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30/10/2025

Seu verdadeiro crime

O que eles jamais perdoaram a Oscar Wilde é que ele era profundo sem ser chato.

Mário Quintana, em Caderno H

02/06/2019

Wilde

Oscar Wilde, que morreu há mais de 100 anos, escreveu algumas das frases mais memoráveis e citáveis da língua inglesa para seus personagens, mas hoje o seu personagem mais lembrado é ele mesmo, e vários autores modernos o aproveitaram e botaram no palco com falas novas. Wilde aparece na peça de Tom Stoppard The Invention of Love, sobre o poeta e classicista A. E. Housman, como uma espécie de contraponto flamante ao sóbrio mas também homossexual Housman, dizendo coisas como “a arte não pode ser subordinada ao seu sujeito, pois neste caso não é arte mas biografia, e biografia é a malha através da qual a vida real escapa”. E: “Melhor um foguete caído do que nenhuma explosão de luz. Dante reservou um lugar no seu Inferno para os deliberadamente tristes – os taciturnos no doce ar, como ele disse.” E: “O artista é o criminoso secreto em nosso meio. É o agente do progresso contra a autoridade.” E: “Um artista deve mentir, trapacear, enganar, ser infiel à Natureza e desprezar a história. Eu transformei minha arte na minha vida e fui um sucesso incondicional. O fulgor da minha imolaçã o iluminou todos os cantos desta terra , onde jovens sem conta recolhiam-se, cada um à sua própria escuridão.” E: “Eu despertei a imaginação do século.” O Wilde de Stoppard diz tudo isto a Housman depois de morto, esperando o barqueiro que levará a alma dos dois para o outro lado.
Outro autor inglês que brincou de Wilde escrevendo para um Wilde fictício foi Terry Eagleton. Um dramaturgo surpreendente, pois é mais conhecido como crítico literário e pensador marxista. Na sua peça Saint Oscar, sobre o julgamento que condenou Wilde à prisão, Eagleton põe vários solilóquios wildianos na boca do escritor. A começar por sua apresentação à platéia: “Me chamaram Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde. Outros ganham nomes, eu ganhei uma sentença inteira. Nasci com uma sentença sobre a minha cabeça.” Depois de explicar sua gordura dizendo que come para compensar a fome na Irlanda, Wilde diz: “Sempre julguem pelas aparências, que são mais confiáveis do que a realidade. Os ingleses acham que isso é hipocrisia. Vocês se surpreendem que eles desconfiem de aparências, depois do que fizeram à metade do mundo? Eles fogem disso para um lugar interior chamado verdade. Um lugar profundo – como uma cloaca. Enquanto eu sou superficial, profundamente superficial. Não há nada à flor da pele na minha superficialidade.” E sobre a sua mãe: “Uma mulher admirável. Talvez seja o que mais me desagrade nela.”
Num dos seu solilóquios dirigidos à platéia, o “Wilde” de Eagleton diz:
Tento não ter nenhum tipo de ressentimento social, mas não consigo evitar a inveja dos privilégios dos pobres. Eles estão livres da indigestão e do pânico na escolha do que vestir e não têm tempo para especulações metafísicas inúteis. É a sua naturalidade que eu invejo. Não, isso não é verdade. Detesto a Natureza. Ela me parece, de alguma forma, inepta. Um clichê. Observo uma pequena gaivota bicando perfunctoriamente à sua volta e a considero pouco convincente. Eu sei que eles se esforçam, mas os animais são atores atrozes. Sempre estragam tudo. A Natureza não tem o dom do improviso: está sempre tediosamente se repetindo. Enquanto eu nunca faço a mesma coisa duas vezes, e é isso que me torna tão fascinante. Toda a minha vida tem sido uma longa prática antinatural. Não sou previsível como uma couve-flor.”
E: “É curioso como as pessoas ainda desaprovam a roupa, depois de tantos milênios. Consideram a nudez mais autêntica. Não posso imaginar um pensamento mais pervertido. A nudez sempre me pareceu tão artificial. Aparecer no tribunal totalmente nu – ah, essa seria a pose extrema. Tirem a minha roupa e a minha alma vai junto.”
E: “Sou um igualitário: para mim todas as classes são vulgares.”
E: “Sou socialista porque sou individualista. Como pode alguém ser um indivíduo neste esgoto de sociedade? Na minha santa devoção ao meu próprio ego prefiguro uma Nova Jerusalém, em que todos poderão ser, puramente, eles mesmos.”
E, falando no tribunal que o condenaria: “Nunca entendi o sentido do termo moralidade, a não ser como um meio de opressão. Sou, em suma, um decadente. Mas temo que a saúde de vocês possa ser mais doentia do que a minha decadência. Melhor sensacionalista do que imperialista. Temo pela saúde moral de uma nação inteira obcecada em determinar qual é o buraco certo. Vocês subjugam raças inteiras, condenam a massa da sua própria população à miséria e ao desespero, e só conseguem pensar em que órgão sexual deve entrar onde.”
E: “Vocês sustentam que homem é homem e mulher é mulher. Eu sustento que nada é simplesmente o que é, e que o ponto em que isso acontece se chama morte. Portanto exijo que meus defensores sejam metafísicos em vez de advogados e que o júri seja composto pelos meus pares – poetas, pervertidos, vagabundos e gênios.”
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

22/01/2017

Silêncio

Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo.”
Oscar Wilde

23/10/2016

Início e fim

A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela, também.”
Oscar Wilde

23/08/2016

Viver

Viver é a coisa mais rara do mundo; a maior parte das pessoas não faz mais do que existir.”
Oscar Wilde

12/04/2016

Influência

- A sua influência é, realmente, tão má como diz Basílio, Lorde Henry?
- Não existe influência boa, Sr. Gray. Toda influência é imoral…imoral do ponto de vista científico.
- Por quê?
- Porque influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio. Realizar completamente a própria natureza, é o que devemos buscar. O mal é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. Esqueceram-se do mais elevado de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. Alimentam o faminto e vestem o andrajoso. Deixam, contudo, que suas almas morram de fome e andem nuas. O valor nos abandonou. Talvez nunca o tenhamos tido, realmente. O temor da sociedade, que é a base da moral; o temor de Deus, que é 0 segredo da religião…são os dois princípios que nos regem. E, no entanto…”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

16/03/2016

Do dinheiro

Quando lorde Henry penetrou no quarto, encontrou seu tio assentado, metido num grosso hábito de caçada, fumando um charuto e rosnando sobre um número do Times.
Muito bem, Harry! — disse o velho gentleman — que traz tão cedo? Pensei que vocês, dândis, não se levantassem, antes de duas horas e não se deixassem ver antes das cinco.
Pura afeição familiar, eu lhe asseguro, tio Jorge, e depois porque tenho necessidade de pedir-lhe alguma coisa.
Dinheiro, suponho — disse lorde Fermor, fazendo uma careta. — Enfim, sente-se e diga-me do que se trata. Os moços, hoje, imaginam que dinheiro é tudo.
Sim — murmurou lorde Henry, abotoando o capote —; e quando se tornam velhos ficam com a certeza; mas, não preciso de dinheiro. Só os que pagam as suas dívidas precisam disso, tio Jorge, e eu nunca pago as minhas. O crédito é o capital de um moço e vive-se de um modo admirável. Demais, estou sempre em negociações com os fornecedores de Dartmoor e eles nunca me inquietam. Preciso de umas informações, não úteis, seguramente, mas inúteis.
Bem! Posso dizer-te tudo quanto contém um Livro Azul inglês, embora seus autores, hoje, só escrevam asneiras. Quando fui diplomata, as coisas corriam melhor. Ouvi, porém, dizer que hoje eles são escolhidos depois de exames. Que queres? Os exames, meu senhor, são uma pura pilhéria. Se o homem é um gentleman, sabe bastante; se não é, tudo o que aprender será em seu prejuízo!
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

05/03/2016

Rejuvenescer

- O rubor lhe assenta bem, duquesa - observou Lord Henry.
- Somente quando se trata de uma jovem - respondeu ela. - Mas, quando uma velha como eu enrubesce, é muito mau sinal. Ah! Lorde Henry, desejaria que o senhor me ensinasse a rejuvenescer.
Ele refletiu por um momento.
- Pode lembrar-se de algum grande erro cometido nos seus primeiros dias, duquesa? - perguntou, olhando-a por cima da mesa.
- Temo lembrar-me de um grande erro número - exclamou ela.
- Pois, cometa-os de novo - disse ele, gravemente. - Para se voltar à mocidade, basta repetir as suas loucuras.
- Deliciosa teoria! - exclamou ela. - Tenho de pô-la em prática.
- Perigosa teoria! - declarou Sir Thomas por entre os dentes.
Lady Ágata meneou a cabeça, mas não pôde deixar de sorrir. O Sr. Erskine escutava.
- Sim - continuou Lorde Henry, este é um dos grandes segredos da vida. Hoje em dia, a maioria das pessoas morre de uma espécie de senso comum progressivo, descobrindo, quando já é demasiado tarde, que a única coisa que ninguém deplora são os próprios erros.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

01/03/2016

Velhice X mocidade

A tragédia da velhice não consiste no fato de ser velho, mas no de haver sido moço.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

25/02/2016

Dono de si mesmo

- Você chama o ontem de passado?
- E não pertence ao passado o que acontece neste mesmo instante? As pessoas superficiais são as únicas que tem a necessidade de anos para desembaraçar-se de uma emoção. Um homem dono de si mesmo pode dar fim a um desgosto com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Não quero sentir-me à mercê das minhas emoções. Quero experimentá-las, gozá-las e dominá-las.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

22/02/2016

Recordação da própria felicidade

Os espelhos lívidos encontram novamente sua vida mímica. As luzes apagadas estão onde as havíamos deixado, e a nosso lado acha-se o livro de páginas ainda ligadas que folheáramos, ou a flor preciosa que usáramos no baile, ou ainda a carta que tínhamos tido receio de ler ou que tínhamos relido muitas vezes. Nada mudou. Afastada das sombras irreais da noite, ressurge a vida, na sua realidade já conhecida. Devemos retomá-la onde a deixamos e apodera-se de nós o terrível sentimento da continuidade necessária da energia no mesmo círculo monótono de hábitos estereotipados, ou então somos presas de um desejo selvagem de que nossas pálpebras se abram um dia sobre um mundo que tivesse sido refundido nas trevas para o nosso próprio prazer, um mundo onde as coisas apresentariam novas formas e cores, que teria mudado ou que teria outros segredos, um mundo em que o passado ocuparia pouco ou nenhum lugar, em que as lembranças não sobreviveriam sob a forma inconsciente de obrigação ou de pesar, uma vez que a recordação da própria felicidade oferece amarguras, assim como a lembrança do prazer já contém sua dor.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

11/02/2016

Atriz

Amo-a Harry. Ela é tudo para mim, na vida. Noite após noite, vou vê-la representar. Uma noite ela é Rosalinda, outra é Imogênia. Vi-a morrer na escuridão de uma tumba italiana, sugando o veneno dos lábios do seu amado. Segui-a quando errava pelos bosques de Arden, disfarçada de belo rapaz de calças, gibão e gracioso gorro. Vi-a louca na presença de um rei perverso, para quem levava ramos de arruda e a quem dava a provar ervas amargas. Era inocente e as negras mão do ciúme comprimiam-lhe a garganta semelhante a um caniço. Vi-a em toda as épocas e em todos os trajes. As mulheres vulgares nunca excitam a nossa imaginação. Estão limitadas ao seu século. Não há magia que possa transfigurá-las. Pode-se conhecer a sua mente como se conhecem os seus chapéus. Podemos encontrá-las sempre. Não há mistério em nenhuma delas. De manhã, passeiam no seu carro pelo parque; de tarde, tagarelam tomando chá. Têm sorrisos estereotipados e as atitudes estudadas. São completamente transparentes. Mas uma atriz, Harry! Por que não me disse que o único ser digno de amor é uma atriz?”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

07/02/2016

Prefiro as pessoas aos seus princípios

Quando se expõe uma ideia a um verdadeiro inglês - o que é simplesmente temerário -, ele nunca procura saber se a ideia é boa ou má. A única coisa que considera importante é saber se acreditam nela. Pois bem, o valor de uma ideia nada tem a ver com a sinceridade da pessoa que a expressa. Na realidade, as probabilidades são de que, quanto mais insincero é o homem, mais puramente intelectual a ideia será, uma vez que, naquele caso não estará colorida por nenhuma das necessidades, dos desejos ou dos preconceitos dele. Contudo, não pretendo discutir política, sociologia ou metafísica com você. Prefiro as pessoas aos seus princípios, e prefiro, acima de tudo no mundo, as pessoas sem princípios.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

01/02/2016

O desejo do pecado

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidos por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem a sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

25/01/2016

Autômatos

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidos por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem a sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

12/12/2015

Viver a vida plenamente

Há momentos em que é preciso escolher entre viver a sua própria vida plenamente, inteiramente, completamente, ou assumir a existência degradante, ignóbil e falsa que o mundo, na sua hipocrisia, nos impõe.”
Oscar Wilde

15/07/2015

Escolher o modo de vida

Há momentos em que é preciso escolher entre viver a sua própria vida plenamente, inteiramente, completamente, ou assumir a existência degradante, ignóbil e falsa que o mundo, na sua hipocrisia, nos impõe.”
Oscar Wilde

13/10/2014

Um novo impulso de energia

“Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helênico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helênico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a ação é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray