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01/10/2012

Rural Willys verde e branca

Imagem: Google

Quanta saudade cabe numa Rural Willys verde e branca, marcha Royal, com dois espelhinhos acima dos paralamas dianteiros? Nela aprendi a dirigir pelas ruas de uma Fortaleza num tempo em que se ouvia Beatles e as ruas, estreitas como ainda hoje são, pareciam largas e comportavam os carros que existiam sem precisar pisar no freio a cada 5 metros. Quando a lua engolia a sombra do que restava do dia chegava a hora do aprendizado. À tardinha era mais tranquilo, sem calor. Ainda assim, após a aula, as mãos estavam úmidas e as costas molhadas, sensações que até hoje não sei explicar. Mas assim foi. Hoje eu vi uma Rural Willis, verde, com muito boa aparência e igualzinha a do meu Pai. Faltavam, apenas, os espelhinhos sobre os paralamas. Se lá estivessem eu iria tentar ver refletidas as marcas de um tempo em que ouvir Beatles pelas ruas estreitas de Fortaleza no comando de uma Rural Willis verde e branca, marcha Royal, bastava pra fazer um ainda menino tão feliz.
Xico Bizerra, in www.bestafubana.com.br

23/03/2012

Do Amor à Pátria

 

São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a uma outra mais íntima, pacífica e habitual — uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperanças plantando canções, amores e filhos ao sabor das estações.
Sim, são doces as rotas que reconduzem o homem a sua  pátria, e tão mais doces quanto mais ele teve, viu e conheceu outras pátrias de outros homens. Assim eu, ausente pela segunda vez de uma ausência de muitos anos quando, dentro da noite a bordo, os dedos a revirar o dial do ondas curtas, aguardava o primeiro balbucio de minha pátria como um pai à espera da primeira palavra do seu filho. O coração batia-me como batera um dia, à poesia sonhada, ou como uma outra vez, diante de uns olhos de mulher.
— O senhor tem certeza de que isso é mesmo um ondas curtas?
O camareiro norueguês, grande e tranquilo, limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois, humano, inclinou-se sobre o aparelho, o ouvido atento, e pôs-se a tentar por sua vez.
As ondas sonoras iam e vinham verrumando a minha angústia.
Onde estava ela, a minha pátria que não vinha falar comigo ali dentro do mar escuro?
E de repente foi uma voz que mal se distinguia, balbuciando bolhas de éter, mas pensei no meio delas distinguir um nome: o nome de Iracema. Não tinha certeza, mas pareceu-me ouvir o nome de Iracema entre os estertores espásmicos do aparelho receptor.
Deus do Céu! Seria mesmo o nome de Iracema?
Era sim, porque logo depois chegou a afirmar-se, mas quase imperceptível, como se pronunciado por um gnomo montado em minha orelha. Era o nome de Iracema, da Rádio Iracema, de Fortaleza, a emissora dos lábios de mel, que sai mar afora, enfrentando os espaços oceânicos varridos de vento para trazer a um homem saudoso o primeiro gosto de sua pátria.
Adorável prefixo noturno, nunca te esquecerei! Foste mais uma vez essa coisa primeira tão única como o primeiro amigo, a primeira namorada, o primeiro poema. E a ti eu direi: é possível que o padre Vieira esteja certo ao dizer que a ausência é, depois da morte, a maior causa da morte do amor. Mas não do amor à terra onde se cresceu e se plantou raízes, à terra a cuja imagem e semelhança se foi feito e onde um dia, num pequeno lote, se espera poder nunca mais esperar.
Vinícius de Moraes (Agosto de 1953), in Para uma Menina com uma Flor

06/10/2011

Arte na Praça



Fotos: Elilson Batista


Belíssimos quadros de pintores cearenses à venda no Calçadão da Praia de Iracema, Fortaleza - CE.