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09/09/2026

As primaveras

Os versos de Casimiro são tão nossos que gostar deles é um sinal de autenticidade — ... e, mesmo, como beber água da fonte na concha das mãos... E como ele ainda está entre nós — tão vivo — nos melhores e nos piores momentos da poesia popular!

Mário Quintana, em Caderno H

02/09/2026

O mundo especial do poeta

Carta a uma velha amiga que me disse ter conhecido um grande poeta, que é meu amigo; e ter sofrido uma decepção:

“Querida –
Não achou você poético o poeta; e até se queixa de que, no tempo em que esteve em sua mesa, não lhe ouviu uma palavra sobre poesia, mas, unicamente, ao sabor da conversa, comentários sobre sapatos de homem e desastres de automóvel, quando você gostaria de conversar sobre William Shakespeare.
É, na verdade, um pouco mortificante. Nunca falam os poetas de poesia?, me pergunta você. Bem, eles falam. Cada homem tem costume de falar de seu ofício, e o poeta é um homem como os outros. Mas acontece que, além de ser um homem como os outros, e sem deixar de sê-lo, ele tem isso de grave e especial que é ser um homem a quem tudo concerne e de tudo tira seu mel e seu fel. Esse menino que passa com um barulhento carrinho feito de caixotes, a trazer verduras da feira; aqueles operários da construção, que, depois de almoçar no botequim da esquina com uma cerveja preta, ficam um pouco sentados na calçada, conversando à-toa, à espera do sinal para o trabalho; e o próprio carrinho de tábuas de caixote, e a própria garrafa de cerveja preta – tudo é matéria do poeta. Não concerne o peixe ao motorista nem a mangueira ao cirurgião; mas ao poeta tudo concerne, e nesse pedaço de jornal velho que o vento arrasta pelo chão ele se inspira tão bem quanto naquela moça que saiu às compras, na manhã fria do bairro, com calças compridas e um suéter vermelho. Apenas há isto: que a esse farrapo de jornal ou aos olhos verdes dessa moça, pode acontecer que tenham de esperar muitos anos para entrar em um verso do poeta, como podem entrar de repente, atravessando um braço de mar de 1938 ou a tarde de um agosto antigo. A moça tão linda julga ir onde quer, ao sabor de sua fantasia; na verdade ela é guiada por um controle remoto que a faz passar perante o poeta. Este pelo menos assim o crê: vê gestos de Deus na queda de uma folha ou no salto de um gato.
Quando o poeta fala de sapatos, de trânsito ou futebol, não está disfarçando: o último jogo do Flamengo, a corrida dos ônibus depois do túnel e a cor dos sapatos, tudo se filtra na alma do poeta. Tudo; e com certeza também você, que ele pode ter incorporado silenciosamente no seu mundo. E quando amanhã escrever “uma tarde castanha”, se lembrará de seus cabelos e de sua voz serena.
Não o desame pois, por não ser poético; isso não é seu ofício: ele é poeta. Adeus.”

Rubem Braga
Rio, 1954/1983

Rubem Braga, em A poesia é necessária

12/08/2026

Guia

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem — sem coação alguma —
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

Adélia Prado, em Bagagem

06/08/2026

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado, em Bagagem

26/05/2026

“A poesia é necessária”

Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de autossuperação.
É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento da alma.
Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham mostrar-me.

Mário Quintana, em Caderno H

23/04/2026

Amor e poesia



Ela era uma mocinha. Trabalhava no restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe – andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
– Onde você esteve? — a tia lhe perguntou com severidade.
– Na praia — ela respondeu sem acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz do luar.
– O que foi que ele lhe fez? — ela perguntou.
– Ele leu um poema — a moça respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com um profundo suspiro falou:
– Leu-lhe um poema... Então você está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a música.

***

Florentino Ariza perdeu o emprego de escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial, passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios. Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil. Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços. Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas cartas...

***

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real – as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade, filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade, o sultão a amou para sempre...

***

Conselho de Nietzsche: Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

22/04/2026

Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
 
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
 
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
 
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar

18/03/2026

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
 
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
 
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
 
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
 
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
 
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia poética

04/02/2026

Um encontro (para se guardar) com Manoel

Eu disse: vim aqui só para falar de coisas miúdas, as grandezas do ínfimo, não se inquiete. Manoel sorriu: tenho doutorado em formigas, sente-se. Sentei. Duas cadeiras na varanda de sua fazenda no Pantanal. A distância infinita entre dois homens — e, para anulá-la, inesperadamente, uma ema cruzou, distraída, os nossos olhos. As garças e os tuiuiús só andariam pela sua obra, em bando, um pouco mais à frente. Difícil conversar sobre algo tão natural como a água e as suas criaturas com um poeta que fixou sua vida em terras alagadas. Como começar? Pela seca sinceridade: digo logo que apreciei o livro, estarei sendo fiel à verdade. Então, falei: bonito, bonito esse seu O guardador de águas, Manoel. E acrescentei: é um livro-riacho, e você aqui nesse aguaçal... Manoel concordou, desimpor­tante: é que só choveu na palavra onde eu estava. Nas páginas iniciais, você apresenta o Bernardo da Mata; gostei de ele encurtar as águas, eu disse. Manoel: e de encolher o horizonte em olho de inseto? Também, respondi, e de quando ele prende o silêncio com fivela! Manoel atento ao azul arriscado a pássaro. E aqueles vidrinhos de guardar moscas?, perguntei. O poeta respondeu: trecos do Bernardo, nadifúndios dele. E seus, Manoel, eu pensei, mas não disse nada. Os passarinhos vinham pousar, sanfranciscamente, nos ombros de Bernardo: ele enriquecia a natureza com a sua incompletude. Ainda não possuía, em seus instrumentos de trabalho, um abridor de amanhecer. Mas era só o tempo de o mundo pegar lodo — e aí o ontem choveria no futuro. Retomei a conversa, curioso: e esse Dialeto-Rã, do Bernardo? Manoel respondeu: é só linguagem escorregadia. Insisti: eu também me interesso pelas consoantes líquidas. Ele, quieto, só me mirava. Será que ele me árvore? Lembrei-me de um verso do livro, marcador nítido de sua poética: “O que desabre o ser é ver e ver-se”. Guardei para mim. Falei, apenas: Manoel, a primeira parte me lembrou O guardador de rebanhos, do Caeiro. Não só no título, mas na metafísica que ele não tem, como fechar o rio com trinco. Manoel aquiesceu: “O nada o aperfeiçoa”! E eu: não vale usar verso seu para escapar. Ele riu. A segunda parte, “Passos para a transfiguração”, você inseriu desenhos entre os poemas, foi a primeira vez, não é, Manoel? Ele não confirmou, nem desmentiu. Pensei em citar um dos versos das páginas seguintes: “Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser”. Pensei em mudar o rumo da conversa, per­guntar sobre as borboletas, por que afinal adotam os lugares vazios? Mas resolvi saltar para as teorias de árvore. Quem te ensinou sobre elas, Manoel? Aprendi sozinho, ele respondeu, na prática das águas. Comentei: a quarta teoria é a minha preferida — “há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes”. O poeta fez um gesto de galho. Manoel, perguntei, a chuva é íntima só mesmo se o escuro umedece nosso corpo? Ele permaneceu num silêncio de águas paradas, fazendo jus a seus versos da penúltima parte: “Ao poeta faz bem/ Desexplicar —/ Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”. Manoel, continuei, o dialeto coisal, larval, pedral, você descobriu quando leu Ovídio, não é? O poeta contemplava o céu, onde ocorria um incêndio de garças nas nuvens. Eu também desejava fugir daquela conversa, queria conhecer ali, no seu trastal, a matéria líquida da vida — e de sua escrita. A poesia, ele diria mais tarde, é um inutensílio. Um beija-flor de rodas vermelhas voejou perto de nós e fechou o assunto, livrando-me de prosseguir ali, monumentando a sua obra. Educado, Manoel se levantou e propôs: vamos dar um giro, enfiar idioma nos mosquitos? Aceitei o convite e estendo-o a você, leitor: venha! Guarde-se nessa poesia, de águas e barros, ela engrandece as miudezas da vida.

João Anzanello Carrascoza, em O guardador de águas, de Manoel de Barros

25/09/2025

Poesia

— Era um poeminha antigo de João Alphonsus:

O diabo é que a vida
Nem sempre, porém...
Toada da onda
Que vai e que vem
Da onda daonde? Até nem sei bem...
Ora bolas! Da onda
Que vai e que vem.

O rapaz leu e achou engraçado: “como é que um sujeito pode fazer um poema sem dizer nada, mas nada mesmo?”
Eu fiquei calado.
Ficava difícil explicar que o poeta dissera muita coisa, que a vida é assim mesmo, que a vida tem essa toada da onda... Da onda daonde?

Rubem Braga, em Recado de primavera

23/06/2025

A transfiguração pela poesia

Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento. Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia - a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras.
Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?
Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos.
De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.
A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

05/06/2025

Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque…

Mário Quintana, em Sapato Florido

15/04/2025

Teofania

Sabe-se que um deus só vem porque quer
e que é capaz de desaparecer
a seu bel-prazer, por mero capricho.
Nisso ele se assemelha mais a um bicho

selvagem, feito serpente ou veado,
do que a gente. Uns são intempestivos.
É no momento menos indicado
que nos capturam e mantêm cativos.

Assim é o Amor, por exemplo. Não
há quem não reconheça a divindade
de tal deus. Não: os próprios cristãos dão
a mão à palmatória e têm saudade

do realismo do mundo pagão
quando o veem chegar como quem não quer
nada e ofuscar tudo. Outros são
diferentes. Todos vêm por prazer,

isso é claro mas, por exemplo, o Sono
não deixa de abraçar-nos todo dia
enquanto somos jovens: dir-se-ia
ser nosso escravo e não suave dono.

Mas isso não se deve nem pensar
pois se ele ouvir o nosso pensamento
e resolver provar-nos a contento
ser mesmo deus, desaparecerá,

pois que ele é deus mostra-o nem tanto o fato
de que vem sem ser chamado e escraviza,
em teatros, aulas, ônibus, vigílias,
o desejo que almeja dominá-lo

quanto a própria insônia, teofania
negativa do Sono, quando somem
as doces nuvens e as torres macias
do príncipe dos deuses e dos homens

e não se abrem as águas da lagoa
ou os portões de chifre ou de marfim
e nossa imaginação se esboroa
em prosa e a noite cansa até o fim.

Não se iludam. Nem o mais poderoso
dos soporíferos substituiria
ver abolirem-se as categorias
pela espontânea ação de um deus gasoso.

Tais deuses só na velhice sabemos
o que são. O jovem nem desconfia
ser divino o próprio Tesão ou mesmo,
tremo só de lembrar, a Poesia.

Antonio Cícero, em Guardar

03/02/2025

Agua clara con sonido

De Garcilaso dela Vega dizia-se que era el mais hermoso y gallardo de cuantos componian la Corte del emperador. Chamavam-no, sem inveja, el amado de los dioses y su elegido. Morto com a idade de Cristo (1503-1536), viveu o grande toledano uma vida de um brilho raro, distribuída entre um desterro, muitas batalhas e, nos interlúdios, lindas mulheres, entre as quais sobressai sua maior paixão, dona Isabel Freyre, dama portuguesa da Corte da imperatriz Isabel, que, aparentemente, não lhe dava o devido troco. Mas a verdade é que o poeta-cortesão ia levando, a mão nos copos da espada, um sorriso nos lábios e estrofes de Virgílio, Dante e Petrarca na ponta da língua, para amaciar corações outros que não o da bem-amada.
Era um bravo, à maneira de Villon e de Camões. Tão bem a cavalo como a pé, amigo de poetas e de santos, morreu nos braços de seu amigo, o marquês de Lombay, que a Igreja canonizaria como são Francisco de Borja, depois de, sozinho, dar início ao assalto à fortaleza de Muy, na Provença. Mas quando repousava-se das armas, empunhava, ao que se conta, a harpa com igual mestria. Formal, no sentido clássico, sem ser culterano, soube deixar fluir de sua curta mas magistral obra poética uma luminosa música verbal que o distingue entre os pioneiros do chamado Século de Ouro da poesia espanhola. E foi também um extraordinário inovador, não só com trazer para a lírica de sua pátria os elementos positivos da escola italiana, mas com enriquecê-la de criações novas, qual seja a estrofe composta de versos de cinco, sete e 11 sílabas, conhecida como estrofe-lira, por ser esta a palavra final do primeiro verso de sua famosa canção “A la flor de Gnido”:

Si de mi baja lira
tanto pudiese el son que en un momento
aplacase la ira
del animoso viento
y la furia del mar, y el movimiento…

E que maior glória para Garcilaso, ver suas inovações constituírem as formas diletas de poetas espanhóis do século VI da estatura de frei Luis de León e, sobretudo, san Juan de La Cruz?
Há um verso do poeta que me encanta, na écloga dedicada ao vice-rei de Nápoles, em que são personagens seus dois filhos pastoris mais amados, Salicio e Nemeroso. Vem lá pelo meio do poema, e diz assim:

... cuando Salicio, recostado
al pié de una alta haya en la verdura,
por donde una agua clara con sonido
atravesaba el fresco y verde prado…

O verso a que me refiro, como já hão de ter percebido, é o terceiro do trecho aqui citado: por donde una agua clara con sonido. É inútil tentar traduzir. Água clara com som, água clara com ruído – nada terá nunca a beleza natural, a luminosidade de córrego límpido correndo fagueiro ao sol, o onomatopeísmo substantivo, sem necessidade de aliterações, do verso original de Garcilaso. São como sons puros de música.
Eu, se jamais tivesse feito um verso assim, pendurava as chuteiras.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

16/11/2024

No princípio

No princípio, era a Poesia. No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim, a Filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas.

Mário Quintana, em Caderno H

25/10/2024

O mistério da poesia

Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos.
E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.
O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.
Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.
De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. Se ele dissesse: Era bueno trabajar en el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinito do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo; ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito com os elementos mais simples: trabajar, era bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.
Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram.”
Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a ideia da canoa é também um motivo de emoção.
Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de uma grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa “necessidade aborrecida” de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.
Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas modernos que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas…

Rubem Braga, em A traição das elegantes