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14/04/2024

Arcos

À Silvina Ocampo

Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

Octávio Paz, in Transblanco: em Torno a Blanco de Octavio Paz [tradução Haroldo de Campos] 

29/11/2023

Arcos

A Silvina Ocampo

Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

Octavio Paz, in Antologia Poética

16/12/2022

Os sonhos de Leopoldina


Desde o nascimento de Leopoldina na família Yapurra, as mulheres ganhavam nomes que começam com L, e eu, por ser tão pequeno, era chamado de Garotinho.
Ludovica e Leonor, que eram as mais novas, buscavam por um milagre junto ao riacho, todas as tardes, ao cair do sol. Íamos à encosta chamada Agua de la Salvia. Deixávamos os garrafões perto da água e nos sentávamos em uma pedra, esperando com olhos muito abertos a chegada da noite. Todas as conversas levavam ao mesmo tema.
Juan Mamanís vai estar em Catamarca — dizia Ludovica.
Ai! Que bicicleta mais lindinha ele carregava! Todos os anos ele visita a Nossa Senhora do Vale.
Você faria uma promessa assim, de ir a pé, como Javiera?
Meus pés são muito delicados para isso.
Se tivéssemos uma santa como essa!
Juan Mamanís não iria a Catamarca.
Não dou a mínima. O que me aflige é a santa.
Eu nunca parava quieto; elas conheciam meu costume. “Garotinho, largue isso”, me dizia Ludovica, “as aranhas são venenosas”, ou “Garotinho, não faça isso. Não se faz xixi na água”.
Alguém havia lhes dito, talvez a curandeira, que a essa hora brilhava uma luz em uma fenda entre as pedras e que uma sombra aparecia na beirinha do riacho.
Um dia a encontraremos — dizia Leonor. — Há de se parecer com a Nossa Senhora do Vale.
Pode ser que seja um espírito — respondia Ludovica. — Eu não me iludo — e ao colocar os pés no riacho ela espirrava água em meus olhos e em minhas orelhas. Eu tremia. — O que você vai fazer, Garotinho, quando a neve começar a cair, quando todas as árvores e o chão estiverem brancos? Não vai sair de perto da lareira, hein? Se até a água morna faz você tiritar como uma estrela.
Se descobrirmos uma nova santa, sairemos nos jornais. Vão dizer assim: “Duas meninas em Chaquibil viram a aparição de uma nova Nossa Senhora. As altas autoridades irão presenciar o ato”. Uma gruta iluminada será feita para a estátua, e depois será construída a basílica. Posso imaginar direitinho a Nossa Senhora de Chaquibil: morena, com um vestido escarlate, espelhinhos e um manto azul, com a bainha dourada.
Eu já me contentaria se ela tivesse uma saia como a nossa e um lenço na cabeça, contanto que ela nos desse presentes.
As santas não dão coisas de presente nem se vestem como a gente.
Você sempre quer ter razão.
Quando tenho razão, tenho razão.
Para concordar com você, a gente não pode nem ter opinião própria — comentava Leonor enquanto afagava minha cabeça.
A noite caiu bruscamente, com cheiro de menta e de chuva.
Ludovica e Leonor encheram os garrafões, beberam água e voltaram para casa. No caminho, pararam para conversar com um velho que carregava uma bolsa. Falaram do milagre esperado. Disseram que de noite ouviam o chamado daquela aparição. O velhinho respondeu:
Deve ser a raposa cantando. Para que procurar milagres fora de casa, quando vocês têm Leopoldina, que faz milagres com os sonhos?
Ludovica e Leonor ficaram pensando se aquilo era verdade.
Na cozinha, em uma cadeirinha de vime com um respaldo altíssimo, Leopoldina estava sentada, fumando. Era tão velha que parecia uma garatuja; não dava para ver nem seus olhos nem a boca. Cheirava a terra, a erva, a folha seca; não a gente. Feito um barômetro, anunciava as tempestades ou o bom tempo; mesmo antes de mim, ela sentia o cheiro da onça-parda que descia a montanha para comer os cabritinhos ou torcer o pescoço dos potrinhos. Embora não saísse de casa havia trinta anos, sabia, como os pássaros sabem, em qual vale, junto a qual riacho, estavam as nozes, os figos, os pêssegos maduros; até mesmo o passarinho saci, com seu canto desolado, que é arisco como a raposa, desceu certo dia para comer em sua mão migalhas de biscoito banhadas em leite, certamente achando que ela era um arbusto.
Leopoldina sonhava, sentada na cadeirinha de vime. Às vezes, ao acordar, sobre sua saia ou ao pé da cadeirinha, ela encontrava os objetos que apareciam em seus sonhos; mas os sonhos eram tão modestos, tão pobres — sonhos de espinhos, sonhos de pedras, sonhos de gravetos, sonhos de pluminhas —, que ninguém se espantava com o milagre.
O que sonhou, Leopoldina? — perguntou Leonor naquela noite, ao entrar em casa.
Sonhei que caminhava por um riacho seco, juntando pedrinhas redondas. Aqui está uma — disse Leopoldina, com voz de flauta.
E como conseguiu a pedrinha?
Olhando para ela, só isso — respondeu.
Junto à encosta, Leonor e Ludovica não esperaram, como nas outras tardes, a chegada da noite, na esperança de assistir a um milagre. Voltaram para casa com o passo apressado.
Com o que sonhou, Leopoldina? — perguntou Ludovica.
Com as plumas de uma pomba-torcaz que caíam no chão. Aqui está uma — acrescentou Leopoldina, mostrando-lhe uma pluminha.
Diga, Leopoldina, por que não sonha com outras coisas? — disse Ludovica com impaciência.
Minha filha, com o que quer que eu sonhe?
Com pedras preciosas, com anéis, com colares, com escravas. Com algo que sirva para alguma coisa. Com automóveis.
Não sei, filhinha.
Não sabe o quê?
O que são essas coisas. Tenho quase cento e vinte anos e sempre fui muito pobre.
É hora de ficarmos ricas. A senhora pode trazer a riqueza para esta casa.
Nos dias seguintes, Leonor e Ludovica passaram a se sentar perto de Leopoldina, para vê-la dormir. Despertavam-na a cada minuto.
Sonhou com o quê? — perguntavam a ela. — Sonhou com o quê?
Ela costumava responder que tinha sonhado com pluminhas, outro dia com pedrinhas, e outros, com ervas, gravetos ou rãs. Ludovica e Leonor às vezes protestavam acidamente, às vezes com ternura, para comovê-la, mas Leopoldina não era dona de seus sonhos: tanto a perturbaram que já não conseguia nem dormir. Resolveram lhe dar um guisado indigesto.
O estômago pesado dá soninho — disse Ludovica, preparando uma fritura escura com um cheiro delicioso.
Leopoldina comeu, mas não sonhou.
Vamos dar vinho a ela — disse Ludovica. — Vinho quente.
Leopoldina bebeu, mas não dormiu.
Leonor, que era precavida, foi em busca da curandeira, para pedir algumas ervas soníferas. A curandeira vivia em um lugar afastado. Tivemos que atravessar o charco e uma das mulas se afundou em um pântano. As ervas que Leonor conseguiu tampouco deram resultado. Ludovica e Leonor debateram, por alguns dias, sobre onde seria conveniente procurar um médico; se em Tafí del Valle ou em Amaicha.
Se vamos a Amaicha, vamos trazer uvas — disse Leonor a Leopoldina, para consolá-la.
Em seguida riu: — Não é época de uva.
E se formos a Tafí del Valle, traremos um queijinho da queijaria do Churquí — disse Ludovica.
Vão levar o Garotinho, para que ele dê um passeio? — disse Leopoldina, como se não gostasse nem de queijo nem de uva.
Fomos a Tafí del Valle. Cruzamos bem devagar, a cavalo, o charco onde a mula tinha morrido. Já na vila, fomos ao hospital e Leonor perguntou pelo médico. Nós a esperamos no pátio. Enquanto Leonor falava com o médico, tivemos tempo de sair para um passeio pela cidadezinha; quando voltamos, Leonor nos recebeu na porta do hospital com um pacote na mão. O pacote continha um medicamento, uma seringa e uma agulha para injeções. Leonor sabia dar injeções: uma enfermeira que ela tinha conhecido lhe ensinou a arte de cravar a agulha numa laranja ou numa maçã. Dormimos em Tafí del Valle e, de manhã, bem cedinho, começamos o regresso.
Ao nos ver chegar, como se tivesse sido ela a ter feito a viagem, Leopoldina disse que estava cansada, e dormiu pela primeira vez depois de vinte dias de insônia.
Que bandida — disse Ludovica. — Ela dorme para nos mostrar desdém.
Quando viram que ela despertava, perguntaram:
Sonhou com o quê? Tem que nos contar com o que sonhou.
Leopoldina balbuciou algumas palavrinhas. Ludovica a sacudiu pelo braço.
Se não nos disser com o que sonhou, Leonor vai lhe aplicar uma injeção — acrescentou, exibindo a agulha e a seringa.
Sonhei que um cachorro escrevia minha história: aqui está — disse Leopoldina, mostrando umas folhas de papel amassadas e sujas. — Vocês poderiam lê-la, filhinhas, para que eu a escute?
Será possível que não pode sonhar com coisas mais importantes? — disse Leonor indignada, atirando ao chão as folhas. Em seguida trouxe um livro enorme com gravuras em cor e cheirando a xixi de gato, que a professora tinha lhe emprestado. Depois de folheá-lo atentamente, deteve-se em algumas gravuras, que mostrou a Leopoldina, friccionando-as com o dedo indicador. — Automóveis — virava as páginas —, colares — virava as páginas —, pulseiras — soprava as páginas —, joias — umedecia o polegar com saliva —, relógios — girava as folhas entre seus dedos. — Tem que sonhar com essas coisas, e não com porcarias sem importância.
Foi neste momento, Leopoldina, que falei com você, mas você não me ouviu, porque tinha dormido de novo e alguma coisa deslizou do seu sonho anterior para seu sonho presente.
Você se lembra dos meus antepassados? Se você invocá-los como eu sou, barrigudos, rudes, fervorosos e temerosos, vai se lembrar dos objetos mais suntuosos que já conheceu: aquele medalhão banhado a ouro, com uma mecha de cabelo dentro, que te deram de presente de casamento; as pedras do colar da sua mãe, que sua nora roubou; aquele cofre cheio de medalhinhas com água-marinha; a máquina de costura; o relógio; a carruagem com cavalos mansos de tão velhos que eram. É inacreditável, mas tudo isso existiu. Você se lembra daquela loja deslumbrante em Tafí del Valle, onde você comprou um broche com a cabeça de um cachorro parecido comigo gravada na pedra? Só mesmo eu posso me lembrar disso, eu, que para te curar da asma fui o abrigo do seu peito.
Se você não dormir, vamos aplicar a injeção na senhora — ameaçou Ludovica.
Leopoldina, aterrorizada, voltou a dormir. A cadeira de vime, que balançava, soltava um ruidinho estranho.
Será que têm ladrões por aqui? — perguntou Leonor.
Não tem lua.
Devem ser os espíritos — respondeu Ludovica.
Sabe por que eu chorava? Porque eu sentia se aproximar o vento Zonda.*
Nem Leonor nem Ludovica o escutavam, porque suas vozes retumbavam, desesperadas ou quem sabe esperançadas, perguntando:
Sonhou com o quê? Sonhou com o quê?
Desta vez Leopoldina saiu da casa, sem responder, e me disse:
Vamos, Garotinho, é chegada a hora.
Imediatamente o vento Zonda começou a soprar. Para os cristãos, o Zonda sempre tinha sido anunciado antes que aos outros, com um céu muito limpo, com um sol desbotado e bem desenhadinho, com um ameaçador barulho de mar (não conheço o mar) ao longe. Mas desta vez ele chegou como um relâmpago, varreu o chão do pátio, amontoou folhas e galhos nas frestas das montanhas, degolou os animais entre as pedras, destruiu as terras lavradas e um redemoinho levantou no ar Leopoldina e a mim, seu cachorro pila chamado Garotinho, que escreveu esta história durante o penúltimo sonho de sua dona.

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* O Zonda é o vento vindo da cordilheira dos Andes e caracterizado por sua alta temperatura, secura e intensidade. Provoca grandes danos por onde passa, pois levanta tal quantidade de areia que chega a encobrir a vista quase por completo. Segundo uma lenda nascida no norte da Argentina, o vento Zonda é um castigo enviado pela Pacha Mama, a mais alta divindade dos povos indígenas da região e que representa a mãe Terra, a natureza. (N. T.)

Silvina Ocampo, in A fúria

21/08/2022

O vestido de veludo


Suando, secando a nossa testa com lenços, que umedecíamos na fonte da Recoleta, chegamos a esta casa com jardim da Calle Ayacucho. Que divertido!
Subimos pelo elevador até o quarto andar. Eu estava mal-humorada, porque não queria sair, pois meu vestido estava sujo e eu pensava em aproveitar a tarde para lavar e passar a colcha da minha caminha. Tocamos a campainha: abriram a porta e entramos, Casilda e eu, na casa, com o embrulho. Casilda é modista. Vivemos em Burzaco e nossas viagens à capital a deixam maluca, sobretudo quando temos que ir ao Barrio Norte, que fica muito na contramão. Assim que entrou, Casilda pediu um copo d’água à empregada, para poder tomar a aspirina que levava no moedeiro. A aspirina caiu no chão com copo e moedeiro, tudo junto. Que divertido!
Subimos uma escadaria atapetada (cheirava a naftalina), precedidas pela empregada, que nos fez passar ao quarto da madame Cornelia Catalpina, cujo nome foi um martírio para minha memória. O quarto era todo vermelho, com um cortinado branco e espelhos com molduras douradas. Esperamos um século até que a madame viesse do quarto contíguo, onde a ouvíamos fazer gargarejos e discutir com vozes diferentes. Primeiro entrou seu perfume, e, depois de uns instantes, ela, com outro perfume. Cumprimentou-nos queixando-se:
Que sorte têm vocês, de viver nos arredores de Buenos Aires! Pelo menos lá não tem fuligem. Até pode ter cachorros bravos e queima de lixo… Mas olhem a colcha da minha cama. Devem achar que ela é cinza. Não. É branca. Um floco de neve — pegou-me pelo queixo e acrescentou: — Vocês não devem se preocupar com essas coisas. Que bom ser jovem! Você tem oito anos, não é? — e dirigindo-se a Casilda, também disse: — Por que não coloca uma pedra sobre a cabeça dela, para que não cresça? Nossa juventude depende da idade de nossos filhos.
Todo mundo achava que minha amiga Casilda era minha mãe. Que divertido!
Madame, quer experimentar? — disse Casilda, abrindo o embrulho, que estava preso com alfinetes. E me ordenou: — Me passe os alfinetes que estão na minha bolsa.
Experimentar! Que tortura! Se alguém experimentasse os vestidos por mim, que feliz eu seria! Isso me cansa tanto.
A madame tirou a roupa e Casilda começou a lhe pôr o vestido de veludo.
A viagem é para quando, madame? — disse-lhe, para distraí-la.
A madame não conseguia responder. O vestido não passava por seus ombros: algo o estava fazendo parar no pescoço. Que divertido!
O veludo gruda muito, madame, e hoje está fazendo calor. Vamos colocar um pouquinho de talco na senhora.
Tire isso de mim, está me sufocando — exclamou a madame.
Casilda lhe arrancou o vestido e a madame se sentou na poltrona, quase desvanecendo.
A viagem é para quando, madame? — Casilda voltou a perguntar, para distraí-la.
Vou a qualquer momento. Hoje em dia, com os aviões, a gente viaja quando quer. O vestido terá que estar pronto. E pensar que lá neva. Tudo é branco, limpo e brilhante.
A senhora vai a Paris, não?
Vou também à Itália.
Vamos voltar a experimentar o vestido, madame? Depois disso, terminamos.
A madame assentiu soltando um suspiro.
Levante os dois braços para passar primeiro as duas mangas — disse Casilda, pegando o vestido e colocando-o na madame outra vez.
Casilda ficou alguns segundos tentando inutilmente fazer descer a saia, para que deslizasse para as ancas da madame. Eu a ajudava o melhor que podia. Finalmente conseguiu pôr-lhe o vestido. Extenuada, a madame descansou na poltrona por um tempinho; em seguida ficou de pé, para se olhar no espelho. O vestido era lindo e complicado! Um dragão de lantejoulas pretas bordado brilhava do lado esquerdo da bata. Casilda se ajoelhou, olhando-a no espelho, e fez ajustes na roda da saia. Depois se levantou e começou a colocar alfinetes nas pregas da bata, no colo, nas mangas. Eu tocava o veludo: era áspero quando se passava a mão para um lado, e suave, quando se passava para o lado oposto. O contato da pelúcia fazia meus dentes rangerem. Eu recolhia religiosamente os alfinetes que caíam no piso de madeira, um por um. Que divertido!
Que vestido! Acho que não há outro modelo tão lindo em toda Buenos Aires — disse Casilda, soltando um alfinete que ela tinha entre os dentes. — Não lhe agrada, madame?
Muitíssimo. O veludo é o tecido de que mais gosto. Os tecidos são como as flores: temos nossas preferências. Comparo o veludo aos nardos.
A senhora gosta de nardos? São tão tristes — protestou Casilda.
Nardos são a minha flor preferida, mas me fazem mal. Quando aspiro seu cheiro, me sinto descomposta. O veludo me faz trincar os dentes, me causa arrepio, do mesmo jeito que, na infância, me arrepiavam as luvas tricotadas e, no entanto, para mim não há no mundo outro tecido que se compare. Gosto de sentir sua suavidade em minhas mãos, embora algumas vezes me cause repugnância. Que mulher está mais bem-vestida do que aquela que se veste de veludo preto? Não faz falta nem uma gola de renda, nem um colar de pérolas; qualquer coisa seria um exagero. O veludo se basta a si mesmo. É suntuoso e sombrio.
Quando acabou de falar, a madame respirava com dificuldade. O dragão também. Casilda pegou um jornal que estava sobre uma mesa e a abanou, mas a madame a deteve, pedindo que não fizesse vento, porque o vento lhe fazia mal. Que divertido!
Na rua, ouvi os gritos dos vendedores ambulantes. O que vendiam? Frutas, talvez sorvetes? O apito do amolador e o sininho do vendedor de biju também percorriam a rua. Não corri para a janela, para espiar, como das outras vezes. Não me cansava de contemplar as provas daquele vestido com um dragão de lantejoulas. A madame voltou a se pôr de pé e parou de novo diante do espelho, cambaleando. O dragão de lantejoulas também cambaleou. O vestido já não tinha quase nenhum defeito, apenas um imperceptível franzido debaixo dos dois braços. Casilda voltou a pegar os alfinetes para perigosamente colocá-los naquelas pregas de tecido sobrenatural, que estavam sobrando.
Quando você for adulta — me disse a madame —, vai gostar de usar um vestido de veludo, não é mesmo?
Sim — respondi, e senti que o veludo daquele vestido estrangulava meu pescoço com mãos enluvadas. Que divertido!
Agora vou tirar o vestido — disse a madame.
Casilda a ajudou a tirá-lo, tomando-o com as mãos pelo rodado da saia. Forcejou inutilmente por alguns segundos, até que voltou a acomodá-lo.
Eu lhe aconselhei a seda natural — censurou Casilda.
A madame caiu no chão e o dragão se retorceu. Casilda se inclinou sobre seu corpo, até que o dragão ficou imóvel. Acariciei de novo o veludo, que parecia um animal. A modista disse com melancolia:
Morreu. Foi tão difícil fazer este vestido! Foi tão, tão difícil!
Que divertido!

Silvina Ocampo, in A fúria

14/08/2022

A última tarde

Muitas peles de cordeirinhos pendiam da cerca. Porfirio Lasta ouviu na cantoria da tarde uma espécie de amanhecer. O arvoredo que rodeava o sítio era pequeno, mas os pássaros o multiplicavam. Àquelas horas, Porfirio sempre pensava na mesma coisa: na filha do capataz do Recreo. Era uma senhorita opulenta, de meias de seda e salto alto. Ele pensava também em um piano, que tinha entrevisto detrás de uma porta, num dia de chuva. A música o fascinava, e lembrar-se dos acordes de um piano e daquela mulher era o prêmio que recebia ao cair da noite.
Fazia já vinte anos que ele tinha arrendado aquelas terras, com um só potreiro e um rancho: depois de muitos sacrifícios, conseguiu comprá-las. Quando se instalou, o rancho estava quase em ruínas; tinha-o restaurado aos poucos, de maneira que o teto não tivesse goteiras, nem a porta rangesse demais. Tinha acrescentado mais tábuas ao postigo da janela, aplainara o chão de terra batida e clareara as paredes.
Em volta do rancho havia os restos de uma horta, pouquíssimas galinhas, uma ou outra vaca, três cavalos. Além disso, havia trezentas ovelhas: era disso que ele vivia. Vendia bem a lã, e os gastos eram poucos. Banhava-as no terreno vizinho. Entregava todo o lucro a um de seus irmãos, o que sabia ler, escrever, conduzir o dinheiro e o carro. Guardava só o necessário para seus gastos pessoais.
Porfirio pensou em seu irmão; era distante e silencioso feito uma caixa de ferro; circundava-o uma auréola de instrução. Vivia a duas léguas de distância, em uma casa com vários corredores; tinha mulher e alguns filhos.
Porfirio tinha ido várias vezes reclamar-lhe o dinheiro. Desde a compra do sitiozinho e dos animais, não tinha conseguido fazer com que seu irmão lhe entregasse nenhuma quantia. Este costumava lhe dizer o seguinte:
Não é bom que você guarde dinheiro em casa. Qualquer noite dessas podem entrar para te matar.
Não tenho medo — respondia Porfirio, tremendo. — Preciso do dinheiro para comprar umas quantas ovelhas crioulas. E depois, acho que estão me fazendo falta uns hectares a mais.
O irmão distraído não respondia nada.
Daquela vez Porfirio saiu do rancho, abriu lentamente a porteira do alambrado que dava no potreiro, caminhou entre bostas encrespadas e cardos, anteparando a luz do poente com a mão. Era agosto. Fazia um frio cortante: sentia-o de frente como uma coroa de gelo em suas mãos, tal qual uma superfície dura. Apressou o passo. Deteve-se no limite do potreiro, junto à cerca. Flocos de lã floresciam da cerca de espinhos. O rebanho se desenrolava com ruído de tapete. Apenas uma ovelha não se mexia. Estava de barriga para cima, deitada no chão, prestes a parir. Alguns abutres e chimangos aguardavam o nascimento, esperando um cordeirinho vivo ou uma mãe quase morta, com grandes olhos vítreos.
Ao se aproximar, Porfirio afugentou os pássaros. A ovelha respirava com dificuldade, grunhia e mascava devagar gordos grãos invisíveis de milho duríssimo. Em seguida, feito incisão na tarde vermelha, sobre uma pedra cinza, foram nascendo, um, dois, três cordeirinhos idênticos. A mãe lambeu cuidadosamente os dois primeiros e se esqueceu do último. Porfirio procurou uma bolsa, limpou o terceiro cordeirinho, o envolveu, o levou ao rancho e o colocou debaixo do beiral.
Entrou na casa e foi em direção ao fogão aceso. Pôs carne para assar nas brasas.
Os últimos raios de sol brilhavam na abertura da porta. Porfirio viu cintilar um círculo de luz na parede do quarto. Era a mensagem cotidiana de seu vizinho. Levantou-se do banco, despregou o espelhinho redondo que tinha usado certa vez para se barbear e parou na soleira da porta. Tentou inutilmente responder com o mesmo círculo de luz, com o mesmo reflexo, sobre a casa do vizinho. O sol tinha desaparecido. Canalizando a voz com as mãos postas de cada lado da boca, depois de um instante gritou:
Boa noite.
O silêncio multiplicou a voz. A noite caiu de repente. Ele entrou no rancho e junto ao fogão comeu um pedaço de carne com pão e vinho tinto. A chama da vela tremulava com o vento, apesar de ele ter fechado a porta. Os rangidos eram seus companheiros.
Sem se despir, deixou-se cair na cama. Tinha dois ponchos bem puídos e uma manta com as bordas vermelhas. O sono, antes de chegar a seus olhos, rondava por todo seu corpo que nem água bem mansa. Não foi domado pelo sono como em outras noites. Soprou a vela e o quarto ficou em trevas. Demorou para dormir. Repassou mentalmente os trabalhos do dia e depois começou a sonhar.
Sonhou que se casava com a filha do capataz do Recreo na igreja de Azul. Depois da cerimônia, chegava ao Recreo com sua noiva em uma carruagem, escoltado por toda a família, que vinha em um vagão, rebocando um piano com rodas. O piano era uma casinha alta e preta, com um tablado coberto no centro. Tinha dois candelabros de ouro de cada lado. Uma família pequeníssima de anões vivia dentro dessa casa. A música surgia aparentemente das mãos da pianista, quando ela tocava as notas, mas o procedimento era mais complicado e misterioso: a música surgia da boca dos anõezinhos.
Tem que levar com cuidado — dizia o pai da noiva, abraçando o piano —; ele tem notas muito sofridas.
Os cavalos foram freados, com cuidado, diante da porteira, e em seguida o pai, junto com o resto da família da noiva, saiu pelo sítio, agitando ramos para espantar os mosquitos. A filha do capataz, que era rechonchuda, deitou-se na cama de ferro e Porfirio ao lado dela, no chão de terra batida, sobre uns quantos sacos que serviam de colchão. Aquela casa, tão suntuosa por dentro, tinha dormitórios com chão de terra batida. Os recém-casados já deviam estar dormindo quando a porta se abriu de repente. Uma tropa de cavalos passou relinchando.
O cachorro latia ao longe. Um círculo de luz bailou suavemente na parede. Ao ver o sinal do vizinho, Porfirio sorriu. Uma sombra se delineava no batente da porta e ele não viu outro rosto a não ser aquele círculo de luz. Deu alguns passos adiante, para além de seu sonho; ainda penso que ele teve tempo de se assustar, de virar sonâmbulo, ele, que nunca tinha sido, quando sentiu que lhe afundavam um ferro bem vermelho no peito.
A escuridão modificou as cores, os meios-tons, como a revelação caprichosa de uma fotografia.
A mão de Remigio Lasta não soltava a faca. O silêncio, que não havia se manifestado até então, crescia; preenchia-se de filamentos, de silvos, de memórias, da cantoria de grilos infinitesimais.
Nenhuma porta estalava, nenhum móvel: todos os objetos se ausentavam sobre o chão de terra. As paredes, o teto tinham se dissolvido, mas o homem sentiu, na irrealidade do quarto, uma presença viva. Dava as costas à janelinha; as paredes tinham se dissolvido, mas a janelinha, não. Incomodava-o ter costas; eram elas o lugar vulnerável do corpo; a fim de ignorar isso, ele virou bruscamente a cabeça e viu, pela primeira vez, um fantasma. Estudou-o com atenção. Era uma senhorita opulenta, de meias de seda e salto alto. Ouviu uma insuportável musiquinha de piano. Instantes depois, sentiu o contato de uma mão sobre uma das suas, e três dedos seus ficaram dormentes.
Tirou a faca e a limpou com a manta. A lanterna era pequena e iluminava uma circunferência nítida, porém muito exígua. Procurou um fósforo; acendeu a vela. Fez um passeio circular ao redor do quarto. Sentou-se por um minuto em um banco e tirou as luvas: olhou para suas mãos escuras, de veias muito salientes. Levantou-se do banco e voltou a pôr as luvas. Os três dedos continuavam dormentes. Soprou a vela, e depois de iluminar o quarto com a lanterna abriu a porta uma última vez e olhou para o céu. A noite carecia de estrelas; mirou o cavalo, que estava a cinco metros, e disse em voz alta:
Duas léguas, duas léguas. Terei tempo de percorrê-las antes que amanheça.
Montou o cavalo e ninguém, a não ser eu, pôde ouvir aquele galope, que ia longe na noite. Ninguém, a não ser eu, soube que Remigio Lasta herdaria não apenas o dinheiro, como também o sonho de seu irmão.

Silvina Ocampo, in A fúria

09/05/2022

O carrasco

Como sempre, com a primavera chegou o dia dos festivais. O Imperador, depois de comer e beber, com a cara enfeitada de manchas vermelhas, se dirigiu à praça, hoje chamada das Cáscaras, seguido por seus súditos e por um célebre Técnico, que carregava um cofre de madeira, com incrustações de ouro.
O que há nesta caixa? — perguntou um dos ministros ao Técnico.
Os presos políticos; ou melhor, os traidores.
Não morreram todos? — interrogou o ministro, preocupado.
Todos, mas isso não impede que estejam de algum modo nesta caixinha — sussurrou o Técnico, mostrando, entre os bigodes muito pretos, grandes dentes brancos.
Na praça das Cáscaras, onde habitualmente eram celebradas as festas pátrias, os lenços das pessoas voavam entre as pombas; estas traziam gravadas nas penas, ou num medalhão que levavam pendurado ao pescoço, o rosto pintado do Imperador. No centro da praça histórica, rodeado de palmeiras, havia um suntuoso pedestal sem estátua. As esposas dos ministros e seus filhos estavam sentados nos palcos oficiais. Dos balcões, as meninas arremessavam flores. Para celebrar ainda mais a festa, para alegrar o povo que por tantos anos vivera oprimido, o Imperador tinha ordenado que, naquele dia, soltassem os gritos de todos os traidores que haviam sido torturados. Depois de saudar os chefes, piscando um olho e mastigando um palito de dente, o Imperador entrou na casa Amarela, que tinha uma janela alta, como as janelas das casas dos elefantes do Jardim Zoológico. A cada hora com um traje diferente, assomou-se a muitas sacadas, antes de se assomar à verdadeira sacada, da qual em geral lançava seus discursos. O Imperador, sob uma aparência severa, era brincalhão. Aquele dia, fez todo mundo rir. Algumas pessoas choraram de tanto rir. O Imperador falou das línguas dos opositores: “Que não fossem cortadas”, ele disse, “para que o povo escutasse os gritos dos torturados”. As senhoras, que chupavam laranjas, as guardaram em suas bolsas para ouvi-lo melhor; alguns homens urinaram involuntariamente sobre os bancos onde havia pavões, galinhas e marmeladas; algumas crianças, sem que as mães percebessem, treparam nas palmeiras. O Imperador desceu para a praça. Subiu no pedestal. O eminente Técnico pôs os óculos e o seguiu: subiu os seis ou sete degraus que ficavam ao pé do pedestal, sentou-se em uma cadeira e começou a abrir o cofre. Neste instante o silêncio aumentou, como costuma aumentar ao pé de uma cadeia de montanhas ao anoitecer. Todas as pessoas, até os homens muito altos, se puseram na ponta dos pés para escutar o que ninguém tinha escutado: os gritos dos traidores que tinham sido mortos enquanto eram torturados. O Técnico levantou a tampa da caixa e moveu o dial, procurando a melhor sintonização: ouviu-se, como que por encanto, o primeiro grito. A voz modulava suas queixas mais graves alternadamente; em seguida surgiram outras vozes mais turvas, porém infinitamente mais poderosas, algumas de mulheres, outras de crianças. Os aplausos, os insultos e os silvos por momentos abafavam os gritos. Mas através desse mar de vozes inarticuladas surgiu uma voz diferente, e no entanto conhecida. O Imperador, que até esse momento estava sorrindo, estremeceu. O Técnico moveu o dial com resguardo: como um pianista que toca um acorde importante ao piano, ele abaixou a cabeça. A gente toda, simultaneamente, reconheceu o grito do Imperador. Como puderam reconhecê-lo? Subia e baixava, rangia, afundava-se, para voltar a subir. O Imperador, assombrado, escutou seu próprio grito: não era um grito furioso ou emocionado, enternecido ou travesso, que ele costumava dar em seus arroubos; era um grito agudo e áspero, que parecia vir de uma usina, de uma locomotiva ou de um porco sendo estrangulado. De repente algo, um instrumento invisível, o castigou. Depois de cada golpe, seu corpo se contraía, anunciando com outro grito o próximo golpe que ia receber. O Técnico, ensimesmado, não pensou que talvez suspendendo a transmissão poderia salvar o Imperador. E não acho, como acham outras pessoas, que o Técnico fosse um inimigo declarado do Imperador e que tinha tramado tudo isso para acabar com ele.
O Imperador caiu morto, com os braços e as pernas pendendo do pedestal, sem o decoro que teria desejado ter diante de seus homens. Ninguém o perdoou por ter se deixado torturar por carrascos invisíveis. As pessoas religiosas disseram que tais carrascos invisíveis eram um só: o remorso.
Remorso de quê? — perguntaram os adversários.
De não ter cortado a língua daqueles réus — responderam as pessoas religiosas, tristemente.

Silvina Ocampo, in A fúria

04/04/2022

Carta perdida em uma gaveta

Faz quanto tempo que não penso em outra coisa a não ser em você, imbecil?, você, que se intromete nas linhas do livro que leio, na música que escuto, dentro dos objetos que vejo. Não creio ser possível que o revestimento do meu esqueleto seja igual ao seu. Suspeito que você pertence a outro planeta, que seu Deus é diferente do meu, que o anjo da guarda da sua infância não se parecia com o meu. Como se se tratasse de alguém que eu tivesse entrevisto na rua, acho que não nos conhecemos na infância e que aquela época não passou de um mero sonho. Pensar, de manhã até a noite, e da noite à manhã, nos seus olhos, seus cabelos, na sua boca, na sua voz, nesse jeito que você tem de andar, não me deixa trabalhar em nada. Às vezes, ao ouvir seu nome ser pronunciado, meu coração para de bater. Imagino as frases que você diz, os lugares que frequenta, os livros de que gosta. No meio da noite, acordo em sobressalto, me perguntando: “Onde estará aquela besta?” ou “Com quem estará?”. Às vezes, com meus amigos, conduzo a conversa a temas que fatalmente atraem comentários sobre o seu modo de viver, sobre as particularidades de sua personalidade, ou então passo pela porta da sua casa, perdendo um tempo infinito te esperando, para ver a que hora você sai ou que roupa está vestindo. Nenhum amante terá pensado tanto em sua amada como eu em você. Sempre me lembro das suas mãos levemente vermelhas, e da pele dos seus braços, mais escura nas dobras do cotovelo e no pescoço, como areia úmida. “Será sujeira?”, penso, esperando conseguir com um defeito novo a destruição do seu ser tão desprezível. Eu poderia desenhar seu rosto de olhos fechados, sem me enganar quanto a nenhuma das suas linhas: me pouparei de fazê-lo, pois temo melhorar suas feições ou divinizar a expressão um pouco bestial das suas bochechas proeminentes. Pode ser mesquinho da minha parte, mas todas as minhas mesquinharias eu devo a você. Depois da nossa infância, que transcorreu em um colégio que foi nossa prisão, onde nos víamos todos os dias e dormíamos no mesmo dormitório, eu poderia enumerar alguns encontros furtivos: um dia, na plataforma de uma estação, outro dia numa praia, outro dia no teatro, outro dia na casa de uns amigos. Não me esquecerei daquele último encontro, tampouco me esqueço dos outros, mas o último me parece mais significativo. Quando notei sua presença naquela casa, perdi a consciência por uma fração de segundo. Seus pés lascivos estavam nus. Pretender descrever a impressão que me causaram as unhas dos seus pés seria como pretender reconstruir o Partenon. Acho, no entanto, que na infância tive o pressentimento de tudo o que eu ia sofrer por sua causa. Ouvi minha mãe dizer seu nome quando entramos, pela primeira vez, para visitar aquele colégio cujo jardim era repleto de jacarandás em flor, e nele havia aquelas duas estátuas, segurando globos de luz em cada um dos lados do portão.
Alba Cristián é filha de uma amiga minha. Vai ficar como interna aqui também. É da sua idade — disse minha mãe, cruelmente.
Senti um estranho mal-estar: pensei que era por culpa do colégio onde iam me internar. Entretanto, como aqueles anéis antigos que continham veneno sob um camafeu ou sob uma pedra, seu nome, como se também fosse um círculo, inconscientemente me pareceu venenoso. Outro pressentimento me avassalou naquele dia do passeio aos lagos de Palermo, quando descemos para comer a merenda sobre o gramado e Máxima Parisi te mostrou uns cartões-postais que ela não quis mostrar a mim, e quando, no fim da tarde, tomando um sorvete de framboesa, ela se recostou sobre seu ombro, no ônibus que nos levou de volta ao colégio. Naquela intimidade que me excluía, senti a ameaça de outras tristezas. Não pense que me esqueci da senha misteriosa da sua mesa de cabeceira, que arrancava um sorriso de Máxima Parisi, nem daquele maço de cigarros americanos que, sem me convidar, vocês fumaram no alpendre dos arbustos, “corpo no chão”, diziam vocês, “como os soldados”, naquele esconderijo que detesto até hoje. Não pense que me esqueci daquele livro pornográfico nem do gato que vocês batizavam com um novo nome extravagante a cada dia, pobre coitado! Nem daquela espécie de supositório para perfumar o banheiro com odor de rosas, que vocês dissolviam num copo de água e passavam nos cabelos e nos braços. Não pense que me esqueci de quando Máxima ficou doente, e você se pendurou no meu braço o dia inteiro, me dizendo que era eu a sua amiga predileta e que ia me convidar para ir à sua casa de campo no verão. Não me iludi, porque, além do mais, você não me inspirava simpatia alguma. Busquei sua amizade só para te afastar das outras. No fundo do meu coração se retorcia uma serpente semelhante à que fez com que Adão e Eva fossem expulsos do Paraíso.
Suspeitava que minha vida seria uma sucessão de fracassos e de abominações. Não há criança infeliz que depois seja feliz: quando adulta, poderá ter lá alguma esperança em algum momento, mas é um erro acreditar que o destino possa mudar as coisas. Pode ter vocação para a felicidade ou para a infelicidade, para a virtude ou para a infâmia, para o amor ou para o ódio. O homem carrega sua cruz desde o princípio; há cruzes de madeira rústica, de alumínio, de cobre, de prata ou de ouro, mas todas são cruzes. Você bem sabe qual é a minha, mas talvez não saiba qual é a sua, pois nem todos os seres são lúcidos, nem capazes de ler o destino nos signos que diariamente surgem ao redor de si. É crueldade de minha parte te advertir disso? Dane-se. Por você não sinto a menor pena. Incomoda-me que alguém ainda ache que somos amigas de infância. Não falta quem me pergunte, em um tom ao mesmo tempo meloso e escandalizado:
Você não tem amigos de infância?
E eu respondo:
Não nasci grudada aos amigos de infância. Se agora tenho pouco discernimento para escolhê-los, imagine quantos erros não cometi nos meus primeiros anos! As amizades de infância são equivocadas, e não se pode ser fiel a um equívoco indefinidamente.
Aquele dia, na casa dos nossos amigos, ao te ver, uma nuvem trêmula envolveu minha nuca, meu corpo se cobriu de arrepios. Peguei um livro que estava sobre a mesa e comecei a folheá-lo com avidez: só depois percebi que o livro se intitulava Balancete das vendas de bovinos. A dona da casa me ofereceu um refrigerante de laranja horrível, “de alfinetes”, como chamávamos toda bebida gaseificada. Bebi num gole só para disfarçar o tremor da minha mão; felizmente fazia calor e fui para a sacada, com o pretexto de tomar uma brisa e de olhar a vista que abarcava o rio da Prata ao longe e, em primeiro plano, o Monumento aos Espanhóis, que, visto desse ângulo, parecia mais do que nunca um gigantesco bolo de casamento ou de primeira comunhão. Sorri para a sua cara de besta, você sorriu de volta. Viver assim não era viver. Senti tonturas, náuseas. Daquele sétimo andar, contemplei a rua, pensando em como seria minha queda, caso me atirasse daquela altura. Uma banca de frutas, caixotes de lixo ao pé do prédio (os lixeiros deviam estar em greve) e um parapeito alto me atrapalhavam na hora de imaginar a cena. Para me acalmar, tentei me concentrar nessa ideia cheia de dificuldades. Tinha o poder, que agora não tenho, de me desdobrar: conversei com as pessoas que me rodeavam, ri, olhei para todos os lados com os olhos cravados no fundo daquele precipício com caixotes de lixo, com frutas e com homens passando. Tudo era menos imundo do que a sua cara. “A quantas músicas, a quanta gente, a quantos livros tenho que renunciar para não compartilhar os mesmos gostos com você?”, pensei ao olhar para dentro do apartamento através do vidro da janela. “Quero minha solidão, a quero com mil caras impessoais.” Olhei para você e através do reflexo do vidro sua cara de piranha tremulou, como se estivesse no fundo da água. Pensei em todos aqueles em que não posso pensar por sua causa e no sortilégio que me envolvia. Você está em mim como essas figuras nos quadros que escondem outras mais importantes. Um especialista pode apagar a figura sobreposta, mas onde está o especialista? Preciso dar uma explicação a respeito de meus atos. Depois de ter te cumprimentado com uma amabilidade inusitada, te convidei a tomar chá. Você aceitou. Eu te disse que minha casa estava sendo pintada. Por sorte você sugeriu que seria melhor irmos à sua casa. No momento em que você estiver preparando o chá e o deixar na mesa, fingirei um desmaio. Você irá pegar o copo d’água que vou te pedir, então jogarei na chaleira o veneno que trago na bolsa. Você irá servir o chá depois de um instante. Eu não tomarei o meu, pensei, como se delirasse enquanto você estava falando comigo.
Não realizei meu projeto. Era infantil. Achei mais inteligente usar esse procedimento para matar L. Descartei a ideia porque a morte não me pareceu um castigo.
O que você tem? — me perguntava L.
A conversa recaía em você. Eu dizia sobre você as piores coisas que se pode dizer sobre um ser humano. Falei de sujeira, de mentiras, de deslealdade, de vulgaridade, de pornografia. Inventei coisas atrozes que acabaram sendo maravilhosas. Não suspeitei que, pela primeira vez, L. se interessava por sua personalidade, por sua vida, por sua maneira de sentir e que tudo tinha nascido da minha imaginação.
Durante o tempo que me dediquei a pensar só em você, a falar das suas roupas horríveis, da sua maldade, de como você não tinha nojo de meter dinheiro sujo na boca e coisas que encontrava no chão, construí para vocês, com minha cumplicidade, com minhas suspeitas, com meu ódio, este ninho de amor tão complicado onde vivem afastados de mim por minha culpa. Quero que saiba que você deve a sua felicidade ao ser que mais te despreza e te detesta no mundo. Quando desaparecer esse ser que te enfeita com sua inveja e te embeleza com seu ódio, sua felicidade estará acabada junto com a minha vida e o fim desta carta. Então você se internará em um jardim semelhante ao do colégio que era nossa prisão, um jardim ilusório, cuidado por duas estátuas, que seguram dois globos de luz nas mãos, para iluminar a sua solidão inextinguível.

Silvina Ocampo, in A fúria

27/03/2022

Nós

— “Nunca se olhe num espelho!”, seria uma redundância — me dizem nossos amigos. — Você estará olhando para Eduardo, que é igual a você, para se pentear ou dar o nó na gravata.
Dizem que nos parecemos como duas gotas de água, mas conheço tanto as diferenças que há entre nós como a que há entre minha mão esquerda e minha mão direita, ou entre meu olho direito e meu olho esquerdo. Modéstia à parte, meu rosto, de perfil, é mais bem-acabado que o de Eduardo; quando rimos, a covinha das bochechas, que tanto sucesso faz, é mais acentuada em mim; por isso as meninas me olham tanto: contudo, nunca tentei me apaixonar por outras mulheres que não fossem aquelas por quem meu irmão se apaixonava. Por vezes pensei que era bom ser um pouco independente, confesso, mas não levei isso adiante. Sou feliz: para que procurar pelo em ovo? Somos de uma família abastada e distinta. Pelas manhãs, tomamos um café para lá de farto, que até o rei da Inglaterra invejaria. Dedicamo-nos a alguns esportes: lançamento de dardo, natação, golfe. Pelas tardes nos ocupamos com nossa tarefa habitual, que tanta satisfação nos dá. Acho que não sabemos o que é estar triste ou deprimido. Nos bastaria abrir o guarda-roupa e contemplar nossos sapatos lustrosos como espelhos para apagar qualquer preocupação. A governanta que temos é um doce; ela deixa nossa vida ainda mais feliz. (Governanta, ama de leite, dona de casa. Essas mulheres exemplares sempre nos fascinaram.) Um dia nos apaixonamos por ela, porque estava sempre por perto, mas logo tivemos uma tremenda desilusão: seus dentes, que nos pareciam um colar de pérolas, eram postiços; nós os vimos dentro de um copo d’água, em seu quarto. Seus pés, nos quais tropeçávamos, tinham um dedo encavalado. Suas refeições pela manhã eram natas sobre um pedaço de pão e alho picado.
Seria melhor pensar em outra coisa — eu disse a Eduardo, que imediatamente me compreendeu.
Pobre Bernarda! Quantas ilusões criou conosco. Mas não quero pensar nas desventuras alheias! Para ela, sempre seremos os garotos mimados, os diabinhos, os bonitões despreocupados.
Quando nos apaixonamos por Leticia, pensamos que o mundo ia mudar. A felicidade é ambiciosa: queríamos mais e mais. Conhecemos Leticia no Clube Náutico de San Isidro. Foi Eduardo quem a conquistou com não sei que ardis. Eu fiquei todo aceso, mas ela não queria saber de nada comigo.
Por que você usa sempre o plural? — ela me disse.
Isso a incomoda? — perguntei.
O meu namorado é o Eduardo, você não entende? — me respondeu.
Afastei-me, desolado.
Ela às vezes me confundia com Eduardo, quando me encontrava na rua, e me cumprimentava efusivamente, ou ao telefone, quando ligava para casa para falar com ele e me dizia frases amorosas, que eu adorava. Quando Eduardo se casou, fingi uma viagem de alguns meses para a Patagônia, lugar ideal para um misantropo.
Fiquei incógnito em um hotel de Buenos Aires, sonhando que estava em viagem pela Europa. Eduardo vinha me visitar pelas tardes, com os bolsos cheios de tabletes de chocolate suíço. Do hotel, ele telefonava para sua mulher e me passava o fone para que eu finalizasse a conversa; eu fazia isso de boa vontade, afinal, Leticia me dizia palavras flamejantes com uma voz não menos flamejante. Como nos divertíamos!
No bairro onde Eduardo vivia aconteciam então frequentes cortes de luz, previamente anunciados nos jornais. Essa circunstância facilitaria as coisas. Eduardo, com muitos eufemismos, me deu a ideia:
Por que não passa a noite com Leticia? Eu substituo você antes das sete da manhã.
Ele me deu as chaves. Com o coração na boca, aceitei e fui ao apartamento que fica na Calle Junín. Estava combinado que eu chegaria à meia-noite, hora em que Eduardo tinha que voltar de um jantar só de homens, no Hotel Alvear. Tomei uns comprimidos para os nervos e cheguei ao apartamento depois de me demorar no elevador mais do que necessário. Abri a porta com tranquilidade, escutei passos descalços no carpete. Leticia se jogou em meus braços. Eduardo tinha me dito:
Você tem que fingir que sou eu. Chame-a de minha ovelhinha.
Para mim não era difícil imaginar que eu era Eduardo, pois na infância tinha feito muitas vezes brincadeira parecida; mas chamá-la de Ovelhinha, isso eu não podia. Levantei-a em meus braços e a levei para a cama. Do resto, quase não me lembro. A emoção sexual é uma espécie de hipnótico, me rouba a memória. Quando Eduardo chegou para me substituir, eu estava dormindo profundamente. Com muito cuidado, ele teve que se aproximar da cama e me acordar, antes que Leticia despertasse. Voltei várias vezes, em circunstâncias semelhantes, para dormir nos braços de Leticia. A vida se tornou agradável, mas não livre de perigos e de variações.
Duas pessoas juntas se atrevem a fazer qualquer coisa: Eduardo e eu temos uma força maior que a média das pessoas. Que outros irmãos gêmeos teriam ousado coisa parecida?
Bem se diz que o amor é cego. Começava o outono. Durante uma semana, Leticia conviveu comigo acreditando que eu era Eduardo. Eu mesmo cheguei a achar que era Eduardo, de tanto que o imitava. Mas um evento desagradável quebrou o encanto. Leticia ouviu comentários maldosos de pessoas que tinham visto Eduardo na hora em que ela estava em meus braços. Ela começou a calcular possíveis desdobramentos, imaginar situações mágicas que permitiam que simultaneamente estivesse nos braços de Eduardo enquanto Eduardo estava em outros lugares. Alguém, talvez por pura maldade, tirou uma fotografia de Eduardo, sem que ele percebesse, em uma casa onde se jogava pôquer. A foto tinha a data e o endereço no verso e a pessoa a enviou para Leticia.
Leticia começou a refletir com frieza enquanto eu a abraçava. Confidenciou-me suas apreensões. Eu a tranquilizei. Minha vida já não era uma vida! Numa manhã, achei que Leticia estava dormindo, como sempre estivera à hora que Eduardo chegava para me substituir. Levantei-me furtivamente assim que ouvi entrar Eduardo, que se assomou à porta. Nosso sangue gelou! Como uma assombração, Leticia se levantou da cama. Tanta tranquilidade não era humana. Foi até o telefone e falou com uma tapeçaria para que fossem colocar os tapetes. Pensei que ia matar um de nós dois ou nos denunciar. Certamente a vergonha a impediu de fazê-lo. Tentou de todas as formas que Eduardo partisse para cima de mim.
Fizemos nossas malas, e Eduardo e eu fomos embora daquela casa onde a vida já nos parecia tediosa, para não dizer insuportável.

Silvina Ocampo, in A fúria

15/03/2022

Os objetos

No dia de seu aniversário de vinte anos, alguém deu de presente a Camila Ersky uma pulseira de ouro com uma rosa de rubi. Era uma relíquia de família. Ela gostava da pulseira e só a usava em determinadas ocasiões, quando ia a algum encontro ou ao teatro, a alguma sessão de gala. Quando a perdeu, no entanto, não dividiu com o resto da família o luto de sua perda. Para ela, os objetos pareciam substituíveis, por mais valiosos que fossem. Apreciava apenas as pessoas, os canários que enfeitavam sua casa e seus cachorros. Ao longo da vida, acho que só chorou pelo desaparecimento de uma corrente de prata, com uma medalha de Nossa Senhora de Luján, banhada em ouro, presente de um de seus namorados. A ideia de ir perdendo as coisas, essas coisas que fatalmente perdemos, não a fazia sofrer como fazia o resto de sua família ou suas amigas, todas tão vaidosas. Foi sem lágrimas que viu a casa onde tinha nascido ser despojada, uma vez por um incêndio, outra, pelo empobrecimento, ardente como um incêndio, de seus adornos mais estimados (quadros, mesas, consoles, biombos, vasos, estátuas de bronze, ventiladores, anjinhos de mármore, dançarinos de porcelana, frascos de perfume em forma de flor de rabanete, cristaleiras inteiras com miniaturas repletas de cachos e barba), às vezes horríveis, mas valiosos. Suspeito que sua conformidade não era um sinal de indiferença e que ela pressentia, com certo mal-estar, que um dia os objetos tirariam dela algo muito precioso: sua juventude. Talvez agradassem mais a ela que às demais pessoas que choravam ao perdê-los. Às vezes os via. Chegavam a visitá-la, como pessoas em procissão, sobretudo à noite, quando estava para dormir, quando viajava de trem ou de carro, ou até mesmo em seu caminho diário para o trabalho. Por vezes a importunavam como se fossem insetos: ela queria espantá-los, pensar em outras coisas. Com frequência, por falta de imaginação, ela os descrevia aos filhos, nas histórias que contava a eles para distraí-los enquanto comiam. Não acrescentava aos objetos nem brilho, nem beleza, nem mistério: não era necessário.
Numa tarde de inverno, voltando dos afazeres pelas ruas da cidade, ao cruzar uma praça parou em um banco para descansar. Por que imaginar apenas Buenos Aires? Há outras cidades com praças. Uma luz crepuscular banhava os galhos das árvores, as veredas, as casas que a rodeavam; aquela luz que às vezes amplia a agudeza do contentamento. Olhou para o céu por bastante tempo, acariciando suas luvas de pelica malhada; em seguida, atraída por algo que brilhava no chão, baixou os olhos e viu, depois de um instante, a pulseira que tinha perdido fazia mais de quinze anos. Com a emoção de um santo diante do primeiro milagre, recolheu o objeto. A noite caiu antes que resolvesse, como outrora, colocar a pulseira no pulso de seu braço esquerdo.
Quando chegou em casa, depois de ter olhado seu braço para se assegurar de que a pulseira não tinha se desvanecido, deu a notícia aos filhos, que nem por isso interromperam as brincadeiras, e ao marido, que a olhou desconfiado, sem interromper a leitura do jornal. Por muitos dias, apesar da indiferença dos filhos e da desconfiança do marido, despertava nela a alegria de ter encontrado a pulseira. As únicas pessoas que teriam se assombrado devidamente já tinham morrido.
Começou a recordar com mais precisão os objetos que tinham povoado sua vida; lembrou deles com saudade, com uma ansiedade desconhecida. Como em um inventário, seguindo uma ordem cronológica invertida, apareceram em sua memória a pomba de quartzo com o bico e a asa quebrados; a bomboneira em forma de piano; a estátua de bronze, que segurava uma tocha com pequenas lâmpadas; o relógio de bronze; a almofada marmórea, com borlas e listras azul-claras; os binóculos de ópera com cabo de madrepérola; a xícara de chá com inscrições e os macacos de marfim, com cestinhas cheias de macaquinhos.
Da forma mais natural para ela, e mais inacreditável para nós, foi recuperando pouco a pouco os objetos que durante muito tempo tinham morado em sua memória.
Simultaneamente percebeu que a felicidade que tinha sentido no começo se transformou em mal-estar, em temor, em preocupação.
Quase não olhava mais para as coisas, com medo de descobrir um objeto perdido.
Enquanto Camila, inquieta, tentava pensar em outras coisas, os objetos apareciam, nos mercados, nas lojas, nos hotéis, em todo canto, da estátua de bronze com a tocha que iluminava a entrada da casa ao pingente de coração atravessado por uma flecha. A boneca cigana e o caleidoscópio foram os últimos. Onde encontrou esses brinquedos que eram parte de sua infância? Tenho vergonha de contar, porque vocês, leitores, vão pensar que quero apenas assustá-los e que não falo a verdade. Pensarão que os brinquedos eram outros, parecidos com os originais, e não os mesmos; que claro que não existe apenas uma boneca cigana no mundo, nem apenas um caleidoscópio. Mas o destino quis que o braço da boneca tivesse uma borboleta desenhada em nanquim e que o caleidoscópio tivesse, sobre o tubo de cobre, o nome de Camila Ersky gravado.
Não fosse tão patética, essa história seria tediosa. Se não parece patética a vocês, leitores, ao menos é curta, e contá-la me servirá de exercício. Nos camarins dos teatros que Camila costumava frequentar, ela encontrou os brinquedos que, por uma série de coincidências, pertenciam à filha de uma bailarina; a menina insistiu em trocá-los por um urso mecânico e um circo de plástico. Camila voltou para casa com os velhos brinquedos embrulhados em folhas de jornal. Ao longo do trajeto, diversas vezes quis deixar o pacote no descanso de uma escada ou na soleira de alguma porta.
Não havia ninguém em casa. Ela escancarou a janela, inspirou o ar da tarde. Então viu os objetos alinhados contra a parede do quarto, como tinha sonhado que os veria. Ajoelhou-se para acariciá-los. Perdeu a noção do dia e da noite. Observou que os objetos tinham caras, essas caras horríveis que ganham quando os olhamos por um tempo longo demais.
Através de uma fileira de glórias, Camila Ersky tinha por fim entrado no inferno.

Silvina Ocampo, in A fúria

05/03/2022

A propriedade

Nesta propriedade que dava sobre o mar, cujo jardim não tinha flores por causa do vento, mas havia todo tipo de cascata, de gruta, de fonte e de pérgula, vivíamos em um paraíso. A dona às vezes ia à cidade e durante sua ausência eu aproveitava para descansar. Bonita como ninguém mais, nesses dias eu saía e descia para a praia, com o quimono e as sandálias postos; não faltava esmalte em nenhuma unha, nenhuma perna sem depilar.
Aproveitei as férias, que passaram num piscar de olhos, para me submeter a cirurgias estéticas: comecei pelo nariz, depois foi a vez dos olhos e dos seios. Os médicos não me cobravam nada. Eu não via inconveniente algum em servir a seus experimentos, porque quem me atendia eram médicos importantes e sérios, verdadeiros doutores, e não estagiários que matam umas por aí, prometendo mundos e fundos.
Não havia, no continente inteiro, propriedade tão bonita quanto essa. Muitos hóspedes milionários vinham se instalar e passavam dias, às vezes semanas, às vezes meses na casa. A dona era boa, tanto para as visitas quanto para os empregados. Meu trabalho era agradável. Não encerava pisos nem limpava vidros, que é tão maçante.
O mais difícil para mim era me levantar às seis e meia da manhã: nem a limpeza dos banheiros, nem atender o telefone quando desligavam na minha cara me desagradavam tanto como esse momento em que eu abandonava meus castelos no ar para sair da cama e servir o café da manhã, que não é trabalho de cozinheira.
Naquela mansão, em vez de flores, eram peixes vermelhos, nadando em seus aquários como se estivessem em casa, que enfeitavam os quartos. Essa era uma das tantas originalidades da patroa. Além de ser generosa, minha patroa era bonita e tinha os cabelos claros como o trigo, “talvez um pouco magra demais para sua estatura”, diziam o padeiro Ruiz e Langostino, o do cais, que eram uns invejosos; para mim, ela estava dentro de seu peso. Mas nunca estava satisfeita. Sempre queria emagrecer mais: que pecado! O tratamento de um especialista, com hormônios que custavam o olho da cara, a fez engordar quarenta quilos, que ela perdia facilmente, sem querer, fosse comendo como um tubarão ou como um passarinho. Quantas vezes eu a segurei em meus braços, chorando, porque não tinha perdido peso ou porque tinha engordado injustamente, apesar dos muitos sacrifícios! Certa vez até fiquei resfriada, de tantas lágrimas que recebi sobre os ombros. Eu era seu lenço de lágrimas!
Se a senhora fosse pobre como eu, não se alimentaria tão mal — eu dizia a ela, para consolá-la. — Pior seria parecer um elefante como a d. Macuri, ou um palito de dente como a d. Selena, ou um faquir indiano, como outras de suas convidadas — acrescentava eu, com o coração na mão. Ela me fazia ficar quieta. Sabia que era perfeita, mas cismava com a mesma ladainha: gorda e magra, magra e gorda.
Às oito da manhã, os companheiros levavam os aquários ao jardim para trocar a água e dar comida aos peixes, que eram uns comilões.
As venezianas ficavam bem fechadas, tanto que era preciso jeito e força para abri-las. Um dia um dos convidados me chamou para que eu abrisse uma delas.
Eu fico sufocado nesta casa. É bonita, mas as venezianas não abrem.
Contei isso à patroa e ela aproveitou para não convidar mais o mal-agradecido, que nunca me deu gorjeta, nem quando eu pegava seus sapatos debaixo da cama, o que não era trabalho meu.
A patroa me tratava bem, a não ser quando se irritava, e isso acontecia todos os dias: por causa de uma porta aberta, por uma poltrona posta no lugar errado, por uma sujeirinha que tinha caído em um canto, por causa dos bem-te-vis que emporcalhavam as cadeiras do terraço. Que culpa tinha eu!
A patroa era elegante. Com verdadeiro desgosto, eu via envelhecer as roupas, os sapatos, as luvas, a roupa interior que ela ia me dar. Não sou interesseira. Às vezes, se o pincel do batom caía no chão, ela o dava para mim; se faltasse apenas um dente no pente, mesmo sendo de tartaruga, ela também o dava para mim. Não era mesquinha com os perfumes: ia embora meio frasco de perfume por dia: as visitas tinham todas o mesmo cheiro relaxante de algumas flores, que não me deixam dormir à noite.
Os trajes de banho, eu os estreava novinhos, porque no mesmo dia em que a patroa os comprava, para ela já pareciam horríveis, por isso, por aquilo e por aquilo outro. Eu era muito feliz naquela vida de abundância e de luxo: nunca faltou vinho na minha refeição, nem café nem chá, se eu quisesse. Os remédios velhos e as sobremesas que não tinham ficado muito boas, ela os dava para minha mãe doente, que a adorava como eu.
Tudo mudou quando chegou Ismael Gómez. A patroa já não me dava seus vestidos velhos, nem seus remédios, porque Ismael Gómez considerava que quanto mais velha fosse a roupa ou o remédio, melhor eles caíam. As refeições também mudaram: me obrigaram a preparar muitas sobremesas com creme e ovo batido, muito merengue com doce de leite e gemas queimadas, que faziam mal ao meu fígado. Ismael Gómez tinha uma verdadeira adoração pela senhora patroa, mas a respeitava, isso, sim. Não a deixava se mexer, pegava para ela qualquer coisinha de que precisasse. O dia inteiro lhe oferecia algo de comer, comprava-lhe bebidas finíssimas e não dividia nada com ninguém, como se não quisesse abusar das riquezas dela. As pessoas diziam que ele era um doce, mas eu não o engolia.
Naquela época, a senhora contratou um tremendo cozinheiro, recomendado por Ismael
Gómez. Tiraram-me da cozinha sem dizer água-vai. As refeições mudaram de novo. Enormes sobremesas de quatro andares, adornadas com figuras que aparentavam alegria, desfilavam diariamente pela sala de jantar. Com o tempo descobri que aquelas figuras feitas de merengue rosado, que, no primeiro momento, eu achei tão bonitas, representavam caveiras, monstros de quatro cabeças, demônios com foices, enfim, um universo inteiro de coisas horríveis, que minha patroa não percebeu porque não tinha malícia; eu não me atrevi a explicar nada a ela. Resolvi, no entanto, vigiar as refeições, as travessas, então eu entrava intempestivamente na cozinha, onde me recebiam com hostilidade.
Ismael Gómez redobrou seus cuidados com a patroa. Não permitia que a incomodassem nem para ir ao banco. Durante vários dias, em um caderno de folhas quadriculadas, como um bebê que não sabe escrever, ele se exercitou em imitar a assinatura dela, até que ninguém pudesse distinguir que mão tinha escrito aquelas linhas.
Várias vezes me escondi atrás da porta para escutar as conversas entre ela e Ismael Gómez, ao anoitecer, antes de nos deitar. Eu pressentia que alguma desgraça ia acontecer na casa, mas não conseguia explicar em que meus pressentimentos se fundamentavam. Tive que consultar um médico, porque fiquei febril de tanto ter tido pesadelos por noites seguidas.
Meus pressentimentos se cumpriram no dia em que vi minha senhora deitada com perfil de santa, entre coroas de flores brancas, na capela-ardente. Eu acabava de chegar da casa das minhas tias, onde tinha passado um mês de férias, e, na porta, com meu coração nas mãos, que batia como um despertador, perguntei:
Onde está a patroa?
Está na sala, de corpo presente — me responderam.
Caí de joelhos. Nos espelhos, eu parecia uma anã, sem tirar nem pôr. Quem é esta aí?, pensei, e era eu. Entrei na sala chorando feito uma madalena. Seu Ismael Gómez me tomou pelo braço e disse:
Tenho que te dar uma boa notícia. A senhora te deixou uma pequena fortuna, sob a condição de que você cuide desta casa, que agora é minha, como sempre cuidou para mim e para ela, que continuará vivendo em nossa memória — e acrescentou, contendo as lágrimas: — Veja só como é a vida! Ela não quis ser minha noiva e agora é noiva da morte, que é menos alegre que eu.
Um zumbido de mosca-varejeira preencheu a sala: mulheres enlutadas rezavam. Perdi a cabeça.
Atirei-me nos braços que Ismael Gómez me estendia como um pai e entendi que ele era um patrão bondoso.

Silvina Ocampo, in A fúria