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30/08/2017

O dia de São Nunca (trecho final)


O menino contava e recontava.
Mais para o fim, o que parecia um copo de leite disse para a moça: “Senta do lado dele.” Ela se sentou do meu lado. “Põe o santo na mão dele.” Ela me deu o santo. “Abrace o santo.” Abracei o santo. “Põe a mão no ombro dele, abraça ele.” A moça me abraçou. “Isto. Sorria. Isto.” E para mim: “Você também, sorria.” Clique, clique. E disse para o amarelo: “Agora, você.” E disse: “Agora os dois, cada um de um lado dele.” E o amarelo: “Agora deixa eu fazer uma sua.” E o branco-de-leite veio para o meu lado, primeiro sozinho, depois com a moça. E foi assim um bocado de vezes, me davam o santo, me tomavam o santo, e a moça perguntava: “Quantas chapas ainda tem? Não gastem tudo.” E o copo de leite parecia que não ouvia, batia, batia, batia, como gostava de tirar retrato. E mais para o finzinho ainda ele virou aquele negócio preto e comprido para as telhas e disse: “Agora é a vez da sua irmãzinha”, mas a lagartixa parece que não gostou e saiu correndo, até se enfiar na parede e sumir.
Eles faziam tudo muito depressa, nessa hora. Não dava tempo de explicar que às vezes eu penso que Deus foi melhor com as lagartixas do que comigo. Porque Ele me deu estas duas perninhas de lagartixa, mas as lagartixas andam e eu não. Eu queria dizer pra eles que estava doido pra mamãe chegar, quem sabe ela fazia um café e um doce de leite? Isso era o que me deixava triste: eles aqui e mamãe lá longe.
E um disse (o muito branco, outra vez. Clique, clique e falando depressa): “Nós vamos voltar. Quando foi mesmo que você disse? Dois de fevereiro? A Festa da Padroeira. A igreja aberta o tempo todo. Não vamos nos esquecer. Vamos trazer muitos presentes para você, viu? Muitos brinquedos. Você é um garoto bacana, um garoto legal.” Falavam assim. Era o jeito deles. Então ele pegou o santo de novo e disse: “Você me dá ele? Nós voltamos aqui, vamos trazer muitos brinquedos. Vamos levar o santo, viu? E aquilo ali também, viu?” E aí ele deu o santo para a moça e disse: “Você leva o santo”, e os dois carregaram o nicho, com a lamparina acesa e tudo, o fedor do pavio queimado no azeite e eu disse: “Cuidado, senão o pavio apaga”, e eles saíram, quase correndo, e não olharam para trás.
Dois de fevereiro ainda está muito longe, não está, mamãe? Ainda estamos no mês de abril, não foi o que a senhora disse? Ainda bem que dois de fevereiro não é Dia de São Nunca.
Sabe o que eu penso, mamãe? Que eles devem ser os três reis magos. A senhora não acha? Eles vão voltar, trazendo os presentes. São os três reis magos. Mas tem a moça. Bom, pode ter morrido um rei mago e a moça entrou no lugar dele, para continuarem sendo três. Será que eu estou pensando certo, mamãe?

Ninguém disse nada de certo ou errado, ninguém pensou no mais certo ou no mais errado — um homem comentava, tentando assentar a poeira. Fora o menino, que se mantinha alegre, calmo e sonhador como sempre, o resto era a confusão, já próxima (ou talvez além) de um delírio. Mas o motor da luz será desligado daqui a pouco e o escuro devolverá de novo os homens para os seus sonhos. Restará o acabrunhamento, o desejo da vingança. E isto não entra nos sonhos. Entra nos pesadelos. Com certeza hoje será uma noite de pesadelos. Este homem, porém (não o último a falar, diga-se), sente-se no direito a umas palavras esclarecedoras. Ele disse:
— Agora, agora, esse menino precisava lá de santo? Ele precisa é de perna para andar.
Por um momento os outros chegaram até a concordar. Era isso mesmo. No que todos refletiam e achavam que estava tudo muito certo, sim senhor, um outro homem lançava uma nova faísca, quente como uma brasa:
— Ora muito bem, o senhor tem toda razão. Mas o caso não é o santo. O caso é o roubo.
Dito isso ele foi saindo de mansinho. Queria conversar um pouco com o tio do menino, antes que a luz se apagasse. E enquanto a luz estivesse acesa, ele, esse tio, continuaria lá, na sua marcenaria, esquecido no seu canto. E foi assim que o homem o encontrou: torneando pacientemente uma cantoneira — para outro santo. O tio trabalhava e rezava:

Louvando a Maria
O povo fiel

O homem gritou da janela:
— Seu Marceneiro. Seu Marceneiro. Roubaram o santo do menino.
Sentindo-se interrompido, o tio recomeçou a reza:

Louvando a Maria
O povo fiel

O homem pensa que ele não ouve. Insiste:
— Seu Marceneiro. Seu Marceneiro. Roubaram o santo do menino.
O tio volta a recomeçar:

Louvando a...

Parou. Sua cara atarantada parecia que ia se despregar do corpo e voar pelo espaço, a caminho do infinito, a caminho do céu. Não era para lá que este velho beato iria, quando morresse? Todos sabiam disto. Ele era um santo entre os vivos, o lado de lá desta vida desgraçadamente terrena. E o tio, com os seus velhos óculos remendados e suspensos na testa cheia de dobras, abriu os pulmões, abriu a cancela de um inferno jamais suspeitado. E soltou, com toda a força da sua alma, o primeiro palavrão de sua vida, que ecoou como um trovão, um estrondo, um ronco de Satanás.
Era um eco capaz de arrebentar o mundo, o homem pensou, seguindo o seu destino, debaixo das estrelas. Já não entendia mais nada.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

18/08/2017

O dia de São Nunca (trecho)

Com a palavra, o povo:
— Isso só pode ser arte de Satanás.
— Agora, essa. Arte de Satanás. Arte de vagabundo. Arte de moleque descarado.
— Eu vi. Juro que eu vi. Uma bola grandona, que chegava a me entontecer. Eu estava chegando da roça e fiquei parado, sem conseguir ir para a frente nem para trás. Pensei que foi o sol que tinha caído. Depois a bola sumiu de repente. Quase desmaiei. Pensei até que tinha perdido a fala. Que susto. Acreditem se quiser, eu vi. E sou capaz de jurar que era o tal de disco voador.
— Por que você não entrou nesse tal de disco voador e não voou com eles para São Paulo? Você não vive dizendo que quer ir para São Paulo?
— Vocês não acreditam. Não tem jeito.
— Chegou um sujeito aí dizendo que viu um negócio muito esquisito na estrada. Um carro que vinha a toda velocidade, com os faróis acesos, e quando chegava perto dele sumia.
— Olhaí, seu delegado. Eles ainda estão por perto. As balas do seu fuzil pegam em carro encantado?
— Se continuarem com essa mangação, boto todo mundo na cadeia — o delegado se enfezava. Estava a ponto de explodir.
— Vai botar as pessoas erradas, delegado.
— Em vez dessa fuxicaria toda, por que é que a gente não toma uma providência?
— Tome você, já que está tão interessado — disse o delegado. — Tem o meu consentimento.
— Ora, delegado, quem é a autoridade? — Como é que o delegado pode pegar um disco voador?
— Mandando buscar outro disco voador. Na capital deve ter dúzias deles.
— Quem foi que veio com essa conversa besta de disco voador?
— Eu. Por quê?
— Ah, foi você? Ainda bem. Assim eu acredito.
— Pode acreditar mesmo.
— Acredito, já disse.
— Vocês não acreditam porque são uns ignorantes. Nunca ouviram A Voz do Brasil. Mas eu ouço. Todas as noites. E fico sabendo de tudo o que existe. E disco voador existe.

— Sabe o que eu acho — cortou um que queria paz —, eu acho que se Humberto de Tote Vieira tivesse aqui nada disso estava acontecendo. A gente já tinha dado um jeito nesses bandidos.
— E quem é esse tal de Humberto que eu não me lembro?
— É um filho daqui, que mora lá pelo Sul. Trabalha na televisão. É ele quem entrevista Mao Tsé-tung, toda vez que Mao Tsé-tung vem passear em Copacabana.
— E quem é esse diabo desse Mau-não-sei-quê? Oxe!
— Tá vendo? Aquele ali é quem tem razão. Vocês não sabem nada porque não ouvem A Voz do Brasil.
— E o que é que esse Humberto ia fazer?
— Ia dar a notícia nas rádios e na televisão e aí as polícias, mais para adiante, iam barrar os paulistas. Vocês não sabem que as estradas têm barreiras? É nas barreiras que se pega os fugidos da polícia.
— É verdade isso, delegado?
Ele não respondeu. Queria dar um fim ao caso, mas não sabia de que jeito. O povo daqui é assim: quando agarra num assunto, vai com ele até o resto da vida. Neste lugar nunca aconteceu nada que desse trabalho à polícia. Aconteceu a vinda destes três forasteiros. Para a desgraça do delegado. O povo reclama, pede justiça. O povo põe a culpa nele. O delegado está a ponto de ficar louco. Ameaça se retirar. Queria sumir das vistas desta gente. Não permitem a sua saída. Sempre senhor de seus atos, o delegado agora é um escravo de todos. Pensa: “Que droga. Por causa de três paulistas desocupados e de um menino aleijado. Uma tempestade num copo d’água.”
— Não vá já, não, doutor. Queremos lhe ajudar.
— Ajudar em quê? Agradeço muito a boa intenção, mas não estou precisando de ajuda.
— O caso, delegado, é que a mãe do menino tá com a bola frouxa. Ela diz que vai amanhã na capital. Vai dar queixa do senhor ao Governador. E ela vai mesmo. Já conseguiu até o dinheiro emprestado para fazer a viagem.
— Deixa ela ir. O que é que eu posso fazer?
— Pode prender essa velha, não pode? Pode prender até por desacato à autoridade. Ela não lhe xingou na cara de todo mundo? Amarre ela na cadeia que ela não vai.
O conselho era malicioso e o delegado sabia disso. Agora preparavam-lhe uma armadilha.
— Isso é um absurdo — interveio um dos homens, disposto a tudo. — Os moleques à solta e a mãe do menino na cadeia? O povo vai se revoltar.
— Já estou revoltado — disse o do disco voador. — Essa conversa toda já está me deixando revoltado. Quanto mais a gente fala, mais eles fogem. E ninguém faz nada.
— Quem foi que falou em Humberto de Tote Vieira?
— Eu.
— Então por que você não passa um telegrama pra ele? Talvez já resolvesse. O negócio da notícia na televisão.
— Telegrama? Tá sonhando. Só se passa telegrama daqui a 15 léguas. Neste buraco até carta só sai de oito em oito dias. Não me diga que você não sabe disso.
— Eu estava apenas dando uma ideia.
— Com ideias assim, sabe o que você deve fazer?
— Calma lá, calma lá — disse o delegado. — O primeiro que abrir a boca sobre este assunto vai pra cadeia. Estou falando sério. Meto todo mundo na cadeia. E quem me desrespeitar...
— Diga, delegado: leva bala. Quem me desrespeitar, leva bala. Diga isso da sua própria boca.
— Isso mesmo. Quem me desrespeitar, leva bala. Passo fogo em todo mundo. — O delegado repetiu a ameaça umas três vezes, talvez para ter certeza absoluta de que era o que lhe restava fazer. E todos viram a praça em guerra, a velha praça esfarrapada, pobre e quieta que dormitava há mais de um século, porque nasceu sossegada e parecia que viveria sossegada até o fim do mundo. Ia ser um flagelo. Há poucas horas ninguém haveria de pensar numa batalha por aqui, e esta batalha estava por arrebentar, para nossa própria surpresa. A cena era confusa, como num sonho. De um lado o delegado e seus dois soldados, atirando a esmo. De outro lado homens, mulheres e crianças, com seus cachorros, pedras, paus, estilingues e espingardas de caçar codornas. O delegado e os dois soldados eram pouco, mas iam dar muito trabalho. Suas armas eram mais perigosas, todos sabiam. Mas não houve guerra, não foi desta vez que o lugar arrebentou. E não houve por uma razão muito simples: o delegado se retirou, sem dar maiores satisfações. Provavelmente ia para a cama. Ia contar carneirinhos até o sol raiar.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

03/08/2017

O dia de São Nunca (trecho)


— Quanta gente malvada neste mundo — dizia a mãe do menino, na sua eterna lamuriação de rezadeira. — Como se pode ofender um inocente, como alguém pode se aproveitar de uma criaturinha inocente. Não posso me conformar.
— Se acalme, Donana. Deus está vendo.
— É verdade, este é o meu consolo. Deus está vendo. Eles haverão de acabar nas profundezas dos infernos.
A vida de Donana era aquilo mesmo que o menino disse. Plantar feijão na roça dos outros, quando o inverno chegava, e rezar os outros, sempre que houvesse algum ser vivente necessitado de uma reza. Uma vida miserável, vivida a troco de litros de feijão e de farinha, qualquer coisa para comer. E uma queixa, uma queixa do tamanho do mundo contra Deus, que lhe deu um filho assim, um menino entrevado num catre desde pequeno e condenado a continuar deste jeito até o fim de seus dias. Se Deus olhava por todos, não olhava por ela? Olhava. Havia sempre um trabalho ou outro, nunca tinha passado fome. Dava graças a Deus por isso. Essa boa gente sertaneja era gente de Deus, sempre tinha piedade dela. Todos compartilhavam da sua dor. No entanto havia uma dor maior, e essa ninguém podia tirar. Era a mágoa que sofria do finado seu marido, aquela espinha atravessada na garganta, ferindo, aferroando. Nunca pôde se livrar disso e já não podia acreditar mais que o tempo cura tudo. Esse tormento era como uma pancada na memória, aquela lembrança tão dolorosa dos seus piores dias. O marido era um bêbado e um bêbado é um tonto: não sabe o que diz. Sabia muito bem que ele tinha se desgraçado na cachaça, se esbagaçado até morrer, porque não suportava olhar para o filho, não aguentava vê-lo naquelas condições. E era caindo de bêbado que ele dava para inventar coisas, umas maluquices que mais pareciam inventadas pelo próprio diabo.
— Mulher, tu é uma excomungada — o marido costumava dizer. — Porque só uma criatura excomungada pode parir uma infelicidade destas.
A voz do povo tentava conformá-la, pedia-lhe caridade para com seu desorientado marido:
— Ele perdeu o juízo, Donana. Reze por ele, Donana. Tenha compaixão. Neste dia, porém, ao saber do acontecido — a história dos três forasteiros —, ela saiu para a rua, arrancando os cabelos. Perdeu a paciência. Agora ela praguejava, urrava, xingava Deus e o mundo:
— Deste jeito não dá para se acreditar em nada.
E uma dúvida começou a se formar na cabeça de muitos:
— Será que ela também perdeu o juízo?
Mas foi a partir de seus berros que todo o lugar entrou em pé de guerra. Donana abotoou o delegado pela gola:
— Onde estava você, onde estava você? — Cuspiu na cara dos soldados: — E vocês, seus bananas? Xeretando os fazendeiros, tomando conta do gado alheio? Vocês entregaram meu filho aos cães. Pensam que ele é um cão sem dono?
Donana já não era mais uma mulher, muito menos uma rezadeira: era um desaforo. Sua boca vomitava pedra.
— E você, seu miserável, também não viu nada? — era o que ela ia atirando a esmo, na cara de qualquer um, até se cansar e se render e começar a explicar as coisas direito. Ninguém sabia de nada, eis a verdade. Agora todos queriam saber mesmo como foi que tudo se passou.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

19/07/2017

O dia de São Nunca (trecho)


Que coisa estranha, ele pensava. Não se saber uma coisa tão simples: que rezar em casa e na igreja é um costume do povo, de todos daqui, gente devota o ano inteiro. Uma questão de fé. Os três visitantes pareciam demonstrar que as pessoas das cidades não têm esses costumes. Mas rezar gente, gado e passarinho doentes é bem diferente. É uma forma de ganhar o sustento, um ofício. Sua mãe não era apenas uma rezadeira. Era a única rezadeira desta terra, sempre caminhando para cima e para baixo, com três galhos de arruda atrás da orelha, sempre tentando socorrer um infeliz, um desenganado. Ela chegava na casa do doente, pedia uma tigela com água, molhava a arruda na água e ia rezando e balançando os galhos de arruda em torno do corpo moribundo. Se no fim da reza os galhos estivessem murchos, era sinal de que o doente ia melhorar, sua doença era mau-olhado mesmo e estava passando do freguês para as folhas da arruda. Sua reza era sempre a mesma e, mais importante do que ela, eram os poderes da rezadeira e a fé do rezado. Sim, sem essa fé não adiantava nada. (Aqui o menino imita a mãe, reza:)

Com dois te botaram
com três eu te tiro
com pernas de grilo
que vem do retiro.
É de metetéia
é de manenanha
que esse menino fique bom
de hoje pra amanhã.

Ele balançou os dedos no ar, como sua mãe fazia, ao terminar a reza. Era esse gesto que espantava o mal. A reza tirava o mal do corpo para os galhos da arruda, e a batida dos dedos sacolejados no espaço derrubava-o por terra, para debaixo do chão.
— Mamãe me reza todos os dias — disse o menino, satisfeito com todas as explicações que conseguia dar.
— E apesar disso... — a moça não completou, mas ele percebeu o resto. E apesar disso você continua assim. Ela disse outra coisa rapidamente, para consertar: — Será que você não acredita nisso, não tem fé nisso?
Como se não tivesse ouvido esse pedaço da conversa, ele voltou a imitar a mãe:
— “Que esse menino fique bom, de hoje para amanhã” — riu. — “Acho que amanhã é o Dia de São Nunca.”
— O que é “é de metetéia, é de manenanha”? — a moça era quem mais falava. Os dois rapazes, na maior parte do tempo, só se preocupavam em tirar retrato.
— Não sei. Acho que ninguém sabe. Palavra de reza a gente não precisa saber o que é. Basta ter fé.
— Então tenha fé — disse a moça, rindo.
Ele gostou deste sorriso. Os dentes da moça eram alvos, muito bonitos.
Os dois rapazes falavam entre eles, baixinho. Devia ser qualquer coisa sobre as horas. O rapaz muito branco da cor do leite tirou o santo do nicho. Olhou para os outros companheiros, olhou para o menino. Depois foi levantando o santo com as duas mãos, devagarinho. Levantou-o até onde seus braços podiam ir, acima da cabeça. O amarelo de olho rasgado bateu palmas. Disse:
— Salve o campeão do mundo. A Copa é nossa.
O menino ficou olhando para o santo lá em cima, nas mãos do rapaz. Disse:
— Reze, meu filho, reze. Paizinho Santo Antônio vai te ajudar. Mamãe me diz isso todo dia quando sai de casa. E eu rezo todo dia. Meu paizinho Santo Antônio vai me ajudar.
— Claro que vai — disse o branco, abaixando o santo. E, para os dois companheiros: — Estranhíssimo, não é?
O menino ficou orgulhoso com esta observação. Era um elogio ao santo, ele pelo menos achou que era isso.
— Tudo tão primitivo — repetiu a moça, balançando a cabeça e mordendo os beiços. Parecia em desacordo com alguma coisa, que o menino não chegou a adivinhar o que era.
O amarelo de olho rasgado riu de uma maneira abestalhada, era uma risada de maluco, um rá-rá-rá seco, de quem ria sem achar graça.
— O que é que você está olhando lá em cima? — A moça emendou a pergunta com outra: — Você se importa que se pegue no santo?
— Estava conversando com minha irmãzinha. Estava dizendo pra ela: “Eles gostam do santo, maninha. Eles também gostam de santo.”
— Irmãzinha?
— Sim. Minha irmãzinha lagartixa.
Foi aí que a moça fez aquela cara horrível, o assombro de gente esquisita, que tem medo de tudo. E disse:
— Lagartixa? Ui!
Agora o menino só lamentava o pouco tempo que eles ficaram. Foi um tempão, é verdade, mas com tanta coisa para conversar as horas voaram e eles se foram. Tinham que ir para bem longe. Uma pena. Queria explicar melhor o que pensava das lagartixas e contar direito todas as conversas que tinha com elas. Ainda bem que eles prometeram voltar um dia.
— Será que eles voltam mesmo, mamãe? Reze pra eles voltarem.
— Sim, meu filho. Vou rezar. Eles têm que voltar.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

21/06/2017

O dia de São Nunca (trecho)

Lagartixa? Ui!
Aquilo era nojo, o menino sabia. Agora era capaz de vê-lo de perto, via-o por trás das palavras, de cada uma das duas únicas palavras que a moça disse: o nojo estava estampado em seu rosto, na sua perturbadora cara de espanto, no tremelicar de seus braços arrepiados, como se esta estranha moça tivesse num repente pressentido a própria morte. Nojo de uma coisa de que ninguém devia ter nojo, o menino pensou, encolhendo-se ainda mais debaixo da coberta encardida que ele puxou sobre as pernas. Ele pelo menos não tinha. Talvez já soubesse também (ou suspeitasse) a pior das verdades: era dele que a moça estava com nojo e não apenas daquilo que ele disse, quando falou em “minha irmãzinha lagartixa”. Havia dito isso com a mesma e tranquila certeza com que falara antes em “meu paizinho Santo Antônio”, apontando para o santo no nicho à sua frente, seu velho companheiro de todos os dias, como as lagartixas. Este santo era um presente de um tio que tinha cara de santo, isto é, foi feito pelas mãos abençoadas de um marceneiro que foi capaz de transformar um toco de madeira num santo verdadeiro — e todos viram o dia em que o padre lhe deu validade de santo, naquele dia em que ele veio à sua casa para benzê-lo.
Quieto estava, quieto continuou. Ia fazer o que podia: revirar os olhos (duas jabuticabas idiotas que giravam descompassadas de um canto a outro sem a menor consciência de si mesmas), para novamente voltar a olhar para as telhas. Voltaria a conversar com suas amiguinhas. E lá estavam elas, estas preguiçosas, cochilando entre as ripas, alheias a tudo. Com elas, sim, ele podia contar. Iria dizer-lhes que não tinha culpa se a moça não as estimava. Mas quando o sangue que se agitava no rosto da moça voltasse a se acalmar, ele iria ter que explicar melhor as coisas, para que a sua inesperada visita não se vá pensando bobagem. As pessoas das cidades não são como as daqui. Nada entendem de lagartixa.
Lá fora havia calma, nenhum sinal de gente. Ele sabia o que isto significava: todos os homens já tinham ido para a roça. Era um dia claro, completamente azul. Nos dias assim sua mãe abria a janela e ele podia ver a rua. Prostrado a vida inteira num estrado, o menino se alegrou muito com a chegada da moça e dos dois rapazes. Não sabia o que queriam, mas isso não importava. Estes três forasteiros pareciam enviados de Deus para lhe fazer companhia. Ia ter muito o que contar quando sua mãe voltasse.
E foi assim que os recebeu: feliz. Feliz, feliz.
Eram estranhos até na maneira de chegar. Primeiro amontoaram-se na janela, falando entre si, numa língua incompreensível. Depois perguntaram-lhe qualquer coisa, que não compreendeu direito. Pelas falas via-se logo que não era gente destes lados. Mas apesar disso iriam se entender, como ficaria sabendo daí a pouco.
— Cheguem à frente — disse o menino e não precisou dizer mais nada. A porta estava encostada, como sempre.
Visita era coisa boa, viesse de onde viesse, fossem parentes ou não. Sempre experimentava um prazer imenso quando aparecia alguma. O difícil era saber se o que lhe agradava era apenas a companhia, a novidade da presença de alguém — menino ou gente grande, tanto fazia —, alguém disposto a dedicar-lhe um pouco de tempo, por menor que fosse. Os que chegavam traziam-lhe o mundo de fora, o desconhecido e largo mundo a que não pertencia. Por isso sugava cada palavra que lhe era dita, com a mesma fé cega com que engolia a hóstia que o padre metia em sua boca de ano em ano. Foi assim que ele aprendeu, desde muito pequeno, a conversar com os outros: prestando muita atenção nas palavras que ouvia, guardando-as para repeti-las mais tarde, como se ele próprio fosse um paiol muito fundo capaz de armazenar toda a sabedoria da vida que os outros lhe passavam, naturalmente. Mas talvez tivesse nisso também o prazer de ver as pessoas sofrerem por sua causa (ou fingir que sofriam), sempre aqueles olhares caídos para o chão, o não dito e o por dizer escritos em cada cara, que-pena-que-eu-tenho-desse-menino, tadinho. Tadinho! E aí (quem sabe nem o soubesse?) estava a sua vingança, sua espécie particular de crueldade: vê-las sofrer enchia-lhe a boca de saliva.
Estes três forasteiros eram diferentes. Olhavam-no de frente, sem cerimônia. Faziam-lhe muitas perguntas, às vezes dando a impressão de que queriam embaraçá-lo. Tiravam muitos retratos. Essa parte foi a que mais gostou: aqueles cliques-cliques rápidos e até engraçados, parecidos com a fala dos grilos. Como gostaria de ter um brinquedo desses. Só não falou isso porque se lembrou de uma coisa que sua mãe costumava dizer. Nunca se deve pedir nada a ninguém. Espere que lhe ofereçam.
Mais tarde ele diria que a moça era parecida com uma ovelha, por causa da cor de seus cabelos lanzudos. E que um dos rapazes era um sujeito amarelo, de olho rasgado, e que gente assim nunca tinha visto antes. E que o outro lembrava um copo de leite, de tão branco. Foi o que sua mãe contou para o delegado, que contou na venda, de noite, quando o alvoroço já estava formado. O delegado especulava, precisava registrar o caso. Uns disseram que aquele menino vivia sonhando acordado. Ninguém viu forasteiro algum. Outros estiveram de acordo quanto a um ponto: os tempos estavam mudando. Até paulista já aparecia por aqui. Mas não faltou quem dissesse ter visto, com seus próprios olhos, os três chegarem e sumirem dentro de uma bola esquisita, que mais parecia um cavalo de fogo, e que só podia ser o tal de disco voador.
— Que disco voador, que nada. Você está é bestando.
— Esse tal de disco voador é coisa do diabo, homem.
— Quem sabe ele não está certo? Vai ver é o fim do mundo que está chegando. Ele viu uma bola de fogo, não viu?
— Com estes olhos que a terra há de comer — garantia o homem em quem não se estava acreditando.
— Vocês estão é bestando. Todo mundo bestando aí como uns tontos — cortou o que não ia nessa conversa de disco voador. — Esses forasteiros não passam de uns moleques sem-vergonha, uns vidas-tortas que não têm o que fazer. Se pego eles boto tudo num cabo de uma enxada, pra eles verem o que é bom.
— Vamos ou não vamos pegar esses cachorros, delegado? — O primeiro adepto do que falara antes também espumava, seu ódio também não era pequeno. Ele exigia uma ação qualquer, uma medida prática, pedia o que muitos queriam: a caça urgente aos dois rapazes e à moça, que mereciam o mesmo castigo dedicado aos ladrões de galinha.
Calado e inquieto, o delegado ouvia a todos. Parecia escutar até os mais maldizentes resmungos, o disse-me-disse cochichado, a desconfiança — essa surrada desconfiança local que tem olho torto e sempre se denuncia: onde estavam ele e os dois soldados que não viam nada? Por que deixaram a rua escancarada, como um curral sem dono, justamente na hora em que todos estavam na roça, trabalhando? Jogavam damas na cadeira, damas ou baralho, qualquer coisa assim — era só para isso que serviam essas autoridades?
— Já não adianta — a voz do delegado parecia convencida da sua própria derrota, uma derrota que estava mais do que clara aos olhos dos outros. Uma voz de quem implorava: Tenham dó de mim. Que posso fazer? Mas que em vez disso, disse: — A estas horas eles estão bem longe. Já pegaram o asfalto há muito tempo. Depois (nesse instante olhou com firmeza para os homens à sua frente, como se os chamasse à responsabilidade), depois, como é que eu vou saber quem são eles? Ninguém anotou a chapa do carro, ninguém viu esses forasteiros.
Ninguém era maneira de dizer. Ou melhor: de dar o caso por encerrado. Porque o menino tinha as provas, os dados reais e indiscutíveis que confirmavam a existência deles. Bastava que se acreditasse no seu relato, nos tintins por tintins que não se cansava de repetir. Agora sua casa se enchia. Nunca imaginou que pudesse ser tão visitado num mesmo e único dia. Era uma festa.
E eis como tudo aconteceu:
A moça entrou na frente; era a mais assanhada. Disse que estava com sede. O menino pensou: eles vieram aqui porque querem água. E mamãe sai logo numa hora dessas. Apontou lá para dentro, indicando a cozinha, no fundo do corredor. Lá havia um pote, que devia estar cheio. A caneca estava por perto. Era só procurar. Não deu, porém, maiores explicações sobre o fato de não poder sair do seu estrado para servir à moça. Disse apenas:
— Estou doente. — Quase completa: Estou doente desde sempre. Nasci assim. Pelo menos é o que me dizem. Como papai quando tomava umas cachaças e reclamava lá do quarto, pensando que eu não estava ouvindo: “E eu que precisava tanto ter um filho com pernas para andar e braços para o cabo da enxada.” Mamãe não gostava: “Homem, não diga uma coisa dessas. Olha o castigo de Deus.” Eu era bem pequeno quando papai morreu. Será que foi castigo?
Um dos rapazes começou tirando retrato do santo no nicho. O outro fotografava o menino. Ele perguntou:
— O que é isso?
— Máquina fotográfica.
— E o que é isso?
— Fotografia... retrato.
— Ah, bom — retrato ele sabia o que era. Já tinham lhe contado. A cara da gente num papel, como um espelho. A gente olha e se vê.
Foi então que a moça voltou. Disse uma coisa para os dois, que acharam muita graça. O menino não entendeu a razão das risadas. O que ela disse:
— Isso aqui é tão primitivo.
O menino ficou olhando para os três, sem saber o que dizer. Então eles pararam de rir e começaram a fazer perguntas:
— Você fica sempre assim... sozinho?
— É o jeito — ele disse, mas sem amargura. Encantado como estava, nem sequer prestava muito atenção no que dizia, nem no que lhe era perguntado.
— É o jeito?
— Sim. Mamãe está trabalhando. Quando der meio-dia, ela vem para me dar comida, depois volta.
— Ela vem exatamente ao meio-dia? — o que fez esta pergunta olhou no relógio. Disse para os outros: — Já são onze horas. Temos pouco tempo.
— Mais ou menos — informou o menino. — Quando o sol estiver a pino.
— Calma — falou a moça para o rapaz que disse as horas. — Dá tempo. — E, para o menino: — Você não tem medo de ficar aqui sozinho? Não tem medo de ladrão?
— Ladrão? Aqui não tem ladrão.
— Porque não tem o que se roubar, não é?
— Eu acho que é.
A moça quis saber onde a mãe dele estava trabalhando. O menino disse:
— Na roça. Está plantando feijão. — E acrescentou: — Mas ela é rezadeira.
Então a moça disse:
— O que é isso?
O menino sorriu. Agora, sim, ele estava verdadeiramente excitado. Tanto que lambia os beiços e esfregava uma mão na outra, apertava uma mão com a outra, estalava os dedos. Então havia uma coisa que essa moça não sabia? Então ele agora ia poder dar uma lição para estes sabidos? Ia. Nenhum deles sabia o que era uma rezadeira. Faziam confusão, falavam em gente que vive rezando.
— Podemos dizer — o menino explicava — que gente que vive rezando é gente rezadeira. Mas uma rezadeira é outra coisa. Se mamãe chegasse logo para dar um exemplo…
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

17/02/2017

Por um pé de feijão


Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (a nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida.
Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar.
Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar?
E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinquenta, outros falavam em oitenta.
No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.
Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe.
E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão:
— Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido?
E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca.
À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado.
Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando.
— Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos.
E disse mais:
— Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou.
Então eu pensei: O velho está certo.
Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

11/02/2017

Segundo Nego de Roseno

 

— Patrãozinho, me dê uma prata.
— Pra que você quer dinheiro, homem? — disse o menino.
— Me dê uma prata para eu tomar uma.
— Não vai trabalhar? Papai está te esperando.
— Eu vou mas é tomar uma.
— Tome duas e caia logo de vez — disse o menino, pondo as duas moedas na mão do homem e se retirando.
— Deus te ajude, patrãozinho.
Era terça-feira e era o fim de tudo — e o último ser vivo do mundo estava caindo de bêbado, nem bem o sol havia raiado.
Agora não havia mais missa nem feira nem barraca nem pão-de-ló e a rua voltou a ser o que sempre foi: uma solidão única.
O menino percebeu isso ao acordar. Estava sozinho. Como o padre, todos haviam retornado a suas casas de verdade, fazendolas e casebres miseráveis das redondezas que, se somadas, davam mais de sete léguas. Até tio Ascendino, o último dos beatos (o bêbado não contava), tinha abandonado o seu posto e retornado à sua marcenaria. Agora só lhe restava o caminho da roça. O pior não era a solidão. Era a fome. E assim, com as tripas roncando e esfregando os dedos nos olhos para limpar a remela, o menino foi descendo para a venda de Josias Cardoso. Ia comprar um pão de água e sal ou mesmo um pão de milho. Agora podia comprar o que quisesse, porque as três notas que o padre lhe dera compravam muitas coisas. Mas ia devagar. Lá na roça seu pai o aguardava com uma enxada.
Felizmente não sobraram apenas o menino, o bêbado e o dono da venda. Também havia Nego de Roseno e sua fubica parada na porta do armarinho. A fubica era um pouco mais do que o veículo que transportava uma pança negra cheia de níqueis dos roceiros. Era o único orgulho motorizado do Junco — e o prêmio justo para um homem que passara toda uma vida carregando suas mercadorias no lombo de um burro. O menino também estava fascinado com o progresso desse homem e chegava mesmo a invejar-lhe a liberdade de poder rodar para cima e para baixo na boléia daquele caminhãozinho que, mesmo quebrando e atolando nas estradas, acabava sempre chegando a algum destino. E talvez fosse isso o que ele estivesse querendo dizer, nesse momento. Imóvel dentro do armarinho, como se fosse mais um dos caixotes que Nego de Roseno tentava mudar de posição, o menino agora admirava a maneira delicada como ele, um homenzarrão desengonçado, arrumava os frascos de cheiro nas prateleiras. E foi então que Nego de Roseno falou. Queria alguma coisa? Queria, sim. Aquela camisa ali, quanto é?
Custava mais do que o dinheiro que ele tinha, mas Nego de Roseno deixou pelo dinheiro que ele tinha.
— Seu pai é um bom freguês — disse. — Vou lhe fazer um desconto.
Seu pai. Agora precisava inventar uma boa mentira para contar em casa. Por que você demorou tanto? Porque...
Talvez levasse uma surra.
Mas tinha dois pães numa mão e uma camisa nova na outra — e isso, por enquanto, era o que importava.
Uma camiseta branca, de mangas cavadas (diferente, moderna), a primeira coisa na vida que comprava com o seu próprio dinheiro. Também não mandou pôr os pães na conta do pai, como das outras vezes. O problema é que sua alegria não estava sendo maior que o seu medo. Quem mandou demorar tanto?
Quando chegou à marcenaria, tio Ascendino ainda cantava benditos. Era um velho muito só que vivia rezando e praguejando contra as maldades do mundo. Tio Ascendino parou de cantar, parou a enxó, ajeitou os suspensórios e mostrou um caminhão azul para o menino.
— Fiz este para você. Gosta da cor azul?
O menino ofereceu um de seus pães para o tio e tio Ascendino aproveitou para fazer um café. Enquanto esperava, e agora com uma alegria redobrada, por causa do presente, trocou de camisa.
— Só está é um pouco folgada — disse tio Ascendino. — Mas não faz mal. Quando lavar, ela encolhe. E você está crescendo.
Esquecido do tempo e da enxada e da possibilidade de uma surra, o menino conversou muito, como se fosse um bom companheiro para o tio.
— Esta terra só se alegra quando tem missa, não é?
— É a pura verdade — disse tio Ascendino. — É uma pena só ter missa de tempos em tempos. Já estamos precisando de um padre que more aqui e que celebre missa pelo menos todos os domingos.
— Também acho — disse o menino.
— E você, quando vai para o seminário?
— Não sei, não, tio.
— Quando vejo você ajudando o padre, tão bonito, fico pedindo a Deus para ver você um dia metido numa batina. Ia ser o maior orgulho deste lugar. Mas talvez eu não viva tanto para ver isso.
Há uma certa hora no Junco que dá para se ouvir um carro de bois cantando do outro lado do universo. Entre 11 da manhã e 3 da tarde o sol treme e até as cigarras param de piar. O menino ia pela estrada atento aos buracos. Atento ao barulho das rodas de seu caminhãozinho, que ele empurrava com uma forquilha.
O presente do tio também serviu de perdão para a sua demora. O que não lhe perdoaram foi o fato de ele ter dado o seu dinheiro numa camisa que não valia nada. Burro. Burro e besta. Seu pai ordenou:
— Volte lá e devolva isto. Traga o dinheiro de volta.
Tinha que voltar à rua. Não havia outro jeito. No caminho, pedia a Deus que lhe jogasse na frente as três notas que ganhara do padre e que agora se encontravam nas mãos de Nego de Roseno. Se isso acontecesse, ele poria a camisa fora e voltava para casa sem ter que enfrentar o dono do armarinho. Era uma humilhação ter que se desfazer de um negócio que fizera por sua livre vontade. Mas se Deus não o iria socorrer, muito menos Nego de Roseno. Pediu o apoio de Dirce, com os olhos molhados. Dirce não se moveu. Pediu o apoio de Neguinho, que um dia havia caído a seus pés, no meio da rua, durante um ataque de epilepsia. Neguinho também não disse nada. Que espécie de homem ele era?, perguntava Nego de Roseno. Comprava uma coisa e depois se arrependia? Além do mais, a camisa estava melada de suor. Em casa, além da enxada, agora o aguardava uma nova bateria de ameaças e descomposturas. E esse incidente iria perturbar-lhe o sono durante um largo tempo da sua vida.
Como no dia em que Neguinho se jogou no tanque velho e morreu afogado, para se vingar de um tapa que levara do pai. Em seus sonhos, o menino via Neguinho se debatendo e espumando no chão, com os olhos arregalados e suplicantes, como se estivesse lhe pedindo socorro. Essa cena iria se repetir noites a fio, por mais que o menino rezasse pela alma de Neguinho.
Só muito depois, quando a camisa já estava rasgada e não servia mais para nada, foi que ele deu o caso por encerrado.
Uma noite seu pai voltou um pouco tarde da rua e ficou conversando com sua mãe. Estava contando a respeito do que ouvira uns homens dizer sobre o menino.
— Estava eu, Josias, compadre Zeca e Nego de Roseno.
O menino ficou de orelha em pé. Ainda não haviam se esquecido daquela coisa.
— Aí Nego de Roseno disse: dá gosto ouvir aquele menino falar. Aquele menino é um homem — contava o velho. — Os outros, todos, disseram a mesma coisa.
Agora, sim. Seu pai estava orgulhoso.
O filho dele era um homem, segundo Nego de Roseno.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto