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18/11/2022

Adeus às Armas | 3


Quando voltei para o front ainda ocupávamos aquela cidade. Havia muito mais canhões na área, e já estávamos na primavera. Os campos estavam reverdecidos, e pequenos brotos verdes nasciam nas vinhas. As árvores ao longo da estrada estavam recobertas de folhas tenras e uma brisa chegava do mar. Vi a cidade com o monte e o castelo acima dela, acomodada numa bacia, entre os montes e as montanhas mais além — montanhas pardacentas com algum verde nas encostas. Na cidade, mais canhões, alguns hospitais novos, ingleses pelas ruas e, às vezes, mulheres; e havia mais casas destruídas pelas bombas. Estava mais quente, bem primaveril, e desci a alameda arborizada, sentindo o calor do sol refletido nas paredes. Descobri que ainda estávamos morando na mesma casa e que tudo parecia igual, bem como eu deixara. A porta estava aberta, e havia um soldado sentado no banco, do lado de fora, tomando sol; uma ambulância estava estacionada perto da porta lateral, e, quando entrei, senti o cheiro de chão de mármore e de hospital. Estava tudo igual a antes, só que agora estávamos na primavera. Pela porta do salão, avistei o major sentado à secretária, perto da janela por onde entrava o sol. Ele não me viu, e fiquei sem saber se entrava para lhe falar ou se subia, antes, para me lavar. Resolvi subir.
O quarto que eu dividia com o tenente Rinaldi dava para o pátio. A janela estava aberta, minha cama arrumada, com cobertores, e minhas coisas penduradas na parede, a máscara contra gás na sua latinha oblonga, o capacete de aço no mesmo prego. Junto ao pé da cama, a minha canastra achatada, com as minhas botas de inverno, com o couro bem-engraxado e brilhante sobre ela. A espingarda de caça austríaca, de cano octogonal e linda coronha de nogueira com encaixe para a face, modelo de competição, estava pendurada entre as duas camas. O telescópio da mira que encaixava na espingarda, lembrei, estava dentro da canastra fechada. O tenente Rinaldi estava em sua cama. Ele acordou quando me ouviu entrar e sentou-se.
Ciao! Como foi por lá?
Ótimo.
Apertamos as mãos, Rinaldi pôs os braços em volta do meu pescoço e me beijou.
Argh!
Você está imundo! Precisa de um banho — disse ele. — Por onde andou e o que esteve fazendo? Conte tudo, vamos!
Estive em muitos lugares… Milão, Florença, Roma, Nápoles, Villa San Giovanni, Messina, Taormina…
Do jeito que fala, parece uma tabela de estações de trem. E as garotas?
Ah, sim.
Onde?
Em Milão, Florença, Nápoles, Roma...
Chega! Conte apenas qual foi a melhor delas.
Bem, foi em Milão.
Só porque foi a primeira. Onde a encontrou? Na Cova? E para onde foram? O que você achou dela? Ficaram juntos a noite inteira?
Ficamos.
Grande coisa! Agora temos lindas garotas por aqui. Garotas que nunca estiveram no front.
Ótimo.
Não está acreditando? Vamos até lá esta tarde, e você vai ver. E na cidade temos belas moças inglesas. Ando de amores com uma tal senhorita Barkley. Quero que a conheça. Acho que vamos acabar nos casando.
Bom, tenho de tomar banho e me apresentar ao major. Ninguém trabalha mais por aqui?
Desde que você saiu de licença, nada, a não ser frieiras, icterícias, congelamentos, gonorreias, ferimentos voluntários, pneumonia, cancros moles e cancros duros. Toda semana aparece um ferido por fragmento de pedra, mas há alguns feridos de verdade. Na próxima semana, a luta vai recomeçar. Quer dizer, é o que dizem. Acha que devo mesmo me casar com a senhorita Barkley… depois da guerra, claro.
Sem a menor dúvida! — exclamei, enchendo de água a bacia.
Esta noite você vai me contar tudo — continuou Rinaldi. — Agora tenho de voltar à soneca para me apresentar belo e bem-disposto à senhorita Barkley.
Despi a túnica, a camisa e me lavei na água gelada da bacia. Enquanto me esfregava com a toalha, corri os olhos pelo quarto, pelo que se via da janela e pelo tenente já de olhos fechados. Era um rapaz de boa aparência, tinha minha idade e vinha de Amalfi. Queria tornar-se cirurgião, e éramos grandes amigos. Eu o estava observando quando ele abriu os olhos.
Tem algum dinheiro? — perguntou-me.
Tenho.
Pode me emprestar cinquenta liras?
Enxuguei as mãos e tirei a carteira do bolso da túnica pendurada na parede. Rinaldi pegou a cédula, dobrou-a sem erguer-se da cama e meteu-a no bolso da calça. Ele sorriu:
Tenho de dar à senhorita Barkley a impressão de ser um homem de posses. Você é meu grande amigo e protetor financeiro.
Vá para o inferno.
Naquela noite, no rancho, sentei-me junto ao padre. Ele estava muito desapontado, e até magoado, por eu não ter ido aos Abruzzos. Havia escrito ao pai avisando sobre a minha chegada, e fizeram preparativos por lá. Fiquei aborrecido comigo mesmo e acabei me atrapalhando para explicar por que não fora. Eu pretendia ir até lá, mas aconteceram coisas, uma atrás da outra. No final das contas, ele se convenceu de que eu realmente tinha tido a intenção de ir à sua terra e ficou quase tudo bem entre nós. Bebi bastante vinho e, depois, café e Strega. Já tocado pela bebida, comecei a explicar como acabamos deixando de fazer o que queremos, como é justamente o que nunca chegamos a fazer.
Ficamos conversando, eu e o padre, enquanto os outros discutiam. Queria ter ido aos Abruzzos, porque nunca estivera num lugar onde as estradas ficassem tão geladas, que acabavam duras como aço, onde o céu fosse claro, apesar do frio seco e da neve farinhenta, e os camponeses tirassem o chapéu e se dirigissem a nós com um Meu Senhor; e onde houvesse boa caça. Acabei não indo, mas estive em muitos cafés fumacentos e atravessei noites em que o quarto começava a girar e eu precisava fixar os olhos numa parede, para fazê-lo parar, e noites na cama, bêbado, sabendo que tudo se resumia apenas àquilo, e com a estranha excitação de acordar sem saber quem estava dormindo comigo, e, ainda, o mundo se tornando irreal, no escuro, e tão fantástico, que é preciso recomeçar, tudo da mesma maneira, sem saber de nada, não cuidando de mais nada, porque tudo é aquilo e somente aquilo, e isso não faz diferença. De repente, faz diferença importar-se, sim, e dormir e acordar com isso em mente, em algum momento da manhã, e perceber que tudo desaparecera, e tudo certo, nenhuma dúvida, salvo alguma discussão sobre o preço. Às vezes, o café da manhã é agradável, carinhoso, aconchegante, e também o almoço. E às vezes tudo quanto é agradável se esvai, vamos para a rua, e outro dia começa, e outra noite. Tentei dizer a ele algo sobre a noite e a diferença entre noite e dia, e como a noite era melhor, a não ser que o dia fosse muito límpido e fresco, e não pude explicar nada, como também não estou explicando agora. Mas para quem já experimentou é fácil saber. O padre nunca havia experimentado, mas mesmo assim compreendeu que eu de fato quisera ir para os Abruzzos, mas não conseguira, e continuávamos os amigos de sempre, com muitos gostos semelhantes e algumas diferenças nos separando. Ele sempre sabia o que eu ignorava e o que, mesmo quando eu vinha a saber, logo me esquecia. Mas eu não sabia disso naquela época; só descobri depois. Naquele momento, estávamos todos no rancho, onde fizemos a refeição e a conversa pegou fogo. Paramos de falar, e o capitão berrou:
Padre não alegre. Padre nunca alegre sem garotas.
Estou alegre — afirmou o sacerdote.
Padre não alegre. Padre quer austríacos ganhar a guerra — ajuntou o capitão, fazendo o padre negar. Os outros ouviam.
Padre quer nós não atacar nunca. Então quer nós não atacar?
Se isto é guerra, acho que temos de atacar.
Temos de atacar e atacaremos.
O padre assentiu com a cabeça.
Deixem ele em paz! — gritou o major. — É um bom sujeito.
E não pode fazer nada sobre este assunto — concluiu o capitão.
Todos nos levantamos e deixamos a sala.

Ernest Hemingway, in Adeus às Armas

11/11/2022

Adeus às Armas


1

No final do verão daquele ano, ocupávamos uma casa, numa aldeia, de onde, além do rio e da planície, víamos as montanhas. O leito do rio era coberto de cascalho e de pedras, que ao sol pareciam secos e esbranquiçados. A água era muito límpida, ligeira e bastante azul nos pontos mais fundos. As tropas passavam pela casa, seguindo estrada abaixo, e a poeira que erguiam salpicava as folhas das árvores. Também os troncos das árvores estavam empoeirados. As folhas caíram cedo naquele ano. Víamos as tropas em marcha pela estrada, a poeira se levantando e as folhas caindo ao sopro do vento, e, depois que os soldados passavam, a estrada ficava branca e nua, exceto pelas folhas.
A planície abundava de plantações; muitos pomares com árvores frutíferas e, para além da planície, as montanhas pardas e calvas. Havia luta nas montanhas, e, à noite, podíamos enxergar os clarões da artilharia. Na escuridão, pareciam os relâmpagos do verão, mas as noites eram frias e não havia aquela sensação de uma tempestade chegando.
Às vezes, na escuridão, ouvíamos o rumor de tropas em marcha logo abaixo da janela, com os canhões puxados por tratores. Havia muito tráfego à noite e muitas mulas nas estradas com caixas de munição em ambos os flancos de suas selas, e caminhões cinzentos, cheios de homens, alguns com a carga coberta de lona, desfilando lentamente. Havia ainda grandes canhões, que passavam de dia, puxados por tratores, os longos canos camuflados de arbustos e galhos cobertos de folhas, além de videiras sobre os tratores. Olhando para o norte, víamos, além da planície, uma floresta de castanheiros; depois, a montanha, daquele lado do rio. Também houve muita luta pela posse daqueles morros, mas sem resultado; e no outono, com a chuva, caíram todas as folhas dos castanheiros. Os galhos estavam despidos e os troncos enegrecidos pela chuva. Os vinhedos tornaram-se também varas finas e desnudas, e por toda a região pairava a tristeza da chuva e da morte, algo típico do outono. Havia névoa sobre o rio e nuvens na montanha distante. Os caminhões chapinhavam e espirravam lama, e os soldados passavam sujos de barro e molhados, em seus capotes; os rifles estavam encharcados, e, por debaixo dos capotes, as duas patronas de couro cinzento na frente do cinturão, bastante pesadas, com os cartuchos de 6.5 mm, alongados e finos, estufavam tanto suas silhuetas, que faziam os homens em marcha parecerem grávidos de seis meses.
Pequenos automóveis cinzentos passavam ligeiros. Na maioria das vezes, havia um oficial no assento do lado do motorista e outros no assento traseiro. Os automóveis espirravam mais lama do que os caminhões; e se um dos oficiais do banco traseiro fosse muito baixo e viesse entre dois generais, mesmo sendo tão pequeno que não conseguíssemos ver seu rosto, mas apenas o quepe e suas costas estreitas, e se esse carro, ainda, estivesse correndo mais do que os outros, provavelmente este oficial seria o rei. Ele fixara-se em Udine e passava por ali quase todo dia para checar pessoalmente como andavam as coisas. E as coisas iam mal.
No início do inverno, vieram as chuvas ininterruptas, e com as chuvas chegou o cólera. Felizmente a epidemia foi combatida a tempo, e apenas sete mil soldados morreram vítimas dela.

2

No ano seguinte houve muitas vitórias. As montanhas para além do vale e a encosta onde cresciam os castanheiros foram capturadas, e também houve vitórias além da planície, no platô ao sul. Em agosto, cruzamos o rio e nos instalamos numa casa em Gorizia, com jardim murado bem-sombreado, uma fonte e videiras de glicínias roxas num dos lados da residência. A luta estava agora nos morros a pouco mais de um quilômetro e meio dali. A cidade era bonita, e nossa casa muito confortável. O rio passava pelos fundos, e a cidade fora capturada com facilidade, mas não foi possível tomarem os morros, e fiquei satisfeito com a impressão dada pelos austríacos de que desejavam voltar à cidade depois da guerra, se é que a guerra terminaria algum dia, porque não a bombardearam a ponto de destruí-la, mas só o necessário aos fins militares. Havia gente morando lá, e hospitais, cafés e artilharia em vários pontos, e ainda dois bordéis, um para os oficiais, outro para os soldados. Com o fim do verão, vieram as noites frias, a luta nas montanhas próximas, o bombardeio da ponte da estrada de ferro e a destruição do túnel perto do rio onde houve luta. E tudo — as árvores ao redor da praça e a longa avenida arborizada que dava nela, além das moças da cidade e o rei passando em seu automóvel, às vezes agora dando para enxergar seu rosto e seu corpo pequeno, mas com pescoço comprido, e sua barba grisalha como uma barbicha de bode, e mais os súbitos relances dos interiores das casas que haviam perdido algumas das paredes com os bombardeios, com reboco e entulho às vezes espalhados pelos jardins e pelas ruas, e com a coisa indo bem no Carso — acabou fazendo aquele outono muito diferente do anterior, que eu também passara na região. A guerra também havia mudado.
A floresta de carvalhos, nas montanhas para além da cidade, já não existia. Era uma floresta verde, no verão, quando chegamos, mas estava agora reduzida a tocos de árvore, a troncos caídos, a chão revolto. E num dia do fim do outono, quando eu estava andando pelo lugar que fora uma floresta, vi uma nuvem vindo sobre a montanha. Avançava depressa, e o sol ficou amarelo-pálido. Tudo se tornou cinzento, o céu se encobriu, e a nuvem desceu sobre a montanha. Subitamente, estávamos dentro dela, e era neve. Vinha arrastada pelo vento e logo forrou o chão, com os tocos de árvore sobressaindo. Havia neve até sobre os canhões, e trilhas de neve amassada, indo até as latrinas, atrás das trincheiras.
Mais tarde, na cidade, fiquei vendo a neve cair, da janela de um dos bordéis — o bordel dos oficiais —, onde me sentara com um amigo e dois copos, mais uma garrafa de vinho Asti. Olhando toda aquela neve, caindo lenta e pesadamente, tivemos a certeza de que se passara um ano inteiro. Rio acima, as montanhas não haviam sido tomadas; nenhuma delas. Isso fora deixado para o ano seguinte. Meu amigo viu o padre do nosso regimento passando pela rua, caminhando cauteloso sobre a neve lisa, e bateu na vidraça para atrair sua atenção. O padre levantou os olhos. Ele nos avistou e sorriu. Meu amigo fez-lhe sinal para que entrasse. O padre balançou a cabeça recusando o convite e seguiu seu caminho. Nessa noite, no rancho, o capitão começou a implicar com o padre; isso, depois do espaguete, que todos comiam com muita rapidez, e sérios, erguendo os fios no ar com o garfo, até que estivessem totalmente soltos, e baixando-os para dentro da boca, ou sugando-os e engolindo-os sem cortar, e servindo-nos do vinho daqueles garrafões recobertos de palha trançada. O garrafão estava pendurado em um balanço de metal, e tudo que se precisava fazer era baixar a parte superior da garrafa com o dedo indicador para que o vinho vermelho e límpido, tânico e delicioso, enchesse o copo, que a mesma mão segurava.
Era um padre jovem, que corava com facilidade e usava o mesmo uniforme que nós, mas com uma cruz de veludo vermelho sobre o bolso de cima da túnica cinza. Por duvidosa cortesia, o capitão falava um italianês, para que eu pudesse entender tudo o que era dito.
Padre hoje com garotas — disse o capitão, olhando para mim e para o padre, que sorriu e corou, sacudindo negativamente a cabeça. Este capitão vivia implicando com ele.
Não verdade? Vi hoje padre com garotas — insistiu ele.
Não! — protestou o padre, enquanto os outros oficiais à mesa riam da brincadeira.
Padre não com garotas — continuou o capitão. — Padre nunca garotas — disse, voltando-se para mim. Tomou meu copo e o encheu, olhando-me nos olhos o tempo todo, mas sem perder de vista o padre.
Padre toda noite cinco contra um, compreende? — continuou, e toda a mesa riu. — Compreende? Padre toda noite cinco contra um — disse, fazendo com a mão um gesto muito expressivo. O padre não se ofendeu com a piada.
O Papa quer que os austríacos ganhem a guerra — interveio o major. — Ele gosta do Francisco José, porque é de onde vem o dinheiro. Eu sou ateu.
Já leu Black Pig? — perguntou-me o tenente. — Posso lhe arranjar um exemplar. Foi o que escangalhou a minha fé.
É um livro infame e imundo — protestou o padre. — Não acredito que goste dele.
É ótimo! Conta tudo a respeito desses padres. Você vai gostar — replicou o tenente para mim. Comecei a rir, e, do outro lado da mesa, o padre fez o mesmo.
Não leia essa droga — aconselhou-me.
Vou arranjar um exemplar para você — insistiu o tenente.
Todos os homens que usam os cérebros são ateus — tornou o major. — Mas não acredito nos maçons.
Pois eu acredito — declarou o tenente. — A maçonaria é uma instituição de valor.
Alguém entrou na sala, e pela porta entreaberta pude enxergar a neve caindo.
Com a neve já começando a cair, não teremos mais ofensivas este ano — opinei.
Claro que não — confirmou o major. — Você pode tirar uma licença e ir a Roma, Nápoles... Sicília...
Devia visitar Amalfi — aparteou o tenente. — Minha família mora lá e posso mandar uma carta para eles recomendando você. Vão recebê-lo como a um filho.
Melhor é ir a Palermo.
Ou a Capri.
Eu gostaria que você fosse aos Abruzzos e visitasse minha gente em Capracotta — sugeriu o padre.
Abruzzos, que ideia! Lá tem mais neve do que aqui. O tenente não quer ver camponeses. Deixe-o ir aonde tenha cultura e civilização.
Do que ele precisa é encontrar umas belas garotas. Tenho ótimos endereços em Nápoles. Lindas pequenas, das que andam acompanhadas pelas mães. Rá! Rá! Rá! — disse o capitão, gargalhando, e espalmou a mão no ar, com o polegar para cima e os dedos bem separados, como quando se quer projetar sombras na parede. A sombra de sua mão ficou na parede. Ele voltou a falar em seu italianês:
Você vai assim — e indicou o polegar — e volta assim — e indicou o mindinho. Todos riram muito.
Olhe — disse o capitão, e de novo abriu bem os dedos, e de novo a luz da vela projetou sombras na parede. Ele começou pelo polegar levantado, nomeando todos os dedos… — Este é o soto-tenente (o polegar); este, o tenente (o indicador); este, o capitano (o maior de todos); este, o maggiore (o seu vizinho); e este, o tenente-coronelo (o mindinho). Você vai soto-tenente e volta soto-coronelo! — Todos riram; o capitão fazia sucesso com suas piadas sobre dedos. Ele encarou o padre e repetiu: — Todas as noites, cinco contra um.
Novas risadas.
Precisa tirar a sua licença o quanto antes — disse o major.
Gostaria de ir com você para lhe mostrar as coisas — advertiu o tenente.
Quando voltar, traga um fonógrafo.
E discos de ópera.
Mas não o Caruso. Ele berra.
E você não gostaria de berrar feito ele?
Ele berra. É o que eu digo. Ele berra!
Eu gostaria que você fosse para os Abruzzos — repetiu o padre. Os outros continuavam gritando. — Há boa caça por lá. Gente ótima. É muito frio, mas um frio seco e saudável. Ia poder ficar com a minha família. Meu pai é um famoso caçador.
Bom, vamos — avisou o capitão. — Temos de chegar no bordel antes que feche.
Boa-noite — disse eu para o padre.
Boa-noite — respondeu ele.

Ernest Hemingway, in Adeus às Armas