terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Factótum



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Um dia, como de costume, eu saí na rua para dar uma volta. Me sentia feliz e relaxado. O sol estava no ponto. Havia uma paz no ar. Ao me aproximar da metade da quadra, vi um homem parado em frente à porta de uma loja. Segui andando.
Ei, amigão!
Parei e me virei.
Quer um emprego?
Voltei até onde ele estava. Por cima do seu ombro eu conseguia ver uma grande sala escura. Tinha uma mesa comprida com homens e mulheres em pé dos dois lados dela. Essas pessoas empunhavam martelos e batiam em objetos à frente. Na penumbra, os objetos pareciam ser mariscos. Cheiravam a mariscos. Me virei e continuei andando.
Lembrei como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falava com minha mãe sobre o serviço. Esse papo de trabalho começava assim que ele botava os pés em casa, continuava na mesa do jantar e terminava no quarto, onde, lá pelas oito da noite, ele gritava “Apaguem as luzes!”. Assim, ele podia descansar e ter toda a energia necessária para o serviço do dia seguinte. Não havia outro assunto senão o trabalho. O único assunto era o trabalho.
Na esquina, fui parado por outro homem.
Ele começou com:
Olha só, meu amigo…
Sim? — respondi.
Olha só, eu sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco por este país, mas ninguém me contrata, ninguém me dá um emprego. Não estão nem aí para o que eu fiz. Estou com fome, me dá uma ajuda…
Estou sem trabalho.
Quer dizer que está desempregado?
Isso mesmo.
Me afastei e atravessei a rua. O cara gritou.
Você tá mentindo! Você trabalha. Você tem emprego!
Em poucos dias eu estava procurando por um.

Charles Bukowski, em Factótum

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