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10/08/2023

Capítulo Terceiro | Todo trem é uma rua que caminha


Ricardo e Roberto aos poucos foram se habituando à nova vida. Os meses substituíram aquele verão escaldante por um friozinho até de certo modo impertinente.
Não era tão agradável levantarem-se às cinco e meia, tomar um café mais ou menos magro e se encaminharem para a estação, onde pegavam o trem de seis e meia, um Maria-Fumaça que saía de Bangu e oferecia a oportunidade de viajarem sentados e juntos. Os outros, os que vinham de Campo Grande e Santa Cruz, surgiam lotados, com gente até pendurada nas plataformas.
Hoje, porém, o dia surgira de um modo todo especial. Juntos no mesmo banco olhavam a paisagem do trem. Muitos já se conheciam de vista ou então formavam amizades. Conversavam os seus problemas, retificavam as dificuldades da vida ou simplesmente se queixavam sem solução alguma.
Roberto olhou de relance o rosto calmo e grave do irmão. Certamente pensaria os mesmos pensamentos ao mesmo tempo que os seus.
Ricardo, o que você achou da novidade?
A resposta custou a vir e assim mesmo com um balançar de ombros, indiferente.
Não consegui nem dormir direito essa noite.
Eu notei.
É tudo quanto você me diz?
Precisamos pensar com calma no assunto. Muita calma mesmo. Seria melhor pensar durante o dia e na volta a gente conversar sem pressa...
Nada mais disse, mas a frase de Rômulo martelava o seu ouvido, o ouvido da sua estupefação.
Estamos ricos de novo. Poderemos dentro de uma semana voltar para a cidade. Basta de pobreza!...”
Revia na memória o irmão torcendo os dedos de alegria.
Voltaremos em breve à civilização. Basta de rua descalça, de gente suja, de verão sufocante. De poeira e lama.”
Roberto não se conteve e tornou a interrogar o irmão.
Seriamente, Ricardo, você acha que Mabel voltará a ser a mesma?
Sorriu antes da resposta.
Certamente sim.
Meu Deus! Aqueles meses deveriam ter modificado ao menos certas atitudes da mãe. Não. A mesma, a mesma, não poderia ser. Alguma coisa de mais profundo deveria ter personificado e atingido o íntimo de Mabel. Ela teria descoberto tudo de falso e negativo da vida. Entretanto, não olvidava o seu sorriso de satisfação, quando Rômulo anunciou o que qualificaria de boa-nova.
Amigos. Chegou o momento. O aneurisma de tio Hermes arrebentou. Vamos ter dinheiro aos montes.
Depois, cinicamente, continuou:
Nunca rezei, implorei e desejei tanto na vida que um aneurisma estourasse.
Ricardo o olhara duramente, sem comentar. Roberto ficou perplexo. Mas o sorriso de Mabel não desapareceu do seu rosto por todo o resto da noite.
O trem andava, parava, apitava e recomeçava a marcha contando os dormentes da estrada. Em Realengo, o trem tornava-se tão cheio que parecia voltar de novo o calor do verão. Isso porque todo mundo viajava de janelas arreadas para evitar a invasão do carvão. No verão ainda era pior, porque a roupa clara de brim se sujava incrivelmente e Mabel não parava de se lamuriar. Reclamava seus dedos gastos no tanque e a grosseria de calos que existiam nas palmas de sua mão.
Baleiro. Baleiro. Quem quer mariola. Paçoquinha de amendoim. Balas, caramelos e chocolates!
Pedia licença e empurrava o cestinho por entre o amontoado de gente no corredor do trem.
A professora, que ao lado de outra professora fazia um tricô feio e marrom, parecia não se incomodar com o resto da humanidade e muito menos com o gritar-me-nino do vendedor de balas. Não se lembrava que o garoto levantara-se antes do sol, atravessara ruas descalças a pé, pegara o seu tabuleiro de mercadoria barata e se arriscava à ira dos fiscais, para amealhar uns míseros tostões e ajudar a mãe ou o pai.
Juro que eu não rezei para que o aneurisma de tio Hermes rebentasse. Nem ao menos desejei isso. Embora algumas vezes pensasse em voltar para a cidade e viver uma vida mais humana e menos cansativa.
Ricardo cutucou o seu braço.
Você está pensando em voz alta. Eu também não desejei isso.
Mas Rômulo declarou abertamente.
Rômulo é assim mesmo. Sempre foi assim.
Retornou o pensamento a Mabel. Será que a mãe também rezara para que “aquilo” acontecesse? Mas não queria fazer mau juízo.
Do outro lado, mais para a frente, surgiu uma discussão danada. Era uma voz esganiçada de mulher quase aos brados.
O senhor bem que poderia fechar essa janela. Tá pensando que é dono do mundo?
Num penso em nada, viu? A gente é que está morrendo de calor e abafamento.
É melhor morrer de calor do que ficar com os olhos cheios de carvão, engraçadinho. O senhor porque usa bicicleta em cima dos olhos não liga.
Ora, dona, engraçadinho é a avó. Eu sou pai de oito filhos e não ando de trem pra passear. São oito bocas pra alimentar. Gente pra calçar. Escola pra comprar uniforme, papel e livros, viu?
Não estou especulando a vida de ninguém, mas se o senhor fosse um cavalheiro fechava a janela e já.
E se a senhora fosse uma dama comprava um Buick e viajava sozinha.
Aí a discussão esquentou mais. Encorpou até. A mulherzinha não calava. Tinha de ganhar a briga.
Se pudesse comprar um Buick comprava antes um manual de boa educação para o senhor.
Os incomodados é que se mudam.
Uma criancinha principiou a chorar. E a turma do “deixa disso” entrou em cena.
Calma, minha gente. Calma. Discutir por uma bobagem dessas.
Ouviu-se o ruído da janela levantando o vidro. A criança parou de chorar aos poucos e a mulher regougou ainda algumas coisinhas e tudo voltou ao que era antes. Com mais calor e menos carvão.
Tio Hermes tinha deixado uma herança enorme. Seria dividida entre Mabel e tia Clarissa. Enquanto montava o legado, Roberto nem imaginava. Mas Rômulo manifestara tamanha alegria que a coisa deveria andar por alto.
O trem avançava o seu destino, só que suas rodas gritavam nos trilhos uma palavra que só Roberto entendia:
Copacabana! Copacabana! Co-pa-ca-ba-na!!!
Passou a mão sobre a fronte suada. E agora? Voltar à mesma vida. Ora todos voltariam, se voltariam. Era como se viessem de uma viagem em redor do mundo. Entrariam no mesmo nível social com a cara mais limpa, mais lambida. E com o dinheiro de novo, novos jantares, novas reuniões, novos baralhos e roletas vivas durante noites e noites.
Passou um aleijado que sempre subia em Deodoro e saltava em Bento Ribeiro. Era o esmoler das terças-feiras. Já tinha até a freguesia certa.
Empurrava, espremia a multidão e lá ia com a sua muleta e sem uma perna. Ao se afastar, muita gente comentava.
Dê não, moça. Ele tem até uma porção de casa. Pede por vício. É como aquele cego cearense lá do Engenho de Dentro. Dizem até que dá uma porcentagem pro cobrador...
Mas o que dou é tão pouco que nem ajuda.
Pois aí é que está. Esse pouco poderia ajudar a quem mesmo precisasse.
O trem encheu mais. E apareceu mais gente comprimida. Dessa vez uma turma que carregava marmita dentro de pasta, porque a economia era maior do que comer no batente. Engraçada a alegria com que conversavam. Na certa continuavam a conversa principiada na espera da estação.
Esse tal de Pimenta não entende é de nada de futebol. Onde já se viu colocar esse tal de Lopes na ponta-direita do selecionado nacional?
Mas dizem que o homem é bom mesmo.
Vocês já viram esse homem jogar alguma vez? Já ouviram falar dele antes disso tudo?
Não. Mas por mim eu emendava a linha do Flamengo com Romeu. Botava Valido, Romeu, Leônidas, Perácio e um ponta-esquerda qualquer.
Isso é que não. Tem o Patesko que joga com o Perácio no Botafogo.
Por mim, não. Sapecava mesmo a linha do Fluminense: Bioró, Romeu, Sandro, Tim e Hércules. Tá?
Sim. Mas tu sisquicia do Diamante. Sem Diamante Negro, linha de ataque não é de nada.
Veio o cobrador das passagens no seu uniforme azul-marinho com riscas douradas no quepe e no colarinho.
Passagem, faz favor.
Triquete-triquete-triquete. Picoteava a passagem. Ou recolhia ou devolvia a quem continuava até à Central. Veio se intrometendo no meio da gente toda e se debruçando sobre os bancos.
Uma voz resmungou.
Peste desse Brozoário! Faz uma semana que ele não aparece e logo hoje, que entrei pela linha e não comprei passagem, ele vem.
Ricardo riu da expressão. Na certa aquele homem nem sabia o que vinha a ser Brozoário. Ouvira de alguma parte e para ele aquilo era tão forte como um palavrão.
Na sua frente o distinto cavalheiro que lia um livro o tempo todo abriu o paletó e retirou do bolsinho do colete o bilhete. Recebeu-o de volta sem tirar os olhos do livro. A capa conservadíssima tal o acuro que o dono lhe dispensava: O Judeu Errante.
Pois foi junto do distinto cavalheiro à sua frente que se deu uma vaga em Marechal Hermes. Tratava-se de um senhor gordo, de testa suarenta e sobretudo um pescoço se enforcando numa gravata velha, derramando banha pela gola do batido paletó. Colocou a pasta da marmita sobre o colo e abanou-se com as mãos roliças e pequeninas.
Uff! Até que às vezes Deus tem pena da gente. Tava com meus calos que pareciam brasa de vulcão.
Ricardo sorriu olhando o homem. Era daqueles que não paravam de falar a viagem inteira. O homem dirigiu-se ao distinto cavalheiro que lia a seu lado.
Se eu não pegasse essa beira acho que desmaiava de cansaço. Fui dormir quase na hora de levantar. Quebrou o pau lá em casa, sô. A vizinha tem um bandão de galinha, mas não cerca elas. Resultado, as bichas invadiram o fundo do quintal da patroa e ciscaram as mudas de hortaliças que tinham acabado de ser plantadas. Foi um bate-língua dos diabos. A patroa que tem maus bofes sentou varada de bambu nas galinhas. Quando cheguei tava o rolo formado. Entrei de frente. Resultado, fomos parar na delegacia.
Hum...
Ricardo sorriu bondosamente, mas o homem queria mesmo era conversar com o distinto. Olhou para o irmão, mas ele nem notava o que se passava. Estava perdido na conversa, em frente de duas professoras bem usadas, para não dizer velhuscas. A que contava a história fazia dengues na voz.
Juro que não sei o que fazer. Mas é um moreno de botar Clark Gable no chinelo. Um tipão de ombros largos. Remador do Flamengo. Uns olhos verdes enormes. Um bigode fininho. Um cabelo negro e liso que cai para a frente...
E daí?
Daí não sei que fazer...
Mas, se o senhor pensa que ficou só na coisa da galinha, está redondamente enganado. A gente foi se deitar pertinho da meia-noite. E quem é que dormia? Todo mundo nervoso dentro de casa. Tomando água de flor de laranjeira. Indo lá fora na casinha, abrindo a porta da cozinha que rangia pra burro.
Hum...
Um tipo assim e com aquele sorriso tira a serenidade de qualquer mulher. Fala com a gente, devorando a gente com aquele modo de sorrir. Sabe o que ele me propôs?
Não. Mas você vai contar.
Claro. Te conto tudo na vida. Não fosse você minha amiga de infância. Bem, ele me convidou para irmos sábado na sessão das quatro no Metro-Passeio. Nem sei se devo ir.
Se fosse eu ia de olhos fechados...
Além daquele rebuliço dentro de casa, o calor danou-se mesmo. O lençol, a cama, tudo esquentava que nem fogo. Eu pensei abrir a janela. Mas a patroa reclamou que entrava mosquito. Falei que a gente abria e botava flit. Mas aí quem pegou fogo foi ela. Se eu estava doido. Logo hoje que ela tivera um trabalho dos diabos para passar cera no soalho...
Imagine ficar numa fila às quatro na cidade. Fila que não acaba mais. Chamando a atenção ao lado daquele atleta bronzeado, maravilhoso. De repente passa um conhecido. E os comentários vão na certa se espalhar.
Ora, querida. Que importa? É você quem dá o duro pegando trem de madrugada. Se sacrificando. Que falem. Mesmo sem a gente fazer nada na vida falam, quanto mais...
Porque na verdade a prefeitura só espia pra cidade mesmo. Copacabana é um luxo. O carnaval leva rios de dinheiro e agora até estádios milionários para um bandão de homem de calça curta correr atrás de uma bola. Um bando de marmanjos que não tem mais o que fazer. O mundo está mesmo perdido. E o resultado é esse: o capim cresce comendo os cantos da rua. Quando chove a rua vira lama pura. E junto ao capinzal se formam poças de água podre e os mosquitos nascem à vontade. Vida, santo Deus!
Hum...
Você iria?
Com um homem desses eu ia até à lua.
Não sei. Fico com medo porque não sei as suas intenções...
E quando a gente ia pegando no sono depois de tanta encrenca. Era mais uma modorra que sono mesmo. Sabe o que aconteceu, moço? Uns vagabundos que não têm nada que fazer ficaram discutindo a formação do selecionado brasileiro. Era um tal de pôr Romeu e tirar Luisinho. Um tal de entrar Diamante Negro e colocar Perácio que não acabava mais. É de deixar qualquer cristão enlouquecido...
Hum...
Como um homem pode botar a cabeça da gente a perder. Só penso nisso. Até quando eu estou dando aulas enxergo os seus olhos dentro do quadro-negro.
Como é que ele se chama?
Ramon. Ah! Ramon dos meus pecados!...
Aí eu não me guentei mesmo. Pulei da cama e abri a janela com estrondo. “Vocês não têm mais o que fazer? E vêm logo perturbar o sono de quem trabalha e tem que se levantar de madrugada? Por que não vão conversar lá na esquina?” Sabe o que eles me responderam, sabe? Xingaram o nome da minha santa mãe que descansa no céu e ainda me mandaram tomar no fiofó...
Aí deu-se a surpresa. O homem distinto do Judeu Errante virou o rosto para o gordo e em vez do hum soltou toda a sua bílis.
Quer saber de uma coisa? Quer? Pois bem. Lá em casa aconteceu algo de parecido. Só que em vez de galinhas eram perus. Até que na sua rua o povo ainda é muito bondoso e pacato. Além de gente conversando sobre futebol, o senhor sabe como fui acordado? Mas sabe mesmo? Com Orlando Silva fazendo uma serenata para mim. Imagine só. Orlando Silva às quatro e meia da manhã cantando “Rosa”, de Pixinguinha, para me acordar. Tá?
O gordo descontrolou-se todo e nem soube responder. O distinto voltou impassível seus olhos para a continuação da viagem do Judeu.
Felizmente o trem já tinha atravessado Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz e chegava em Madureira, onde o gordo se levantou com a sua pasta de couro preto-russa.
Rapidamente em seu lugar se postou um indivíduo mais ou menos moço, muito perfumado e de cabelos bastante encaracolados, fugindo da moda, porque a moda era alisar ao máximo os cabelos, como o fazia George Raft. Mal o trem rodou nos trilhos, pôs-se a cantarolar baixinho um bolero da moda, com uma sofrível vozinha de falsete.
Vou?
Vá.
Depende.
Do quê?
Não sei. Mas já estamos chegando a Cascadura. De Cascadura até Engenho de Dentro eu te digo se vou.
Alguém comentou em Cascadura.
Não é mesmo que estão começando a instalar as redes elétricas para os novos trens? Vai ser um luxo de matar.
Besteira. É mesmo que dar pérolas aos porcos. É só botar trem mais maneirinho e limpo que o povo rebenta em dois tempos.
Surgiu a estação de Quintinho.
Vou?
Pois claro, mulher.
Encantado apareceu na sua estação apinhada.
Acho que vou mesmo. Tudo indica que vá.
Se não for me dê o endereço que eu vou voando.
Engenho de Dentro apareceu bem perto. Ela se levantou e foi tentar abrir o público no corredor do trem.
Pela última vez perguntou.
Vou mesmo?
Claro que deve ir. Não é sempre que se encontra um homem assim na vida.
O que pode a força de uns olhos verdes. Até amanhã.
Mas ao passar por um mulatão de quase dois metros sentiu-se agarrada no braço por uma mão calejada e forte. Olhou o mulato espavorida. Ele sorria cinicamente nos dentes de ouro.
Sabe, dona, se eu fosse a senhora ia. Mas ia agora e ficava esperando até sábado. Porque na vida a senhora nunca viu uma coisa dessas. Um homem desse tipo não existe nem pra Gata Borralheira. Quanto mais pra senhora. Se aparecesse um homem desses, de verdade, eu acho que até eu ia voando...
Ela se esgueirou nervosa e o mulato riu gostosamente. Sabia que naquele aperto e na pressa de descer não estava se arriscando a levar com a sombrinha pelas fuças.
[•••]

José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça

20/06/2023

Capítulo Segundo | O espelho e Mabel


A noite caridosa não deixou que a rua descalça visse direito o desembarcar da mudança. Mesmo assim muita gente se postara por trás das cercas de crótons e espiava. Como a meninada espiava tudo sem comentar.
Luzes acesas e aquele choque de Mabel ante as paredes mal caiadas. Ante a pobreza de tudo. A vida encolhera a comodidade como a água encolhe qualquer tecido vagabundo.
Na manhã seguinte, após um sono cruelmente incômodo, teve de levantar-se cedo para analisar os limites do abandono. Nem sequer uma tampa de privada existia na casinha que por crueldade se colocava fora da casa. Igual a todas as outras tantas casas na vizinhança. Dentro havia um pequeno tanque e um banheiro que nunca conhecera uma coisa chamada água quente.
Do lado de fora, sob uma cobertura, existia um tanque de lavar roupa que a esperava e a esperaria todos os dias.
Felizmente, na mesinha modesta da cozinha, Roberto fizera o café simples e se encarregara de ir a qualquer botequim comprar pão e uma lata de manteiga.
Por dois dias todos deixariam de trabalhar para colocar a casa em ordem. E a casa tomou um certo jeito. As camas ficaram feitas, e as roupas, guardadas em pequenos armários e na cômoda rósea e usada da sala. Sobre ela colocaram o velho relógio, que parecia suspirar de desgosto marcando o tempo. Parecia sentir falta do que o cercava na antiga casa. Era horrendo o seu vidro refletir pedaços de teto onde não existia forro e sim as telhas vãs, as telhas nuas. De noite, ele via o penetrar até de morcegos. Fato comum em casa que ficara fechada muito tempo. Mas com a invasão da gente, os morcegos voltariam a morar nos laranjais e nos valões no fundo dos quintais.
Foram dois dias e duas noites terríveis. Tinham perdido a vontade de conversar e por qualquer coisa soltavam apenas um sorriso de consolo e resignação.
Depois apareceu o pior. Os filhos levantavam-se ainda madrugada, deixavam-na dormindo e saíam a caminho da estação. Então o seu amanhecer diferente, sem a criada levando-lhe o café na cama, despertou-a em todo o seu amargor. Ainda bem que os filhos procediam com uma humanidade de comover. Deixavam até a pouca louça do café lavada e enxuta.
Sentiu maior o seu grito de silêncio e solidão. Estava só. Lavara o rosto na torneira do tanque e reparou na manhã quente que se anunciava.
Sentou-se desanimada num tamborete e mesmo sentada acendeu uma espiriteira de álcool onde requentou o café. Não tinha vontade nem de conversar com a alma. Apenas rolou as mãos do desânimo ante os olhos, analisando os dedos. Ergueu-se e foi apanhar a tesourinha de unhas sobre a cômoda cor-de-rosa. Enquanto não esquentava o café, principiou a decepar as compridas unhas, visto não significarem mais nada.
Serviu-se do café e mastigou a vida sem importância em forma de pão. Urgia calçar um sapato velho e de salto baixo para ir até à quitanda e ao açougue comprar coisas para cozinhar. No começo, até que se acostumasse com aquilo, a comida deveria sair horrorosa.
Caminhava pela rua de olhos baixos para que não descobrissem o seu desespero. Para não divisar aqueles rostos tão feios e mais feios ainda quando era forçada a encará-los. Forçoso seria engolir em seco em vez de lamuriar-se ou xingar a alma de Gustavo.
Passava os dias só. Completamente só. Não queria mais lembrar-se da outra casa, nem sequer manteria a ilusão de que alguma das “grandes amigas” apareceria até o subúrbio para visitá-la.
Já passadas as oito horas, arrumava-se e se penteava para esperar a chegada dos três filhos e sentir que havia ainda vida ao seu redor.
Mas os três chegavam incrivelmente cansados e pouco tinham a dizer. No começo nem sobraria dinheiro para o gasto de um jornal. E sem música, sem nada para ler, Mabel ruminava o tempo, driblando todos os pensamentos que pudessem torturá-la ou que enchessem os seus olhos de lágrimas quentes.
E algo de tremendamente triste e indiferente começou a se esticar pelas parcelas do seu ser. Pegava a vassoura e varria muitas vezes a casa, sacudia o pó dos poucos móveis que a rua descalça derramava. Fugia de todo o ruído que a rua proporcionava. Não ouvia a briga das mulheres nem o grito do peixeiro. Tapava o ouvido para eliminar os apitos da fábrica.
Se não fizesse assim, acabaria louca, completamente louca. Por vezes sentia rostos vizinhos olhando para o seu degredo. Mas não queria saber de ninguém. Não saberia se aproximar de ninguém tal a distância que a vida lhe preparara, tal a pouca esperança de poder entender aqueles seres que a cercavam.
Vez por outra, parava defronte do espelhinho oval, colocado na cozinha, onde os filhos faziam a barba e se penteavam, e tentava saber se ainda voltaria a ser alguém ou se adquiriria uma nova personalidade que tivesse vislumbres de vida. Mas nem o pequeno espelho sabia conversar, dizer algo que a consolasse ou mesmo criasse um certo ânimo, uma estreita esperança.
Apenas o rosto cansado, mais gasto, sem pintura. As manchas brancas do cabelo invadindo toda a parte onde a tintura ia se desgastando. Só.
Mabel, você não é nada. Nada! Olhe a sua alma e você verá que não tem mais significado algum dentro da vida.
Sorriu inventando coisas. Se caminhasse até à ponta da cozinha e viesse de lá da porta, o espelhinho, o que refletiria? Uma velha feia, uma bruxa de cabelos caindo sobre a testa, com uma blusa florida e uma saia simplesmente escura. Os sapatos macios, é verdade, mas de salto baixo e usados. Longe se fora o tempo dos sapatos de verniz, de sapatos prateados, dourados…
Longe, Mabel, que nem você mesma acredita se existiu!...
No quarto dia aconteceu aquilo que mais a apavorava. Nunca fora mulher de pregar um botão. E sempre ouvira dizer que as meias velhas se cerziam. Mas agora a coisa tornava-se uma tragédia maior. O cesto de roupa suja estufava peças para fora. Meias, camisas e cuecas.
Fazia menos de cinco dias que Ricardo esticara uma corda entre duas velhas laranjeiras e sorrira para ela significativamente e com pena. Arrastou o cesto até junto do tanque. Arrolhou-o e deixou escorrer a água da bica. Pelo meio, principiou a jogar peças, uma de cada vez, dentro d’água, que faziam borbulhas ante os seus olhos apavorados. O sabão estava ao lado.
Foi lá dentro, procurou um lenço e instintivamente prendeu os cabelos.
Não, Mabel. Você prometeu que nada a desanimaria. Pois que está feito, está feito. É só questão de começar.
Enfiou meio enojada as mãos na água tépida e apertou, afogou as peças na água corrente. Desajeitadamente puxava as peças para fora e esfregava o sabão. Repetia muitas vezes e suas mãos ardiam. Começou com as peças mais leves. Depois de ensaboadas, torceu-as e encaminhou-se para a corda, pendurando-as e até meio satisfeita com a sua conquista. Sentia o sol arder na pele branca, mas não ligou. Voltou para o tanque e tornou a lavar maior número de peças. Quando voltou ao coradouro, o sol ainda era mais forte. Felizmente um pedaço de vento apareceria vindo do fundo do quintal.
Pela terceira vez retornou ao tanque e retirou as últimas peças, torcendo-as; ia encaminhar-se para o varal quando o que viu estancou-a, estrangulando um grito de revolta na garganta.
O vento tinha derrubado todo o seu trabalho. A roupa lavada, no chão de terra e detritos.
Não se conteve, abriu as mãos e deixou que as peças também procurassem o chão.
Bateu com as mãos na parede do tanque por alguns segundos e começou a soluçar, encostando a cabeça no mesmo lugar em que antes batera.
Meu Deus!... Meu Deus!... Preciso recomeçar tudo de novo.
Continuou soluçando compridamente. Quando uma mão de leve tocou em seus ombros e uma voz toda bondade lhe falou:
Num chore não, dona. Eu ajudo a senhora.
Ainda de rosto lavado, desvirou-se para a mulher. Era feia, gasta e rachada de rugas, mas seus olhos expandiam bondade.
Espere um bocadinho.
Foi até a cozinha e trouxe um tamborete.
Se sente até se acalmar um pouco.
Mabel obedeceu ainda em soluços.
A mulher foi até o varal e recolheu toda a roupa no chão. Voltou sorrindo, esboçando dentro da boca a falha de muitos dentes e a podridão de outros.
A senhora se esqueceu de colocar os pregadores.
Jogou a roupa dentro da água nova e conversou para acalmá-la.
Na certa a senhora não tem pregador, não é?
Concordou com a cabeça, mesmo sem saber o que era.
Eu dou um pulo lá em casa e lhe arranjo uns.
Mabel seguiu-a com os olhos e viu que a mulher passava por um buraco da cerca. Não demorou muito a voltar. E, enquanto o tanque enchia mais, sentou-se em sua beira e tornou a sorrir feiamente.
A senhora nunca tinha feito isso antes, num foi?
Nunca. Nunca em minha vida.
Espalmou as suas mãos feridas. As marcas da vassoura e o vergão do esforço ao torcer as peças.
Que estrago, dona! Umas mãos assim bunitas num nascero pra essas coisa. É uma lasma mesmo. Mas eu dou um jeito. Passei toda a minha vida assim. Foi desde menina. Depois saí da fábrica pra me casar. E nunca mais existiu outra coisa. Menino e pregador.
Enfiou a mão no tanque e Mabel ficou admirada com a habilidade com que fazia tudo. Parecia nem exigir esforço das suas mãos magras e encardidas.
Viu? Foi um instante. Agora a senhora me ajude. Ponha nessa bacia e venha comigo que a gente vai estender a roupa.
Mabel obedeceu, agradecida.
Como é que a senhora se chama?
Bárbara. E a senhora?
Mabel.
Pois bem, Dona Mabel, eu venho sempre lavar essa roupa quando a senhora precisar.
Não é justo, Dona Bárbara, porque não poderemos pagar os seus serviços.
A outra pegava as peças, pendurava na corda e prendia-as com os pregadores. Deteve-se um pequeno tempo e sorriu para Mabel.
A senhora não precisa de se preocupar. Ninguém está falando em pagamento.
Mesmo assim não é justo.
Por quê? A gente neste mundo nasceu foi pra ajudar os outros. E não custa nada, uma roupinha limpinha dessas. Se a senhora visse o que é pegar roupa suada de suor que gruda mesmo e fede. De toda essa gente da fábrica que eu lavo... Aí sim.
E como é que a senhora dá conta de tudo? A senhora não disse que tinha filhos?
Cinco, Dona Mabel. Cinco diabos. Tenho de lavar pra fora, costurar a roupa dos cinco e do meu marido e ainda por cima cozinhar pra essa cambada toda.
Quando acabaram o serviço, havia um sorriso de gratidão no rosto afogueado de Mabel.
Quando a senhora precisar me chame, sim?
Não é justo, Dona Bárbara. A senhora já tem tanto o que fazer.
Pelo menos até a senhora se acostumar com essa vida braba, eu venho lhe ajudar.
Mabel acompanhou a mulher até junto da cerca. Foi tomada de curiosidade.
Como é que a senhora viu o que estava acontecendo?
Tava caçando uma galinha danada de arisca que eu tenho e, quando cheguei aqui perto, vi tudo.
Começou a esgueirar-se pela cerca furada de bambu. Mas antes de entrar em casa falou para Mabel.
Se a senhora não se incomoda, eu tenho que passar às vezes por aqui pra pegar uma galinha preta de pescoço pelado que tem mania de botar lá no fundo do seu quintal...
Venha quando quiser e na hora que quiser. Obrigada.
Mabel fugiu do sol e foi sentar-se no tamborete para descansar. E quando entrou na cozinha, sem querer, olhou o espelhinho oval e descobriu que ele lhe devolvia o primeiro dos seus sorrisos. O primeiro, depois de tantos dias atormentados.

•••

Veio então aquela bondade criada por Deus chamada o tempo. E o tempo foi passando.
Mabel agora não doía mais as mãos na água do tanque e seu rosto perdeu aquela palidez citadina para tornar-se sazonado e sadio.
Empurrou a solidão para longe e descobriu que a rua descalça possuía uma beleza incomparável. A capacidade de irmanização e tantas outras formas de simpatia e compreensão. Perdera a estranha sensação da pobreza vista de longe. Assim como no Natal, encarregava-se de obras beneméritas e distribuía as coisas entre os menos afortunados, como se existisse um mundo entre eles. Como se tivesse direito àquela vida. Agora não. Mudara bem. Fizera camaradagem com Dona Bárbara, Dona Cordélia, Dona Maria José. Não se envergonhava de atravessar a cerca e beber do café simples, coado às três horas da tarde, em qualquer casa amiga. Quando tinha tempo, escutava até as novelas da Rádio Nacional, segurando no colo algum petiz de Dona Maria José. Tinha sempre um sorriso bondoso para a preta Bangu. A mulher que mais desejava ter um filho, para que mais tarde fosse um soldado, servindo à Pátria. Mas o médico sabia da impossibilidade disso e proibira até que engravidasse. Porque seriam duas vidas perdidas.
Gostava de dar boa-tarde a seu Abrahão, nas raras vezes que o via percorrendo a rua e fugindo do seu sítio. Era lindo a molecada parar de jogar gude, soltar papagaio e correr para segurar na mão do velho libanês.
Outras coisas, e tantas outras coisas mais, descobrira. Verdade que não desesperançava de um dia voltar à cidade. Mas teria agora os olhos abertos para a grandiosidade da variação com o que Deus fizera no mundo.
Que se passassem muitos anos e jamais poderia esquecer da primeira vez que Dona Bárbara lhe enxugara o pranto do desânimo.
Que a rua tinha os seus momentos de zanga, brigas e até arruaças. Que a rua criava encrencas, inimizades e rancor, isso criava. Mas era entre eles.
Com Dona Mabel as coisas eram outras.” Tachavam-na de senhora fina. De dama bem-educada, e um mundo de elogios aureolava sua presença.
Não mais baixava a cabeça para comprar coisas no açougue nem na quitanda do seu Antoninho Verdureiro. Gostava até de apreciar a sonoridade do falar, o ruído do riso, as cantigas da rua e as histórias que apareciam sempre.
Rômulo no começo recriminou a sua banalidade, ao que chamava de penetração no promíscuo. Mas Roberto e Ricardo olhavam admirados para a mudança de Mabel. Dera um jeito extraordinário de espantar a tristeza e alimentar a angústia. Não podiam acreditar que aquela era a sua mãe. Que aquela fora a Mabel de antigamente. E sorriam aliviados, porque o ambiente mágico da pequena casa começou a vestir-se de simplicidade e paz.
Mas mesmo a paz e a simplicidade não demoram muito. Uma noite Rômulo atrasou-se bastante e dispuseram-se a jantar sem a sua presença. Uma hora mais tarde entrava ruidosamente, quase aos gritos, chamando a todos. Desde o portão a sua voz se erguia alegremente. Algo havia acontecido de excepcional.
Ricardo! Roberto!
Penetrou de supetão na cozinha e tomando Mabel nos braços começou a dançar.
Calma, meu filho; você enlouqueceu?...
Soltou a mão e mostrou uma garrafa embrulhada presa na mão direita.
Olhe o que eu trouxe. Precisamos comemorar a maior novidade do mundo. Uma notícia que nem os anjos do céu poderiam trazer em meu lugar.
Apanhou copos, virou-os na mesa e procurou o saca-rolhas. Sentou-se ainda rindo. Via-se que ele bebera antes, porque seus olhos brilhavam febrilmente.
Encheu o copo e comentou.
Tim-tim.
Os outros tilintaram os copos, embora nada soubessem ainda da novidade.
Adivinhem! Já que não adivinham, vou contando. Estou que não me aguento. Vamos voltar à cidade. Seremos ricos de novo.
Os três copos se abaixaram e só o dele permaneceu no alto.
Os anjos ouviram as minhas preces. O aneurisma de tio Hermes foi pro meio do inferno.
Mas o silêncio dos outros permanecia.
Como? Eu trago a maior notícia do mundo e ninguém se alegra?
Os olhos o observavam com certo pesar.
Vamos voltar à vida. Sair dessa porcaria. Abandonar essa rua imunda. Essa gente nojenta e fedida. Não era o que todos queriam? Pois bem, a herança daquele tio miserável e idiota é enorme. Vai garantir o futuro de todos nós.
Encheu de novo o copo, meio desapontado.
Você não diz nada, Roberto? Nem você, Ricardo? Nem mesmo você, Mabel?
Você está anunciando de um modo grotesco a morte de meu irmão. O meu único irmão.
Ora, vejam só. Vocês nem se davam. Sempre houve um ódio tremendo entre tia Clarissa, você e o tio Hermes.
Mesmo assim, você está anunciando uma morte. E a morte exige mais do que um simples respeito.
Desde quando isso, Mabel?
Desde quando?...
Sorriu, passou a mão nos cabelos já totalmente brancos, sem nenhuma sombra de tintura e levantou-se.
Desde quando, só Deus sabe.
Encaminhou-se para o espelho e viu que ele sorria tristemente para o seu rosto.

José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça

24/03/2022

Mabel e o espelho

 


Ite, missa, est!
Rômulo sorriu dentro do seu costumeiro sadismo. Os olhos de Ricardo o observaram estranhamente. Roberto seguiu o efeito da frase de mau gosto olhando os olhos espavoridos da mãe. O ambiente era insuportável, mas ninguém poderia se afastar daquela lúgubre reunião.
Roberto circunvagou os olhos pela sala fechada. Fechada como se encontravam todas as dependências da casa. Custava a se acostumar com o momento. Se ficasse sozinho parecia ouvir o tiro repercutindo em cada parte, descendo pelas paredes, nos degraus da escada, esvoaçando as cortinas.
O tiro partira de cima. Todos correram ao mesmo tempo. Um único tiro, cavo, cavernoso... Viera do escritório. Bateram violentamente, mas a porta se encontrava cerrada por dentro. Era ele. Chamaram pelo pai. Nenhuma resposta. Duro se tornava arrombar a porta, mas conseguiram. O pai estava lá. Caído sobre o tapete, o rosto envolto em um lago de sangue. Um sangue ainda escorrendo. Apoiara a arma na boca e o tiro arrancara o tampo da cabeça. O corpo ainda arfava, mas não demorou muito. A passagem durara menos do que apagar as manchas de sangue no tapete.
A realidade do porquê apareceu aos poucos. A realidade caiu na família com a violência de um tornado.
A polícia. A humilhação da carta escrita. O velório, o enterro e agora a missa do sétimo dia.
Ite, Missa est!
Ao diabolismo de Rômulo só faltava acrescentar a velha piada: Coca Cola is the best!
A mãe empalidecia a cada fala de Rômulo, mas tocava a ele decidir a sorte da família. Mabel sentara-se desanimada numa poltrona. Dava a impressão de que a mãe aproveitava os últimos momentos de coisas que ainda poderiam ser utilizadas.
Tia Clarissa sentara-se junto a Mabel e tomara-lhe as mãos como se quisesse servir de algum apoio. Mesmo assim a própria tia não deixava de suspirar, arfando o busto negro, envolvido pelo desespero do luto.
Não há de ser nada, querida.
Falava por falar, sem nenhuma convicção. Tragédia não fora a morte do morto, mas a tragédia que resultaria daquela morte, o que viria depois.
Rodolfo, elegantemente trajado até nos seus momentos de luto, estava livre de quase todos os vexames que a família passaria. Primeiro, porque morava em Petrópolis, casado com mulher rica e afastado de um certo modo das garras maldizentes da sociedade. Certamente ajudaria Mabel como já se prontificara. Finda a reunião, beijaria Mabel e voltaria aos seus interesses, quase que indiferente, como se esperasse por tudo aquilo que viria aos seus.
Rômulo contornou a secretária, sentou-se e ficou como que hipnotizando, com a sua figura fantasmagórica, os rostos que o observavam.
Tirou os óculos do bolso e um papel cheio de anotações.
Leu os itens um por um e, findos estes, rasgava um pedaço e atirava-o no chão.
Primeiro: dispensar a criadagem. Depois, venda dos carros. Em seguida, venda da casa já hipotecada. Venda de tudo para pagar dívidas. – Dívidas e mais dívidas. E nada sobrava. Nada. – Talvez sobre um pouco e isso penso eu...
Fez uma pausa para ver se havia alguma dúvida e, como ninguém contestasse, continuou.
Findo tudo isso, sobram uns miseráveis tostões que dão para comprar uma casinha modestíssima no subúrbio.
Tia Clarissa sentiu-se arrepiada ao ouvir pronunciar aquela palavra. Já tinha resolvido. Não acompanharia Mabel. Nunca. Preferia morar em casa de Rodolfo, ser criticada pelos sobrinhos, mas morar num lugar decente. Mesmo sabendo que a altitude lhe faria um mal imenso ao coração e outras mazelas. Preferível morrer logo, mas bem, do que se sujeitar à humilhação e sujeira do subúrbio.
Consegui com um amigo comprar em pequenas prestações uma casa em Bangu. Uma casa bem longe, onde ninguém saiba mais de nossas vidas. Onde ninguém comente o acontecido nem nos humilhe com a piada ou as indiretas. Não ficaremos com coisíssima alguma. Móveis, tapetes, cortinas, tudo isso: babau!... Certo? Alguma sugestão mais prática?
Tirou os óculos e olhou a mãe longamente. Do jeito que olhou, falou lentamente.
Não a abandonarei, Mabel.
Mabel tirou um lenço e limpou as lágrimas.
Ricardo, duro e impassível, acrescentou a sua adesão.
Eu também. Na certa, Roberto nos acompanhará.
Então, tudo resolvido, Mabel. Seremos quatro numa casinha de três quartos. Ricardo e Roberto ficarão juntos. Um quarto para você e outro pra mim, que não sei dormir em companhia de ninguém. Como é sabido, ronco muito. Mas nos acostumaremos à nova vida. Não há outra saída. Eu já arranjei um emprego escondido no Laboratório Silva Araújo. Ricardo e Roberto continuarão no banco e viveremos apertados no começo. Depois, quem sabe? Talvez até possamos pagar uma empregada para lavar e cozinhar.
Mabel ficou um momento pensativa, espiando para as meias negras e os negros sapatos. A realidade não tinha outra alternativa. Gustavo sempre fora assim. Fraco de caráter. Nos últimos meses até as suas joias tinham sido reduzidas pela metade do preço. Só nos últimos tempos é que lançara a situação face à família. Estavam completamente arruinados. A fábrica falira. O dinheiro jogado fora por todos não tinha recuperação. E agora? Só o futuro e talvez Deus, a quem não ligara muito na vida, pudessem responder...
Para espanto de todos, roçou os pés um no outro e retirou os sapatos. Depois, num gesto surpreendente, suspendeu o vestido e afrouxou as ligas. Devagarzinho enrolou a meia da perna esquerda e jogou-a no chão. Repetiu o mesmo com a outra meia. Mexeu os dedos exercitando-os e levantou-se completamente descalça.
Por um momento existiu um clima de preocupação. Mas o rosto de Mabel tornara-se calmo, apesar da palidez, das olheiras e dos lábios despidos de batom. As rugas aumentavam mais, assim como se tivessem também descoberto a realidade da própria realidade.
Vou me despedir. Vou começar a me desligar das coisas.
Tia Clarissa levantou-se para acompanhá-la, mas Mabel declinou da sua companhia.
Eu prefiro fazer tudo isso sozinha. Obrigada. Muito obrigada.
Descalça, caminhou pelos tapetes persas e saiu da sala. Subiu lentamente a escadaria. Chegou até o quarto dos rapazes e olhou cada coisa sem pressa, compridamente. A desordem do quarto de Rômulo contrastava com a organização dos outros dois filhos. Pobre Ricardo. O seu casamento com Lenita seria desfeito. O namoro quase firme de Roberto iria por água abaixo. Tudo perdido. Retornou ao hall e penetrou na sala de armas de Gustavo. Tudo ainda completo. Faltava apenas o revólver que a polícia levara como prova... Não sentiu mais que uma pequena emoção ao analisar certos fatos que já analisara junto ao corpo morto e na hora da missa do sétimo dia. Não sabia se se acostumara à presença de Gustavo ou se sofrera sua perda por ser apenas o pai dos seus filhos. Com a idade, apenas se aproximavam num momento de doença ou de uma obrigação social. Da sala de armas foi direto ao escritório. Ali estava o tapete. Gustavo! Gustavo! Até a herança do seu pai fora de embrulho nos negócios malparados do marido. O tapete guardava uma mancha desbotada, quase amarela. Atravessou o quarto de vestir. Parou um pouco, observando docemente a banheira, a ducha, o sabonete, as toalhas felpudas, até os sais de banhos. O que viria em substituição àquilo tudo? Sorriu. Depois então, o quarto. Acendeu as luzes, mas não teve coragem suficiente para descerrar as cortinas. As cortinas se remexeram como se o tiro tivesse se repetido. Ainda bem que iria para longe de todas aquelas recordações. Fugiria dos fantasmas da lembrança e só algum mais teimoso e sádico se arriscaria a penetrar num subúrbio longínquo. O subúrbio. A nojeira desumana de um mundo que conhecia apenas por crimes de jornal ou algum comentário sem importância. A casa – como seria, meu Deus? – A rua descalça, poeirenta e quente. E um povo que nem conhecia direito. Talvez apenas um contato com uma empregada que nem chegara a demorar por não estar habituada ao seu modo de viver. Agora, tocava a ela viver ao modo deles. Abriu os armários e vestidos mortos de todas as cores jaziam pendurados. Cada vestido era um sonho morto. Deveriam, segundo Rômulo, ser vendidos para outros corpos que ainda vivessem. Fechou as portas com uma certa mágoa. Sentou-se na cama macia e balançou o cansaço da caminhada. Observando ainda os pés desnudos. Alisou a cama com carinho. Nela conhecera o primeiro amor carnal. A primeira dor da violação. Nela nasceram Rodolfo e Rômulo. Ricardo e Roberto vieram ao mundo com mais conforto e higiene, nascendo na maternidade. Mabel deitou-se e recostou a cabeça nas mãos, afundadas no travesseiro ainda macio, apesar de morto. Relanceou a vista pelo teto. Quantas vezes, quando o sono não quisera vir logo, pusera-se a contar as tábuas do teto encerado. Estava imersa em seus diminutos pensamentos quando alguém a chamou baixinho.
Mabel!... Mabel!...
Sentou-se assustada e pequenos arrepios atacaram sua espinha. Estaria sonhando ou mesmo adormecera por segundos?
A voz veio mais nítida.
Mabel!... Mabel!...
Agora não se enganava. Era realmente uma voz. E nunca a ouvira antes. Sentou-se a tremer na borda da cama e sem se dominar fez o sinal da cruz.
Nitidamente soou uma risada clara.
Você se esqueceu de mim, Mabel. Eu sou a coisa mais importante desse quarto. Nada do que você se recordou tem a importância que eu tenho. Não se esqueça de que eu sempre ampliei os seus sonhos e gentilmente refleti da maneira mais fiel a beleza da sua vaidade.
Atraída pela voz, se viu diante do espelho. O grande espelho do seu quarto, que alcançava quase três alturas do seu corpo. Que aparecia desde o começo da porta. Era costume antigo vir caminhando alegremente de lá até junto do seu corpo todo refletido. Postou-se tristemente diante do espelho e abaixou a cabeça.
Levante o rosto, querida, e me olhe com o mesmo amor com que me olhava antigamente.
Não posso. Já não sou a mesma. Sou outra. Morri.
Que história, querida! Acenda as luzes e nós ficaremos de novo cheios de vida.
Não podia desobedecer. Caminhou para o lado e girou o comutador. O espelho se iluminou feericamente e refletiu a palidez quase doentia do seu rosto.
Sabe, Mabel, você ainda é uma linda mulher! Os últimos dias maltrataram um pouco o seu rosto. Mas tudo passará.
Suspendeu as mãos e levantou os cabelos sedosos, pintados de um tom acaju. Verdade que nos últimos dias relaxara um pouco e, na risca, fios brancos denunciavam a origem da pintura.
Lindos os seus cabelos com esse tom avermelhado, Mabel.
São falsos. São pintados. Se deixar de pintá-los, serão tão velhos e brancos como as minhas rugas, que aparecem sem a pintura.
Não importa, querida. Assim mesmo são lindos. Se você voltar a tratá-los bem continuarão uma moldura digna para os seus traços.
Não adianta, amigo. Tudo acabou e eu preciso abandonar até você.
O espelho fez uma voz magoada.
Mas você poderá levar-me. Esquece que eu acompanhei todos os momentos felizes de sua vida?
Bem o quisera. Mas o lugar que vamos é muito feio. Não caberia você. De tudo que nos resta só o velho carrilhão acompanhará nossos passos. Como se tivesse que contar o tempo da nossa tristeza.
Por que só o relógio, Mabel?
Porque é velho como eu e começa a ficar bichado. Não tem valor algum. Só isso. Por preferência levaria você...
Teve vontade de chorar e levou as costas da mão aos olhos.
Assim, não, Mabel. Quero então que você se despeça de mim como se fosse uma rainha. Você sempre foi uma rainha.
Mabel tornou a abaixar a cabeça.
Caminhe até junto à porta, por favor. Não custa realizar as minhas últimas vontades.
Cabisbaixa, Mabel foi até o começo do quarto.
Olhe-me bem, Mabel.
Ergueu os olhos e uma alegria que era quase um grito de prazer a envolveu. Estava vestida de rainha. Seus cabelos se prendiam em cachos encaracolados que circundavam a sua cabeça. Falsa tiara, de pedrarias também falsas, reluzia em meio de tanta luz. Estava acabando de se preparar para o baile do Municipal. Nunca recebera tantos elogios como naquela noite. Chegaram a dizer que era a mais linda fantasia do recinto.
Ouça a música, Mabel.
E a música encheu os seus ouvidos.
Agora dance, Mabel.
Para não desfazer a magnitude da fantasia, rodopiou uma valsa, aproximando-se do espelho.
Que rainha! Que beleza, Mabel. Você vai fazer o maior sucesso da noite. Não haverá colombina, nem cigana, nem odalisca, nada, nada que ofusque a beleza do que criaram para você.
Voltou enlevada até à porta, continuando a valsar.
O espelho a atraía como um ímã. Somente a situação se tornara diversa. O seu corpo se envolvia no vestido vermelho de veludo, cujo decote audacioso deixava à mostra o busto forte e bem torneado. Valsando cobiças em todos os olhares. Homens se agachando para beijar a sua mão com o intuito de penetrar mais a vista em seus belos seios.
Você estava linda no Clube Natal, Mabel. Mas linda mesmo foi no Grande Prêmio no Jockey Club. Aquele chapéu preto, Santo Deus. Os seus olhos...
O chapéu preto de rendas, enormedando uma sombra coquete no seu rosto, ampliando o brilho de seus olhos negros belamente retocados de rímel, fazia tanta sensação como os páreos que corriam na pista.
Voltou ao armário e abriu-o de par em par. Acariciava cada vestido e cada história de sucesso que eles poderiam contar aos seus ouvidos.
Cansada de tudo, retornou ao momento de Mabel. A mulher mal pintada, descalça e triste.
Olhou-se demoradamente no espelho e sorriu tristemente.
Obrigada, meu grande amigo. Muito obrigada por tudo. Por tentar guardar no reflexo da saudade tanta coisa linda que me aconteceu na vida...
Girou lentamente o comutador, e o quarto tornou-se momentaneamente escurecido. Deitou-se na cama, acostumando a vista à penumbra.
Fechava os olhos para esquecer, mas as coisas permaneciam vivas e desenhadas nas lembranças.
A quem pertenceria a prataria? Com quem iria ficar a baixela da família paterna? E a pinacoteca? O seu querido Matisse? Os gladiadores de De Chirico? A grande natureza morta de Bassano? Tudo isso indo a leilão. Os próprios amigos invadiriam a sua ex-casa como piranhas famintas para arrebanhar tudo que pertencera à tradição de sua família, tudo que cercara os passos do seu passado…
Sorriu meio anestesiada, pensando nos comentários mordazes que fariam a seu respeito e ao seu azar. Ninguém a defenderia. Isso era certo. Ao contrário, no tocante àquela pequena tragédia burguesa, ririam de uma família cheia de pose que levava uma vida falsa, postiça, sem condições para aguentar o ritmo.
Deixa essa cama macia, Mabel, porque dentro em breve teu corpo deverá repousar cansado como o de uma empregada doméstica num colchão áspero e vagabundo de crina usada.
Sentou-se resignada a tudo. Jurando que um dia voltaria à mesma vida. Que não era possível a sorte se apresentar assim. Afinal não tinha culpa de coisa alguma que acontecera. Apenas fora carregada numa voragem alucinante. Arremetida num precipício desgraçado.
Pisou de leve no chão atapetado, tentando imaginar o chão talvez de terra batida da nova casa que os iria acolher.
Saiu e cerrou com cuidado a porta do quarto. Como se fechasse todas as lembranças ternas dentro daquele mundo penumbroso de silêncio.
Desceu contando os degraus da escada.
Ao chegar à sala, todos estavam falando baixinho. Planificando o futuro certamente. Trincou os dentes decidida a tudo. Poderia uma vez ou outra não resistir e se lastimar. Mas aguentaria o que viesse pela frente, fechando os punhos do ódio interior.
Que tanto você demorou, Mabel?
Clarissa viera ao seu encontro.
Sorriu sarcasticamente, analisando a irmã. Para que tanto cuidado se nem sequer tinha coragem de acompanhá-la na atual circunstância. Iria, sim, dependurar-se servilmente nas calças de Rodolfo para não ser tão atingida pelo golpe que a atingira.
Estávamos preocupados com a sua ausência, Mabel.
Não foi nada. Apenas senti uma grande indisposição intestinal e, de nojo, demorei-me a vomitar a podridão da vida. Foi só.
Voltou ao antigo posto e principiou, apanhando a primeira meia, desenrolando-a e estirando-a perna acima. Repetiu o mesmo gesto com a outra e ligou as ligas na calça. Findo isto, sem tentar abaixar-se, enfiou os pés nos sapatos. Queria assim confirmar que estava disposta a tudo que viesse. Exceto a morte, porque só os outros morriam...
E então?
Rômulo, que tomava as primeiras atitudes, comentou entre dentes.
Segunda-feira iremos com o caminhão da mudança.
Muito bem.
Tia Clarissa limpou os olhos num pequeno lenço.
Por que tanta humilhação, meu Deus?
Mabel fez-lhe sinal com o dedo na boca para que se calasse.
De nada adianta reclamar. O que aconteceu, aconteceu. E as lamúrias não remediarão nada. E mesmo, querida, sou eu que terei de ir no caminhão da mudança... Não você.
Rômulo ergueu-se e aumentou a voz. E a voz veio recheada de um sorriso debochado.
Nem tudo é tragédia e desesperança. Ontem mesmo eu soube de uma grande notícia. Nós não ficaremos toda a vida nessa situação. Haveremos de voltar e, quem sabe, até em menos tempo do que se espera.
Todos os olhares voltaram-se surpresos para ele.
Ontem me deram uma notícia comovedora e esperançosa. O aneurisma de tio Hermes pode rebentar a qualquer momento e ele não tem herdeiros diretos. Apontou as duas mulheres.
Só você, Mabel. Só você, Clarissa.
Deu uma risada que não estava nada apropriada ao ambiente e ao cheiro de luto que envolvia a todos ainda.
Nunca na minha vida rezarei tanto para que um aneurisma rebente depressa.
Ninguém disse nada e, se houve recriminação, somente os olhares duros dos presentes o fizeram.
Depois, abrindo as mãos do cinismo, encerrou a sessão repetindo as mesmas palavras iniciais:
Ite, Missa est!…

José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça