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21/02/2022

Coisa de mãe

Vez por outra ela duvida
até do nosso amor,
fazendo drama e falando
como quem sente uma dor:
– “Um dia, quando eu morrer,
é que tu vai aprender
e talvez me dar valor.”

Por mais que exista amor,
por mais que exista afeto,
um fato que deixa a gente
preocupado e inquieto
é quando a mãe pronuncia
sem nenhuma alegria
o nosso nome completo!

Quando a gente quer sair,
bate um receio profundo.
Pede à mãe cheio de medo
e nesse exato segundo
diz que “todo mundo vai”
e a resposta dela sai:
– “Você não é todo mundo!”

Tem outra situação
difícil e muito adversa.
Às vezes no mei da rua
a mãe também é perversa
quando ela aponta o dedinho
e diz assim bem baixinho:
– “Em casa a gente conversa.”

Por mais que a gente estude,
que tenha dedicação,
o boletim todo azul
ela olha com atenção
e fala sem gaguejar:
– “Tem mesmo é que estudar.
Não fez mais que a obrigação!”

Se acaso a gente perder
coisa boba ou coisa rara,
ela ativa um radar
potente que nunca para
e diz: – “Se eu for procurar,
garanto que vou achar
e esfregar na sua cara.”

Quando a gente chega perto,
faz um carinho qualquer,
e diz: – “Mãe, vou te amar
enquanto vida tiver!”
Ela responde ligeiro:
– “Hoje eu não tenho dinheiro.
Diga logo o que tu quer!”

Coisa de mãe é dizer:
Você vai se machucar.
Cadê o troco, menino?
Mais tarde vai esfriar.
Só vou contar até três!
Bagunçou, vai arrumar.

Já pegou o guarda-chuva?
Eu não sou sua empregada.
Engole esse choro agora!
Eu nunca estou enganada.
Na volta a gente compra.
Você não ajuda em nada!

Coisa de mãe é ser cura
pra aliviar qualquer dor.
Coisa de mãe é o abraço
mais forte e mais protetor.
Coisa de mãe é cuidar,
coisa de mãe é amor.

Bráulio Bessa, in Um carinho na alma

08/06/2021

Minha mãe

Todo mundo gosta de beleza. Até os pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs. Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que, segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado. As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado: “Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava. Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir: “Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído, guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus. Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao contrário...
Ela também me contava estórias. Uma delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro, ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”. Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica! E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .

Rubem Alves, in O velho que acordou criança

24/09/2016

A voz da mãe: calma, arrastada, amigável e humilde

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsbZ6CxP6hTf7hKM5Gg5h91aR0-NWAq7qNFdTjK-IYcsGz0KEANG-rSQvqWmTlVZyJ_21GQiP3-Hj_KUiDWH8oFwJYt7AoHM4HcliwLkfQBqqjZLnEiz7p_1LtSEHZSIZULbVghcVO755n/s1600/as+vinhas+da+ira.jpg 

Dois cães pastores, muito parecidos, chegaram, trotando alegres, até que farejaram os estranhos; estacaram, cautelosos, rondando-os a distância, as caudas movendo-se lentamente, mas os olhos e os focinhos prontos para o ataque ou para o perigo. Um dos animais, esticando o pescoço, avançou, pernas tesas prontas para fugir, aproximando-se aos poucos das pernas de Tom e farejou ruidosamente. Depois voltou para trás e ficou olhando o velho, como que à espera de um sinal. O outro cachorro era menos audaz. Foi procurar algo que o pudesse divertir e encontrou-o na forma de uma galinha de penas vermelhas, atrás da qual começou a correr, latindo. Ouviu-se, em seguida, o cacarejar estridente de uma galinha ameaçada; penas vermelhas giravam no ar e a galinha conseguiu escapar a muito custo, batendo as asas diminutas num esforço de velocidade. O cachorro, satisfeito com a brincadeira, olhou aflito para os dois homens e deitou-se na poeira, batendo, contente, a cauda no chão.
Vamo entrar — disse o velho. — Ela tem que te ver de qualquer forma, então vamo entrar logo duma vez. Quero ver a cara dela quando te enxergar. Vamos. A comida deve estar pronta, com certeza. Já tem um tempinho que vi tua mãe às voltas com um porco salgado na frigideira. — E foi andando, atravessando o terreiro poeirento. Não havia varanda nessa casa; apenas um degrau e uma porta, e, ao lado dela, um cepo desgastado, de superfície amassada e polida por anos e anos de uso. Via-se nitidamente os veios da madeira, pois a poeira arruinava a parte mais macia. Um aroma de folhas de salgueiro queimadas pairava no ar, e assim que os três homens chegaram à porta, a esse aroma se misturava o cheiro de carne frita, e de pão de centeio fresco e de café, que acaba de ser fervido. O velho subiu o degrau e bloqueou a porta de entrada com o corpo troncudo, cheio. E ele disse: — Ô, velhinha, tão aqui uns camaradas que chegaram pela estrada e perguntam se não tem alguma sobra pra eles.
Tom ouviu a voz de sua mãe, a tão lembrada voz calma, arrastada, amigável e humilde.
Que entrem — disse ela. — Tem comida bastante. Diz pra eles lavar as mãos. O pão já tá pronto. Estou cuidando da carne. — E o chiado da banha quente na frigideira seguiu-se às suas palavras.
O velho penetrou na casa, entreabrindo a porta, e Tom pôde ver sua mãe. Ela estava tirando da frigideira as fatias de porco fritas, meio enroladas. A porta do forno estava aberta, à espera de um grande tabuleiro de pães escuros. A velha deu uma olhada à porta, mas o sol estava atrás de Tom e ela só pôde ver uma figura escura que se recortava na luz solar de um amarelo brilhante. E ela fez um sinal amistoso e disse:
Vão entrando, moços. Foi sorte eu ter feito bastante pão esta manhã.
Tom quedou, olhando-a. A velha era corpulenta, mas não gorda; engrossara devido aos muitos filhos e ao muito trabalho que teve na vida. Trajava um vestido cinzento em que outrora havia flores estampadas, flores já desbotadas, de modo que agora as flores eram cinzentas. O vestido ia até seus tornozelos e os pés fortes, largos, descalços moviam-se rápida, vivamente no chão. Os cabelos ralos, cor de aço, estavam amarrados à altura do pescoço, formando um nó largo e bojudo. Os braços grossos, sardentos, estavam nus até os cotovelos, e as mãos eram polpudas, mas delicadas, como as das meninazinhas gorduchas. Ela olhou para fora, de encontro à luz do sol. Seu rosto cheio não era flácido, e sim firme, conquanto brando. Os olhos cor de avelã sugeriam os muitos dramas que devem ter presenciado e pareciam ter atingido a dor e o sofrimento, escalando, degrau após degrau, até alcançarem uma serenidade e uma compreensão sobre-humanas. Ela parecia cônscia do papel importante de baluarte da família que desempenhava, parecia saber da importância da posição que ocupava e que ninguém lhe poderia jamais disputar. E visto que o velho Tom e as crianças não conheciam doença ou medo desde que a mãe não os sentisse, ela acabava por não conhecer qualquer hesitação. E quando algo de alegre, prazenteiro, lhes acontecia, eles primeiro olhavam para ela, a fim de ver se ela estava alegre, a mãe estava acostumada a tirar alegria mesmo das coisas menos alegres. Melhor que a alegria, era a calma que ela demonstrava. Sabia permanecer imperturbável. E dessa sua posição ao mesmo tempo grande e humilde, extraíra serenidade e uma calma superior. De sua posição de médica de almas, ela hauriu segurança, tranquilidade e domínio de gestos; de sua posição de árbitro, tornou-se distante e fria como uma deusa. Parecia saber que dependia dela o edifício de sua família; que se ela se mostrasse perturbada ou tomada pelo desespero, todo esse edifício desmoronaria ao menor sopro de ventos adversos.
A velha olhou outra vez para fora, para a figura obscura do homem. O velho estava próximo, tremendo de excitação.
Entrem! — gritou o velho. — Vão entrando. — E Tom, algo envergonhado, atravessou a soleira.
A velha ergueu a cabeça, com um ar gentil, de sobre a frigideira. E aí suas mãos desceram lentamente e o garfo que segurava caiu ruidosamente no chão. Seus olhos abriram-se desmedidamente e as pupilas se dilataram. Respirava ofegante, pela boca aberta. Depois fechou os olhos.
Graças a Deus! — disse. — Oh, graças a Deus! — E logo seu rosto tomou um ar preocupado. — Tommy, cê fugiu, Tommy? Cê não fugiu, né?
Não, mãe. Fui perdoado. Tenho aqui os papéis. — Ele bateu no peito.
A velha aproximou-se do filho rapidamente, sem fazer ruído com os pés descalços, e a sua fisionomia refletia encantamento. A mão pequena procurou o braço do filho e tocou-lhe os músculos rígidos. E então seus dedos procuraram, tateando, o rosto, como se fossem os dedos de um cego. E a sua alegria parecia aproximar-se da mágoa. Tom mordeu o lábio inferior. Os olhos da velha seguiram, interrogativos, o gesto do filho e ela viu o pequeno filete de sangue que lhe tingiu os dentes e descia pelo canto dos lábios. Então ela soube, voltou-lhe o controle e sua mão baixou. Respirou ofegante e disse num suspiro:
Bem! Quase a gente vai embora sem ocê. E ficava admirada até se ocê achasse a gente algum dia. — Apanhou o garfo do chão enfiou-o na banha que fervia na frigideira, tirando-o com um pedaço de carne de porco espetado na ponta. E puxou a cafeteira, prestes a cair, para a beira do fogão.
O velho Tom Joad deu um risinho.
Então nós te enganamo, hein, mãe? A gente queria te enganar e enganou mesmo. Cê ficou aí parada que nem uma ovelha que leva uma paulada. Só queria que o avô visse. Parecia que ocê levou uma paulada entre os dois olhos. O avô daria tanta pancada nas coxa que até desconjuntava as cadeira... que nem ele fez quando viu o Al dando tiros naquele avião do exército que passou por aqui, lembra? Pois foi assim, Tommy. Um dia ele passou sobre nós a uns quinhentos metros de altura, o Al meteu uns tiros nele. O avô gritou: não atira no filhote, Al, espera até que passe um já adulto! E aí ele deu uma palmada nas coxa que desconjuntou as cadeira.
A mãe riu e tirou uma pilha de pratos de estanho da prateleira.
Onde tá o avô, aquele velho diabo? — perguntou Tom.
A mãe dispôs os pratos sobre a mesa de cozinha e colocou copos ao lado de cada um. E disse confidencialmente:
Oh, ele e a avó dormem no celeiro! Tinham que ir lá fora muitas vezes, de noite, e viviam tropeçando nas crianças.
O pai intrometeu-se:
Hum, todas as noites, o avô ficava bravo. Tombava sobre o Winfield, e se o Winfield berrava o avô ficava danado e molhava as ceroulas e aí ficava mais danado ainda e daí a pouco acordava todo mundo em casa aos berros. Ele berrava e a gente caía na gargalhada. Oh, a gente teve umas hora gozadas! Uma noite, quando todo mundo andava gritando em casa, o teu irmão Al, que agora é um rapagão crescido, disse: que diabo, avô, por que o senhor não experimenta ser um pirata? Bem, isso fez o avô ficar danado de raiva e ele quis até pegar na espingarda. O Al, naquela noite, teve que dormir no campo. E agora o avô e a avó dormem no celeiro.
Ali eles podem dormir e acordar quando quiser — disse a mãe. — Ô pai — dirigiu-se ao marido —, vai lá e diz que o Tommy tá aqui. O avô sempre gostou mais do Tommy que dos outros netos.
Vou, sim — disse o pai. — Já devia até ter ido. — E ele saiu porta afora, atravessando o terreiro, agitando largamente os braços.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

12/12/2015

Fotografia

Google Imagens

Quando minha mãe posou
para este que foi seu único retrato,
mal consentiu em ter as têmporas curvas.
Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto
que uma doutrina dura fez contido.
A boca é conspícua,
mas as orelhas se mostram.
O vestido é preto e fechado.
O temor de Deus circunda seu semblante,
como cadeia. Luminosa. Mas cadeia.
Seria um retrato triste
se não visse em seus olhos um jardim.
Não daqui. Mas jardim.
Adélia Prado

10/05/2015

Lembranças de minha mãe

Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava. E, quem sabe para deduzir da conversa, me perguntou: - 'Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela...'
Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu, ah.Mas desci disso, o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim devia de ser. Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou - só face dum momento - feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

12/05/2013

Mães de grandiosas proles

Madalena Carnaúba, cearense de Tamboril e residente desde 1961 em Ceilância – DF, é a brasileira com o maior número de filhos biológicos registrados. Madalena teve 32 filhos. Embora fosse uma das mulheres mais férteis do mundo, Madalena não chega nem perto da capacidade de maternidade da chilena Leontina Albino que teve, de 1943 a 1981, 64 filhos, 55 deles devidamente registrados.

Para sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho. 
Carlos Drummond de Andrade

Palavras para a minha mãe

Mãe, tenho pena. Esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

Pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

Às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

Lê isto: mãe, amo-te.

Eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto

Mater

Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.

Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.

E espalham tanto brilho as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande dano sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.

E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pé,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.
Olavo Bilac

04/12/2012

A transladação do corpo

Eu amava o amor
e esperava-o sob árvores,
virgem entre lírios. Não prevariquei.
Hoje percebo em que fogueira equívoca
padeci meus tormentos.
A mesma em que padeceram
as mulheres duras que me precederam.
E não eram demônios o que me punha um halo
e provocava o furor de minha mãe.
Minha mãe morta
minha pobre mãe,
tal qual mortalha seu vestido de noiva
e nem era preciso ser tão pálida
e nem salvava ser tão comedida.
Foi tudo um erro, cinza
o que se apregoou como um tesouro.
O que tinha na caixa era nada.
A alma, sim, era turva
e ninguém a via.
Adélia Prado