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24/03/2024

A alma, o sonho, a realidade

Supõe-se que, de fato, a alma de uma pessoa adormecida se afasta de seu corpo e visita lugares, vê as pessoas e verifica os atos que ela está sonhando. Quando um índio do Brasil ou das Guianas sai de um sono profundo, está firmemente convencido de que sua alma esteve na realidade caçando, derrubando árvores ou qualquer outra coisa que tenha sonhado, enquanto seu corpo esteve estendido imóvel na rede.
Um povoado bororó inteiro aterrorizou-se e esteve a ponto de emigrar porque um dos índios sonhou que os inimigos se aproximavam sigilosamente. Um macusi de saúde precária que sonhou que seu patrão o havia feito subir de canoa por difíceis corredeiras, ao amanhecer exprobou-o amargamente por sua falta de consideração com um pobre inválido. Os índios do Grande Chaco fazem relatos incríveis de coisas que viram e ouviram, e os forasteiros os consideram grandes embusteiros; os índios, porém, estão firmemente convencidos da verdade de seus relatos, pois estas maravilhosas aventuras são simplesmente o que eles sonham e não sabem distinguir do que acontece quando estão acordados.
Quando um dayako sonha que caiu n'água, pede ao feiticeiro que pesque o seu espírito com uma rede, coloque-o em um recipiente e o devolva. Os santals falam do homem que adormeceu e sonhou que tinha tanta sede, que sua alma, em forma de lagarto, deixou o corpo e meteu-se em uma vasilha para beber; o dono da vasilha, porém, tapou-a e o homem, impedido de recuperar sua alma, morreu. Faziam-se os preparativos para o enterro quando alguém destapou a vasilha e o lagarto escapou, reintegrou-se ao cadáver, e o morto ressuscitou. Disse que havia caído em um poço em busca de água e que tivera dificuldades para voltar; assim todos o entenderam.

James George Frazer, La rama dorada (1890), in Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

13/03/2019

Realidade

Podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano.

Eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano.
Paulo Leminski

14/01/2017

Toda realidade, para o homem, é imperfeita

O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efetivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Exceto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus atos escapam-lhes noutros atos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo fato de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
Albert Camus, in O Homem Revoltado

23/07/2015

Não abandonar os ideais

“É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperanças permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonado todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto, eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração.”
Anne Frank, in O Diário de Anne Frank

09/03/2014

Sonho e realidade

“É melhor, muito melhor, contentar-se com a realidade; se ela não é tão brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”
Machado de Assis

26/10/2012

Assombrados pela realidade

“A cada passo somos assombrados pela realidade do que anteriormente nos parecia impossível: o pesado se torna leve e o leve se faz pesado e do nada anterior parece brotar um mundo e aquilo que se nos apresentava como enorme agora se transforma em nada.”
Artur Schopenhauer