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24/12/2024
08/09/2024
23/05/2024
O Dia em que Nós Pegamos Papai Noel
Na
nossa turma em Aracaju — uns 15 moleques de 9 a 10 anos de idade,
no tempo em que menino era muito mais besta do que hoje —, quem
sabia de tudo era Neném, cujo verdadeiro nome até hoje desconheço.
Neném era chamado a esclarecer todas as dúvidas, inclusive em
relação a mulheres, assunto proibidíssimo, que suscitava grandes
controvérsias. Ninguém sabia nada a respeito de mulheres e muitos
nem sabiam direito o que era uma mulher. As mulheres usavam saias,
falavam fino, tinham direito a chorar e os homens mudavam de assunto
ou tom de voz quando uma delas se aproximava — e pouco mais do que
isso constava do nosso cabedal de informações, razão por que Neném
assumiu grande importância no grupo.
Neném
sabia tudo de mulher, contou cada coisa de arrepiar os cabelos. Houve
quem não acreditasse naquela sem-vergonhice toda: como é que era
mesmo, seria possível uma desgraceira dessas? Quer dizer que aquela
conversa de que achou a gente dentro da melancia, não sei o quê,
aquela conversa... Pois isso e muito mais! — garantia Neném, e aí
tome novidade arrepiante em cima de novidade arrepiante. Um menino da
turma, o Jackson (em Sergipe há muitos Jacksons, por causa de
Jackson de Figueiredo, é a mesma coisa que Ruy na Bahia), ficou tão
abalado com as revelações que foi ser padre.
Mas,
antes de Jackson se assustar mais e entrar para o seminário, chegou
o primeiro Natal em que o prestígio de Neném já estava amplamente
consolidado e a questão das mulheres — tão criadora de tensões,
incertezas e pecados por pensamentos, palavras e obras — foi
substituída por debates em relação a Papai Noel. A ala mais
sofisticada lançava amplas dúvidas quanto à existência de Papai
Noel e o ceticismo já se alastrava galopantemente, quando Neném,
que tinha andado gripado e ficara uns dias preso em casa para ser
supliciado com chás inacreditáveis, como faziam com todos nós,
apareceu e, para surpresa geral, manifestou-se pela existência de
Papai Noel. Ele mesmo já estivera pessoalmente com Papai Noel. Não
falara nada porque, se alguém fala assim com Papai Noel na hora do
presente, ele toma um susto e não bota o presente no sapato. Apenas
abrira um olho cautelosamente, vira Papai Noel, com um sacão maior
do que um estudebêiquer, tirando os presentes lá de dentro, foi até
no ano em que ele ganhara a bicicleta, lembrava-se como se fosse
hoje. Então Papai Noel existia, era fato provado.
Alguns
se convenceram imediatamente, mas outros resistiram. Aquele negócio
de Papai Noel era tão lorota quanto a história da melancia. Neném
se aborreceu, não gostava de ter sua autoridade de fonte fidedigna
contestada, propôs um desafio. Quem era macho de esperar Papai Noel
na véspera de Natal? Tinha que ser macho, porque era de noite, era
escuro e era mais de meia-noite, Papai Noel só chega altas horas.
Alguém era macho ali?
Ponderou-se
que macho ali havia, machidão é o que não falta em Sergipe, não
se fizesse ele de besta de achar que alguém ali não era macho do
dedão do pé à raiz do cabelo. Mas era uma questão delicada, como
era que se ia fazer para enganar os pais e conseguir escapulir de
casa à noite? E quem tivesse sono? Havia alguns que tomavam um copo
de leite às oito horas e caíam no sono 15 minutos depois, era
natureza mesmo, que é que se ia fazer? Era muito fácil falar, mas
resolver mesmo era difícil.
Neném
não quis saber. Disse que macho que é macho vai lá e enfrenta
esses problemas todos, senão não é macho. Macho era ele, que só
não ia sozinho para o quintal de Zizinho apreciar a chegada de Papai
Noel porque, sem companhia, não ia ter graça e infelizmente não
havia ali um só macho para ir com ele. Por que ninguém aproveitava
que a Feirinha de Natal funciona até tarde e os meninos têm mais
liberdade de circular à noite?
Claro,
a Feirinha de Natal! Todo Natal havia a Feirinha, montada numa praça,
com roda-gigante, carrossel, barracas de jogos e tudo de bom que a
gente podia imaginar, iluminada por gambiarras coloridas e enfeitada
por todos os cantos. Sim, não era impossível que um bom macho
conseguisse aproveitar a oportunidade gerada pela Feirinha e
escapulir para ver Papai Noel no quintal de Zizinho. Só que não
podia ser mais perto, por que tinha de ser no quintal de Zizinho?
Elementar, na explicação meio entediada de Neném: Zizinho tinha
mais de dez irmãos, era a primeira casa em que Papai Noel passaria,
para descarregar logo metade do saco e se aliviar do peso. Além
disso, o quintal era grande, cheio de árvores, dava perfeitamente
para todo mundo se esconder, cada qual num canto para manter sob
vigilância todas as entradas do casarão, menos a frente, é claro,
porque Papai Noel nunca entra pela frente, qualquer um sabe disso.
Eu
fui um dos machos, naturalmente. E, já pelas dez horas, o burburinho
da Feirinha chegando de longe com a aragem de uma noite quieta,
estávamos nos dispondo estrategicamente pelo quintal, sob as
instruções de Neném. Alguns ficaram com medo de cobra (macho pode
ter medo de cobra, não é contra as normas), outros se queixaram do
frio, outros de sono, mas acabamos assentados em nossas posições.
Acredito
que cochilei, porque não me lembro do começo do rebuliço. Alguém
tinha visto um vulto esgueirar-se pela janela do quarto da empregada,
que ficava separado da casa, do outro lado do quintal. Era Papai Noel
indo dar o presente de Laleca, a empregada, uma cabocla muito bonita
e, segundo Neném, “da pontinha da orelha esquerda”. No duro que
era Papai Noel, já havia até descrições do chapéu, da barba, do
riso, tudo mesmo. Como os soldados dos filmes de guerra que passavam
no cinema do pai de Neném, fomos quase rastejando para debaixo da
janela de Laleca. Estava fechada agora, Papai Noel certamente não
queria testemunhas.
Mas
como demorava esse Papai Noel! Claro que, nessas horas, o tempo não
anda, escorre como uma lesma. Mas, mesmo assim, a demora estava
demais.
— Estou
ouvindo uns barulhinhos — cochichou Neném.
— Eu
também.
— Eu
também. E foi risada, ainda agora, foi risada?
— Psiu!
Silêncio
entre nós, novos barulhinhos lá dentro.
— Quem
é macho aí de perguntar se é Papai Noel que está aí? —
perguntou Neném.
Eu
fui macho outra vez. Estava louco para apurar aquela história toda,
queria saber se Papai Noel tinha trazido o que eu pedira e aí gritei
junto às persianas:
— É
Papai Noel que está aí?
Barulhos
frenéticos lá dentro, vozes, confusão.
— É
Papai Noel?
A
barulheira aumentou e, antes que eu pudesse repetir a pergunta outra
vez, a janela se abriu com estrépito e de dentro pulou um homem
esbaforido, segurando uma camisa branca na mão direita, que
imediatamente desabalou num carreirão e sumiu no escuro. Lá dentro,
ajeitando o cabelo, Laleca fez uma cara sem graça e perguntou o que
a gente estava fazendo ali.
— Era
Papai Noel que estava com você?
— Era,
era — respondeu ela.
Mas
ninguém ficou muito convencido, até porque o homem que pulara tão
depressa janela afora lembrava muito o pai de Zizinho, que por sinal,
no dia seguinte, deu cinco mil réis a ele, disse que ficasse
caladinho sobre o episódio e explicou ainda que Papai Noel não
existia, Papai Noel eram os pais, como ele, pai de Zizinho, que todo
Natal ia de quarto em quarto distribuindo presentes. De maneira que
até hoje a coisa não está bem esclarecida e nós ficamos sem saber
se bem era uma história de Papai Noel ou se bem era uma história de
mulher daquelas de arrepiar os cabelos.
João Ubaldo Ribeiro, in O rei da noite
18/03/2019
27/12/2015
24/12/2015
24/12/2013
Papai Noel no trópico
Ilustração: Natalia Forcat
Meu
avô era aquilo que os vencedores na batalha pela vida costumam denominar de um
perdedor. Nada do que fazia dava certo, nada. Ainda jovem havia jogado fora a
pequena fortuna que recebera de herança; fizera um investimento maluco qualquer
e perdera todo o dinheiro. A partir daí, tentou de tudo para sobreviver; foi
comerciante, foi corretor de imóveis, foi vendedor de seguros, foi motorista
... Até a astrologia experimentou, mas teve de encerrar a carreira depois que
uma cliente, indignada com suas previsões erradas, deu-lhe uns tapas em plena
rua. De desastre em desastre os anos iam passando; mesmo sem dinheiro, ele
casou. Com a mulher ideal, aliás: minha avó, Isabel, era de uma paciência
admirável, e encarava com bom humor as extravagâncias e os insucessos do
marido. Tiveram oito filhos porque meu avô, além de tudo, considerava-se um
patriarca e olhava com satisfação a sua tribo crescer. A família sobrevivia,
principalmente porque vovó era boa costureira e tinha numerosas clientes na
alta sociedade, o que lhe dava certa renda. Quanto a vovô, continuava
arranjando um bico aqui outro ali.
Um
dia recebeu uma oferta inesperada. Um de seus muitos amigos, comerciante
relativamente próspero, convidou-o para trabalhar como Papai Noel: ficaria
diante da loja, com o traje vermelho característico, convidando os transeuntes
a entrar no estabelecimento. A princípio, vovô rejeitou a proposta, com
indignação, inclusive: o que é que você pensa que sou, posso ser pobre mas
tenho minha dignidade, não vou bancar Papai Noel coisa nenhuma. Mas aí o homem
mencionou uma cifra, que não era pequena. Vovô engoliu em seco. Era mais do que
lhe tinham pago por qualquer trabalho. Um dinheiro que lhe permitiria oferecer
um Natal decente à tribo. Aceitou.
E
se saiu muito bem. Porque era muito parecido com o Papai Noel: gordo,
rechonchudo, faces rubicundas. Nem precisava usar barba postiça; a bela barba,
precocemente branca, tornava desnecessário tal disfarce. Mais: seu riso era
igualzinho ao Ho-ho-ho que, segundo a lenda, é característico do Papai Noel. Só
lhe faltava o trenó com as renas, porque o resto todo ele tinha.
Esta
semelhança logo o tornou conhecido. Shoppings passaram a contratá-lo, e clubes,
e também uma emissora de tevê. Orientado por um amigo, marqueteiro esperto,
cobrava bons cachês. Ao menos no fim do ano ele tinha assegurada uma fonte de
renda — e um bom final de ano para a família. A ceia de Natal (sempre realizada
no dia 25, porque no dia 24 ele trabalhava até tarde) era magnífica; e os caros
presentes junto à árvore de Natal provocavam admiração (e inveja) nos vizinhos.
Ninguém
lhe perguntava se ele gostava de bancar Papai Noel; nem vovô falava a respeito.
Mas para a mulher abria seu coração: odiava aquilo. Não tanto por causa da
encenação; o que lhe incomodava era a roupa. Ridícula e, pior, quente: na
cidade do Nordeste em que viviam a temperatura nunca baixava de 25 graus. E
vovô era particularmente calorento; quando o termômetro subia, ele sofria.
Normalmente andava só em mangas de camisa, de bermuda e chinelo. Via a fantasia
de Papai Noel como verdadeiro suplício. Não sei por que tenho de vestir essa
coisa, reclamava. Vovó ponderava que, na lenda, Papai Noel vinha do Polo Norte;
teria, portanto, de usar roupas quentes.
—
Mas eu sou um Papai Noel brasileiro! — bradava vovô. — Não podia fazer esse
papel só de camiseta?
Pergunta
retórica. Ele sabia que uma versão tropical da roupa natalina jamais seria
aceita. O Brasil, resmungava, sempre imitou a Europa e os Estados Unidos, não
será agora que as coisas mudarão.
Vovó
tentava consolá-lo como podia. Tratou, inclusive, de confeccionar para o marido
uma fantasia de Papai Noel bem mais leve, mais arejada; mas vovô, talvez por
causa da irritação, continuava suando em bicas. Este aborrecimento começou a
lhe envenenar a vida. À medida que se aproximava o fim do ano, ia ficando mais
irritadiço. Na semana do Natal ninguém podia chegar perto dele; explodia por
qualquer coisa. Lá pelas tantas vovó começou a ficar preocupada. Vovô já era um
homem idoso, beirava os setenta, e a sua saúde não era das melhores; ela temia
que aquilo acabasse prejudicando o homem. Chegou a sugerir que ele parasse de
vez; afinal, tanta gente se aposenta, por que não podem se aposentar as pessoas
que fazem o papel de Papai Noel? Uma idéia que vovô repelia, indignado. Não era
homem de abandonar a luta.
Mas
os temores de vovó se confirmavam. Dez dias antes do Natal vovô teve um
acidente vascular cerebral. Às pressas, foi levado para o hospital. Seu estado
era grave; uma pneumonia complicava o quadro. Com febre, vovô delirava, dizia
coisas sem sentido. No fim daquela semana, melhorou, recuperou um pouco a
lucidez. Olhou a mulher, reconheceu-a:
—
Que dia é hoje? — perguntou, em voz fraca.
Era
a véspera de Natal, mas vovó, inquieta, não sabia se lhe dizia isso ou não:
afinal, era a primeira vez que, nessa época, ele não estava cumprindo seu
papel. Por fim disse que era a noite de 24 de dezembro.
—
Então o Papai Noel deve andar por aí — disse vovô. E, depois de uma pausa,
continuou:
—
Eu queria falar com o velhinho. Queria lhe fazer um pedido. Sem saber o que
responder, e alarmada com a estranha conversa, vovó decidiu chamar o filho mais
velho — meu pai. Contou o que tinha sucedido, perguntou o que deveriam fazer.
Meu
pai pensou um pouco. Ele era jovem, ainda, e, como vovô, tinha um temperamento
fantasioso. De modo que não hesitou:
—
Se o velho quer ver o Papai Noel, verá o Papai Noel. Foi para casa, trouxe a
fantasia que vovô usava (acrescida de uma barba postiça, de algodão branco) e,
pouco depois, entrava no quarto do hospital vestido como Papai Noel. Vovô abriu
os olhos, viu aquela figura e não estranhou; pelo contrário, esboçou um débil
sorriso.
—
Eu sabia que você viria, meu amigo. Tenho um pedido a lhe fazer.
Meu
pai limitou-se a acenar com a cabeça: tinha medo de que vovô o identificasse
pela voz, se disse qualquer coisa. Mas aparentemente o ancião achava que estava
falando com o Papai Noel. Soerguendo-se a custo, fez o seu pedido:
—
Eu não quero ser mais o Papai Noel, amigo. Ouviu?
Não
quero ser mais o Papai Noel. Não aguento aquela roupa, sabe? Não aguento. Você,
que é o verdadeiro Papai Noel, ficará no meu lugar para sempre. As pessoas
gostarão disso. E eu poderei morrer em paz.
Calou-se,
exausto, deixou-se cair sobre os travesseiros. Vovó chorava baixinho; papai a
custo continha o pranto. Mas tinha de levar a encenação até o fim, e assim fez
para vovô um sinal de positivo, apertou-lhe a mão e saiu.
A
melhora de vovô revelou-se enganosa. Ele voltou a piorar e uma semana depois
faleceu.
A
consternação foi geral. O velho era conhecido e estimado em toda a cidade e os
jornais anunciaram o seu falecimento. O Natal não será mais o mesmo, dizia uma
das notícias. Outra: Papai Noel nos deixou.
Aos poucos, a vida foi voltando ao normal. Vovó passou a morar com uma filha, professora. Sentia muita falta do marido, e sempre falava nele, mas acabou se resignando. Parecia que, daí em diante, vovô seria apenas uma lembrança.
E aí, a surpresa. Em fins de novembro do ano seguinte papai foi procurado por um grupo de lojistas. Queriam que ele se tornasse Papai Noel.
Aos poucos, a vida foi voltando ao normal. Vovó passou a morar com uma filha, professora. Sentia muita falta do marido, e sempre falava nele, mas acabou se resignando. Parecia que, daí em diante, vovô seria apenas uma lembrança.
E aí, a surpresa. Em fins de novembro do ano seguinte papai foi procurado por um grupo de lojistas. Queriam que ele se tornasse Papai Noel.
O
pedido tinha fundamento. Papai era parecidíssimo com vovô, grande e gordo como
ele. E tinha o mesmo vozeirão, o mesmo riso em Ho-ho-ho. Ou seja, era a figura
talhada para o papel. Esse tipo de sucessão, aliás, não era excepcional. O
cargo de Rei Momo do Carnaval estava há décadas com uma mesma família — uma
família de gordinhos carnavalescos. E o cachê continuava polpudo. Detalhe
importante: papai, como vovô, nunca tivera emprego fixo. Mamãe, que, à semelhança
de vovó, era uma mulher prática (e sabia o esforço que lhe custava manter a
casa com orçamento apertado), disse que ele tinha de aceitar. Papai aceitou. E
foi um sucesso. A cidade toda se comoveu: as pessoas choravam ao vê-lo na mesma
roupa de vovô.
Agora,
já faz vinte anos que ele é Papai Noel. Eu era um menininho então, tornei-me
homem (e, seguindo a tradição familiar, não tenho emprego fixo; sou músico, mas
preciso lutar muito para ganhar algum dinheirinho). O tempo passou e, o tempo
passando, papai foi ficando cada vez mais parecido com vovô. Ele já nem precisa
usar barba postiça; a sua própria barba quebra o galho, embora não esteja ainda
inteiramente branca.
Como vovô, papai foi progressivamente
detestando a tarefa de bancar Papai Noel. E pela mesma razão: a roupa é quente
demais. Queixa-se, mas vai em frente. A fantasia das crianças é mais importante
que meu desconforto, diz. Uma frase que, de algum modo, me serve como lição de
vida. Papai Noel não é aquele que dá presentes, é aquele que traz alegria e
conforto. Pensarei nisto quando chegar a minha vez de vestir a velha roupa
vermelha, quando chegar a minha vez de anunciar a todos o Natal. Será uma
experiência estranha. Mas irei em frente. Embora já esteja até sentindo o
calor.
Moacyr
Scliar, in revista e, editada pelo SESC - SP, em
dezembro de 2003, nº 06, ano 10.
09/08/2013
Papai Noel
Fonte da imagem: Google
Eu
só tomei o choque às 14 horas. Ouvi, abri a boca e o meu pensamento
desgarrou-se para o programa Divino Maravilhoso do natal de 68, poucos dias
antes, na TV Tupi. Nunca vi cena tão violenta na minha vida. Era simplesmente
Caetano, com um revólver na mão, voz sossegada e musical, calmo e doce,
cantando.
“Anoiteceu/o
sino gemeu
A gente
ficou/feliz a rezar…”
O
revólver era empunhado sem ênfase. Esquecido na mão, o cano preto voltado para
a plateia, sem focalizar ninguém, apontando ponto nenhum:
“Eu pensei que
todo mundo
fosse
filho de Papai Noel…”
Tom
Zé, in Tropicalista lenta luta
27/12/2012
24/12/2012
Noel num vem
Im todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.
Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.
Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.
Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?
Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?
Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.
O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.
Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.
Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.
Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.
Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio Oliveira,
poeta mossoroense
Carta a Papai Noé
Em
meio aos sentimentos presentes neste Natal, lembremos daqueles a quem o
"bom velhinho" não consegue chegar, nos versos mais que verdadeiros
do poeta Luiz Campos, que rebate a hipocrisia e o apelo comercial desta festa
que deveria ser mais cristã.

Ilustração: Arievaldo Viana
Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos outo.
Só brinquei com os gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essa catrevage, sêo moço
Que a gente arranja sem dinheiro.
Quando eu via um gurizin
Brincando de velocipe
De caminhão e de gipe
Bola, revólver e carrin
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruquê eu num pudia
Pegar naqueles brinquedo.
Mas preguntei uma vez
A uns fio de dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso pra vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vêis nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente.
Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi mim lembrando
Acordei fiquei caçando
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mermo tinha botado
Saí c’a bixiga preta
Caçando os amigos meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé
Mas num brinquei, só fiz vê
E resolvi escrevê
Uma carta a Papai Noé.
“Papai Noé, é pecado
Os outro se matratá
Mas eu vou le recramá
Um troço que tá errado
Que aos fio de deputado
Você dá tanto carrin
Mas você é muito ruim
Que lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Que num se lembra de mim.
Já tô certo que você
Só balança o povo seu
E um pobe qui nem eu
Você vê, faz qui num vê
E se você vê, porque
Na minha casa num vem?
O rancho que a gente tem
E pequeno mas le cabe
Será que você num sabe
Qui pobe é gente também?
Você de roupa encarnada,
Colorida, bonitinha
Nunca reparou que a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Prêu num chamá-lo de ruim
Para o ano faça assim:
Dê menos aos fio dos rico
De cada um tire um tico,
Traga um presente pra mim.
Meu endereço eu vou dá,
Da casa que eu moro nela
Moro naquela favela
Que você nunca foi lá
Mas quando você chegá
Que avistá uma paióça
Cuberta cum lona grossa
E dois buraco bem grande
Uma porta véia de frande
Pode batê que é a nossa.
Luís Campos, Poeta mossoroense
15/12/2012
15/11/2012
Noel num vem
In todo ano é igual
Se aprochegando o
Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do
céu
E arrisca é dele num
vim.
Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de
brinquedo
Só se vê mermo im
retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os
dedo.
Me diga, o caba que
veve
Nas frialdade das
neve
No mei daquelas
lonjura
Que diabo vem vê pra
cá?
Só se for pa
esturricar
No oco dessa quentura.
Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da
Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no
sertão
Pra cumer preá cum
fava?
Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num
pissui
Se nas estrada da
roça
As vez inté as
carroça
Se ingancha nos
pidrigúi!?
Inda duvido tombem
Que os animá que ele
tem
Nesses camim lhe
carregue
No mei desses
carrapicho
Só sendo que aqueles
bicho
Vai ter os casco dum
jegue.
O natal de nossas
banda
Num tem os carrim que
anda
Nem robô que conta
estora
Num tem trenzim que
apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e
chora.
Nós tem buneca de
trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.
Nós tem buneco de
barro
Tem as nota de
cigarro
E os cachorro de
areia
Tudo coisa de
arremedo
Foi num foi se esfola
um dedo
Chutando bola de meia.
Vamo dexar de ilusão
Que o véi da
televisão
Cum baiba branca na
cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.
Não vá pensar que é
quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem
fuxica
Mais eu lhe digo: se
aquete
Que esse veim da
charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio de Oliveira
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