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10/03/2013

Amor

Na calma da tarde
vem um pensamento.
partir para sempre.
Só. No adeus do vento.

Vão as velas côncavas
sobre o mar aberto
vão levando o amor
ao destino certo;

Turva calmaria
afunda o verão.
Naufragado amor.
O amor é somente
umas dessas cousas
que vêm e que vão.
H. Dobal

21/12/2012

Chuva

Chuva na Árvore Wallpaper
Imagem: Google

A chuva cata segredos
nas folhas vivas da tarde.
O leve passar do vento,
o lento passar do tempo
nas folhas vivas da tarde.
E a chuva a chuva,
as águas doces da chuva,
no lento apodrecer
das folhas mortas da tarde
vão despertando os segredos da vida.
H. Dobal, poeta piauiense

02/12/2012

Cantiga de viver

Sozinho na cama
um homem espera sua hora.
A inesperada hora de tantos.

A vida é uma cantiga triste
mais triste e à-toa que a das andorinhas
— las oscuras golondrindas
tão mal vivida
tão mal ferida
tão mal cumprida.

A vida é uma cantiga alegre:
o primeiro sorriso de cada filho
e todos os microamores
que inutilizam
a vitória da morte.
H. Dobal, poeta piauiense

28/11/2012

Os namorados

Esta elegia para os namorados
que andam em silêncio pela praça morta,
de passo leve, incerto como o sonho
a que se entregam solitariamente.

É triste e breve como os namorados
e o seu amor de adolescência. morta
toda a ternura ficará e o sonho
também surgindo solitariamente.

Que este silêncio vence os namorados,
como um aviso fúnebre e fatal,
aparecendo em meio aos carinhos.

Lembrando amor e sonho abandonados
e o riso frágil, rápido, irreal:
“tanto mais juntos quanto mais sozinhos”.
H. Dobal, poeta piauiense

22/11/2012

Ruínas

Estas velhas paredes não confessam
à brisa sem memória os seus segredos.
A pedra construída sobre a pedra,
numa estranha argamassa reforçada
por suor de escravo e óleo de baleia,
como se alguém quisesse levantar,
contra o sereno da noite,
contra a ferrugem do mar,
uma alvenaria libertada
de tudo o que a morte corrompe.
Mas pouco permanece. Estas paredes
vão-se abatendo semidestruídas
pelo puro movimento dos dias.

Bate na tarde um vento claro,
bate no peito uma lembrança
que estas paredes não confessam:
A vida. A mágoa sem remédio. O jogo do amor,
talvez mais difícil naquele tempo.
H. Dobal, poeta piauiense

17/11/2012

Factus est

O que fez o verão também fez
esta água parada água de mal viver.
Fez o dia de cacto e macambira, o dia de sono e sol
sobre a sombra dos pequizeiros. Fez a luz nos olhos
das onças pretas. Os bichos bravos
pisando macio nas folhas secas. As passadas fundas
na areia das trilhas
onde os comboios de jumentos
levaram suas cargas
de carne-seca, farinha e rapadura.
O que fez da vida a selva escondida nos troncos
sob o sol. Fez os olhos da pedra
que vence os verões. Fez as palhas da carnaúba
e as águas cortadas
águas mornas
água de barro
água de cacimba
que a sede não refuga.
O que parou as águas fez irreal este silêncio
dos chapadões. Fez os bichos obstinados
de sol e de poeira: as cabras as formigas
os cupins o homem sóbrio
e os seus dias de mal viver.
H. Dobal, poeta piauiense