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22/08/2026

Factótum


22

Depois de chegar na Filadélfia, eu achei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo já estava lá havia cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, fezes e vômito de meio século subindo pelo chão do bar, vindo dos banheiros lá de baixo.
Eram quatro e meia da tarde. Dois homens estavam brigando no meio do bar.
O cara da minha direita disse que se chamava Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny tinha um cigarro na boca, a ponta brilhava. Uma garrafa de cerveja vazia passou voando e por pouco não acertou o nariz e o cigarro dele. Ele não se mexeu, nem olhou em volta, só bateu as cinzas no cinzeiro.
— Quase, seu desgraçado! Tenta de novo para você ver!
O bar estava lotado. Tinha mulheres, algumas donas de casa gordas e um pouco burras, e duas ou três senhoras que estavam passando por alguma barra. Enquanto eu estava sentado, uma garota se levantou e saiu com um homem. Ela voltou em cinco minutos.
— Helen! Helen! Como você consegue?
Ela riu.
Outro pulou em cima dela.
— Deve ser boa. Também quero!
Saíram juntos. De novo, Helen voltou em cinco minutos.
— Ela deve ter uma bomba de sucção no lugar da vagina!
— Preciso experimentar — disse um coroa lá no fundo do bar. — Eu não fico de pau duro desde que Teddy Roosevelt conquistou a última colina dele.
Com esse, Helen levou dez minutos.

— Eu quero um sanduíche — disse um cara gordo. — Quem vai me fazer o favor de ir buscar um sanduíche?
Eu disse que iria.
— Rosbife no pão, com tudo que tem direito. — Me deu dinheiro. — Pode ficar com o troco.
Eu fui até o lugar do sanduíche. Um velhote com uma barriga grande se aproximou.
— Um sanduíche de rosbife no capricho, com tudo que tem direito. E uma garrafa de cerveja enquanto eu espero.
Bebi a cerveja, levei o sanduíche para o cara gordo no bar e encontrei outro lugar para sentar. Um copo de uísque apareceu. Bebi em um gole só. Outro surgiu. Bebi tudo de novo. A jukebox tocava.
Lá de trás do bar, um guri de uns vinte e quatro anos veio até mim.
— Eu preciso que limpem as persianas — falou para mim.
— Com certeza!
— O que você faz?
— Nada. Bebo. Os dois.
— E as cortinas?
— Cinco contos.
— Contratado.
Chamavam ele de Billy-Boy. Billy era casado com a dona do bar. Ela tinha quarenta e cinco anos.
Ele me trouxe dois baldes, uns pedaços de sabão, trapos e esponjas. Eu baixei as persianas, tirei as lâminas e comecei a limpar.
— A bebida é por conta da casa — disse Tommy, que era o atendente da noite — enquanto você estiver trabalhando.
— Manda uma dose de uísque, Tommy.

Trabalho demorado esse; a poeira estava endurecida, virou sujeira incrustada. Eu cortei as mãos várias vezes nas lâminas das persianas de metal. A água com sabão ardia.
— Tommy, me vê uma dose de uísque aí. — Terminei uma parte das persianas e pendurei de volta. A galera do bar se virava para ver meu trabalho.
— Tá bom, hein!
— Com certeza melhora o ambiente.
— Assim é provável que aumentem o preço das bebidas.
— Dá uma dose de uísque, Tommy — falei.
Peguei mais um conjunto de persianas e tirei as lâminas. Ganhei do Jim no pinball por uma moeda, depois esvaziei os baldes no vaso sanitário e fui pegar água limpa.
O segundo conjunto foi mais difícil. Minhas mãos ganharam novos cortes. Eu duvido que aquelas janelas tenham sido limpas nos últimos dez anos. Ganhei mais uma moeda no pinball e aí o Billy-Boy gritou para eu voltar ao trabalho.
Helen passou por ali a caminho da latrina das mulheres.
— Helen, te dou cinco contos quando eu terminar aqui. Tem jeito?
— Claro, mas depois de tanto trabalho você não vai conseguir subir o amiguinho.
— Eu subo, sim.
— Estarei aqui até fechar. Se você ainda conseguir ficar de pé, aí pode levar de graça!
— Vou estar firme e forte, baby.
Helen voltou para a latrina.
— Uma dose de uísque, Tommy.
— Ei, vai com calma — disse Billy-Boy —, senão você não vai terminar esse trabalho hoje.
— Billy, se eu não terminar, você fica com os cincão.
— Negócio fechado. Vocês todos ouviram isso?
— Ouvimos, Billy, seu pão-duro.
— Mais um pra viagem, Tommy.
Tommy mandava o uísque. Eu bebia e seguia com o trabalho. Enchi a cara. Depois de algumas doses eu já estava com todas as persianas limpas e brilhando.
— Beleza, Billy, pode me pagar.
— Você não terminou.
— Quê?
— Tem mais três janelas nos fundos.
— Nos fundos?
— Isso. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o tal salão. Tinha mais três janelas, mais três conjuntos de persianas.
— Eu topo por dois e cinquenta, Billy.
— Não, ou você limpa todas ou não ganha nada.
Peguei os baldes, joguei fora a água suja, coloquei água limpa, sabão, aí peguei um conjunto de persianas. Tirei as lâminas, coloquei em uma mesa e fiquei encarando.
Jim parou a caminho da latrina.
— Qual é o problema?
— Eu não aguento mais essas lâminas.
Quando Jim saiu do banheiro, ele passou no bar para trazer a cerveja dele. Começou a limpar as persianas.
— Jim, deixa isso para lá.
Fui até o bar, peguei outro uísque. Quando voltei, uma das garotas estava pegando um conjunto de persianas.
— Cuidado para não se cortar — falei para ela.
Em poucos minutos, já tinha quatro ou cinco pessoas lá atrás conversando e rindo, incluindo Helen. Todas estavam limpando as persianas. Logo depois, toda a galera do bar estava lá. Trabalhei com mais duas doses de uísque. Enfim, todas as persianas estavam limpas e penduradas. Não levou muito tempo. Elas brilhavam. Billy-Boy entrou:
— Eu não vou te pagar.
— O trabalho está terminado.
— Mas não foi você que terminou.
— Não seja mão de vaca, Billy — alguém falou.
Billy-Boy desenterrou os cinco dólares, e eu peguei. Fomos para o bar.
— Uma dose para todo mundo! — Deitei os cinco dólares na mesa. — E uma para mim também.
Tommy serviu as bebidas.
Bebi a minha e ele pegou os cinco dólares.
— Você deve três dólares e quinze centavos ao bar.
— Pendura aí.
— Ok, qual é o teu sobrenome?
— Chinaski.
— Já ouviu aquela do polonês que foi ao banheiro?
— Já.
As bebidas chegaram para mim até a hora de fechar. Depois da última, eu olhei ao redor. Helen tinha picado a mula. Ela mentiu.
Que piranha, pensei, com medo de uma longa e dura aventura…
Levantei e fui caminhando de volta até a pensão. A luz da lua estava forte. Meus passos ecoavam na rua vazia e parecia que alguém estava me seguindo. Olhei em volta. Me enganei, estava sozinho por completo.

Charles Bukowski, em Factótum

15/08/2026

Factótum


21

O expediente na fábrica de biscoitos para cachorro era das quatro e meia da tarde até uma da manhã.
Me deram um avental branco encardido e luvas de lona pesadas. As luvas estavam queimadas e tinham buracos, eu conseguia ver meus dedos aparecendo. Recebi instruções de um elfo banguela com uma película sobre o olho esquerdo, branca e verde, com linhas azuis parecendo teias de aranha.
Ele fazia aquele trabalho há uns dezenove anos.
Fui até o meu lugar. Um apito soou e a maquinaria entrou em ação. Os biscoitos para cachorro começaram a se mover. A massa era moldada com uma prensa e depois colocada em telas de metal pesado com bordas de ferro.
Eu peguei uma tela e a coloquei no forno atrás de mim. Me virei. Lá estava a próxima. Não tinha como diminuir a velocidade. A única hora que elas paravam era quando algo enguiçava a máquina. Isso não acontecia com frequência. Quando acontecia, o Elfo resolvia rapidinho.
As chamas saltavam uns cinco metros de altura. O interior do forno era como uma roda-gigante. Cada plataforma aguentava doze telas. Quando o homem do forno (eu) preenchia uma plataforma, chutava uma alavanca que fazia da roda girar um nível, trazendo a próxima saliência vazia para baixo.
As telas eram pesadas. Levantar uma já deixava o cara cansado. Se você pensasse que devia fazer aquilo por oito horas, levantando centenas de telas, nunca ia conseguir. Biscoitos verdes, biscoitos vermelhos, biscoitos amarelos, biscoitos marrons, biscoitos roxos, biscoitos azuis, biscoitos de vitamina, biscoitos de vegetais.
Nesse tipo de emprego a gente fica cansado. Sofremos de um cansaço que ultrapassa a fadiga. Dizemos coisas loucas e brilhantes. Eu soltei palavrões, conversei, contei piadas e cantei. O inferno fervia de risadas. Até o Elfo riu de mim.
Trabalhei lá por algumas semanas. Eu chegava bêbado todas as noites. Não importava; eu tinha o emprego que ninguém queria. Depois de uma hora no forno eu ficava sóbrio. Minhas mãos estavam cheias de bolhas e queimaduras. Todos os dias eu sentava no quarto com dores e estourava as bolhas com alfinetes, que eu primeiro esterilizava com fósforos.

Uma noite, cheguei mais bêbado do que o normal e me recusei a bater o ponto.
— Chega — disse a eles.
O Elfo ficou em choque.
— Como vamos conseguir, Chinaski?
— Ah.
— Só mais uma noite!
Coloquei a cabeça dele no meu braço e apertei; as orelhas dele ficaram rosadas.
— Seu merdinha — falei. Depois o soltei.

Charles Bukowski, em Factótum

02/08/2026

Factótum




20

Dois coroas estavam me esperando. Encontrei eles dentro do metrô, onde os trens estavam estacionados. Me deram um monte de cartazes de papelão e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Nós três entramos em um dos vagões estacionados.
— Presta atenção — disse um dos velhos.
Ele pulou nos assentos empoeirados e começou a andar por eles, rasgando cartazes antigos com o abridor de latas. Ah, então era assim que essas coisas iam parar lá em cima, pensei. As pessoas que colocam lá.
Cada cartaz era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para colocar um novo. As tiras eram apertadas por molas e curvadas para se adaptarem ao contorno da parede.
Eles me deixaram tentar. As tais tiras de metal resistiram aos meus esforços. Nem se mexiam. As pontas afiadas cortaram minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada cartaz que era retirado, tinha um novo para colocar no lugar. E isso levava uma eternidade. Não tinha fim.
— Tem insetos verdes por toda Nova York — disse um dos coroas depois de um tempo.
— Tem, é?
— Aham. Você é novo em Nova York?
— Sim.
— Você não sabe que todo mundo em Nova York tem esses bichos verdes?
— Não.
— Pois é. Uma mulher quis transar comigo ontem à noite. Eu disse: “Não, querida, sem chance”.
— Sério?
— Sério. Eu disse que toparia se ela me desse cinco dólares. São cinco dólares de bife para repor o esperma.
— Ela te deu os cinco dólares?
— Não. Me ofereceu uma lata de sopa de cogumelo da Campbell’s.
Seguimos até o final do vagão. Os dois coroas desceram pela traseira e começaram a caminhar em direção ao vagão seguinte estacionado a uns quinze metros dali. Estávamos a uns doze metros do chão, caminhando sobre dormentes de madeira. Eu percebi que seria muito fácil escorregar e cair lá embaixo.
Saí do vagão com cuidado e comecei a caminhar devagar de trilho em trilho, com o abridor de latas em uma mão e os cartazes de papelão na outra. Um trem cheio de passageiros parou, e as luzes dos vagões mostraram o caminho.
O trem seguiu; fiquei na escuridão total. Não conseguia ver nem as tábuas do trilho e nem os espaços entre elas. Esperei.
Os dois coroas gritaram lá do outro vagão:
— Vem logo! Anda! Temos muito trabalho para fazer!
— Esperem! Não consigo enxergar!
— Não temos a noite toda!
Meus olhos começaram a se ajustar. De passo a passo fui avançando, devagar. Quando cheguei no vagão, coloquei os cartazes no chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
— Qual é o problema?
— Não sei.
— Qual é!?
— Uma pessoa pode morrer aqui em cima.
— Ninguém caiu ainda.
— Sinto que eu poderia.
— Isso é coisa da sua cabeça.
— Eu sei. Como é que eu saio daqui?
— Tem uma escada logo ali. Mas você tem que atravessar um monte de trilhos e ficar de olho nos trens.
— Tá.
— E não pise no trilho condutor.
— O que é isso?
— É a energia. O trilho dourado. Parece ouro. Você vai ver.
Desci até os trilhos e comecei a andar por eles. Os coroas me observavam. Achei o tal trilho dourado e dei um passo bem alto por cima dele.
Aí eu meio que corri e meio que escorreguei pela escadaria. Tinha um bar do outro lado da rua.

Charles Bukowski, em Factótum

25/07/2026

Factótum


19

Parecia uma loja abandonada. Tinha um letreiro na janela: “Precisa-se de ajudante”. Entrei. Um homem com um bigode fino sorriu para mim.
— Sente-se. — Ele me deu uma caneta e um formulário. Preenchi o formulário.
— Humm, faculdade?
— Não exatamente.
— Somos do ramo da publicidade.
— Ah, é?
— Não está interessado?
— Bom, olha, eu tenho pintado. Sou pintor, sabe? Acabei ficando sem dinheiro. Não consigo vender o meu material.
— Recebemos muita gente assim por aqui.
— Eu também não gosto delas.
— Anime-se. Talvez você fique famoso depois de morto.
Ele continuou falando que era um trabalho noturno no começo, mas que sempre havia uma chance de progredir na carreira.
Falei que gostava de trabalhar à noite. Ele disse que eu poderia começar no metrô.

Charles Bukowski, em Factótum

20/07/2026

Factótum


18


Fiquei quatro ou cinco dias andando por aí, então permaneci bêbado por mais dois. Saí de onde estava e fui para o Greenwich Village. Li na coluna do Walter Winchell que O. Henry* costumava escrever em um bar que era famoso por ser frequentado por gente que escreve. Achei o bar e entrei procurando o quê?
Era meio-dia. Apesar da coluna do Winchell, o lugar estava vazio. Fiquei ali sozinho com um grande espelho, o balcão e o atendente.
— Sinto muito, senhor, não podemos atendê-lo.
Fiquei atordoado e nem consegui responder. Esperei por uma explicação.
— Você está bêbado.
Era provável que eu estivesse com cara de ressaca, mas não bebia fazia já umas doze horas. Murmurei algo sobre O. Henry e saí.
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Nota:
*Walter Winchell (1897-1972) foi um jornalista e comentarista estadunidense, considerado o inventor da coluna social moderna, juntando notícias com fofocas. Na época em que a história se passa, ele tinha grande influência. Já O. Henry (1862-1920), pseudônimo de William Sydney Porter, foi um contista, também estadunidense, que influenciou muitos escritores homens da geração de Charles Bukowski — era naturalista, com boas sacadas de humor —, por isso o grande interesse de conhecer o bar que ele frequentava em Nova York. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

05/07/2026

Factótum — 17



17

Trabalhei tempo suficiente para juntar dinheiro e comprar uma passagem para longe daquele lugar, mais uns dólares para poder me estabelecer. Pedi demissão, peguei um mapa dos Estados Unidos e dei uma boa olhada. Decidi ir para Nova York.
Coloquei cinco garrafinhas de uísque na minha mala e peguei o ônibus. Sempre que alguém sentava do meu lado e começava a falar, eu pegava uma garrafa e tomava um longo gole. Enfim, cheguei.
A rodoviária de Nova York ficava perto da Times Square. Andei pela rua com minha mala velha. Estava anoitecendo. As pessoas saíam das estações do metrô como um enxame. Tipo insetos, sem rosto e enlouquecidos, se apressavam na minha direção, contra mim e por todos os lados, de forma intensa. Se empurravam e faziam sons horríveis.
Me encostei no batente de uma entrada e terminei a última garrafinha de uísque.
Aí segui andando, sendo empurrado, acotovelado, até que vi um letreiro anunciando quartos vagos na Third Avenue. A responsável era uma senhora judia idosa.
— Eu preciso de um quarto — disse a ela.
— Você precisa de um bom terno, meu rapaz.
— Estou liso.
— Eu tenho um, quase de graça. Meu marido tem uma alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei pelo quarto e coloquei a mala no andar de cima. Atravessei a rua com a senhora.
— Herman, mostre o terno ao rapaz.
— Ah, é um terno bonito. — Herman o trouxe; era azul-escuro, um pouco gasto.
— Parece pequeno.
— Não, não, vai ficar bom.
Ele saiu de trás do balcão com o terno.
— Pegue, experimente. — Herman me ajudou a vestir o paletó. — Viu só? Serviu… Quer experimentar a calça? — Segurou a calça na minha frente, da cintura até os pés.
— Parece bom.
— Dez dólares.
— Estou liso.
— Sete.
Dei os sete dólares ao Herman e levei o meu terno para o quarto. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Quando voltei, tranquei a porta, tirei a roupa e me preparei para a primeira noite de sono decente depois de um bom tempo.
Fui para a cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas, respirei fundo e fiquei sentado no escuro, olhando pela janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um cara que me dava bem na solidão; sem isso eu era como outro qualquer sem comida ou água. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Eu não tinha orgulho da minha solidão, mas era dependente dela. A escuridão do quarto era como luz do sol para mim. Tomei um gole do vinho.
De repente o quarto se iluminou. Ouvi um estrondo metálico. O metrô elevado passava na frente da minha janela. Um dos trens parou ali. Olhei para uma fileira de rostos nova iorquinos que me encaravam. O trem ficou um pouco ali, depois partiu. Escureceu. Então o quarto se iluminou de novo. Outra vez, olhei para os rostos. Parecia uma visão do inferno se repetindo de forma infinita. Cada carga de gente era mais feia, demente e terrível do que a anterior. Outro gole.
Seguiu assim: escuro, depois claro; claro, depois escuro. Terminei o vinho e fui comprar mais. Voltei, tirei a roupa e fui para a cama. A chegada e partida dos rostos continuava; senti que aquilo era como uma visão. Estava recebendo a visita de centenas de demônios que nem o Diabo queria. Mais outro gole.
Aí resolvi levantar e tirei o terno novo do armário. Ao tentar me enfiar no paletó, percebi que estava apertado; parecia menor que o do alfaiate. De repente, ouvi um som de rasgo. O paletó abriu por completo nas costas. Tirei o que havia restado dele. Pelo menos ainda tinha as calças. Enfiei as pernas. Em vez de zíper na frente, a calça tinha botões; enquanto eu tentava fechá-los, a costura abriu no traseiro. Passei a mão por trás, e senti a cueca.

Charles Bukowski, em Factótum

30/06/2026

Factótum


16

Nessa época a minha conta do quarto, comida e roupa lavada etc. estava tão alta que precisei de vários adiantamentos para saldar a dívida. Fiquei em casa até fechar a conta e me mudei logo depois. Eu não tinha como pagar aquelas despesas.
Achei uma pensão perto do meu trabalho. A mudança foi fácil. Eu tinha só o suficiente para encher metade de uma mala…
A proprietária era Mama Strader, uma falsa ruiva de boa aparência que tinha um monte de dentes de ouro na boca e um namorado idoso. Na primeira manhã ela me chamou na cozinha e disse que me daria uma dose de uísque se eu fosse até o quintal alimentar as galinhas. Fui, depois fiquei na cozinha bebendo com ela e Al, o namorado. Cheguei uma hora atrasado no trabalho.
Na noite seguinte bateram na minha porta. Era uma mulher gorda, de uns quarenta e poucos anos. Ela segurava uma garrafa de vinho.
— Moro no final do corredor, meu nome é Martha. Faz uns dias que eu escuto você ouvindo música boa. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Ela vestia uma bata verde folgada e, depois de alguns vinhos, começou a me exibir as pernas.
— Eu tenho pernas bonitas.
— Eu sou um cara que gosta de pernas.
— Então veja mais de perto.
As pernas dela eram bem brancas, roliças, flácidas, com veias roxas saltando. Martha me contou a história dela.
Ela era prostituta. Rodava os bares. A principal renda vinha do proprietário de uma loja de departamentos.
— Ele me dá grana. Eu entro na loja e pego o que quero. Quem trabalha lá nem me incomoda. Ele mandou me deixarem em paz. Não quer que a esposa saiba que eu trepo melhor que ela.
Martha levantou e ligou o rádio. Bem alto.
— Eu sou uma boa dançarina — disse. — Olha pra mim!
Ela rodopiou aquela barraca verde que vestia, dando chutinhos. Não era muito sexy. Com rapidez ela ergueu a bata até a cintura e começou a balançar a bunda na minha direção. A calcinha rosa tinha um buraco grande na nádega direita. Depois, a bata foi parar no chão e ela ficou só de calcinha. Em seguida, a calcinha também foi fazer companhia à bata e ela começou a rebolar. O chumaço de pelos da periquita estava quase escondido pela barriga que balançava, pendurada.
O suor fazia o rímel dela escorrer. De repente, os olhos dela se encolheram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela pulou em cima de mim antes que eu pudesse fazer qualquer movimento. A boca aberta dela pressionava a minha. Tinha gosto de cuspe, cebola, vinho amanhecido e (na minha cabeça) o esperma de quatrocentos caras. Ela enfiou a língua toda babada para dentro da minha boca. Tive ânsia, e a empurrei para longe. Ela ficou de joelhos, puxou meu zíper, e em um segundo o meu pinto mole estava na boca dela. Ela chupou e balançou. Martha usava uma fitinha amarela no cabelo curto e acinzentado. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e deu uma mordida. Eu gritei, peguei ela pelos cabelos e a afastei. Fiquei no meio do quarto, ferido e aterrorizado. Tocava uma sinfonia de Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mexer, Martha se ajoelhou e veio de novo para cima de mim. Sem dó, ela agarrou as minhas bolas com as duas mãos. Abriu a boca e foi de novo; a cabeça sacudia, chupava e balançava. Ela deu um baita puxão nas minhas bolas ao mesmo tempo que quase arrancou metade do meu pinto, me forçando a ir pro chão. Sons de sucção tomaram conta do quarto enquanto tocava Mahler no rádio. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pinto levantou, coberto de saliva e sangue. Ver aquilo a deixou em um frenesi. Já eu, me sentia sendo comido vivo.
Desesperado, pensei que jamais me perdoaria se eu gozasse.
Assim que me abaixei para tentar puxá-la pelos cabelos, ela agarrou as minhas bolas de novo e apertou sem dó alguma. Os dentes foram direto para o meio do pênis, como tesouras, tentando me partir em dois. Gritei, soltei o cabelo dela e caí de costas. A cabeça dela balançava de maneira impiedosa. Com certeza o som da chupada podia ser ouvido por toda a pensão.
— Não! — gritei.
Ela insistia naquela fúria desumana. Eu comecei a gozar. Era como se ela estivesse sugando as entranhas de uma cobra encurralada. Era uma fúria misturada com loucura; ela sugou o esperma e engoliu.
E seguia sacudindo e chupando.
— Martha! Chega! Já deu!
Não parou. Era como se ela tivesse se transformado em uma enorme boca devoradora. Continuava chupando e sacudindo. Sem parar.
— Não! — gritei de novo. Então, ela fez como se estivesse tomando um vanilla malt de canudinho.
Desmaiei. Ela se levantou e começou a se vestir, cantando.

When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…

Cambaleei até o chão, apertando os bolsos da frente da calça até achar a carteira. Tirei cinco dólares e dei para ela. Ela pegou a grana, enfiou dentro do vestido, entre os seios e, brincando mais uma vez, agarrou minhas bolas, apertou, soltou e saiu do quarto valsando.

Charles Bukowski, em Factótum

15/03/2026

Factótum



11

No dia seguinte, depois que meus pais saíram, voltei para ficar mais um pouco na cama. Quando me levantei, fui para a sala e dei uma olhada, por entre as cortinas, lá para fora. A dona de casa estava sentada de novo na escada do outro lado da rua. Ela usava um vestido diferente, mais sexy. Fiquei bastante tempo olhando para ela. Aí me masturbei devagar e à vontade.
Tomei banho e me vesti. Achei umas garrafas vazias na cozinha e fiz uns trocados na mercearia. Encontrei um bar na avenida, entrei e pedi um chope. Tinha uma penca de bêbados mexendo na jukebox, rindo e falando alto. De vez em quando, um chope chegava para mim. Alguém estava pagando. Eu bebia. Comecei a conversar com as pessoas.
Aí olhei para fora. Já estava escurecendo. Os chopes continuavam chegando. A mulher gorda, que era dona do bar, e o namorado eram simpáticos.
Fui lá para fora uma vez para brigar com alguém. Não foi uma briga boa. A gente estava muito bêbado e tinha uns buracões no asfalto do estacionamento que dificultavam o equilíbrio. Desistimos…

***

Acordei muito tempo depois em um banco acolchoado e vermelho no fundo do bar. Me levantei e dei uma olhada ao redor. Todo mundo já tinha ido. O relógio marcava três e quinze da madrugada. Tentei a porta, mas estava trancada. Fui para trás do balcão e peguei uma garrafa de cerveja, abri, voltei e me sentei. Depois fui atrás de um charuto e um saco de batatas fritas. Terminei minha cerveja, levantei e encontrei uma garrafa de vodca, outra de uísque, e me sentei de novo. Misturei tudo com água; fumei cigarros e comi carne seca, batatas fritas e ovos cozidos.
Fiquei bebendo até as cinco da manhã. Dei uma limpada no bar, guardei tudo, fui até a porta e caí fora. Assim que saí, vi um carro com policiais se aproximando. Eles vinham devagar atrás de mim enquanto eu caminhava.
Depois de uma quadra, pararam do meu lado. Um policial colocou a cabeça para fora.
— Ei, companheiro!
Os faróis estavam na minha cara.
— O que você está fazendo?
— Indo para casa.
— Você mora por aqui?
— Sim.
— Onde?
— Na Longwood Avenue, 2.122.
— O que você estava fazendo, saindo daquele bar?
— Eu sou o zelador.
— E quem é o dono?
— Uma senhora chamada Jewel.
— Entre no carro.
Entrei.
— Mostra para a gente onde você mora.
Eles me levaram para casa.
— Agora vai lá e toca a campainha.
Fui até a entrada. Entrei na varanda, toquei a campainha. Ninguém atendeu.
Toquei de novo, várias vezes. Enfim a porta abriu. Meus pais estavam de pijama e roupão.
— Você está bêbado! — gritou meu pai.
— Estou mesmo.
— Onde você arruma dinheiro para beber? Você não tem nada!
— Vou arrumar um emprego.
— Você está bêbado! Bêbado! Meu filho é um bebum! Um maldito bebum imprestável!
Os cabelos do meu pai estavam em pé, em tufos espetados. As sobrancelhas estavam arrepiadas, o rosto inchado e corado de sono.
— Você age como se eu tivesse matado alguém.
— É tão ruim quanto!
— …Ai, merda…De supetão, vomitei no tapete persa com o desenho de uma árvore da vida. Minha mãe gritou. Meu pai pulou para cima de mim.
— Sabe o que a gente faz com um cachorro quando ele caga no tapete?
— Sei sim.
Ele pegou na parte de trás do meu pescoço. Pressionou para baixo, me forçando a me curvar. Ele estava tentando me fazer ajoelhar.
— Vou te mostrar.
— Não….
Meu rosto estava quase encostando no vômito.
— Vou te mostrar o que a gente faz com cachorro!
Eu me levantei do chão com o punho em riste. Foi um soco perfeito. Ele cambaleou para trás até chegar ao outro lado da sala e sentou no sofá. Eu fui junto.
— Levanta.
Ele ficou lá sentado. Ouvi minha mãe:
— Você bateu no seu pai! No seu pai! Você bateu no seu pai!
Ela deu um berro, e com as próprias unhas rasgou um lado do meu rosto.
— Levanta — falei para o meu pai.
— Você bateu no seu pai!
Ela arranhou meu rosto de novo. Virei para olhar. Ela rasgou o outro lado. Sangue escorria pelo meu pescoço, encharcando camisa, calça, sapatos e tapete. Ela baixou as mãos e me encarou.
— Deu?
Ela nem respondeu. Voltei para o quarto pensando que era melhor mesmo arrumar um emprego.

Charles Bukowski, em Factótum

08/03/2026

Factótum – 7




A gente ainda estava em Louisiana. Tínhamos que encarar uma longa viagem de trem pelo Texas. Nos deram latas de comida, mas nada de abridores. Deixei minhas latas no chão e me estiquei no banco de madeira. Os outros homens estavam reunidos na parte da frente do vagão, rindo e conversando. Fechei os olhos.
Depois de uns dez minutos, senti uma poeira subindo pelas fendas do banco. Era uma poeira muito velha, poeira de caixão, e fedia a morte, a algo que já estava morto havia muito tempo. Ela entrava pelas minhas narinas, se assentava nas minhas sobrancelhas e tentava invadir minha boca. Depois, ouvi sons de uma respiração ofegante. Pelas fendas pude ver um homem acocorado atrás do banco, soprando a poeira no meu rosto. Me sentei. O homem se esgueirou para fora do espaço atrás do banco e correu para a frente do vagão. Limpei meu rosto e o encarei. Era difícil acreditar.
— Se ele partir pra cima, quero que vocês me ajudem — ouvi ele dizer. — Prometam que vão me ajudar…
O bando me deu uma olhada. Me estiquei no banco de novo. Eu podia ouvi-los conversando:
— O que esse cara tem?
— Quem ele pensa que é?
— Não fala com ninguém.
— Só fica lá atrás, sozinho.
— Quando a gente levar ele lá para fora, vamos cuidar disso. Desgraçado.
— Você acha que consegue pegar ele, Paul? Para mim ele parece um maluco.
— Se eu não conseguir, alguém consegue. Ele vai comer formiga na nossa mão.
Passado um tempo, fui até a frente do vagão para beber água. Quando passei por eles, pararam de falar e me observaram em silêncio enquanto eu bebia do copo. Então, quando me virei e voltei para o meu canto, eles retomaram a conversa.
O trem fez muitas paradas, noite e dia. Em cada uma onde havia um pouco de área verde e uma cidade pequena por perto, um ou dois dos homens saltavam.
— Ei, o que aconteceu com o Collins e o Martinez?
O encarregado ia pegar a prancheta e riscar o nome deles da lista. Ele veio até mim.
— Quem é você?
— Chinaski.
— Vai continuar com a gente?
— Eu preciso do emprego.
— Ok. — E saiu.

Em El Paso, o encarregado veio e disse que íamos trocar de trem. Ganhamos um vale para uma noite em um hotel próximo e um de refeição para usar em uma lanchonete local; também nos deram instruções sobre como, quando e onde pegar o próximo trem na manhã seguinte.
Esperei do lado de fora da lanchonete enquanto os homens comiam e só entrei quando eles saíram limpando os dentes e conversando.
— Vamos dar um jeito nele, esse filho da mãe!
— Cara, eu odeio esse filhote de cruz-credo.
Entrei e pedi um bife de hambúrguer com cebola e feijão. Não tinha manteiga para o pão, mas o café estava bom. Eles já tinham ido embora quando eu saí. Um mendigo estava caminhando pela calçada em minha direção. Dei para ele o meu vale do hotel.
Passei aquela noite no parque. Parecia mais seguro. Eu estava cansado, e aquele banco duro nem me incomodou. Dormi.
Algum tempo depois, fui acordado pelo que parecia ser um rugido. Eu nem sabia que jacarés rugiam. Para ser mais exato, eram várias coisas: um rugido, uma respiração agitada e um sibilar. Também ouvi o som de mandíbulas estalando. Um marinheiro bêbado estava no centro da lagoa, segurando um dos jacarés pelo rabo. A criatura tentava se torcer e alcançar o marinheiro, mas não era fácil. As mandíbulas eram horripilantes, mas também lentas e descoordenadas. Outro marinheiro e uma jovem observavam e riam. Logo depois, o marinheiro deu um beijo na garota e ambos foram embora juntos, deixando o outro lutando com o jacaré…

Em seguida foi a vez do sol me acordar. Minha camisa estava quente, quase pegando fogo. O marinheiro tinha desaparecido. O jacaré também. Em um banco do meu lado direito estavam uma garota e dois caras jovens. Era óbvio que os três também tinham dormido no parque naquela noite. Um dos rapazes se levantou.
— Mickey — disse a garota —, você tá de pau duro!
Riram.
— Quanto dinheiro a gente tem?
Puxaram os bolsos para fora. Tinham uma moeda.
— E aí, o que a gente vai fazer?
— Sei lá. Vamos dar uma volta.
Fiquei observando o trio sair do parque e entrar na cidade.

Charles Bukowski, em Factótum