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08/11/2020

As pequenas virtudes

           No que diz respeito à educação dos filhos, penso que se deva ensinar a eles não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber.
No entanto fazemos frequentemente o contrário: apressamo-nos a ensinar o respeito pelas pequenas virtudes, fundando sobre elas todo nosso sistema educativo. Desse modo, escolhemos a via mais cômoda: porque as pequenas virtudes não apresentam nenhum perigo material, ao contrário, nos mantêm ao abrigo dos golpes da sorte. Descuidamos de ensinar as grandes virtudes, apesar de amá-las, e gostaríamos que nossos filhos as assimilassem: mas nutrimos a confiança de que elas emergirão espontaneamente de seu espírito, num dia futuro, considerando-as de natureza instintiva, ao passo que as outras, as pequenas, nos parecem fruto de reflexão e cálculo, e por isso pensamos que devam ser absolutamente ensinadas.
Na verdade a diferença é só aparente. As pequenas virtudes provêm igualmente do fundo de nosso instinto, de um instinto de defesa: mas nelas a razão fala, sentencia, disserta, como um brilhante advogado da integridade pessoal. As grandes virtudes jorram de um instinto em que a razão não fala, um instinto ao qual me seria difícil dar um nome. E o melhor de nós está nesse instinto mudo, e não em nosso instinto de defesa, que argumenta, sentencia e disserta com a voz da razão.
A educação não é outra coisa senão um certo vínculo que estabelecemos entre nós e nossos filhos, certo clima no qual florescem os sentimentos, os instintos, as ideias. Ora, creio que um clima todo inspirado no respeito às pequenas virtudes resulte insensivelmente em cinismo, ou no medo de viver. Em si mesmas, as pequenas virtudes não têm nada a ver com o cinismo ou com o medo de viver: mas todas juntas, e sem as grandes, geram uma atmosfera que leva àquelas consequências. Não que as pequenas virtudes sejam, em si mesmas, desprezíveis: mas seu valor é de ordem complementar, e não substancial; elas não podem estar sós, sem as outras, e são — quando desacompanhadas — um pobre alimento para a natureza humana. O modo de exercitar as pequenas virtudes, em medida temperada e quando for de todo indispensável, o homem pode encontrá-lo em torno de si e bebê-lo no ar: porque as pequenas virtudes são de uma ordem bastante comum e difusa entre os homens. Mas as grandes virtudes, essas não se respiram no ar: e devem ser a primeira substância da relação com nossos filhos, o primeiro fundamento da educação. Além disso, o grande também pode conter o pequeno: mas o pequeno, por lei natural, não pode jamais conter o grande.
Não ajuda em nada buscarmos recordar e imitar, nas relações com nossos filhos, os modos com que nossos pais nos educaram. A época de nossa infância e juventude não era um tempo de pequenas virtudes: era um tempo de palavras fortes e sonoras, que pouco a pouco, porém, perdiam sua substância. Agora é um tempo de palavras flébeis e frígidas, sob as quais talvez refloresça o desejo de uma reconquista. Mas é um desejo tímido e cheio de temor do ridículo. Assim nos revestimos de prudência e astúcia. Nossos pais não conheciam nem prudência nem astúcia; não conheciam o medo do ridículo; eram inconsequentes e incoerentes, mas nunca se davam conta; frequentemente se contradiziam, mas nunca admitiam ser contestados. Usavam conosco de uma autoridade que seríamos completamente incapazes de usar. Convictos de seus princípios, que supunham indestrutíveis, reinavam sobre nós com poder absoluto. Éramos ensurdecidos por palavras tonitruantes; um diálogo era impossível, porque assim que suspeitavam que haviam errado nos mandavam calar a boca; batiam o punho na mesa, fazendo a sala tremer. Recordamos aquele gesto, mas não saberíamos imitá-lo. Podemos ficar furiosos, uivar feito lobos; mas no fundo de nossos uivos de lobo há um soluço histérico, um rouco balido de cordeiro.
Portanto não temos autoridade: não temos armas. A autoridade, em nós, seria uma hipocrisia e uma ficção. Somos demasiado conscientes de nossa fraqueza, demasiado melancólicos e inseguros, demasiado conscientes de nossas inconsequências e incoerências, demasiado conscientes de nossos defeitos: olhamos dentro de nós com muita demora e vimos em nós coisas demais. E, como não temos autoridade, devemos inventar uma outra relação.
Hoje, que o diálogo se tornou possível entre pais e filhos — possível, embora sempre difícil, sempre cheio de cautelas recíprocas, de recíproca timidez e inibição —, é preciso que nós, nesse diálogo, nos revelemos tal como somos, imperfeitos, e confiantes de que eles, nossos filhos, não se pareçam conosco, que sejam mais fortes e melhores que nós.
Como estamos todos premidos, de uma maneira ou de outra, pelo problema do dinheiro, a primeira pequena virtude que nos ocorre ensinar aos nossos filhos é a poupança. Damos a eles um mealheiro, explicando como é bom guardar o dinheiro em vez de gastá-lo, de modo que, após alguns meses, haja ali um bom montinho de moedas; e como é bom resistir à vontade de gastar para, ao final, poder comprar um objeto de valor. Recordamos que, em nossa infância, ganhamos de presente um mealheiro igual; mas esquecemos que, no tempo de nossa infância, o dinheiro e o gosto de conservá-lo eram algo menos horrível e sujo que hoje: porque quanto mais o tempo passa, mais o dinheiro é sujo. Então o mealheiro é o nosso primeiro erro: instalamos em nosso sistema educativo uma pequena virtude.
Aquele pequeno cofre de barro, de aspecto inócuo, em forma de pera ou de maçã, passa a morar meses e meses no quarto de nossos filhos, que se habituam à presença dele; se habituam ao prazer de introduzir, dia a dia, o dinheiro na fenda; se habituam ao dinheiro guardado lá dentro, que ali, em segredo e no escuro, cresce como uma semente no seio da terra; se afeiçoam ao dinheiro, primeiro com inocência, como nos afeiçoamos a todas as coisas que crescem graças ao nosso zelo, plantinhas ou pequenos animais; e sempre imaginando aquele objeto caro, visto numa vitrine, que poderemos comprar — como nos disseram — com o dinheiro poupado. Quando finalmente o cofre é quebrado, e o dinheiro, gasto, os meninos se sentem sós e frustrados; não há mais dinheiro no quarto, guardado no ventre da maçã, e já não há nem mesmo a rósea maçã: em vez disso, há um objeto por muito tempo imaginado na vitrine, do qual nós louvamos a importância e o valor, mas que agora, ali no quarto, parece cinzento e sem graça, murcho após tanta espera e tanto dinheiro. Os meninos não culparão o dinheiro por essa desilusão, mas o próprio objeto: porque o dinheiro perdido conserva na memória suas promessas vãs. Os meninos pedirão um novo cofre e mais dinheiro para guardar; e dedicarão ao dinheiro pensamentos e uma atenção que deveriam estar voltados para outras coisas. Preferirão o dinheiro às coisas. Não faz mal que tenham sofrido uma desilusão; faz mal que se sintam sozinhos sem a companhia do dinheiro.
Não deveríamos ensiná-los a poupar: deveríamos habituá-los a gastar. Deveríamos dar-lhes com frequência alguns trocados, pequenas somas sem importância, e incentivá-los a gastar logo, como bem quiserem, seguindo um capricho momentâneo: os meninos comprarão alguma miudeza, que esquecerão logo, assim como se esquecerão do dinheiro gasto tão depressa e sem pensar, ao qual não chegaram a afeiçoar-se. Quando tiverem nas mãos essas miudezas, que serão logo quebradas, os meninos vão ficar um pouco decepcionados, mas rapidamente esquecerão tanto o desgosto com as miudezas quanto o dinheiro; aliás, associarão o dinheiro a algo de momentâneo e estúpido; e pensarão que o dinheiro é estúpido, como é justo pensar durante a infância.
É justo que os meninos vivam os primeiros anos de sua vida ignorando o que é o dinheiro. Às vezes isso é impossível, se formos muito pobres; e às vezes é difícil, se formos muito ricos. Contudo, quando somos muito pobres, quando o dinheiro está estritamente ligado a um fato de sobrevivência cotidiana, a uma questão de vida ou morte, ele se traduz tão imediatamente aos olhos de um menino em comida, lenha ou pão, que não tem meios de arruinar-lhe o espírito. Porém, se formos assim, assim, nem ricos nem pobres, não será difícil deixar que um menino viva sua infância sem saber bem o que é o dinheiro e sem se interessar minimamente por ele. No entanto, nem muito cedo nem muito tarde, é preciso acabar com essa ignorância; e, se tivermos dificuldades econômicas, é necessário que nossos filhos, nem muito cedo nem muito tarde, tenham conhecimento disso; assim como é justo que a certa altura eles compartilhem conosco nossas preocupações, nossos motivos de contentamento, nossos projetos e tudo o que concerne à vida familiar. E, habituando-os a considerar o dinheiro como algo que pertence igualmente a nós e a eles, e não mais a nós que a eles, ou o contrário, também podemos convidá-los a serem sóbrios, a estarem atentos ao dinheiro que gastam; e desse modo o convite à poupança deixa de ser respeito às pequenas virtudes, um convite abstrato a ter respeito por uma coisa que não merece respeito por si, como o dinheiro; mas é recordar aos meninos que o dinheiro de casa não é muito, um convite a sentirem-se adultos e responsáveis diante de uma coisa que pertence tanto a nós quanto a eles, uma coisa não particularmente bela nem amável, mas séria, porque está ligada às nossas necessidades cotidianas. Mas não muito cedo nem muito tarde: o segredo da educação está em adivinhar os tempos.
Ser sóbrio consigo mesmo e generoso com os outros: isto significa ter uma relação justa com o dinheiro, estarmos livres diante do dinheiro. E não há dúvida de que, nas famílias em que o dinheiro é ganho e prontamente gasto, em que escorre como água limpa da fonte e, praticamente, não existe como dinheiro, é menos difícil educar um jovem para esse equilíbrio, para essa liberdade. As coisas se tornam complicadas ali onde o dinheiro existe e existe pesadamente, água de chumbo, estagnada, que exala miasmas e odores. Rapidamente os jovens percebem a presença desse dinheiro na família, como uma potência oculta, de que nunca se fala em termos claros, mas à qual os pais aludem, conversando entre si, com nomes complicados e misteriosos, com uma plúmbea fixidez nos olhos, com uma ruga amarga na boca; dinheiro que não é simplesmente guardado na gaveta do escritório, mas campeia sabe-se lá onde, podendo a qualquer momento ser sugado pela terra, sumindo sem remédio para sempre, engolindo a família e a casa. Em famílias como essas, os jovens são continuamente advertidos a gastar com parcimônia, todo dia a mãe os incita à atenção e à economia, quando lhes dá o trocado para o bonde; e há no olhar da mãe aquela preocupação de chumbo, aquele profundo vinco na fronte, que sempre surge quando o assunto é dinheiro; há o obscuro terror de que todo o dinheiro se desmanche no nada, de que até os poucos trocados possam significar as primeiras migalhas de um desmoronamento súbito e mortal. Os jovens dessas famílias não raro vão à escola com roupas puídas e sapatos gastos, e precisam suspirar longamente, às vezes em vão, por uma bicicleta ou uma máquina fotográfica, objetos que alguns colegas certamente mais pobres possuem há tempos. E quando finalmente a bicicleta que desejam lhes é dada, o presente é acompanhado da severa recomendação de não estragar nem emprestar a ninguém um objeto tão luxuoso, que custou tanto dinheiro. Os apelos à economia, em casa, são perenes e insistentes: a ordem é comprar os livros da escola em sebos, e os cadernos, no Standard. Isso ocorre em parte porque os ricos muitas vezes são avaros, porque se acham pobres; mas sobretudo porque as mães das famílias ricas, mais ou menos conscientemente, têm medo das consequências do dinheiro e procuram proteger seus filhos, forjando em torno deles uma ficção de hábitos simples, acostumando-os até a pequenas privações. Mas não há pior erro que fazer um jovem viver em tal contradição; o dinheiro fala em qualquer canto, na casa, sua linguagem inconfundível; está presente nas porcelanas, na mobília, na prataria pesada, está presente nas viagens confortáveis, nas férias luxuosas, nos cumprimentos do porteiro, na cerimônia dos criados; está presente nas falas dos pais, é a ruga na testa do pai, a profunda perplexidade no olhar materno; o dinheiro está em toda parte, intocável porque talvez terrivelmente frágil, algo com que não se pode brincar, um deus fúnebre ao qual não se pode dirigir senão num sussurro; e, para honrar esse deus, para não molestar sua lutuosa imobilidade, é preciso usar o casaco do ano anterior, que ficou curto, e estudar a lição em livros desencadernados e sebosos, e divertir-se com a bicicleta do camponês.
Se, sendo ricos, quisermos ensinar a nossos filhos hábitos simples, deve ficar bem claro que todo dinheiro poupado com esses hábitos deverá ser gasto sem parcimônia com outras pessoas. Hábitos como esses só fazem sentido se não forem avareza ou temor, mas livre escolha da simplicidade em meio à riqueza. Um jovem de família rica não aprende a sobriedade porque o fazem vestir roupas velhas, ou porque o fazem comer maçãs verdes na merenda, ou porque é privado de uma bicicleta que deseja há muito tempo: essa sobriedade em meio à riqueza é pura ficção, e as ficções são sempre deseducativas. Desse modo ele aprenderá apenas a avareza e o medo do dinheiro. Privando-o de uma bicicleta desejada e que poderíamos presentear-lhe, só faríamos frustrá-lo numa coisa legítima para um garoto, só faríamos tornar sua infância menos feliz em nome de um princípio abstrato, sem justificativa na realidade. E, tacitamente, estaríamos afirmando diante dele que o dinheiro é melhor que uma bicicleta; no entanto, é preciso que ele saiba que uma bicicleta é sempre melhor que o dinheiro.
A verdadeira defesa da riqueza não é o medo da riqueza, de sua fragilidade e das viciosas consequências que pode trazer: a verdadeira defesa da riqueza é a indiferença ao dinheiro. Para ensinar a um jovem essa indiferença, não há outro meio senão lhe dar dinheiro para gastar, quando houver dinheiro: para que aprenda a se afastar dele sem sofrimento ou remorso. Podem me dizer que, assim, um jovem se habituará a ter dinheiro para gastar e já não poderá viver sem ele; se amanhã não for mais rico, como vai ser? Mas é mais fácil não ter dinheiro quando já aprendemos a gastá-lo, quando aprendemos como ele voa depressa de nossas mãos; é mais fácil prescindir do dinheiro quando já o conhecemos bem do que quando lhe tributamos reverência e medo na infância, quando pressentimos sua presença no ar sem que nos tenham permitido erguer os olhos para fixá-lo.
Assim que nossos filhos começam a ir à escola, nós imediatamente lhes prometemos, se estudarem bem, um prêmio em dinheiro. É um erro. Assim misturamos o dinheiro, que é uma coisa sem nobreza, com algo meritório e digno, como o estudo e o prazer do conhecimento. O dinheiro que damos aos nossos filhos deveria ser dado sem motivo; deveria ser dado com indiferença, para que aprendam a recebê-lo com indiferença; e deve ser dado não para que aprendam a amá-lo, mas para que aprendam a não amá-lo, a compreender seu verdadeiro caráter, sua impotência em satisfazer os desejos mais autênticos, que são os do espírito. Elevando o dinheiro à função de prêmio, de ponto de chegada, de objetivo a ser alcançado, nós lhe conferimos um lugar, uma importância, uma nobreza que não deve ter aos olhos dos nossos filhos. Afirmamos implicitamente o princípio — falso — de que o dinheiro é a coroação de um esforço e seu escopo último. Entretanto o dinheiro deveria ser concebido como a retribuição por um esforço; não sua finalidade, mas sua recompensa, isto é, seu legítimo crédito: e é evidente que os esforços escolares dos meninos não podem receber um pagamento. É um erro menor — mas é um erro — oferecer dinheiro aos filhos em troca de pequenos serviços domésticos, de pequenas tarefas. É um erro porque nós não somos empregadores dos nossos filhos; o dinheiro familiar é tanto deles quanto nosso: aqueles pequenos serviços, aquelas pequenas tarefas não deveriam ter nenhuma recompensa, mas ser uma colaboração voluntária na vida familiar. E, em geral, creio que se deva ter muita cautela ao se prometer e aplicar prêmios e punições. Porque a vida raramente terá prêmios e punições: no mais das vezes os sacrifícios não têm nenhum prêmio, e frequentemente as más ações não são punidas, mas, ao contrário, lautamente recompensadas com sucesso e dinheiro. Por isso é melhor que nossos filhos saibam desde a infância que o bem não é recompensado, nem o mal recebe castigo; todavia é preciso amar o bem e odiar o mal — e a isso não é possível dar nenhuma explicação lógica.
Costumamos dar uma importância ao rendimento escolar de nossos filhos que é totalmente infundada. E também isso não é senão respeito pela pequena virtude do sucesso. Deveria bastar-nos que não ficassem muito atrás dos outros, que não fossem reprovados nos exames; mas não nos contentamos com isso; deles queremos o sucesso, queremos que satisfaçam nosso orgulho. Se forem mal na escola, ou se simplesmente não forem tão bem quanto pretendemos, logo erigimos entre eles e nós a barreira do descontentamento permanente; adotamos diante deles o tom de voz rabugento e lamentoso de quem se queixa de uma ofensa. Aí nossos filhos, entediados, se afastam de nós. Ou então os apoiamos em seus protestos contra os professores que não os entenderam, colocando-nos ao lado deles como se fossem vítimas de uma injustiça. E todo dia corrigimos seus deveres de casa, ou melhor, nos sentamos junto deles quando fazem as tarefas, estudando com eles a lição. Na verdade, para um garoto, a escola deveria ser desde o início a primeira batalha a enfrentar sozinho, sem nossa ajuda; desde o início deveria estar claro que aquilo é seu campo de batalha, onde não lhe podemos dar mais que um socorro esporádico e irrisório. E se lá ele sofre injustiças ou é incompreendido, é preciso deixá-lo entender que não há nada de estranho nisso, porque na vida devemos esperar continuamente a incompreensão e o descaso, e ser vítimas de injustiças: a única coisa que importa é não cometermos, nós mesmos, injustiças. Compartilhamos os sucessos ou insucessos de nossos filhos porque gostamos deles, do mesmo modo e na mesma medida com que eles compartilham, no processo de se tornarem adultos, nossos sucessos ou insucessos, nossas alegrias ou preocupações. É falso que eles, diante de nós, tenham a obrigação de serem bons na escola e de dar ao estudo o melhor de si. Seu único dever perante nós, visto que os introduzimos ao estudo, é seguir adiante. Se não quiserem dar o melhor de si na escola, mas em outras coisas que os apaixonem — coleção de besouros ou o estudo da língua turca —, é uma escolha deles, e não temos nenhum direito de recriminá-los, de nos mostrarmos feridos no orgulho, frustrados em nosso desejo. Se por ora eles não dão mostras de querer gastar suas capacidades em nada, passando dias na escrivaninha mastigando uma caneta, nem neste caso temos o direito de reprová-los em demasia: quem sabe o que nos parece ócio seja na realidade fantasia e reflexão que, amanhã, talvez deem seus frutos. Se parecem desperdiçar o melhor de suas energias e de seu talento jogados num sofá, lendo romances estúpidos, ou correndo desenfreados num gramado atrás da bola, ainda assim não podemos saber se realmente se trata de desperdício de energia e de talento ou se até isso, amanhã, de alguma maneira que agora ignoramos, dará seus frutos. Porque infinitas são as possibilidades do espírito. Mas não devemos nos deixar tomar — nós, pais — pelo pânico do insucesso. Nossas repreensões devem ser como rajadas de vento ou um temporal: violentos, mas logo esquecidos; nada que possa obscurecer a natureza de nossas relações com os filhos, turvando-lhes a limpidez e a paz. Estamos aí para consolar nossos filhos, caso um fracasso os faça sofrer; estamos aí para lhes dar coragem, se um insucesso os mortificar. Também estamos aí para fazê-los baixar a crista, caso um sucesso lhes suba à cabeça. Estamos aí para reduzir a escola a seu humilde e estreito limite; nada que possa hipotecar o futuro; uma simples oferta de instrumentos, entre os quais talvez seja possível escolher um de que se orgulhar no futuro.
Na educação, o que deve estar no centro de nossos afetos é que nossos filhos nunca percam o amor à vida. Esse sentimento pode tomar formas diversas, e às vezes um jovem desinteressado, solitário e esquivo não sofre de desamor à vida ou de opressão pelo medo de viver, mas simplesmente está num estado de espera, concentrado em preparar-se para a própria vocação. E o que é a vocação de um ser humano senão a mais alta expressão de seu amor à vida? Então devemos esperar, ao lado dele, que sua vocação desperte e ganhe corpo. Sua atitude pode parecer a da toupeira ou da lagartixa que fica imóvel, fingindo-se de morta: mas na realidade fareja e escruta o rastro do inseto, sobre o qual se lançará num salto. Ao lado dele, mas em silêncio e um pouco à parte, devemos esperar o estalo de seu espírito. Não devemos pretender nada; não devemos pedir ou esperar que seja um gênio, um artista, um herói ou um santo; no entanto devemos estar preparados para tudo; nossa expectativa e paciência devem conter a possibilidade do mais alto e do mais modesto destino.
Uma vocação, a paixão ardente e exclusiva por algo que não tenha nada a ver com o dinheiro, a consciência de ser capaz de fazer uma coisa melhor que os outros, e amar essa coisa acima de tudo, é a única possibilidade de um garoto rico não ser minimamente condicionado pelo dinheiro, de ser livre diante do dinheiro: de não sentir em meio aos demais nem orgulho pela riqueza, nem vergonha por ela. Ele nem se dará conta das roupas que usa, dos costumes que o circundam, e amanhã poderá passar por qualquer privação, porque a única fome e a única sede serão, nele, sua própria paixão, que devorará tudo o que é fútil e provisório, despojando-o de todo hábito ou atitude contraído na infância, reinando sozinha em seu espírito. Uma vocação é a única saúde e riqueza verdadeiras do homem.
Que possibilidades nos são dadas de despertar e estimular em nossos filhos o nascimento e o desenvolvimento de uma vocação? Não dispomos de muitas; entretanto talvez haja algumas. O nascimento e o desenvolvimento de uma vocação demandam espaço: espaço e silêncio — o livre silêncio do espaço. A relação que intercorre entre nós e nossos filhos deve ser uma troca viva de pensamentos e sentimentos, mas também deve compreender largas zonas de silêncio; deve ser uma relação íntima, sem no entanto misturar-se violentamente com a intimidade deles; deve ser um justo equilíbrio entre silêncio e palavras. Devemos ser importantes para os nossos filhos e, contudo, não demasiado importantes; devemos fazer com que gostem de nós, mas não demais: para que não queiram se tornar idênticos a nós, imitar-nos no ofício que fazemos, buscar nossa imagem nos companheiros que escolherão para sua vida. Com eles devemos manter uma relação de amizade: contudo não devemos ser excessivamente amigos, para que eles não tenham dificuldades em fazer verdadeiros amigos, aos quais possam dizer coisas que silenciam conosco. É preciso que sua busca por amigos, sua vida amorosa, sua vida religiosa, a busca por uma vocação sejam circundadas de silêncio e sombra, que se desenvolvam apartadas de nós. Nesse caso, podem me dizer que nossa intimidade com os filhos se reduziria a pouca coisa. Mas em nossa relação com eles deve estar contido tudo isso em linhas gerais, quer a vida religiosa, quer a vida intelectual, quer a vida afetiva e o julgamento sobre os seres humanos; devemos ser para eles um simples ponto de partida, oferecer-lhes o trampolim de onde darão o salto. E devemos estar ali para qualquer socorro, caso seja necessário; eles devem saber que não nos pertencem, mas nós, sim, pertencemos a eles, sempre disponíveis, presentes no quarto ao lado, prontos a responder como pudermos a qualquer pergunta possível, a qualquer pedido.
E, se nós mesmos tivermos uma vocação, se não a traímos, se continuamos a amá-la no decurso dos anos, a servi-la com paixão, podemos manter longe do coração, no amor que sentimos por nossos filhos, o sentimento de posse. Porém, se não tivermos uma vocação, ou se a tivermos abandonado e traído por cinismo, ou medo de viver, ou um amor paterno mal compreendido, ou por uma pequena virtude que se instala em nós, então nos agarramos aos nossos filhos como um náufrago ao tronco da árvore, pretendemos vigorosamente que nos devolvam tudo o que lhes demos, que sejam absoluta e implacavelmente tais como nós os queremos, que obtenham da vida tudo o que nos faltou; terminamos pedindo a eles tudo o que somente nossa vocação nos pode dar: queremos que sejam em tudo uma obra nossa, como se, por tê-los procriado uma vez, pudéssemos continuar procriando-os pela vida inteira. Queremos que eles sejam nossa obra em tudo, como se fossem não seres humanos, mas obra do espírito. Porém, se tivermos em nós uma vocação, se não a renegamos nem traímos, então podemos deixá-los germinar tranquilamente fora de nós, circundados da sombra e do silêncio que o brotar de uma vocação e de um ser requer. Esta talvez seja a única oportunidade real que temos de ajudá-los em alguma medida na busca de uma vocação: termos nós mesmos uma vocação, conhecê-la, amá-la e servi-la com paixão, porque o amor à vida gera amor à vida.

Natalia Ginzburg, in As pequenas virtudes

02/11/2020

Silêncio

          Ouvi Pelléas et Mélisande. Não entendo nada de música. Apenas me ocorreu comparar as palavras dos velhos libretos de ópera (“Pago com meu sangue — o amor que depositei em ti”), palavras gordas, sangrentas, pesadas, com as palavras de Pelléas et Mélisande (“J’ai froid — ta chevelure”), palavras esquivas, aquáticas. Do cansaço, do desgosto por palavras grandes e sangrentas, nasceram estas palavras aquáticas, frias, esquivas.
Perguntei-me se não foi ela (Pelléas et Mélisande) o princípio do silêncio.
Porque entre os vícios mais estranhos e mais graves de nossa época deve-se mencionar o silêncio. Aqueles entre nós que, hoje, experimentaram escrever um romance conhecem o mal-estar e a infelicidade que se instalam quando chega o momento de fazer as personagens falarem entre si. Por páginas e páginas nossas personagens trocam umas poucas observações insignificantes, mas carregadas de uma desolada tristeza: “Está com frio?”, “Não, não estou com frio”. “Quer um pouco de chá?”, “Não, obrigado.” “Está cansado?”, “Não sei. Sim, talvez esteja um pouco cansado.” Nossas personagens falam assim. Falam assim para enganar o silêncio. Falam assim porque não sabem mais como falar. Pouco a pouco vão emergindo as coisas mais importantes, as confissões mais terríveis: “Você o matou?”, “Sim, matei”. Arrancadas dolorosamente ao silêncio, emergem as poucas e estéreis palavras de nossa época, como sinais de náufragos, fogos acesos entre colinas longínquas, frágeis e desesperados chamados que o espaço engole.
Então, quando queremos que nossas personagens falem entre si, aí medimos o profundo silêncio que se adensou pouco a pouco dentro de nós. Começamos a nos calar desde jovens, à mesa, diante dos nossos pais, que ainda nos falavam com aquelas velhas palavras sangrentas e pesadas. Ficávamos calados. Ficávamos calados em protesto e por desdém. Ficávamos calados para que nossos pais entendessem que suas palavras gordas não nos serviam mais. Tínhamos outras guardadas no estoque. Ficávamos calados e cheios de confiança em nossas novas palavras. Gastaríamos essas novas palavras mais tarde, com gente que as entenderia. Éramos ricos do nosso silêncio. Agora ele nos causa vergonha e desespero, e conhecemos toda sua miséria. Nunca mais nos libertamos dele. Aquelas grandes palavras velhas, que serviam aos nossos pais, são moeda fora de circulação e ninguém as aceita. Quanto às novas palavras, percebemos que não têm valor: com elas não se compra nada. Não servem para estabelecer relações, são aquáticas, frias, infecundas. Não nos servem para escrever livros, nem para manter ligada a nós uma pessoa querida, nem para salvar um amigo.
Entre os vícios de nossa época, sabe-se que há o sentimento de culpa: dele se fala e se escreve muito. Todos sofremos disso. Sentimo-nos dia a dia mais envolvidos em um negócio sujo. Já se falou também do sentimento de pânico: e também dele todos nós sofremos. O sentimento de pânico nasce do sentimento de culpa. E quem se sente assustado e culpado se cala.
Do sentimento de culpa, do sentimento de pânico, do silêncio, cada um tenta se curar a seu modo. Alguns se lançam em viagens. Na ânsia de conhecer países novos e gente diversa há a esperança de deixar para trás os próprios fantasmas turvos; há a secreta esperança de descobrir em algum ponto da Terra a pessoa que poderá falar conosco. Alguns se embebedam para esquecer os próprios fantasmas turvos e para poder falar. E depois há todas as coisas feitas só para não ter de falar: uns passam as noites dormindo numa sala de projeção, com a mulher ao lado, e assim não precisam conversar; uns aprendem a jogar bridge; uns fazem amor, o que também pode ser feito sem que se diga uma palavra. Frequentemente se diz que essas coisas se fazem para passar o tempo: na verdade, as fazemos para enganar o silêncio.
Existem duas espécies de silêncio: o silêncio com nós mesmos e o silêncio com os outros. Ambas as formas nos fazem igualmente sofrer. O silêncio com nós mesmos é dominado por uma violenta antipatia que nos toma pelo nosso próprio ser, pelo desprezo à nossa própria alma, tão vil que não merece que se lhe diga nada. É claro que é preciso romper esse silêncio nosso se quisermos tentar romper o silêncio com os outros. É claro que não temos nenhum direito de odiar nossa própria pessoa, nenhum direito de calar nossos pensamentos à nossa alma.
O meio mais difundido para liberar-se do silêncio é fazer psicanálise. Falar incessantemente de si a uma pessoa que escuta, que é paga para escutar; pôr a nu as raízes do próprio silêncio: sim, isso talvez possa dar um alívio momentâneo. Mas o silêncio é universal e profundo. O silêncio, o reencontramos assim que saímos pela porta do consultório onde aquela pessoa, paga para escutar, escutava. Imediatamente caímos nele de novo. Então aquele alívio de uma hora nos parece superficial e banal. O silêncio está sobre a Terra: que um só de nós se cure dele por uma hora não serve à causa comum.
Quando nos submetemos à psicanálise, nos dizem que devemos parar de odiar tão fortemente a nós mesmos. Porém, para nos liberarmos desse ódio, para nos liberarmos do sentimento de culpa, do sentimento de pânico, do silêncio, nos é sugerido viver segundo a natureza, nos abandonarmos ao nosso instinto, seguir nosso puro prazer: fazer da vida uma pura escolha. Mas fazer da vida uma pura escolha não é viver segundo a natureza, é viver contra a natureza, porque não é dado ao homem escolher sempre; o homem não escolheu a hora de seu nascimento, nem o próprio rosto, nem os próprios pais, nem a própria infância: o homem não escolhe, no mais das vezes, a hora de sua morte. O homem então só pode aceitar o próprio rosto, assim como só pode aceitar o próprio destino: e a única escolha que lhe é permitida é aquela entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, entre a verdade e a mentira. As coisas que os analistas a quem nos submetemos nos dizem não servem porque não levam em conta nossa responsabilidade moral, a única coisa que nos é consentida na vida: aqueles de nós que fazem análise sabem muito bem como aquela efêmera atmosfera de liberdade, que se gozava vivendo segundo nosso puro prazer, era uma atmosfera rarefeita, antinatural, decididamente irrespirável.
Frequentemente esse vício do silêncio que envenena nossa época é expresso com um lugar-comum: “Perdeu-se o gosto da conversação”. É a expressão fútil, mundana, de algo verdadeiro e trágico. Ao dizermos “o gosto da conversação” nós não dizemos nada que nos ajude a viver: mas a possibilidade de uma relação livre e normal entre os homens, isto sim, nos falta, e nos falta a ponto de alguns de nós terem se matado pela consciência desta privação. O silêncio ceifa suas vítimas todo dia. O silêncio é uma doença mortal.
Jamais como hoje a sorte dos homens esteve tão estreitamente conectada, umas às outras, de modo que o desastre de um é o desastre de todos. Então se verifica este fato estranho: que os homens se encontram estreitamente ligados uns ao destino dos outros, de modo que a queda de um arrasta milhares de outros seres, e ao mesmo tempo todos estão sufocados pelo silêncio, incapazes de trocar uma palavra em liberdade. Por isso — porque o desastre de um é o desastre de todos — os meios que nos são oferecidos para nos curarmos do silêncio se revelam insubsistentes. Sugerem-nos que lancemos mão do egoísmo para nos defender do desespero. Mas o egoísmo nunca resolveu nenhum desespero. Estamos habituados até demais a chamar de doenças os vícios de nossa alma e a suportá-los, a nos deixar governar por eles, ou a mitigá-los com xaropes doces, tratá-los como se fossem doenças. O silêncio deve ser contemplado e julgado no âmbito da moral. Não nos é dado escolher ser feliz ou infeliz. Mas é preciso escolher não ser diabolicamente infeliz. O silêncio pode atingir uma forma de infelicidade fechada, monstruosa, diabólica: murchar os dias da juventude, tornar o pão amargo. Pode levar, como já se disse, à morte.
O silêncio deve ser contemplado e julgado no âmbito da moral. Porque o silêncio, assim como a acídia e a luxúria, é um pecado. O fato de que seja um pecado comum a todos os semelhantes de nossa época, de que seja o fruto amargo de nossa época malsã, não nos exime da obrigação de reconhecer sua natureza e de chamá-lo por seu verdadeiro nome.

Natalia Ginzburg, in As pequenas virtudes

24/10/2020

O filho do homem

          Houve a guerra e vimos desmoronar muitas casas e agora não nos sentimos mais seguros em casa como antes, quando estávamos quietos e seguros. Há algo de que não se cura, e os anos vão passando, mas não nos curamos nunca. Quem sabe teremos de novo uma luminária sobre a mesa e um vaso de flores e os retratos dos nossos queridos, mas não acreditamos mais em nenhuma dessas coisas, porque antes tivemos de abandoná-las de repente ou as procuramos em vão entre os escombros.
É inútil acreditar que podemos sair curados de vinte anos como aqueles que passamos. Os que foram perseguidos nunca mais reencontrarão a paz. Um toque insistente de campainha à noite não pode significar outra coisa para nós que não a palavra “delegacia”. E é inútil dizer e repetir a nós mesmos que por trás da palavra “delegacia” agora talvez haja rostos amigáveis, a quem poderíamos pedir proteção e assistência. Em nós essa palavra sempre provoca desconfiança e assombro. Se observo meus meninos dormindo, penso com alívio que não precisarei acordá-los no meio da noite para fugir. Mas não é um alívio pleno e profundo. Sempre acho que mais cedo ou mais tarde precisaremos nos levantar de novo na noite e escapar e deixar tudo para trás, quartos quietos e cartas e lembranças e roupas.
Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal. Quem viu as casas desabando sabe muito bem quanto são precários os vasos de flor, os quadros, as paredes brancas. Sabe muito bem de que é feita uma casa. Uma casa é feita de tijolos e argamassa, e pode desabar. Uma casa não é tão sólida. Pode desabar de um momento para outro. Atrás dos serenos vasos de flor, atrás das chaleiras, dos tapetes, dos pavimentos lustrosos de cera há o outro vulto verdadeiro da casa, o vulto atroz da casa caída.
Não nos curaremos nunca desta guerra. É inútil. Jamais seremos gente tranquila, gente que pensa e estuda e modela sua vida em paz. Vejam o que aconteceu com nossas casas. Vejam o que aconteceu com a gente. Nunca vamos ser gente sossegada.
Conhecemos a realidade em sua face mais terrível. Mas já nem sentimos mais desgosto. Ainda há alguns que se queixam de que os escritores se servem de uma linguagem amarga e violenta, que contam coisas duras e tristes, que apresentam a realidade em seus termos mais desolados.
Nós não podemos mentir nos livros, nem podemos mentir em nenhuma das coisas que fazemos. E talvez este seja o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam a nós. Assim somos, os jovens de agora, assim é a nossa geração. Os mais velhos ainda são muito apegados à mentira, aos véus e às máscaras que recobrem a realidade. Nossa linguagem os entristece e ofende. Não entendem nossa atitude diante da realidade. Nós estamos perto da substância das coisas. Esse é o único bem que a guerra nos deu, mas só nos deu a nós, jovens. Aos outros, mais velhos que nós, a guerra só trouxe insegurança e medo. E também nós, os jovens, temos medo, também nós nos sentimos inseguros em nossas casas, mas não estamos indefesos diante desse medo. Temos uma dureza e uma força que os outros, antes de nós, jamais conheceram.
Para alguns a guerra só começou com a guerra, com as casas desmoronadas e os alemães, mas para outros ela começou antes, desde os primeiros anos do fascismo, e por isso a sensação de insegurança e de permanente perigo é ainda maior. O perigo, a sensação de precisar se esconder, a sensação de precisar deixar de repente o calor da cama e das casas, começou, para tantos de nós, há muitos anos. Insinuou-se nas diversões juvenis, nos acompanhou nos bancos de escola e nos ensinou a ver inimigos em todo lado. Assim foi para muitos de nós, na Itália e em outros lugares, e se acreditava que um dia poderíamos caminhar em paz pelas ruas de nossas cidades; mas hoje, quando talvez possamos caminhar em paz, hoje nos damos conta de que não nos curamos daquele mal. Assim somos constrangidos a buscar sempre novas forças, sempre uma nova dureza para contrapor a qualquer realidade. Somos impelidos a buscar uma serenidade interior que não nasce dos tapetes e dos vasos de flor.
Não há paz para o filho do homem. As raposas e os lobos têm seus covis, mas o filho do homem não tem onde pousar a cabeça. Nossa geração é uma geração de homens. Não é uma geração de raposas e de lobos. Cada um de nós teria grande vontade de pousar a cabeça em algum lugar, cada um gostaria de ter uma pequena toca enxuta e aquecida. Mas não há paz para os filhos dos homens. Cada um de nós uma vez na vida se iludiu achando que podia dormir sobre qualquer coisa, apossar-se de uma certeza qualquer, de uma fé qualquer, e então repousar o corpo. Mas todas as certezas de antes nos foram arrancadas, e a fé jamais será algo em que enfim se possa mergulhar no sono.
E agora somos gente sem lágrimas. O que comovia nossos pais já não nos comove nada. Nossos pais e as pessoas mais velhas que nos reprovam pelo modo como criamos os meninos. Queriam que mentíssemos aos nossos filhos como eles mentiam a nós. Queriam que nossas crianças se divertissem com bonecos de pelúcia em graciosos cômodos pintados de rosa, com arvorezinhas e coelhos estampados nas paredes. Queriam que cercássemos de véus e de mentiras a infância deles, que lhes ocultássemos cuidadosamente a realidade em sua verdadeira substância. Mas nós não podemos fazer isso. Não podemos fazer isso com crianças que acordamos no meio da noite e vestimos ansiosamente no escuro, para fugir ou nos esconder ou porque a sirene de alarme rasgava o céu. Não podemos fazer isso com crianças que viram o assombro e o horror em nossa cara. Não podemos começar a contar a essas crianças que elas foram trazidas pela cegonha, ou lhes dizer que os mortos partiram numa longa viagem.
Há um abismo intransponível entre nós e as gerações anteriores. Os perigos que eles corriam eram irrisórios, e suas casas só desmoronavam muito raramente. Terremotos e incêndios não eram fenômenos que se verificassem com frequência e para todos. As mulheres tricotavam malhas, ordenavam o almoço à cozinheira e recebiam as amigas em casas que não desabavam. Cada qual meditava e estudava e esperava organizar sua vida em paz. Era um outro tempo, e talvez se vivesse bem. Mas nós estamos atados a esta nossa angústia e, no fundo, satisfeitos com nosso destino de homens.

Natalia Ginzburg, in As pequenas virtudes

11/10/2020

Ele e eu

 

Leone e Natalia Ginzburg

Ele sempre tem calor; eu, sempre frio. No verão, quando realmente está quente, só faz se lamentar do grande calor que sente. E se irrita quando me vê vestindo um pulôver à noite.
Ele sabe falar bem algumas línguas; eu não falo bem nenhuma. Ele consegue até falar, num modo todo seu, certas línguas que desconhece.
Ele tem um grande senso de orientação; eu, nenhum. Em cidades estrangeiras, depois de um dia, ele se movimenta com a leveza de uma borboleta. Eu me perco em minha própria cidade e preciso pedir informações para voltar para casa. Ele odeia pedir informações; quando andamos por cidades desconhecidas, de carro, se recusa a pedir indicações e me manda olhar o mapa. Eu não sei decifrar os mapas, me confundo com aquelas bolinhas vermelhas, e ele se irrita.
Ele adora teatro, pintura e música — especialmente a música. Eu não entendo nada de música, me interesso bem pouco por pintura e me entedio no teatro. Amo e compreendo uma só coisa no mundo, que é a poesia.
Ele ama os museus, e eu o acompanho com esforço, com uma desagradável sensação de dever e de cansaço.
Ele ama as bibliotecas, e eu as odeio. Ele ama as viagens, as cidades estrangeiras e desconhecidas, os restaurantes. Eu ficaria sempre em casa, sem sair nunca.
No entanto o acompanho em muitas viagens. Vou aos museus, às igrejas, à ópera. Vou até aos concertos, e durmo.
Como ele conhece muitos maestros e cantores, gosta de ir, após o espetáculo, confraternizar com eles. Eu o sigo por intermináveis corredores que conduzem aos camarins dos cantores e o escuto falando com pessoas vestidas de cardeais e de reis.
Não é tímido; e eu sou tímida. Certas vezes, porém, o vi tímido. Com os policiais, quando se aproximam do nosso carro armados de lápis e bloco. Diante deles se torna tímido, sentindo-se em falta.
E mesmo não se sentindo em falta. Creio que nutra um respeito pela autoridade constituída.
Eu tenho medo da autoridade constituída; ele, não. Ele sente respeito. É diferente. Se vejo um policial se aproximando para nos multar, logo penso que vai nos levar para a cadeia. Já ele não pensa na cadeia; mas, por respeito, se torna tímido e gentil.
Por isso, por seu respeito diante da autoridade constituída, na época do julgamento de Montesi nós brigamos até o delírio.
Ele gosta de talharim, de cordeiro, de cerejas, de vinho tinto. Eu gosto de minestrone, de açorda, de fritada, de verduras.
Ele costuma me dizer que eu não entendo nada em matéria de comida; e que sou como certos frades robustos, que devoram sopa de legumes à sombra de seus conventos; já ele, ele é um refinado, de paladar sensível. Nos restaurantes, se informa demoradamente sobre os vinhos; manda trazer duas ou três garrafas, as observa e reflete, cofiando a barba bem devagar.
Na Inglaterra há certos restaurantes em que o garçom cumpre este pequeno cerimonial: serve ao cliente dois dedos de vinho na taça para que ele diga se é de seu agrado. Ele odiava este pequeno cerimonial; e todas as vezes impedia o garçom de cumpri-lo, tirando-lhe a garrafa das mãos. Eu o desaprovava, observando que a cada um deve ser permitido levar a cabo suas próprias atribuições.
Assim, no cinema, nunca deixa que a lanterninha o acompanhe até seu lugar. Saca logo uma gorjeta, mas sempre foge para lugares diferentes daqueles que a lanterninha lhe indica com a luz.
No cinema, faz questão de se sentar muito perto da tela. Quando vamos com amigos e todos procuram, como a maior parte das pessoas, um lugar afastado da tela, ele se refugia sozinho numa das primeiras filas. Eu vejo bem, indiferentemente, de perto e de longe; mas, estando com amigos, fico com eles, por gentileza; no entanto sofro, porque pode ser que ele, em seu lugar a dois palmos da tela, fique aborrecido comigo porque não me sentei a seu lado.
Nós dois adoramos cinema; e estamos sempre dispostos a assistir, em qualquer momento do dia, a qualquer espécie de filme. Mas ele conhece a história do cinema em cada mínimo detalhe; lembra-se de diretores e de atores, inclusive dos mais antigos, há muito tempo desaparecidos e esquecidos; e está pronto a andar quilômetros, nas mais remotas periferias, em busca de filmes antiquíssimos, da era do mudo, onde quem sabe aparecerá por poucos segundos um ator querido de suas mais longínquas memórias de infância. Recordo, em Londres, a tarde de um domingo; exibiam num subúrbio distante, nos limites da zona rural, um filme sobre a Revolução Francesa, um filme dos anos 1930, que ele tinha visto quando era menino, no qual aparecia por alguns instantes uma atriz famosa naquele tempo. Saímos de carro à procura daquela rua perdida nas lonjuras; estava chovendo, havia neblina, vagamos horas e horas por subúrbios todos iguais, entre filas cinzentas de pequenas casas, calhas, lampiões e cancelas; sobre os joelhos eu tinha um mapa aberto, que não conseguia decifrar, e ele se irritava; por fim, encontramos o cinema e nos sentamos numa sala completamente deserta. Mas, depois de quinze minutos, ele já queria ir embora, logo após a breve aparição da atriz que ele adorava; eu, porém, depois de tanta estrada, queria ver como o filme terminava. Não me lembro se prevaleceu a vontade dele ou a minha; talvez a dele, e a gente tenha ido embora depois de quinze minutos; até porque já estava escuro e, embora a gente tivesse saído de casa no início da tarde, já era hora do jantar. No entanto, ao lhe pedir que me contasse como a história acabava, não obtive nenhuma resposta que me contentasse; porque — ele dizia — a história não tinha importância nenhuma, a única coisa que contava eram aqueles poucos instantes, o perfil, o gesto, os caracóis daquela atriz.
Nunca me lembro do nome dos atores; e, como não sou boa fisionomista, às vezes tenho dificuldade de reconhecer até os mais famosos. Isso o irrita muitíssimo; pergunto-lhe quem é sicrano ou beltrano, suscitando seu desdém; “não vá me dizer”, diz, “não vá me dizer que não reconheceu William Holden!”.
E de fato eu não tinha reconhecido William Holden. Apesar disso, também amo o cinema; mas, mesmo assistindo a filmes há tantos anos, eu não soube formar uma cultura cinematográfica. Ele, ao contrário, formou essa cultura: formou uma cultura sobre tudo o que atrai sua curiosidade; e eu não soube formar uma cultura sobre coisa nenhuma, nem sobre as coisas que mais amei na vida: elas ficaram em mim como imagens esparsas, alimentando minha vida de memórias e de emoções, mas sem preencher o vazio, o deserto de minha cultura.
Ele me diz que me falta curiosidade: mas não é verdade. Sinto curiosidade por poucas, pouquíssimas coisas; e, depois de conhecê-las, conservo delas algumas imagens esparsas, a cadência de uma frase ou de uma palavra. Mas meu universo, onde tais cadências e imagens afloram isoladas umas das outras sem estar ligadas por nenhuma trama senão secreta, a mim mesma desconhecida e invisível, é árido e melancólico. Já o universo dele é exuberantemente verde, exuberantemente povoado e cultivado, um campo fértil e irrigado onde surgem bosques, pastos, hortos e vilarejos.
Para mim, qualquer atividade é sumamente difícil, árdua, incerta. Sou muito preguiçosa e tenho uma absoluta necessidade de não fazer nada, sobretudo se quero concluir alguma coisa, e ficar deitada por longas horas nos sofás. Ele nunca está ocioso, sempre faz alguma coisa; escreve à máquina com extrema rapidez, com o rádio ligado; quando vai descansar de tarde, leva provas de livro para corrigir ou um volume cheio de notas; no mesmo dia, quer que a gente vá ao cinema, depois a uma recepção, depois ao teatro. No mesmo dia, consegue fazer — e me convencer a fazer — um mundo de coisas diferentes, encontrando as pessoas mais disparatadas; quanto a mim, se estou sozinha e tento fazer que nem ele, não chego a lugar nenhum, porque, ali onde pretendia ficar só meia hora, me vejo bloqueada pelo resto da tarde, ou porque me perco e não acho as ruas certas, ou porque a pessoa mais tediosa e que eu menos queria ver me arrasta ao lugar aonde eu menos desejava ir.
Se conto a ele como foi minha tarde, ele a considera uma tarde perdida e se diverte, debocha de mim e se irrita; e diz que eu, sem ele, não sirvo para nada.
Eu não sei administrar o tempo. Ele sabe.
Adora as recepções. Vai vestido de terno claro, quando todos estão vestidos de escuro; a ideia de mudar de roupa para ir a uma recepção nem lhe passa pela cabeça. Vai inclusive com seu velho impermeável e com o chapéu desbeiçado: um chapéu de lã que comprou em Londres e que usa enterrado até os olhos. Fica ali somente meia hora, pois ele gosta de conversar por meia hora com um copo na mão; come muitos salgadinhos, e eu, quase nenhum, porque ao vê-lo comer tantos penso que, por educação e decoro, pelo menos eu devo abster-me de comer; depois de meia hora, quando começo a ambientar-me um pouco e a me sentir bem, ele fica impaciente e me leva embora.
Eu não sei dançar, e ele sabe.
Não sei escrever à máquina; e ele sabe.
Não sei guiar automóvel. Se lhe proponho também tirar a habilitação, ele não quer. Diz que eu nunca vou conseguir mesmo. Acho que ele gosta que eu dependa dele, em tantos aspectos.
Não sei cantar, e ele sabe. É um barítono. Se tivesse estudado canto, quem sabe teria se tornado um cantor famoso.
Se tivesse estudado música, talvez tivesse sido um grande maestro. Quando ouve os discos, rege a orquestra com um lápis. Enquanto isso, escreve à máquina e atende o telefone. É um homem que consegue fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
É professor, e creio que seja bom nisso.
Poderia ter seguido várias profissões. Mas não lamenta nenhuma das que descartou. Eu só poderia fazer um ofício, um ofício apenas: o ofício que escolhi, e que sigo, quase desde a infância. Também não lamento nenhuma das profissões que não segui: de qualquer modo, eu não saberia fazer outra coisa.
Escrevo histórias, e trabalhei muitos anos numa editora.
Não trabalhava mal, mas tampouco bem. Entretanto me dava conta de que talvez não soubesse trabalhar em nenhum outro lugar. Tinha relações de amizade com meus companheiros de trabalho e com meu patrão. Sentia que, se não tivesse tido ao meu redor essas relações de amizade, teria me apagado e não saberia mais trabalhar.
Cultivei por muito tempo a ideia de um dia poder trabalhar com roteiros de cinema. Mas nunca tive a ocasião, ou não soube ir atrás dela. Agora já perdi as esperanças de poder trabalhar com roteiros. Ele trabalhou com roteiros certa época, quando era mais jovem. Trabalhou também numa editora. Escreveu histórias. Ele fez todas as coisas que eu fiz, e mais muitas outras.
Imita bem as pessoas, especialmente uma velha condessa. Talvez pudesse ter sido até ator.
Uma vez, em Londres, cantou num teatro. Era Jó. Teve de alugar um fraque; e estava lá, de fraque, diante de uma espécie de púlpito; e cantava. Cantava as palavras de Jó; algo entre o recitativo e o canto. Eu, num camarote, morria de medo. Tinha medo de que se engasgasse, ou que a calça do fraque arriasse.
Estava cercado por homens de fraque e senhoras com vestidos de noite, que eram os anjos e os diabos e as outras personagens de Jó.
Foi um grande sucesso, e lhe disseram que ele era muito bom.
Se eu gostasse de música, a teria amado com paixão. Porém não a entendo; e nos concertos, quando ele às vezes me força a acompanhá-lo, me distraio e fico pensando em minhas coisas. Ou então caio num profundo sono.
Gosto de cantar. Não sei cantar, sou desafinadíssima; mas canto de vez em quando, bem baixinho, nos momentos em que estou sozinha. Sei que sou muito desafinada porque todos me dizem; minha voz deve ser como o miado de um gato. Mas eu, por mim, não percebo nada; e sinto, ao cantar, um profundo prazer. Se ele me ouve, começa a me arremedar; diz que meu canto é algo que está fora da música; algo inventado por mim.
Quando era menina, murmurava certas melodias que eu mesma inventava. Era uma longa melopeia lamentosa, que me enchia os olhos de lágrimas.
Não me importo se não entendo a pintura, as artes figurativas; mas sofro por não amar a música, porque me parece que meu espírito sofre com a privação desse amor. Mas não há nada a fazer; nunca vou entender a música, nem vou amá-la. Se às vezes escuto uma música que me agrada, não consigo recordá-la; e como poderia amar uma coisa que não sei recordar?
De uma canção, lembro das palavras. Posso repetir ao infinito as palavras que amo. Repito também o motivo que as acompanha, mas a meu modo, com os meus miados; e experimento, miando assim, uma espécie de felicidade.
Tenho a impressão de seguir, quando escrevo, uma cadência e um metro musical. Talvez a música estivesse muito próxima do meu universo; e meu universo, sabe-se lá por que, não a acolheu.
Todo dia se ouve música em nossa casa. Ele deixa o rádio ligado o dia inteiro. Ou põe discos. De vez em quando eu protesto, peço um pouco de silêncio para poder trabalhar; mas ele diz que uma música tão bela é certamente salutar para qualquer trabalho.
Comprou um número incrível de discos. Possui — diz ele — uma das discotecas mais belas do mundo.
De manhã, metido num roupão e ainda gotejante da água do banho, liga o rádio, se senta diante da máquina de escrever e começa sua laboriosa, tempestuosa e rumorosa jornada. É excessivo em tudo: enche a banheira até que ela transborde; enche a chaleira e a xícara até fazê-las derramar. Tem um número enorme de camisas e gravatas. Mas raramente compra sapatos.
Desde menino, segundo a mãe, era um modelo de ordem e precisão; e parece que certa vez em que teve de atravessar riachos cheios de lama, num dia de chuva no campo, com botinhas brancas e roupa branca, no final do passeio estava imaculado, sem uma mancha de lama na roupa ou nas botas. Agora não há mais nada nele do antigo, imaculado menino. Suas roupas estão sempre cheias de manchas. Tornou-se o rei da desordem.
Conserva, porém, minuciosamente, todas as contas de gás. Nas gavetas encontro antigas contas de gás ou recibos de hotéis deixados há tempos, que ele se recusa a jogar fora.
Também encontro charutos toscanos, velhíssimos e ressecados, e boquilhas de cerejeira.
Eu fumo cigarros Stop, longos, sem filtro. Ele, às vezes, os charutos toscanos.
Eu sou muito desordenada. Mas ao envelhecer me tornei saudosa da ordem, e por isso às vezes reordeno os armários com grande zelo. Uma lembrança, creio, de minha mãe. Reorganizo os armários dos lençóis, dos cobertores, e forro cada gaveta, no verão, com panos cândidos. Raramente organizo meus papéis, porque minha mãe, não tendo o costume de escrever, não tinha papéis. Minha ordem e minha desordem são cheias de remorso, de pesar, de sentimentos complexos. A desordem dele é triunfante. Decidiu que, para uma pessoa como ele, que estuda, ter a mesa em desordem é legítimo e justo.
Ele não melhora, em mim, a indecisão, a incerteza em cada ação, o sentimento de culpa. Costuma rir e caçoar de mim por qualquer coisa que eu faça. Se vou às compras no mercado, ele às vezes me segue, escondido, e me espia. Depois debocha de mim pelo modo como fiz as compras, como sopesei as laranjas na mão, escolhendo cuidadosamente, ele diz, as piores de todo o mercado, zomba porque demorei uma hora nas compras, comprei as cebolas numa banca, em outra o aipo, em outra as frutas. Às vezes é ele quem faz as compras, para me mostrar como se pode fazê-las muito mais rápido: compra tudo numa única banca, sem nenhum titubeio; e consegue que mandem o cesto para casa. Não compra aipo, porque não o suporta.
Assim, e cada vez mais, tenho a sensação de errar em cada coisa que faço. Mas, se alguma vez descubro que foi ele quem errou, repito isso até a exasperação. Porque às vezes sou chatíssima.
Suas raivas são repentinas, transbordam feito espuma de chope. Minhas raivas também são repentinas. Mas as dele evaporam logo; já as minhas deixam um rastro lamentoso e insistente, acho que muito enfadonho, uma espécie de miado amargo.
Às vezes choro durante o turbilhão de suas fúrias; e meu choro, em vez de compadecê-lo e aplacá-lo, deixa-o ainda mais furioso. Diz que meu choro é somente uma comédia; e talvez seja verdade. Porque, em meio às minhas lágrimas e à sua fúria, me mantenho plenamente tranquila. 
Sobre minhas dores reais, não choro nunca.
Antigamente, em meus acessos de fúria, costumava atirar pratos e louças no chão. Mas agora, não. Talvez porque eu tenha envelhecido e minhas crises de raiva sejam menos violentas; além disso, não teria coragem de tocar em nossos pratos, aos quais me afeiçoei e que um dia compramos em Londres, na Portobello Road.
O preço desses pratos e de muitas outras coisas que compramos sofreu, na memória dele, uma forte desvalorização. Porque ele gosta de pensar que gastou pouco, que fez um bom negócio. Eu sei o preço daquele aparelho de jantar, que custou dezesseis libras esterlinas; mas ele diz que foram doze. O mesmo com o quadro do rei Lear que está em nossa sala de jantar: um quadro que ele também comprou na Portobello, e que limpou com cebolas e batatas; e agora diz ter pagado por ele uma cifra bem menor daquela que me lembro.
Anos atrás, comprou doze tapetes de cama no Standard. Comprou porque estavam baratos, e ele achou bom fazer um estoque; comprou para criar polêmica, por pensar que eu não sei comprar nada para a casa. Esses tapetinhos de esteira de vime cor de vinho se tornaram em pouco tempo repulsivos: ficaram de uma rigidez cadavérica; e eu os odiava, ali, pendurados no arame da área da cozinha. Eu costumava jogá-los na cara dele, como exemplo de má despesa; mas ele dizia que tinham custado pouco, pouquíssimo, quase nada. Foi preciso um bom tempo antes de conseguir jogá-los no lixo: porque eram realmente muitos, e também porque, no momento de jogá-los fora, fiquei em dúvida se não poderiam servir de trapo. Temos, eu e ele, certa dificuldade em jogar as coisas fora: em mim, deve ser uma forma judaica de preservação, e também fruto de minha grande incerteza; nele, deve ser uma defesa à sua falta de parcimônia e sua impulsividade.
Ele costuma comprar, em grande quantidade, bicarbonato e aspirina.
Às vezes adoece de seus misteriosos achaques; não sabe explicar o que sente; fica na cama por um dia, todo enrolado nos lençóis; só se vê sua barba, e a ponta do nariz vermelho. Então ele toma bicarbonato e aspirina em doses cavalares; e diz que eu não posso entendê-lo, porque eu, eu estou sempre bem, sou como aqueles fradalhões robustos, que se expõem sem perigo ao vento e às intempéries; ele, ao contrário, é fino e delicado, sofre de doenças misteriosas. À noite já está curado, e vai à cozinha fazer talharim.
Quando jovem, era bonito, magro, esbelto, ainda não usava barba, mas bigodes longos e macios; e se parecia com o ator Robert Donat. Era assim quase vinte anos atrás, quando o conheci; e vestia, lembro bem, camisas escocesas de flanela, elegantes. Lembro que certa noite me acompanhou até a pensão onde eu morava; caminhamos juntos pela via Nazionale. Eu já me sentia muito velha, carregada de experiência e de erros; e ele me parecia um rapaz, mil séculos longe de mim. O que nos dissemos naquela noite, na via Nazionale, não consigo lembrar; nada de importante, suponho; a ideia de que um dia nos tornaríamos marido e mulher estava séculos distante de mim. Depois nos perdemos de vista; e, quando nos encontramos de novo, não se parecia mais com Robert Donat, e sim com Balzac. Quando nos encontramos de novo, ainda usava aquelas camisas escocesas; mas agora elas pareciam, nele, indumentos para uma expedição polar; agora usava barba e, na cabeça, o desbeiçado chapeuzinho de lã; e tudo nele fazia pensar numa partida iminente para o polo Norte. Porque, mesmo sempre sentindo calor, ele costuma vestir-se como se estivesse cercado de neve, de gelo e de ursos-brancos; ou então se veste como um plantador de café no Brasil; mas sempre se veste diferente de toda a gente.
Se lhe recordo aquele nosso antigo passeio pela via Nazionale, ele diz que se lembra, mas eu sei que está mentindo e não se lembra de nada; às vezes me pergunto se éramos nós, aquelas duas pessoas, quase vinte anos atrás pela via Nazionale; duas pessoas que conversaram tão gentilmente, civilizadamente, no sol que se punha; que talvez tenham falado um pouco de tudo, e de nada; dois amáveis conversadores, dois jovens intelectuais a passeio; tão jovens, tão educados, tão distraídos, tão dispostos a fazer um do outro um juízo distraidamente benévolo; tão dispostos a despedir-se um do outro para sempre, naquele pôr do sol, naquela esquina de rua.

Natalia Ginzburg, in As pequenas virtudes

30/09/2020

Inverno em Abruzzo

Deus nobis haec otia fecit.*

Em Abruzzo só há duas estações: o verão e o inverno. A primavera é coberta de neve e cheia de ventos como o inverno, e o outono é quente e límpido como o verão. O verão começa em junho e termina em novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e queimadas, a poeira amarela da estrada e a disenteria das crianças terminam, e o inverno começa. Então as pessoas deixam as ruas: os meninos descalços somem das escadarias da igreja. Na cidade de que estou falando, quase todos os homens desapareciam depois das últimas colheitas: iam trabalhar em Terni, em Sulmona, em Roma. A cidade era um vilarejo de pedreiros: e algumas casas eram construídas com graça, tinham terraços e coluninhas como pequenas mansões, e causava espanto encontrar, na entrada, grandes cozinhas escuras com presuntos pendurados e amplos cômodos esquálidos e vazios. Nas cozinhas, o fogareiro ficava aceso e havia vários tipos de fogo, havia grandes fogos feitos com toras de carvalho, fogos de galhos e folhas, fogos de gravetos recolhidos um a um pelas ruas. Era mais fácil identificar os pobres e os ricos olhando o fogareiro aceso do que observando as casas e as pessoas, as roupas e os sapatos, que eram mais ou menos iguais para todos.

Quando cheguei a essa cidade, nos primeiros tempos, todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam, ricas e pobres, jovens e velhas. Quase todas tinham a boca desdentada: ali as mulheres perdem os dentes aos trinta anos, por cansaço ou má alimentação, pelos maus-tratos dos parceiros e dos aleitamentos que se sucedem sem trégua. Mas depois, pouco a pouco, comecei a distinguir Vincenzina de Secondina, Annunziata de Addolorata, e comecei a entrar em cada casa e a me esquentar naqueles diversos fogareiros.

Quando a primeira neve começava a cair, uma lenta tristeza se apossava de nós. Aquilo era um exílio: nossa cidade estava longe, e longe estavam nossos livros, os amigos, as várias e cambiantes vicissitudes de uma verdadeira existência. Acendíamos nossa estufa verde, com o longo tubo que atravessava o teto: nos reuníamos todos na sala onde ficava a estufa, e ali se cozinhava e comia, meu marido escrevia na grande mesa oval, os meninos espalhavam os brinquedos no pavimento. No teto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a águia e pensava que aquilo era o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que chiava, era o vasto e silencioso campo e a neve imóvel. Às cinco os sinos da igreja de Santa Maria tocavam, e as mulheres iam receber a bênção com seus xales pretos e os rostos vermelhos. Todas as tardes meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braços dados, afundando os pés na neve. As casas que margeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga, e todos vinham à porta e nos diziam: “Muita saúde e paz”. Alguém às vezes perguntava: “Mas quando vão voltar para casa?”. E meu marido dizia: “Quando terminar a guerra”. “E quando essa guerra acaba? Você, que sabe tudo e é um professor, quando vai acabar?” Chamavam meu marido de “o professor”, já que não sabiam pronunciar seu nome, e vinham de longe para consultá-lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor estação do ano para arrancar os dentes, sobre os subsídios que a prefeitura dava e sobre as taxas e os impostos.

No inverno alguns velhos partiam por causa de uma pneumonia, os sinos de Santa Maria dobravam, e Domenico Orecchia, o marceneiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu, a levaram ao manicômio de Collemaggio e a cidade falou disso por um bocado de tempo. Era uma mulher jovem e asseada, a mais asseada de toda a cidade: disseram que tinha ficado assim por excesso de asseio. Gigetto di Calcedonio teve duas gêmeas, além dos dois gêmeos que já tinha em casa, e fez um escarcéu na prefeitura porque lhe negavam o subsídio, visto que possuía muitos lotes de terra e uma horta maior que a cidade. Quanto a Rosa, a bedel da escola, uma vizinha lhe cuspiu no olho e ela circulava com esse olho enfaixado, para que lhe pagassem uma indenização. “O olho é delicado, o cuspe é salgado”, explicava. E sobre isso também se falou um bocado, até que não houve mais nada a dizer.

A saudade aumentava dia a dia em nós. Certas vezes era até prazerosa, como uma companhia terna e levemente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade com notícias de casamentos e de mortes dos quais éramos excluídos. Às vezes a saudade era aguda e amarga, e se tornava ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos oculto, reconhecendo que era injusto: e nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha tanto para pedir favores quanto para oferecê-los. Às vezes a costureirinha vinha preparar sagnoccole. Metia um pano na cintura, batia os ovos e mandava Crocetta circular pela cidade em busca de um caldeirão emprestado, mas daqueles bem grandes. Seu rosto vermelho ficava absorto e os olhos resplandeciam numa vontade imperiosa. Teria incendiado a casa para que suas sagnoccole ficassem boas. O vestido e os cabelos se cobriam de farinha branca, e sobre a mesa oval onde meu marido escrevia eram colocadas as sagnoccole.

Crocetta era nossa empregada. Ainda nem era uma mulher, porque tinha apenas catorze anos. Foi a costureira que a encontrou para nós. A costureira dividia o mundo em dois times: os que se penteiam e os que não se penteiam. Dos que não se penteiam era preciso manter distância, porque naturalmente tinham piolhos. Crocetta se penteava: por isso veio trabalhar para nós, e contava aos meninos longas histórias de mortos e cemitérios. Era uma vez um menino que perdeu a mãe. Seu pai arranjou outra mulher, e a madrasta não gostava do menino. Por isso o matou enquanto o pai estava no campo e com ele fez um ensopado. O pai volta para casa e come, mas, depois de comer, os ossos que ficaram no prato se puseram a cantar:

E la mia trista matrea

Mi ci ha cotto in caldarea

E mio padre ghiottò

Mi ci ha fatto ’nu bravo boccò. **

Aí o pai mata a mulher com uma foice e a pendura num prego diante da porta. Às vezes me pego murmurando as palavras dessa canção, e então toda a cidade ressurge diante de mim, e com ela o sabor específico daquelas estações, com o sopro gelado do vento e o repicar dos sinos.

Toda manhã eu saía com meus meninos, e o pessoal se espantava e desaprovava que eu os expusesse ao frio e à neve. “Que mal fizeram essas criaturas?”, diziam. “Não é tempo de passear, senhora. Volte para casa.” Caminhávamos longamente pelos campos brancos e desertos, e as raras pessoas que eu encontrava olhavam os meninos com piedade. “Mas que pecado eles cometeram?”, me diziam. Lá, quando nasce uma criança no inverno, não a levam para fora do quarto até que chegue o próximo verão. Ao meio-dia meu marido vinha me encontrar com a correspondência, e voltávamos todos juntos para casa.

Eu falava aos meninos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixamos, não tinham nenhuma lembrança dela. Eu lhes dizia que lá as casas tinham muitos andares, havia muitas casas e muitas ruas e uma porção de lojas lindas. “Mas aqui também tem Girò”, diziam os meninos.

A venda de Girò ficava bem em frente à nossa casa. Girò se postava na porta feito uma velha coruja, seus olhos redondos e indiferentes fixos na rua. Vendia um pouco de tudo: gêneros alimentícios e velas, cartões, sapatos e laranjas. Quando a mercadoria chegava e Girò descarregava as caixas, os meninos corriam para comer as laranjas podres que ele jogava fora. No Natal chegavam também os torrones, os licores, as balas. Mas ele não abaixava um centavo do preço. “Como você é mau, Girò”, lhe diziam as mulheres. E ele respondia: “Quem é bom vira comida de cachorro”. No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam uns dias e tornavam a partir, depois de terem abatido os porcos. Por alguns dias só se comia torresmo ou linguiça e só se fazia beber: depois os berros dos leitõezinhos novos enchiam as estradas.

Em fevereiro o ar se tornava úmido e macio. Nuvens cinzentas e carregadas vagavam pelo céu. Houve um ano em que, durante o degelo, as calhas se romperam. Então começou a chover dentro de casa, e os quartos eram verdadeiros pântanos. Mas foi assim em todo o vilarejo: nem uma só casa ficou seca. As mulheres esvaziavam os baldes pelas janelas e varriam a água das portas. Teve gente que foi para a cama de guarda-chuva. Domenico Orecchia dizia que era o castigo por algum pecado. Isso durou mais de uma semana; depois, finalmente toda a neve desapareceu dos telhados e Aristide consertou as calhas.

O fim do inverno despertava em nós uma inquietude. Talvez alguém viesse nos visitar: talvez finalmente acontecesse alguma coisa. Nosso exílio afinal devia ter um fim. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos: a correspondência chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras melhoravam lentamente.

Há certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. Nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós. Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias.

Meu marido morreu em Roma, nas prisões de Regina Coeli, poucos meses depois de termos deixado o vilarejo. Diante do horror de sua morte solitária, diante das angustiantes vacilações que a antecederam, eu me pergunto se isso aconteceu a nós, a nós, que comprávamos as laranjas de Girò e íamos passear na neve. Na época eu tinha fé num futuro fácil e feliz, rico de desejos satisfeitos, de experiências e de conquistas em comum. Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei.

Natalia Ginzburg, in As pequenas virtudes

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* “Deus nos concedeu este descanso”, palavras com que Virgílio agradece a Augusto nas Éclogas, usadas quase sempre de modo satírico.

** Cantiga em dialeto. Tradução livre: “Minha madrasta malvada/ Cozinhou-me num caldeirão/ E meu pai glutão/ Devorou-me numa grande garfada”.

[Todas as notas são do tradutor.]