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28/08/2018

Todos se vão

Lá atrás, Pedro Páramo, sentado em sua cadeira de assento de couro, olhou o cortejo que ia até o povoado. Sentiu que sua mão esquerda, ao querer se levantar, caía morta sobre seus joelhos; mas não deu importância a isso. Estava acostumado a ver morrer a cada dia algum de seus pedaços. Viu como o jasmineiro se sacudia deixando cair suas folhas: “Todos escolhem o mesmo caminho. Todos se vão.” Depois voltou ao lugar onde havia deixado seus pensamentos.
— Susana — disse. Depois fechou os olhos. — Eu pedi que você voltasse...
“...Havia uma lua grande no meio do mundo. Eu perdia meus olhos olhando você. Os raios da lua filtrando-se sobre a sua cara. Não me cansava de ver essa aparição que era você. Suave, esfregada de lua; sua boca inchada e suave, umedecida, colorida de estrelas; seu corpo transparentando-se na água da noite. Susana, Susana San Juan.”
Quis levantar uma das mãos para clarear a imagem; mas suas pernas a retiveram como se fosse de pedra. Quis levantar a outra mão, que foi caindo devagar, de lado, até ficar apoiada no chão como uma muleta detendo seu ombro murcho, desossado.
“Esta é a minha morte”, disse.
O sol foi virando-se sobre as coisas e devolveu-lhes sua forma. A terra em ruínas estava na frente dele, vazia. O calor caldeava seu corpo. Seus olhos mal se moviam; saltavam de uma recordação a outra, desfazendo o presente. De repente seu coração se detinha e parecia que também se detivessem o tempo e o ar da vida.
“Desde que não seja uma nova noite”, ele pensava.
Porque tinha medo das noites que enchiam a escuridão de fantasmas. De encerrar-se com seus fantasmas. Disso tinha medo.
“Sei que dentro de poucas horas virá Abundio com suas mãos ensanguentadas me pedir a ajuda que eu neguei. E eu não terei mãos para tapar os olhos e não vê-lo. Terei de ouvi-lo; até que sua voz se apague com o dia, até que sua voz morra.”
Sentiu mãos que tocavam seus ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.
— Sou eu, dom Pedro — disse Damiana. — Não quer que traga seu almoço?
Pedro Páramo respondeu:
— Vou até lá. Estou indo.
Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras.
Fim
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

08/08/2018

Abundio Martínez

— O que, você não foi ver o padre Rentería?
— Fui. Mas me informaram que andava pelos montes.
— Em qual monte?
— Pois por esses ermos. A senhora sabe que andam na rebelião.
— Quer dizer que ele também? Pobres de nós, Abundio.
— Essa história não nos importa nada, mamãe Villa. Isso aí e nada para nós dá no mesmo. Sirva mais um. Assim meio disfarçado, já que o Gamaliel está é dormindo.
— Mas não se esqueça de pedir à Refugio que rogue a Deus por mim, que necessito tanto.
— Nem se angustie. É chegar e dizer. E até vou arrancar dela a promessa apalavrada, para o caso de ser necessário e para que a senhora deixe de aflições.
— Isso, é isso mesmo que você deve fazer. Porque você sabe como as mulheres são. Assim, é preciso exigir delas que cumpram em seguidinha o combinado.
Abundio Martínez deixou outros 20 centavos em cima do balcão.
— Pois me dá o outro meio litro, mãe Villa. E se quiser me dar ainda mais outro bocadinho, pois aí é assunto da senhora. A única coisa que eu lhe prometo é que este, sim, irei beber ao lado da finadinha; ao lado da minha Cuca.
— Então vai de vez, antes que meu filho acorde. O humor dele azeda muito quando acorda depois de uma bebedeira. Vai voando e não se esqueça do meu pedido para a sua mulher.
Saiu do armazém espirrando. Aquilo lá era uma fumaceira só; mas, como tinham dito que assim subia mais depressa, bebeu um gole atrás do outro, abanando ar na boca com a fralda da camisa. Depois tratou de ir direto para casa, onde Refugio esperava por ele; mas torceu o caminho e desandou a andar rua acima, saindo do povoado por onde a vereda o levou.
— Damiana! — chamou Pedro Páramo. — Venha ver o que quer esse homem que vem pelo caminho.
Abundio continuou avançando, dando tropeços, agachando a cabeça e às vezes andando de quatro. Sentia que a terra se retorcia, dava voltas em volta dele, e depois se soltava; ele corria para agarrá-la, e quando já tinha a terra nas mãos, ela tornava a ir embora, até que chegou na frente da figura de um senhor sentado ao lado de uma porta. Então, parou:
— Uma caridade para enterrar minha mulher — disse.
Damiana Cisneros rezava: “Das armadilhas dos inimigos malvados, livrai-nos, Senhor.” E apontava para ele com as mãos fazendo o sinal da cruz.
Abundio Martínez viu a mulher com os olhos esbugalhados, pondo aquela cruz na sua frente, e estremeceu. Pensou que talvez o demônio o tivesse seguido até ali, e deu meia-volta, esperando encontrar alguma aparição ruim. Ao não ver ninguém, repetiu:
— Venho pedir uma ajudazinha para enterrar a minha morta.
O sol dava às suas costas. Aquele sol recém-saído, quase frio, desfigurado pela poeira da terra.
A cara de Pedro Páramo escondeu-se debaixo das cobertas como se se escondesse da luz, enquanto se ouviam os gritos de Damiana saírem cada vez mais repetidos, atravessando os campos: “Estão matando dom Pedro!”
Abundio Martínez ouvia aquela mulher gritando. Não sabia o que fazer para acabar com aqueles gritos. Não encontrava a ponta de seus pensamentos. Sentia que os gritos da velha deviam estar sendo ouvidos muito lá longe. Talvez até sua mulher estivesse ouvindo, porque perfuravam as orelhas dele, embora não entendesse o que ela dizia. Pensou em sua mulher que estava estendida no catre, sozinha, lá no quintal da casa, onde ele a havia posto para que serenasse e não apestasse depressa. A Cuca, que ainda ontem se deitava com ele, bem viva, espojando feito potranca, e que o mordia e raspava seu nariz com o nariz dela. A que deu a ele aquele filhinho que morreu assim que nasceu, dizem que porque ela estava incapacitada: o mau-olhado e os frios e a queimação na pança e sei lá de quantos males sua mulher padecia, pelo que disse o doutor que foi vê-la à última hora, quando teve de vender seus burros para trazê-lo até aqui, por causa da cobrança tão alta que cobrou. E que não serviu para nada... A Cuca, que agora estava lá aguentando o relento, com os olhos fechados, já sem poder ver o amanhecer; nem este sol nem nenhum outro.
— Uma ajuda! — disse. — Qualquer coisa.
Mas nem mesmo ele se ouviu. Os gritos daquela mulher o deixavam surdo.
Pelo caminho de Comala moveram-se uns pontinhos negros. De repente os pontinhos se converteram em homens que num instante chegaram aqui, perto dele. Damiana Cisneros parou de gritar. Desfez sua cruz. Agora tinha caído e abria a boca como se bocejasse.
Os homens que tinham vindo a levantaram do chão e a levaram para o interior da casa.
— Aconteceu alguma coisa com o senhor, patrão? — perguntaram.
Apareceu a cara de Pedro Páramo, que só mexeu a cabeça.
Desarmaram Abundio, que ainda estava com o punhal cheio de sangue na mão:
— Venha com a gente — disseram a ele. — Você de verdade se meteu numa boa.
E ele os seguiu.
Antes de entrar no povoado pediu licença a eles. Fez-se a um lado e ali vomitou uma coisa amarela como bílis. Jorros e jorros, como se tivesse engolido dez litros de água. Então sua cabeça começou a arder e sentiu a língua travada:
— Estou bêbado — disse.
Regressou até onde estavam esperando por ele. Apoiou-se nos ombros deles, que o levaram arrastado, abrindo um sulco na terra com a ponta dos pés.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

25/07/2018

Volta, Susana!

O Sucuri continuou aparecendo:
— Agora estamos com Carranza.
— Está bem.
— Agora estamos com o general Obregón.
— Está bem.
— Agora selaram a paz. Estamos soltos.
— Espere. Não desarme o seu pessoal. Isso pode não durar muito.
— O padre Rentería alçou-se em armas. Vamos com ele, ou contra ele?
— Não tem nem o que discutir. Você que se ponha do lado do governo.
— Mas é que somos irregulares. No governo nos consideram rebeldes.
— Então, vá descansar.
— Acelerado do jeito que estou?
— Então faça o que quiser.
— Pois vou dar apoio ao padre. Gosto do jeito que eles gritam. Além do mais, a gente leva de pingo a salvação da alma.
— Faça o que quiser.

Pedro Páramo estava sentado numa velha cadeira de couro, ao lado da porta grande da Media Luna, pouco antes que se fosse a última sombra da noite. Estava sozinho, fazia talvez umas três horas. Não dormia. Tinha se esquecido do sono e do tempo: “Nós velhos dormimos pouco, quase nunca. Às vezes só cochilamos; mas sem deixar de pensar. Essa é a única coisa que me resta fazer.” Depois acrescentou em voz alta: “Não demora. Já não vai demorar.”
E continuou: “Faz muito tempo que você foi-se embora, Susana. A luz então era igual à de agora, não tão vermelha; mas era a mesma pobre luz sem lume, envolta no pano branco da neblina que existe agora. Era o mesmo momento. Eu aqui, ao lado da porta olhando o amanhecer e olhando quando você ia embora, seguindo o caminho do céu; por onde o céu começava a se abrir em luzes, afastando-se, cada vez mais descolorida entre as sombras da terra.
“Foi a última vez que vi você. Passou roçando com seu corpo os galhos de um jasmineiro que está na vereda e levou com o seu ar as últimas folhas. Depois, você desapareceu. Eu disse: ‘Volta, Susana!’”
Pedro Páramo continuou movendo os lábios, sussurrando palavras. Depois fechou a boca e entreabriu os olhos, onde a débil claridade do amanhecer refletiu.
Amanhecia.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

26/06/2018

Como se afundasse na noite

— Estou com a boca cheia de terra.
— Sim, padre.
— Não diga: “Sim, padre.” Repete comigo o que eu for dizendo.
— O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez?
— Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte.
— Eu já vou morrer?
— Vai, filha.
— Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila?
— Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la... Você não vai voltar a despertar nunca mais.
— Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser.
O padre Rentería, sentado na beira da cama, as mãos postas sobre os ombros de Susana San Juan, com sua boca assim quase grudada na orelha dela para não falar alto, encaixava secretamente cada uma de suas palavras: “Tenho a boca cheia de terra.” Depois se deteve. Tratou de ver se os lábios dela se moviam. E os viu balbuciar, embora sem deixar sair som algum.
“Tenho a boca cheia de ti, da sua boca. Seus lábios apertados, duros como se mordessem oprimindo meus lábios...”
Também se deteve. Olhou de viés o padre Rentería e viu-o ao longe, como se estivesse por trás de um vidro embaçado.
Depois tornou a ouvir a voz esquentando seu ouvido:
— Tenho saliva espumosa; mastigo torrões coalhados de vermes que se aninham na minha garganta e raspam o meu céu da boca... Minha boca se afunda, contorcendo-se em trejeitos, perfurada pelos dentes que a perfuram e devoram. O nariz amolece. A gelatina dos olhos se derrete. Os cabelos ardem numa labareda só...
Estranhava a quietude de Susana San Juan. Teria querido adivinhar seus pensamentos e ver a batalha daquele coração por rejeitar as imagens que ele estava semeando dentro dela. Olhou seus olhos e ela devolveu o olhar. E ele achou que estava vendo como os lábios dela forçavam um sorriso.
— Ainda falta uma coisa. A visão de Deus. A luz suave de seu céu infinito. O gozo dos querubins e o canto dos serafins. A alegria dos olhos de Deus, a última e fugaz visão dos condenados à pena eterna. E não apenas isso, mas tudo conjugado com uma dor terrena. O tutano dos nossos ossos convertido em lume e as veias do nosso sangue em fios de fogo, fazendo-nos contorcer de uma dor incrível; que não míngua nunca; atiçado sempre pela ira do Senhor.
“Ele me abrigava entre seus braços. Ele me dava amor.”
O padre Rentería repassou com os olhos as figuras que estavam à sua volta, esperando o último momento. Perto da porta, Pedro Páramo esperava com os braços cruzados; em seguida, o doutor Valência, e junto a eles outros senhores. Mais além, nas sombras, um punhado de mulheres para quem já estava se fazendo tarde para começar a rezar a oração dos defuntos.
Teve intenção de se levantar. Dar os santos óleos à enferma e dizer: “Terminei.” Mas não, ainda não terminara. Não podia entregar os sacramentos a uma mulher sem conhecer o tamanho de seu arrependimento.
Sentiu que entrava em dúvidas. Talvez ela não tivesse nada de que se arrepender. Talvez ele não tivesse nada a perdoar. Inclinou-se suavemente sobre ela, e sacudindo seus ombros, disse em voz baixa:
— Você está indo até a presença de Deus. E sua sentença é desumana para os pecadores.
Depois aproximou-se outra vez de seu ouvido; mas ela sacudiu a cabeça:
— Vá embora de uma vez, padre! Não se mortifique por mim. Estou tranquila e tenho sono.
Ouviu-se o soluço de uma das mulheres escondidas na sombra.
Então Susana San Juan pareceu recobrar a vida. Endireitou-se na cama e disse:
— Justina, faça-me o favor de ir chorar em outro canto!
Depois sentiu que a cabeça se cravava em seu ventre. Tentou separar o ventre de sua cabeça; afastar aquele ventre que apertava seus olhos e cortava sua respiração; mas cada vez se inclinava mais como se afundasse na noite.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

15/06/2018

Aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna?

  

— A senhora está vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?
— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.
— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?
— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.
— Coitado do senhor dom Pedro.
— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.
— Olha, a janela continua escura.
— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.
E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.
— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?
— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.
— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.
— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.
— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.
— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.
— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.
— Até amanhã, Fausta.
As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

31/05/2018

Os mortos não se queixam mais


No começo do amanhecer, o dia vai dando voltas, com pausas; quase dá para ouvir as dobradiças da terra, que giram emboloradas; a vibração desta terra velha que derrama sua escuridão.
— É verdade que a noite está cheia de pecados, Justina?
— É, Susana.
— De verdade?
— Deve ser, Susana.
— E o que você acha que a vida é, Justina, a não ser um pecado? Está ouvindo? Está ouvindo como a terra range?
— Não, Susana, eu não consigo ouvir nada. Minha sorte não é tão grande como a sua.
— Você iria se espantar. Eu digo que você iria se espantar se ouvisse o que eu ouço.
Justina continuou arrumando o quarto. Repassou uma vez e outra a estopa grossa sobre as tabuonas úmidas do assoalho. Limpou a água do floreiro quebrado. Recolheu as flores. Pôs os cacos de vidro no balde cheio d’água.
— Quantos pássaros você matou na vida, Justina?
— Muitos, Susana.
— E não sentiu tristeza?
— Senti, Susana.
— Então, está esperando o quê para morrer?
— A morte, Susana.
— Se é só isso, já, já ela chega. Não se preocupe.
Susana San Juan estava erguida sobre seus travesseiros. Os olhos inquietos, olhando para todos os lados. As mãos sobre o ventre, grudadas em seu ventre como uma concha protetora. Havia ligeiros zumbidos que passavam como asas por cima da sua cabeça. E o ruído das roldanas na madeira do poço. O rumor que as pessoas fazem ao acordar.
— Você acredita no inferno, Justina?
— Sim, Susana. E no céu também.
— Eu só acredito no inferno — ela disse. E fechou os olhos.
Quando Justina saiu do quarto, Susana San Juan estava adormecida de novo e lá fora o sol lançava chispas. Encontrou Pedro Páramo no caminho.
— Como é que a senhora está?
— Mal — ela respondeu agachando a cabeça.
— Ela se queixa?
— Não, senhor, não se queixa de nada; mas dizem que os mortos não se queixam mais. A senhora está perdida para todos.
— O padre Rentería não veio vê-la?
— Veio ontem, e tomou-lhe a confissão. Hoje ela deveria ter comungado, mas não deve estar nas graças, porque o padre Rentería não trouxe a comunhão para ela. Disse que ia fazer isso logo cedo, e o senhor está vendo, o sol já está aqui e ele não veio. Ela não deve estar nas graças.
— Nas graças de quem?
— De Deus, senhor.
— Não seja boba, Justina.
— Como o senhor quiser, patrão.
Pedro Páramo abriu a porta e ficou ao lado dela, deixando que um raio de luz caísse sobre Susana San Juan. Viu seus olhos apertados como quando se sente uma dor; a boca umedecida, entreaberta, e os lençóis sendo percorridos por mãos inconscientes até mostrar a nudez de seu corpo que começou a se contorcer em convulsões.
Percorreu aquele pequeno espaço que o separava da cama e cobriu o corpo nu, que continuou se debatendo como uma minhoca em espasmos cada vez mais violentos. Aproximou-se de seu ouvido e falou: “Susana!” E tornou a repetir: “Susana!”
A porta foi aberta e em silêncio entrou o padre Rentería, movendo brevemente os lábios:
— Vou lhe dar a comunhão, filha minha.
Esperou que Pedro Páramo a levantasse encostando-a sobre o espaldar da cama. Susana San Juan, semiadormecida, estendeu a língua e engoliu a hóstia. Depois disse: “Tivemos um tempo muito feliz, Florencio.” E tornou a se afundar entre a sepultura de seus lençóis.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

01/05/2018

Conforme-se com o que eu dei

Fotograma do Filme Pedro Páramo

— Soube que derrotaram você, Damasio. Por que deixou fazerem isso?
— O senhor foi mal-informado, patrão. Comigo não aconteceu nada. Meu pessoal está inteirinho. Trago aí setecentos homens e outros tantos arrimados. O que aconteceu é que uns poucos dos “velhos”, cansados de estar ociosos, se puseram a disparar contra um pelotão de beócios, que na verdade era um exército inteiro. Villistas, de Pancho Villa, o senhor ouviu falar?
— E esses de onde saíram?
— Eles vêm do Norte, arrasando tudo que encontram pela frente. Parece, pelo que se vê, que andam percorrendo a terra, tateando todos os terrenos. São poderosos. Isso ninguém há de negar.
— E por que você não se junta a eles? Eu já disse a você que temos de estar com quem estiver ganhando.
— Pois eu já estou com eles.
Então veio me ver para quê?
— Precisamos de dinheiro, patrão. Já estamos cansados de comer carne de vaca. Nem temos mais vontade. E ninguém mais quer fiar para a gente. Por isso viemos, para que o senhor nos abasteça e para que a gente não se veja na urgência de roubar ninguém. Se estivéssemos no longe remoto não nos importaria dar um “passe para cá” nos vizinhos; mas aqui somos todos aparentados com alguém e roubar nos dá remorso. Enfim, é dinheiro o que necessitamos para comprar nem que seja uma tortilhona grossa com pimenta. Estamos fartos de comer carne.
— Quer dizer que agora o senhor vai me bancar o exigente, Damasio?
— De jeito nenhum, patrão. Estou pedindo pelos rapazes; por mim, nem pensar.
— Está certo que você se empenhe pelo seu pessoal; mas trata de tirar de outro o que você precisa. Eu já dei. Conforme-se com o que eu dei. E este não é um conselho, nem nada parecido, mas você já pensou em assaltar Contla? Para que você acha que está na revolução? Se é para pedir esmola para esses sujeitos, você é estúpido. Mais valia que fosse com sua mulher criar galinhas. Avança em cima de algum povoado! Se você anda arriscando o pescoço, por que diabos os outros não vão pôr sua parte? Contla está que ferve de tanto rico. Tire um pouquinho do que eles têm. Ou será que acham que você é a babá deles, e que está aí só para cuidar dos seus interesses? Não, Damasio. Faça com que vejam que você não está de brincadeira nem está se divertindo. Dá um pega neles e você vai só ver como consegue uns tostões desta algazarra.
— Seja como quiser, patrão. Do senhor eu sempre tiro alguma coisa de bom.
— Pois esteja à vontade.
Pedro Páramo viu como os homens iam embora. Sentiu desfilar na sua frente o trote de cavalos escuros, confundidos com a noite. O suor e o pó; o tremor da terra. Quando viu os pirilampos cruzando outra vez suas luzes, percebeu que todos os homens tinham ido. Só restava ele, sozinho, como um tronco duro começando a se despedaçar por dentro.
Pensou em Susana San Juan. Pensou na mocinha com quem fazia pouco acabara de dormir. Aquele pequeno corpo sobressaltado e tremelicante que parecia que ia pôr o coração pela boca. “Punhadinho de carne”, disse a ela. E tinha se abraçado a ela tratando de transformá-la na carne de Susana San Juan. “Uma mulher que não era deste mundo.”
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

04/04/2018

E Damiana não abriu a porta

Faltava muito para o amanhecer. O céu estava cheio de estrelas, gordas, inchadas de tanta noite. A lua havia saído um pouco e depois tinha ido embora. Era uma dessas luas tristes que ninguém olha, que ninguém faz caso. Ficou um tempinho lá, desfigurada, sem dar nenhuma luz, e depois foi se esconder atrás dos morros.
Longe, perdido na escuridão, ouvia-se o bramido dos touros.
“Esses animais não dormem nunca” disse Damiana Cisneros. “Nunca dormem. São como o diabo, que anda sempre buscando almas para levar para o inferno.”
Deu voltas na cama, aproximando a cara da parede. Então ouviu as batidas.
Deteve a respiração e abriu os olhos. Tornou a ouvir três batidas secas, como se alguém golpeasse a parede com os nós dos dedos. Não aqui, ao lado dela, e sim mais longe; mas na mesma parede.
“Valha-me! Será que serão as três batidas de São Pascual Bailón, que vem avisar a algum devoto que chegou a hora da sua morte?”
E como ela havia perdido a novena fazia tempo, por causa de seus reumatismos, não se preocupou; mas sentiu medo, e mais do que medo, curiosidade.
Levantou-se do catre sem fazer ruído e foi espiar pela janela.
Os campos estavam negros. No entanto conhecia ele tão bem, que reconheceu o corpo enorme de Pedro Páramo entrando pela janela da moça Margarita.
— Ah!, esse dom Pedro — disse Damiana. — Não perde a mania. O que não entendo é por que gosta de fazer as coisas tão às escondidas; se tivesse me avisado, eu teria dito para a Margarita que o patrão ia necessitá-la esta noite, e ele não teria tido nem o trabalho de sair da sua cama.
Fechou a janela ao ouvir o mugido dos touros. Jogou-se sobre o catre cobrindo-se até as orelhas, e depois se pôs a pensar no que estaria acontecendo com a Margarita tão formosa.
Mais tarde teve de tirar a camisola porque a noite começou a ficar abafada demais...
— Damiana! — ouviu.
Naquele tempo era ela moça.
— Abra essa porta, Damiana!
Seu coração tremia como se fosse um sapo saltando entre suas costelas.
— Mas para quê, patrão?
— Abra, Damiana!
— Mas é que estou dormindo, patrão!
Depois sentiu que dom Pedro ia embora pelos corredores compridos, dando aquelas pisadas que sabia dar quando estava irritado.
Na noite seguinte, ela, para evitar aborrecê-lo, deixou a porta encostada e até se despiu para que ele não encontrasse nenhuma dificuldade.
Mas Pedro Páramo jamais a procurou de novo.
Por isso agora, quando era a chefe de todas as serventas da Media Luna, por ter-se dado ao respeito, agora, que já estava velha, ainda pensava naquela noite quando o patrão disse:
“Abra essa porta, Damiana!”
E deitou-se pensando em como naquela hora seria feliz a criada Margarita.
Depois tomou a ouvir outras batidas; mas contra a porta grande, como se estivessem arrebentando-a a golpes de fuzil.
Outra vez abriu a janela e espiou a noite. Não se via nada; mas ainda assim achou que a terra estava cheia de ardores, como quando chove e ela se pavimenta de minhocas. Sentia que se levantava uma coisa parecida ao calor de muitos homens. Ouviu o croar das rãs; os grilos; a noite quieta do tempo das águas. Depois tornou a ouvir os golpes de fuzil contra a porta.
Uma lamparina regou sua luz sobre a cara de alguns homens. Depois se apagou.
“São coisas que não me interessam”, disse Damiana Cisneros, e fechou a janela.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

26/03/2018

O morto chamado Rentería

— Dom Pedro, voltei, porque não estou satisfeito comigo mesmo. Com prazer vou continuar cuidando de seus assuntos.
Disse isso sentado novamente no escritório de dom Pedro Páramo, onde havia estado não fazia nem meia hora.
— Está bem, Gerardo. Aí estão os papéis, onde você deixou.
— Eu também queria... Os gastos... A viagem... Um adiantamento mínimo de honorários... Algum extra, se o senhor houver por bem.
— Quinhentos?
— Não poderia ser um pouco, digamos, um pouquinho mais?
— Você ficaria conformado com mil?
— E se fossem cinco?
— Cinco o quê? Cinco mil pesos? Não tenho. Você sabe muito bem que está tudo investido. Terras, animais. Você sabe disso. Leva os mil. Não acho que você precise de mais.
Ficou meditando. A cabeça caída. Ouvia o tilintar dos pesos sobre a escrivaninha onde Pedro Páramo contava o dinheiro. Lembrava-se de dom Lucas, que sempre ficou devendo seus honorários. De dom Pedro, que abriu conta nova. De seu filho Miguel: quanta dor de cabeça aquele rapaz tinha dado!
Livrou-o da cadeia pelo menos umas 15 vezes, se é que não foram mais. E o assassinato que cometeu com aquele homem, como era mesmo o nome?, Rentería, isso. O morto chamado Rentería, em cuja mão puseram uma pistola. O jeito que Miguelzinho estava assustado, embora depois caísse no riso. Só isso, quanto teria custado a dom Pedro se as coisas tivessem ido até lá, até a lei? E a questão das violações, nada? Quantas vezes ele teve que tirar do próprio bolso dinheiro para que elas enterrassem o assunto: “Fique bem e em paz que você vai ter um filhote branquelo!”, dizia a elas.
— Aqui está, Gerardo. Cuida muito bem deles, porque não geram cria.
E ele, que ainda estava em suas cismas, respondeu:
— Pois é, os mortos também não — e acrescentou: — Desgraçadamente.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

27/02/2018

Derrotaram o Sucuri

— Está sabendo, dom Pedro, que derrotaram o Sucuri?
— Sei que teve algum tiroteio ontem à noite, porque deu para ficar ouvindo o tumulto; mas daí em diante não sei mais nada. Quem foi que contou isso, Gerardo?
— Chegaram uns feridos a Comala. Minha mulher ajudou nessa coisa dos curativos. Disseram que eram do pessoal de Damasio e que tinham tido muitos mortos. Parece que se encontraram com uns sujeitos que se dizem de Pancho Villa.
— Que caralho, Gerardo! Estou vendo tempos ruins chegando. E o que você está pensando em fazer?
— Eu vou-me embora, dom Pedro. Para Sayula. E lá, vou me estabelecer de novo.
— Vocês advogados têm essa vantagem; podem levar seu patrimônio a tudo que é lugar, pelo menos enquanto alguém não arrebentar suas fuças.
— Nem pense nisso, dom Pedro; tem os nossos problemas. Além do mais dói deixar pessoas como o senhor, e as deferências que o senhor teve comigo a gente sempre sente falta. Nosso mundo muda o tempo todo, se é válido dizer assim. Onde o senhor quer que eu deixe os seus papéis?
— Não deixe os papéis. Leve tudo. Ou será que você não vai poder continuar cuidando de meus assuntos lá onde vai estar?
— Agradeço a sua confiança, dom Pedro. Agradeço sinceramente. Embora deva fazer a aclaração de que para mim vai ser impossível. Certas irregularidades... Digamos... Depoimentos que ninguém além do senhor deve conhecer. Podem prestar-se a manipulações ruins no caso de cair em outras mãos. O mais seguro é que fiquem aqui com o senhor.
— Você disse bem, Gerardo. Deixa tudo aqui. Vou queimar os papéis. Com papéis ou sem eles, quem pode discutir comigo a propriedade do que tenho?
— Sem sombra de dúvida, ninguém, dom Pedro. Ninguém. Com licença.
— Vá com Deus, Gerardo.
— O que foi que o senhor disse?
— Eu disse que Deus o acompanhe.
O doutor Gerardo Trujillo saiu devagar. Já estava velho; mas não para dar passos tão curtos, tão desanimados. A verdade é que ele esperava uma recompensa. Havia servido a dom Lucas, que em paz descanse, o pai de dom Pedro; depois, e ainda, a dom Pedro; e depois a Miguel, o filho de dom Pedro. A verdade é que ele esperava uma compensação. Uma retribuição grande e valiosa. Dissera à mulher:
— Vou me despedir de dom Pedro. Sei que ele vai me gratificar. Estou quase dizendo que com o dinheiro que ele vai me dar nos estabeleceremos bem em Sayula e vamos viver com folga o resto dos nossos dias.
Mas por que as mulheres sempre têm alguma dúvida? Recebem avisos do céu, ou o quê? Ela não pareceu estar segura nem mesmo de que ele receberia alguma coisa:
— Lá, você vai ter de trabalhar duro e muito para levantar a cabeça. Daqui você não arranca nada.
— Por que está dizendo isso?
— Eu sei.
Continuou andando até a porta, atento a qualquer chamado: “Ei, Gerardo! Estou tão preocupado que não me permiti pensar em você. Mas eu lhe devo favores que o dinheiro não paga. Receba isto: um presente insignificante.”
Mas o chamado não veio. Cruzou a porta e desamarrou o cabresto com que seu cavalo estava amarrado à forquilha. Subiu na sela e, em marcha curta, tratando de não se afastar muito para ouvir se o chamasse, caminhou até Comala sem se desviar do caminho. Quando viu que a Media Luna se perdia atrás, pensou: “Seria me rebaixar demais pedir a ele um empréstimo.”
Juan Rulfo, in Pedro Páramo