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10/02/2022

Rio de sangue | 14

Não pude mais conter a vontade de cavalgar pelos campos, de nadar pelos rios e deslizar sobre a terra com pés e corpo. Mirava a casa em ruína do outro lado da estrada, a parede onde esculpiram São Pedro com as chaves do céu, num dia, e noutro não mais existia, derrubada pela chuva que caía fina. Sentia saudade de um corpo se movimentando entre o povo nas noites de festa que já não existiam. Havia profundidade nos olhares, nas preces, nos encantados, índios, negros, brancos, santos católicos, caboclos das matas, chegando um após outro, e preenchendo o vazio dos campos da caatinga: sem deus, sem remédio, sem justiça, sem terra. Se esqueceram da encantada, seu nome talvez não seja mais lembrado, e a encantada vai se esquecendo de quem é, muito se aproxima a sua hora.
Deslizei para o leito de Bibiana como um sopro. Primeiro quis confortar sua dor, que crescia como a capoeira num campo abandonado. Adentrei seu fôlego para ocupar o vazio de seus olhos, para que a minha presença fosse tão intensa como se a envolvesse em abraços. Mas havia esquecido a energia de cavalgar um corpo, e como era bom estar de novo envolvida dos rios de sangue, da chama de um peito que pulsava vivo, dos olhos embotados, dos desejos e da liberdade. Levantei Bibiana da cama, andei de um lado a outro, ergui seus braços a cada volta que dava na sala, venerei com as pontas dos dedos cada fração da pele escura.
Caminhar pela casa no alto da madrugada se tornou pouco diante da vastidão do mundo e do que, juntas, poderíamos fazer. Cada mulher sabe a força da natureza que abriga na torrente que flui de sua vida. Deixei a casa para fazer o que mais gostava, para molhar meus pés na beira do rio. Levei Bibiana para caminhar no fundo da noite, ouvindo o pio da coruja, orvalhando seu corpo ao raiar do dia. Seus braços fortes estavam prontos para abater a caça. Enterrei a enxada num terreno acidentado para fazer o fojo. Arranquei um torrão de terra. Na escuridão os olhos eram dois faróis iluminando o horizonte. Bibiana havia sido levada para um dos muitos cantos de Água Negra e seu corpo guardava a voragem dos sobreviventes. A cada golpe soprava um mal que havia visto. Uma mulher que matou seu filho para que não fosse escravo. Um homem ofendido e pendurado num galho de jatobá. Cada golpe levantava uma grande quantidade de terra úmida da margem do rio. Outro golpe. Outro. A terra feito areia atravessa o espaço, volta ao rio, soterra um arbusto de melão-do-mato.
A cada noite atravesso os caminhos, vejo a ruína da casa em que reinavam os encantados. Deslizo, como uma semente encontrando a terra arada, para o corpo de Bibiana. Retomo seu fôlego. Retorno ao mesmo lugar onde vai surgindo um fojo. O lugar mais escuro de nossas noites. A enxada desce sobre a cova, que ganha contornos definidos. A terra pode ser uma armadilha. Vamos caçar um animal feroz que anda à solta, apavorando a gente de Água Negra. A onça que sua avó via, só ela via, e por isso pedia para terem cuidado. A onça era uma lembrança daquele passado tão distante e havia retornado para amedrontar os moradores. Não era a onça que havia protegido seu pai louco no meio da mata. A onça que passamos a caçar havia derramado sangue e estava disposta a rasgar a carne de mais gente, até conseguir o que queria.
São tantas noites cavando a terra para o fojo que as mãos de Bibiana estão laceradas. Quando deixo seu corpo pela manhã, ela cuida das palmas dormentes e castigadas com bolhas e feridas surgidas de nossa guerra.
Então, num dia qualquer, atravessei o terreiro e cheguei a Belonísia. Estava sozinha como Miúda. Selvagem, conhecia a terra como ninguém. Me uni ao seu corpo para vagar pela terra, para correr os marimbus, atravessar cercas, pelos rios, por casas e árvores mortas. Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força de seu corpo. A mulher que sentiu as dores do parto e deitou em silêncio, mordendo os lábios para parir mais um filho. A que enterrou dois maridos, e só não enterrou o último por que o sangrou como se sangra uma caça. Foi cavalgando seu corpo que senti que o passado nunca nos abandona. Belonísia era a fúria que havia cruzado o tempo. Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada. Gente que atravessou tudo suportando a crueldade que lhes foi imposta.
Foi na manhã fria, antes que o povo seguisse agasalhado para o trabalho, que seu corpo ardeu como uma labareda. Sabia que a onça fazia sua ronda pela estrada. Mas e se alguém a desafiasse e provocasse para que ela adentrasse a mata? Para que caísse no fojo que construímos com nossas mãos e com as forças dos ancestrais? E a sangrasse para encontrar o sossego? Para afastar o medo que sua presença emanava? O som do machado que nunca existiu desceu sobre a madeira. O som de um arado arranhando a carne. Os sons que a boca de Belonísia não era capaz de reproduzir, mas que, naquele instante, soaram forte como um trovão.
Vejo pelo interior de seus olhos.
A onça caiu sobre a borda do fojo, sustentando o corpo com as garras para não ser lançada em definitivo para o buraco. Assustou-se com a armadilha escondida no meio da mata, coberta de taboa seca e palha de buriti. Há quem jure que capatazes usaram as mesmas armadilhas de caça para capturar escravos fugidos no passado. A onça caiu com as presas enterradas no chão. Retirou uma porção de terra da boca. Não, era uma armadilha tola para capturar uma caça. Mas, antes que levantasse, se abateu sobre seu pescoço um único golpe carregado de uma emoção violenta, que até então desconhecia.
Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

04/02/2022

Rio de sangue | 13

Um grão de milho deslizou da mão de Belonísia para o solo arado. Com os próprios pés recobriu a semente, afofando com a necessária delicadeza para que o movimento do mundo se encarregasse do resto. É um campo maior que o do último plantio. Seus pés estavam de novo sobre a várzea do rio Utinga, moldando a terra escura e úmida nutrida pela cheia. As águas caíram generosas nas últimas semanas, recobriram todos os cantos e convidavam os moradores para cultivar suas roças com o que pudessem plantar. Havia peixes nas poças d’água ao longo das áreas que antes estavam secas. Outro grão de milho deixou sua mão para deitar a terra, formando uma trilha subterrânea de sementes douradas.
Há muitos anos, sentiu seu corpo vibrar como a terra úmida daquele campo. Vivendo entre as mulheres jovens da fazenda, era como se sua sina de ser mãe estivesse também sendo traçada. Mas, como a chuva, esse desejo foi abandonando seu corpo sem explicação aparente. E, depois dessa experiência, a cada vez que se entregava à semeadura conseguia sentir a natureza vibrando, como no passado. Quando estava sozinha e sabia que não a observariam com estranheza pelo seu ato, deitava no chão, como viu seu pai fazer inúmeras vezes. Tentava escutar os sons mais íntimos, dos lugares mais recônditos do interior da terra, para livrar o plantio da praga, para reparar as dificuldades e ajudar na colheita.
Fazia algum tempo que os moradores decidiram levantar suas casas com materiais duráveis. Aconteceu antes da morte de Salomão. Era um desejo antigo, sufocado pelos interditos. Queriam ter casas de alvenaria. Queriam moradas que não se desfizessem com o tempo e que demarcassem de forma duradoura a relação deles com Água Negra. Os filhos que trabalhavam fora passaram a enviar um pouco de dinheiro para as construções. Os mais velhos, que puderam se aposentar, começaram a comprar material à prestação na cidade. Chegavam na calada da noite com carregamentos em carrinhos de mão e carroças, para não chamar a atenção. O primeiro a assentar um tijolo foi o velho Saturnino, com a ajuda dos filhos e netos. Alguém passou pela frente da casa que estava sendo erguida e disse que faria o mesmo. Os gerentes passaram a reclamar, por ordem de Salomão, mas não adiantou. Aos poucos, a paisagem da fazenda foi se modificando como nunca antes havia ocorrido. Salu apenas disse para Zezé e Belonísia que queria levantar sua casa. Mas, se não tivesse dito, isso seria fácil de decifrar nas suas palavras soltas e nos bons gestos. Estava velha, queria ter sossego e não precisar se preocupar com o desgaste do barro. As chuvas eram esparsas, mas por vezes chegavam violentas, deixando avarias. Nunca teve nenhum bem e não abria mão de ter sua casa, era um sonho antigo que acalentou com seu marido. Queria uma com paredes caiadas e telhado de cerâmica. Nos finais de semanas, Zezé, Inácio e Belonísia foram erguendo a casa da família. Bibiana e Salu ajudavam, preparando o almoço. Havia um ar de recomeço naqueles dias, como recomeçavam seus trabalhos na roça depois da estiagem ou da cheia.
Talvez por entender que aquele movimento de desobediência ganhava contornos irrefreáveis, Salomão procurou a Justiça pedindo reintegração de posse de todas as áreas ocupadas da fazenda. A notícia foi recebida com comoção pelos moradores, que apenas imaginavam o que fariam se os tratores derrubassem suas casas e tivessem que se retirar da fazenda. Genivaldo foi o primeiro a falar mais alto, para que todos ouvissem, que ele não iria para a cidade “alisar passeio”. “Nasci nessa roça e só sei trabalhar com a mão na terra. Daqui não saio.” Sua decisão passou a ser encorajada. Reunidos com Bibiana, decidiram que se tivesse a ordem de um juiz – eles acreditavam que era possível pela influência que Salomão tinha entre os ilustres cidadãos da região –, deitariam no chão diante de suas casas para impedir os tratores de demolir. Que nenhuma família desampararia a mais próxima, independente das diferenças que guardavam no dia a dia. Juntos resistiriam até o fim.
Se prepararam para a guerra, como os coronéis fizeram no passado pelo controle dos garimpos. A diferença é que agora o conflito era pelo direito de morar. Mas a decisão da justiça parecia demorar a sair, e no meio da espera o homem apareceu morto. A suspeita de imediato recaiu sobre os moradores. Muitos foram conduzidos à delegacia. Até mesmo Bibiana foi levada, junto com o filho. Lá se recordou da morte do marido, que ainda não havia completado um ano. Questionaram sobre o papel dela na desordem que relatavam na fazenda. Disse que era professora, casada por muitos anos com um militante. Disse que era quilombola. Escutou que ninguém nunca havia falado sobre quilombo naquela região. “Mas a nossa história de sofrimento e luta diz que nós somos quilombolas”, disse, tranquila, diante do escrivão e do delegado.
Durante muito tempo, o temor de que iria surgir dentre eles um assassino perturbou suas vidas. Ao mesmo tempo, chegavam notícias de trabalhadores de outras fazendas de Salomão, relatando discórdias com empregados e vizinhos. Por onde ele havia passado deixou um rastro de descontentamento e desejo de revide. Isso só dificultou mais as investigações. O inquérito, depois de muitas oitivas e diligências, findou inconcluso.
Estela havia se mudado para a capital, mas continuava a administrar, de longe, as fazendas. Quem a conhecia dizia que havia enlouquecido. Via conspiração e tramas de vingança em todo o canto. Vivia sem sair de casa e impunha uma ordem de pavor aos filhos, com medo de que fossem alvos da mesma retaliação que vitimou o pai.
Meses depois, a notícia dos assassinatos trouxe funcionários de órgãos públicos, que ouviram moradores num processo de reintegração de posse. Aquela chegada foi celebrada com alívio. Tudo permanecia incerto, não havia prazos para a solução do problema, mas aquela movimentação indicava que a existência de Água Negra já era um fato. Não eram mais invisíveis, nem mesmo poderiam ser ignorados.
Em meio a todas as mudanças que chegavam, Inácio se preparou para deixar a casa da mãe. Iria estudar na cidade, se prepararia para os exames da universidade, queria ser professor. Queria participar de movimentos como o pai havia feito. Bibiana foi incentivadora da mudança, e em nenhum momento deixou transparecer o peso que a ausência do filho teria em seus dias. Tentava irradiar confiança. Diferente de Belonísia, que se quedou melancólica. A irmã amava os sobrinhos como filhos. Conviveu entre eles desde o retorno de Bibiana. O primeiro filho de Domingas estava a caminho, mas isso não a fazia cogitar se afastar de nenhum deles. Não queria ter que se separar de mais ninguém.
Imaginou que no dia da partida de Inácio teria que consolar Bibiana. Salu, as irmãs e as sobrinhas fizeram fila para abraçá-lo. Flora e Maria escreveram cartas dizendo que sentiriam saudade e que, se o irmão encontrasse trabalho, trouxesse presentes. Ana deu um desenho da família completa com o pai, Salu e os tios. Inácio abraçou cada uma, de forma mais detida a mãe, mas teve que enxugar as lágrimas de tia Belonísia. Pediu para que a madrinha não chorasse. Retornaria a cada final de ano. Guardaria tudo que ela havia lhe ensinado. Belonísia deu uma garrafa de mel e um terço com a imagem de Senhor dos Passos para que levasse consigo. Seria seu amuleto.
Mesmo muito depois de o carro ter deixado a fazenda e a família ter se recolhido aos seus afazeres, Belonísia permaneceu à porta mirando a estrada e tudo o mais que não podia ver de onde estava. Bibiana se levantou da mesa, onde iria iniciar a correção dos cadernos, e se dirigiu até a irmã. Envolveu-a por trás, enlaçando os braços em sua cintura, aninhando seu rosto entre o ombro e a orelha. Belonísia segurou suas mãos. Juntas fecharam os olhos e compartilharam a dádiva daquele instante. Entregaram-se àquele gesto por inteiro e experimentaram algo que poderiam chamar de perdão.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

23/01/2022

Rio de sangue | 11

Durante sua vida, desde o silêncio, você sentiu falta de poder cantar. Ainda muito pequena, nas noites de jarê, sentava na sala de casa, no colo de sua avó ou de sua mãe, e cantava o ponto de Santa Bárbara e do Velho Nagô. Ainda muito cedo seu canto se desfez. E você não conseguiu fazê-lo ecoar nem mesmo dentro de si. Quando pôde compreender o que lhe aconteceu, se perguntou: Por que sempre queremos as coisas que parecem estar mais distantes de nós?
Você andava atenta aos sons mais sutis. Conseguia saber quando o xanã estava fazendo seu ninho, ou quando a raposa estava se aproximando para comer os ovos do galinheiro. Escutava o chocalho da cascavel a uma distância considerável. Ouvia o canto monótono do rabo-mole-da-serra ou as unhas grandes do tatu cavando sua toca, mesmo quando ninguém conseguia. Você parava o que estivesse fazendo para ouvir o canto do tapaculo e o sentia ressonar, vibrando em seu próprio corpo. Foi assim que você aplacou o silêncio na solidão do terreiro quando sua irmã foi embora, ou na casa da beira do Santo Antônio, depois da morte de Tobias. Ou quando não pôde mais estar ao lado do seu pai e mestre. A mata a fez forte e sensível, ainda menina, para reconhecer o movimento do mundo. Uma vez escutou que o vento não sopra, é o próprio sopro”.
Pouco antes de você se calar para sempre, sua mãe chegou da roça e encontrou um prato de cuscuz pronto. Espantou-se, ao mesmo tempo em que perguntava quem o havia trazido. Ninguém. “Quem fez esse cuscuz?” “Eu que fiz.” “Mas você poderia se queimar.” Isso enterneceu sua mãe e seu pai cansados do trabalho, que agradeceram pela oferta. A terra era seu tesouro, parte do seu corpo, algo muito íntimo. Quando ia para a feira, quando caminhava até a cidade com o corpo acobreado de polpa de buriti sobre o negror da pele, não via a hora de tomar seu caminho de volta para a fazenda. Não sabia como a irmã pôde morar naquela desordem de carros, casas e gente. Para ter qualquer coisa precisava de dinheiro, qualquer coisa. Na terra tinha o que colher ao alcance das mãos. Se a seca ou a cheia levasse, comia-se o que sobrava. Comia a farinha de mandioca que faziam ou colhia as sementes de jatobá para preparar o beiju. Na cidade não havia terra para revirar, para sentir a ventura, a umidade avisando que a chuva estava por chegar.
Você, nesses dias em especial, recordava a sua breve vida com Tobias. O desconforto que sentiu naquela cama. O alívio ao saber que ele havia morrido. O túmulo que jazia em ruína, cercado de mato, onde você não teve desejo de pôr suas mãos uma única vez. Não por rancor, nem por descaso, mas por entender que aquele foi um erro que deveria ser suprimido de suas lembranças em definitivo, mesmo que a memória frustrasse seu querer.
A melhor coisa que Tobias lhe fez foi devolver, de maneira involuntária, o punhal de sua avó. Talvez aquele tenha sido o único propósito de seu erro. Você descobriu, mesmo passados muitos anos, que guardava igual fascinação pelo brilho da lâmina. Quando pôde tê-la nas mãos outra vez, se viu em seu reflexo, com o mesmo brilho nos olhos, a menina e a velha, a inocente e a culpada. O fio de corte dividiu sua vida a partir daquele ponto, nos tempos que se foram. E cada vez que o lustrava e observava a sua imagem refletida naquele espelho sabia que sua vida poderia ser dividida de novo. Como o umbuzeiro frondoso ou seco, no escasso período das águas ou em todo o resto do tempo. Como no dia em que, carregada de ódio, riscou a lâmina na pele do pescoço de Aparecido. A vida quase se dividiu. Quis proteger Maria Cabocla, a mulher que a tocou com as pontas dos dedos, que trançou seu cabelo e a fez deitar na cama para descansar como se fosse uma guerreira amada.
Sofrer, esse sentimento difícil de exprimir e rejeitado por todos, mas que a unia de forma irremediável a todo seu povo. O sofrimento era o sangue oculto a correr nas veias de Água Negra. E como você sofreu trepando em palmeira de buriti e dendê, estropiando os pés nos espinhos. Sofreu com seus braços, robustos como os de um soldado, revirando a terra para semear e colher, mesmo sabendo que nem sempre colheria e que, quando colhesse, poderia ser levado pelos donos da fazenda. Arrastando seu andar manco, vigiando a casa e a plantação dos animais e dos infortúnios. Cuidando do pai que se preparava para partir. A mágoa que não permitia perdoar a irmã por inteiro, como nas brincadeiras de infância. Os pesadelos recorrentes quando se sentia acuada e perseguida, onde o punhal de Donana era a lâmina que mais uma vez dividia o corpo, o mundo, a terra e nela fazia correr um rio de sangue.
Você recorda seu pai arrastando o arado antigo de ferro retorcido, pesado, rasgando a terra em linhas tortas. Aqueles sulcos onde lançava a semente do milho. Aquele arado sobre o qual ninguém falava, um objeto da paisagem, que chegou muito antes dos pioneiros, que ninguém sabia de onde tinha vindo, manejado pelas mãos dos trabalhadores mais antigos, dos que vieram de muito longe e sobre os quais não havia nenhuma história. Dos que abriram a mata muito antes e em suas mãos conduziram o arado para preparar o campo para a semeadura. Com suas mãos que talvez tivessem os mesmos nós, as mesmas feridas que o povo da fazenda escondia. Mãos que abriam a cova com a enxada, arrancando grandes pedaços de solo e ervas, para nela florescer a mandioca ou para enterrar um corpo. Mãos separando as folhas das rezas e dos remédios. A boca, a vela, os sons dos encantados agitando o ar, os peixes nadando contra a correnteza.
É quando você pressente e aceita que suas mãos, as mesmas que lavram a terra de onde se levanta a vida, poderiam ser o amparo ou o fracasso de toda uma luta. Se escavava por dentro com a ausência do primo na vida dos sobrinhos, dos pais, da irmã, na sua própria vida. Ele, como seu pai, que havia lhe dado tanto conhecimento sobre a história esquecida, sobre os direitos negados. Corroía-se pelo que lhe fizeram, pelo que poderiam fazer, pelo que queriam retirar de todos.
Correu os caminhos de Água Negra. Na mata, nos rios, nos marimbus, em cada palmo de terra, tentou reconhecer e recordar cada árvore. Sua memória se tornou um mapa das trilhas e caminhos que conformavam seu lugar. Precisava conhecer cada declive, cada cova aberta e fechada, cada movimento da terra, de partida e chegada, cada animal de casa ou da mata. Saía de manhã, se perdia na exploração de todos os cantos que alcançava. Voltava suja, exausta, com a roupa cada vez mais puída. Ninguém perguntava por onde havia andado, não adiantava, sabiam que não iria responder.
E os sons, os sons dos animais, das folhas ao vento, do rio correndo, os sons ecoavam perenes em seu interior. Fossem nas tarefas do dia ou no sono leve da noite.
Então sentiu que desde sempre o som do mundo havia sido a sua voz.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

13/01/2022

Rio de Sangue | 10

Mãe Salu dizia desde sempre que seu cabelo já tinha muitos fios brancos aos dezoito anos. Deixou de alisá-lo a ferro e o guardou sob os lenços que a maioria das mulheres camponesas usava. Você olha para si mesma no espelho que se apoia no chão contra a parede – porque o barro que a reveste não segura muita coisa – enquanto coloca os grampos que tira da boca e rumina sobre o quanto seu cabelo também lhe parece branco. É de família. Talvez tenha ficado mais branco nas últimas semanas. Foi perdendo a cor a cada pensamento que tinha com a intenção de compreender o que havia acontecido. A cada noite de vigília e medo que foi obrigada a atravessar com a ausência de seu marido. O companheiro que havia lhe dado muito do que continha em si.
Você atravessa a casa como uma assombração e por vezes não escuta quando lhe falam. Passa a madrugada acordada revirando na cama ao lado da filha Ana, trazida para preencher o vazio que o quarto tinha se tornado. Observa o sono da criança, os movimentos das pálpebras, talvez esteja sonhando, até que a mente a leva de novo para a ausência. Quando desiste de tentar dormir, abre a porta para sentir o sereno e a deixa aberta, ainda que a sombra do que lhe ocorreu persista a cada movimento da noite. Recorda a violência ao olhar para a motocicleta que está no terreiro de casa, ou a cada carro que atravessa a estrada da fazenda, porque pode carregar o perigo. O pensamento, embotado pelo desaparecimento abrupto, resiste em apagar aquelas horas de sua vida. Uma nuvem recobre o sol e a sombra que se projeta na casa é como um vulto atravessando os cômodos. O som de buzina de qualquer motocicleta, e que pode atravessar a estrada, comprime como uma mão a sua garganta. Aquele aperto que você seria incapaz de explicar para seus alunos. Ouvia aqueles ruídos como um aviso de que o marido iria retornar. Todos os lugares por onde ele se movimentava estão carregados de uma eletricidade que só você pode sentir. O cheiro das roupas intocadas no armário, o travesseiro que agora é o mesmo em que você deita, impregnado do perfume de seu corpo. Quando consegue dormir, acorda com a sensação de que despertou de um longo sonho e hesita em estender a mão para o lado da cama onde ele deveria estar. Suas lembranças são sabotadas pelo cheiro, pelo silvo sutil da respiração que julga ouvir, pelo calor que parece emanar ao seu lado. Quando finalmente resolve estender sua mão, sem coragem de abrir os olhos, encontra a filha dormindo. Mas sempre que o sono termina de forma abrupta, os olhos se arregalam e se sente só ao constatar que continua privada de sua presença. É quando as lágrimas vêm, incontroláveis.
Sua filha mais nova pergunta quando o pai irá voltar e você responde que não voltará. Sua filha chora e mesmo assim você resiste. Se fosse você que estivesse ausente, seu marido não deixaria as crianças fraquejarem. Ensinaria a prosseguir encontrando forças no trabalho, na luta que pode ser a vida todos os dias. Então você afaga a cabeça da menina, deita-a no colo, promete algo que esteja ao seu alcance, um sorvete ou um saco de pipoca quando for à cidade. Mas não pode dizer que ele irá voltar, seria cruel com qualquer um, e mesmo uma menina de pouca idade não poderia se agarrar a uma promessa que não será cumprida.
Ao amanhecer você se desloca para o quintal. Acende o fogão a lenha e pensa na caneca esmaltada que permanecerá no mesmo lugar do armário porque você não consegue retirá-la, nem mesmo os filhos ousam tocá-la. Também não sabe o que fazer com as repetições de pensamentos: e se não tivesse esquecido o documento? E se tivessem seguido para a cidade, o carro com os criminosos os teria alcançado na estrada? Se não tivesse retornado há dez anos para Água Negra? Se não tivessem se levantado contra o que consideravam injustiça com todos? Os muitos “ses” surgem a todo o momento e a enredam em lianas invisíveis das quais não se livra facilmente.
Você retornou para a escola, mas algo se rompeu definitivamente em seu interior. As crianças parecem descontroladas diante da sua apatia. Nem de longe lembra a professora que ensinava sobre a história do povo negro, que ensinava matemática, ciências e fazia as crianças se orgulharem de serem quilombolas. Que contava e recontava a história de Água Negra e de antes, muito antes, dos garimpos, das lavouras de cana, dos castigos, dos sequestros de suas aldeias natais, da travessia pelo oceano de um continente para outro. As crianças ficavam atentas, não sabiam que havia uma história tão antiga atrás daquelas vidas esquecidas. Uma história triste, mas bonita. E passavam a entender porque ainda sofriam com preconceito no posto de saúde, no mercado ou nos cartórios da cidade. Onde lhes apontavam dizendo “olha o povo do mato” ou “negrinhos da roça”. Compreendiam porque tudo aquilo não havia terminado. Você incutiu naquelas vidas um respeito grande por suas próprias histórias. Mas agora nem você conseguia mais se iluminar com a esperança de que a mudança fosse possível, muito menos acreditava que nada do que aprenderam pudesse fazer diferença para serenar a revolta que lhe incendiava.
Nas últimas semanas passou a sair de madrugada. Carregava consigo uma enxada. Não contou a ninguém para onde ia, nem o que faria. Talvez perambulasse por trilhas e rio procurando aplacar a dor que não diminuía e parecia corroer-lhe por inteiro. Retornava antes de o sol nascer, não conseguia nem constatar se os filhos estavam em casa e dormiam. Sentava numa cadeira, o cabelo recoberto de grama e terra, as mãos nodosas e grossas como as do pai, como as do povo que trabalhava na roça. Adormecia, e naquele breve instante parecia estar em paz com seu entorno. Acordava com alguma das meninas ou com Inácio perguntando por que estava coberta de terra. Queriam saber por que estava suja, tinha barro no rosto, no pescoço, nas mãos e roupa. “Fui mexer no quintal”, era a resposta. Mas no quintal, nenhuma mudança, nenhum plantio novo, algumas plantas inclusive morriam porque não estavam sendo aguadas, nem remexidas, nem fortificadas.
As suas mãos doíam. Latejavam pelo resto do dia. Colocava-as numa panela com água e gelo, as deixava submersas. A pele se esgarçava em suas palmas vermelhas, calosas. Suas mãos sangravam. Você as escondia, nada dizia. Como as chagas do Senhor dos Passos crucificado. Como as mãos do seu povo. Como as mãos dos antepassados. Mãos que os ajudaram a sobreviver, que forjaram o alimento e encantos ao manejar folhas e movimentá-las pelo corpo necessitado. Mãos que forjaram a defesa e a justiça quando possível. A mão que o curador deixou na cabeça de seus filhos.
Com a força de suas mãos dilaceradas você apenas abria um caminho.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

06/01/2022

Rio de sangue | 9

Donana roubou a faca do coldre esquecido no alpendre da casa sede da Fazenda Caxangá no começo da tarde. Havia viajantes em visita naquele dia. Aproveitou a breve confusão e o desleixo depois da cavalgada para surrupiar o objeto. Aproveitou que os vaqueiros, que acompanhavam os senhores, haviam baixado a guarda. Aproveitou seu caminho desviado pela estrada que dava na casa de seus senhores. Ao parar para se abrigar do sol que comia seu juízo, deu com o coldre pendurado no gradil. Retirou seu chapéu grande e o encolheu entre as mãos. Pensou que era uma faca bonita, feita uma relíquia da casa grande onde nunca pôde pôr os pés. Tinha um cabo com um material feito mármore, não sabia do que se tratava. Mas a lâmina era brilhosa como as coisas finas que os senhores carregavam. Parecia ser de prata. Devia valer um bom dinheiro. Foi quando se lembrou dos filhos que precisavam de calçados e roupas novas, porque não havia mais como cerzir os trapos esgarçados. “Eles tiram da gente e nós tiramos deles”, foi o que passou por seu pensamento. Pediria perdão a Deus e aos seus guias. Colocou o objeto no seu cesto de palha, em meio aos aipins colhidos naquela manhã, entre cansaço e desalento. No exato momento disse apenas “Deus me perdoe” e deixou a sombra que lhe serenou o corpo, levando consigo talvez um tesouro, sem ser notada.
Mas no caminho a certeza de que Deus a perdoaria foi crescendo. Afinal, aquela gente lhe devia muita coisa. O trabalho que não era remunerado, o sol que ardia impiedoso sobre sua cabeça na lavoura queimava inclemente, e seu chapéu, não poderia ser ingrata a esse ponto, de fato, era um refúgio, mas ainda assim incapaz de defendê-la da exposição pela longa jornada. Naquele inferno chamado Caxangá, o inferno de escravidão a que se acostumou como se fosse sua terra, não teve autorização para parir seu filho em casa. Zeca nasceu no meio da roça, dentro de um charco, com a ajuda das trabalhadoras da fazenda, debaixo deste mesmo sol que agora fervilhava seu juízo. Era sua por merecimento. Certamente, Deus a perdoaria.
Mas os propósitos iniciais de seu pequeno crime não se concretizaram. Donana se afeiçoou de tal forma ao objeto que o enterrou debaixo da própria cama. Temeu quando correu conversa entre os trabalhadores, procuravam pela faca de um visitante, convidado do senhor da Caxangá. Mas guardou aquele temor para si, sem comentar com ninguém. Qualquer passo em falso poderia significar a vergonha da exposição pública. Esses homens, que ameaçavam mandar seus capatazes entrar de casa em casa à procura da faca, poderiam castigar de forma exemplar quem fosse pego, despejando-o da fazenda sem as mãos. Depois, a notícia era de que o homem a tinha perdido na cavalgada que culminou naquela tarde, bem viva na lembrança de Donana. O povo foi convocado a procurar pelos milharais, pelas roças de aipim, cana e mamona. Mas nada foi encontrado e o tempo tratou de fazê-los esquecer do desaparecimento.
Primeiro Donana enterrou a faca para matutar, enquanto não terminasse a procura, onde poderia vender sua joia de caça. Não poderia ser na cidade, porque todos se conheciam. Iriam perguntar o que aquela mulher sem eira nem beira queria com uma faca rica e bem talhada. E as suspeitas voariam mais rápido que qualquer outra coisa. Foi quando cogitou a possibilidade de vender mais barato a um mascate ou cigano, desde que eles não tivessem relação com a casa grande. Desde que pudesse fazer alguma coisa pelos filhos com o que ganhasse. Mas esse dia foi sendo adiado, porque Donana não se animava a desenterrar o objeto, não sentia confiança em nenhum mascate que chegava à sua porta. Por último, pensou que poderia deixar como herança para alguns dos filhos.
Quando ninguém mais falava no desaparecimento da faca, e os trabalhadores não mais procuravam pelas moitas e roças, Donana a desenterrou, longe dos olhos de todos. Limpou a faca, poliu o metal com um tecido velho e a embrulhou ali mesmo. Era um troço bonito. A coisa mais rica em que havia posto as mãos, era assim que sentia ao admirar o objeto do engano. Guardava de novo para si, limpava, polia, devolvia ao buraco debaixo da cama. Para não ter que enterrar e desenterrar a cada vez que quisesse pôr as mãos e os olhos, colocou um tapete de couro de caititu recobrindo o buraco onde a escondia.
A faca não se prestou a nenhuma das destinações a que sua guardadora havia se proposto de início. Nem vendida a mascate, nem deixada de herança para a família. Bem, foi assim que ela pensou, depois de ver uma das netas perder a língua. Deus não havia perdoado. Pior, havia ferido a carne de sua carne, a neta por quem zelava, rezava contra quebranto e mau olhado. As netas a quem planejava ensinar os segredos dos encantados, como havia ensinado ao seu filho mais velho. Não para que fossem curadoras, queria antes que fossem livres, até mesmo das obrigações que a seguiram por toda a vida. Queria ensinar os mistérios dos feitiços e dos encantados para os problemas diversos. Queria ensinar para que se desenvolvessem sozinhas no mundo, para que ajudassem aos que precisassem, e mais ainda, para que procurassem pela liberdade que lhes foi negada desde os ancestrais. De fazenda em fazenda, de Caxangá à Água Negra, havia vivido uma vida cativa. Queria vê-las livres, senhoras do próprio destino.
Quando a faca serviu ao derradeiro fim em suas mãos, ao fim que nunca havia considerado, Donana se viu enredada numa trama de vida e morte para o resto de seus dias. Tudo ocorreu quando o filho mais velho já havia deixado a Fazenda Caxangá rumo a outra terra, onde pudesse ter trabalho e morada. Ela se viu de novo sozinha, sem o esteio de Zeca e com os filhos menores, que depois ganhariam o mundo, para criar. Chegou trabalhador novo. Um homem gentil que estendeu sua força para ajudar Donana na roça. Terminava o trabalho que lhe era destinado e ajudava a mulher que tinha o corpo doído de tanta labuta. Donana, na sua solidão, permitiu que se achegasse e se abrigasse em seu casebre, que se juntasse à sua luta e aquecesse sua cama, fazendo-a se sentir viva, apesar de toda fadiga. Foi assim que o homem ficou ao seu lado, o homem que Donana esqueceu o nome, impronunciável, o homem que nem o filho nem mais ninguém que não habitasse o casebre da Caxangá saberia da existência. Ele que havia chegado de onde haviam se esquecido, da mesma forma que se foi de um jeito que só a mulher que envelhecia saberia.
Quando Donana encontrou a filha Carmelita, moça há poucos anos, debaixo do corpo do seu homem, de calças arriadas, na cama onde se deitava do cansaço sem fim, se envergou no chão como um jumento que não quer seguir o caminho que lhe resta. Retesou todo o corpo como se nunca mais fosse deixar aquela posição. Gritou com grande cólera, pôs os meninos em prontidão, sua fúria era seu próprio desespero. Carmelita andava arredia, chorosa pelos cantos da casa, ela percebia, mas não passava por sua cabeça nada do que havia visto. Quase não olhava para a mãe. Donana pensou que era ciúme de filha que não aceitava o novo companheiro. Mas se passou um ano, dois. Adentrava o terceiro. Os machucados que a filha escondia, como se estivesse boba de atenção esbarrando em tudo, caindo em todo lugar. Tudo fazia sentido. Seu homem batia, maltratava, violava e ameaçava sua filha debaixo do seu teto com sua concordância? Carmelita implorou à mãe por perdão. A mãe que não conseguia mais olhar para a própria filha. A filha que agora queria ir embora de casa. Encontraria seu rumo como havia feito o irmão. E o homem não se redimiu: ficou mais forte, mandava em tudo, mandava na casa, tinha a mulher sob seu cabresto.
Foi numa noite em que a lua escureceu, por trás das nuvens que no dia seguinte lavariam a terra com a chuva, que tomou a decisão. As águas que ainda não tinham precipitado, mas que previa no cenário da noite, lavariam a terra de tal forma que não restaria vestígio de nada. Ele saiu para pescar levando uma garrafa de bebida. Era um hábito que o acompanhava desde a chegada. Donana, que seguiu em sua companhia algumas vezes, não pescou mais ao seu lado. Se sentou em casa e seu juízo foi sendo carcomido pelo rancor, o que havia visto, o que a machucava, o que destruía Carmelita. Quando chegou ao local onde ele estava viu que dormia, prosternado na beira do rio. Parecia morto antes mesmo de ser sangrado. Não havia luz, não havia candeeiro nas mãos de Donana. Não queria deixar rastros ou lembranças de seus passos e atos. Ninguém saberia de nada, diria apenas que ele havia partido sem deixar indicação do destino. Antes de pensar na justificativa que daria, sangrou o homem como se sangrasse um porco. Arrastou seu corpo com os bolsos cheios de pedras, que ela mesma colocou, para dentro do rio. Não temeu que viessem lhe perguntar pelo desaparecimento do companheiro nos dias que se seguiriam. Voltou para casa encharcada do esforço. As poucas horas desde que havia deixado sua morada para dar fim ao seu último erro nas terras de Caxangá foram suficientes para que sua filha fosse embora sem indicar o paradeiro. O resto da história foi vagar seus últimos anos vendo o rosto de Carmelita em todas as crianças que havia amado.
Na madrugada que se seguiu, teve apenas uma certeza: Deus jamais a perdoaria. Pior: devolveria o malfeito em dobro.
E o cheiro da chuva, que cairia nas primeiras horas da manhã, já podia ser sentido.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

28/12/2021

Rio de Sangue | 8

A faca ressurgiu, rutilante, entre as coisas que Belonísia levava em sua sacola de palha. Por um instante, Bibiana não acreditou se tratar da mesma peça que havia desaparecido da casa antiga, provavelmente pelas mãos de Donana. Caminhou até a frente da casa da mãe, as filhas chamavam do lado de fora para que visse o batizado de bonecas que Ana estava preparando. Se aproximou, muda, e retornou para a cadeira velha onde pendia a lâmina. Estendeu os dedos e sentiu que estava quente ao seu toque, quase candente, quando confirmou do que se tratava. Sentiu vergonha por estar espiando a sacola da irmã, mas não conseguiu disfarçar a surpresa ao ver o que julgava soterrado em sua memória. A cicatriz de sua língua se ressentiu da recordação, formigou, e lançou Bibiana de novo ao dia do acidente. A mão da avó, por um instante, desabou sobre sua cabeça, que se tornou pesada com as interrogações que surgiram com a imagem. Puxou o objeto pela ponta até que se revelasse por inteiro: a empunhadura de marfim bem acabada; pomos e guarda de um metal mais embaçado; lâmina brilhante, sem envelhecer. E um fio de corte que parecia vibrar, prestes a rasgar o pequeno campo de atmosfera em seu entorno, como se dividisse com um talhar um pequeno lenço de seda.
Belonísia entrou no cômodo e parou, como se retornasse trinta anos no tempo e visse, de novo, Bibiana retirar o objeto do tecido encardido de sangue. Há muito não havia mais o tecido. Mas o silêncio com que viu a irmã devolver seu olhar a deixou suspensa no tempo, como se nada mais pudesse avançar antes que se esclarecesse o que aquela presença significava.
Tão habituada que estava a se locomover com a faca, agora se contrapunha de forma inevitável à perplexidade que os olhos de Bibiana lhe devolviam. O rútilo se tornou mais intenso no objeto, e, ao redor das irmãs surgiu uma sombra fria, projetada por uma nuvem que encobriu o sol. Belonísia deu duas pancadas leves no queixo e desceu com o polegar pela face para dizer que sim, era da avó. Cruzou os dedos das duas mãos, deslizando uns sobre os outros para comunicar, sim, é faca. Repetiu o gesto com as pancadas no queixo e o polegar descendo a face. Não precisava confirmar, Bibiana já havia entendido. Perguntou se Salu sabia. Negação foi a resposta. Para quê? Se preocuparia de forma desnecessária. Ela apenas continuaria a ser tratada como a criança irrequieta que havia se mutilado. E por que a carregava consigo? Para trabalhar, claro, para se proteger – veja o que aconteceu a Severo, seus indicadores deslizaram no ar em direção à irmã – e porque havia perdido a língua. O objeto havia chegado às suas mãos de novo, havia um sinal naquele assombro. Guardava por sentimentos que, por mais que vivesse, não saberia explicar. E onde estava esse tempo todo, perguntou. Você não acreditaria, disse negando com a cabeça e colocando uma mão sobre a outra com as palmas voltadas para cima.
Ao se mudar para a casa de Tobias, naquela manhã em que saiu com a trouxa de coisas e seguiu para a margem do Santo Antônio no mesmo cavalo, naquela manhã em que sentiu seu ventre vibrar na caminhada do animal até a casa onde moraria, não imaginou que seria surpreendida com uma montanha de entulho que o marido guardava em casa. Àquela visão inicial se seguiu o desânimo, ao pensar o que teria que fazer para tornar a casa habitável, que teria muito trabalho, já que havia trocado a casa dos pais por uma morada árida de tudo. Não conseguiu arrumar tudo no mesmo dia, após a primeira organização se seguiram muitos dias de trabalho, separando lixo, garrafas vazias e tudo que se amontoava pelo casebre.
Um pote de cerâmica – como as panelas antigas – com pequenos torrões de terra ao redor estava esquecido, como quase tudo, num canto da cozinha. Belonísia resistiu a abri-lo com receio de encontrar um rato, uma aranha ou ossada de gente, como já havia ouvido em relatos do povo da região. Faltava um pedaço da boca do pote. Ela adiou essa abertura até esbarrar nele de forma acidental e terminar por quebrar mais um pedaço grande da boca. Ao levantar o objeto sentiu que algo balançava com o movimento. Deixou o pote no chão e se afastou. Mas o raio do sol da manhã alcançou o pote e refletiu no que quer que fosse que estivesse guardado. O brilho chegou aos seus olhos. Um diamante. Era a primeira coisa que alguém pensaria, considerando as histórias da Chapada. Todo mundo espera, um dia, encontrar ou ser encontrado pelo brilho da pedra. Retirou o tampo. A ponta de uma faca reluziu de forma mais intensa exposta à luz. Belonísia a retirou do pote para fazer como havia feito com tudo até aquele momento: jogar o que não prestava fora e dar novo destino ao que tinha utilidade.
O cabo de marfim tocou sua mão. Estava morno como o pote exposto ao sol em que se abrigava. Mas a boca formigou como no dia em que encontrou a faca da avó. O brilho intenso, as intrigas, o desejo de descobrir seu gosto e a disputa nas brincadeiras com a irmã a levaram ao desfecho que a silenciou para o mundo. A lembrança de Donana depois do evento surgiu viva em seu pensamento. A velha vagando pelo quintal, chamando a filha de quem não tinha notícias, pedindo que tomassem cuidado com a onça, dona Tonha dizendo quando chegaram do hospital que ela havia saído para a beira do rio levando um embrulho. O embrulho, a faca, o pote de cerâmica que desconhecia. Era a lâmina aquecida por estar no sol, fria quando estava na mala debaixo da cama. Era o fio de corte preservado que rasgava o véu do passado e chegava ao seu presente para fazê-la recordar aquele dia.
Tobias entrou e encontrou seu semblante de espanto e distante no tempo. Belonísia colocou um pano de prato sobre a faca em cima da mesa. Ele havia esquecido a vara de pesca, traria peixe para os dois quando terminasse as tarefas.
Não devolverei a Tobias”, foi o que passou por seus pensamentos, “pertence à minha família”. Encontrou um lugar seguro para colocar a faca, entre o armário empenado e a parede, onde apenas sua mão e o objeto cabiam. Depois que ficou viúva, retirou-a do lugar em que a havia escondido. Passou a andar com ela para a roça, para o rio, levou para defender Maria Cabocla, dobrou o homem da vizinha que se acovardou diante da lâmina e dos seus olhos de fúria. Mas nada disso Bibiana saberia. Ela colocou um ponto final na história antes que a memória lhe retornasse desordenada. Ouviu da irmã apenas que, olhando para a faca tantos anos depois, ela parecia ter sido retirada naquele mesmo instante da mala velha de Donana. A mala que havia levado consigo e com a qual havia regressado, também. E alertou: “Cuidado com Ana, não deixe à toa”, devolveu a faca a Belonísia, “ela é curiosa como nós éramos”.
Saiu em direção ao terreiro, mas, antes de chegar à porta, retornou.
Belô”, disse para a irmã, “o que será que fez minha avó guardar essa faca como um tesouro?”. Belonísia fez a linha de sua boca ganhar a forma de um arco. “Sabe, não sei se você lembra, mas uma coisa me intrigou, não naquele tempo, éramos muito meninas, mas anos depois, quando me lembrava disso tudo”, disse, enquanto a irmã terminava de guardar a faca na sacola. O dedo indicador arqueado voltou ao corpo de Belonísia. “Por que a faca estava envolta naquele tecido sujo de sangue? Aquela mancha escura era sangue”, suspirou. “E por que minha avó guardava essa faca com tanto medo? Ela não temia outras coisas que podiam nos machucar da mesma forma, como um caco de espelho ou qualquer outra coisa.”
Medo?”, o polegar e o dedo do meio tocaram o lugar do coração. Belonísia queria entender aonde a irmã queria chegar.
Minha avó tinha mais medo do que essa faca significava. Ela temia mais o segredo que guardava do que o que pudesse nos ferir.”

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

22/12/2021

Rio de sangue | 7

Levaram um pastor de igreja, dias depois, para celebrar um culto. A intenção era reunir alguns poucos moradores que frequentavam eventualmente igrejas no dia de feira na cidade, e já tinham seu rol de orações e pecados. Era costume de quase todos participar das cerimônias ou viajar para as romarias, mas era a primeira vez que se celebrava algo que não fosse o jarê dentro da fazenda. Depois da morte de Zeca Chapéu Grande, quem pôde foi para outra casa de jarê, procurar um novo curador para retirar a mão do velho e colocar a nova sobre sua cabeça. Nos últimos anos, depois do fim das celebrações de jarê na fazenda, duas famílias haviam se convertido ao evangelismo, mas continuavam a conviver com as demais sem conflitos aparentes, ainda que renegassem, em privado, as práticas antigas.
Antes do culto, Estela seguiu com o pastor de casa em casa, para convidá-los à celebração. Se deslocaram no veículo da família. Ela usava um vestido branco com flores e sua pele parecia avermelhada, não pelo excesso de sol, mas como se tivesse comido algo que a deixou com placas de irritação no pescoço e braços. O pastor era um homem conhecido, chegavam notícias de que seria candidato a vereador, e realizava visitas às fazendas e povoados da região com a intenção de pedir votos para a eleição de outubro.
Eles agora querem posar de bons cristãos. Aliás, sempre fingiram que eram bons”, disse Bibiana, ao saber do culto por dona Tonha.
Engraçado essa notícia de pastor hoje por aqui”, interveio Salustiana. “Acordei pensando em Bom Jesus. Nas histórias que contavam e que já contei para vocês muitas vezes”, disse apontando para Bibiana, enquanto Belonísia aguava o quintal, “mas acho que não contei para você, Inácio, nem sei se sua mãe contou”.
O quê, minha mãe?”
A história lá do Bom Jesus, em Lagoa Funda”, disse abrindo uma vagem de feijão, enquanto o neto suspendia o reparo de uma malha de peixe pendurada entre a porta e uma estaca de cerca, no terreiro de casa. “Minha avó contava que os negros de Lagoa Funda chegaram num tempo que ninguém sabia dizer. Cada um tinha sua tapera, tinham suas roças, plantavam na vazante do rio São Francisco. Os filhos iam nascendo e iam fazendo suas casinhas e botando suas roças onde os pais já tinham. Durante muito tempo, não houve nada nem ninguém por aquelas bandas. Eram só o povo e Deus. Depois chegou a igreja e disse que as terras da cidade lhe pertenciam. Não demorou muito e chegou até Lagoa Funda e tudo o que estava em volta da cidade. Disse que nossa terra pertencia à igreja também.”
O povo teve que sair de lá?”, Inácio parou por um tempo o trançado da malha para ouvir o resto da história.
Não. A igreja marcou com ferro as árvores com um B e um J de Bom Jesus. Marcou tudo o que podia. Disse que as terras pertenciam à igreja e nós éramos escravos do Bom Jesus. Bom, o povo estranhou, porque não se falava em escravidão em Lagoa Funda. Minha avó disse que sabiam de escravos em outros lugares, mas não ali. Nunca houve escravo naquela terra. Todos se consideravam livres, e hoje eu penso nas coisas que o finado Severo, seu pai, dizia: se os negros vieram para o Brasil para ser escravos, Lagoa Funda deve ter começado com o povo que fugiu de alguma fazenda ou ganhou liberdade de algum fazendeiro. Mas ali, ninguém quis falar sobre isso. Todo mundo nascia livre, sem dono. Apagaram essa lembrança do cativeiro.”
Talvez fosse difícil falar, minha mãe. Sofreram coisas ruins que não quiseram falar”, disse Bibiana, enquanto arrumava a sacola que levaria para a cidade.
Pode ser. Depois que marcaram tudo com o nome do Bom Jesus – eu vi muito pé de tudo, de jatobá a oitizeiro, com a marca de ferro do Bom Jesus – e disseram que eram escravos do Bom Jesus, o povo ainda viveu como antes por muitos anos. Mas depois os fazendeiros chegaram mostrando documento, e foram cercando as terras, o povo resistindo, gente morreu, e terminaram por ficar espremidos num cantinho. Minha mãe e meu pai foram para Fazenda Caxangá, onde conheci seu avô, nessa época em que cercaram as terras”, limpou o suor que descia do rosto com um pano, “se vivêssemos naquele mundão de terra todo, que os mais velhos diziam que tínhamos antes de os fazendeiros cercarem, talvez nem eu nem vocês estivéssemos em Água Negra. Nem seus avós de pai também, Inácio”.
Salustiana e Belonísia permaneceram em casa depois que Bibiana e as filhas tinham saído para a cidade. Inácio havia descido para a vazante, não acompanhou a mãe. Quando Estela e o convidado chegaram à porta da casa de Salustiana, primeiro convidaram para uma oração “para os que se foram” no culto que seria realizado, o que de pronto ela recusou. “Obrigada, mas estou ocupada.” O pastor, um homem que falava alto como se estivesse sempre pregando para uma multidão, começou a falar sobre as imagens de santos depois de ver o pequeno altar da casa. Belonísia bateu os pés, impaciente, com o rosto transtornado pela presença dos dois. Se colocou com metade do corpo atrás da porta, alerta para fechá-la à primeira ofensa. O homem falava enquanto Estela sorria sem graça, prevendo o fracasso de sua intervenção. Até que ela tomou a palavra. Falou que ali se praticou jarê por muito tempo. Que dona Salu tocava tambor, mas que agora todos precisavam ouvir a palavra de Deus.
Belonísia fez um gesto para empurrar a porta, mas a mãe segurou antes que ela fosse fechada. Embora estivessem falando de religião, Salu estava amargurada pela disputa pela terra que havia tirado a vida de Severo. Pelas ameaças e proibições que tinham a intenção de fazê-los deixar a fazenda. Aquela visita era parte da tormenta que sofriam há tempos para constrangê-los, até não sobrar mais nada. Se pôs com autoridade diante dos dois para dizer o que a estava sufocando há muito tempo.
Olha, dona”, interrompeu Salu antes que a mulher continuasse sua pregação, «eu não tenho muita letra nem estudo, mas quero que a senhora entenda uma coisa. Eu não sou a única a morar nesta terra. Muitos destes moradores que vocês querem mandar embora chegaram muito antes de vocês. Vocês não eram nem nascidos. Muitos nasceram aqui. Tenho filhos e netos, todos nasceram em Água Negra. Também não posso dizer o que cada um pensa dela, tim-tim por tim-tim, porque não estou nos pensamentos de ninguém. Mas falo por mim: eu nasci em Bom Jesus, mas também nasci de alguma forma nesta terra. Cheguei aqui moça e jovem. Aqui vivi, criei meus filhos, labutei com meu marido, vi meus vizinhos e compadres serem enterrados, lá no cemitério que vocês fecharam. Fui parida, mas também pari esta terra. Sabe o que é parir? A senhora teve filhos. Mas sabe o que é parir? Alimentar e tirar uma vida de dentro de você? Uma vida que irá continuar mesmo quando você já não estiver mais nessa terra de Deus? Não sei se a senhora sabe, mas eu peguei em minhas mãos a maioria desses meninos, homens e mulheres que a senhora vê por aí. Sou mãe de pegação deles. Assim como apanhei cada um com minhas mãos, eu pari esta terra. Deixa ver se a senhora entendeu: esta terra mora em mim», bateu com força em seu peito, “brotou em mim e enraizou”. “Aqui”, bateu novamente no peito, “é a morada da terra. Mora aqui em meu peito porque dela se fez minha vida, com meu povo todinho. No meu peito mora Água Negra, não no documento da fazenda da senhora e seu marido. Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas vocês nunca irão arrancar a terra de mim”.
Estela ficou mais pálida do que se apresentava geralmente e tentou interromper Salu, sem sucesso.
E tem mais”, completou, “posso não ser curadora, mas ainda sei mexer com feitiço. Posso muito bem dar de comer e beber aos meus guias e pedir pra darem um jeito em muita coisa errada por aqui”, disse, dando as costas e fechando a porta.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

16/12/2021

Rio de Sangue | 6

Encontrei Miúda ainda muito nova. Fui me acostumando a me movimentar dentro das camadas de saias que vestia quando foi amadurecendo mulher. Miúda e o povo daqui não diziam que eram pretos. Pretos não eram bem vistos, tinham que deixar a terra. Então dizia que era índia. Os outros diziam que eram índios. Índio não deixava a terra. Índio era tolerado, ninguém gostava, mas as leis protegiam, era o que pensavam. Os outros torciam o bico, porque viam que eram pretos. Mas o povo começava a contar que foi pego a dente de cachorro. Geralmente uma mulher era pega a dente de cachorro, então ninguém poderia questionar que não era uma índia legítima ou misturada com um preto. Miúda, atenta, começou a contar que havia sido pega a dente de cachorro como sua mãe. Se contava, pronto, todos acreditavam. Talvez por isso tenha sobrevivido à caminhada.
Miúda era peregrina. Antes de repousar em Água Negra, andou de terra em terra. Andou tanto que quando contava riam, achando que ou era mentira ou a velha caducava. Ela levantava a barra da saia para interromper uma conversa, sacudindo os muitos panos e levantando poeira da terra. Seguia para a beira do rio. Miúda era uma mulher-peixe, pescava, nadava, dormia de madrugada na beira d’água. Imitava o som dos peixes, mas também sabia imitar o canto de pássaros. Seus olhos acordavam alguns dias feitos sangue-de-boi e pareciam querer saltar e voar por entre as coisas. O sangue-de-boi brincava com seu reflexo no espelho d’água dos rios e das lagoas. Miúda não tinha tempo, nem gosto, nem vontade de se mirar no rio, que era uma veia aberta do seu corpo no meio da mata. Chorava dia e noite, porque haviam levado seus filhos para longe. Seus compadres da cidade viram a fome e a necessidade que se abatia durante a seca na casa de Miúda. Disseram que levando os meninos iriam aliviar o sofrimento da mulher sozinha. Disseram que os meninos iriam estudar na cidade, iriam aprender uma profissão, poderiam ajudar a mãe depois. A mulher-peixe resistiu. Varou dia e noite na beira do rio para pescar. Acendia fogueira para se aquecer e iluminar a escuridão, enquanto esperava. Mas a mineração trouxe muita areia para o leito e afastou os peixes maiores. Pescava piaba, que se juntava na beira d’água para comer a pele grossa, quase uma casca de árvore, dos dedos dos seus pés. Mas eram peixes tão pequenos que não davam nem gosto ao angu de farinha. Botou roça, mulher sozinha, e colheu muita coisa. Mas na cheia dos rios ou na seca não havia remédio. Com a lavoura perdida ou levada pelos donos da terra, restava enganar a fome. Veio um e levou um menino. Outro levou outro menino. Um terceiro levou dois de uma vez. Miúda ficou sozinha. A noite, na solidão, foi se tornando mais longa, e antes de o sol surgir, saía pela estrada, acompanhada dos sons dos insetos, para chegar à cidade e pedir para que os filhos voltassem. Seus compadres diziam que era melhor para os meninos estudarem na escola da cidade, que era melhor viverem por ali, tinha comida, não faltava. E Miúda era a mulher-peixe que voltava desolada para casa. Se aninhava na beira do rio, sem temer cobra ou caititu. Pescava as piabas, e quando chovia nas cabeceiras levava peixe grande para a mesa. As mãos da mulher-peixe eram encantadas, enfeitiçavam os peixes. Desciam lentas na água, sem provocar agitação. Quem via Miúda pescar percebia sua esperteza. Os peixes se rendiam em suas mãos, sem resistir.
Santa Rita Pescadeira vagava desacompanhada vendo a história do povo que também vagava de um lugar para outro procurando morada. Desde muito. Viu a guerra do garimpo e depois a guerra pela terra. Viu muita gente morrendo de maldade. Santa Rita Pescadeira montou o corpo de Miúda para dar um sentido às suas forças, que se esvaíam sem os filhos. As saias de Miúda giravam na casa do curador. Os braços de Miúda se agitavam como a correnteza do rio da alma. Ela lançava uma rede para apanhar as desgraças das vidas dos presentes e levar para o fundo das águas. Nessas horas, éramos uma só. Sentia o conforto de estar abrigada num corpo de mulher forte. Também era mulher-peixe. Era uma mulher-peixe dentro de outra mulher-peixe. Seus pés se movimentavam como nadadeiras e a raposa uivava na noite em que dançava. O povo achincalhava, sem se lembrar da encantada. Sem recordar que fui o acalanto das noites de quem vagava fugindo da ruindade. Mas dançava, lançava a rede e os braços corriam soltos no ar, como o rio bravo das cheias. Minhas forças alcançavam os que necessitavam. O pai do pai do seu pai acendeu uma vela para que curasse a febre do filho do seu senhor, numa noite de lua minguante. A mãe da mãe de sua mãe cantou uma cantiga para Santa Rita Pescadeira, em dias de fuga e desespero. Me alegro e me entristeço nessa dança antiga.
Já não danço porque não recordam Santa Rita Pescadeira, porque o curador dessa terra morreu, levaram suas forças e o tempo ruiu sua casa. Pairo como o ar e desço como a chuva na terra. Desço lavando o sangue que derramaram sem piedade. O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

12/12/2021

Rio de Sangue | 5

Foi nesse dia que Bibiana resolveu reunir o povo de Água Negra para falar. Mesmo enredada em seu luto, precisava expor o que pensava. Não poderia deixar as coisas se desenrolarem do jeito que estavam ocorrendo porque, do contrário, em breve todos estariam em perigo. Mesmo que o vazio permanecesse em seu corpo, não deixaria a memória de Severo ser violada por uma mentira. Logo essa mentira seria muitas mentiras a acompanharem sua história, sem que pudesse se defender. E seus filhos? Como viveriam com a imagem vilipendiada do pai? Não permitiria que seu legado fosse despedaçado pela história que as autoridades queriam contar. Muitos deixaram seus afazeres, em respeito, para ouvi-la. Salu seguiu pelo caminho apoiada no braço de Domingas e do genro. Belonísia acompanhou os sobrinhos, mancando, depois de hesitar e escutar da irmã se deveria ou não permitir que ouvissem o que tinha a dizer. “Não há o que esconder”, disse Bibiana, num momento de rara firmeza nas últimas semanas. “Por mais que doa a verdade, é melhor saber por nós mesmos do que por outros. E, sabendo por mim, poderão defendê-lo com os mesmos argumentos.”
Belonísia se sentiu uma sombra de Bibiana durante aqueles dias. Havia se esquivado a vida toda daquele papel, desde que, de forma quase instintiva, a irmã passou a falar por ela. Desde que permitiu que Bibiana conhecesse seus sentimentos mais íntimos. Da mesma forma, se apossava do que se movimentava feroz no pensamento da irmã. Se sentia, mais que nunca, unida pelo que parecia ser um destino inevitável a se traçar nas trilhas de suas vidas. Passado tanto tempo, não era mais preciso nenhuma comunicação visível, seja pela troca de olhares ou pela leitura dos gestos. O ar, sentia, poderia vibrar de forma involuntária transmitindo o mal-estar físico e mental que a outra emanava. Poderia transmitir suas agitações e suas vontades. Esses dias foram cruciais para que percebesse o quanto estavam ajustadas em suas compreensões. Belonísia havia desenvolvido essa percepção expandida em relação às pessoas, mais ainda quando se referia à irmã, a sua voz no mundo onde se movimentava em silêncio. O mesmo silêncio da roça e da casa em que residiu por pouco tempo com Tobias foi o estado propício para desenvolver a fúria dos seus sentidos para se comunicar com seu entorno. A vida, naquele instante, apenas confirmava o que continuava oculto aos olhos alheios, encoberto, talvez num primeiro momento para a própria irmã, mas que consolidou de forma vigorosa e sem retorno o elo entre as duas.
Durante toda sua vida, Bibiana havia visto o pai organizando as empreitadas de trabalho ou conduzindo a assistência nas cerimônias de jarê. Nunca imaginou, entretanto, que aquela incumbência de falar ao povo da fazenda recairia sobre seus ombros. Até mesmo porque Severo era quem vinha falando aos moradores, organizando a resistência ao cerco que Salomão e seus empregados vinham instituindo, embora ela se inteirasse e participasse de forma ativa da movimentação. Agora se percebia exposta à violência do atentado, à mentira que tentavam difundir para desmoralizar de vez o povo da Água Negra. Sentia como se os tiros continuassem a atravessar os corpos de sua família, mesmo depois de terem levado o marido.
Antes que pudesse começar a falar diante dos vizinhos e parentes, Bibiana sentiu seu corpo tremer de desconforto, ao ver que Salomão a observava de longe, de cima de um cavalo, acompanhado do atual gerente. Logo depois ele apearia, colocando-se à sombra de um jatobá. Queria intimidá-la. Sua presença tinha a clara intenção de silenciar aquela reunião, ou, no mínimo, fazer com que se medissem bem as palavras antes de lançá-las para fora da boca. Argumentaria que era sua terra, e que não iria mais tolerar aquela desordem de gente se reunindo para propagar ideias como as que Severo espalhava, ideias que tinham a intenção de prejudicá-lo. “Nunca houve quilombola nessas terras”, podia ouvi-lo repetir, antes mesmo de se pronunciar. Mas não havia volta: Bibiana estava tomada pela revolta. Dirigiu seu olhar para os moradores que esperavam sua palavra, embora percebesse vez ou outra alguém olhar com indignação para a direção de Salomão.
Bibiana tremeu de forma visível quando pediu que silenciassem para que pudesse falar. Belonísia desviou o olhar, temendo ser tomada do mesmo medo que a irmã evolava. Mas sua segurança cresceu quando iniciou o discurso. Subitamente, o tremor deu lugar a uma voz forte, segura, que foi persuadindo os presentes.
Chegamos à fazenda há muitos anos, cada um aqui sabe como foi. Essa história já foi repetida muitas vezes. Mil vezes. Muitos de nós, a maioria, posso dizer, nasceu nesta terra. Nasceu aqui, nesta terra que não tinha nada, só o nosso trabalho. Isto tudo aqui só existe porque trabalhamos essa terra. Eu nasci aqui. Meus irmãos nasceram aqui. Crispina, Crispiniana e a família também. E os que não nasceram, já estão a maior parte de suas vidas em Água Negra. Os donos pisavam os pés nesta terra só para receberem o dinheiro das coisas que plantávamos nas roças. Todo mundo sabe das histórias de Seu Damião, Seu Saturnino e Zeca, meu pai. E sabe das histórias do jarê e de tudo o que vivemos aqui. Sabe melhor que qualquer forasteiro quantas secas já vimos se abaterem sobre a fazenda e quantas enchentes comeram nossas roças na beira do Utinga e do Santo Antônio.”
Pausou sua fala para respirar, recuperando o fôlego consumido com suas lembranças. Consumido pela responsabilidade de se apresentar para defender o que restava da dignidade de seu povo. Olhou para os filhos, atentos, ao lado de Belonísia, que conservava o corpo muito próximo das meninas, como um animal a defender suas crias. Nesse instante, foi tomada por recordações desordenadas que a levaram à imagem de Severo.
Todos sabem o que Severo fez por Água Negra. Chegou aqui muito pequeno, fomos morar fora para arranjar a vida, porque aqui as coisas foram ficando difíceis. Mas tinha gosto e respeito por vocês. Tinha consciência de nossa história. Sabia o que nosso povo tinha sofrido desde antes de Água Negra. Desde muito tempo. Desde os dez mil escravos que o Coronel Horácio de Matos usou para encontrar diamante e guerrear com seus inimigos. Quando deram a liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por nada. Se sujeitando a trabalhar por morada. A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. Mas que liberdade? Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos. Levavam o que podiam do nosso trabalho. Trabalhávamos de domingo a domingo sem receber um centavo. O tempo que sobrava era para cuidar de nossas roças, porque senão não comíamos. Era homem na roça do senhor e mulher e filhos na roça de casa, nos quintais, para não morrerem de fome. Os homens foram se esgotando, morrendo de exaustão, cheios de problemas de saúde quando ficaram velhos.”
As botas de Salomão pisavam a terra moendo torrões e o som ressoava nos breves silêncios entre uma fala e outra. Por algumas vezes, Crispina, Crispiniana, Isidoro e Saturnino olharam para trás. Alguns moradores se voltavam para observá-lo e segredavam entre si as impressões daquela presença. Maria Cabocla estava de pé olhando atenta para Bibiana, com a cabeça grisalha coberta por um lenço desbotado, ao lado de cinco dos seus dez filhos que ainda moravam na fazenda.
Mas não vamos desistir. Essa semente que Severo plantou por nossa liberdade e por nossos direitos não irá morrer. Foi um que se foi. Meu companheiro e pai de meus filhos. Mas somos muitos ainda nesta fazenda. Foi embora um fruto, mas a árvore ficou. E suas raízes são muito fundas para tentarem arrancar. A mentira de que ele cuidava de plantio de maconha não ficará de pé. Nós sabemos quem planta”, disse sem desviar o olhar do povo à sua frente. “Nós moramos na periferia da cidade, e lá os policiais usavam a mesma desculpa de drogas para entrar nas casas, matando o povo preto. Não precisa nem ser julgado nos tribunais, a polícia tem licença para matar e dizer que foi troca de tiro. Nós sabíamos que não era troca de tiros. Que era extermínio.”
Logo outras vozes, que nunca se manifestavam na presença de Salomão, foram se somando ao discurso de Bibiana. Sua imagem alquebrada pelo turbilhão de emoções a que havia sido lançada consternava, ao mesmo tempo que inflamava as falas dos parentes e vizinhos, ou dos que tinham sido seus alunos. Os olhos de Salomão demonstravam o receio. Ele observava a reunião com a cautela necessária. Era uma aglomeração considerável, havia muitas famílias, todos mobilizados pelo incidente. Qualquer gesto seu poderia ser entendido com suspeição. Poderia provocar uma turba, e naquele instante ele estava em desvantagem.
Querem desonrar Severo, porque desonrando seu nome enfraquecem nossa luta. Querem proteger os poderosos. Querem nos calar, nos retirar daqui a qualquer custo. Querem nos dobrar, mas não vergaremos. Querem que a gente levante carregando nossas coisas e deixe a fazenda. Para onde? Não interessa. Queimaram nosso galinheiro, soltaram animais para destruir nossas roças. Quiseram impedir a pesca com a desculpa de que era para proteger os rios. Como se não fosse a gente que cuidasse das coisas. Como se não fôssemos parte de tudo isso. Estivesse tudo isso nas mãos de garimpeiro ou fazendeiro, estaria destruído. Até proibir de enterrar nossos mortos na Viração tentaram. Mas não irão nos dobrar. Não deixaremos Água Negra.”
Irromperam aplausos e coro para reafirmar o que Bibiana havia dito. De forma surpreendente, Salomão permaneceu calado, embora impaciente, mexendo os pés de maneira que chamava a atenção. Quem lá estava sabia o quanto as coisas haviam piorado desde a venda da fazenda. Viviam acuados. Impulsionados pela mobilização iniciada por Severo, viam em sua morte um pretexto para se fazerem ouvir. Seria agora ou nunca mais.
Salomão sequer esperou as pessoas se dispersarem para se aproximar de Bibiana. Embora, aparentemente, quisesse desfazer o mal-estar pela morte de Severo, sua presença era incômoda. Nem suas palavras conseguiram sinalizar uma trégua. “Sinto muito pela morte de seu marido. Estava fora, mas os empregados avisaram”, iniciou a conversa de forma amena para prosseguir com o recado, “mas a senhora não pode acusar ninguém. O inquérito, pelo que fui informado, foi concluído. A polícia já deu a resposta. Tem gente séria lá”, parou em frente a Bibiana, tentando apoiar a mão em seu ombro. Ela, de imediato, deu um passo para trás. “O senhor não precisa dizer o que eu vou falar”, caminhou se afastando de Salomão, quando se voltou para trás olhando diretamente nos seus olhos, “Quem fez isso com Severo irá pagar. A justiça dos homens pode até falhar, mas da de Deus ninguém escapa”.
Belonísia encarou o fazendeiro enquanto os sobrinhos seguiam tentando alcançar a mãe. Seus olhos rutilavam um brilho vivo, encantado, e fez o homem sentir um arrepio aparente nos pelos dos braços que se eriçaram. Somente Inácio desacelerou os passos para aguardar a madrinha. Ela contornou a sombra de Salomão projetada no chão e escarrou sobre ela o veneno que guardava na boca.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

03/12/2021

Rio de Sangue | 4

Alguém lembrou que ainda poderia haver justiça. Que por mais doloroso que fosse o desaparecimento de um líder, a solução para os problemas permanecia no horizonte a ser perseguida em sua homenagem. Não iriam ceder à violência do momento e agir de forma irresponsável para pôr em risco seus sonhos e perderem de vez a batalha. Uma voz se levantou para dizer que era preciso acalmar os ânimos, embora estivessem se sentindo em pedaços pelo que tinha acontecido. Outra exortou por temperança, para que não deixassem o ódio falar mais alto.
Aquela noite foi longa. Bibiana permaneceu acordada, primeiro com a luz da sala acesa. Depois deixou que a escuridão tomasse conta da casa quando todos foram dormir. Inácio cuidou das irmãs para que se acomodassem na cama. Ana perguntava sobre o pai. Onde ele estaria agora. Perguntavam se se chovesse ele ficaria molhado e com frio debaixo da terra. Se no sol do meio-dia não ficaria muito quente. Inácio não tinha muitas respostas para as preocupações que vinham dos medos da irmã. Tudo que sabia tinha origem nas crenças dos encantados das avós Salu e Hermelina. Vinha da fé de seus pais, não muito diferente da que as avós haviam lhe apresentado. Tudo que sabia tinha maior influência de sua avó materna, pelo convívio com o mundo dos encantados, por estar desde muito cedo ao lado de um curador. Por isso, Inácio contou qualquer coisa, sem sequer refletir se acreditava, até que ela dormisse vencida pelo cansaço. Nesse momento, retornou à sala e perguntou à mãe se não iria descansar. Ela disse que iria, sim, quando sentisse sono. Ele se aproximou e a abraçou, sentada na cadeira onde estava. Beijou o alto de sua cabeça. Bibiana sentiu as lágrimas de seu filho encontrarem as suas, quentes, minando há muito de seus olhos. Pediu que não ficasse triste porque cuidaria dela. Essas palavras demoliram o resto de domínio que Bibiana tentava ter. Inácio era um jovem pouco mais velho que o pai quando este deixou Água Negra.
Então o dia da partida renasceu em sua mente, enquanto abraçava o filho num choro que liberava as dores que haviam se acumulado desde o atentado a Severo. Ela acompanhou o corpo sem vida até o hospital, carregou a cabeça em seu colo, o cheiro de sangue que parecia ter penetrado suas entranhas, por mais que tivesse lavado o corpo e trocado de roupa. O arrombamento do portão da Viração onde estavam enterrados os antepassados dos moradores, e a decisão de não queimar a casa dos donos da fazenda. Em pouco mais de um dia, tudo havia mudado de forma tão abrupta que era impossível processar o que estava acontecendo. Quando o filho foi deitar, Bibiana permaneceu no escuro, na esperança de que algo se manifestasse para orientá-la sobre o que fazer. Amparou-se nas lembranças, nas dificuldades que passaram juntos quando partiram. Das tarefas que precisou fazer enquanto procuravam se firmar no mundo além da fazenda: ajudante de cozinha num restaurante de beira de estrada, diarista de serviços domésticos, cuidando de crianças. Durante esse tempo, nasceram seus filhos e cursou o magistério, realizando em parte os propósitos que a fizeram deixar a fazenda por um tempo. Nessa jornada percebeu que a vida além da Água Negra não era muito diferente, no que se referia à exploração. Mas havia Severo, e os sonhos, e tudo que construíam juntos. Havia dificuldades e desentendimentos, mas havia, antes de qualquer coisa, afetos que ela mesma não poderia definir. Afetos que envolviam suas histórias e todas as coisas que apreendiam, sobre si e sobre sua gente. Como nessa jornada passaram a amar seu lugar! Sentiram vontade de retornar, à medida que foram acumulando informações sobre o que era pertencer a uma comunidade de moradores, talvez invisíveis para todo o resto, no coração de uma fazenda.
Antes que o sono viesse, Bibiana se levantou da cadeira. A luz do sol entrava pelas frestas da porta e da janela. Abriu a porta, sentiu o sereno fresco da manhã tocar sua pele. O que seria de tudo, agora, sem Severo? O que seria dela com o vazio que tinha se apossado de seu corpo? Havia os filhos para encaminhar na vida. E, antes que pensasse nos dias por vir, chegaram as irmãs e a mãe. Salu foi para a cozinha preparar café. Belonísia e Domingas sentaram na sala ao seu lado. As três olharam por um tempo a terra além da porta, e o canto dos pássaros parecia ser o mesmo de toda uma vida. Parecia ser o mesmo de um passado tão perto e tão longe. O mesmo canto que as acompanhou na infância, enquanto seguiam o caminho da roça de madrugada, ao lado do pai, para espantar os chupins dos arrozais.
Mais tarde, a polícia chegou para fazer a perícia do local do crime. Embora Inácio e Domingas tivessem pedido insistentemente que Bibiana ficasse em casa, ela não cedeu e acompanhou tudo, respondendo às perguntas que faziam. Alternava momentos de completa apatia, quando as perguntas precisavam ser repetidas mais de uma vez para que compreendesse, com momentos de ansiedade e revolta, visíveis nos gestos do corpo e no timbre da voz. Se esforçava tentando lembrar cada fração de tempo, cada passo, cada pensamento, gestos, até o que estava escrito, palavra por palavra, no bilhete da chegada do pai que havia voltado para buscar quando Severo foi alvejado. Nada, mais nada sabia. Só que um carro havia partido em alta velocidade em direção à estrada, foi o que alguns moradores disseram. Os agentes foram até as casas das pessoas que supostamente haviam visto o veículo em fuga. Anotaram a cor do carro. Os vidros escuros, disseram, tinham sido um obstáculo para saber quantos e quem estava em seu interior. Perguntaram se notaram algo estranho nos dias que antecederam o crime e se Severo havia brigado com alguém. Quando os moradores responderam sobre os desentendimentos com o dono da fazenda, os policiais se deram por satisfeitos, não prosseguiram. Bibiana e algumas das pessoas presentes foram convidadas a prestar mais testemunhos na delegacia da cidade.
Pareceu, durante um breve período, que as coisas haviam mudado, talvez houvesse justiça para o que havia ocorrido. Iriam investigar a morte de um homem simples como investigariam a morte de um fazendeiro ou de qualquer homem poderoso da cidade. Mas, algumas semanas depois, surgiu a notícia de que o inquérito havia sido concluído. Que haviam descoberto um plantio de maconha numa área próxima aos marimbus. Que Severo havia sido morto numa disputa do tráfico de drogas na região.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

29/11/2021

Rio de Sangue | 3

Os novos proprietários chegaram um ano após a morte de Zeca Chapéu Grande. O homem era alto e corpulento. Negociou com os herdeiros da família Peixoto e esteve, durante o período de negociação, algumas vezes na fazenda. Tinha cor de areia e ferrugem como a que se vê na beira do rio Santo Antônio. Usou essa cor de pele muitas vezes, nas discussões com Severo e com o povo, para dizer que não tinha nada contra ninguém, que ele mesmo tinha antepassados negros, dos quais se dizia orgulhoso. A mulher que o acompanhava, e depois veio a residir na fazenda, era branca e pequena, parecia não ter trinta anos. Tinham dois filhos que chegaram muito tempo depois, por breves períodos, porque estudavam na cidade. No começo, andavam pra cima e pra baixo, o homem tinha os olhos grandes para as coisas que via na fazenda, e a mulher conseguia fingir interesse. Era atabalhoada, entrava nos lugares sem saber se poderia entrar, repetia as mesmas frases de espanto, sorria de forma quase discreta do que chamava de ignorância do povo, quando se dispunha a perguntar e obtinha uma resposta diferente da que presumia ser verdadeira.
Salomão parecia se interessar por tudo. Se dispunha a escutar o que os moradores diziam, para refutar depois, dizendo que sabia mais, que viu sobre tal coisa em algum lugar que ninguém compreendia o nome. Almoçaram na casa de Firmina numa das visitas à fazenda, enquanto escolhiam o lugar para construir a casa grande. Firmina matou uma galinha para receber os novos donos de Água Negra, fez um pequeno banquete com abóbora e quiabo, picadinho de palma e arroz. Ela se sentia apenas uma inquilina, embora morasse ali há mais de quarenta anos, e, apesar de o dono estar ali há tão pouco tempo, sentia como se devesse favores por estar na terra alheia. Salomão comeu o que lhe serviram. A mulher não tocou na comida, dizia que tinha uma alimentação especial, agradeceu por tudo, mas ficou claro que sentia nojo. Das casas em condições ruins, das roupas, da precariedade de não se ter água encanada. Numa das vezes, teve dor de barriga e sentiu horror ao descobrir que não havia banheiro em nenhuma das casas, nem na escola. Depois de resistir, quando seu rosto foi mudando de cor, do corado de sol para o pálido, teve que se aliviar no mato. Entregou um pedaço de papel, que haviam lhe dado, sujo, para que uma das mulheres pegasse. “Não, a senhora pode deixar lá no mato mesmo”, foi o que as que a observavam de longe disseram, entre riso e ofensa. Voltou contrariada, considerando que teria dificuldades para se adaptar à vida naquele lugar.
Aquela fazenda parecia ser a menina dos olhos do novo senhor. Ele almejava se tornar um grande produtor de café, sem saber se era possível o cultivo naquela terra.
Depois quis criar porcos. Por último, quis fazer de Água Negra um santuário ecológico, extasiado que estava com a abundância de água e mata preservada, que resistiam à depredação da Chapada. Em nenhum dos seus planos o povo de Água Negra tinha lugar. Eram meros trabalhadores que deveriam ser deslocados para dormitórios. Deveriam viver efetivamente longe da fazenda, porque eram intrusos na propriedade alheia.
Salomão contratou trabalhadores para ajudar no transporte dos materiais e eventuais serviços para a obra da casa. Ela se tornou uma paisagem estranha aos moradores. Derrubaram pés de buritis e dendês que frutificavam num terreno pantanoso, onde começavam os marimbus. Drenaram parte da água, levantaram uma casa de madeira e vidro. Foi o suficiente para Severo lembrar que havia muito existia uma demanda por melhoria das casas de barro dos moradores, precárias, que poderiam ruir ou ser fonte de doenças. Era preciso construir com materiais mais duradouros. Uns concordavam, outros não. Diziam que se a terra era do dono, ele é que poderia dizer o que poderia ser feito. Sempre havia sido assim. Não havia motivos para mudar agora. Outros estavam cientes de seus direitos. Há bastante tempo, muito antes da morte de Zeca Chapéu Grande, Severo e outros trabalhadores traziam informações sobre as permissões negadas aos moradores da fazenda. Muitos nunca estiveram conformados com os interditos, mas durante muito tempo foi necessário permanecer quieto e submisso para garantir a sobrevivência. Agora falam em direito dos pretos, dos descendentes de escravos que viveram errantes de um lugar para o outro. Falam muito sobre isso. Que agora tem lei. Tem formas de garantir a terra. De não viverem à mercê de dono, correndo daqui pra acolá, como no passado.
Sou uma velha encantada, muito antiga, que acompanhou esse povo desde sua chegada das Minas, do Recôncavo, da África. Talvez tenham esquecido Santa Rita Pescadeira, mas a minha memória não permite esquecer o que sofri com muita gente, fugindo de disputas de terra, da violência de homens armados, da seca. Atravessei o tempo como se caminhasse sobre as águas de um rio bravo. A luta era desigual e o preço foi carregar a derrota dos sonhos, muitas vezes.
Duas semanas antes da morte de Severo, Salomão e Estela deixaram a casa da fazenda. Partiram para uma viagem, era o que se dizia. Mas o desejo do povo, depois do enterro, foi queimar a casa de madeira e vidro. Queriam vê-la reduzida a cinza, moída feito poeira, consumida pelas chamas. Sentiam vontade de destruir tudo o que lhes foi negado.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado