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03/07/2026

O império das formigas




2.

Na manhã seguinte, Holroyd ficou sabendo que já estavam a quarenta quilômetros de Badama, e isto aumentou sua atenção para o que acontecia nas margens. Ele não perdia nenhuma oportunidade de examinar as redondezas. Não se via qualquer sinal de ocupação humana, com exceção das ruínas de uma casa, tomadas pelo mato bravio, e da fachada manchada de verde do mosteiro de Moju, abandonado havia muitos anos, no qual uma árvore brotava através da abertura de uma janela, e pesadas lianas se entrecruzavam diante dos portais. Revoadas de estranhas borboletas de asas amarelas, semitransparentes, cruzaram o rio naquela manhã; muitas pousaram no barco e foram mortas pelos homens. Foi apenas à tarde que se aproximaram da cuberta abandonada.
À primeira vista não parecia abandonada, pois ambas as suas velas estavam içadas e pendiam frouxas no ar imóvel daquela tarde; e via-se um homem sentado nas pranchas da parte dianteira, ao lado dos pesados remos. Outro homem parecia adormecido, deitado de bruços numa espécie de ponte longitudinal que esses barcos têm na parte do meio. Mas logo ficou aparente, pelo modo como o leme oscilava à toa e o barco parecia vagar de encontro à canhoneira, que alguma coisa ali estava errada. Gerilleau examinou o barco com o binóculo, e pareceu especialmente interessado no rosto escurecido do homem sentado, um indivíduo de pele avermelhada que parecia não ter nariz; estava mais agachado do que sentado, e quanto mais o capitão o examinava menos gostava do que estava vendo, e mais aplicava o olho às lentes.
Mas por fim ele conseguiu afastar a vista e caminhou até Holroyd. Depois voltou à proa e gritou na direção do barco. Gritou algumas vezes sem resposta até que as duas embarcações se cruzaram. Santa Rosa era o nome da cuberta que vinha à deriva, claramente visível.
Quando ela passou, oscilou um pouco ao ser atingida pelas ondas do barco maior, e nesse momento o homem agachado desmoronou no chão como se todas as suas juntas tivessem se desfeito ao mesmo tempo. Seu chapéu tombou, e sua cabeça não era algo agradável de se ver; o corpo descaiu, frouxo, e rolou pelo chão até ficar oculto pelo parapeito.
Caramba! — gritou Gerilleau, e apressou-se a chamar Holroyd, que já tinha ido ao seu encontro. — Viu aquela coisa? — disse o capitão.
Está morto! — exclamou Holroyd. — Claro que sim. É melhor mandar um bote com alguém para subir a bordo. Alguma coisa está errada.
Você por acaso viu o rosto dele?
Como era?
Era... ugh... não tenho palavras.
E o capitão, dando as costas a Holroyd, assumiu o papel estridente e atarefado de comandante.
A canhoneira se aproximou, resfolegando, até emparelhar com a cuberta, e desceu à água um bote com o tenente Da Cunha e três marujos para a abordagem. A curiosidade do capitão o fez levar a canhoneira mais para perto enquanto o tenente subia a bordo, de modo que todo o convés do Santa Rosa e a parte inferior eram visíveis a Holroyd.
Agora ele podia ver claramente que os únicos tripulantes do barco abandonado eram os dois homens mortos, e embora não conseguisse ver seus rostos, podia perceber, vendo suas mãos abertas, com as carnes dilaceradas, que os dois pareciam ter passado por algum excepcional processo de apodrecimento. Por um instante sua atenção se concentrou naqueles dois montes enigmáticos de roupas sujas e membros desconjuntados. Então, seu olhar percebeu o porão escancarado, revelando as pilhas de caixas e de baús, e logo adiante a cabine, inexplicavelmente vazia. Percebeu a seguir que as tábuas do meio do convés estavam cheias de pequenos pontos negros que se moviam.
Sua atenção se fixou nesses pontos. Todos se movimentavam em diferentes direções a partir do corpo do homem caído, parecendo — a imagem lhe veio à mente de maneira desconfortável — uma multidão que se dispersa depois de assistir a uma tourada.
Percebeu que Gerilleau estava ao seu lado, e pediu:
Capitão, tem seu binóculo aí? Pode focalizar aquelas tábuas, ali no meio?
Gerilleau obedeceu, soltou um grunhido, e passou-lhe o binóculo. Seguiu-se um longo momento de escrutínio.
Formigas — disse o inglês, e devolveu o binóculo, devidamente focado, a Gerilleau.
A impressão que tivera fora a de uma multidão de grandes formigas negras, muito parecidas com as formigas comuns a não ser pelo tamanho, e pelo fato de que algumas das maiores entre elas pareciam envoltas numa espécie de tecido cinza. Mas o exame que fizera tinha sido muito rápido para estudar esses detalhes, e já a cabeça do tenente Da Cunha aparecia sobre o parapeito, para um breve diálogo.
É preciso subir a bordo — disse Gerilleau.
O tenente objetou que o barco estava coberto de formigas.
Você está de botas — disse Gerilleau.
O tenente mudou de assunto.
Como foi que morreram esses homens? — perguntou.
O capitão Gerilleau enveredou por uma especulação que Holroyd não conseguiu acompanhar, e os dois começaram a discutir com certa veemência. Holroyd pegou de volta o binóculo e retomou seu escrutínio, primeiro das formigas, e depois do corpo tombado no convés.
Ele me fez uma descrição bastante precisa das formigas.
Disse que eram tão grandes quanto as maiores que ele já tinha visto; eram negras, e moviam-se com uma firme deliberação, não da maneira mecânica e confusa como se movem as formigas comuns. Cerca de uma em cada vinte era bem maior que as demais, e tinha uma cabeça excepcionalmente volumosa. Elas lhe lembraram as formigas líderes que supervisionam o trabalho das operárias, nas espécies cortadoras de folhas; tal como aquelas, pareciam estar dirigindo e coordenando o movimento coletivo do grupo. Empinavam o corpo para trás de modo singular, como se estivessem usando as patas da frente para algum outro propósito. E ele teve a impressão, mesmo estando demasiado distante para comprovar, que a maioria dessas formigas, de ambos os tipos, estava usando equipamentos, ou seja, trazia algumas coisas amarradas ao corpo com o que lhe pareceu serem fios brancos de metal.
Holroyd abaixou o binóculo de repente, ao perceber que a relação disciplinar entre o capitão e seu subordinado estava chegando a um ponto perigoso.
O seu dever — dizia o capitão — é subir a bordo. Minhas instruções são essas.
O tenente parecia a ponto de recusar-se. A cabeça de um dos marinheiros mulatos apareceu ao lado dele.
Acho que esses homens foram mortos pelas formigas — disse Holroyd abruptamente em inglês.
O capitão teve uma explosão de raiva. Não se dignou responder a Holroyd.
Eu lhe ordenei para ir a bordo! — gritou em seu português na direção do subordinado. — Se não for para bordo agora mesmo considerarei um motim, motim da tropa. Motim e covardia! Onde está a coragem que deveria nos inspirar?! Vou colocar vocês a ferros, vou matá-los a tiros como cachorros!
E prorrompeu numa saraivada de insultos e maldições, movendo-se de um lado para o outro. Brandiu os punhos, e comportou-se como se estivesse possesso de raiva, enquanto o tenente o olhava, muito pálido e tenso. A tripulação aproximou-se, com os rostos cheios de espanto.
De repente, numa pausa do desabafo, o tenente tomou uma decisão heroica e, reunindo todas as suas forças, içou-se por cima do parapeito do barco.
Ah! — exclamou Gerilleau; e sua boca fechou-se como um alçapão.
Holroyd viu as formigas recuando diante das botas de Da Cunha. O português caminhou devagar até o corpo do homem caído, inclinou-se, hesitou, agarrou o capote do morto e virou-o de rosto para cima. Uma multidão fervilhante de formigas saiu de dentro das roupas, e Da Cunha recuou às pressas, batendo com os pés nas tábuas do convés.
Holroyd ergueu o binóculo. Viu as formigas espalhadas em torno dos pés do invasor, e fazendo o que ele nunca antes tinha visto formigas fazerem. Elas não tinham nada dos movimentos cegos da formiga comum; olhavam para o homem, assim como uma multidão humana fitaria um monstro gigantesco que acabasse de dispersá-la.
Como foi que ele morreu? — gritou o capitão.
Holroyd entendeu, na resposta do português, que o homem estava muito devorado e não havia como saber.
O que há ali na frente? — perguntou Gerilleau.
O tenente caminhou alguns passos, e começou a responder em português. Parou de súbito e deu algumas batidas no lado da perna. Depois deu uns passos esquisitos, como se estivesse tentando pisar em alguma coisa invisível, e caminhou depressa para a lateral do barco. Em seguida pareceu controlar-se, deu meia-volta, caminhou com firmeza na direção da abertura do porão, e subiu para a parte superior do convés, no lugar onde são manejados os remos; inclinou-se por alguns instantes sobre o segundo cadáver, soltou um grunhido bastante audível, e depois voltou até a cabine, movendo-se com alguma rigidez. Virou-se e começou uma conversa com o capitão, num tom frio e respeitoso de parte a parte, num vívido contraste com a raiva e os insultos de pouco antes. Holroyd captou apenas fragmentos do conteúdo da conversa.
Voltou a concentrar a atenção no binóculo, e surpreendeu-se ao ver que as formigas tinham desaparecido de todas as áreas expostas do convés. Apontou as lentes para a parte escura por baixo da coberta, e teve a impressão de que ela estava cheia de olhos vigilantes.
Todos concordaram que o barco estava de fato abandonado, mas demasiadamente cheio de formigas para que alguns homens pudessem ocupá-lo e dormir dentro dele; teriam que rebocá-lo. O tenente foi até a proa para receber e ajustar o cabo, e os homens no bote ficaram prontos para ajudá-lo quando necessário. O binóculo de Holroyd continuou investigando o barco.
Ele tinha a impressão, cada vez mais forte, de que uma grande atividade, ainda que minúscula e furtiva, estava ocorrendo ali. Viu certo número de formigas enormes, que parecem ter umas duas polegadas de comprimento, carregando pacotes de formato esquisito — cuja utilidade ele não conseguia imaginar — de uma zona mergulhada na escuridão até outra. Não se moviam em colunas ao longo dos trechos iluminados, mas em linhas abertas, espaçadas, que sugeriam estranhamente as linhas de avanço de uma infantaria moderna sob fogo inimigo. Muitas das formigas estavam se abrigando por baixo das roupas do homem morto, e uma grande quantidade delas estava se aglomerando justamente no lado para onde Da Cunha se dirigia.
Ele não as viu avançar para o tenente quando ele voltou para lá, mas não teve a menor dúvida de que tinha acontecido um ataque planejado. De repente o tenente estava gritando e soltando maldições e dando pancadas nas pernas.
Fui picado! — gritou ele, voltando para Gerilleau um rosto cheio de ódio e de acusação.
Depois saltou por sobre a lateral do barco, caiu dentro do bote, e dali pulou para dentro d’água. Holroyd ouviu o espadanar da queda.
Os três homens conseguiram puxá-lo para dentro do bote e o trouxeram de volta para bordo; e na mesma noite ele morreu.

[...]

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

06/02/2026

O império das formigas



1.

Quando o capitão Gerilleau recebeu instruções para conduzir sua nova canhoneira, a Benjamin Constant, até Badama, situada no rio Batemo, afluente do Guaramadema, para ajudar a população local a combater uma praga de formigas, ele desconfiou que as autoridades estavam zombando dele. Sua promoção se deu por motivos tanto românticos quanto irregulares; a afeição de uma proeminente dama brasileira e os líquidos olhos do capitão tinham desempenhado um papel decisivo nesse processo, e tanto O Diário quanto O Futuro haviam sido pouco respeitosos em seus comentários. Ele sentiu que em breve daria motivos para novas manifestações de desrespeito.
Era um mestiço, e suas concepções de etiqueta e disciplina eram de puro sangue português. Ele abria o coração apenas com Holroyd, o maquinista de Lancashire que viera com o barco, e apenas para praticar sua pronúncia do inglês, que era deficiente com os sons de “th”.
Isto é com efeito para me tornar absurdo! — disse ele. — O que um homem pode fazer contra formigas? Elas vêm e elas vão.
O que se diz — respondeu Holroyd — é que estas não vão. Aquele sujeito que o senhor chamou de Sambo…
Zambo. É uma espécie de pessoa de sangue misturado.
Sim, Sambo. Ele diz que as pessoas é que estão indo embora.
O capitão ficou algum tempo soltando baforadas inquietas. Por fim continuou:
Essas coisas precisam acontecer. O que é isso? Pragas de formigas e coisas assim, pela vontade de Deus. Houve uma praga em Trinidad, de formigas que carregam folhas. Todas as árvores de laranjas, todas as de mangas! O que importa? Às vezes chegam exércitos de formigas em nossas casas; formigas guerreiras; diferente tipo. Você se ausenta e elas fazem limpeza na casa. Então você volta e a casa está limpa, como nova! Nada de baratas, de pulgas, de carrapatos pelo chão.
O tal Sambo — disse Holroyd — diz que elas são um tipo diferente de formiga.
O capitão encolheu os ombros, soltou uma baforada, e concentrou sua atenção no cigarro. Daí a pouco voltou à carga.
Caro Holroyd, o que devo fazer a respeito das malditas formigas? — Ficou refletindo mais um pouco, e murmurou: — É ridículo.
À tarde, ele vestiu o uniforme completo e desceu à terra. Jarros e caixotes foram trazidos para o barco, e daí a pouco ele os acompanhou. Holroyd sentou no convés, aproveitando a temperatura amena do entardecer, fumando com gosto e pensando com admiração no Brasil. Estavam havia cinco dias subindo o Amazonas, já a algumas centenas de milhas do oceano, e a leste e a oeste dele via-se apenas um horizonte como o do mar alto, e ao sul nada além de uma ilha com encostas de areia e alguns arbustos.
A água fluía lenta como a de um canal, suja, espessa, agitada pela presença de crocodilos e de pássaros planadores, e alimentada de troncos de árvores produzidos por alguma fonte inexaurível; e aquele desperdício, aquele impetuoso desperdício, preenchia a alma de Holroyd. A vila de Alemquer, com sua igrejinha dilapidada, suas casas e cabanas cobertas de palha, suas ruínas descoloridas de uma época mais próspera, parecia uma coisa minúscula perdida na selvageria da Natureza, uma moedinha caída num Saara. Holroyd era jovem, esta era sua primeira missão nos trópicos, e ele vinha direto da Inglaterra, onde a Natureza é submetida a cercas, a valas, a drenos, até atingir uma submissão perfeita; e agora ele descobria de súbito a insignificância do ser humano. Por seis dias ele e seu barco tinham resfolegado através de canais pouco frequentados, onde o homem era tão raro quanto a mais rara das borboletas. Num dia avistava-se uma canoa, noutro uma estação distante, no seguinte nem uma pessoa sequer.
Ele começou a perceber que o ser humano é de fato um animal escasso, e que mantém uma posse precária sobre a terra.
Percebeu isto com mais clareza à medida que os dias foram passando, e eles percorriam o trajeto tortuoso que os conduzia ao rio Batemo, na companhia daquele extraordinário comandante que tinha apenas um canhão sob suas ordens e estava proibido de desperdiçar munição. Holroyd estudava o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito. O imediato, Da Cunha, era português de nascimento e falava francês, mas um francês diferente daquele que Holroyd tinha aprendido em Southport, de modo que o diálogo dos dois se limitava a cumprimentos e a comentários básicos sobre bom ou mau tempo. E o clima dali, como tudo o mais naquele extraordinário mundo novo, não tinha qualquer consideração humana: era quente de noite e quente de dia, o ar fumegava, até mesmo o vento era um vapor escaldante, cheirando a vegetação apodrecida; e os jacarés e os pássaros estranhos, as moscas de todos os tipos e tamanhos, os besouros, as formigas, as cobras e os macacos, todos pareciam espantados sem saber o que o homem ia fazer numa atmosfera cujo sol não tinha alegria e cuja noite não refrescava. Usar roupas era insuportável, mas tirá-las significava ser assado pelo sol durante o dia e expor uma área maior aos mosquitos durante a noite; subir ao tombadilho durante o dia era ficar cego pela luz do sol, e ficar embaixo era sufocar. E durante o dia apareciam certas moscas extremamente espertas, e nocivas aos pulsos e tornozelos. O capitão Gerilleau, a única distração capaz de desviar a mente de Holroyd dessas desventuras físicas, acabou se revelando um sujeito insuportavelmente tedioso, contando o dia inteiro histórias de suas aventuras sentimentais, uma série interminável de mulheres anônimas, que ele desfiava como contas de um rosário. Às vezes propunha um pouco de esporte e os dois atiravam em jacarés; de vez em quando chegavam a aglomerados humanos nos confins da floresta e ficavam por um dia ou dois bebendo, sem fazer nada; uma noite dançaram com garotas mestiças, que acharam o parco espanhol de Holroyd, cujos verbos não tinham passado nem futuro, mais do que suficiente para os seus propósitos. Mas estes eram meros lampejos luminosos na longa e acinzentada travessia do caudaloso rio, daquela correnteza contra a qual as máquinas vibravam e latejavam. Uma certa divindade pagã e liberal, em forma de garrafão, era quem governava o barco da popa à proa.
Mas Gerilleau aprendia coisas sobre as formigas, cada vez mais coisas, em cada parada que faziam ao longo do trajeto, e ia ficando mais interessado em sua missão.
Elas são nova espécie de formigas — disse ele. — Precisamos ser... como mesmo se diz? Entomologia? Grandes. Cinco centímetros! Muito grandes. É ridículo. Somos como macacos, enviados para apanhar insetos. Mas elas estão comendo o país. — Ele explodiu de indignação. — Suponha, de repente, que existem complicações com a Europa. Aqui estou eu, perto de chegar ao Rio Negro, e meu canhão está inútil!
Ele afagou o joelho e continuou resmungando.
Aquelas pessoas, que estavam no local de dançar, vieram de lá. Perderam tudo que tinham. Formigas chegaram na casa deles uma tarde. Tudo destruído. Você sabe que quando formigas chegam a gente foge. Todos fogem e elas ocupam a casa. Se você ficasse seria comido. Está vendo? Bem, depois eles voltam, eles dizem: “As formigas foram embora.” As formigas não foram embora! Eles tentam entrar. O filho entra. As formigas brigam.
Elas o atacaram?
Morderam. Rapidamente ele sai de novo, gritando e correndo. Corre para o rio. Está vendo? Entra na água e afoga as formigas. — Gerilleau fez uma pausa, virou seus olhos líquidos para o rosto de Holroyd, e bateu no joelho dele com os nós dos dedos. — Naquela noite ele morre, como se tivesse sido picado por uma cobra.
Envenenado? Pelas formigas?
Quem sabe? — Gerilleau encolheu os ombros. — Talvez o morderam demais. Quando eu entrei para o serviço eu vim para combater homens. Essas coisas, essas formigas, elas vêm e vão. Não é um trabalho para um homem.
Depois disso ele falou frequentemente das formigas para Holroyd, e, onde quer que eles se aproximassem de qualquer aglomerado humano naquela vastidão de água e luz solar e árvores distantes, Holroyd punha em prática seu domínio crescente do idioma para reconhecer a palavra “saúba”, e perceber o quanto ela se tornava predominante nas conversas.
Ele achou que as formigas estavam ficando interessantes; e quanto mais chegavam perto mais interessantes elas se tornavam. Gerilleau deixou de lado seus antigos temas quase de repente, e o tenente português tornou-se mais aberto ao diálogo; ele tinha algumas informações a respeito da formiga cortadora de folhas, e compartilhava seus conhecimentos. Gerilleau às vezes reproduzia para Holroyd o que ele tinha para contar. Ele falou das pequenas operárias que trabalhavam e lutavam em grupo, e as grandes operárias que lideravam e comandavam, e como estas últimas quase sempre subiam na direção do pescoço, e como suas picadas tiravam sangue. Contou como elas cortavam folhas e com elas preparavam leitos de fungos, e como em Caracas os seus formigueiros chegam a ter centenas de metros de diâmetro. Durante dois dias inteiros os três homens debateram a questão de as formigas terem olhos ou não. A discussão tornou-se perigosamente acalorada na segunda tarde, e Holroyd salvou a situação indo de bote até a margem e trazendo algumas formigas para examinar. Capturou vários espécimes e os trouxe. Algumas tinham olhos e outras não. Outra discussão entre eles era: as formigas mordem ou picam?
Essas formigas — disse Gerilleau, depois de se informar numa fazenda — têm grandes olhos. Elas não correm cegas como a maioria das formigas fazem. Não! Elas ficam nos cantos e olham o que você faz.
E elas picam? — perguntou Holroyd.
Sim. Elas picam. Existe veneno na picada delas. — Ele meditou. — Eu não sei o que os homens podem fazer contra formigas. Elas vêm e vão.
Mas estas não vão.
Elas vão ir — disse Gerilleau.
Depois de Tamandu, há uma longa costa de baixios ao longo de oitenta milhas, totalmente desabitada, e depois dela chega-se à confluência entre o grande rio e o Batemo, a qual é como um imenso lago; e então a floresta se aproxima, chegando a uma distância quase íntima. O caráter da correnteza muda, os troncos submersos tornam-se abundantes. O Benjamin Constant atracou durante aquela noite preso a um mourão, sob a sombra profunda das árvores. Pela primeira vez em muitos dias foi sentida uma rajada de vento fresco, e Holroyd e Gerilleau sentaram-se até tarde, fumando charutos e curtindo aquela sensação deliciosa. A mente de Gerilleau estava ocupada pelas formigas e pelo que elas eram capazes de fazer. Finalmente ele resolveu dormir, e deitou-se num colchão ali no próprio convés, um homem desesperadamente perplexo; suas últimas palavras, quando já parecia adormecido, foram para perguntar, num acesso de ansiedade:
O que se pode fazer com formigas? Toda essa coisa é absurda.
Holroyd ficou coçando os pulsos cobertos de mordidas, e meditando a sós.
Sentou no parapeito e escutou as variações na respiração de Gerilleau até que este mergulhou num sono mais profundo; então, o chapinhar das ondas de encontro ao casco do navio ocupou seus sentidos e lhe trouxe de volta aquele senso de imensidão que o estava invadindo desde que deixaram para trás o Pará e mergulharam no rio. O barco mantinha apenas uma pequena luz acesa. Havia um murmúrio de conversação que logo foi seguido por um completo silêncio. Os olhos dele foram da silhueta sombria do barco até a margem do rio, e dali para a negra e esmagadora presença da floresta, iluminada aqui e ali pelo brilho de um vagalume, de onde emanava continuamente um murmúrio de estranhas e misteriosas atividades…
Era a imensidade inumana daquela terra que o assombrava e oprimia. Ele sabia que os céus eram desabitados, que as estrelas eram apenas pontos luminosos na incrível vastidão do espaço; sabia que o oceano era enorme e indomável, mas na Inglaterra ele se acostumara a pensar na terra como o domínio do ser humano. E na Inglaterra ela pertence ao homem, sem dúvida. As criaturas selvagens têm uma vida difícil, multiplicam-se onde são autorizadas, e por toda parte imperam as estradas, as cercas e a autoridade absoluta do homem. Num atlas, também, a terra é do homem, e as áreas são coloridas para assinalar sua posse, em vívido contraste com o azul universal do mar independente. Ele imaginara o dia em que todas as coisas da terra, as lavouras, as culturas, as vias férreas rápidas, as boas estradas, acabariam prevalecendo num clima de segurança e ordem. Agora, começava a duvidar disso.
A floresta era interminável, aparentava ser invencível, e o Homem parecia na melhor das hipóteses um intruso ocasional, em condições precárias. Era possível viajar muitas milhas no meio da silenciosa luta entre as árvores gigantescas, os cipós estranguladores, as flores onipresentes, e por toda parte surgiam o jacaré, a tartaruga, as incontáveis variedades de aves e os insetos que ali se sentiam em casa e com a certeza de não serem despejados; mas o Homem conseguia no máximo ocupar um pequeno espaço numa clareira, lutava contra o mato, disputava com os bichos e os insetos cada palmo de terreno, era vitimado pelas cobras, pelas feras, pela febre, e acabava sendo enxotado. De muitos lugares ao longo do rio ele já tinha sido visivelmente expulso, e um ou outro riacho deserto preservava o nome de uma casa, e aqui e ali apareciam ruínas de paredes brancas e torres desmoronadas para repetir essa lição. O puma e o jaguar eram mais senhores daquele espaço do que o ser humano.
Quem eram os verdadeiros senhores?
Em algumas poucas milhas quadradas de floresta devem existir mais formigas do que toda a população do mundo! Era uma ideia totalmente nova na mente de Holroyd. Em poucos milhares de anos o Homem tinha emergido da barbárie para um estágio de civilização que o fazia sentir-se como senhor do futuro e proprietário da Terra! Mas o que impedia as formigas de também evoluírem? As formigas que conhecemos vivem em pequenas comunidades de uns poucos milhares de indivíduos, e não ousam um enfrentamento maior com o mundo à sua volta. Mas elas tinham uma linguagem, tinham inteligência! Por que iriam se deter nesse ponto, se os homens não tinham se detido na sua fase de barbárie? Suponhamos que as formigas se tornassem capazes de armazenar conhecimentos, assim como o Homem fizera com seus livros e seus registros; capazes de usar armas, formar grandes impérios, sustentar uma guerra planejada e organizada?!
Lembrou de algumas informações, colhidas por Gerilleau, sobre as formigas que estavam indo enfrentar. Elas empregavam um veneno semelhante ao das serpentes. Obedeciam seus líderes, assim como as formigas cortadoras de folhas. Eram carnívoras, e quando ocupavam um lugar não o abandonavam mais...
A floresta estava tranquila. A água chapinhava incessantemente de encontro ao casco da canhoneira. Sobre a lanterna erguida lá no alto, via-se um torvelinho silencioso de mariposas fantasmas.
Gerilleau mudou de posição no sono, e soltou um suspiro. “O que se pode fazer?”, murmurou ele, e, virando-se para o outro lado, adormeceu novamente.
As meditações de Holroyd iam ficando cada vez mais sinistras, e ele foi arrancado delas pelo zumbido de um mosquito.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

31/01/2026

A Loja Mágica



Eu já tinha visto várias vezes a Loja Mágica, a distância; já tinha passado diante da sua vitrine cheia de objetos curiosos, bolas mágicas, galinhas mágicas, cones coloridos, bonecos de ventríloquo, material para mágicas usando cestos, baralhos que pareciam comuns, todo tipo de coisa; mas nunca me ocorrera entrar ali até que um dia, quase sem aviso, Gip me puxou pelo dedo até aquela vitrine, e se comportou de tal forma que não tive escolha senão entrar ali com ele. Eu não lembrava que a loja ficava justamente ali, para falar a verdade — uma fachada de tamanho modesto em Regent Street, entre uma loja de fotografias e uma loja cheia de pintos recém-saídos das incubadoras. Mas lá estava ela. Eu tinha imaginado que ela ficava mais perto de Piccadilly Circus, ou depois da esquina, em Oxford Street, ou mesmo em Holborn; sempre a vira do outro lado da rua e um pouco inacessível, com algo em sua posição que lembrava uma miragem; mas aqui estava ela, agora, sem nenhuma dúvida, e a ponta do dedinho gordo de Gip batia com ruído na vitrine.
Se eu fosse rico — disse Gip, apontando para o Ovo Que Desaparece — eu compraria aquele ali para mim. E aquele. — Era o Bebê Que Chora, Muito Humano. — E aquele também. — Este último era uma coisa misteriosa, e se chamava, de acordo com um cartãozinho pregado sobre a caixa, “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”.
Qualquer coisa — explicou Gip — desaparece embaixo de um desses cones. Li isso num livro. E ali, pai, está a Moeda Que Desaparece... só que eles a colocaram com o outro lado para cima, para ninguém perceber como é feito.
Gip, bom menino, herdou as boas maneiras de sua mãe, e não pediu para entrar na loja nem me aborreceu em qualquer sentido; mas, sabem como é, de maneira inconsciente ele puxava meu dedo na direção da porta e suas intenções eram muito claras.
Olhe aquilo — disse, apontando a Garrafa Mágica.
E se você tivesse uma dessas? — perguntei, e ele me olhou radiante, ao ouvir uma pergunta tão promissora.
Eu ia mostrá-la a Jessie — respondeu ele, como sempre pensando nos outros.
Faltam menos de cem dias para seu aniversário, Gibbles — falei, pousando minha mão na maçaneta.
Gip não respondeu, mas agarrou meu dedo com mais força, e assim entramos na loja.
Não era uma loja como as outras; era um bazar mágico, e toda a desenvoltura que Gip iria assumir se se tratasse de uma simples loja de brinquedos ia fazer-lhe falta agora.
Ele deixou a conversação por minha conta.
A loja era pequena, estreita, não muito bem-iluminada, e os sininhos presos à porta tintinaram novamente sua musiquinha plangente quando ela se fechou às nossas costas. Por alguns instantes ficamos ali sozinhos e pudemos olhar à nossa volta. Havia um tigre de papel machê sobre a tampa de vidro que cobria um balcão não muito alto: um tigre sério, com olhos bondosos, que agitava a cabeça metodicamente; havia uma porção de bolas de cristal, uma mão de porcelana segurando cartas de um baralho mágico, um bom estoque de aquários mágicos de variados tamanhos, e uma cartola que exibia suas molas internas com pouca modéstia. No chão estavam pousados espelhos mágicos: um que nos reproduzia longos e finos, um que inchava nossas cabeças e sumia com nossas pernas, e um que nos tornava atarracados e gordos como peças do jogo de damas; e enquanto ríamos diante deles o lojista, suponho, entrou no aposento.
De qualquer modo, em certo momento ali estava ele atrás do balcão: um homem moreno, de aspecto curioso, pele macilenta, com uma orelha maior que a outra e um queixo como o bico de uma bota.
Em que posso ajudá-los? — disse ele, abrindo os seus dedos longos e mágicos sobre o tampo de vidro do balcão; e com um sobressalto percebemos sua presença ali.
Gostaria de comprar alguns truques simples para o meu filho — respondi.
De prestidigitação? — perguntou ele. — Mecânicos? Domésticos?
Tem alguma coisa divertida? — perguntei.
Hmmm... — disse o lojista, e coçou a cabeça por um instante, pensativo. Então, com um gesto bem visível, retirou da cabeça uma bola de vidro. — Alguma coisa assim? — perguntou, estendendo a bola.
Aquilo foi inesperado. Eu já tinha visto esse truque em parques de diversões inúmeras vezes — faz parte do repertório de qualquer mágico — mas não estava esperando por ele ali.
Muito bom — falei, com uma risada.
Não é mesmo? — disse o lojista.
Gip estendeu a mão que estava livre para receber o objeto... e achou apenas uma mão aberta e vazia.
Está no seu bolso — disse o lojista. E lá estava mesmo!
Quanto custa? — perguntei.
Não cobramos pelas bolas de vidro — disse o lojista, com cortesia. — Elas vêm para nós... — tirou mais uma, agora do cotovelo — ... de graça. — Tirou mais uma bola da nuca, e a colocou em cima do balcão, junto da outra. Gip examinou sua bola de vidro com olhar esperto, depois observou as duas sobre o balcão, e finalmente encarou o lojista, que estava sorrindo.
Pode ficar com estas também — disse o lojista — e, se não se incomodar, fique com esta, da minha boca. Olhe aí!
Gip me olhou calado em busca de orientação, e com um silêncio profundo separou para si as quatro bolas, agarrou de novo meu dedo, e preparou-se para o prodígio seguinte.
É assim que obtemos nosso material mais barato — observou o lojista.
Dei aquela risada de quem soube entender a piada.
Em vez de ir ao armazém de atacado — falei. — Claro que fica bem mais em conta.
De certa forma, sim — disse o lojista. — Embora sempre acabemos pagando. Mas não pagamos tão caro quanto as pessoas imaginam. Nossos equipamentos maiores, nossas provisões diárias e todas as outras coisas de que precisamos vêm todas de dentro dessa cartola. E, sabe, cavalheiro, se me permite dizê-lo, não existe uma grande loja de atacado, não para artigos de Mágica Genuína. Não sei se reparou no nosso letreiro: A GENUÍNA LOJA MÁGICA. — Ele puxou um cartão de visita da bochecha e o estendeu para mim. — Genuína — repetiu, apontando a palavra com o dedo. — Não há o menor engano, cavalheiro.
Pensei que ele estava mantendo a piada com bastante seriedade.
Ele se virou para Gip com o mais afável dos sorrisos.
E você, sabia? É o Tipo Certo de Garoto.
Fiquei surpreso com o fato de ele saber disso, porque, no interesse da disciplina, nós mantemos isto em segredo, em nossa casa; mas Gip recebeu a informação com um sólido silêncio, mantendo os olhos fitos no homem.
Somente o Tipo Certo de Garoto consegue entrar por aquela porta.
E então, como que para ilustrar o que ele dizia, ouviu-se um barulho na porta, e uma voz de criança quase guinchando se ouviu do lado de fora.
Nãããão... Eu quero entrar lá dentro, papai, eu QUERO entrar lá! Nããão...
E depois a voz cansada de um pai, cheia de consolos e promessas.
Está fechada, Edward — dizia ele.
Mas não está! — disse eu.
Está, senhor — disse o lojista. — Sempre está, para esse tipo de criança.
Enquanto ele falava tive pela vitrine o vislumbre do rosto do menino, um rosto branco, miúdo, pálido de tanto comer doces e comidas açucaradas, distorcida por maus sentimentos; um pequeno e implacável egoísta, batendo no vidro mágico.
Não adianta, senhor — disse o lojista quando eu, com meu impulso instintivo para ajudar, fui na direção da porta. Logo o garoto mimado foi levado para longe, aos berros.
Como consegue fazer isto? — perguntei, já mais à vontade.
Mágica! — disse o lojista, fazendo um gesto descuidado com a mão, e, presto! Faíscas de um fogo multicor brotaram dos seus dedos e sumiram por entre as sombras da loja.
Você estava dizendo — falou ele, virando-se para Gip —, antes de entrar, que gostaria de ter uma caixinha dos nossos “Compre Um e Deixe Seus Amigos Espantados”?
Gip, com um valoroso esforço, respondeu:
Sim.
Está no seu bolso.
E inclinando-se sobre o balcão — ele tinha um corpo extraordinariamente longo — aquele sujeito incrível produziu o objeto no estilo habitual dos mágicos.
Papel! — disse ele, e tirou uma folha de papel de embrulho da cartola que exibia suas molas. — Barbante! — e vejam só, sua boca tornou-se um estojo oco de onde ele começou a puxar um interminável fio de barbante, que cortou com os dentes depois de amarrar o pacote (e, ao que me pareceu, engoliu o rolo).
Depois ele acendeu uma vela no nariz de um dos bonecos de ventríloquo, colocou um dos dedos (que tinha se transformado num bastão de cera de lacrar) na chama, e selou o pacote.
E há também o Ovo Que Desaparece — lembrou ele, e, retirando um exemplar do bolso do meu casaco, fez outro pacote, e depois repetiu tudo com o Bebê Que Chora, Muito Humano. Quando todos os pacotes ficaram prontos, entreguei-os a Gip, que os apertou de encontro ao peito.
Ele quase não disse nada, mas seu olhar era eloquente; o modo como apertava os pacotes nos braços era eloquente. Naquele instante ele era um playground de emoções indizíveis. Aquilo, sim, era Mágica verdadeira.
Então, com um sobressalto, senti alguma coisa se movendo dentro do meu chapéu, alguma coisa macia e irrequieta. Ergui-o, e um pombo com as penas eriçadas — um cúmplice, sem dúvida — saltou sobre o balcão e correu a se esconder, pelo que pude ver, dentro de uma caixa de papelão por trás do tigre.
Ora, ora! — exclamou o lojista, tomando meu chapéu com um gesto hábil. — Que pássaro descuidado, e ainda por cima chocando!
Ele balançou meu chapéu e derramou na mão estendida dois ou três ovos, uma bola de gude, um relógio, mais uma meia dúzia das inevitáveis bolinhas de vidro, e pedaços de papel amassado, cada vez mais e mais e mais, falando o tempo inteiro de como as pessoas esquecem de limpar os seus chapéus pelo lado de dentro do mesmo modo como o fazem por fora, falando com polidez, é claro, mas com certa determinação pessoal.
Todo tipo de coisa se acumula, cavalheiro... Não no seu caso particular, é claro... Mas quase todo cliente... Incrível as coisas que conduzem consigo...
O monte de papel amassado acumulava-se e erguia-se em cima do balcão até que ele ficou praticamente oculto, menos sua voz, que prosseguia.
Nenhum de nós sabe na verdade o que se oculta por trás de nossa aparência de seres humanos, cavalheiro. Será que não somos mais do que fachadas limpas, sepulcros caiados por fora...
Sua voz parou, exatamente como quando a gente alveja o gramofone de um vizinho com um tijolo e boa pontaria; o mesmo silêncio instantâneo, e o roçagar do papel se interrompeu, e tudo ficou muito calmo...
Ainda precisa do meu chapéu? — perguntei, após um intervalo.
Não houve resposta.
Olhei para Gip, e Gip olhou para mim, e ali estavam nossas imagens distorcidas nos espelhos mágicos, com uma aparência muito esquisita, e grave, e quieta...
Acho que vamos embora agora — falei. — Pode me dizer quanto foi? — E depois de uma pausa, num tom mais alto: — Quero a conta, por favor, e também o meu chapéu.
Pensei ter ouvido um fungado por trás da pilha de papel amassado.
Vamos olhar atrás do balcão, Gip — falei. — Ele está brincando conosco.
Conduzi Gip e demos uma volta em torno do tigre, que ainda agitava a cabeça, e quem acha que estava atrás do balcão? Ninguém! Somente meu chapéu caído no chão, e um coelho de longas orelhas, o típico coelhinho dos mágicos, perdido em meditação, e com uma aparência tão amarfanhada e boba como só os coelhos de mágico têm. Recuperei meu chapéu, e o coelho se afastou dando pulinhos.
Pai! — disse Gip, com um sussurro culpado.
O que é, Gip?
Eu gosto desta loja, pai.
Eu também deveria estar gostando”, pensei comigo mesmo, “se este balcão não tivesse se alongado até barrar o nosso acesso à porta de saída”. Mas não chamei a atenção de Gip para esse detalhe.
Coelhinho! — disse ele, estendendo a mão para o coelho, que passou por nós pulando. — Coelhinho, faça uma mágica para Gip!
Seus olhos acompanharam o bichinho enquanto este se esgueirava através de uma porta cuja existência eu, com toda certeza, não tinha percebido até então. Essa porta abriu-se, e através dela avistei o homem que tinha uma orelha maior que a outra. Continuava sorrindo; seu olhar, ao cruzar com o meu, tinha uma expressão divertida, mas com um quê de desafio.
Acho que gostaria de ver a nossa sala de demonstrações, cavalheiro — disse ele, com inocente suavidade. Gip puxou meu dedo, querendo avançar. Olhei para o balcão e olhei de novo o lojista. Eu estava começando a achar aquela mágica genuína demais.
Acho que não temos muito tempo — falei. Mas antes que concluísse a frase já estávamos na tal sala de demonstrações.
Todo o material é da mesma qualidade — disse o homem, esfregando suas mãos muito flexíveis. — Ou seja, a melhor. Não existe nada aqui que não seja de Mágica genuína, com todas as garantias. Se me der licença...
Ele estendeu a mão e puxou alguma coisa agarrada à manga do meu casaco, e vi que era um pequeno diabinho vermelho, que se contorcia, pendurado pela cauda. A criaturinha mexia-se sem parar, tentando morder sua mão, mas ele logo o atirou para trás de um balcão afastado. Claro que aquilo não passava de um bonequinho de borracha, mas, por um instante...! E o gesto dele foi exatamente o de quem pega a contragosto algum bichinho repulsivo e que morde. Olhei para Gip, mas Gip estava com o olhar pregado num cavalinho mágico. Alegrei-me por ele não ter visto aquela coisa.
Veja só — falei em voz baixa, indicando Gip e depois o diabinho vermelho com o olhar —, vocês não têm muitas dessas coisas por aqui, não?
Não, não é nosso! Provavelmente entrou aqui com o senhor — disse o lojista, também em voz baixa, e com um sorriso mais desconcertante do que nunca. — É espantosa a quantidade de coisas que conduzimos conosco sem perceber! — E virando-se para Gip: — E então? Algo lhe interessou?
Muitas coisas ali tinham interessado Gip.
Ele virou-se para o comerciante com uma mistura de confidencialidade e respeito.
Aquela é uma Espada Mágica? — perguntou.
Uma Espada Mágica de Brinquedo. Ela não curva, não quebra, nem corta os dedos. Ela pode tornar invisível durante uma batalha qualquer pessoa com menos de dezoito anos. O preço vai de meia-coroa até sete coroas e seis pence, de acordo com o tamanho. Aquelas panóplias são artigos para cavaleiros andantes muito jovens, e são muito úteis: escudo de segurança, sandálias de velocidade, elmo de invisibilidade.
Oh, pai! — exclamou Gip.
Tentei me informar sobre o preço, mas ele não me deu atenção. Tinha se voltado totalmente para Gip, o qual já havia largado meu dedo, e agora estava lhe mostrando todo o seu estoque como se nada pudesse impedi-lo. Daí a pouco percebi, com alguma desconfiança e uma ponta de ciúme, que Gip estava segurando o dedo daquele sujeito do modo como geralmente segura o meu. Sem dúvida era um indivíduo interessante, pensei, e tinha um estoque interessante de truques falsos, truques falsos muito bem-feitos, mas mesmo assim...
Fui acompanhando os dois, falando pouco, mas mantendo sempre um olho nas prestidigitações do sujeito. Afinal, Gip estava se divertindo. E sem dúvida quando quiséssemos ir embora poderíamos fazê-lo sem dificuldade.
Era um lugar enorme, desordenado, uma espécie de galeria cujo espaço era dividido por barracas, estandes, pilastras, e arcadas que conduziam a outras divisões, onde era possível ver ajudantes de aparência esquisita vagabundeando e olhando para nós; aqui e ali viam-se cortinas e espelhos de aparência estranha. Tudo era tão fora do comum que acabei me vendo incapaz de apontar a porta por onde tínhamos entrado.
O lojista mostrou a Gip trens mágicos que se moviam sem usar vapor ou mecanismos de relojoaria, bastando ligar o sinal; e algumas caixas muito valiosas de soldadinhos que começavam a se movimentar assim que se erguia a tampa da caixa e alguém dizia... bem, não tenho um ouvido muito bom, e era um som que parecia um travalínguas, mas Gip, que tem o ouvido da mãe, aprendeu bem rápido. “Bravo!”, exclamou o lojista, jogando os soldados de volta à caixa sem a menor cerimônia, e entregando-a a Gip. “Agora!”, disse e Gip fez com que voltassem a se mover.
Vai levar esta caixa? — perguntou o homem.
Sim, vamos levar, a menos que você cobre o preço total. Nesse caso vou precisar da ajuda de algum magnata.
Deus meu! Não! — exclamou o lojista, voltando a guardar os soldadinhos e fechando a tampa. Ele agitou a caixa no ar — e ali estava ela, envolta em papel pardo, amarrada, e com o nome e o endereço completos de Gip!
O homem riu ao ver o meu espanto.
Esta é a mágica genuína — disse. — A coisa de verdade.
É genuína demais para meu gosto — falei novamente.
Depois ele se dedicou a mostrar outros truques a Gip, truques bizarros, e feitos de um modo mais bizarro ainda. Ele explicava o método, revirava os objetos, e lá estava o meu garoto, abanando com firmeza a cabecinha, com ar de entendedor.
Eu não lhe dei a atenção que deveria dar. O Lojista Mágico dizia: “Hey, presto!”, e eu escutava sua voz de menino ecoando: “Hey, presto!” Mas minha atenção estava voltada para outras coisas. Eu começava a ter uma percepção mais clara do quanto aquele lugar era bizarro; ele era, para falar a verdade, impregnado por uma impressão tremenda de bizarrice. Havia algo de bizarro em sua própria aparência, no teto, no piso, nas cadeiras distribuídas ao acaso. Eu tinha a sensação esquisita de que quando não estava olhando diretamente para aquelas coisas elas mudavam, moviam-se, ficavam silenciosamente brincando de esconder às minhas costas. E a cornija era adornada por uma guirlanda de máscaras, que eram muito mais expressivas do que era possível a uma máscara de gesso.
De súbito, meu olhar foi atraído por um daqueles estranhos assistentes. Estava um pouco afastado, e sem se dar conta da minha presença — eu o avistava em diagonal, junto a uma pilha de brinquedos e através de uma arcada; ele estava encostado a um pilar numa atitude ociosa, e fazendo as coisas mais horríveis com o rosto! A mais horrível de todas era algo que ele fazia com o nariz. Fazia aquilo na atitude de quem não tem nenhuma tarefa para cumprir e está apenas se divertindo à toa. No começo o nariz era pequeno, bulboso, mas de repente ele se projetava para diante como um telescópio, e ia se alongando e se afinando até tornar-se uma espécie de chicote vermelho e flexível. Parecia uma coisa de pesadelo! Ele ficava fazendo floreios e atirando aquilo para diante, como um pescador que atira a linha de sua vara.
Pensei de imediato que Gip não deveria ver aquilo. Virei-me, e vi que ele estava completamente entretido pelo lojista, sem imaginar nada desagradável. Os dois conferenciavam em voz baixa e olhavam na minha direção. Gip estava de pé sobre um banquinho, e o lojista segurava na mão uma espécie de barril grande.
Vamos brincar de esconder, pai! — gritou Gip. — Você me procura!
E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para evitá-lo, o lojista o cobriu com o barril enorme. Percebi de imediato o que aconteceria.
Tire isso daí! — ordenei. — Agora! Vai assustar o menino. Tire-o daí!
O homem das orelhas desiguais me obedeceu sem dizer nada, e virou o barril na minha direção, mostrando que não havia nada dentro. E o banquinho também estava vazio! Bastara um segundo para meu filho desaparecer?...
Vocês conhecem, talvez, aquela sensação sinistra quando alguma coisa como uma mão enorme brota de um lugar desconhecido e aperta nosso coração. Sabem, portanto, que aquilo afasta de cena o Eu normal de um indivíduo e o deixa tenso, decidido, nem lento nem apressado, nem enfurecido nem com medo. Foi o que aconteceu comigo.
Fui na direção do lojista e dei um chute no banquinho, jogando-o para longe.
Pare com essa palhaçada — disse. — Onde está meu filho?
Está vendo? — disse ele, ainda mostrando o interior do barril. — Não há ilusão alguma...
Estendi a mão para agarrá-lo pela lapela, mas ele se esquivou, com um movimento ágil. Tentei de novo, e ele voltou a me evitar, e abriu uma porta para fugir.
Pare! — gritei, e ele recuou, rindo. Saltei para agarrá-lo, e mergulhei na escuridão.
Thud!
Meu Deus! Desculpe, senhor, não vi que estava aí!
Eu estava em Regent Street, e tinha acabado de esbarrar num operário, um homem de aparência decente; e a um metro de distância, talvez, e também numa atitude perplexa, estava Gip. Houve um rápido pedido de desculpas, e Gip virou-se para mim com um sorriso radiante, como se por alguns instantes tivesse me perdido de vista.
E carregava quatro pacotes embaixo do braço!
Imediatamente apossou-se do meu dedo.
Por um segundo fiquei completamente perdido. Olhei em redor à procura da porta da lojinha, e vejam só, não havia porta nenhuma ali! Nenhuma loja, nada, apenas uma pilastra comum separando a loja de fotografias e a loja com os pintos e as incubadoras!...
Fiz a única coisa que me foi possível no meio daquele tumulto mental. Fui direto até a beira da calçada e ergui meu guarda-chuva, chamando um cabriolé.
Vamos de carro! — exclamou Gip, no auge da exultação.
Ajudei-o a subir; com algum esforço lembrei-me do meu endereço para informar o cocheiro, e acomodei-me. Alguma coisa inesperada proclamava sua presença no bolso do meu casaco; extraí dele uma bola de vidro. Com um trejeito petulante, joguei-a pela janela do carro.
Gip não disse nada.
Durante algum tempo nenhum de nós falou.
Pai! — disse ele daí a pouco. — Aquela, sim, é que era uma loja!
Aquilo me serviu de deixa para começar a examinar de que maneira ele tinha visto todo o episódio. Ele me parecia ileso, e até aí, tudo bem; não estava assustado nem desorientado, estava, sim, tremendamente satisfeito com as aventuras daquela tarde, e trazia quatro pacotes apertados de encontro ao peito.
Que diabos! O que poderia haver dentro deles?
Hmmm... — falei. — Garotos não podem ir todos os dias a uma loja como aquela.
Ele recebeu isto com seu estoicismo habitual, e por um momento lamentei ser seu pai e não sua mãe, e não poder naquele mesmo instante, na rua, dentro do carro, dar-lhe um beijo. Afinal, pensei, a coisa não tinha sido tão grave.
Mas foi somente quando começamos a abrir os pacotes que me senti mais seguro. Três deles continham caixas de soldados, soldadinhos de chumbo bem comuns, mas de tão boa qualidade que Gip logo esqueceu terem sido eles, originalmente, parte de um truque mágico do tipo mais genuíno; e o quarto pacote continha um gatinho, um pequeno gatinho branco, vivo, com excelente saúde, excelente temperamento e um notável apetite.
Acompanhei a abertura dos pacotes com um alívio provisório, e fiquei por ali, pelo quarto do garoto, durante um tempo maior que o normal.
Isto aconteceu há seis meses. E agora estou começando a acreditar que tudo está bem. O gatinho tinha apenas a mágica natural de todos os gatos, e os soldados formam uma companhia tão confiável quanto a que qualquer coronel poderia desejar. E Gip?
Os pais mais inteligentes devem compreender que com Gip tenho que usar bastante cuidado.
O máximo que consegui, certo dia, foi isto. Falei:
Não gostaria que seus soldados ficassem vivos, Gip, e pudessem marchar sozinhos?
Os meus fazem isso — disse ele. — Basta que eu diga uma palavra que sei, antes de abrir a caixa.
E então eles marcham sozinhos por aí?
Oh, claro, pai. Eu não ia gostar se não fosse assim.
Não externei nenhuma surpresa inadequada, e desde então já por uma ou duas vezes me aproximei dele, sem avisar, enquanto brincava com os soldadinhos, mas não os vi se comportar magicamente.
É tão difícil perceber.
Há também a questão financeira. Tenho o hábito incurável de pagar minhas contas. Tenho percorrido Regent Street de cima a baixo, várias vezes, procurando a loja. Estou inclinado a considerar que, da minha parte, minha obrigação está cumprida, e, já que o nome e o endereço de Gip são conhecidos, posso deixar que essas pessoas, sejam elas quem forem, nos enviem a conta de acordo com a sua conveniência.

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias

27/03/2025

A história do falecido sr. Elvesham

  

 

Contarei esta história por escrito, não na esperança de que alguém acredite nela, mas, se for possível, para dar uma chance de fuga à próxima vítima. Ela, talvez, possa lucrar alguma coisa com a minha desventura. Meu próprio caso é sem esperança, e agora eu estou, até certo ponto, resignado a aceitar o meu destino.

Meu nome é Edward George Eden. Nasci em Trentham, em Staffordshire, onde meu pai trabalhava como jardineiro. Perdi minha mãe aos três anos de idade e meu pai aos cinco; meu tio, George Eden, adotou-me como filho. Era um homem solteiro, autodidata, e bastante conhecido em Birmingham como jornalista bem-sucedido. Educou-me com generosidade, estimulou minha ambição para ir em busca do sucesso, e ao morrer, o que aconteceu quatro anos atrás, deixou para mim toda a sua fortuna, um total de cerca de quinhentas libras esterlinas, depois de pagos todos os impostos. Eu tinha dezoito anos. Ele me aconselhou, em seu testamento, a usar aquele dinheiro para completar minha educação. Eu já escolhera a medicina como minha carreira profissional, e graças à sua generosidade póstuma e à minha sorte em ser vencedor de um concurso de bolsas de estudo, tornei-me estudante do curso médico do University College, em Londres. Na época em que a presente história teve início, eu morava num pequeno quarto alugado no andar superior do 11-A na University Street, um quarto cheio de correntes de ar, com mobília modesta, que dava para os fundos das instalações da Shoolbred. Eu vivia e dormia naquele quartinho, porque estava ansioso para fazer render cada centavo dos meus recursos.

Estava levando um par de sapatos para consertar numa tenda de sapateiro em Tottenham Court Road quando encontrei pela primeira vez o homem baixinho, de rosto amarelado, com quem minha vida passaria a estar indissoluvelmente ligada. Ele estava parado no meio-fio, olhando para o número na porta, com ar dubitativo, quando a abri. Seus olhos — eram olhos cinzentos, inexpressivos, raiados de vermelho sob as pálpebras — pousaram no meu rosto, e suas feições imediatamente assumiram uma expressão de corrugada amabilidade.

O senhor surgiu no momento mais adequado — disse ele. — Eu havia esquecido o número de sua casa. Como vai, sr. Eden?

Fiquei um tanto surpreso em ser tratado com tamanha familiaridade, porque nunca antes tinha posto os olhos naquele homem. Fiquei contrariado, também, por ter sido surpreendido com um par de botas embaixo do braço. Ele percebeu minha falta de cordialidade.

Ah, está imaginando que diabo sou eu, não é mesmo? Sou um amigo, posso lhe garantir. Já o vi antes, embora o senhor não tenha me visto. Há algum lugar onde possamos conversar um pouco?

Hesitei. Meu quarto no andar de cima não era um lugar para onde se pudesse convidar um estranho.

Talvez — falei — possamos caminhar pela rua. Infelizmente não posso... — Meu gesto explicou tudo antes mesmo que eu completasse a frase.

Isso mesmo — disse ele, olhando a rua numa direção, depois na outra. — Pela rua? Para lá, ou para cá? — Guardei minhas botas na passagem, e ao sairmos ele falou: — Olhe só, este assunto que tenho com você é meio complicado de explicar. Venha almoçar comigo, sr. Eden. Sou um homem idoso, muito idoso, e não sou muito bom para dar explicações. Minha voz é fraca, e com este barulho do tráfego…

Ele pousou no meu braço uma mão magra e um pouco trêmula.

Eu não era tão velho que um homem mais idoso não pudesse me pagar um almoço. Mas ao mesmo tempo não me sentia à vontade com um convite tão abrupto.

Eu preferiria... — comecei a dizer.

Mas eu prefiro — disse ele, interrompendo-me. — E sem dúvida meus cabelos brancos merecem uma certa deferência.

Concordei, e o acompanhei.

Ele me levou ao Blavitiski’s; tive que reduzir meu passo habitual para poder caminhar lado a lado com ele; e depois, durante um almoço que eu jamais provara igual, ele evitou minhas perguntas, e tive um pouco mais de tempo para observar melhor sua aparência. Seu rosto bem-barbeado era magro e cheio de rugas, seus lábios engelhados pousavam sobre uma dentadura postiça, e seu cabelo branco era ralo e um tanto comprido; ele me pareceu um homem pequeno, embora eu reconheça que a maior parte das pessoas me parece de baixa estatura; e seus ombros eram curvados. Olhando-o, não pude deixar de perceber que ele também me observava com um olhar avaliador; seus olhos corriam sobre mim com certa expressão de cobiça, indo dos meus ombros largos às minhas mãos bronzeadas, e erguendo-se novamente até meu rosto coberto de sardas.

E agora — disse ele, quando acendemos nossos cigarros — vamos ao assunto que nos trouxe aqui. — Ele fez uma pausa. — Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que sou um homem muito idoso. — Fez uma pausa. — E acontece que tenho bastante dinheiro, um dinheiro que terei de deixar para alguém, mas não tenho filhos que possa tornar meus herdeiros.

Comecei a pensar em algum conto do vigário, e decidi ficar em estado de alerta para proteger o que me restava de minhas quinhentas libras. Ele começou a falar longamente sobre sua vida solitária, e a dificuldade em dar um destino adequado ao seu dinheiro.

Examinei este e aquele plano — disse. — Organizações de caridade, instituições beneficentes, programas de bolsas de estudo, bibliotecas, e acabei chegando a uma conclusão. — Cravou os olhos no meu rosto. — Preciso encontrar um indivíduo jovem, ambicioso, de boas intenções, e pobre; mas sadio do corpo e da mente, e fazer deste jovem o meu herdeiro, deixar para ele tudo o que tenho. — Ele repetiu: — Deixar para ele tudo o que tenho. De modo que ele se veja livre de todas as ansiedades que ocuparam seu espírito até agora, e adquira liberdade e poder de influência.

Tentei parecer desinteressado. Com evidente hipocrisia, falei:

E o senhor quer minha ajuda, meus serviços profissionais talvez, para encontrar essa pessoa.

Ele sorriu, e me deu um tal olhar por cima do cigarro que soltei uma gargalhada diante do modo como desmascarou meu fingimento.

Que bela carreira um homem pode seguir nessas condições! — disse ele. — Sinto inveja ao pensar que tudo aquilo que acumulei vai ser gasto por outro homem. Mas há condições a cumprir, é claro. Ele deve, por exemplo, passar a usar meu próprio nome. Não se pode querer ganhar tudo sem dar alguma coisa em troca. E eu preciso conhecer a fundo todos os aspectos de sua vida antes de aceitá-lo como herdeiro. Ele deve ser sadio. Devo conhecer bem os seus traços hereditários, saber como morreram seus pais e seus avós, examinar a fundo sua vida privada e seu comportamento moral…

Isto começou a relativizar um pouco minhas comemorações íntimas.

Devo então presumir — falei — que eu...?

Sim — disse ele. — Você. Você.

Não falei nada. Minha imaginação estava dançando, arrebatada, e meu ceticismo inato estava impotente para controlar seus voos. Não havia uma só partícula de gratidão em minha mente; eu não sabia o que dizer nem como dizê-lo.

Mas por que eu, justamente eu? — perguntei finalmente.

Ele explicou que ouvira o professor Haslar falar a meu respeito, dizendo que me considerava um rapaz sadio e equilibrado, e que o seu desejo era, na medida do possível, deixar sua fortuna para alguém de comprovada saúde e integridade.

Este foi o meu primeiro encontro com aquele homenzinho. Ele mantinha um certo mistério em torno de si; não quis me dizer como se chamava, e, depois que respondi mais algumas de suas perguntas, deixou-me parado na porta do Blavitiski. Percebi que, ao pagar o almoço, ele puxou do bolso um punhado de moedas de ouro. Sua insistência a respeito de uma perfeita saúde física era curiosa. Pelo acordo que firmamos naquele almoço, no dia seguinte fiz um vultoso seguro de vida na Loyal Insurance Company, e fui exaustivamente examinado pelos médicos dessa companhia durante a semana seguinte. Mesmo assim ele não ficou satisfeito, e insistiu que eu deveria ser reexaminado pelo famoso Dr. Henderson. Era a sexta-feira da semana de Pentecostes quando ele chegou a uma decisão. Foi à minha casa no começo da noite, pouco antes das nove, numa hora em que eu estava mergulhado em equações de químa, preparando-me para minha prova do Exame Preliminar. Desci ao seu encontro, eu encontrei no portal, iluminado pela luz fraca do lampião a gás, que projetava no seu rosto uma mistura grotesca de sombras. Parecia ainda mais encurvado do que na primeira vez em que eu o encontrara, e seu rosto estava mais fundo.

Sua voz vibrava de emoção.

Está tudo satisfatório, sr. Eden — disse ele. — Tudo muito, muito satisfatório. E nesta noite, nesta noite especial, o senhor vai jantar comigo, para celebrar seu... seu acesso. — Foi interrompido por um acesso de tosse. — Não vai ter que esperar muito, na verdade — continuou, passando um lenço sobre os lábios, e agarrando meu braço com a outra mão, uma mão longa e ossuda. — Certamente não vai ter muito que esperar.

Fomos até a rua e chamamos um cabriolé. Lembro vividamente cada detalhe daquele passeio, o nosso rápido avanço pelas ruas, o vívido contraste entre a iluminação a gás, as lâmpadas a óleo e as luzes elétricas, as multidões percorrendo as ruas, o local em Regent Street onde descemos, e o suntuoso jantar que nos foi servido ali. A princípio eu estava pouco à vontade, percebendo os olhares que os garçons, todos bem-vestidos, dirigiam às minhas roupas descuidadas; não sabia o que fazer com os caroços das azeitonas; mas aos poucos o champanhe foi me aquecendo o sangue, e minha autoconfiança ressurgiu. De início, o velho falou apenas de si mesmo. Já me dissera seu nome, durante o trajeto: era Egbert Elvesham, o grande filósofo, cujo nome me era familiar desde que eu era colegial. Parecia-me inacreditável que esse homem, cuja inteligência desde cedo tinha fascinado a minha, que essa abstração se erguesse de súbito à minha frente, nessa figura decrépita que agora já me era familiar. Atrevo-me a dizer que qualquer jovem que em certo momento se viu no meio de celebridades experimenta um pouco desse desapontamento. Ele me falou a respeito do futuro que a interrupção do fio de sua existência faria passar para as minhas mãos: casas, direitos autorais, investimentos; eu jamais imaginara que os filósofos fossem tão ricos. Ele me observava beber e comer, com um olhar de inveja.

Que capacidade de viver o senhor tem! — disse; e depois, com um suspiro, que me pareceu um suspiro de alívio: — Não vai demorar muito.

Oh, sim — falei, inebriado pelo champanhe. — Pode ser que eu tenha um futuro. Um futuro muito agradável, graças ao senhor. E terei a honra de herdar seu nome. Mas o senhor tem um passado. Esse passado vale por todo o meu futuro.

Ele balançou a cabeça e sorriu, pareceu-me então, agradecendo, com um laivo de tristeza, a admiração que eu manifestara.

Esse futuro — disse ele —, gostaria de trocá-lo? — O garçom aproximou-se trazendo o licor. — Não se incomodaria, talvez, de assumir não apenas meu nome, minha posição, mas seria capaz de por vontade própria assumir também a minha idade?

H. G. Wells, em O país dos cegos e outras histórias