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16/04/2023

O Lobo do Mar | Capítulo 39

Chegou o dia da nossa partida. Nada mais nos detia em Endeavour Island. Os mastros atarracados do Ghost estavam afixados e suas velas doidas estavam cordoadas. Minha obra não tinha nada de belo mas era sólida. Eu sabia que iria funcionar, e ao contemplá-la me sentia um homem poderoso.
Consegui! Consegui! Fiz isso com minhas próprias mãos!”, eu queria gritar alto.
Mas eu e Maud tínhamos uma tendência a enunciar o que o outro estava pensando, e quando nos preparamos para estender a vela mestra ela disse:
E pensar que você fez tudo isso com as próprias mãos, Humphrey!
Mas tive a ajuda de duas outras mãos — salientei. — Duas mãos pequenas, e não venha me dizer que isso era uma expressão que seu pai dizia.
Ela riu, balançou a cabeça e levantou as mãos para mostrá-las.
Nunca mais conseguirei limpá-las — lamentou —, nem amaciá-las depois de tanta exposição ao clima.
Então a sujeira e o ressecamento serão sua recompensa de honra — falei tomando suas mãos entre as minhas, e eu as teria beijado, contrariando minhas resoluções, caso ela mesma não as tivesse recolhido.
Nossa camaradagem começava a estremecer. Eu tinha conseguido dominar meu amor por um bom tempo, mas agora ele começava a me dominar. Ele tinha agido por conta própria, me desobedecido e feito o meu olhar me trair, e agora também minha língua começava a me trair, e também meus lábios, pois no momento eles estavam loucos para beijar aquelas duas mãos pequenas que tinham trabalhado com tanta fé e empenho. Eu estava louco.
Havia um grito em meu íntimo que era como o toque de um clarim me convocando para perto dela. E um vento irresistível me empurrava, inclinando meu corpo inconscientemente em sua direção. E ela sabia. Era impossível que não soubesse, e, apesar de ter recolhido as mãos, não conseguiu evitar um breve olhar investigativo antes de virar o rosto.
Usando as talhas do convés, consegui carregar as adriças na direção da popa até o cabrestante, o que me permitiu içar a vela mestra inteira de uma só vez. Era um método improvisado, mas funcionou rápido, e em pouco tempo a vela de proa também estava tremulando.
Nunca vamos conseguir levantar a âncora nesse ponto estreito, depois que ela tiver saído do fundo — falei. — Bateríamos nas pedras antes de conseguir.
O que podemos fazer? — ela perguntou.
Arrastá-la. E quando eu o fizer você precisará operar o cabrestante. Vou ter que ir correndo para o timão, e você deverá içar a bujarrona ao mesmo tempo.
Eu tinha planejado e estudado essa manobra de partida uma porção de vezes, e sabia que Maud seria capaz de içar a bujarrona se a adriça dessa vela tão essencial estivesse presa ao cabrestante. Um vento enérgico soprava na enseada, e mesmo com águas calmas teríamos de trabalhar rápido para zarpar em segurança.
Quando soltei a manilha, a corrente saiu rugindo pelo escovém e caiu no mar. Corri em direção à popa e levantei o timão. O Ghost pareceu ganhar vida quando as velas colheram as primeiras lufadas. A bujarrona estava subindo. Enquanto subia, a proa do Ghost saiu de rumo e precisei ajustar o timão até estabilizar o navio.
Eu havia criado uma escota de bujarrona automática que passava atravessando a vela, de modo que Maud não precisava se ocupar disso, mas ela continuava içando a bujarrona quando baixei o timão com força. Foi um momento de ansiedade, pois o Ghost estava avançando diretamente para a praia, que se encontrava a poucas dezenas de metros. Mas a escuna obedeceu direitinho e virou, adernando na direção do vento. As velas e rizes estalaram e bateram com um alarde que soou como música aos meus ouvidos, e então ela se alinhou na outra retranca.
Depois de concluir sua tarefa, Maud veio para a popa e ficou a meu lado com um pequeno boné empoleirado em seus cabelos castanhos esvoaçantes, as faces vermelhas de esforço, os olhos arregalados e brilhantes de empolgação e as narinas tremendo ao açoite do vento frio e salgado. Seus olhos eram como os de uma gazela alarmada. Havia neles um aspecto selvagem e aguçado que eu nunca tinha visto antes, seus lábios se abriram e sua respiração ficou suspensa quando o Ghost, avançando ao longo do paredão rochoso na entrada da enseada interna, pegou o vento certo e adentrou águas seguras.
Meu aprendizado como imediato em águas de caça à foca era posto à prova agora. Saí da enseada interna e percorri um curso aberto ao longo da margem da enseada externa. Após contornar a outra ponta, o Ghost entrou em mar aberto. A escuna alcançou o peito arfante do oceano e singrou no mesmo ritmo de sua respiração, galgando e escorregando suavemente na crista das ondas alongadas. O dia estivera pálido e nublado, mas o sol irrompeu entre as nuvens como um bom presságio e brilhou sobre a praia curva onde juntos havíamos desafiado os lordes do harém e imolado os “holluschickies”. Endeavour Island resplandeceu inteira sob o sol. Até o promontório a sudoeste parecia menos ameaçador, e em alguns lugares, onde a espuma molhava sua superfície, luzes intensas piscavam e tremulavam.
Sempre lembrarei desse lugar com orgulho — falei para Maud.
Ela atirou a cabeça para trás como uma rainha, mas disse:
Minha querida Endeavour Island! Sempre amarei você.
E a mim — falei no ato.
Nossos olhos deviam se encontrar em mútuo sentimento, mas, lastimavelmente, eles relutaram e se afastaram.
Sobreveio um silêncio que eu quase poderia definir como constrangedor, até que eu o quebrei:
Veja aquelas nuvens negras a barlavento. Lembre que eu disse, ontem à noite, que o barômetro estava descendo.
E o sol se foi — ela disse com os olhos fixos na nossa ilha, onde tínhamos provado nossa superioridade sobre a matéria e desenvolvido o maior companheirismo que pode haver entre um homem e uma mulher.
E podemos soltar as velas rumo ao Japão! — gritei com alegria. — Bons ventos e velas à solta, ou seja lá como se diz.
Prendi o timão, corri até a proa, soltei as velas de proa e mestra, acionei as talhas dos mastaréus e preparei tudo para aproveitar a brisa de amura com a qual éramos brindados. Era uma brisa forte, bastante forte, mas decidi aproveitá-la pelo tempo que fosse possível. Infelizmente, navegando livre é impossível fixar o timão, portanto tive de passar a noite de vigia. Maud insistiu em assumir meu lugar, mas demonstrou não ter força suficiente para pilotar no mar agitado, mesmo que pudesse aprender a técnica ali na hora. Ela pareceu ficar bastante decepcionada com essa descoberta, mas recobrou o ânimo recolhendo as talhas, adriças e cordas à solta. Além disso, era preciso cozinhar, preparar as camas e cuidar de Wolf Larsen, e ela encerrou o dia com uma grande faxina na cabine e na baiuca.
Pilotei a noite inteira sem trégua, enquanto o vento aumentava aos poucos e o mar se agitava cada vez mais. Às cinco da manhã, Maud me trouxe café fumegante e biscoitos que tinha acabado de assar, e às sete minha disposição foi renovada com um café da manhã bem quente e substancioso.
Ao longo do dia, o vento foi aumentando com a mesma lentidão e constância. Era impressionante sua determinação cega de soprar e continuar soprando cada vez mais forte. E o Ghost ia deixando um rastro de espuma, devorando os quilômetros até que eu tivesse certeza de que estava fazendo pelo menos onze nós. Aquilo era bom demais para ser desperdiçado, mas ao cair da noite eu estava exausto. Por mais que estivesse em forma física esplêndida, um turno de trinta e seis horas no timão era o meu limite de resistência. Além disso, Maud implorou para que eu parasse, e eu sabia que logo seria impossível fazer isso caso o vento e as ondas continuassem aumentando durante a noite. Portanto, ao escurecer do crepúsculo, ao mesmo tempo aliviado e relutante, virei o Ghost contra o vento.
Todavia, eu não calculara o esforço colossal de rizar as três velas sozinho. Não podia perceber toda a força do vento enquanto ia a seu favor, mas ao parar fui capaz de avaliar, tanto para minha tristeza quanto para meu desespero, a sua real intensidade. O vento sabotava todos os meus esforços, arrancando a lona de minhas mãos e desfazendo em um instante o que eu havia batalhado dez minutos para fazer. Às oito da noite eu só tinha conseguido enfiar o segundo riz da vela de proa. Às onze a situação não tinha mudado muito. O sangue pingava da ponta dos meus dedos e as unhas estavam quebradas até a raiz. Chorei de dor e exaustão no escuro, mas em segredo, para que Maud não ficasse sabendo.
Depois, em desespero, abandonei a tentativa de rizar a vela mestra e resolvi arriscar o experimento de arribar com a vela de proa bem rizada. Levei mais três horas para gaxetar a vela mestra e a bujarrona, e às três da manhã, quase morto, com a vida esbofeteada e quase arrancada de mim pelo trabalho, eu mal tinha consciência para avaliar se o experimento fora bem-sucedido. A vela de proa rizada funcionou. O Ghost parou contra o vento e não deu sinais de que iria virar de costado para a ondulação.
Eu estava faminto, mas Maud tentou me alimentar em vão. Eu adormecia com a boca cheia de comida. Caía no sono enquanto levava comida à boca e acordava com o gesto ainda suspenso. Eu estava tão incapacitado pelo sono que ela foi obrigada a me segurar na cadeira para que eu não fosse arremessado ao chão pelo balanço violento da escuna.
Não sei como fui da cozinha até a cabine. Eu era um sonâmbulo guiado e carregado por Maud. Na verdade, não fiquei ciente de mais nada até acordar na cama, sem as botas, sei lá quanto tempo depois. Estava escuro. Eu estava todo contraído e desconjuntado, e gritei de dor quando os lençóis me roçaram as pontas dos dedos.
Era evidente que a manhã ainda não tinha chegado, então fechei os olhos e dormi de novo. Eu não sabia, mas tinha dormido o dia todo e já era noite novamente.
Acordei outra vez, aflito porque não conseguia mais dormir bem. Risquei um fósforo e consultei o relógio. Marcava meia-noite. Mas quando deixei o convés eram três da manhã! Eu teria ficado perplexo, se não houvesse encontrado logo a solução. Meu sono não estava leve por acaso. Eu tinha dormido vinte e uma horas. Passei um tempo escutando o comportamento do Ghost, os golpes das ondas e o rugido abafado do vento sobre o convés, então dei meia-volta e dormi em paz até o amanhecer.
Às sete, quando levantei, não vi sinal de Maud e presumi que ela estava na cozinha preparando o café. Chegando ao convés, encontrei o Ghost em ótimo estado com seus retalhos de vela. Na cozinha, porém, embora a água estivesse fervendo sobre o fogo aceso, não encontrei Maud.
Ela estava na baiuca, ao lado do beliche de Wolf Larsen. Olhei para ele, um homem que tinha sido derrubado do pináculo da vida para ser enterrado vivo e enfrentar algo pior do que a morte. Em seu rosto inexpressivo havia um relaxamento que era novo. Maud olhou para mim e compreendi.
Sua vida se esvaiu durante a tempestade — falei.
Mas ele continua vivo — ela respondeu com uma fé infinita na voz.
Sua força era grande demais.
Sim — ela disse —, mas já não pode acorrentá-lo. Ele é um espírito livre.
Ele é um espírito livre, com toda a certeza — respondi, e então peguei-a pela mão e a trouxe para o convés.
A tempestade foi embora aquela noite, isto é, diminuiu com a mesma falta de pressa com que havia chegado. Após o café da manhã do dia seguinte, quando eu já tinha carregado o corpo de Wolf Larsen para o convés e preparado tudo para o funeral, ela continuava soprando forte e erguendo ondas enormes. O convés era invadido o tempo todo pelas águas que se infiltravam pela amurada e pelos embornais. Um golpe de vento atingiu a escuna de repente e ela adernou até mergulhar a amurada de sotavento, enquanto o rugido nos mastros se elevava a um guincho medonho. Estávamos com a água nos joelhos quando tirei o chapéu.
Só me lembro de uma parte do serviço fúnebre — falei —, e é a seguinte: “E o corpo será jogado ao mar.”
Maud me encarou, surpresa e chocada, mas o espírito de algo que eu tinha visto anteriormente continuava vivo em mim, me compelindo a fazer o serviço fúnebre de Wolf Larsen da mesma forma que ele o fizera para outro homem. Ergui a extremidade da tampa da escotilha e o corpo envolto em lona caiu de pé no mar. O peso dos ferros o levou para o fundo. Ele sumiu.
Adeus, Lúcifer, espírito orgulhoso — Maud sussurrou com uma voz tão baixa que a frase foi abafada pelos urros do vento. Mas eu li seus lábios.
Quando estávamos agarrados à amurada de sotavento, retornando com dificuldade em direção à popa, olhei por acaso para sotavento. Naquele instante, o Ghost estava elevado acima de uma onda e enxerguei claramente um pequeno barco a vapor a quatro ou cinco quilômetros de distância, arfando e balançando contra as ondas, soltando fumaça e vindo em nossa direção. Era pintado de preto e, lembrando das conversas dos caçadores a respeito de caças ilegais, eu o reconheci como uma lancha aduaneira dos Estados Unidos. Apontei o vapor para Maud e a levei correndo até a popa para acomodá-la em segurança no tombadilho.
Fui correndo buscar a bandeira, mas depois lembrei que ao mastrear o Ghost eu havia esquecido de providenciar uma adriça de bandeira.
Não precisamos de sinalização de socorro — disse Maud. — Bastará que nos vejam.
Estamos salvos — falei em tom sério e solene. Em seguida, num surto de alegria, acrescentei: — Nem sei dizer se estou feliz com isso.
Olhei para ela. Nossos olhos não evitaram o encontro. Nos aproximamos, e quando me dei conta ela estava em meus braços.
Preciso pedir? — perguntei.
E ela respondeu:
Não precisa, mas teria sido delicioso ouvir.
Seus lábios receberam os meus e, por algum capricho desconhecido da imaginação, me veio à mente a cena na cabine do Ghost, quando ela pôs os dedos em meus lábios e disse “Quieto!”.
Minha mulher, minha única e pequena mulher — falei acariciando seu ombro como fazem todos os amantes, sem nunca o terem aprendido em escola alguma.
Meu homem — ela disse me olhando um instante com pálpebras trêmulas que subiam e desciam, ocultando seus olhos, antes de aninhar a cabeça em meu peito e dar um pequeno suspiro de felicidade.
Olhei na direção da lancha. Estava bem próxima. Um bote estava sendo baixado.
Um beijo, minha amada — sussurrei. — Mais um beijo antes que cheguem.
E nos salvem de nós mesmos — ela completou com um sorriso adorável, mais caprichoso que nunca, pois era o capricho do amor.

Jack London, in O Lobo do Mar

01/04/2023

O Lobo do Mar | Capítulo 38


Acho que estou perdendo o lado esquerdo — escreveu Wolf Larsen na manhã seguinte à sua tentativa de incendiar o navio. — A dormência está aumentando. Mal consigo mexer a mão. Vocês terão de falar mais alto. As últimas linhas estão caindo.
Está sentindo dor? — perguntei.
Achei que ia precisar repetir mais alto, mas antes disso ele respondeu:
Não o tempo todo.
A mão esquerda se arrastara lenta e dolorosamente por cima do papel e tive extrema dificuldade em decifrar os garranchos. Era como uma “mensagem espírita”, como as que são transmitidas nesse tipo de sessão ao custo de um dólar a entrada.
Mas ainda estou aqui, inteiro aqui — a mão rabiscou de modo mais lento e doloroso que nunca.
O lápis caiu e tivemos de recolocá-lo na sua mão.
Quando não há dor existem uma paz e um silêncio perfeitos. Nunca pensei com tanta clareza. Posso meditar sobre a vida e a morte como um sábio hindu.
E a imortalidade? — Maud perguntou em voz alta no ouvido dele.
Três vezes seguidas, a mão ensaiou escrever mas apenas se remexeu inutilmente. O lápis caiu. Tentamos em vão devolvê-lo à mão. Os dedos não conseguiam prendê-lo. Maud prendeu e segurou os dedos em volta do lápis com os seus próprios dedos e a mão começou a escrever em letras grandes, tão devagar que cada uma delas tomava minutos:
A-S-N-E-I-R-A.
Foi a última palavra de Wolf Larsen, “asneira”, cético e invencível até o fim. O braço e a mão relaxaram. O tronco se moveu de leve. Depois o movimento cessou. Maud soltou a mão. Os dedos se espalharam um pouco, caindo sob o próprio peso, e o lápis saiu rolando.
Ainda pode escutar? — gritei, segurando os dedos e esperando o aperto que diria “Sim”. Não houve resposta. A mão estava morta.
Percebi os lábios se movendo um pouco — disse Maud.
Repeti a pergunta. Os lábios se moveram. Ela colocou as pontas dos dedos sobre eles. “Sim”, anunciou Maud. Trocamos um olhar expectante.
De que adianta agora? — perguntei. — O que podemos dizer?
Ah, pergunte se…
Ela hesitou.
Pergunte algo que exija um não como resposta — sugeri. — Aí saberemos com certeza.
Está com fome? — ela disse alto.
Os lábios se moveram sob seus dedos e ela transmitiu um “Sim”.
Quer um pouco de carne? — foi a próxima pergunta.
Ela anunciou um “Não”.
E um caldo de carne? Sim, ele quer um pouco de caldo de carne — ela disse em voz baixa, me olhando. — Enquanto ele puder ouvir, poderemos nos comunicar com ele. E depois disso…
Ela me lançou um olhar atormentado. Vi seus lábios tremerem e as lágrimas empoçarem em seus olhos. Ela veio em minha direção e eu a abracei.
Ah, Humphrey — ela soluçou —, quando isso vai acabar? Estou tão cansada, tão cansada.
Ela deitou a cabeça no meu ombro e seu corpo frágil estremeceu num choro tempestuoso. Era como uma pluma em meus braços, tão delgada e etérea. “Ela finalmente desabou”, pensei. “O que poderei fazer sem a sua ajuda?”
Eu a acalmei e confortei até que, numa demonstração de bravura, ela se recompôs física e mentalmente com a mesma rapidez.
Eu devia ter vergonha — ela disse, e então acrescentou com aquele sorriso caprichoso que eu adorava: — Mas sou apenas uma única e pequena mulher.
Aquela expressão, “uma única e pequena mulher”, me sobressaltou como um choque elétrico. Era a minha expressão particular, secreta, de estimação, minha expressão de amor por ela.
De onde tirou essa expressão? — perguntei com um ímpeto que a surpreendeu.
Que expressão?
Única e pequena mulher.
É sua? — ela perguntou.
Sim — respondi. — Minha. Eu a inventei.
Então você deve ter falado enquanto dormia — ela sorriu.
A luz trêmula e dançante estava em seus olhos. Os meus, eu sabia, estavam falando além do alcance das palavras. Me inclinei na direção dela. Não fiz isso por vontade própria. Eu era como uma árvore curvada pelo vento. Ah, como estávamos próximos naquele momento. Mas ela balançou a cabeça, como se espantasse o sono ou um sonho, e disse:
Conheci essa expressão a vida inteira. Era como meu pai chamava a minha mãe.
É minha expressão também — teimei.
Para sua mãe?
Não — respondi, e ela não insistiu, mas eu podia jurar que seus olhos retiveram por algum tempo uma expressão brincalhona e provocadora.
Com o mastro de proa no lugar, o trabalho avançou rápido. Antes que me desse conta, e sem nenhum percalço sério, o mastro principal estava no lugar. Um pau de carga preso ao mastro de proa resolveu a questão, e alguns dias depois os estais e ovéns estavam instalados e esticados. As velas de joanete representariam um inconveniente e um perigo para uma tripulação de duas pessoas, portanto icei os mastaréus nos convés e os amarrei juntos.
Mais alguns dias foram necessários para aprontar as velas e instalá-las. Eram apenas três: a bujarrona, o traquete e a vela mestra. Remendadas, encurtadas e distorcidas, destoavam ridiculamente de uma embarcação arrojada como o Ghost.
Mas funcionarão! — Maud gritou em júbilo. — Faremos com que funcionem e confiaremos nossa vida a elas!
Entre minhas novas habilitações, a fabricação de velas era certamente aquela em que eu me saía pior. Eu era melhor usando-as para velejar e não duvidava de minha capacidade de levar a escuna até um porto japonês. Na verdade, eu havia me fartado dos livros de navegação disponíveis a bordo e tinha acesso ao mapa de estrelas de Wolf Larsen, um dispositivo tão simples que qualquer criança poderia usá-lo.
Quanto a seu inventor, excluindo a surdez progressiva e um movimento de lábios cada vez mais imperceptível, permanecia há uma semana na mesma condição. No dia em que terminamos de esticar as velas da escuna, ele ouviu pela última vez e o movimento de seus lábios se extinguiu, mas não antes que eu pudesse perguntar:
Você está aí por inteiro?
Os lábios responderam “Sim”.
A última linha de comunicação caiu. Em algum lugar daquele túmulo de carne jazia a alma de um homem. Emparedada em argila viva, aquela inteligência aguçada que havíamos conhecido ainda queimava, mas queimava no silêncio e na escuridão. E estava desligada da carne. Aquela inteligência não podia ter nenhum conhecimento objetivo de um corpo. Não tinha acesso a corpo algum. O mundo em si deixara de existir. Ela tinha acesso somente a si mesma e à vastidão e à profundidade do silêncio e da escuridão.

Jack London, in O Lobo do Mar

16/03/2023

O Lobo do Mar | Capítulo 37


Nós nos transferimos imediatamente para o Ghost, voltando a ocupar nossos antigos camarotes e a usar a cozinha do navio. O encarceramento de Wolf Larsen tinha acontecido em boa hora, pois o que devia ter sido o veranico dessas altas latitudes se foi de uma vez por todas, dando lugar a garoas e tempestades. Estávamos gozando de pleno conforto, e a cabrilha inadequada com o mastro suspenso conferia à escuna um ar de atividade e de promessa de partida.
E como tudo isso parecia menos urgente agora que tínhamos agrilhoado Wolf Larsen! Como o primeiro ataque, o segundo também o incapacitara gravemente. Maud fez essa descoberta à tarde, quando foi alimentá-lo. Ele mostrou sinais de consciência e ela tentou falar com ele, mas não obteve resposta. Ele estava deitado sobre o lado esquerdo, visivelmente sofrendo dores. Com um movimento exasperado, girou a cabeça em círculos, afastando a orelha esquerda do travesseiro. Na mesma hora conseguiu ouvi-la e respondeu, e então ela veio me chamar.
Apertando o travesseiro contra sua orelha esquerda, perguntei se ele me escutava, mas ele não reagiu. Retirei o travesseiro e repeti a pergunta, e dessa vez ele respondeu que sim.
Sabe que está surdo do ouvido direito? — perguntei.
Sim — ele respondeu com uma voz grave e intensa —, e pior que isso, todo o meu lado direito está afetado. Parece dormente. Não consigo mover a perna e o braço.
Fingindo de novo? — perguntei com irritação. Ele balançou a cabeça e formou na boca transida um sorriso estranho e torto. E era de fato torto, pois desenhava-se apenas no lado esquerdo, uma vez que os músculos faciais do lado direito não se moviam.
Aquela foi a última cena do lobo — ele disse. — Estou paralisado. Nunca mais vou andar. Quer dizer, só do outro lado — acrescentou, como se tivesse antecipado o olhar suspeito que dirigi à sua perna esquerda, que tinha acabado de se mover e erguido o cobertor com o joelho. — É uma pena — ele continuou. — Gostaria de ter acabado com você antes, Hump. Achei que ainda seria capaz de fazer pelo menos isso.
Mas por quê? — perguntei em um misto de horror e curiosidade.
Sua boca desenhou outra vez aquele sorriso torto e ele disse:
Ah, somente para estar vivo, para viver e fazer coisas, para ser uma parte maior do fermento até o fim, para comê-lo. Qualquer coisa, menos morrer desse jeito.
Ele ergueu os ombros, ou pelo menos tentou, porque só o ombro esquerdo se moveu. Um erguer de ombros torto como o sorriso.
Mas como você explica isso? — perguntei. — Onde reside o problema?
No cérebro — ele disse na mesma hora. — Foram aquelas malditas dores de cabeça que causaram isso.
Elas são sintomas — falei.
Ele acenou com a cabeça.
Não há explicação. Nunca fiquei doente em toda a minha vida. Aconteceu alguma coisa errada no meu cérebro. Um câncer, um tumor, algo dessa natureza, algo que devora e destrói. Está atacando meus centros nervosos, devorando-os aos poucos, célula por célula. É o que a dor me leva a crer.
Está devorando os centros motores também — sugeri.
É o que parece. E a maldição é que preciso ficar aqui deitado, consciente, mentalmente são, sabendo que as redes de comunicação com o mundo estão se desfazendo aos poucos. Não enxergo, a audição e o tato estão indo embora, e, se as coisas seguirem nesse ritmo, daqui a pouco não conseguirei falar. Mesmo assim, vou estar o tempo todo aqui, vivo, ativo e impotente.
Quando você diz que você está aqui, está implicando a probabilidade da existência de uma alma — falei.
Asneira! — ele retrucou. — Significa apenas que os centros físicos mais superiores do meu cérebro não foram afetados pelo ataque. Consigo lembrar, consigo pensar e raciocinar. Quando isso for embora, vou junto. Eu não existo. Alma?
Ele desatou uma risada zombeteira e depois encostou a orelha esquerda no travesseiro, indicando que não queria mais conversar.
Maud e eu voltamos ao trabalho oprimidos pelo destino medonho que se abatera sobre ele, e ainda estávamos por descobrir quão medonho realmente era. Um destino que carregava um terrível componente de retribuição. Nossos pensamentos eram profundos e solenes e conversamos o mínimo possível, somente em sussurros.
Você poderia retirar as algemas — ele disse aquela noite quando fomos verificar seu estado. — É totalmente seguro. Estou paralítico agora. Precisamos nos preocupar a partir de agora com as escaras.
Ele abriu aquele sorriso torto e Maud, com os olhos cheios de terror, foi forçada a virar o rosto.
Seu sorriso está deformado, sabia? — perguntei, pois ela precisaria cuidar dele e eu queria poupá-la ao máximo.
Então não sorrirei mais — ele disse calmamente. — Pensei mesmo que algo estava errado. Minha face direita passou o dia dormente. Sim, tive sinais disso nos últimos três dias. Meu lado direito parecia estar dormindo aos poucos, às vezes o braço ou a mão, às vezes a perna ou o pé.
Um pouco depois ele perguntou:
Quer dizer que meu sorriso está deformado? Bem, de agora em diante, considere que estou sorrindo por dentro, com a minha alma, se preferir, com a alma. Considere que estou sorrindo agora.
E ele ficou quieto por vários minutos, regozijando-se com sua grotesca fantasia.
O homem que ele era estava intacto, era o velho e indomável Wolf Larsen, preso em algum lugar daquela carne que já fora tão invencível e imponente. Agora ela o agrilhoava com correntes inanimadas, emparedando sua alma na escuridão e no silêncio, barrando-o desse mundo que, para ele, havia sido um turbilhão de pura ação. Ele nunca mais conjugaria o verbo “fazer” em todos os tempos e modos. “Existir” era tudo que lhe restava, existir sem movimento, como ele havia definido a morte. Desejar sem executar. Pensar, raciocinar e estar vivo como sempre em espírito, mas morto na carne, bem morto.
E mesmo assim, após eu remover as algemas, não conseguimos nos adaptar à sua condição. Nossas mentes se recusavam. Para nós, ele ainda estava cheio de potencial. Não sabíamos o que esperar dele em seguida, que gesto temível ele poderia cometer de repente, sobrepujando a carne. Nossa experiência prévia justificava tal disposição e seguimos trabalhando com a ansiedade sempre à espreita.
Resolvi o problema da cabrilha, que era curta demais. Usando a nova talha singela que eu havia construído, icei a base do mastro de proa por cima da amurada e depois o baixei até o convés. Em seguida, usando a cabrilha, carreguei para bordo o mastaréu principal. Seus doze metros de comprimento garantiriam a altura necessária para balançar o mastro adequadamente. Com a talha secundária que eu havia conectado à cabrilha, virei o mastaréu até uma posição quase perpendicular, baixei a base até que tocasse o convés e fixei-a no lugar com calços bem fortes. O moitão simples de minha cabrilha original foi preso à ponta do mastaréu. Assim, carregando essa talha até o cabrestante, eu podia levantar e baixar a ponta do mastaréu à vontade mantendo sua base no lugar, e com os patarrases eu podia levar o mastaréu de um lado a outro. Amarrei outra talha de içar à ponta do mastaréu. Quando todo o mecanismo ficou pronto, me espantei com a força e a margem de manobra que ele proporcionava.
É claro que foram necessários dois dias de trabalho para concluir essa etapa da tarefa, portanto foi apenas na manhã do terceiro dia que consegui erguer o mastro de proa do convés e virá-lo na posição correta para encaixar a base. Nessa parte, minha falta de habilidade ficou mais evidente que nunca. Serrei, aparei e entalhei a madeira gasta até que ela parecia ter sido roída por um rato gigante. Mas encaixou.
Vai funcionar, sei que vai! — bradei.
Conhece o teste final do dr. Jordan para identificar a verdade?(97) — perguntou Maud.
Sacudi a cabeça e interrompi a limpeza da serragem que tinha caído em meu pescoço.
Podemos fazer funcionar? Podemos confiar nossas vidas a isso? Eis o teste.
Ele é um de seus preferidos — falei.
Quando desmanchei meu velho Panteão e descartei Napoleão, César e seus amigos, construí logo em seguida um novo Panteão — ela respondeu, séria —, e o primeiro que empossei foi o dr. Jordan.
Um herói moderno.
Muito mais herói por ser moderno — ela emendou. — O que são os heróis da Antiguidade perto dos nossos?
Assenti. Éramos parecidos demais em muita coisa para que uma discussão fosse possível. Nossos pontos de vista e visões de mundo, pelo menos, eram muito semelhantes.
Para um par de críticos, até que concordamos demais — ri.
Como engenheiro naval e valorosa assistente também — ela se juntou ao riso.
Mas não sobrava muito tempo para rir naqueles dias, em função do trabalho pesado e da arrepiante morte em vida de Wolf Larsen.
Ele tinha sofrido outro ataque. Perdera a voz, ou estava perdendo. Conseguia usá-la somente às vezes. Nas palavras dele, as linhas de comunicação eram como o mercado de ações, ora em alta, ora em baixa. Havia ocasiões em que as linhas estavam operantes e sua fala era a mesma de sempre, apenas um pouco mais devagar e arrastada. De repente ele perdia a fala, às vezes no meio de uma frase, e podíamos ter que esperar horas até que a conexão fosse restabelecida. Ele reclamava de uma dor muito forte na cabeça, e foi nesse período que acabou inventando um sistema de comunicação para ser usado nos momentos de perda total da fala. Um aperto da mão para “sim”, dois para “não”. E ainda bem que ele inventou isso, porque à noite sua voz sumiu de vez. A partir daí ele passou a responder nossas perguntas com apertos da mão, e quando queria dizer algo anotava seus pensamentos com a mão esquerda, de forma um tanto legível, numa folha de papel.
O inverno rigoroso nos alcançou. Era uma ventania após a outra, com neve, granizo e chuva. As focas iniciaram sua grande migração para o sul e a colônia ficou praticamente deserta. Trabalhei em ritmo febril. Apesar do mau tempo e do vento, que me atrapalhava especialmente, eu permanecia no convés do raiar do dia até o cair da noite e ia realizando bons progressos.
Ganhei muito com o que aprendi levantando a cabrilha e depois escalando-a para prender os patarrases. Ao topo do mastro de proa, já convenientemente erguido sobre o convés, prendi as vergas, os estais e as adriças de boca e de pique. Como nas outras vezes, eu havia subestimado a quantidade de trabalho exigida por essa etapa e levei dois dias inteiros para concluí-la. E ainda havia muito a fazer. As velas, por exemplo, precisariam ser praticamente refeitas.
Enquanto eu trabalhava duro para instalar o cordame no mastro de proa, Maud costurava as velas e ficava sempre de prontidão para me acudir quando eram necessárias mais que duas mãos. As lonas eram duras e pesadas e ela costurava com a agulha triangular típica dos marinheiros. Em pouco tempo suas mãos ficaram cheias de bolhas, mas ela insistiu bravamente, sem deixar de cozinhar e cuidar do enfermo.
Cruze os dedos — falei na manhã de sexta-feira. — Hoje aquele mastro vai para o lugar.
Estava tudo pronto para a tentativa. Levei a talha do mastaréu até o cabrestante e levantei o mastro até um pouco acima da altura do convés. Firmando bem essa talha, levei a cabrilha (que estava ligada à ponta do mastaréu) até o cabrestante e, depois de dar algumas voltas, deixei o mastro livre e em posição perpendicular.
Maud bateu palmas assim que pôde tirar as mãos da manivela e vibrou:
Funciona! Funciona! Podemos confiar nossas vidas a isso!
Em seguida, assumiu uma expressão desolada.
Não está em cima do buraco. Você vai ter que fazer tudo de novo?
Abri um sorriso magnânimo e, dando folga a um dos patarrases do mastaréu e puxando o outro, trouxe o mastro com perfeição até o centro do convés. Mesmo assim, ele não estava exatamente alinhado com o buraco. Ela assumiu a mesma expressão desolada e abri o mesmo sorriso magnânimo. Soltando a corda da talha do mastaréu e puxando um comprimento equivalente na talha da cabrilha, deixei a base do mastro bem em cima do buraco no convés. Passei a Maud instruções cuidadosas para baixá-lo e desci no porão para ter acesso ao encaixe no fundo da escuna.
Dei o grito para ela e o mastro se moveu com facilidade e precisão. A base quadrada desceu reto sobre o encaixe quadrado, mas girou um pouco ao descer, de forma que um quadrado não se encaixou bem no outro. Não hesitei nem por um instante. Gritei a Maud para interromper a descida, fui até o convés e amarrei a talha singela ao mastro com um nó corrediço. Pedi a Maud para puxá-la e voltei ao porão. À luz da lanterna, vi a base girar lentamente até que seus lados coincidissem com os lados do encaixe. Maud amarrou a corda e retornou ao cabrestante. O mastro veio descendo devagar os vários centímetros restantes, girando novamente. Maud ajustou mais uma vez o giro com a talha singela e voltou ao cabrestante para descer o mastro. Os quadrados se encaixaram. O mastro estava afixado.
Deixei escapar um grito e ela desceu correndo para ver o resultado. Contemplamos, à luz amarela da lanterna, o que tínhamos acabado de realizar. Olhamos um para o outro e nossas mãos tatearam o caminho e se uniram. Nossos olhos ficaram úmidos, acho, por causa da alegria trazida pelo sucesso.
Foi tão fácil de fazer, no fim das contas — comentei. — Todo o trabalho ficou na preparação.
E todo o júbilo na conclusão — acrescentou Maud. — Quase não consigo acreditar que o grande mastro está erguido e afixado. Que você o tirou de dentro d’água, o transportou pelo ar e o encaixou no devido lugar. Foi uma tarefa para um titã.
E eles próprios fizeram muitas invenções — comecei a dizer com satisfação, até que fiz uma pausa para farejar o ar.
Olhei a lanterna, afobado. Não estava soltando fumaça. Farejei de novo.
Alguma coisa está queimando — Maud disse com súbita convicção.
Saltamos ao mesmo tempo em direção à escada, mas corri na frente dela até o convés. Um denso volume de fumaça escapava pela escotilha da baiuca.
O lobo ainda não morreu — murmurei comigo mesmo enquanto descia atravessando a fumaça.
A fumaça estava tão densa naquele espaço fechado que fui obrigado a tatear pelo caminho, e o espectro de Wolf Larsen em minha imaginação era tão poderoso que me preparei para que o gigante impotente saltasse no meu pescoço para me estrangular. Hesitei, pois o desejo de subir a escada e voltar para o convés ameaçava me dominar. Então me lembrei de Maud. A última visão que tive dela, iluminada pela lanterna no porão do navio, com seus olhos castanhos afetuosos e úmidos de alegria, surgiu num clarão diante dos meus olhos e me convenceu de que eu não podia voltar atrás.
Eu estava engasgando e tossindo quando alcancei o beliche de Wolf Larsen. Estendi minha mão e tateei até encontrar a dele. Ele estava deitado e imóvel, mas se moveu um pouco ao sentir meu contato. Passei a mão por cima e por baixo de seus cobertores. Nenhum sinal de calor ou fogo. Mas a fumaça que me cegava e me fazia tossir precisava estar vindo de algum lugar. Perdi a cabeça temporariamente e vaguei em desespero pelo interior da baiuca. Um choque com a mesa quase me tirou o fôlego e me fez recuperar o controle. Pensei e concluí que um homem incapacitado só poderia ter iniciado um incêndio perto do local onde estava.
Me aproximei de novo do beliche de Wolf Larsen. Maud estava ali. Há quanto tempo ela estava naquela atmosfera sufocante, isso eu não fazia ideia.
Suba para o convés! — ordenei com firmeza.
Mas Humphrey… — ela começou a protestar com uma voz rouca e estranha.
Por favor! Por favor! — gritei com rispidez.
Ela obedeceu e começou a se afastar, mas então pensei: “E se ela não conseguir encontrar a escada?” Fui atrás dela e parei no pé da escada da escotilha. Talvez ela já tivesse subido. Eu estava ali, hesitante, quando ela choramingou:
Humphrey, me perdi.
Eu a encontrei desnorteada na parede próxima ao tabique e, meio conduzindo-a, meio carregando-a, levei-a pela escada. O ar puro era como néctar. Maud estava apenas tonta e enfraquecida, e eu a deixei deitada no convés antes de mergulhar na escotilha pela segunda vez.
A origem da fumaça devia estar muito próxima de Wolf Larsen. Isso estava decidido em minha cabeça, portanto fui diretamente a seu beliche. Enquanto eu tateava os cobertores, alguma coisa quente caiu no dorso da minha mão. Me queimei e recolhi a mão. Então compreendi. Ele tinha ateado fogo ao colchão do beliche superior pelas frestas do estrado. O braço esquerdo ainda funcionava bem o suficiente para que ele fizesse isso. A palha úmida do colchão, acesa por baixo e privada de ar circulante, estava chamuscando devagar.
Quando puxei o colchão para longe do beliche ele pareceu se desintegrar em pleno ar e foi consumido pelas chamas. Abafei a palha que restou em cima do beliche e corri para o convés em busca de ar fresco.
Vários baldes de água foram necessários para apagar o colchão em chamas sobre o piso da baiuca, e dez minutos depois, quando quase toda a fumaça tinha saído, permiti que Maud descesse. Wolf Larsen estava inconsciente, mas em questão de minutos o ar fresco o restaurou. Estávamos trabalhando por cima dele quando ele fez sinal pedindo lápis e papel.
Por favor não me interrompam — ele escreveu. — Estou sorrindo.
E momentos depois:
Ainda sou um pedacinho de fermento, está vendo?
Ainda bem que foi reduzido a esse pedacinho de nada — falei.
Obrigado — ele escreveu. — Mas pense o quanto menor ainda ficarei antes de morrer. — E depois arrematou com um último floreio: — Apesar disso, estou inteiro aqui, Hump. Nunca em minha vida pensei com tanta clareza. Nada me distrai. Concentração perfeita. Estou inteiro aqui, e mais que aqui.
Era como uma mensagem vinda da escuridão do túmulo, pois o corpo daquele homem tinha se tornado o seu mausoléu. Naquela sepultura tão estranha, seu espírito se agitava e vivia. Ele se agitaria e viveria até o rompimento da última linha de comunicação. E quem poderia dizer por quanto tempo mais depois disso?

97. Alusão à seguinte observação do cientista norte-americano David Starr Jordan (18511931): “Este é o teste final da verdade científica: podemos fazer isso funcionar? Podemos confiar nossas vidas a isso?”, encontrada em seu artigo “The Stability of Truth”, publicado em março de 1897 na revista Popular Science Monthly.

Jack London, in O Lobo do Mar

12/03/2023

O Lobo do Mar | Capítulo 36

Eu e Maud passamos dois dias explorando as praias à procura dos mastros perdidos. Foi só no terceiro dia que os encontramos, todos juntos, incluindo a cabrilha, justamente no lugar mais perigoso de todos, na rebentação violenta do temível promontório a sudoeste. Como trabalhamos! Ao escurecer do primeiro dia, retornamos exaustos à nossa pequena enseada, rebocando o mastro principal. E fomos obrigados a remar, em meio à completa calmaria, cada centímetro do trajeto.
Após mais um dia de trabalho extenuante e arriscado conseguimos trazer os dois mastaréus para o acampamento. No dia seguinte entrei em desespero e amarrei juntos o mastro de proa, os paus de carga e as duas caranguejas. O vento estava favorável e eu havia planejado rebocá-los usando a vela, mas o vento virou e depois parou de soprar, obrigando-nos a progredir com os remos em passo de tartaruga. E que esforço ingrato era aquele… Colocar toda a força e o próprio peso nos remos apenas para sentir o avanço do bote ser detido pela carga pesada não era exatamente estimulante.
A noite começou a cair. Para piorar, o vento ficou contra. Isso não apenas anulou qualquer possibilidade de avanço como nos empurrou aos poucos de volta para o mar aberto. Lutei com os remos até ficar esgotado. A pobre Maud, que eu não conseguia impedir de trabalhar até o limite de sua capacidade, deitou-se enfraquecida no fundo da popa. Eu já não podia continuar remando. Minhas mãos esfoladas e inchadas nem conseguiam segurar o cabo do remo. Uma dor intolerável tomou conta dos meus pulsos e braços e, apesar de ter ingerido uma refeição reforçada no almoço, a intensidade do trabalho foi tanta que eu ameaçava desmaiar de fome.
Recolhi os remos e me inclinei para a frente, na direção da corda que prendia a carga. Mas a mão de Maud impediu o avanço da minha.
O que pretende fazer? — ela perguntou com uma voz rígida e tensa.
Soltar tudo — respondi, desfazendo uma volta da corda.
Seus dedos fecharam em torno dos meus.
Não faça isso, por favor — ela implorou.
É inútil — respondi. — Já anoiteceu e o vento está nos empurrando para o alto-mar.
Mas pense, Humphrey. Se não tivermos condições de ir embora com o Ghost, podemos passar anos nessa ilha, ou mesmo a vida toda. Ela não foi descoberta até hoje, e talvez nunca seja.
Você está esquecendo do bote que encontramos na praia — lembrei.
Era um bote de caça à foca — ela respondeu —, e você sabe muito bem que, se os homens houvessem escapado, teriam retornado para fazer fortuna com as colônias. Você sabe muito bem que eles não conseguiram.
Permaneci em silêncio, indeciso.
Além do mais — ela acrescentou com hesitação —, foi uma ideia sua, e quero vê-lo triunfar.
Agora eu podia endurecer o coração. A partir do momento em que ela colocava as coisas nos termos de um elogio pessoal, eu me via impelido a contrariá-la.
É melhor passar anos na ilha do que morrer esta noite, ou amanhã, ou no dia seguinte, num bote aberto. Não estamos preparados para desbravar o oceano. Não temos comida, água, cobertores, nada. Você não sobreviveria uma noite sem cobertores. Conheço o limite da sua resistência. Está tremendo de frio agora mesmo.
É só nervosismo — ela respondeu. — Temo que não me leve em consideração e solte os mastros. — Passado um momento, ela desabafou: — Oh, por favor, por favor, Humphrey, não faça isso!
Ela sabia do poder absoluto que aquelas palavras exerciam sobre mim, e assim o assunto foi encerrado. Trememos tenebrosamente a noite toda. De vez em quando eu conseguia dormir, mas a dor provocada pelo frio acabava me despertando. Eu não entendia como Maud era capaz de aguentar. Eu estava cansado demais para movimentar os braços e me aquecer, mas várias vezes encontrei forças para esfregar suas mãos e pés e reativar sua circulação. Mesmo assim, ela continuou me implorando para não abandonar os mastros. Perto das três da manhã ela sofreu de espasmos de hipotermia, e depois que a esfreguei ficou um tanto mortiça. Aquilo me assustou. Instalei os remos e a fiz remar, mesmo que ela estivesse fraca a ponto de quase desmaiar.
A manhã nasceu e passamos muito tempo procurando nossa ilha na luz que brotava. Uma hora ela finalmente despontou no horizonte, pequena e escura, a uns vinte e cinco quilômetros de distância. Vasculhei o mar com a luneta. Bem longe, a sudoeste, havia uma linha escura na superfície do mar que aumentava a olhos vistos.
Vento a favor! — gritei com uma voz rouca que eu mal podia reconhecer como sendo minha.
Maud tentou responder, mas não conseguiu falar. Seus lábios estavam azuis de frio e seus olhos afundados nas órbitas. Apesar disso, como me olhavam com bravura aqueles olhos castanhos! Que bravura comovente!
Mais uma vez, esfreguei suas mãos e movimentei seus braços para cima e para baixo, até que ela pudesse movê-los sozinha. Depois, mesmo que ela estivesse caindo sem meu apoio, eu a forcei a levantar e caminhar pelo bote, entre o banco e a popa, e depois a pular.
Você é muito, muito valente — falei ao ver seu rosto se recobrir de vida. — Você sabia que era tão valente?
Eu não costumava ser — ela respondeu. — Nunca fui valente antes de conhecer você. Foi você que me deu valentia.
Eu também nunca fui, antes de conhecer você.
Ela me lançou um rápido olhar, e ali estavam novamente a luz trêmula e dançante e aquele algo a mais que eu não podia definir. Só durou um momento. Depois ela sorriu.
Devem ter sido as provações que enfrentamos — ela falou, mas eu sabia que ela estava enganada e me perguntava até que ponto ela também estava ciente disso. Então o vento chegou, fresco e forte, e o bote avançou pelo mar agitado em direção à ilha. Passamos pelo promontório do sudoeste às três e meia da tarde. Não bastasse a fome, sofríamos agora uma sede terrível. Nossos lábios estavam escuros e rachados e já não conseguíamos umedecê-los com a língua. O vento começou a morrer. À noite tivemos outra calmaria e eu voltei aos remos, mas estava muito, muito fraco. Às duas da manhã o bote tocou a areia de nossa enseada particular e eu saí com dificuldade para amarrar o proiz. Maud não conseguia se manter em pé e eu não tinha forças para carregá-la. Caí na areia a seu lado e, depois de me recuperar, contentei-me em arrastá-la pelos braços praia acima, até a cabana.
Não trabalhamos no dia seguinte. Na verdade, dormimos até as três da tarde, ou pelo menos eu dormi, pois ao acordar encontrei Maud cozinhando. Sua capacidade de recuperação era fantástica. Havia uma tenacidade especial naquele corpo frágil como um lírio, um apego à existência que não combinava com sua evidente fraqueza.
Eu estava indo cuidar da minha saúde no Japão, sabe — ela disse quando sentamos diante do fogo após o jantar, regalando-nos com a ociosidade. — Eu não era muito forte. Nunca fui. Os médicos recomendaram uma viagem marítima, e escolhi a mais longa de todas.
Mal sabia você o que estava escolhendo — ri.
Mas sairei desta experiência uma mulher diferente, mais forte — ela respondeu —, e também melhor, espero. No mínimo, compreenderei a vida muito melhor.
Quando aquele dia curto se esvaiu, começamos a discutir a cegueira de Wolf Larsen. Era inexplicável. Quanto à sua gravidade, lembrei que ele havia declarado a intenção de permanecer e morrer em Endeavour Island. Se ele, homem possante que era, amante da vida, estava aceitando a própria morte, estava claro que alguma coisa mais grave o atormentava. Ele era acometido daquelas dores de cabeça descomunais, e concordamos que devia ter sofrido alguma espécie de dano cerebral e que durante os ataques suportava dores além da nossa compreensão.
Enquanto discutíamos a condição dele, percebi que Maud dedicava-lhe uma empatia cada vez maior, e diante daquela doce exibição de benevolência feminina não me restava opção a não ser amá-la ainda mais. Além disso, não havia falsidade nenhuma em seus sentimentos. Ela concordava que o tratamento mais rigoroso possível era necessário para nossa fuga, mas horrorizava-se com a ideia de que eu, em algum momento, precisasse matá-lo para salvar a minha própria vida, ou a “nossa vida”, como ela dizia.
Tomamos o café pela manhã e quando o sol subiu fomos trabalhar. Encontrei uma pequena ancoreta no porão de proa, onde se guardavam coisas desse tipo, e com uma boa dose de esforço consegui levá-la para o convés e depois para o bote. Trazendo um rolo comprido de corda na proa, remei bem para dentro da nossa pequena enseada e lancei a ancoreta. Não havia vento, a maré estava alta e a escuna flutuava. Depois de ter ancorado a escuna longe do contorno da costa, reboquei-a à força (o cabrestante estava quebrado) até que ficasse quase alinhada com a ancoreta, que era pequena demais para retê-la diante de qualquer brisa. Por isso, lancei também a âncora grande de estibordo, dando bastante corda. Quando a tarde chegou eu já estava consertando o cabrestante.
Passei três dias nisso. Eu estava longe de ser um mecânico, e um maquinista experiente teria concluído o trabalho no mesmo número de horas. Primeiro tive de aprender a usar as ferramentas, depois os simples princípios mecânicos que um profissional teria na ponta dos dedos. Ao final de três dias, eu tinha um cabrestante que mal e mal funcionava. Nunca me deu a mesma satisfação que o outro, mas tornava o trabalho possível.
Levei a metade de um dia para trazer os dois mastaréus a bordo e erguer e cordoar a cabrilha como antes. Dormi no convés aquela noite, ao lado de minha construção. Maud, que se recusou a ficar sozinha na praia, dormiu no castelo de proa. Wolf Larsen tinha ficado sentado por perto, escutando o conserto do cabrestante e conversando comigo e Maud sobre assuntos corriqueiros. Nenhum dos lados fez qualquer menção à destruição da cabrilha, e ele também não voltou a insistir que eu deixasse seu navio em paz. Mas eu ainda o temia do jeito que ele estava, cego, impotente, ouvindo tudo com atenção em todos os momentos, e nunca permiti que seus braços possantes se aproximassem de mim enquanto eu trabalhava.
Nessa noite, dormindo embaixo de minha tão adorada cabrilha, fui despertado pelos passos de Wolf Larsen no convés. Era uma noite estrelada e eu podia ver seu vulto enquanto se movia. Me livrei dos cobertores e fui atrás dele sem fazer barulho, de meias nos pés. Ele empunhava uma faca de tanoeiro retirada do armário de ferramentas, e estava prestes a cortar as adriças de boca que eu tinha prendido novamente à cabrilha. Tateou as adriças com as mãos e descobriu que eu não as havia esticado. Isso tornava a faca de tanoeiro inútil, portanto ele segurou, esticou e amarrou uma ponta da adriça, e então preparou-se para cortar.
Eu não faria isso se fosse você — eu disse em voz baixa.
Ele ouviu minha pistola sendo engatilhada e riu.
Olá, Hump. Eu sabia o tempo todo que você estava aqui. Meus ouvidos não podem ser enganados.
Você está mentindo, Wolf Larsen — falei no mesmo tom baixo de voz. — De todo modo, estou ansiando por uma oportunidade de matá-lo, portanto vá em frente e corte logo essa adriça.
Você tem essa oportunidade o tempo inteiro — ele desdenhou.
Corte logo — ameacei.
Prefiro desapontá-lo — ele riu, e então deu meia-volta e retornou à popa.
Algo precisa ser feito, Humphrey — disse Maud na manhã seguinte, quando relatei o ocorrido durante a noite. — Se ele tiver liberdade, fará o que bem entender. Pode afundar o barco ou atear fogo nele. Não podemos prever o que ele irá fazer. Devemos aprisioná-lo.
Mas como? — ergui os ombros. — Não ouso ficar ao alcance de seus braços, e ele sabe que não conseguirei atirar nele enquanto sua resistência for passiva.
Deve haver uma maneira — ela afirmou. — Deixe-me pensar.
Há uma maneira — falei num tom sinistro.
Ela esperou.
Peguei um porrete para focas.
Não irá matá-lo — falei. — E antes que ele se recupere terei tempo de amarrá-lo bem forte.
Ela balançou a cabeça e estremeceu.
Não, isso não. Deve haver uma maneira menos brutal. Vamos esperar.
Não precisamos esperar muito para que o problema se resolvesse sozinho. Pela manhã, após várias tentativas, encontrei o ponto de equilíbrio no mastro de proa e prendi minha talha de içar um pouco acima dele. Maud segurava a manivela e recolhia a corda enquanto eu puxava. Se o cabrestante estivesse em perfeitas condições, não teria sido tão difícil, mas do jeito que estava eu era obrigado a aplicar todo meu peso e força para puxar cada centímetro. Precisava parar com frequência para descansar. Na verdade, as pausas para descanso eram maiores que as sessões de atividade. Maud chegou a ter a ideia de segurar a manivela com uma das mãos e colocar o pequeno peso de seu corpo para me ajudar nos momentos em que minha força era insuficiente para operar o cabrestante.
Ao fim de uma hora, os moitões simples e duplo se encostaram no topo da cabrilha. Eu não conseguia mais puxar. O mastro, porém, ainda não estava inteiramente a bordo. A base estava tocando o lado de fora da amurada de bombordo enquanto o topo pairava acima da água, bem longe da amurada de estibordo. Minha cabrilha era curta demais. Todo o meu trabalho tinha dado em nada. Mas não me desesperei como nas outras vezes. Eu estava acumulando confiança em mim mesmo e na capacidade do cabrestante, da cabrilha e das talhas. Havia uma maneira de fazer aquilo, e eu só precisava encontrar essa maneira.
Enquanto eu refletia acerca do problema, Wolf Larsen apareceu no convés. Notamos na mesma hora que havia alguma coisa estranha nele. A indecisão ou debilidade de seus movimentos era maior. Ele chegou a cambalear ao descer pelo lado de bombordo da cabine. Na entrada do tombadilho ele vacilou, tapou os olhos com a mão com aquele movimento típico de afastar teias de aranha, tropeçou pelos degraus sem chegar a cair no chão, atingiu o convés e ficou ali balançando, buscando apoio com os braços. Recuperou o equilíbrio perto da escotilha da baiuca e permaneceu ali por um momento, tonto, até que de repente se encolheu e desabou sobre o convés com as pernas amolecidas.
É um daqueles ataques — sussurrei para Maud.
Ela concordou com a cabeça e seus olhos se encheram de compaixão.
Chegamos perto, mas ele parecia inconsciente e respirava em espasmos. Ela se encarregou de cuidar dele, erguendo sua cabeça para o sangue circular, e pediu que eu buscasse um travesseiro na cabine. Aproveitei para trazer cobertores e tentamos deixá-lo confortável. Tomei seu pulso. Estava forte e ritmado, batendo normalmente. Aquilo me intrigou. Tive suspeitas.
E se ele estiver fingindo tudo isso? — perguntei, ainda segurando seu pulso.
Maud balançou a cabeça com um olhar reprovador. Mas nesse exato momento o pulso escapou da minha mão e ele agarrou o meu pulso com dedos de aço. Gritei alto, tomado de um medo terrível, um apelo selvagem e inarticulado, e vislumbrei seu rosto maligno e triunfante enquanto ele me envolvia com o outro braço e me prensava contra ele com uma força abominável.
Meu pulso foi solto, mas seu outro braço deu a volta em minhas costas e segurou os meus dois braços, impedindo meus movimentos. Sua mão livre buscou minha garganta e naquele instante senti o gosto amargo de uma morte encomendada pela própria idiotice. Por que eu tinha me permitido entrar no alcance daqueles braços terríveis? Senti outras mãos em minha garganta. Eram as mãos de Maud, tentando em vão desprender a manzorra que me estrangulava. Quando ela desistiu, ouvi um grito que me cortou a alma, pois era o grito lancinante do medo e do desespero de uma mulher. Eu o ouvira antes, no naufrágio do Martinez.
Meu rosto estava esmagado contra o peito de Wolf Larsen e eu não conseguia ver, mas ouvi Maud se afastar e correr pelo convés. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu ainda não havia notado indícios de inconsciência e tive a impressão de que um tempo interminável transcorreu até ouvir os passos dela novamente. Logo em seguida, senti o homem afundar embaixo de mim. O fôlego começou a escapar de seus pulmões e seu peito cedeu ao meu peso. Se foi apenas a expiração ou a consciência de sua crescente impotência, isso eu não sei, mas um gemido profundo vibrou em sua garganta. A mão presa à minha garganta relaxou. Respirei. A mão estremeceu e apertou novamente. Mas nem sua vontade tremenda foi capaz de superar a dissolução. Sua vontade tinha sido minada. Ele estava desmaiando.
Os passos de Maud estavam muito próximos no instante em que a manzorra estremeceu pela última vez e soltou minha garganta. Rolei para o lado e fiquei de costas sobre o convés, tossindo e piscando os olhos contra a luz do sol. Voltei-me para Maud imediatamente e vi que estava pálida, porém controlada, me olhando com uma mistura de preocupação e alívio. Chamou minha atenção o porrete que ela tinha em mãos, e ela acompanhou meu olhar até ele. Deixou cair o porrete como se tivesse sido picada por ele, e no mesmo instante meu coração foi invadido por uma enorme alegria. Ela era realmente minha mulher, minha parceira, alguém que lutava comigo e por mim como teria feito a parceira de um homem das cavernas, com todo seu lado primitivo eriçado, alheio à sua cultura, com a dureza preservada por baixo da delicadeza civilizada da única vida que ela conhecera até então.
Mulher adorada! — exclamei, me esforçando para ficar em pé.
No instante seguinte ela estava em meus braços, chorando convulsivamente em meu ombro enquanto eu a abraçava com força. Baixei os olhos para a formosura castanha de seus cabelos, joias reluzindo ao sol, mais preciosas para mim que as do tesouro de qualquer rei. Dobrei o pescoço e beijei seus cabelos com tamanha suavidade que ela nem percebeu.
Em seguida, voltei a pensar com a razão. Afinal, ela não passava de uma mulher chorando de alívio após se livrar do perigo, jogada nos braços de seu protetor ou daquele que estava sob ameaça. Se eu fosse um pai ou um irmão, a situação não teria sido diferente. Além disso, a ocasião e o lugar não eram os mais apropriados, e eu queria assegurar o direito de declarar meu amor por ela. Portanto, beijei seus cabelos de novo com suavidade enquanto sentia ela se afastar.
Foi um ataque verdadeiro dessa vez — eu disse. — Outro choque semelhante àquele que o cegou. Primeiro ele fingiu, e ao fazê-lo provocou o ataque.
Maud já estava pondo o travesseiro de novo no lugar.
Não — falei —, ainda não. Agora que ele está sob nosso jugo, deverá permanecer sob nosso jugo. De hoje em diante, moraremos na cabine. Wolf Larsen morará na baiuca.
Eu o ergui pelos braços e o arrastei até a escotilha. Seguindo minhas instruções, Maud foi buscar uma corda. Passei a corda por baixo de seus braços, equilibrei-o na posição correta na beira da escotilha e desci pelos degraus até o piso. Eu não conseguia levantá-lo para pô-lo na cama, mas com a ajuda de Maud consegui erguer primeiro a cabeça e os ombros, depois o resto do corpo, e assim o fiz passar por cima da beirada de um dos beliches inferiores.
Mas isso não bastaria. Lembrei das algemas que ele guardava em seu camarote para prender os marinheiros, método que considerava melhor que os grilhões toscos e antiquados do navio. Quando eu o deixei, estava algemado nas mãos e nos pés. Pela primeira vez em dias, consegui respirar aliviado. Me senti estranhamente leve ao voltar para o convés, como se tivesse retirado um peso dos ombros. Também fiquei com a impressão de que eu e Maud tínhamos nos aproximado ainda mais. E me perguntei se ela sentia o mesmo enquanto andamos juntos pelo convés em direção ao mastro da proa, que continuava suspenso na cabrilha.

Jack London, in O Lobo do Mar