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01/10/2018

O desempregado com filhos

Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos.
E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.

Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão,
aquela que te resta, a segunda mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.

E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e
baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Gonçalo M. Tavares

26/12/2013

Dylan Thomas

“Não ignoro que a iluminação, quando entra na água, se torce como a vara que parece se torcer. Mas há uma diferença: a vara toca no fundo, mesmo na água suja, e a luz, não sei se com a água suja toca no fundo. A luz não é um metal.
Ou o metal talvez seja uma luz mais lenta. Como o ouro mostra. E daí o seu valor monetário, que não é mais que o seu valor para os olhos.”
Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

14/12/2013

Yukio Mishima

“Toda a estética é uma renúncia ao músculo.
Claro que a renúncia ao músculo é sempre temporária, porque a morte vem, e nela o corpo tem de estar presente. Porém a estética não. A morte, poderias dizer, torna dispensável a estética.”
Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

06/12/2013

E. M. Cioran


“O homem que quer destruir traz as mãos pesadas. O homem que quer fugir traz os pés leves.
O homem que quer lutar não traz pressa. O homem que quer morrer encontrou o mundo certo.”
Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

23/04/2013

A vida é ilegível

 “A vida, meu caro, é ilegível. Acontece e desaparece. Não há inteligência que a descodifique (...). a vida não surge em prosa nem em poesia – e a existência não fala inglês, apesar de tudo.”
Gonçalo M. Tavares, in Uma viagem à Índia