01/08/2026
Disritmia
Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o
trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por
dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos
entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na
quarta corda,
pra me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera
ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
Não existe o destino.
Quem é premente é Deus.
Adélia Prado, em Bagagem
Acerca da glória vã
Está livre o teu peito do amor à glória vã? Estará também da ira e do medo da morte? Os sonhos, os terrores mágicos, as feiticeiras, os duendes noturnos, os sortilégios de Tessália: eles te fazem rir?
Horácio, em Epístolas, II, 2.
Até às alelúias!
[…]
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas
não estipula.
O que houve, que se deu. Que vi. Com a
sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi.
Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a
gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não
quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o
mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez
uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio
pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre
mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha,
terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ―
E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e
cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei
com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e
trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero.
Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ―
em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o
princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião
esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele.
Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes
do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a
goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ―
bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos
espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh,
mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali,
era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo
tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As
tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria
pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que
eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso
da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios
e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse
de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho
já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era
o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio.
Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro.
Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de
pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto:
das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra
para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até;
deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda
carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra
dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele
― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele
corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele
guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as
excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era
em ramo de suicídios.
― A modo que morreu? Ele foi para os
infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era
que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ―
a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que
foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar,
pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim
me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue.
Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio
que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de
sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror
maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas
escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que
imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no
ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com
meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o
ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À
viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
Buganvílias
Fonte da imagem: Jardineiro.net
Nossa casa é antiga, embora não
secular — explicava-me aquela senhora — e o senhor sabe como
essas construções antigas têm pé-direito alto, um despropósito.
Nossos dois andares enfrentam bem uns três dos edifícios vizinhos.
Isso lhe dará ideia da altura de minhas buganvílias, pois as raízes
delas se misturam com os alicerces, e temos praticamente dois
telhados: o comum, e esse lençol rubro de flores, quando vem
pintando a primavera.
Não, não pense que as flores cobrem
o telhado: elas formam o seu teto especial, no terraço, dominando a
pérgula — e a boa senhora sorriu — que o antigo proprietário
fez questão de construir, para dar um ar meio silvestre, meio
parnasiano, àquela superfície árida de ladrilhos. Nossa casa está
longe de ser bonita, embora eu goste muito dela; e quando as
buganvílias funcionam a todo vapor, na florescência, não imagina
como a nossa modesta alvenaria se transforma numa coisa espetacular,
todo aquele dilúvio de escarlate que a brisa do Brasil beija e
balança, os ladrilhos também se deixam atapetar de florinhas, e até
o cãozinho, indo brincar no terraço, costuma voltar trazendo no
pelo branco manchas encarnadas de primavera. Caem florinhas nas
panelas da cozinheira, cá embaixo, e se a gente deixar entreaberta a
janela do banheiro, pode tomar seu banho de Bougainvillea
spectabilis, Willd., ou que nome tenha; sei que é uma
nictaginácea, ouviu?
Tudo isso é simpático, mas tem seus
inconvenientes. Quando nos instalamos, um mestre de obras ponderou:
“Eu, se fosse madame, cortava essas trepadeiras. Veja como os
troncos encorparam, e como as paredes vão trincando. A raiz está
abalando tudo”. Não tive coragem de matar uma planta de Deus,
aliás duas, subindo lado a lado, confundindo lá em cima os galhos e
fazendo de nossa casa uma coisa diferente, no cinzento da Zona Sul
(os moradores dos edifícios garantem que, vista do alto, a casa vale
muito mais do que vista da rua, por causa das buganvílias, que fazem
bem aos olhos). E depois, já tivemos que sacrificar a goiabeira para
abrir mais uma caixa-d’água subterrânea, Deus nos perdoe. Não,
as buganvílias, não. A casa pode vir abaixo, e seremos soterrados
sob tijolos e flores, mas todo o poder às buganvílias!
Há dias foi engraçado, porque
convidamos um casal para almoçar, e já na horinha me lembrei que
não tínhamos flores em casa. Fui comprá-las correndo, mas a greve
da Leopoldina acabara com elas, ou era a própria greve das flores,
que pediam aumento de orvalho; não havia uma triste corola à venda.
E não era dia de feira no bairro, de sorte que não se podia
recorrer a flores de calçada. Voltei de alma ferida, porque se pode
trabalhar sem flor, dormir sem flor, mas comer sem flor é
desagradável, tira o sal. Estava imersa em vil desânimo, quando me
pousou no nariz, trazida pelo vento, a florinha de buganvília, cujos
ramos estão explodindo de vermelho, entre pinceladas verdes. Voei ao
quarto de depósito, saí de lá brandindo a escada de três metros,
e icei-a na pérgula. E com risco de romper o esqueleto, pois escada
de casa velha também é velha e desconjuntada, aos olhos divertidos
ou indignados da vizinhança, fui ceifando com tesoura aquele mar de
florinhas sanguíneas. Enchi duas cestas enormes, e nunca minha casa
ficou tão bonita como enfeitada assim à última hora, sem gastar um
cruzeiro; o casal ficou encantado, mas que beleza de flor, então eu
expliquei que buganvília não tem propriamente flores, tem brácteas,
que são folhas iguais às outras, mas valorizadas pelo vermelho. Deu
tudo certo, e eu senti que os imensos pés de buganvílias me
agradeciam e pagavam dessa maneira a decisão de poupar-lhes a vida
até a consumação dos séculos — ou da nossa velha casa, que eles
vão destruindo poeticamente.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
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