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18/11/2024

O ciúme

Ela tinha a beleza tranquila da maturidade. Alguns fios de cabelo branco davam ao seu rosto um encanto especial. Bastava vê-la para adivinhar como teria sido quando jovem. Ah! Com certeza provocara muitos suspiros de amor. De hábitos domésticos e simples, um dos seus prazeres era assentar-se numa poltrona e entrar na bolha que a leitura cria. Quem lê está num outro mundo, muito distante.
O marido a observava de longe. Olhos que observam são aqueles que olham quando o outro não está olhando. Olhos que observam são olhos de felino que seguem a presa. Seu olhar era o de um apaixonado que desconfia, olhar de ciúme. Os olhos do ciumento vigiam. Vigiam gestos, movimentos, horas, sorrisos. Vigiam porque as modulações silenciosas e distraídas no rosto da pessoa amada podem conter revelações sobre aquilo que ela está pensando. O ciumento suspeita que o ser amado lhe esconde alguma coisa. Olha na esperança de ver o escondido, de entrar no segredo do outro. O ciumento detesta os pensamentos. Por mais que os vigie, eles estão além da sua vigilância.
Há aquela modinha de Carlos Gomes, “quem sabe?”. É o monólogo de um apaixonado. Ele sofre. Sofre porque a amada está longe e ele não sabe o que ela está pensando.

Tão longe de mim distante,
Onde irá, onde irá teu pensamento?

O seu desejo era saber se os pensamentos da amada pensavam nele. Pergunta porque não sabe e tem medo de saber o que ela estará pensando. Pergunta porque não confia. Minha amada, por favor, me diga “se inda é meu teu pensamento”.
Há os ciúmes mansos, que todos sentem e só doem um pouquinho. E há os ciúmes que são um tormento e frequentemente terminam em tragédia. Todo ciúme, manso ou atormentado, gostaria de ser dono da pessoa amada, inclusive dos pensamentos dela. Ele quer conhecê-la por dentro e por fora, para certificar-se da sua posse. Nos momentos de êxtase amoroso, esse tormento se resolve e o ciumento se acalma. Mas a sua calma é efêmera. Dura o mesmo tempo do ato sexual. Termina com o orgasmo. O coito é coroação seguida de decapitação. Passado o êxtase, a dúvida volta. E, com ela, o tormento.
Ele a vigiava. Silenciosamente o felino a vigiava. Observava o seu rosto. Queria adivinhar os seus pensamentos. E a sua vigilância se exacerbava quando ela sorria ou ria. Como explicar esse sorriso se ele, o marido, não estava dentro do livro? Ela não precisava dele para ser feliz. Mergulhada no livro, o marido não existia. E isso não é o anúncio de uma infidelidade possível? Ter prazer com algo que não era ele, o seu marido... O prazer acontecia na ausência dele. A infidelidade com o livro anunciava a possibilidade de grandes infidelidades. E isso o torturava. Tortura que não o abandonava nem nos momentos de intimidade prazerosa.
Mas então algo aconteceu e o tranquilizou. A esposa teve câncer. Uma mulher cancerosa, dominada pela possibilidade da morte, é um pássaro de asas quebradas que não sonha nem poderia jamais voar. Um pássaro de asas quebradas não planeja voos proibidos. Pássaros de asas quebradas são confiáveis.
Isso o acalmou. Ele ficou doce. Até os momentos de intimidade ficaram leves – seu efêmero sentimento de posse se transformou num tranquilo sentimento de eternidade. Agora ela era sua, para sempre.
Suspeito que os crimes por ciúme não têm o propósito primeiro de matar a pessoa amada. O seu propósito, ao contrário, é garantir que ela não seja de nenhum outro.
Mas há também um ciúme que dói de mansinho, sofrimento de todos os apaixonados.
A cena: o marido e a mulher chegam a uma festa. Muita gente conhecida e desconhecida, música, risos, olhares... Marido e mulher se separam para se socializar com outras pessoas. Numa roda o marido conversa e ri, distraído. De repente vira o rosto e vê a mulher num outro grupo. Ela está virada para o outro lado, vestido branco, costas nuas. Como é bonita! Ele a ama e pensa que outros homens já olharam para ela com olhares de admiração e desejo. Ela se tornou o centro das atenções da roda. Todos os homens se esforçam por lançar o seu charme. Ela ri. De costas para o marido, é como se, naquele momento, ele não existisse. Como aconteceu com a mulher que lia o livro. Ri por causa dos outros que a cercam, grupo do qual o marido está ausente. E ele pensa que, naquele momento, a felicidade da sua mulher acontece sem que ele participe dela. E lhe dói saber que ela pode ser feliz sem ele, ainda que num breve momento.
Sofre em silêncio, sem demonstrar. E nem fará cobranças quando voltarem para casa. Afinal de contas ele é um homem educado, que compreende os movimentos da alma.
O ciúme nasce quando se toma consciência de que a pessoa amada é livre. Ela é um pássaro pousado no ombro. Nada o prende. Pode voar quando quiser.
Alguns ciumentos, tolos, acham que casamento é gaiola, que garantirá a posse do pássaro. Mas nada garante a posse do pássaro. Nem mesmo a morte. O pássaro voa, o pássaro volta... Mas pode ser que voe e não volte…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

11/07/2019

Ciúme

Amor é bibelô de louça. Ciúme é a consciência de que o objeto amado não é posse: bibelôs quebram fácil. Por isso, o amor dói, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

19/08/2016

Otelo e a doença da suspeita

 
Iago, (à direita), interpretado por Kenneth Branagh, no filme de Oliver Parker, de 1995: intrigas semeiam a dúvida na mente de Otelo, vivido por Lawrence Fishburne.

Os textos de William Shakespeare são caracterizados por descrições minuciosas das paixões humanas e da loucura que muitas vezes as acompanha. O dramaturgo inglês apreciava personagens extremados, representações de violência e cenas de morte. A insanidade desenvolvida por Otelo marcou a subjetividade ocidental, por sua precisão e universalidade. É por esse motivo que análises do texto continuam a surgir e a se contradizer reciprocamente e as representações da peça nunca cessaram, desde sua primeira montagem, em 1604. E muitos estudos e artigos privilegiam os aspectos psíquicos do protagonista. Aparentemente, Shakespeare estava bem informado sobre a então emergente ciência do alienismo, em uma época na qual imperavam as superstições e conhecimentos sobre demonologia. Isso o levou a desenvolver em sua obra uma abordagem moderna da loucura, entendida essencialmente como a incapacidade de perceber e interpretar as próprias emoções (ou paixões). Por isso não surpreende que psiquiatras tenham utilizado um de seus personagens mais famosos para designar um distúrbio comportamental: a síndrome de Otelo.
A trama é simples. Um prestigiado general de pele morena (Otelo, o mouro) casa-se em segredo com a bela Desdêmona, filha de um nobre veneziano. Iago, amigo e subordinado do protagonista – e um dos mais famosos “malvados” da história do teatro –, faz de tudo para arruinar esse casamento e prejudicar seu superior hierárquico. Para atingir esse objetivo, instiga o ciúme, fazendo Otelo acreditar que a mulher o trai com Cássio, um jovem tenente. O plano funciona tão bem que Otelo acaba matando a mulher e suicidando-se em seguida. Para quem assiste às malvadezas de Iago, suas mentiras e audácia são de tirar o fôlego. Mas o conjunto dos personagens é constantemente traído por uma retórica excessiva: ele finge expor coisas que preferia esconder, mas que revela por se sentir obrigado pela amizade e fidelidade que o ligam a seus interlocutores. O mecanismo constitui a parte essencial do desenvolvimento do texto, até o desfecho trágico.
Na verdade, com exceção das mentiras mais ou menos sutis de Iago, quais “provas” levarão Otelo a assassinar a esposa? Elas são risíveis: um lenço perdido e misteriosamente encontrado nos aposentos de Cássio, um mal-entendido durante uma discussão na qual o tenente fala de sua amante Bianca (que Otelo toma erradamente por Desdêmona), e as mãos úmidas da mulher, para ele um indício revelador de sua infidelidade (quando na verdade ela está simplesmente ansiosa). O cúmulo da ironia é que Otelo chega a considerar seu próprio ciúme uma prova da infidelidade da esposa: “Uma natureza não se deixaria invadir dessa forma pela sombra da paixão (ou emoção) sem um bom motivo. (…) Não são meras palavras que me tanto agitam”. E mesmo o assassinato de Desdêmona constituirá uma prova complementar da culpabilidade dela: “Eu sofreria a danação das profundezas do inferno, se não tivesse chegado a esses extremos sem motivos justos”.
Embalado pela eficácia de suas maquinações, Iago leva a simulação a ponto de colocar Otelo contra seu próprio plano, na famosa fala: “Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre! Esse chifrudo vive na alegre embriaguez de quem, tendo certeza de sua adversidade, não ama aquela que o trai; mas oh! que malditos minutos ele conta, esse que ama, mas duvida, mas ama perdidamente!”. A ingenuidade do general, não somente por confiar cegamente em Iago, mas, sobretudo, por apostar em sua própria capacidade de discernimento, aparece em toda sua ironia quando ele afirma, convicto, que não é homem de sucumbir com facilidade ao ciúme. E Iago não precisa mais do que concluir hipocritamente: “Eu devo rogar que não deis a minhas palavras um desfecho mais grave, um alcance mais amplo do que o de mera suspeita”.
A peça é um estudo magistral do ciúme patológico, um tema inúmeras vezes dissecado por pesquisas clínicas posteriores. Hoje, sabe-se, por exemplo, que essa emoção extremamente perturbadora vem acompanhada de perturbações psicológicas. Os homens são particularmente sensíveis à simples representação mental de uma infidelidade sexual e esses pensamentos costumam ser suficientes para aumentar a pressão sanguínea e fazer soar o alarme do sistema nervoso autônomo. Iago abusará dessa fragilidade para levar seu general à loucura, por exemplo, quando sugere a ele, com ar de quem não quer nada: “Agradar-lhe-ia assistir, estupefato, a um grosseiro flagrante e vê-la ser assediada?”.
Acesse aqui para ler o artigo completo.

15/01/2016

O verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Machado de Assis 

20/08/2012

Acerca do ciúme

O ciúme é uma espécie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e não provém tanto da força das razões que levam a julgar que podemos perdê-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar até os menores motivos de suspeita e a tomá-los por razões muito dignas de consideração.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que são muito grandes do que os que são menores, em algumas ocasiões essa paixão pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de exército que defende uma praça de grande importância tem o direito de ser zeloso dela, isto é, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta não é censurada por ser zelosa de sua honra, isto é, por não apenas abster-se de agir mal como também evitar até os menores motivos de maledicência.
Mas zombamos de um avarento quando ele é ciumento do seu tesouro, isto é, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado. E desprezamos um homem que é ciumento de sua mulher, pois isso é uma prova de que não a ama da maneira certa e tem má opinião de si ou dela. Digo que ele não a ama da maneira certa porque se lhe tivesse um amor verdadeiro não teria a menor inclinação para desconfiar dela. Mas não é à mulher propriamente que ama: é somente ao bem que ele imagina consistir em ser o único a ter a posse dela; e não temeria perder esse bem se não julgasse que é indigno dele, ou então que a sua mulher é infiel. De resto, essa paixão refere-se apenas às suspeitas e às desconfianças; pois tentar evitar algum mal quando se tem motivo justo para temê-lo não é propriamente ter ciúmes.
René Descartes, in As Paixões da Alma