desenvolvendo-se na dependência do lixo orgânico. Ali reside, há muito tempo, o senhor Ka. Escolheu inteligentemente o montão mais antigo, mais amarelecido embora merecendo renovação aprovisionadora. As porções mais próximas da estrada é que são exploradas comumente porque dão menos trabalho ao carreto. O velho montão do muro é um sinal na deriva, uma montureira que daria rendimento bem inferior às coletas do resto do campo. Por isso é mais rico nas vidas residenciais e sua tranquilidade garante a multiplicação pacata de uma população que nunca foi recenseada.
O senhor Ka é um escaravelho de quatro centímetros, negro-ébano com reflexos metálicos, lampejos do bronze rico e do cobre ornamental, seis patas sólidas, recurvadas como de campeão de luta romana, as dianteiras dentadas e temíveis. Os élitros cobrem-no inteiramente como uma couraça, ocultando a transparência resistente das asas de pergaminho, finas e vibrantes. Na testa maciça, baixa, obstinada, chapeada de ferro, ergue-se um acúleo, rostro de agressão e utilidade, ponta córnea que lembra os espigões decorativos dos antigos capacetes da imperial Alemanha. Anda devagar, pesado, pisando com segurança, como encouraçado vencendo onda solta. Dá uma impressão imediata de força, solidez, resistência, tenacidade.
Nenhuma força existente no mundo relativa ao peso pode comparar-se com a do senhor Ka. Se ele fosse do tamanho de um gato carregaria um elefante. Mal consigo imobilizá-lo nas polpas do indicador e polegar. Quando tenta abrir caminho com as serrilhadas dianteiras sente-se o poder impressionante do pequeno escarabeu poderoso.
Nunca lhe dei importância pela facilidade com que o via na chácara onde me criei, habitual e familiar ao redor do estábulo. Quotidana vilescunt... As coisas vistas diariamente perdem insensivelmente o valor. A surpresa foi depará-lo nas coleções egípcias dos museus europeus como símbolo sagrado, o khopirron do deus Phtah. O espanto de ver o humilde copeiro sendo ministro de Estado ou o chauffer comandando uma brigada. Pude vê-lo em argila, vidro, esmalte, marfim, ouro, cornalina, sardônica, ônix, joia de respeito divino no Egito, Fenícia, Chipre, Sicília, Sardenha, nas necrópoles púnicas, nos túmulos dos reis, protetor e indiscutível, representando um deus. Não havia dúvida. Era o escaravelho tão meu conhecido. Com esta preparação psicológica tratei de olhar o senhor Ka noutras perspectivas venerandas.
Era dedicado ao deus Phtah, associado aos mais antigos deuses de Mênfis, Tanen, deus da terra, Sokari, deus da vegetação. Estava ligado aos mistérios da fecundação, sabendo os segredos impenetráveis da germinação das plantas, explicações a vida humana. Vivia no seio da terra, nas trevas, num trabalho obscuro e silencioso. Não podia ser morto. Secando, guardavam-no nos hipogeus como uma relíquia. E eu, que nenhuma atenção dava ao senhor Ka!... Ignorância, sacrilégio, atrevimento!
Um pouco a culpa cabia ao senhor Ka pelos nomes que usava: rola-bosta, fofa-bosta não são títulos que imprimam respeito às crianças. Sua utilidade era arrastar carrinhos de papel ou de caixa de fósforos ou, amarrando-se ao corno um fósforo aceso, vê-lo deslocar-se naquela lamapadaforia trágica. Quando o vi imóvel nas mostras de cristal, apresentado com discursos preliminares de professores famosos, alemães barbudos e graves, norte-americanos escanhoados e sorridentes, tomei-me de pavor sagrado. Quando voltei a encontrá-lo, ocupadíssimo nos estercos do quintal, tratei de acompanhar-lhe vida e atos como quem registra as originalidades excêntricas de um sábio amalucado ou dum rei meio demente.
O senhor Ka vive nos estercos e dos estercos. É natural que use um dispensável perfume de matérias fecais. O cheiro nos animais mereceria investigação que teria o mérito de divertir e ocupar quem se encarregasse desta maravilha. Há odores pouco explicáveis como a saúva trazer uns leves de laranja e os micos um tanto de canela, que eles nunca viram. Adianto que as raças humanas possuem perfumes próprios, que os africanos e asiáticos, quando começaram a receber a civilização branca com metralhadoras e mortes, diziam sentir. Os grandes felinos conservam no faro estas distinções. Como as onças no Brasil e os leões na África preferem a carne dos negros à dos brancos, seguem com mais paciência os rastros daqueles do que destes. Os indígenas brasileiros de fala tupi afirmavam que o branco cheirava a peixe, opitu; o negro fede, ocatinga, e eles, osakena, cheiram bem. Na velha China Imperial identificava-se a moeda de ouro intacta cheirando-a. Todas as coisas têm aromas intransferíveis. Há quem possa precisá-los, individualizando centenas deles. Um perfume é uma entidade perfeita. Não há sinônimo. But that is another story…
No seu monturo a que os excrementos dão consistência e volume, o senhor Ka é, como dizem os bem-falantes, um inseto estercorário. Faz belas bolas de excretos, abre um túnel e leva a preciosidade para saboreá-la sozinho, longe de invejosos e concorrentes.
Vê-lo construir sua bola excrementícia é uma admiração. A cabeça sólida e as patinhas dentadas servem de garfos juntadores e quando a primeira porção atinge volume apreciável, o senhor Ka arredonda-a com as patas, empurrões de cabeça ajeitadora, arrumando-a com a pressão eficaz dos membros na massa ainda fofa que também sofre a revisão das patas anteriores, legítimo compasso esférico. As patas traseiras funcionam como réguas, pondo as saliências na justa medida e o volume se adensa, lento e seguro, na forma desejada. Nunca o senhor Ka está satisfeito da obra e a aperfeiçoa e completa com requintes de acabamento cuidadoso. Não roda a obra para obter a esfera. Trabalha empoleirado no alto, sem descer e sem ir verificando se a massa toma a forma arredondada. J. H. Fabre, que o estudou longamente, crê que o escaravelho possua o dom da esfera como a abelha o dom do prisma hexagonal. Chegam à mesma perfeição e exatitude geométrica independentes de aparelhagem conformadora.
Pronta, rola-a destramente, trepado e firme nos dois pares de patas, a cabeça para baixo e as patas anteriores servindo de motores para a impulsão. A bola se desloca incessantemente mas o senhor Ka é motor traseiro, impelindo-a pela parte de trás. Assim não vê o caminho seguido pela sua bola, dez vezes maior que o próprio artífice, movimentando-a tão somente com as duas patinhas primeiras, as duas mãos hábeis, cabeça no nível do chão, segurando o bolo com as quatro patas firmes, fincadas na massa.
Dispenso-me de meditar duas horas sobre esta habilidade do senhor Ka e as excelências do seu instinto. O alimento será absorvido numa câmara subterrânea e não ao ar livre. Tem de ser transportado para o local da consumação. Este nunca é próximo da fonte de produção. A forma esferoidal impunha-se como simplificadora para a viagem, podendo suster-se, com base de apoio em qualquer ponto, nas paradas necessárias ao correr do percurso. Criado sem escola, sem o modelo da obra que terá de fazer a vida inteira, nasce sabendo, já doutor formado. Nunca vi uma bola excrementícia do senhor Ka desfazer-se, desmanchar-se durante a jornada e nem mesmo ceder à pressão do terreno, fazendo reentrância, dificultando a deslocação. Fica intacta seja qual for o percurso e só se deforma quando saboreada pelo seu construtor.
Repetindo experiência de J.-H. Fabre, fiz o bolo, empurrado pelo senhor Ka, mergulhar parcialmente numa pequenina escavação. Queria verificar se era verdade que os escaravelhos pediam auxílio aos companheiros e vinha uma turma ajudá-lo a repor sua carga no justo rumo. Fabre tinha razão. Depois de tentativas teimosas, o escaravelho abandonou o bolo. A que ficou encravada secou, ressecou, tornou-se escura, negra, pétrea mas indeformável. O senhor Ka sabe escolher e dispor os materiais de sua obra essencial.
Nunca tive ocasião de presenciar o que J.-H. Fabre registrou deliciosamente: – a bola assaltada por outro escaravelho, a luta como proprietário, vitória ou derrota deste. Fabre constatou o banditismo entre os escaravelhos, numa abundância lastimável e quase humana.
Atingido um determinado local começa o trabalho de um túnel que será a via de acesso ao salão de jantar do senhor Ka, residência simples, confortável, de temperatura igual, mesmo quando o inseto, previdentemente, cerra, obstruindo com areia ou barro o orifício da entrada do seu manoir.
O instinto é impecável nas dimensões da bola e o pórtico do túnel e sua extensão. Nunca um escarabeu errou nestas proporções. As bolas são roladas conscientemente e desaparecem no túnel, levadas até o interior sem tropeços e dificuldades materiais. Jamais o senhor Ka, seduzido pela abundância excrementosa ao alcance de suas patas, deixou-se levar pela ambição de uma esfera maior, diminuindo o trabalho futuro, garantindo subsistência para mais alguns dias. Os globos têm diâmetro inferior ao túnel. O gabarito é inalterável e obedecido. Não há exemplo de haver encalhado na porta e obrigar o escaravelho a minguar sua carga para fazê-la deslizar.
Aqui cabe um confronto com os macacos, que se dizem inteligentes e cheios de manhas próximas das do homem. Todos sabem que o macaco metendo a mão na cumbuca onde puseram fruta do seu agrado agarra-a e não mais pode retirar o membro que aumentou na extremidade pela preensão. Por mais que veja aproximar-se o caçador e saiba que sua liberdade vai desaparecer, guincha e rosna como um desesperado, mas a ambição famélica não lhe permite o gesto lógico de abrir a mão e fugir. O senhor Ka, cercado pelo monte fácil do seu alimento predileto e único, retira unicamente o necessário para certos dias, constituindo o bolo de tantos centímetros inapeláveis. Sempre um escaravelho aproveita seu trabalho. Não podemos dizer semelhantemente do macaco que meteu a mão na cumbuca.
O senhor Ka alimenta-se exclusivamente de fezes. Gosto não se discute. Mas é uma anotação entomoloica mais ou menos caduca e apenas teimosa em repetir-se. Examinando-se o estômago de um escaravelho encontrar-se-á a massa de resíduos vegetais, fragmentos de fibras que deviam ter contido sumos e muito pouco excremento envolto com restos das plantas que o senhor Ka extraiu da matéria excretada. O que ele procura na excreção é o que resta dos vegetais consumidos pelos animais. O senhor Ka possui no estômago fermentos capazes de transformar o vegetal em produto assimilável. Não tem fórmula de retirar a celulose que envolve as células dos vegetais. Precisa que alguém realize esta transformação anterior. Nos produtos que são a derradeira fase digestiva de bois, vacas, cavalos, carneiros, os vestígios, os restos, os resíduos alimentares deparados são bastantes para o sustento substancial do escaravelho. O excremento é apenas o conduto, o veículo. Vamos confessar que o veículo é nauseante mas para o senhor Ka não se trata de escolhas. Há milhares de anos que se habituou com esta nutrição. Para encontrar o necessário há que deglutir quantidades proporcionais. Daí a surpresa de J.-H. Fabre vendo um escaravelho alimentar-se doze horas seguidas, produzindo uma fita dejetória de três metros de extensão. Os alimentos do senhor Ka são caçados na massa estercorária como agulha em palheiro.
As formigas brancas, cupins, térmitas padecem da mesma deficiência. Devoram madeira com notável voracidade mas não a podem libertar da celulose envolvente e torná-la substância digerível. Hospedam no intestino um parasita flagelado e este toma a si o cuidado da transformação indispensável. Se o flagelado não estiver no intestino do cupim, formiga branca, térmita, este roerá uma floresta inteira e sucumbirá de fome. O alimento continuará intacto, indigerível, no estômago. O trabalho do parasita flagelado para o amigo cupim é idêntico ao que realizam, previamente, os ruminantes para o senhor Ka.
Curioso é que os ruminantes têm o mesmo processo para a retirada da celulose. Não têm fermentos intestinais com força diluidora contra a celulose e sim o micróbio, Bacillus amylobacter, que é o único responsável químico pela operação. Nós mesmos, os sapiens, oferecemos no intestino generosa e permanente guarida ao Bacillus amylobacter para que gentilmente desfaça a celulose que ingerimos e assim possamos desfrutar intrinsecamente os alimentos que deglutimos com ela, feijão, ervilha, espinafre, couve, repolho, alface, maçã, pera, uvas, laranjas…
O senhor Ka, não se sabe por que, não quis receber um micróbio prestante para vencer o envelope da celulose e permitir-lhe assimilação do conteúdo. Come justamente o que não mais contém celulose e pode imediatamente incorporar à sua economia interna.
O senhor Ka arranjou para ele e seus distantes ascendentes a fama de coprófagos e dificilmente o renome se afastará da espécie. Não há livro divulgativo e conversa fácil em que não venha a citação do escaravelho com seu repulsivo cardápio de um só prato. Realmente, e de certo modo indireto, trata-se de um vegetariano exclusivo na ortodoxia plena do regime.
Tendo doze anéis nas mandíbulas pode mastigar e daí o aproveitamento integral do que escapa, fragmentado, dos intestinos preparadores.
É monógamo vitalício. A senhora Ka não usa o apêndice de quitina no alto da testa, atributo ameaçador mas estranho para o seu sexo. As larvas são compridas, moles, esbranquiçadas, cegas e de cabeça dura. A senhora Ka constrói uma morada de maravilhosas proporções para cada filho em estado larvar. Uma pequenina pera de meio centímetro guarda no interior do colo a larva de dez milímetros. A casa piriforme é feita de camadas alimentícias, sabiamente selecionadas, atendendo ao desenvolvimento proporcional da larva à ninfa, com a nutrição adequada às possibilidades funcionais da mastigação no interior da cápsula que o sol se encarrega de fecundar com o calor generoso. Três meses depois, o jovem escaravelho rompe a casa cujas paredes se foram adelgaçando com a consumição alimentar e, quando necessário, reforçadas com as próprias dejeções da larva, e ganha liberdade e luz, ocupando o posto na série da família de gastrônomos e engenheiros natos.
A senhora Ka preparou-lhe a casa para a fase do crescimento mas nunca o verá. O jovem Ka nasceu sozinho e sua vida dentro da pera foi um rude aprendizado funcional e solitário, recebendo as lições de ação e prudência pela telestesia do instinto miraculoso. Nunca viu um outro escaravelho nas tarefas milenárias. Bêbado de sol, hesitante, bambo, encaminha-se para a esterqueira guiado pelo aroma familiar dos excretos. Jamais se enganará confiando no seu odorat sans intermittence dans son activité, como anotou Fabre. Modela sua primeira bola com a perfeição tradicional, as patas posteriores dando os graus da curva indispensável à esfera que as patas dianteira e a cabeça maciça avolumam com precisão e segurança. Depois empurra-a, impecável, com o primeiro par de patas, roule sa pipule à reculons, escolhendo estrada, evitando ou afastando obstáculos, abrindo o túnel e, mergulhado na areia tépida, instala sua sala de refeições. Para lá leva o bolo, desce-o com precaução, acomoda-o, cerra a porta, e tranquilo, inicia a festa solitária cujas alegrias, oh Café Society, não percebereis!
Uma boa aventura do senhor Ka foi o seu encontro com o mandarim Fu que ia visitar os amigos na vigília derredor do foco da lâmpada da estrada morta. O caminho passa justamente pela cidade do senhor Ka e este, vindo de um dos seus voos de reconhecimento, denunciados pelo rouco zumbido do motor potente, desceu a poucos palmos do mandarim. Fu adiantou-se lentamente e, sem observação prévia, colheu o senhor Ka na grande bocarra acolhedora. O senhor Ka não perdeu tempo e fez render toda técnica alusiva. Deduzo, embora não tenha muitos correligionários para esta conclusão, que o camarada escaravelho possui, pelo menos neste momento, uma memória raciocinada que o permitiu rearticular uma série de movimentos imediatos e eficazes, perfeitamente dentro do conceito americano do elaborate behaviour aplicado aos coleópteros, escarabídeos, lamelicórneos. Entraram em ação as patas serrilhadas e o pontão agudo da testa, ambos em coerente função local, rasgando e furando a mucosa bucal do mandarim Fu, surpreendido pela reação em parte sensível e desacostumada. Durou apenas uns dois segundos e Fu abrindo a boca e estirando a língua grossa, mole e visguenta, cuspiu o senhor Ka para longe. Cada um dos personagens retomou seu destino. O senhor Ka perdeu algum tempo enxugando-se da baba do mandarim.
Cavando túneis e enchendo-os de excrementos o senhor Ka e sua família, parentes e aderentes, contribuem visivelmente para a adubação das terras, defendendo a criminosa dispersão do azoto e fósforo.
Não tenho a menor intenção oposicionista em vetar semelhante programa, sábia e classicamente exposto com a única benemerência da família Ka desde que aderiram ao regime vegetariano depois da esperada digestão dos bois, cavalos e cabras. São pontos em que o esterco melhorará o teor orgânico no plano edafológico mas não são em número e extensão concorrentes para uma melhoria real. Muito mais eficientes são as tristes e perseguidas minhocas cuja expansão é muitíssimo maior, incessantemente revolvendo o subsolo numa obstinação terebrante a que nenhum arado de discos ou de garfos concorrerá.
O senhor Ka para mim, com sua respeitável antiguidade clássica de amigo dos deuses Phath, Tanen e Sokari, vivo nos camafeus bonitos, amuleto de fecundidade, é a inutilidade virtuosa.
É um lindo título para juntar-se ao de khopirron sagrado.

Luís da Câmara Cascudo, in Canto de Muro

14/05/2024

Irmã Água


Laudato sii mio signore per suora acqua, la quale è molto utile et humilde et pretiosa, et casta.
São Francisco: Il Cantico del Sole

O tanque está vazando pelo lado esquerdo. O reboco de cimento descascou-se e caiu em farelos, e a argamassa entre os tijolos cedeu lentamente ao teimoso empuxo da água. Quando o nível da pequenina enchente coincide com as frinchas da parede, os filetes escorrem, brilhantes, para o chão, alastrando uma nódoa escura e úmida que cresce duas vezes por dia. Primeiro a mancha era menor e a areia sorvia o líquido não permitindo ampliação. Agora, com a sequência do aguamento regular, há um trecho vagamente arredondado, vezes um polígono estrelado, ressaltando no solo cinzento do quintal, com uma orla mais densa e o centro escavando-se devagar e mesmo conservando um brilho de água parada.
Água escorrendo criou um novo centro de interesse e de vida. Não é água do tanque com as folhas, o lodo verde-negro e na superfície o vagaroso perpassar de Dica, com as seis patas altas como andaimes, passeando sem molhar-se. Água correndo no chão, dando outra cor, modificando a paisagem rasteira, alargando-se constantemente com a contribuição serena das seis a quinze horas. Os fios, com a força de impulsão, escorregam descendo as ladeiras minúsculas, espalhando as tonalidades diversas, vencendo e dissolvendo os torrões de barro, rasgando canais de brinquedo, fazendo curvas como um rio, detendo-se ante pedrinhas inarredáveis mas ladeando, cercando-as de dois braços trêmulos e continuando a jornada enquanto recebem o reforço vindo das brechas imperceptíveis. Na outra hora já o terreno consente mais fácil passagem, disciplinado pela água anterior e os canais se afundam, em milímetros orgulhosos, sacudindo a cabeça de água para frente, conquistando polegadas no rumo da telha enterrada onde residem as baratas da rainha Blata. Já existe mesmo uma formação de lama que é a franja daquela força em proporção mínima. A absorção da terra limita a expansão do território úmido. Todo o processo erosivo deu um aspecto imprevisto de cordilheiras, planícies, banhados, caminhos íngremes mesmo um complicado sistema intercomunicativo de fiozinhos de água, que parece ter sido copiado dos postais do Tirol ou da Suíça. Mas todo este mundo medirá metro e meio e as altitudes assombrosas irão aos cinco centímetros. Mas é um mundo já respeitado pelas formigas pretas e as aves preferem esta região ao tanque oceânico para a alegria de molhar as patas.
Para fechar o círculo irregular as cores se tornam mais claras relativamente aos graus de secura, indo numa gradação de tonalidades até confundir-se como o solo comum do quintal.
Das seis às sete e das quinze às desesseis lá vem água visitando seus novos domínios, ensopando-os, afundando as estradas, dizendo-se senhora daquele trecho que era jurisdição mansa e pacífica da rainha Blata, usado para banhos de sol ou vadiagem ginástica.
Deve ter sido um cataclismo para os moradores do subsolo. Transformação absurda, verdadeira revolução catastrófica, aquela inundação que ninguém havia previsto, obrigando mudança imediata. Às pressas, numa improvisação de todos os serviços de transporte e busca para afixação noutro pouso, com os incômodos de arranjo e colocação totais. Uma multidão de besourinhos, de cinco milímetros para baixo, emigrou desordenadamente, aos bandos dispersos, numa marcha divergente e tonta, salvando-se do dilúvio sem profecia. Mesmo a boca de um formigueiro de Ata desapareceu na avalancha e a continuidade da regação aterrou-o em definitivo. Creio que a rainha Ata deve ter castigado seu serviço de meteorologia que, desta vez, “dera água”, não anunciando em tempo útil o fenômeno alagador.
Quando água deixa de correr, minutos depois, a terra se ergue num e noutro ponto, elevada e fofa, demonstrando mais uma evasão pelo caminho que o relevo de areia frouxa denuncia. Ninguém podia calcular o número de formigueiros existentes nesta área inundada. Nem quantos besouros estavam domiciliados regularmente nos limites que a água dominou. Não havia sinal pelo exterior que as moradas estivessem instaladas ali e tantas vidas ligassem a rede dos hábitos àquele local de poucos palmos de extensão. Só depois da água banhar o terreno e torná-lo úmido e diverso do estado anterior é que o recenseamento evidenciou o número incontável dos habitantes tranquilos do recanto.
A água possibilitou uma situação favorável ao aparecimento de plantinhas humildes, vergônteas que surgiam tímidas como pedindo desculpas pelo seu atrevimento de nascer. Espécies de capim, com folhas duras e finas como pontas de lança. Depois um arremedo de bredo de palmas pequeninas e ásperas, bronzeadas. Espantosa força germinativa. A semente esperara anos e anos a sua ocasião favorável para romper a camada e pedir um pouco de sol.
Em 1946 os americanos fizeram saltar as usinas Krupp em Essen. Os edifícios imensos, salas infinitas, oficinas tentaculares onde escorria o aço fundido como prata líquida, os altos-fornos imponentes, os martelo-pilões poderosos, um conjunto de milhares de toneladas de cimento armado, ferro e aço mudou-se numa série de montões de ruínas precoces, símbolos duma atividade condenada pelo vencedor. Durante cem anos a maquinaria possante fizera estremecer o solo em quilômetros derredor, no estridor da tempestade em que se fundiam e calibravam os canhões temerosos. Derrubada a cidade Krupp, na primeira primavera subsequente os destroços cobriram-se de malvas azuis, brancas, lilases. No fundo da terra sacudida pelas máquinas de guerra e aquecida pela irradiação dos fornos sempre acesos estavam as malvas intactas em sua força, aguardando o minuto da ressurreição. Quando as usinas Krupp caíram, as malvas ressurgiram como eram antes, com as mesmas cores, formatos e dimensões, inalteradas.
Fiquei pensando que debaixo dos edifícios que governam o mundo há sempre uma semente adormecida, sonhando com sua libertação para reaparecer e espalhar as pétalas esquecidas dos olhos humanos. Os palácios jamais admitirão a possibilidade de existir uma planta, quarenta ou vinte metros depois do seu peso dominador, espreitando que a tonelada opressora desapareça para renascer e florir.
Naturalmente todos sabem que os insetos não bebem água. Não é bem assim. Não bebem água no tanque, porque alguns, pela sua pequenez, não conseguem romper a resistência da superfície que lhes deve parecer uma lâmina de marfim. Na terra molhada, no barro porejante e úmido, é possível sorver com a tromba solícita as gotículas. Somente agora vejo os bandos de borboletas, miúdas, amarelas com laivos azuis, paradas no pequenino charco, asas imóveis, desalterando-se.
A terra molhada tem revelado um mundo estranho. Besouros desenhados com um rigor geométrico e outros com intenções abstracionistas e perturbadoras, pequeninos, luzentes, apressados, de todas as cores, todos lindos, adejando as duas antenas inquietas sobre a cabecinha redonda e negra de obstinados. Uns de pernas invisíveis, altos outros, aranhas esquisitas, com andar aos saltos sobre presas que ninguém vê, insetos com as patas posteriores em eterno balanceio, como estabelecendo equilíbrio, coleópteros esguios, magros, rápidos, passando com um ar de quem deixou uma conferência internacional e vai escrever o relatório para o governo que o enviou, pulgões branquicentos, lesmas de dorso escuro como lama e o anverso parecendo âmbar, paquinhas, grilos-d’água, abrindo túneis com as patas fortes como braços de Sansão e, às vezes, num listrão alvadio, preguicento, escorregando de um orifício para reenterrar-se noutro, grandes minhocas de vida misteriosa e subterrânea. Há quase sempre um grupo de minhoquinhas ou vermes curvos como parênteses, agitando-se como se fizessem ginástica para rins, juntos, atrapalhados com os corpos como traje inusitado e novo, atraindo o voo imediato e fulgurante do bem-te-vi ou da lavadeira. Devem ser pitéus excepcionais porque, via de regra, as aves levam no bico, para os ninhos, comida inesperada para os filhos de bico aberto.
É muita imaginação pensar num rio subitamente atravessando um deserto.
Provocaria uma revolução em círculos concêntricos, cada vez maiores na proporção do afastamento do centro. Flora, fauna modificar-se-iam determinando a vinda e nascimento de novas espécies vegetais e animais. E a zona de conforto faria a movimentação de vidas e interesses sem conta, encadeadas no brusco aparecimento de alimento certo em ponto fixo. Se este filete de água de um tanque, vazando, trouxe tantos motivos para o ciclo destas existências, que será no macrocosmo o que neste microcosmo vive?
Curiosa foi a reação do mandarim Fu. Sapo terrestre, anfíbio mais honorário que efetivo, não resistiu à tentação da terra molhada que ele goza nas raras fugidas, capengando, para a lagoa distante. Ali perto a umidade seduziu-o e, ao anoitecer, Fu deixa a residência e vai, não aos saltos mas no seu andar arrastado, de trejeito custoso, atravessar o trecho que água corrente refrescou.
Põe as patas espalmadas e largas na areia molhada num sabor de divertimento difícil. Como a fugida infantil para um banho no rio ou na maré. A leve camada de lama gruda-se-lhe entre os dedos, valendo uma carícia. Atravessa os curtos dois palmos deliciosos. Para na outra margem. Volta-se com lentidão majestosa. Fica imóvel, olhos radiosos, batendo o papo, engolindo vento, vivendo sua vida. É um volúpia consciente a que dedica horas. Vezes abocanha no ar algum mosquito atrevido ou asas que trouxeram o dono para perto, interrompendo-lhe a cisma deleitosa. Não deixa facilmente o far-niente de meditação e alegria silenciosa. É talvez a concentração mais digna entre as homenagens à água eterna onde fora gerado e amou, roçando, comprimindo o peito e o ventre no frescor do solo ressumante.
Não discuto que a posição é cômoda para a caça e esta procura justamente o ponto novo. Os insetos miúdos que residem nos arredores são salteados ao sair da porta. Deduzo que existe uma atração em calcar terra úmida mesmo para os pesados e lentos coleópteros que, sem necessidade aparente, vão atravessando a faixa, deixando as linhas ponteadas de seus rastros. As baratas redondas, ásperas e escuronas, sem a quitina protetora e outras, grandes, levemente amareladas, de asas friccionantes e rumorosas, cabeça negra, rondam a mancha do futuro lameiro liliputiano. Devem encontrar a massa de mosquitos quase impalpáveis e esvoaçantes as lagartixas noturnas. Mas as baratas e baratonas que vão fazer no pequeníssimo banhado de bonecas? Só o mandarim Fu, em pose de cálculo especulativo, informará.
Curioso é constatar que unicamente as formigas evitam transpor o caminho molhado. Continuam teimando em reabrir a boca do formigueiro que, duas vezes por dia, era obstruído pela areia molhada. Depois desistiram e o caminho volteou pelo tanque, do lado direito onde o mandarim Fu possui sua mansão. Nunca as vi varando a estrada borrifada, isolada ou nas filas intermináveis em horas de serviço. Nas curtas horas em que água escorre há como uma fronteira intransponível, respeitada, indevassável.
As plantinhas nascidas não ficaram despovoadas. As de sua espécie possuem familiares que as procuram para sugar a seiva ou roer as folhinhas tenras. A seiva é diminuta e tênue mas as folhinhas tentaram umas lagartas esverdeadas, de cabeça roxa e pataria colorida de negro. Não demoraram muito tempo na vilegiatura porque o bem-te-vi e a lavadeira acabaram com o mostruário vivo. Estas lagartas costumam acampar nas folhas mais baixas dos crótons mas sendo verdes confundem-se perfeitamente aos olhos técnicos dos pássaros. Nas plantinhas o verde era muito claro e vibrante, destacando o verde-escuro das lagartas, dando-lhe fundo que chamou as aves como uma isca irresistível.
Em certas horas há um inteiro corpo de baile e mosquitinhos, executando uma dança ascensional e descendente no mesmo eixo, quase batendo no chão, dão a impressão sugestiva de cada unidade ocupar uma dada posição no ar sem que deixe a simetria rígida da formatura vibrante e movimentada, arabesco de tapete persa. Este ballet justifica a assistência carinhosa de Vênia e toda uma corte de lagartixas, o mandarim Fu e intrusões súbitas do bem-te-vi, da lavadeira, dos canários e dos xexéus. Deve ser um bailado nupcial, um alarde festivo ao sexo, com a participação de damas e galantes que se candidatam não apenas à junção feliz mas às gargantas do público aplaudidor.
Debaixo da sombra fresca dos tinhorões, das taiobas com as folhas lembrando orelhas de elefante, há uma população que reside pendurada no caule, entre as folhas largas e no tronco. Estes pacatos moradores estavam mais ou menos livres das aranhas rendeiras. Com aquele espalhafatoso rodeio de mosquitos bailarinos, as aranhas aproveitaram imediatamente o mercado e uma série de teias espalhou-se nos arbustos e crótons próximos. Os mosquitos não são permanentes e a percentagem de vítimas é grande mas não diária. Quem ficou fornecendo contribuição forçosa às teias cavilosamente estendidas em situações estratégicas foi justamente o povo inocente e confiado dos tinhorões e das taiobas que, sem cuidar da maldade do mundo, cai nas malhas finas e resistentes das rendeiras esfaimadas. O mandarim Fu que jamais arriscara verificação por aquele quadrante começou uma viagem de inspeção com desastrosos efeitos locais. Até mesmo, sinistro, armado em guerra, audaz e bruto como um barão feudal, Titius fez-se notar, espalhando terror.
Água, depois de meses de insistente deslizar, atingiu o palácio funcional da rainha Blata, escavando um abismo de centímetros ao pé da telha e enchendo de água, subsequentemente, a buraqueira. Esta água parada forneceu moradia aos mosquitos indesejáveis do gênero tenoresco, cantores e divulgadores de moléstias que não interessavam ao canto de muro.
As frinchas do tanque alargaram-se e a irrigação ampliou sua área. O manto escuro e peguento alcançou o muro. Nasceram os “pega-pinto” (nictagináceas) fazendo, com o tempo, pequenos bosquezinhos frondosos. Hospedou um piolho que fez a delícia das aves e estas dedicaram horas na busca minuciosa e farta. Por causa desta busca outros vegetais apareceram, trazidos nos excrementos, utilizando a terra que se tornara fecunda. Pimenteira, goiabeira e mamão deram réplica ao renque que vivia no outro extremo. A pimenteira cobriu-se de frutinhas vermelhas como coral e, pela primeira vez, o canto de muro ouviu o sabiá cantar, beliscando as pimentas.
Também a constante aguação enrijou os tinhorões e a taioba orelha-de-elefante, tornando-os fortes e frondosos. A fauna cresceu sob sua proteção. Os filhos e vassalos de Quiró fizeram visitas noturnas a uma zona outrora deserta mas agora povoada e sonora. O velho tronco, estirado e morto, lavado pela água insistente apodreceu, arrastando os insetos diferentes, roedores de madeira, coleópteros imponentes que tentaram até Sofia que os enxergou numa noite de luar, embaçado e sentimental.
O fio de água esbarrou no muro e as raízes confusas das trepadeiras agradeceram o benefício. Um ramo baixou, nascido paralelo ao chão, coleando pelas pequenas elevações, e ligou-se ao tinhorão, abrindo a graça das flores em cacho, vermelhas e brancas. O beija-flor inaugurou-as com seu longo bico matutino. As folhas caindo cobriam o filete de água e eram cobertas por ele no dia imediato. Sensivelmente a terra adubava-se, sacudindo outras plantas, outras frutas reduzidas e que tinham expressão gustativa para os pássaros que as espalhavam. E porque ficavam comendo ao redor delas, outras espécies surgiam, sacudidas nas fezes, empurradas para o solo pela água singela e pelas folhas humildes que se tornavam negras e pesadas de umidade.
Quando os mosquitos repetiam seu bailado de morte feliz, já o número de assistentes era vultoso e eficiente. Fu já podia ocultar-se na sombra de folhas espalmadas e aproximar-se sem ser visto de besouros ornamentais. Licosa e Titius deram mesmo a honra de estender por ali seus territórios de caça noturna. Do tanque ao muro era a pista de corrida da lavadeira. O depósito de água ficou reservado para beber e banhar-se. Não tinha a dimensão em superfície daquela praia sem água mas convidativa e fácil.
Dica, aranha-d’água orgulhosa, foi a única a não deixar o velho domínio. Nunca pôs uma de suas seis patas compridas fora do tanque para visitar os melhoramentos do canto de muro.
A infiltração deve ter procedido a modificações curiosas no subsolo. Deverá existir outros moradores atraídos pela nova temperatura e a região será o caminho real de espécies que amem a umidade relativa. Mas tudo dentro de uma escala de valores de milímetros e centímetros, um pequenino mundo humilde que passaria despercebido para os olhos comuns, seduzidos por outras tentações sensíveis.
O rumor dos zumbidos, chilreios, sussurros abafados, estalidos de gravetos tombados, folhas secas, levava a doce sonoridade silenciosa do fio de água escorrendo na areia cinzenta. A solidão se enchera de asas, teias, ciladas, tocaias, armadilhas, ânsias, júbilos, decepções.
O suave milagre fixador da vida e da batalha sem pausa fizera a Irmã Água humilde e útil, preciosa e casta, molhando a terra sem nome de um canto de muro tranquilo.

Luís da Câmara Cascudo, in Canto de Muro

05/05/2024

De re aliena


Sereis como Deuses!…
Princípio de conversa da Serpente com Eva

Com o verão cresce o gasto de energia e aumenta a necessidade de comer. Os frutos do mamoeiro, da goiabeira, do sapotizeiro amadurecem e caem, espapaçados, na areia mole. Ficam com uma pequenina nuvem de mosquitos festejadores, moscas diligentes e insetos mais graúdos que sabem morder e sugar, excelentemente. Os pássaros participam do cibo farto e delicioso e aproveitam a presença copiosa dos demais fregueses para incluí-los nos cardápios. Não há nada mais estimulante que um besouro ácido depois da polpa doce de um mamão rubro e macio, com a multidão das sementes vestidas de seda assimilável e saborosa, prontas para as certeiras bicadas do bem-te-vi e dos canários de ouro.
Por este processo aglutinativo de frutas justificando uma afluência desusada de insetos e pássaros, o canto de muro vive vida nova de agitação e interesse acima da rotina, do triste habitual que a todos monotoniza.
Os povos de Blata, Vênia, Musi acorrem ao festim farto e gratuito e de mais a mais próximo e sem perigos maiores. Raca, Titius, Licosa não comparecem. Gô faz ato de presença mas há coisas novas vindas de longe, espalhadas nas casas distantes porque se aproxima a época do Natal. Sofia desdenha esses banquetes e Niti igualmente. Não há convidado nem intrusos e a recepção decorre no ambiente onde as figuras são conhecidas e toleradamente estimadas. O mandarim Fu, solene, vem sempre apreciar os besouros e as ondas ciciantes de mosquitos e moscas, inesgotáveis e circulantes, agitando o ar na palpitação miraculosa das asas invisíveis.
São grandes horas de fartação sem ginástica e abundância sem acrobacia. Os dias e as noites têm suas faunas rigorosas e clássicas mas sempre há uma exceção imprevista, desnorteando observadores e pondo notas e avisos nos livros de técnica. Há quem saia mais cedo e também quem prolongue o trabalho, sabidamente diurno.
Já escuro-escuro, o bem-te-vi esvoaça na sobremesa e o casal de canários morigerados e sérios estão beliscando sem obediência aos horários rituais. Que diriam os mestres da Ornitologia vendo esta indisciplina espantosa? O mesmo que resmungaria um astrônomo deparando de dia uma estrela retardatária…
Mas, durante o dia radiante, embriagador de luz quase palpável, as aves obrigam nossos olhos a olhá-las mais tempo, tornadas para a primeira fila da representação tumultuosa. Passam de coristas aos lugares de tenores e prima-donas, na boca de cena, monopolizando os aplausos.
É possível namorá-los demoradamente vendo-os bicar, saltar, pular, executando as várias formas de erguer o voo e o desenho alado e gracioso descrito no ar com as asas frementes ou imóveis, dominadoras.
Todas as velhas notícias aprendidas outrora e semiesquecidas reaparecem nítidas. Ossos com cavidades internas, pneumáticos, sacos aéreos pela dilatação das membranas internas dos brônquios, comunicando com os ossos, levando ar aos pulmões porque no voo o tórax, tornado rígido, não permite a respiração normal, unicamente ocupado com a ação dos músculos motores; diminuição de peso, as penas tetrizes cobrindo-lhe o corpo sem oferecer resistência ao impulso aéreo, as retrizes da cauda, em leme, e as rêmiges, potentes nas asas miraculosas, os músculos peitorais mais fortes que os do Homem, toda conformação aerodinâmica, feita para atravessar as camadas, furar, projetar-se, sob o ímpeto propulsor de uma aceleração de ritmo admirável, não me contentam nem satisfazem. Parece-me sacrilégio a explicação simplista e fácil para compreender a maravilha que volteia ao sol num ambiente natural, insubstituível, lógico.
Ainda recordo a crítica fisiologista à impossibilidade dos anjos voarem porque os peitorais e o esterno não eram suficientemente desenvolvidos. O sábio é obrigado a suicidar o poeta lírico que deve espernear dentro dele. Os anjos e deuses olímpicos elevam-se no espaço em virtude de sua própria natureza etérea, recebendo da essência interior, divina, o movimento na força única da vontade. Vera incessu patuit dea – conhecia-se a deusa pelo andar. Independeria dos atributos exteriores de sua divindade. Esta gente erudita não lê Homero. Aprenderia como os deuses voam sem asas.
Num avião nós somos hóspedes. Criadores, inventores, fabricantes de motores e da aparelhagem surpreendente, pilotos, vamos olhando o caminho sem rastros através das nuvens, milhares de metros acima de um oceano sem segredos, de ondas banais, incessantes e humilhadas pelo pássaro sonoro que parece independer de todos os regimes dos ventos.
Mas uma ave é a criatura que voa, íntegra, completa, total. Ela é a mesma sensação indescritível, independência, arbítrio das curvas, das descidas, das retas harmoniosas. Ela tem a potência nos limites de sua anatomia funcional. É o próprio voo. Nós somos passageiros num objeto que voa. Levados por ele embora sob a direção das mãos, dos olhos, da experiência humana. Entre nós e o voo está o avião, rumor, hélices, jato, gasolina, energia atômica. No meio, o Homem, orgulhoso que foi ao céu escondido no bojo de sua invenção, do seu atrevimento, como o jabuti participou da festa altíssima oculto na viola do urubu. Ai de nós, não voamos. Somos transportados.
Quanto à origem, creio que a melhor fórmula ainda é o 1º livro do Gênesis, versículos 20 e 21, especialmente o Creavitque Deus... omne volatile secundum genus suum.
Vamos crer num réptil que se lançou de um galho para o chão, já possuindo órgão antes da função, saliências, abas, excrescências, de cada lado do tronco, tornadas asas de pele, paraquedas amortecedores do salto. Ninguém jamais saberá se este animal, nas alturas do Jurássico, pretendia realmente caçar ou suicidar-se. É o Archaeopteryx deixando nas ardósias de Selenhofen a impressão horrenda do corpo onde se estendem asas com penas. Este lagarto, que salta longamente com o auxílio de membranas orladas de penas, abre a série aos graciosos monstros de nomes amáveis, Pteranodontes, Rhamphorhynchus, Dimorphodontes, Pterodactylus, répteis de voos pesados, lentos, tenebrosos, como se víssemos um jacaré de Marajó passando por cima de uma palmeira.
Quando vai passando o Cretáceo há aves de penas mas como surgiram elas e por que a diferenciação tornou-se especificamente total? E por que os répteis iniciantes desapareceram, anulados na seleção, empurrados para a morte? É preciso o depoimento dos fósseis intermediários para a revelação assombrosa. As asas, as penas, o impulso ascensional são mistérios. Mistérios a independência dos membros posteriores, a projeção da carena, a autonomia, a disposição para o voo.
Como estes membros anteriores se reduziram, se a identidade ecológica não obrigaria diversificação tamanha, ganhando a maravilha das rêmiges? E a ciência do equilíbrio e da direção nas retrizes, o leque da cauda? Razões para sempre obscuras determinaram que este lagarto abrisse o rudimento das asas, opondo ao vento uma superfície sensível e vibrátil. Mas não foram estes os sobreviventes que projetaram a espécie para a perpetuidade, mas outras ainda escondidas nas fases evolutivas sem a visão do conjunto e do testemunho fóssil.
O pterossauro já possuía bico córneo, ausência de dentes, ossos sem medula além das asas de pele, pegajosas e molengas, quando desapareceu. Desapareceu sem deixar sucessores para o recebimento da espantosa herança que era o Reino do Ar. Não teve a honra de ser o antepassado do bem-te-vi que dá piruetas ou do xexéu que reviravolteia no canto de muro.
Lêmures, esquilos, rãs, lagartos e mais paraquedistas continuam alistados permanentemente nesta arma imutável. Jamais obtiveram os benefícios da promoção. O avô do canário da goiabeira seria um ur-typus que ainda não permitiu reportagem reveladora. Continua em segredo. Sabe-se, timidamente, que nos frios dos finais do Cretáceo os répteis voadores desistiram da competição e os que usavam penas avançaram para a contemporaneidade do século XX.
Et vidit Deus quod esset bonum. E viu Deus que era bom o voo dos pássaros deixando na graça airosa e frágil de sua mecânica o problema para atrapalhar os sábios dos tempos passados e das eras presentes.
O vértice do ângulo comum entre religiosos e céticos, os devotos de Deus e da Ciência, é justamente a Fé. Os primeiros acreditam que o Ser Supremo criou uma espécie por um ato livre de sua vontade. Os segundos creem que um animal, num dado momento, tomou determinada atitude e esta, repetindo-se no tempo, originou espécie ou modificações essenciais à sua existência no espaço. O bem-te-vi está saltando no canto de muro porque Deus o fez ou um réptil o gerou no período jurássico, pulando duma saliência de pedra e daí em diante a função fez o órgão.
E Deus viu que era bom…
Pouco se me dá que a lagartixa esteja concordando comigo ou Fu discorde, num bufo de ironia piedosa. A maior alegria humana é o encontro de sua própria explicação para o fenômeno, da sua e não da explicação oficial, possivelmente certa, verificada, inabalável. Não posso recordar nenhum ornitologista famoso, mas Pascal que não o era.
On se persuade mieux, pour l’ordinaire, par les raisons qu’on a trouvées soi-même, que par celles que sont venues dans l’esprit des autres.
Todas estas conclusões por causa de um bem-te-vi maluco e de um xexéu deseducado…
Posso afirmar que os pássaros possuem muitos cantos e cada um destes tem inflexões diversas, especialmente na parte final. Em voo, no trabalho da nidificação, pousados, alimentando-se, em pleno jogo lúdico, chamando a companheira, isolados, como informando do seu paradeiro ou situação tranquila, são diferentes, típicos, característicos. O bem-te-vi foi tomar banho no tanque e molhou-se demais. Tanto esvoaçou, abrindo as asas, borrifando-se, dando saltos e voejos circulares, que acabou dentro da água, como um banhista. Saiu pingando água, trôpego, com um andar de urubu malandro, canhestro. Pude facilmente deixar o esconderijo e apanhá-lo, segurando-o na mão. Não esqueci os olhos abertos, o bico fendido num apelo desesperado em que se via a garganta nacarada e palpitante e sobretudo o grito, o grito que lançou, tão diverso de quantos ouvira no dia luminoso e vadio de observação encantada. Uma série de gritos roucos, como dificilmente partidos da garganta, ásperos, inacabáveis, numa entonação aflita, persistente, significando menos uma súplica de impossível auxílio do que um aviso heroico para que a companheira se afastasse da mesma desgraça. Semelhava antes um coaxo de sapo do que uma nota musical de pássaro. Buffon, há dois séculos, já registrara o mesmo canto, lembrando o dos batráquios e que ouvira a um dos soberanos tenores, o rouxinol. Renúncia de luta, resignação, aceitamento da morte inapelável. Restitui-o à beira do tanque e voltei ao ponto escondido. O bem-te-vi, depois de algumas tentativas, pôde voar. Pousou num galho da mangueira e de lá soltou outro grito, noutro tom, noutro timbre. Uma só nota, alta, límpida, triunfal. Todos os bem-te-vis deviam ter compreendido que o companheiro regressara ao sol, às alegrias da vida anterior.
Certamente o ecúmeno dos pássaros é proporcional à sua amplidão de voo. A sua “liberdade” é bem mais limitada que a nossa poética compreensão da autonomia das aves. Deverá estar circunscrita não somente às fronteiras das utilidades mas também ao possível conhecimento habitual das áreas percorridas. Na época do ninho, com a esposa e filhos, é natural que não se afaste muito da zona doméstica. Noto, porém, que bem depois, com os filhos independentes e dispersos, os voos têm os mesmos horizontes e podem ser medidos por determinados pontos de referência. Podia ir muito além mas não vai. O meu casal de canários vive dentro de um possível quilômetro quadrado em tempo normal. O bem-te-vi é mais viajante mas, regressando ao pouso antes do anoitecer, não deve ter percorrido distância respeitável. Minha impressão humana é que o uso das asas desse um sentido de deslocação eterna, de jornada ininterrupta, de viagem sem fim, uma espécie de marinheiro-fantasma na avifauna, atravessando os espaços com o destino de uma evasão contínua. Mas, ao que deduzo, as aves do canto de muro estão presas ao limite da vida como eu, preso às fronteiras do meu trabalho, batendo insensivelmente nas grades da gaiola citadina onde vivo sem cantar.
Buffon ensinava uma hierarquia relativamente ao predomínio dos sentidos. Para o homem a seriação era: – Tato, paladar, vista, audição, olfato. Para os quadrúpedes: – Olfato, paladar (quase o mesmo sentido determinador dos movimentos), vista, audição, tato. Para as aves: – Visão, audição, tato, paladar, olfato. Ponho, com a maior sem-cerimônia, o ouvido como órgão precípuo nos meus amigos de pena e bico.
Fui caçador, caçador criminoso e de crimes laboriosamente premeditados porque caçava com alçapões, armadilhas, visgo, laços, com iscas de melão-de-são-caetano e – horror! – levando uma outra ave para “chama”, pulando dentro do alçapão. Vi, tantíssimas vezes, a ave aproximar-se, realizar o seu longo processo de acomodação, conservando a área prudente para a fuga. Nunca há silêncio nos recantos onde exerci minha reprovável atividade. Havia rumores de vento nas galhadas, quedas de folha, pios, sussurros, gravetos despencados, sons confusos, dispersos, longínquos, trazidos pelas aragens e espalhados na mata. Vezes os arbustos atritavam. Uma vaca atravessava com seu chocalho avisador. A ave, seduzida pela visão do companheiro ou engodo da fruta apetecida e aparentemente fácil, esvoaçava por perto, um círculo maior ou menor, zona intransponível onde sua curiosidade, amor ou gula faziam-na semiprisioneira. Podia mesmo avistar-me, deitado, imóvel, disfarçado covardemente, olhando-a. Ia-se lentamente habituando e o complexo da fuga diluía-se no atrito de outros interesses materiais e notórios. Bastava, entretanto, um estalido, quebra de raminho seco, um pé que se espreguiçava inconsciente e mexera na moita de folhas secas, numa bulha de cascavel agitada e a ave voava, de vez, num voo diagonal, liberta de todas as seduções e restituída ao seu arbítrio crítico. Só o rumor pudera dar ao seu instinto a totalidade da impressão suspeitosa. A visão do objeto suspeito é de menor eficácia que a audição de um rumor suspeito.
É o cúmulo que neguem a vista maravilhosa das aves. De certas aves, pelo menos. Sofia – dou depoimento pessoal – ouve melhor do que vê e mesmo nas horas de penumbra. Falta-me apenas saber o limite da distância em que uma ave tem a percepção da figura. Como raros teimosos ainda leem Buffon, gosto de citá-lo porque é uma observação numa lonjura de dois séculos para confrontar-se com as observações americanas. Buffon afirmava que um objeto iluminado pela luz solar desaparece aos nossos olhos na distância de 3.436 vezes o seu diâmetro. Um homem desapareceria aos olhos de um pássaro que voasse a 4 mil metros de altura. Certo? Nunca pude verificar mas deve haver bibliografia respondendo a confessada ignorância. Difícil acomodar-se esta visão espantosa com observações de parentes meus, caçadores veteranos e mentirosos relativamente sem imaginação. Sei muito bem da imaginação do caçador, do pescador de alto mar e do antigo e saudoso caixeiro-viajante, substituído, com vantagem, pelas recordações confidenciais de alguns turistas, com ou sem livros de viagens.
O gavião faminto, não tendo disponíveis os pintos de galinheiros, persegue pássaros com a desenvoltura natural de quem sabe o bico e as garras que possui. Os caçadores sertanejos não perdoam o corsário. Numa destas feitas notaram que um gavião possante estava pousado a uns vinte metros da árvore onde canários, rolinhas, papa-capins vadiavam despreocupados como numa praia de Copacabana. Só fugiram quando o gavião levantou voo. Estavam todos perfeitamente vendo o pirata. Audácia destemorosa ou falta de visão no plano da prudência?…
Noto também que os pássaros pousados no alto cantam mais forte que os encontrados ocasionalmente em pontos baixos, mesmo no solo.
O contato humano influirá decisivamente na variedade melódica das aves cantadoras? Afirmam que as aves dos países bárbaros são ásperas e roucas e as “civilizadas” lépidas e claras. Certo que apenas determinadas espécies aperfeiçoam o canto quando prisioneiras. As melhores são os filhos, netos, bisnetos de aves presas, aves que dificilmente recobrarão as técnicas da nidificação e o esforço pelo cibo diário, livremente, habituadas à gaiola farta, como os canários belgas. Há inicialmente modificação no canto e todas as aves famosas como tenoras são nascidas no cativeiro. As capturadas e postas nos aviários não recobram plenitude do canto que lhes custou a liberdade. Naturalmente xexéus, bem-te-vis e outras aves que costumam imitar outras, e outros sons, ganham variações novas nas proximidades das residências humanas porque dali recebem as excitações de motivos sonoros não possíveis no campo ou na mata. As aves em liberdade têm modulações que jamais repetem no âmbito das gaiolas. Em compensação aprendem, seus descendentes, gorjeios e trinados que não conheciam antes, ou melhor, desenvolvem na gaiola certas melodias apenas iniciadas quando em liberdade. Outros diminuem em proporção lamentável e ficam unicamente dando ao senhor a visão das penas bonitas. Ou da fama que não desejam corresponder. Os amadores de aves canoras sabem que os melhores espécimes são “criados”, isto é, feitos, educados, na prisão, filhos de pais prisioneiros e eles próprios, naturalmente, nascidos entre grades. A graúna, o canário, o xexéu de canto atordoador pela variedade perdem muito e muito quando presos. Os filhos recobram as excelências tradicionais. Com um tanto de lirismo dir-se-á que não conhecem as alegrias de um voo livre e decorrentemente ignoram as seduções que a mata oferece aos seus moradores.
Negam que tenham o sentido do paladar na acepção do sabor. Engolindo sem mastigar, sem glândulas salivares, a alimentação será meio mecânico de sustentar-se. Comem o substancial e o dispensável, passando pelo deleitável e o perigoso. Frutos e insetos terão para as aves o mesmo sabor? Não falo das aves presas que outrora tive o mau gosto de possuir. Falo das aves olhadas longamente em plena liberdade. Liberdade para escolher o alimento e tempo da refeição. Quem nunca viu um sanhaçu (tanagrídeo) almoçando numa goiabeira ou bicando mamão maduro não terá a imagem feliz de uma degustação saboreada. Um xexéu merendando minhoca, sabiá em laranja aberta, um canário engolindo semente de mamão-macho, dizem de um prazer quase consciente, expresso nos leves pipilos, o que devem significar as alegrias de boa mesa ao ar livre, num camping inesquecível. Estas mesmas aves na gaiola, com alpiste, pedacinhos de frutas e a folha de alface pendurada, terão outra conduta, comportamento de quem come salada de lagosta na cadeia ou bebe um cru de Mezés-Malé, rayon de miel de Tokay, na hora de ir para a cadeira elétrica.
Uma revolução decisiva nos costumes e critérios de civilização seria o homem e sua mulher terem tido as cores de sua raça de maneira inalterável na epiderme. Couro, pelo, pena, quitina, penugens, conforme o combinado, como possuímos idiomas e bandeiras nacionais, assim seríamos, imutavelmente, identificáveis à primeira vista em nossas respectivas etnias. Os processos de mestiçagem traduzir-se-iam pelas colorações relativas.
A ideia me veio olhando as penas dos meus amigos que terminam o jantar. Por que usam estas cores não sei. Não há acordo, conluio, aliança que possam disfarçar uma da outra família ornitológica. São obrigados a defender suas cores e declarar-se solidários com a imensa família. Foi possível a São Pedro afirmar-se alheio ao conhecimento de Jesus Cristo mas um tiranídeo não pode dizer-se icterídeo. As cores denunciam-no positivamente. Esta fórmula, como valorização de solidarismo político, seria de algum alcance.
A coloração vibrante de algumas aves parece um desafio aos inimigos. As cores neutras, pardacentas, simulando folhas secas, pedras e areias, troncos de árvores, já têm sua bibliografia explicativa. Naturalmente há interpretações difíceis. Ensinam que os animais manchados da mata apresentam manchas de cor clara, simulando as réstias solares. Os nossos felídeos de maior força, as onças, são animais de caça noturna. Tanto a vermelha, suçuarana, como a pintada, preta ou canguçu, deixam durante a noite o covil para o assalto aos currais. A imagem dos raios do sol não pode ter influído, exceto se o mimetismo pertencer às épocas geológicas remotas. Onça de dia é como equilíbrio orçamentário, visão impossível de puro ineditismo.
Mas há cores sem intenção utilitária pelo menos dentro de nossa compreensão. Mas ninguém afirmará que a disposição destas cores não tivesse tido em algum tempo significação essencial para o tipo e depois para a espécie, tanto assim que se tornou comum a todos os membros. Explicável a cor berrante, espetaculosa ou alheia às necessidades da defesa, burla ou intimidação nas aves importadas. As nacionais, algumas, lembram mais uma exibição permanente de apelo às fêmeas arredias ou demonstração da variedade pictórica do Criador, que a indumentária normal de aves que vivem em vigília e evitação aos adversários mais fortes. Mas a região neotrópica é justamente o palco destes desfiles suntuosos.
O ritmo quaternário das estações na Europa e América do Norte dá a divisão regular dos serviços e mesmo intensidade na coloração individual. Os processos de hibernação, resguardo ao frio, alimentação no inverno, correspondem às transformações da Natureza ambiental com as fases típicas da vida vegetal e nesta o cortejo dos insetos, larvas, toda espécie animal dependente. Um outono, um inverno na Europa são pausas no compasso da existência associativa, obrigando-as às mudanças de alimentação, horário de caça, abrigo etc. Aqui, num verão perpétuo afora a época das chuvas, as aves possuem a luminosidade ofuscadora, impulsiva, vibrante dos dias tropicais. Amanhece mais cedo e o ano inteiro é uma provocação ao movimento e ao combate. Os pinguins nos trópicos seriam tangarás.
A pilhéria, cediça e aposentada, lembra que no Brasil existem duas estações: o Verão e a da Estrada de Ferro.
Mas agora os voos vão se tornando mais raros e de âmbito mais restrito. Já uma e outra vez as visitas verificaram nos ninhos sua ordem normal. Do escuro da mangueira os pios vão descendo, anunciando o repouso tranquilo. Ainda há frutas abertas no chão e nas árvores mas a fome deste dia acabou. O chilreado se amiúda quando a noite chega, lenta e doce. O grilo começou a cantar. A luz indecisa transfigura o canto de muro. Aqueles que lutam nas trevas que as estrelas interrompem vão saindo para a vida, voando, andando, rastejando, coleando, perdendo-se na escuridão…

Luís da Câmara Cascudo, in Canto de Muro