A tolerância é um crime quando o que se tolera é a maldade.
Thomas Mann, in A montanha mágica
A tolerância é um crime quando o que se tolera é a maldade.
Thomas Mann, in A montanha mágica
Thomas Mann, in Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas
Thomas Mann, in Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas
“Amar a si próprio”, disse um escritor, não sei mais qual, mas certamente foi um autor espirituoso, “amar a si próprio é sempre o início de uma vida romanesca.” O amor a si próprio, pode-se acrescentar, é também o começo de toda autobiografia. Pois o impulso de uma pessoa de fixar a sua vida, apresentar o seu desenvolvimento, festejar literariamente o seu destino e requerer com paixão o interesse do mundo que a cerca e da posteridade tem como pressuposto a mesma vivacidade incomum da sensação de “eu” que, segundo aquele escritor, é capaz não apenas de inscrever uma trajetória subjetivamente como romance, mas também de elevá-la objetivamente à dimensão do interessante e relevante. Trata-se de algo muito mais forte, profundo e produtivo do que o “amor-próprio”. Nos casos mais belos, é a grata e respeitosa plenitude de si mesmos dos eleitos dos deuses, tal como emana dos versos seguintes com uma ênfase incomparavelmente intensa:
É o interesse ingênuo e aristocrático pelo mistério da alta preferência, da elegância substancial, da distinção perigosa, dos méritos inatos, cujos portadores eles sentem ser; o desejo de dar a conhecer – a partir da experiência mais secreta – como um gênio se forma, como felicidade e mérito se encadeiam insoluvelmente após uma decisão qualquer da providência. Foi o que levou a Poesia e verdade, de Goethe, e é propriamente o espírito da grande autobiografia em si.
Essas frases eu escrevi há anos, quando tive de redigir algumas palavras para acompanhar o romance autobiográfico póstumo de um autor precocemente falecido no seu caminho rumo ao público leitor, e lembro-me delas no instante em que estou prestes a ler aqui alguns trechos do começo de um livro ainda inacabado, o qual se apresenta ilusoriamente como a autobiografia de um falsário, de um enganador. Um tal livro é um empreendimento insólito, nisso haverão de concordar comigo, e não devem se surpreender se eu próprio me questiono pelos motivos mais profundos desse conceito; tampouco irão interpretar como presunção se me vejo tentado a – e tento – estabelecer uma conexão com o desenvolvimento alemão, até mesmo com um determinado contexto político. É nossa época que nos ensina a pensar assim.
O romance, com sua mistura de elementos sintético-plásticos e analítico-críticos, certamente não é um gênero muito alemão. E o é menos ainda quando é político, quando contém uma crítica social. Mas existe uma espécie de romance que é alemão, tipicamente alemão, legitimamente nacional, e essa espécie é o romance de formação e de desenvolvimento impregnado de elementos autobiográficos. Imagino ainda que os senhores e eu concordamos que o predomínio desse tipo de romance na Alemanha, o fato de sua específica legitimidade nacional, está intimamente ligado ao conceito alemão de humanidade, ao qual – como é o produto de uma época em que a sociedade se decompôs em átomos e que transformou cada cidadão em um indivíduo – desde sempre faltou quase totalmente o elemento político; está, pois, ligado de modo íntimo ao individualismo alemão romântico e apolítico, aquele individualismo cultural que se tenta conciliar com o novo socialismo de Estado alemão, chamando-o de seu complemento.
Tudo estaria muito bem, se realmente fosse apenas uma questão de oposição e de conciliação entre individualismo cultural e socialismo de Estado. Mas o desenvolvimento intelectual, o progresso na direção progressista, no qual a Alemanha se encontra há algum tempo e que, com grande probabilidade, experimentará um poderoso impulso com a guerra, na realidade leva muito adiante. É um processo que exige – o que talvez não seja muito lisonjeiro para ele – um punhado de palavras artificiais duvidosas para caracterizá-lo. Trata-se da politização, da literarização, da intelectualização, da radicalização da Alemanha; é sua “humanização” no sentido ocidental-político e sua desumanização no sentido alemão; trata-se – para utilizar a expressão predileta, o grito de guerra e de entusiasmo do literato radical, cuja causa e missão é estimular esse processo – da democratização da Alemanha, termo muito sumário, que, de maneira geral, quer designar um processo em que a condição espiritual alemã tenta se assimilar à do Ocidente europeu e do Ocidente em geral. Mas a medida exata do progresso desse processo será o avanço do romance, mais precisamente do romance social e da sátira político-social no interesse público da Alemanha.
Quem se admiraria então, se do outro lado, sob a influência desse processo, a forma originalmente nacional da epopeia alemã em prosa, o romance de formação individualista, começasse a se decompor? Seria parte do processo, seria bem de acordo com o espírito do progresso. Mas qual foi, desde sempre, o meio e o instrumento da decomposição? Foi o intelecto. E qual foi a forma artística com a qual o desejo do instinto para a decomposição intelectualista sempre se vestiu, preferencialmente, necessariamente? Foi sempre a paródia. O romance alemão de formação e desenvolvimento, parodiado, exposto ao escárnio do progresso em forma de autobiografia de um impostor e ladrão de hotel – esse seria, portanto, o contexto melancólico-político em que eu teria que colocar esse livro?
Paremos por aqui! Não nos deixemos dar vazão a esse ou àquele pensamento tentador sobre a paródia de forma geral – digo, sobre até que ponto toda arte tem suas raízes na paródia, sobre a relação entre o elemento característico e o elemento parodístico e sobre como toda adequação estilística constantemente tangencia a paródia e conflui para ela. São coisas que não se adequam sem mais nem menos à leitura para um público que chegou antecipadamente a um evento literário de fim de dia. Afinal, o que importa? O que importa é que conversem hoje à noite – o que provaria que o pouco que até agora consegui concretizar do meu esboço não se limita a um curioso “desejo de instinto político” qualquer, o que não levaria a nada, mas contém vida. Começo a ler… e estou curioso se os senhores (e eu) terão a impressão de que valeria a pena um dia prosseguir e levar a cabo a obra iniciada há anos.
Thomas Mann, in Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas
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1. Em tradução meramente indicativa: “Tudo os deuses, os infinitos/ dão a seus eleitos, e por inteiro:/ todas as infinitas alegrias/ todas as infinitas dores, e por inteiro.” Goethe, Alles geben die Götter, em carta de 17 de julho de 1777 à condessa Auguste zu Stolberg. (N.T.)
“Os que nascem com mais sabedoria e mais amor à virtude do que os outros devem se tornar brâmanes”, dizem os Vedas. Se compreendermos “sabedoria” como um conhecimento de tudo o que é humano fundamentado em contemplação interior e em devotada experiência, conhecimento este supervisionado e estimulado por um prazer apaixonado pela expressão designadora, um desejo de aventura e maestria no campo da palavra sofisticados, sedentos de estímulos, sempre insaciáveis, sempre em busca de novas conquistas; e se compreendermos como “amor à virtude” a pureza do contemplador, o desejo do incondicional, o asco à concessão e à corrupção, uma insistência irônica ou solenemente acusadora e julgadora no plano ideal, na liberdade, na justiça, na razão, na bondade e na dignidade humana: nesse caso, essa definição do talento dos brâmanes consegue expressar na fórmula mais breve possível a vocação literária.
O século XVII, o século literário por excelência, gostava de diferenciar entre o “sábio” – uma natureza seca e rabugenta – e o “filósofo”, e parece que com este último conceito queria dizer mais ou menos o que hoje compreendemos por “literato”. As diferenças entre as épocas, no entanto, são relevantes, e o conceito atual do literato se equipara menos ainda ao do lettré , do erudito, que o do filósofo de então. Exclua-se tudo o que diz respeito à formação acadêmica. Flibusteiro intelectual com tipos muito diferentes de formação científica, muitas vezes desprovido de diploma, de academia, de exames, demasiadamente libertino, sonhador, homem que vive a vida, demasiadamente artista para resolver coisas práticas, mas divorciado da arte no sentido ingênuo e inocente pela consciência, pelo espírito, pelo moralismo, pela crítica, o literato talvez possa ser designado com mais perfeição como artista da cognição.
Mas quem quiser lançar a pergunta sobre qual impulso – se o artístico ou o moral – se não predomina pelo menos é o primário e originário nesse curioso tipo (uma questão que aqui já foi tangenciada com o cuidado necessário), arriscará trazer para o centro do debate o problema da própria arte, o qual, em sua condição de problema, nunca deixará de escandalizar a humanidade objetiva enquanto ela estiver envolvida com o dualismo de forma e conteúdo e enquanto a palavra “forma” inevitavelmente fizer ressoar o conceito da frivolidade e da falta de seriedade. Forma na qualidade de frivolidade: nesse juízo ou preconceito, que eu não combaterei e que até pode conter muita verdade subjetiva, efetivamente baseia-se toda a desconfiança, descrença com que o cidadão, ou seja, o homem subjetivo, enfrenta o literato em qualquer área prática, por exemplo a área da política; e há casos em que um literato entende que se expressou com devoção e paixão sobre alguma complicação ou o problema de um amigo, recebendo a amarga resposta de que sua contribuição até pode ser um belo tratado estético, mas não serve de conselho nem de consolo. Não se costuma acreditar, no mundo, naquilo que é bem dito. Ao contrário, o cidadão comum acredita apenas em uma seriedade sem forma, em uma moral nua e crua; a ele, virtude com senso estético parece uma desfaçatez blasfema – e a firmeza de sua convicção lhe dá razão. Mesmo assim, Schiller dedicou-lhe eloquentemente seu pensamento mais caro e entusiasmado, o da relação entre arte e moral, entre estética e ética. Mesmo assim, em um poema famoso, Goethe juntou a boa ação e a bela palavra… A boa ação! Nada é mais característico para a vocação literária do que a eficácia dupla e, no fundo, unitária, daqueles paladinos filantrópicos da época do Iluminismo que em escritos sobre política criminal convocaram a sociedade perante o fórum da humanidade, educaram seus contemporâneos a repudiar as selvagerias da Justiça, a tortura e a pena de morte, prepararam o caminho para leis mais suaves – e que, tipicamente, notabilizaram-se através de ensaios sobre linguagem e estilo, tratados sobre a arte da escrita. Filantropia e arte de escrever como paixões predominantes de uma alma: isso quer dizer alguma coisa; e é relevante também que o conceito de barbárie abranja todo o conjunto do que se imagina como sendo falta de cultura, ignorância, vilania, crueldade e ausência de bom gosto. Escrever bem significa quase pensar bem, e daí à boa ação é um passo. É bom constatar que todo processo civilizatório, todo enobrecimento moral e melhoramento do gênero humano origina-se do espírito da literatura, e para os pedagogos populares dos antigos a bela palavra já era vista como produtora da boa ação.
Tudo isso deve ser mencionado a título de atenuação, antes de expressarmos a hipótese de que de fato é na palavra que se deve encontrar a origem e o impulso primevo do literato, que aquele desejo de aventura e maestria no reino da expressão – o qual talvez seja não apenas um efeito colateral ou consequência de sua “sabedoria”, de seu conhecimento psicológico, e sim sua origem – possivelmente também poderia ser a de seu “amor à virtude”. Sim, a palavra, que está ali, que pertence a todos e que apenas ele consegue manejar de modo soberano e brilhante, a palavra é seu primeiro espanto, seu prazer mais precoce, seu orgulho infantil, o objeto de seus exercícios secretos e dos seus exercícios não autorizados, a fonte de sua superioridade vaga e estranha, ela é o seu talento… Mas em cada talento há, inato, o anseio pelas melhores e mais vantajosas condições de desenvolvimento, e, por natureza, quanto mais forte se sentir algo baixo, lúdico e ridiculamente engraçado, com maior ambição ele tentará se levar a sério, solenemente, elevando seus efeitos para a dimensão da dignidade e da bondade. Essa é a moralidade do talento que se manifesta em numerosas vidas de artistas e, da maneira mais admirável, talvez, em alguns casos isolados da esfera literária.
O literato, portanto, é duplamente moralista: é um conhecedor da alma e um juiz dos costumes, e é as duas coisas pela sua condição de artista. Seu impulso artístico faz dele um psicólogo, pois onde o seu talento e sua sofisticação linguística e curiosidade poderiam encontrar satisfação mais preciosa, onde seu virtuosismo expressivo poderia encontrar missões mais seletas, difíceis, sublimes, do que nas confusões do coração humano? Não que ele se expresse depois de ter vivenciado e reconhecido, essa seria mais a condição do poeta. O literato se expressa ao vivenciar; ele vivencia ao se expressar, e ele vivencia para se expressar.
Mas por outro lado é do seu talento que se origina sua paixão ética. A pureza e a postura nobre do seu estilo se refletem (provavelmente não é o contrário) em sua visão e percepção das coisas humanas, sociais e do Estado. Ele é radical porque o radicalismo, para ele, significa pureza, magnanimidade e profundidade. Detesta a imperfeição, a covardia lógica, o compromisso; vive em protesto contra a degradação da ideia pela realidade. Seu senso estético, seu idealismo de artista lhe proporciona o gesto interno da generosidade, com a qual ele protege o que é honrado do que é útil. É Montaigne que cito aqui, e aquele tratado espantoso em que compara esses dois valores. Em toda constituição de Estado, diz, existem serviços úteis, necessários, mas que também são vis, até mesmo viciosos, e se a necessidade comum apaga o seu verdadeiro rosto devemos deixar esse papel aos cidadãos que têm mais nervos e menos temor. O bem comum, segundo ele, exige que se traia, que se minta, que se derrame sangue, mas “deixemos essa tarefa àqueles que são mais obedientes e maleáveis”, diz Montaigne. Mais do que quem? Do que ele, o literato, excessivamente nervoso e temeroso, demasiado rebelde e rígido para sacrificar o que é honrado ao que é útil.
Montaigne fica fora de si com o juiz que, através do engano e de falsas promessas de brandura ou clemência, seduz o criminoso a revelar seus atos. Chega a afirmar que o cidadão capturado por ladrões e libertado após prometer pagar uma determinada soma é obrigado a manter sua promessa – pois, ainda que o pavor tenha forçado a sua língua sem vontade, continua obrigado a manter sua palavra, mesmo sem o temor. E qual a origem da sensibilidade de Montaigne no quesito da honradez? Vem do mesmo gosto que o faz eleger Epaminondas como seu herói: aquele guerreiro humano tão afeito aos costumes amenos e educados que, topando com o amigo e hóspede em meio à situação mais enfurecida, desviou-se educadamente para o lado, e do qual se diz que, antes de sair para a guerra, levava um sacrifício às musas a fim de, com sua suavidade e alegria, livrar Marte da crueza e da raiva. Bem – tudo isso é literatura! Se a vida é uma luta, o literato é o guerreiro que, antes da batalha, leva um sacrifício às musas.
Seria possível supor a que exemplo o literato da Renascença recorre para questionar moralmente aquilo que é útil? “O casamento”, diz ele, “é o laço mais necessário e útil da sociedade humana. No entanto, o conselho dos santos considera o celibato a decisão mais correta e exclui do casamento a profissão humana mais honrada, da mesma forma que usamos os animais inferiores para o cruzamento das raças.” Que exemplo forte! Ao que parece, o literato se entende melhor com o santo do que com o seu oposto, o artista, e se o seu moralismo tem origem artística, são precisamente seus impulsos de conhecimento e julgamento que o distanciam do artista como nós o imaginamos – esse ser alegre e inocente que enfrenta o irmão severo, ou até prefere nem enfrentar, com um misto de contrariedade e pia timidez.
O artista – considerando-se aqui o tipo da forma tão pura quanto o literato – é eticamente indiferente, irresponsável e ingênuo como a natureza, da qual é filho legítimo. De feitio criativo sem ser contemplativo, e sim ativo, e, enquanto homem de realização acostumado a fazer concessões à matéria, nem imagina perceber como opostos o honrado e o útil. Um rapaz que vive e deixa viver, sensual, infantil, dado ao jogo, ao brilho e às festas, deixa a quem tiver vontade julgar o mundo de Deus, o qual ele se satisfaz em ornamentar e recriar. É conhecido como mestre da alegria nas cortes dos grandes, comensal despreocupado à mesa do canalha rico – em resumo, se algum traço de caráter positivo falta a esse simpático camarada é a honradez, que não é em absoluto questão de natureza e de “temperamento”, e sim de conhecimento e de crítica. Já o literato, por sua vez, é a pessoa essencialmente honrada, e não consegue deixar de sê-lo. Sua aversão a se vincular, comprometer-se, a se tornar comum – ele, o livre observador e juiz –, simplesmente uma demanda da autoafirmação, vence sem qualquer esforço todas as tentações do mundo. Seu pathos de liberdade, seus conceitos de dignidade humana, sua insubordinação o fazem aparentemente inadequado para servir aos príncipes. Sua visão social o tornaria cúmplice do explorador mão-aberta em cuja casa se hospedasse. E enquanto o artista é propriamente o homem do efeito e do sucesso, o literato não vê o sucesso como quase nada além de ornamento da injustiça – sim, a sua irritabilidade psicológica e ética torna-o, enquanto ser contemplativo, rancoroso contra a atividade em si, contra a atividade criadora que se adapta praticamente. O ódio que Voltaire tinha de Carlos Magno é um excelente exemplo dessa sensibilidade do literato em relação ao heroísmo impuro da ação. “O nome de Carlos”, exclama ele, amargurado, “é uma das maiores provas de que o sucesso redime a injustiça e conduz à fama.” Em seguida mostra, sorrindo e babando, o que é a grandeza ativa. Carlos não respeitou os direitos da natureza e os laços do sangue. Lançou na miséria a mulher do irmão e seus filhos a fim de se apoderar de suas terras. Provavelmente, mais tarde os enviou para o convento ou mandou matá-los. Obedecendo a uma demanda do papa, degredou sua esposa langobarda sem motivo e sem formalidade, mandando prender o seu pai e outros príncipes. Tratou a guerra libertária de Wittekind como uma revolta comum e mandou executar 4.500 presos às margens do rio Aller. Escravizou os saxões sob o pretexto de querer cristianizá-los e aliou-se – ele próprio um cristão – aos sarracenos contra outros sarracenos, sem pensar em querer converter seus aliados ao cristianismo. “Outros interesses, outros atos!”, grita Voltaire. E vemos que precisamente isso, a renegação desavergonhada daquilo que é honrado em prol do que é útil, é-lhe insuportável. Um homem prático sagaz que de forma alguma quis se vingar de Roncesval, mas que sempre se apoderava apenas do que podia carregar, “adequando sua ambição ao favor ou ao desfavor das circunstâncias”. Um hipócrita que, depois de corromper a nobreza romana com ouro e ter se candidatado oficialmente ao cargo de imperador, fingiu surpresa quando o papa Leão o declarou imperador durante a missa, num jogo encenado. Um ladrão esperto, em suma, ao qual apenas o sucesso e – como Voltaire acrescenta com maliciosa equidade – “algumas propriedades brilhantes” concederam o atributo de grande homem: este é o herói histórico diante da cadeira do juiz da pura contemplação, e quem achar absurdo tal juízo deve considerar que o absurdo não é outra coisa senão a honradez espiritual.
O literato é correto até as raias do absurdo, é honrado até as raias da santidade; sim, parente dos profetas da velha aliança enquanto conhecedor e juiz, efetivamente representa o tipo do santo mais evoluído com mais perfeição do que qualquer anacoreta de tempos mais primitivos. Seu senso estético, sua sensibilidade contra o que é vil, ridículo e indigno leva ao aniquilamento de todas as paixões baixas: a maldade, a inveja, a prepotência, o desejo de vingança, o ciúme; sua arte de fragmentar e designar, o efeito refrescante da palavra literária leva à dissolução e à conciliação da paixão propriamente dita, leva à mansidão, à calma. Sim, se desde o nascimento ele é um juiz, com a vocação e a missão de atribuir às coisas os nomes certeiros, trata-se, em última análise, de sua “sabedoria”, que se revela mais forte do que o seu “amor à virtude”: conhecer o coração, saber da multiplicidade de significados e da profunda injulgabilidade das ações humanas faz com que ele compreenda, com que perdoe, o conduz à bondade…
Thomas Mann, in Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas
Que a noite caia diariamente; que a bênção do repouso, bálsamo benfazejo, derrame-se todo entardecer sobre o sofrimento e o tormento, a dor e a preocupação; que essa poção do Lete esteja sempre pronta para nossos lábios ressecados; que, depois da luta, esse suave banho acolha nosso corpo agitado a fim de que ele ressurja, purificado de suor, poeira e sangue, fortalecido, renovado, rejuvenescido, quase sem saber, com a mesma coragem e o mesmo prazer originários – amigo! Sempre percebi e reconheci isso como a mais gentil e comovente entre as grandes coisas. Criaturas de ânsia obscura, emergimos da noite calma para o dia e caminhamos. O sol arde, andamos sobre espinhos e pedregulhos pontiagudos, nossos pés sangram, nosso peito arqueja. Como seria desesperador se a estrada ardente do esforço se abrisse à nossa frente indivisível, sem meta provisória, em ofuscante imprevisibilidade! Quem teria forças de percorrê-la até o final? Quem não sucumbiria, desencorajado, arrependido? Mas a noite acolhedora entrecorta muitas, muitas vezes a via-crúcis da vida; cada dia tem o seu ponto de chegada: um bosque, santo bosque, espera-nos com o murmurar das fontes e um crepúsculo verde, com o musgo macio a consolar nossos pés, um frescor suave envolvendo nossa fronte com a paz da pátria; e com os abraços abertos, a cabeça inclinada para trás, os lábios entreabertos e o olhar que se quebra feliz, adentramos sua deliciosa sombra…
Dizem que fui uma criança calma, que não gritava, não esperneava, mas era afeito ao sono e ao cochilo em um grau confortável para as amas. Acredito, pois lembro que amava o sono e o esquecimento em um tempo em que eu mal tinha o que esquecer, e lembro muito bem da primeira impressão que instigou o calmo afeto até ele se tornar um carinho consciente. Foi quando escutei a lenda do homem sem sono – a história do homem que se doava com tanta e tão insensata sofreguidão ao tempo e seus afazeres que maldizia o sono. Então, um anjo o fez merecedor da terrível bênção: privou-o da necessidade física do sono, soprou em seus olhos até que se transformassem em pedras cinzentas em suas cavidades e nunca mais se fechassem. Nem saberia contar em detalhes como esse homem se arrependeu de seu desejo, a que tormentos foi submetido, único homem sem sono entre todos os outros, e como ele, triste condenado, arrastou-se vida afora até finalmente ser libertado pela morte, até finalmente a noite, antes inacessível para seus olhos pétreos, tomá-lo para si e em si – só sei que, na noite daquele dia, mal pude esperar ficar sozinho em minha pequena cama para me atirar no colo do sono, e que nunca dormi mais intensamente do que na noite em que escutei aquela história.
Desde então, sempre observei com satisfação o que os livros diziam para elogiar o sono. Assim, foi em consonância com o meu coração que Mesmer enfatizou a possibilidade de que o sono, no qual consiste a vida das plantas, e do qual a criança durante as primeiras semanas de sua vida só desperta para receber o alimento, talvez fosse a condição natural e original do homem, correspondendo da maneira mais direta à função de vegetar. “Não poderíamos afirmar que nossa vigília apenas existe para dormirmos?”, disse o genial charlatão. Isso foi magnificamente bem pensado, e o estado de vigília certamente é apenas um estado de luta em defesa do sono. Afinal, Darwin não defendeu também que o espírito apenas se desenvolveu como arma na luta pela existência? E que arma perigosa! Uma arma que, quando nenhuma necessidade externa ameaça nossa segurança, frequentemente se volta contra nós. Ditosos somos nós quando ela descansa, quando a chama ofuscante e ardente da consciência já iluminou exaustivamente o mundo que nos preenche e circunda e podemos voltar a nos abandonar ao nosso verdadeiro e feliz estado!
Mas se é a necessidade que nos desperta, não é ela, na verdade, que nos torna estranhos ao sono. Acreditas que desconheço a insônia por tristeza e preocupação? A verdadeira devoção só veio ao meu sono depois que passou a primeira época de vida da liberdade e da intocabilidade, quando as contrariedades, em forma de escola, começaram a desvirtuar os meus dias. Nunca dormi de maneira mais deliciosa do que em certas noites entre domingo e segunda-feira, quando, depois de um dia protegido, durante o qual eu pertencia apenas a mim e aos meus, o próximo já ameaçava com adversidade rígida e alheia. E assim continua sendo. Nunca durmo mais profundamente, nunca regresso com mais doçura ao colo da noite do que quando me sinto infeliz, quando meu trabalho fracassa, quando o desespero me oprime, quando o asco à humanidade me obriga a refugiar-me na escuridão… e como, pergunto, poderia ser diferente, uma vez que a tristeza e a dor jamais seriam capazes de fortalecer nosso apego ao dia e ao tempo?
Sorrirás se eu te contar que conservo uma lembrança precisa e agradecida de cada cama na qual dormi por um período de tempo mais longo – cada uma delas, desde o meu primeiro berço com grades e uma cortininha verde até o imponente leito de mogno no qual nasci e que durante muitos anos ocupou meus quartos de solteiro. Agora tenho uma cama mais leve, uma cama inglesa, laqueada de branco, as partes da cabeceira e dos pés graciosamente decoradas. Acima dela, numa moldura branca, está aquele quadro francês chamado Marcha à estrela, que, com sua atmosfera azul esmaecida, flutuantemente musical, é a mais bela decoração de alcova que eu poderia imaginar… Sorrirás, digo eu – mas, ainda assim, que lugar extraordinário tem a cama entre a mobília doméstica, esse móvel metafísico em que se cumprem os mistérios do nascimento e da morte, esse perfumado casulo de linho em que nós, quentinhos, inconscientes e de joelhos dobrados, como outrora na escuridão do ventre materno, como que religados ao cordão umbilical da natureza, absorvemos alimento e renovação por misteriosas vias… Não é como um barco mágico que, encoberto e insignificante, ocupa o seu canto durante o dia, e nos leva flutuando toda noite para o mar do inconsciente e do infinito?
O mar! O infinito! Meu amor pelo mar, cuja gigantesca simplicidade sempre preferi à sofisticada pluralidade das montanhas, é tão antigo quanto o meu amor ao sono, e sei muito bem qual a raiz que essas duas simpatias têm em comum. Trago dentro de mim muito da sabedoria dos hindus, um desejo pesado e indolente por aquela forma ou não forma da perfeição chamada “nirvana” ou o “nada”, e, embora seja artista, cultivo uma inclinação muito pouco artística à eternidade, que se exterioriza em uma repulsa contra a estrutura e a medida. O argumento contrário, acredita-me, é a correção e a decência, e, para utilizar a palavra mais séria, a moral… O que é a moral? O que é a moral do artista?
A moral tem dupla face, significa tanto concentração quanto devoção, e uma coisa sem a outra nunca é ética. “Concentração”, o oposto criativo da distração sobre o qual Grillparzer faz seu sacerdote proferir palavras tão maravilhosas, é algo que precisa ser sentido; e não é estranho que uma determinada fantasia sempre me transmita a sensação mais profunda da palavra – a fantasia do feto se criando no ventre da mãe? Nossa cabeça, imagina, não é redonda e não está formada desde o princípio, precisando apenas crescer; inicialmente, o rosto ainda está aberto, cresce aos poucos dos dois lados em direção ao centro, fechando-se devagar e sempre até se tornar esse nosso rosto simétrico, com olhar, com vontade, individualmente concentrado… e esse fechar-se, cerrar-se, criando uma forma decidida a partir do universo de possibilidades, vê, é essa fantasia que às vezes me faz compreender intuitivamente o que na verdade ocorre aqui por trás do fenômeno. Parece-me então que toda existência individual pode ser compreendida como consequência de um ato de vontade e de uma determinação sobrenaturais à concentração, à delimitação e conformação, à concentração a partir do nada, à renúncia à liberdade, ao infinito, ao dormitar e tecer em uma noite sem espaço nem tempo – uma decisão ética de ser e sofrer. Sim, o devir já é moral, pois o que mais significaria aquele aforismo cristão de que “o maior pecado do homem é ter nascido”? Só o puritano acredita que pecado e moralidade são conceitos antagônicos. Na verdade, são a mesma coisa; sem o conhecimento do pecado, sem a doação ao que é pernicioso e devorador, toda moralidade não passa de virtude pueril. O estado desejável no sentido ético não é a pureza, a ignorância, não é o cuidado egoísta e a arte desprezível da boa consciência, e sim a luta e a necessidade, a paixão e a dor. Heinrich von Kleist diz em determinado trecho: “Quem ama sua vida com cuidado já morreu em termos morais, pois a sua maior energia vital de poder sacrificá-la já apodrece quando ele a trata bem.” E as palavras mais éticas dos evangelhos são: “Não resistais ao mal.”
A moral do artista é a força da concentração egoísta, a determinação rumo à forma, à configuração, à delimitação, à corporalidade, rumo à renuncia à liberdade, ao infinito, ao dormitar e tecer no espaço ilimitado da percepção – resumindo em uma palavra, é a vontade para a obra. Mas quão pouco nobre e ética, exangue e asquerosa é a obra nascida da uniformidade fria, sábia e virtuosa de um artista! A moral do artista é devoção, engano e autorrenúncia, é luta e necessidade, vivência, conhecimento e paixão.
Sem dúvida, a moral é a questão suprema da vida, talvez seja a própria vontade de viver. Mas se queremos que seja mais do que uma declaração teatral de que a vida não é o maior dos bens, então deve existir algo mais elevado, mais definitivo do que essa vontade, e assim como a moral significa corrigir e disciplinar tudo o que é livre e possível para algo limitado e real, ela também necessita de um corretivo, uma justificativa, uma advertência incessante à introspecção e à renúncia. Chamemo-lo de sabedoria, esse corretivo – e seu oposto será a insensatez do homem que, afeito ao tempo e ao dia com um zelo tão cego, maldizia o sono. Chamemo-lo de religiosidade, e seu oposto será aquela animalidade pagã presa com o focinho ao chão, que não enxerga acima de si a grande paz das estrelas. Chamemo-lo de sofisticação – e seu oposto será a banalidade, que se sente totalmente em casa na vida e na realidade, sem nostalgia, sem conhecer uma pátria mais elevada: pois existem pessoas de uma banalidade e eficiência tão infinitas que não imaginamos que algum dia possam morrer, que algum dia possam compartilhar o sacramento e a transfiguração da morte.
Não é a depressão e sim a paixão – aquilo que Gautama Buda chama de “estar conectado” –, o febril engajamento do nosso eu no dia e na ação, que nos rouba o sono, e isso tem mais que uma significação nervosa: significa que nossa alma perdeu a pátria, tendo-se afastado tanto dela no zelo que já não encontra o caminho de volta. E não parece que precisamente os maiores e mais fortes passionais sempre encontram facilmente o “caminho de volta”? Ouvi dizer que Napoleão tinha a capacidade de adormecer quando queria, durante o dia, rodeado de gente, no barulho de uma batalha… e quando me lembro disso, vejo aquele quadro cujo valor artístico pode não ser alto, mas cuja anedota sempre exerceu sobre mim um fascínio infinito. Chama-se C’est Lui e descreve uma mísera sala de camponeses, cujos moradores, marido, mulher e filhos, espreitam tímidos junto à porta aberta. Pois no meio do cômodo, junto à mesa frágil, dorme o imperador. Esse emblema da paixão egoísta e expansiva está sentado, desembainhou a espada, o punho frouxo apoiado na mesa, o queixo no peito, e dorme. Não precisa de silêncio nem de escuridão, não precisa de almofada para esquecer o mundo; sentou-se em qualquer cadeira dura, fechou os olhos, deixou tudo para trás – e dorme.
Seguramente o maior homem de todos é o que preserva a lealdade e a nostalgia da noite, mas durante o dia realiza as maiores façanhas. Por isso, amo acima de tudo a obra que nasceu da “nostalgia da noite sagrada” e que, por assim dizer apesar de si mesma, persiste em seu esplendor de vontade e sonolência: o Tristão de Richard Wagner.
Thomas Mann, in Travessia marítima com Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas