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23/07/2026

Garçom vegetariano

Restaurante chique. Um casal está sentado. Garçom vem atendê-los.
GARÇOM Posso anotar o pedido de vocês?
HOMEM Eu tô pensando em pedir esse filé à Oswaldo Aranha. Como é que ele vem?
GARÇOM Vem morto.
HOMEM Não entendi.
GARÇOM O filé, senhor, é um boi, né? E ele é servido, invariavelmente, morto.
Garçom fica triste. Quase chora.
GARÇOM Desculpa, é que eu soube disso agora há pouco.
MULHER Sim, mas ele quer saber da parte Oswaldo Aranha.
GARÇOM Ah. Isso devia ser o nome de uma pessoa. Provavelmente um homem. Também morto. Que deu nome ao filé.
HOMEM Mas como é que ele é servido? O filé?
GARÇOM Morto. Invariavelmente. Isso daí infelizmente não tem como mudar.
MULHER Sim, mas vem com quê?
GARÇOM Ah. Alho. Por cima. Do cadáver. Do boi morto. Abatido brutalmente, com uma pancada na cabeça.
MULHER Acho que eu vou de frango. Como é que é esse supremo de frango?
GARÇOM Isso daí é um pintinho que eles entupiram de hormônio pra crescer bem rápido. Daí criaram com mais mil pintinhos entulhados dentro de uma caixa de sapato. D…
MULHER Sim, mas depois…
GARÇOM Mataram ele. Invariavelmente. É uma coisa horrível.
HOMEM Mas e a parte do Supremo…
GARÇOM Creme de leite. Por cima do cadáver. Do frango morto.
HOMEM Acho que a gente vai de saladinha mesmo.
Garçom sorri. Anota o pedido.
MULHER Tem salada de atum?
Garçom volta a chorar, inconsolável.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

29/06/2026

Nuances

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.
Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.
Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.
Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.
Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.
Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.
Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.
Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.
Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.
Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.
Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.
Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.
Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.
Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.
Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.
Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.
Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.
Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.
Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.
Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.
Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.
Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.
Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no Mojito ou no suco de abacaxi.
Mentira: na vida real. Inverdade: na política.
Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.
Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz.
Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando está sendo dublado.
Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.
Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.
Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.
Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

16/06/2026

Cabeça do Gregorio

Um grande escritório vazio. Ou quase: no canto, vemos uma mesa, com um computador velho. Um funcionário está dormindo. Seu nome é Totoro. Entra um sujeito engravatado. Totoro acorda.
FISCAL Aqui é o departamento de ideias da cabeça do Gregorio?
TOTORO Isso.
FISCAL Vazio, né?
TOTORO Ô. Quem é você?
FISCAL Eu trabalho no outro departamento da cabeça do Gregorio, o de fiscalização de outros departamentos. E o pessoal tem reclamado muito lá em cima de falta de ideias.
TOTORO É que eu tô muito pegado.
FISCAL Você não tava dormindo quando eu cheguei?
TOTORO Não, tava olhando a mesa. Mais de pertinho. Pra ver se era de madeira. Ou não.
FISCAL Você trabalha aqui?
TOTORO Isso. Eu sou o chefe do departamento de ideias.
FISCAL Chefe de quem?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tem mais alguém trabalhando aqui?
TOTORO Não.
FISCAL Então você é chefe de…?
TOTORO Do departamento de ideias.
FISCAL Tá explicado por que é que não chega ideia nenhuma.
TOTORO A culpa não é minha. Eu sou só um intermediário. Eu espero as ideias caírem e copio elas neste computador. E elas têm chegado muito pouco.
Cai uma bolinha de papel do teto.
FISCAL O que é que é isso?
TOTORO Uma ideia.
FISCAL Você não vai pegar?
TOTORO Em geral eu espero formar um montinho.
FISCAL Mas aqui já tem umas quatro.
Totoro respira fundo e levanta impaciente. Pega as bolinhas.
TOTORO É que não vai prestar. Quer ver? “Batizar um edifício de ‘Edifício é fácil’”.
FISCAL Que merda.
TOTORO Esse tipo de ideia eu nem passo pra vocês.
FISCAL Obrigado.
TOTORO “Um brasileiro, um americano e um japonês…” as que começam assim eu nem leio.
FISCAL Aqui tem uma que parece boa: “Um casal de idosos descobre que eram…”.
TOTORO Isso é do Verissimo.
FISCAL Mas ele roubou do Verissimo?
TOTORO Ele leu. Daí esqueceu que leu. Agora acha que é dele.
FISCAL “Rita Lee/ Ritalina.” Que trocadilho merda.
TOTORO Ele não se deu ao trabalho nem de formular uma frase.
Começa a cair um monte de bolinha.
FISCAL Caraca! Um monte de uma vez só.
TOTORO Relaxa. Isso só acontece quando ele fuma maconha.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

31/05/2026

O país e o armário

Todo ano, um milhão de mulheres fazem aborto na França. Eu sou uma dessas mulheres. Eu abortei.” O manifesto foi assinado por 343 mulheres e publicado no Nouvel Observateur, em 1971.
O Estado francês tinha duas opções: prender essas mulheres ou reconhecer que elas não fizeram nada de errado. O Estado não prenderia 343 mulheres. Ou melhor: não essas mulheres. Dentre as assinaturas, estavam as de Ariane Mnouchkine, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Marguerite Duras. A redatora do manifesto era ninguém menos que Simone de Beauvoir. Não prenderam ninguém.
A esse manifesto, seguiram-se outros: 331 médicos assumiram-se a favor da causa. Na Alemanha, 374 mulheres assinaram um manifesto em que diziam: Wir haben abgetrieben. Nós abortamos. Entre as mulheres, Romy Schneider e Senta Berger. Em 1975 o aborto deixa de ser crime na França e passa a ser chamado de “interrupção voluntária de gravidez”. A interrupção passa a ser “livre e gratuita” até a décima semana de gestação.
Estamos muito longe dessa lei por aqui. Nenhum dos candidatos a presidente parece interessado em discuti-la. Tampouco a classe artística está interessada em sair do armário nesse assunto. O Brasil vai na direção oposta. É constrangedor ver os principais candidatos se estapeando pelo eleitorado conservador. Não se trata de propor mudanças, trata-se de vender apego à tradição. “Você me conhece, sabe que eu sou o que mais acredita em Deus, o que mais passou longe de dar a bunda, de cheirar pó, olhem só como minha filha é virgem, olhem só como meu filho é hétero.” Todos estão desesperados pelo voto conservador. Estranhamente, ninguém está nem aí pro voto aborteiro.
Se as eleições, como anuncia o plantão da Globo, são a festa da democracia, essa festa, Dona Globo, está meio caída — ou fui eu que bebi pouco. Na minha opinião, tem pastor demais e maconha de menos. A maioria dos candidatos não fede nem cheira — a não ser um deles, que cheira. Um amigo gay outro dia disse que “levantar bandeira é cafona e quem sai do armário é porque quer atenção”. Amigo, tudo bem, ninguém é obrigado a sair do armário. Mas você não precisa trancar a porta por dentro.
Sair do armário não é um ato exibicionista. Levantar bandeira também não. O manifesto das 343 vagabundas, como ficou conhecido, não permitiu às manifestantes que elas fizessem um aborto. Elas já o tinham feito. Permitiu às suas filhas e netas.
Ateus, maconheiros, vagabundas, pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de lá tá bem juntinho.
Agosto de 2014

Gregório Duvivier, em Put some farofa

21/05/2026

Quem nunca

Ambiente de trabalho. Três mulheres estão sentadas, cada uma em seu computador. Marta puxa papo.
MARTA Gente, eu sou uma pessoa péssima.
TELMA Eu te garanto que eu sou uma pessoa pior que você.
MARTA Não é, não. Meu vizinho ficou fazendo barulho de madrugada. Aí hoje eu acordei e liguei o som no volume máximo. Falamansa: rararará mas eu tô rindo à toa. E vim trabalhar. Deve estar rolando agora.
TATI Você é péssima!
MARTA Ué, qual é o problema? A lei do silêncio só vai até as oito da manhã!
Elas riem.
TELMA Amiga, e eu que criei um perfil falso só pra trollar a nova namorada do meu ex no Instagram.
MARTA Mentira!
TELMA Fico o dia inteiro lá: Feia. Tornozelo grosso. Não vestiu bem. Seu cabelo tá seco.
MARTA Boa! Sua escrota.
TELMA Quem nunca?
Elas riem.
TATI E eu, que roubo?
MARTA Oi?
TATI E eu, que roubo coisas que eu não preciso só pras pessoas não terem mais as coisas?
TELMA Você faz isso?
TATI Vai dizer que sou só eu? Agora vai dizer que eu sou a única que roubo coisas de mendigos que estão dormindo?
MARTA Você rouba de mendigo?
TELMA É a única coisa que eles têm!
JULIA Exatamente!
TATI Eles ficam desesperados!
MARTA Por isso é que não pode.
TATI Por isso é que tem graça!
O clima pesa.
MARTA Você é meio louca.
TATI Obrigada!
TELMA Não, louca ruim. Desculpa dizer isso, mas você é uma pessoa ruim.
TATI Gente, agora lá vêm as moralistas! Vão dizer que nunca roubaram o dinheiro da caixinha do pessoal do almoxarifado?
TELMA Nunca.
TATI Tá bom. E da academia?
MARTA Não.
TATI Aquelas moças só guardam tua bolsa. Pra que tanta caixinha? Aquilo é feito pra pessoa roubar!
TELMA Tati, é o dinheiro deles.
TATI Eles já ganham salário! Décimo terceiro, FGTS, a porra toda. Caixinha é pra quê? Pra roubar.
MARTA Isso é muito errado, Tati.
TATI Gente, se envolver com a milícia e pedir pra matar uma pessoa que falou mal de você na internet também é errado e todo o mundo faz.
TELMA Você fez isso?
MARTA Você é uma pessoa podre.
TATI Uou. Desculpa! Não sabia que eu estava lidando com a Comissão de Ética! Desculpa, Joaquim Barbosa!
MARTA Tati, tudo tem limites.
TATI A que ponto chegou essa patrulha do politicamente correto? Os Trapalhões faziam piada de preto! Hoje em dia você bate numa velha e toca uma sirene.
TELMA Você bate em velha?
TATI Gente, amiga não julga.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

16/05/2026

Moda reaça

Aproveitando essa onda reaça que tá supermegatendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na nossa sociedade tão meritocrática — tirando os impostos, é claro. Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Superorna.
O último grito do outono fascistão é defender os valores tradicionais e ressuscitar velhos chavões: direitos humanos para humanos direitos, bandido bom é bandido morto, Deus não fez Adão e Ivo. Nossa coleção — que será lançada amanhã, no prédio do DOI-Codi — foi feita pensando em você, cidadão de bem, branco, católico, heterossexual, rico, com as pernas no lugar, funcionando direitinho. Você é o homem da minha coleção. Olha só este soco inglês: é a sua cara. Vestiu bem, homem da minha coleção. Combina com sua correntinha.
O homem da minha coleção anda armado e se algum veado vier dar em cima ele diz que atira na testa. O homem da minha coleção transa com travesti mas se arrepende logo em seguida e enche a bicha de porrada. O homem da minha coleção casou na igreja com a mulher da minha coleção num casamento celebrado pelo padre da minha coleção, homofóbico, racista e com um sotaque ininteligível, apesar de nunca ter saído do Brasil.
A mulher da minha coleção critica periguetes porque elas não se dão valor — chama isso de feminismo. Saia curta, nem pensar. “Depois reclama quando é estuprada…” A mulher da minha coleção acha que mulher gorda devia evitar sair de casa. “Ninguém é obrigado a ver gente obesa.” A mulher da minha coleção finge que não sabe que é traída pelo homem da minha coleção e se vinga estourando o limite do cartão de crédito do homem da minha coleção, que por sua vez finge que não sabe e se vinga saindo com outras mulheres da minha coleção.
Nosso it boy, claro, é o coronel Paulo Malhães, torturador chiquetésimo que deu depoimento à Comissão da Verdade usando uns puta óculos escuros Prada de aro dourado e assumiu ter perdido a conta de quantos cadáveres ocultou. Divo. Viva a revolução — democrática.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

11/05/2026

A bo de segunda

Dois homens se vestindo, cada um em seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa, né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

04/05/2026

Xingó-Kaiapu

Congresso. Um deputado fala, em sua bancada.
DEPUTADO E para aprovar o novo código florestal e a nova demarcação de terras indígenas, nós, da bancada ruralista, chamamos aqui um cacique, que representa o seu povo e aprovou a nossa ementa.
Aparece um sujeito claramente não índio, pintado e fantasiado toscamente como índio.
PEREIRA Oi. Índio aprovar novo código florestal. Novo código florestal é bom pra índio. Novo código aprovado e tal e coisa.
2º DEPUTADO Olá. Desculpa, deputado. Mas que índio é esse?
DEPUTADO Este daqui é o menino...
PEREIRA Touro-deitado. Pé-de-mamute.
2º DEPUTADO De qual tribo o senhor é?
PEREIRA Xingó-Kaiapu. Perto da região de Guaravita.
3º DEPUTADO É impressão minha ou esse índio parece muito com o Deputado Paulo Pedreira do partido ruralista?
PEREIRA É meu primo.
2º DEPUTADO Por que é que coincidentemente seu primo não apareceu na Câmara hoje?
PEREIRA Ele veio. Tá lá dentro.
3º DEPUTADO Ele precisa assinar a lei, porque foi ele quem redigiu.
PEREIRA Vou chamar.
Índio sai. Deputados se entreolham. Índio volta como deputado, com a maquiagem borrada e o terno colocado às pressas.
PEREIRA Alguém me chamou?
2º DEPUTADO Você precisa assinar a lei.
PEREIRA Pronto. Era só isso?
3o DEPUTADO Não. O índio precisa assinar também.
PEREIRA Puta que o pariu. Não era melhor ter falado quando ele tava aqui.
3º DEPUTADO Não é só o senhor chamar?
PEREIRA Claro, é só eu chamar. Puta que o pariu, neguinho não pensa no outro.
Ele sai e volta de cacique ainda mais tosco.
PEREIRA Pronto, onde é que índio assina?
2º DEPUTADO Só um instante, antes de assinar, a gente queria adicionar um artigo à ementa e precisa consultar o deputado.
PEREIRA Caceeeeta.
Pereira vai pra debaixo da bancada pra trocar de roupa. Ressurge sem cocar.
PEREIRA O que é que foi?
2º DEPUTADO É que eu acho que é imprescindível a presença não só do índio mas do deputado, ao mesmo tempo, no momento em que for assinado o novo código.
Pereira respira fundo. Corte.
DEPUTADO E assim aprovamos a ementa parlamentar que reduz as áreas indígenas demarcadas e o novo código florestal com a presença e aprovação das lideranças indígenas.
Pereira assina com uma mão, na outra segura um fantoche de índio e fala.
PEREIRA Índio aprova.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

28/04/2026

Chuteira

Neto está amarrando suas chuteiras roxas, todo pimpão. Vê Aguinaga, do outro lado do vestiário, amarrando uma chuteira da mesma cor. Fecha o tempo. Vai falar com ele.
NETO Que porra é essa, Aguinaga?
AGUINAGA Do que é que você tá falando?
NETO Essa porra dessa chuteira roxa.
AGUINAGA Não gosta?
NETO Gosto, Aguinaga. Tanto gosto que eu venho usando chuteira roxa há um mês.
AGUINAGA Sério? Irado. Esse é o bonde da chuteira roxa, tum tchi tum tchi…
Aguinaga faz uma dancinha pra descontrair. Neto não acha a menor graça.
NETO Exatamente. É o bonde da chuteira roxa. Não é mais o cara da chuteira roxa.
Aguinaga tenta entender se Neto está falando sério.
NETO Não é mais: Neto? Qual Neto? Aquele da chuteira roxa. Ah, tá, o Neto é o da chuteira roxa. Você acha que alguém me conhece pelo nome?
AGUINAGA Nem pela chuteira roxa.
NETO Mas vai conhecer. Ou melhor, ia. Antes de eu ser só mais um chuteira roxa. Qual Neto? Aquele da chuteira roxa? Mas aquele não é o Aguinaga?
AGUINAGA Ninguém vai confundir. Eu sou do ataque. Você é da zaga.
NETO Eu sabia que isso iria surgir em algum momento.
AGUINAGA Não foi isso que eu quis dizer....
NETO É porque eu sou da zaga que eu não tenho direito de usar chuteira roxa?
AGUINAGA Você entendeu errado.
NETO Chuteira colorida é coisa de atacante! Zagueiro tem que usar chuteira preta! De preferência Kichute!
AGUINAGA Neto, ninguém repara nessas coisas!
NETO Em mim não repara. Mas em você vão reparar, porque você é o craque do time. E sabe o que é pior? Depois de reparar na sua vão reparar na minha, e achar que fui eu que copiei você, quando na verdade…
Neto ameaça chorar. Aguinaga traz ele pro abraço.
NETO … Eu já usava chuteira roxa antes de todo o mundo, antes do Cristiano Ronaldo, antes de virar moda.
AGUINAGA Virou moda?
NETO Mas ninguém reparou, sabe por quê? Porque eu sou só mais um zagueiro. E lesionado, na maior parte do tempo. Eu tô todo bichado, porra.
Neto chora.
AGUINAGA Relaxa, Neto! Passou. Tirei a chuteira, já. Tá?
NETO Não! Pode ficar. Deixa que eu tiro. Ela ficou muito melhor em você. Essa é toda a questão. Deixa que eu me viro, aqui.
AGUINAGA Sério?
NETO Vai lá! A torcida tá te chamando.
Aguinaga sai do vestiário, sob os gritos da torcida. Neto guarda sua chuteira roxa. Tira do armário um Kichute e veste, enxugando as lágrimas. Ergue a cabeça e entra em campo.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

11/04/2026

A religião dos outros

Sério, gente, vocês têm que parar de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo sobre macumba.
Macumba não é religião, macumba é magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu trago a pessoa amada em três dias.
Por favor, faz um vídeo sobre isso. Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.
Budismo não é religião, é moda. Tem seis gatos pingados no Tibete e o resto é tudo socialite e ator em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra quem é vegetariano. Aposto que quando ninguém tá olhando eles comem uma bela de uma picanha.
Mas pelo menos eles não pintam a cara igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões sérias.
Não, islamismo já é sério demais. Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E os terroristas que acham que vão se encontrar com trinta virgens? Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões da Bíblia.
Não, judeu pode zoar também, claro. Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus. Vocês têm que rir daquele bando de mão de vaca. Por que é que não fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.
Eu tô falando da Bíblia de verdade, completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus vivo à Terra.
Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não, não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus, Maria, José, as que têm multidões de fiéis.
Tem que rir das religiões menores, as religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando da religião da maioria. Aí é que perde a graça.
Sim, por acaso essa é a minha religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não tem a menor graça.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

12/03/2026

A religião dos outros

Sério, gente, vocês têm que parar de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo sobre macumba.
Macumba não é religião, macumba é magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu trago a pessoa amada em três dias.
Por favor, faz um vídeo sobre isso. Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.
Budismo não é religião, é moda. Tem seis gatos pingados no Tibete e o resto é tudo socialite e ator em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra quem é vegetariano. Aposto que quando ninguém tá olhando eles comem uma bela de uma picanha.
Mas pelo menos eles não pintam a cara igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões sérias.
Não, islamismo já é sério demais. Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E os terroristas que acham que vão se encontrar com trinta virgens? Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões da Bíblia.
Não, judeu pode zoar também, claro. Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus. Vocês têm que rir daquele bando de mão de vaca. Por que é que não fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.
Eu tô falando da Bíblia de verdade, completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus vivo à Terra.
Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não, não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus, Maria, José, as que têm multidões de fiéis.
Tem que rir das religiões menores, as religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando da religião da maioria. Aí é que perde a graça.
Sim, por acaso essa é a minha religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não tem a menor graça.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

16/02/2026

Pão nosso

Típica padaria. Fiscal da Receita entra, acompanhado de dois policiais.
FISCAL Quem é o dono do estabelecimento?
DONO Sou eu mesmo, senhor.
FISCAL Eu sou fiscal da receita e percebi que a padaria do senhor já existe há dez anos e nunca pagou nenhum imposto. Infelizmente a gente vai ter que fechar isto aqui até que o senhor pague a quantia de um milhão e trezentos mil reais relativos a…
DONO Desculpa, acho que aconteceu algum engano.
FISCAL Que engano?
DONO Isso aqui não é uma padaria, é uma igreja.
FISCAL Como?
DONO Pode olhar aí a nossa razão social: Igreja Universal do Pão Em Cristo. Ia chamar de Pãotecostal, mas achei meio forçado.
FISCAL Mas vocês fazem pão, vocês cobram pelo pão, isso é uma padaria.
DONO A gente não cobrou um centavo por nada, senhor.
FISCAL Ali não tem o preço de cada unidade?
DONO O que a gente faz é que a gente aceita doações e oferece um brinde proporcional à doação. Doou dois reais e trinta centavos? Ganhou um quibe abençoado. Doou quatro e cinquenta? Ganhou uma ciabata cristã com direito a sagrado refresco. Doou doze e cinquenta? Almoço episcopal.
CLIENTE Amigo, qual é o prato hoje?
DONO É frango benzido.
CLIENTE Vê um, por favor.
O dono pega o frango e faz uma cerimônia de batismo. Joga uns temperos, sal.
DONO Jesus Cristo, esse é o vosso corpo, esse é o vosso sangue. Pelo mistério do frango, esse é o Corpo de Cristo.
CLIENTE O Corpo de Cristo.
DONO Não, você só fala Amém.
CLIENTE Amém.
O cliente vai embora, levando o frango.
FISCAL Você acabou de benzer um frango?
DONO Que deixou de ser um frango quando foi abençoado e passou a carregar simbolicamente o corpo de cristo que morreu pelos nossos pecados.
FISCAL Você vai me desculpar mas essa religião não existe e ninguém vai me convencer de que um frango pode ser sagrado.
DONO Mas um pedaço de papel pode? Uma santa de madeira toda carcomida de cupim? Um elefante que na verdade é uma mulher e tem seis braços?
FISCAL A diferença é que a sua religião é uma palhaçada que o senhor inventou pra não pagar imposto.
DONO O senhor é que está escarnecendo do meu objeto de culto e isso caracteriza intolerância religiosa, pode pegar de três a cinco anos de cadeia.
Os policiais sacam as algemas.
FISCAL Melhor deixar pra lá. Me vê uma esfiha cristã.
DONO Três e trinta.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

26/01/2026

O sujeito detestável

O sujeito detestável encostou seu enorme jipe de guerra, construído para desbravar dunas e abrir trilhas no mato, na traseira do meu carro e começou a buzinar. Não entendi o que ele queria. O sinal estava fechado.
Ele começou a gritar que eu era uma “bicha velha”, e eu fiquei sem entender, porque, além de eu não ser bicha nem velha, adoro bichas e velhas e não entendi por que é que ele odeia bichas e velhas a ponto de achar que isso vai ofender alguém.
Como o “bicha velha” não surtiu o efeito desejado, ele disse que eu estava cometendo uma falta de civilidade. “Do que você está falando?” Ele falou que o espaço que havia entre o meu carro e o carro da frente era enorme. Olhei para a frente. Três metros me separavam de um caminhão. Achei uma distância segura e razoável.
O sujeito detestável berrou que a mãe dele estava doente, gritou que eu era uma “vedete” (sic) que me achava melhor do que os outros, mas eu não consegui entender qual era a relação disso tudo com a distância que eu tomava do carro da frente. Ele saiu do carro dele com a intenção de me bater. O sinal abriu. Acelerei.
Outra vez, há muito tempo, abri a porta do carro sem checar se vinha alguém. Vinha uma moto, em alta velocidade. O motoqueiro desviou da minha porta e caiu no chão, arrastando a perna no asfalto. Se viesse um carro na outra pista, ele teria morrido. Se ele andasse armado, teria me matado.
A moto estava por cima do corpo dele. Só conseguia pensar: “matei alguém”. As pessoas começaram a se aglomerar e a tomar partido. “Eu vi! O cara abriu a porta do carro sem olhar pra trás.” O júri popular já estava me condenando por homicídio culposo quando a vítima se levantou do chão com a roupa toda rasgada e disse: “Calma, gente”. “Você tá bem?”, perguntei. “Tô andando, tô no lucro”, ele disse.
Dei meu telefone para reparar os estragos. Ele me ligou na semana seguinte para dizer que eu não precisaria pagar nada, porque ele não iria consertar a moto. “Foi só um arranhãozinho.” “E suas roupas?”, perguntei. Ele respondeu que já eram velhas mesmo. Fiquei esperando o esporro que eu merecia levar. Nada.
Tem vezes que a vida te dá um vale-esporro. Um acidente em que você não tem culpa. Um serviço mal prestado. A doença da sua mãe. O.k., você pode ser detestável. Mas o direito de ser detestável não te obriga a sê-lo. Abrir mão do direito de ser detestável: nada mais adorável.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

04/01/2026

É menina

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia nessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

24/12/2025

Leiconha

Policiais mandam o carro encostar.
PM Desembarca do veículo, por gentileza.
HOMEM É lei seca?
PM Essa blitz é exclusiva para o uso da maconha, senhor.
HOMEM Eu vou ter que soprar em algum lugar?
PM O teste no caso é psicotécnico. Pessanha, faz a dancinha.
Um segundo PM se aproxima e faz uma dancinha ridícula, levemente envergonhado.
PM O senhor vai estar observando o Cabo Pessanha. Se o senhor rir ou simplesmente sorrir, estará acusando o uso de cannabis.
HOMEM Mas isso não faz o menor sentido…
PM Olha pra ele!
Pessanha faz variações da dança. Homem continua sério.
PM Agora a gente vai estar avaliando sua memória. Responda sem tirar o olho do Pessanha. Qual o nome do compositor de “mexe a cadeira”?
HOMEM Vinny.
PM O ônibus de número 996 faz o trajeto…
HOMEM PUC-Charitas.
PM Quais os integrantes da banda Planet Hemp?
HOMEM Marcelo D2, BNegão…
PM analisa o homem de forma suspeita. Ele percebe.
HOMEM E o resto eu não sei.
PM Pensa rápido!
PM joga os documentos na direção do homem, que consegue segurá-los no ar.
PM Muito bem.
HOMEM Acabou?
PM Só mais uma coisa: a gente fez um feijão, acabou sobrando. Aí a gente botou num tupperware, junto com goiabada. Quer levar um pouco?
HOMEM Não, obrigado.
PM O senhor passou no teste da maconha, senhor. Ali na frente o senhor vai ser submetido ao teste do crack.
Homem olha para a frente, um homem está abraçado a uma cabra e os PMs tentam separá-los.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

16/12/2025

Terapia de casal

Consultório de um terapeuta. Ele e ela estão sentados no divã.
TERAPEUTA Acho que o primeiro passo é a gente tentar entender o que causou essa briga. Vocês lembram como começou o estranhamento?
ELA Acho que tudo começou quando ele falou que queria o divórcio.
TERAPEUTA Você falou que queria o divórcio?
ELE Falei. Mas antes ela me deu um soco na cara.
TERAPEUTA Você deu um soco na cara dele?
ELA Dei. Mas antes ele falou que eu estava acima do peso.
TERAPEUTA Você falou…
ELE Falei. Mas antes ela me chamou de brocha.
ELA Mas antes ele tinha brochado.
ELE Mas antes a gente estava prestes a transar e ela disse que eu era um desempregado medíocre que tinha bafo de cigarro e gengivite.
O terapeuta tenta intervir, mas eles encavalam as respostas.
ELA Mas antes a gente tava prestes a transar e ele me pediu pra xingar ele.
ELE Mas antes a gente não transava há três meses e eu achei que um palavrão podia dar uma apimentada e não esperava que ela trouxesse à tona minha gengivite.
ELA Mas antes ele perdeu o emprego e passava o dia em casa de cueca jogando video game e fumando maconha (o que provavelmente gerou a gengivite).
ELE Mas antes foi ela que sugeriu que eu comprasse GTA 5 e disse “quem sabe assim a sua vida vai ganhar algum sentido”.
ELA Mas antes ele tava na janela dizendo que ia se jogar porque a vida dele não fazia sentido.
ELE Mas antes eu descobri que ela deu pro meu melhor amigo.
ELA Mas antes eu quis me vingar porque ele matou o meu cachorro.
ELE Mas antes o seu cachorro mordeu minha perna, que gangrenou e eu tive que amputar.
Vemos que ele não tem uma perna.
ELA Mas antes você estava apontando uma arma pra mim e o cachorro só me defendeu.
ELE Mas antes você estava ameaçando divulgar um vídeo que acabaria com a honra da minha família.
ELA Mas antes eu resolvi que era hora do Brasil saber que o pai dele estava envolvido num esquema internacional de corrupção e agiotagem.
ELE Mas antes ela só começou a me namorar pra acabar com a minha vida e se vingar da minha família.
ELA Mas antes o pai dele que é agiota emprestou dinheiro pro meu pai a juros altíssimos de maneira que ele não conseguiu pagar, foi ameaçado de morte e acabou se matando na frente da filha dele de três anos — eu.
ELE Mas antes o povo alemão do qual ela descende encarcerou e assassinou o meu povo em um genocídio chamado holocausto.
ELA Mas antes o povo alemão tinha sido humilhado pela redefinição arbitrária das fronteiras no Tratado de Versalhes.
ELE Mas antes o mesmo povo alemão tinha iniciado um ciclo de ódio com a guerra franco-prussiana em 1870.
ELA Mas antes o ciclo de ódio já tinha se iniciado quando Napoleão invadiu a Prússia em 1806.
ELE Mas antes o Sacro-império romano-germânico já se caracterizava pelo antissemitismo e pelo ódio às minorias.
ELA Mas antes os povos germânicos foram chamados de bárbaros e subjugados pelos romanos.
ELE Mas antes Deus disse “haja luz”; e houve luz.
ELA Mas antes o espírito de Deus pairava sobre as águas.
ELE Mas antes eu lembro que a gente foi feliz.
ELA Foi.
ELE Isso antes.
ELA Muito antes.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

30/11/2025

Assunto urgente

Carlos,

Não sei se você pegou o WhatsApp que eu te mandei, avisando que eu tinha te mandado uma mensagem via SMS. A mensagem era referente ao e-mail que eu te enviei pedindo desculpa pela quantidade de recados que eu deixei na sua caixa postal, onde li em voz alta as mensagens que eu te mandei por inbox. Eu sei que exagerei na quantidade de inboxes, mas às vezes as mensagens vão parar na caixa Outros, sobretudo depois que a pessoa te bloqueou. Comentei no seu Instagram que tinha tentado te mandar uma DM no Twitter, mas não tinha conseguido porque você não me seguia. Na DM te perguntava se você ainda usa Orkut. Lá te mandei um monte de testimonials (não é pra aceitar, é só pra ler), perguntando seu novo endereço, porque as cartas que te mando têm voltado, assim como os telegramas. Pensei em te mandar um fax, mas logo lembrei que queimei o meu fax na fogueira que fiz pra te mandar sinais de fumaça, que causou um incêndio no prédio, que resultou na minha expulsão, que acabou me trazendo pra casa em que estou hoje. Me mudei e custei a perceber que você talvez estivesse escrevendo para o meu endereço antigo. Pensei em passar no meu antigo prédio pra checar se não havia cartas suas por lá, mas lembrei que não sou benquista no bairro, depois do incêndio. Pensei em passar no seu prédio, mas tampouco sou benquista por aí, por causa da maldita ordem de restrição. Por isso comprei um pombo, que passei um tempo tentando adestrar para buscar as cartas que você tem escrito pra mim. Amarrei uma mensagem no pé dele e mostrei o caminho da sua casa no mapa do iPhone. Atirei o bicho pela janela, mas ele nunca voltou. Pensei que ele talvez tivesse sido apreendido pela polícia. Reli a ordem de restrição, mas ela não faz menção ao envio de animais-de-correio. Concluí, então, que a culpa é da Apple, que definitivamente não sabe fazer mapas. Se por acaso vir um pombo pardo, perdidinho, com uma longa carta na pata esquerda, é o meu. Um conselho: quando for mandá-lo de volta, não use o mapa da Apple, use o Google Maps. Hoje estou morando em um lugar agradabilíssimo, mas que insiste em me privar de caneta e papel, assim como das minhas mãos, que no momento estão presas em uma linda camisa branca de mangas longas (demais). Por isso te mando esta mensagem telepática, que peço que responda telepaticamente, pois de outro modo talvez não chegue até mim. Sempre sua,
Carmem

Gregório Duvivier, em Put some farofa