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18/05/2025

Se eu seria personagem



Note-se e medite-se. Para mim mesmo, sou anônimo; o mais fundo de meus pensamentos não entende mi­nhas palavras; só sabemos de nós mesmos com muita confusão.
Titolívio Sérvulo, esse, devia ser meu amigo. Ativo, atilado em ações, néscio nos atos; réu de grandes dotes faladores. Cego como duas portas. Me mostrou Orlanda — reto trouxe-ma à atual atenção. Algo a isso o obrigasse, acho. Só a fé me vive. Sou da soldadesca de algum general. Todo soldado tem um pouqui­nho de chumbo.
Depois de drinque inconsiderado, em amena tarde, que muito me esquece. — “Feia, frívola, antipática...” — T. impôs. Aceitei, sem aceno. Nela eu não reparara, olhava-a indiferente como gato ante estátua, como o belo é oblíquo.
Não dessa feita. Porque ela não surgira apenas: desenhou-se e terna para mim. Além de linda — incomparável — a raridade da ave. Se cada uma pessoa é para outra-uma pessoa? Só ela me saltava aos olhos.
Fixe-se porém que ninha ou baga eu não disse, guardei-me de apreciação. Sou tímido. Vejo, sinto, penso, não minto. Me fecho. Eu, que não vou nem venho. Tenho a ilusão na mão. Nasci para cristão ou sábio, quisera ser.
E vai, senão, que T., colado a mim, em ímpeto não inédito se desdisse: — “Boa, fina, elegante!” — de feliz grito, precipitando-se na matéria do quadro. Dava-lhe o quê? Indaguei-me como.
Nada eu lhe falara, afirmo, nem dele teria audiência. Só mes­mo a mim: fortíssimo aquele sobredito meu conceito, e que era uma ocasião interna.
Mas, feito um achado oracular, ele contracunhando-o, agora, pois. Já a tinha em valia; estava-se no coincidir. Onde há uma borboleta, está pronta a paisagem? Tácito, de lado não me entortei, como o monge se encapuza. Rebebi, tinidamente. Tomei posição.
Daí, dados os dias, eu amava-a — sem temor ao termo. À boa fé: mais vale quem a amar madruga, do que quem outro verbo conjuga... Do que de novo fiz meu silêncio.
E vem T. — contudo, como se me segundando, em sua irreticência, comentando meu coração. Já T. também gostava dela, e sob que forma? Por isto assim que: para namorico, o ilí­cito, picirico, queria-a que queria.
Mais me emudeci. Abri-me a mim. De Orlanda eu, certo antes, me enamorara, secreto efervescente. Tímido, tímidulo. Sou antigo. Onde estão os cocheiros e os arcediagos? T. era que me copiasse, não a seu ciente. Em segredo pondo eu minha toda concentrada energia passional tão pulsante; de bom guerreiro.
É de adivinhar que T. mudou, no meu ar. Súbito o incêndio, ele se apaixonara, após, por Orlanda, andorinha do abstrato. Transmentiu-me: o embeiço — reflexo, eco, decalque. Já éra­mos ambos e três.
Escureço que demais não me surpreendi, bofé, acima de espanto. E põe-se o problema. Todo subsentir dá contágio, cada pre­sença é um perigo? Aceitam-se teorias.
T. tocava a trombeta — miolado, atravessado, mosqueteiro — imitador de amor. Ou eu, falso e apenas, arremedando-o por antecipação. O futuro são respostas. Da vida, sabe-se: o que a ostra percebe do mar e do rochedo. Inimaginemo-nos.
Foi havendo amor. Entre mim tenho que aqui rir-me-ão, de no jogo omisso, constante timidejante, calando-me de demons­trações. Meu amor, luar da outra face, de Orlanda não ver. Do que o da gente, vale a semente — o que, acho, ainda não foi dito. T. sim saía-se, entreator.
Adão. Eu, não. Vou ao que me há de vir, só, só, próprio. Espero — depois, antes e durante — destinatário de algum amor. O tempo é que é a matéria do entendimento. Quem pôs libreto e solfa? O amor não pode ser construidamente. Ninguém tem o direito de cuidar de si.
Pois, que, quanto eu não dava, alferes, para ter Orlanda?
E então T. avisou-se-me, vice-louco, com avento de casamento. Ia do mito ao fato; o que a veneta tenta. Tudo já estava. A notícia pegou-me em seu primeiro remoinho.
E tugi-nem-mugi, nisso eu não tendo voto; só emoção, ca­lada como uma baioneta. Tive-me. O general dispõe. Me amolgam, desamolgo-me. Valha o amuo filosófico. T. sentimentiroso, regozijado com o relógio... Às vezes a gente é mesmo de ferro. Recentrei-me, como peculiar aos tímidos e aos sensatos. Isto é, fui-me a dormir, a ducentésima vez, nesse ano.
Tido de conformar-me. Aí a minha memória desfalece. Vi­ver é plural — muito do que não vejo nem invejo. E atravessei, não intimidado, aquele certo se não errado acontecimento.
Noiva e de outro, Orlanda? Então ela não era a minha, era a de T. então. Folguei por ambos, a isso obriguei-me. Coadunei nula raiva com esperança incógnita, nesse meu momento. A hora se fazia pelo deve & haver dos astros, não a aliás e talvez. Tanto sabe é quem manda; e fino o mandante. A gente tem de vi­ver, e o verão é longo. Retombei, pesado, dúctil, no molde. Sal­vem-se cócega e mágica, para se poder reler a vida.
Sim sofri: como o músico atrás dos surdos ou o surdo atrás dos dançantes; mas, com cadência. Orlanda e uma data — o tempo, t? Vinha eu de fazer de a esquecer, ordem que traduzi e me dei. Em esquecimento que, oculto, vazava. A quanto parece.
T. seguia-me, brusco também padecia, inexplicada mas explicavelmente, bom condutor. Do modo, doeu-se, descreu-se, quando um grande acontecimento veio a não suceder. Plorava, que quase; só piscou depois.
Nem exultei — não querendo emprestar-lhe bafo. Na circunstância, a outronada o induzisse, sou de conselho escasso. Eu, no caso dele... refeito de manter-me de parte.
Pois foi o que ele fez, mudou de amar e de amor, ora agora mandar-se-á ao lado de uma outra mulher, certa a de Titolívio Sérvulo, a ele de antemão destinada, da grei do exato sentir. Tive-lhe, tenho-lhe mais amizade, não dó. Sei o que hei. Timidez paga devagar, mas paga.
E nem sabe o tímido quanto bem calcula. À melhor fé! Como o amor se faz é graças a dois.
Segue-se, enfim assim, nomeadamente Orlanda — de a um tempo rimar com rosa, astro e alabastro — aqui. Sua minha alma; seu umbigo de odalisca, sorriso de sou-boneca, a pele toda um cheiro murmurante, olheiras mais gratas azúis. Mesma e minha.
De dom, viera, vinha, veio-me, até mim. Da vida sem ideia nem começo, esmaltes de um mosaico, do mundo — obra anônima? Fique o escrito por não dito. Sós, estampilhamo-nos. Tem-se de a algum general render continência. Ei-la, alisa a tira da sandália, olha-se terna ao espelho, eis-nos. Conclua-se. Somos. Sou — ou transpareço-me?

Guimarães Rosa, em Tutameia

01/05/2025

Ripuária


Seja por que, o rio ali se opõe largo e feio, ninguém o passava. Davam-lhe as costas os de cá, do Marrequeiro, ignorando as paragens dele além, até à dissipação de vista, enfumaçadas. Desta banda se fazia toda comunicação, relações, comércio: ia-se à vila, ao arraial, aos povoados perto. João da Areia, o pai, conhecia muita gente, no meio redor, selava a mula e saía, frequente. O filho, Lioliandro, de fato se aliviava com essas ausências. Ele não gostava de se arredar da beira, atava-se ao trabalho. Era o único a olhar por cima do rio como para um segredado.
Lioliandro tinha irmãs, careciam de quem em futuro as zelasse. — “Morro, das preocupações!” — invocava João da Areia, apontando para os olhos do filho o queimar do cigarro. Morreu. A mãe, acinzentada, disse então àquele, apontando-lhe aos olhos com o dedo: — “Tu, toma conta!” — pelo tom, parecia vingar-se das variadas ofensas da vida.
Lioliandro cismou: a gente podia vender o chão e ir... E virava-se para a extensão do rio, longeante, a não adivinhar a outra margem. Mas constavam-lhe do espírito ainda os propósitos do pai: — “Em parte nenhuma feito aqui dá tanto arroz e tão bom...” Teve de reconhecer a exatidão da tristeza.
Suas irmãs despontavam sacudidas bonitas, umas já com conversado casamento. Delas se afastava Lioliandro, não por falta de afeto, mas por não entender em amor as pessoas. Fazia era nadar no rio, adiantemente, o quanto pudesse, até de noite, nas névoas do madrugar.
— “Diabo o daí venha!” — vetava a mãe, que se mexia como uma enorme formiga. Lioliandro, no fundo, não discordava. Disse: não se casaria, até que a sorte das irmãs estivesse encaminhada. — “Sua obrigação...” — a mãe apôs. Lioliandro disso se doeu, mas considerando tudo certo fatal.
E veio, nesse tempo, foi uma canoa, sem dono, varada na praia. A fim, estragada assim, rodara, de alto rio. Ele ocultou-a, levava muito, sozinho, para a consertar, com mãos de lavrador. Em mente, achava-lhe um nome: Álvara. Depois, não quis, quando ansioso.
Queria era, um dia, que fosse, atravessar o rio, como quem abre enfim os olhos. Tinha notícia — que do lado de lá houvesse lugares: uns Azéns, o Desatoleiro, a grande Fazenda Permutada. Fez os remos.
Por esses espaços ninguém metia lanço, devido a que o rio em seio de sua largura se atalhava de corredeiras — paraíba — repuxando sobre pedregulho labaredas d’água; só léguas abaixo se transpunha, à boca de estrada, no Passo-do-Contrato. De lá surgia pessoa alguma. — “Lá não é mais Minas Gerais...” — o pai, João da Areia, quando vivo, compunha o jurar.
No em que se casaram, junto, as duas primeiras irmãs, se deu festa, mas Lioliandro não sabia dançar. Irrequieta mocinha, também vinda, dançava sorridente, de entre as mais nem se destacava. Lioliandro uma hora desertado se sumiu de todos, buscou a beirada do rio, que no escuro levava água bastante, calado e curto, como o jaguar. Álvara, aquela recuidada moça, no saudar lhe dera a mão. Disse-se lhe dissera: — “Você tem o barquinho, pega a gente para passear?”
Ele a desentendera. Espiava agora o acolá da outra aba, aonde se acendia uma só firme luz, falavam-na o que não se tinha por aqui, que era de eletricidade. Disso tomavam todos inveja. Desconfiou mais, para se arrimar, desse tempo por diante.
Até o choco das garças, nos ninhos nas árvores. Montou então uma vez a canoa e experimentou, no remar largo, era domingo, dia de em serviço não se furtar a Deus. Talvez ele não sendo o de se ver capaz — conforme sentenciara-o o velho, João da Areia. Decerto, desta banda de cá, dos conhecidos, o desestimavam, dele faziam pouco.
Do outro lado, porém, lá, haveria de achar uma moça, e que amistosa o esperava como o mel que as abelhas criam no mato... O rio era que indicava o erro da gente, importantes defeitos, a sina. Dentro quase no meio, se avistava, na seca, ilha-de-capim, antes da maior, inteira, crôa com mouchão, florestosa.
Depois foi a Lica, irmã caçula, que ficou nôiva. A não esquecida moça, Álvara, veio passar mês em casa, para auxiliar nos preparos. Ela cantava coplas, movendo no puro ar os braços. Mesmo não se curava Lioliandro de frouxo desassossego.
Entretanto provara, para sustos e escândalo, a façanha. De aposta, temeram por sua vida! Desapareceu, detrás das ilhas, e da pararaca, em as rápidas águas atrapalhadas. Só voltou ao outro dia, forçoso, a todo o alento.
— “Havia lá o que?” — perguntaram-lhe. Nenhum nada. Mais a dentro deviam de viver as povoações, não margeantes, ver que por receio do ribeiradio, de enfermidades. E fora então buscar a febre-de-maresia? Tanto que não. Dobrava de melancolia. Trouxera a lembrança de meia lua e muitas estrelas: várzeas largas... A praia semeada de vidro moído.
Muito o coração lhe dava novos recados. Lioliandro estudava a solidão. Dela lhe veio alguma coisa.
Álvara, a moça, na festa, para ele atentara, as dadas vezes, com olhos que aumentavam, mioludos, maciamente; ele desencerrava-se. Da feita, também ela ficou de parte. — “Não danço...” — a todos respondia.
Mas agora os mesmos olhos o estranhassem, a voz, que não ouvindo. Dele não era que gostava, não podia; decerto, de algum outro, dos que a enxergavam, diversamente, no giro de alegria. A travessia nem lhe valera, devia mais ter-se perdido, em fim, aos claros nadas, nunca, não voltando.
Na manhã, ele olhou menos as mãos, abertas rudemente: o rio, rebojado, mudava de pele. Nem atendeu aos que lhe falavam, aflitos, à mãe, que desobedecida o amaldiçoava. Entrou, enfiava o rio de frecha, cortada a correnteza, de adeus e adiante, nadava, conteúdo, renadava.
Revia as ilhas, donde o encachoeirado estrondeante, daí o remate e praia — de a-porto. Seu amor, lá, pois. Mediante o que precisava, que de impor-se afã, nem folga, o dever de esforço. — “Não posso é com o tal deste rio!” — tanto tinha dito o pai, João da Areia. Sacudiu dos dois lados os cabelos e somente riu, escorrido cuspindo.
Súbito então se voltou, à voz a chamar seu nome: por entre o torto ondear, que ruge-ruge mau moinhava enrolando-o, virou e veio.
A mãe bem que chorava, desdizendo as próprias antigas pragas. Detrás dela, aparecia aquela escolhida, Álvara, moça, que por ele gritara, corada ou pálida. — “Que é que lá tu queria?!” — as mãos da mãe tacteavam-lhe o corpo.
Mais a moça o encarou. — “Tudo é o mesmo como aqui...” Lioliandro quis ouvir, se bem que leve, nem crendo.
— “De lá vim, lá nasci” — sem pejo, corajosa, a curso. Sim, a gente a podia fácil entender, tão querida, completadamente: — “Sou também da outra banda...”

Guimarães Rosa, em Tutameia

07/04/2025

No prosseguir


À tarde do dia, ali o grau de tudo se exagerava. A choça. O pátio, varrido. O dono, cicatriz na testa, sentado num toro, espiando seus onceiros: cachorro de latido fino, cachorra com eventração. Era um velho de rosto já imposto; já branqueava a barba.
Era caçador de onças, para o Coronel Donato, de Tremedal. Tinha para isso grandes partes. Matava-as, com espingardinha, o tiro na boca, para não estragar o couro.
Os cães avisavam.
Outro homem bulira-se de entre árvores, oscilado saía da mata. Vai que uma bala podia varar-lhe goela e nuca, sem partir dente, derribando-o dessa banda. Nem, não imaginar des­razão. Mesmo havia de querer muitas coisas, o pobre. Rapaz, guapo, a onça quase o acabara, comera-lhe carnes. A onça, paga­ra. Juntos, nenhuma vencia-os, companheiros.
Coxeava, o tanto, pela clareira, no devagar de ligeireza, macio. Também tendo cicatriz, feiosa, olho esvaziado. Não olhava para a casa. Moço quieto, áspero, que devia de ser leal, que lhe era se­me­lhável. Precisava mais de viver; para a responsabilidade.
Saudaram-se, baixo. O velho não se levantara. — “Queria saber de mim?” — um arrepio vital, a seca pergunta. O outro curvou-se, não ousava indagar por saúde. No que pensava, calava. E rodeavam-se com os olhos, deviam ser acertadamente amigos. Moravam em ermos, distantes.
Viúvo, o velho tornara a casar-se, com mulher prazível. O moço, sozinho, mudava-se sempre mais afastado. Vinha, raro, ao necessário. Dar uma conversa, incansável escutador. Quanto mais que tinham ali de atacar em comum a onça — braçal, miã, com poder de espaço — o que nenhum dos jagunços do Coronel rompia; o ofício para que davam era aquele.
O moço ia pôr-se de cócoras, o velho apontou-lhe firme o cepo, foi quem ficou agachado. Mas, de chapéu. O moço, o seu nos joelhos, sentava-se meio torcido, de lado.
Mudo modo, como quando a onça pirraça. Os cães, próximos. — “Aí... s’tro dia...” — ou — “...esse rastro é velho...” — inteiravam-se, passado conveniente tempo. Viravam novo silêncio.
Fazia ideia, o velho, pesado de coisas na cabeça, ocultas figu­ras. Mal mirava o outro: aqueles grandes cabelos ruivo-amarelos, orelhas miúdas, o nariz curto, redonda ossuda a cara. Seco de pertinácias, de sem-medo; desde menino pequeno. Tinha as vantagens da mocidade, as necessidades…
Enquanto que, ele, esmorecia, com o render-se aos anos, o alquebro. O que era o que é a vida. A mais, a doença. Tormentos. Porque tinha aceitado de um qualquer dia morrer, deixando a mulher debaixo de amparo? Ia não largar no mundo viúva para mãos de estranhos!
Daí, com o outro, o conversado, à mútua vontade, para pro­vidência. A esse, seguro por sangue e palavra, protetor, entregava então herdada a companheira, para quando a ocasião; tratou-se. Para ele poder morrer sem abalo... A mulher, entendendo, crer que anuía, tranquila calada. Disso ele tinha sabedoria. Em tanto que, às vezes, achava raiva. Agoniava-o o razoável. Direi­teza, ou erro? Isso ficava em questão.
Dera um gemido cavo. De rebate: se esticara para diante, o intento dos olhos se alargando, o corpo dançado. — “A que há, uma onça...” — começara. Repôs-se em equilíbrio nos calca­nhares. Recuava de pensar, em posição de ação.
O moço: — “Ah!” — no falso fio; vigiava por tudo, em seu entendimento.
Vagaravam.
Sem mal-entenderem-se.
Tardinho, na mata, o ar se some em preto, já da noite por vir.
Agitavam-se súbito os cães, até à choupana, à porta: abrira-a a mulher, com a comida. Mulher pequenina, sisuda. Não vol­tava o rosto. E pela dita causa.
O moço ia-se, fez menção. Conteve-o o velho: — “Mais logo...” — entre dentes dito.
Tornou a mulher a abrir a porta. Não olhava, não chamou. Mas ti­nha um prato do jantar em cada mão. O velho ergueu-se, foi buscar.
O moço comia, a gosto. O coitado, com afeto nenhum, nin­guém cuidando dele. Conhecera já a careta, o escarrar, os bi­godes — a massa da onça, a pancada! O que arde.
Por que não o castrara a fera monstra, em vez de escavacar-lhe as costas e rasgar banda da face, consumir barriga-da-perna, o acima-da-coxa, esses desperdícios? Se fosse, mais merecia, para aquilo — por resguardo e defendimento, respeitante, postiço, sem abusos...
E velhamente. Falava, lembranças, da meninice ainda do ou­tro, falando com a boca amargosa. Nem tinha fome. Os fatos não se emendavam.
Dava ânsia pensar — a coisa, encorpada. A mulher, mu­lherzinha nas noites. Aquele, rente, o outro, pescoço grosso, ma­cho gatarro, de onça, se em cio. Tinha vexame do que sendo para ser, do inventado.
Encarou-o: — “Vai.” Falou; foi a rouco. Em dó de sentir o que olhos não vão ver, preenchidos pela terra.
O moço tristemente, também, se entortando, aleijado. Voltava só a seu rancho. Cruzava caminho da outra, onça jagunça — a abertura em-pé do meio-do-olho, que no escuro vê — o pulo, as presas, a tigresia.
Mas, tinha no ombro o rifle! E o saber — pelo desassombrar, abarbar, com ela igualar-se à mão-tente — fugir o perigo. Ensinara-lhe, tudo, prevenira... o velho se levantava.
De supetão: — “Quer ficar?” Assim dizendo. — “Madrugada, a gente vai... mata...” — bufo por bufo.
De não, o outro respondeu, vago.
— “...andadora... onça grossa...” 
Não; o moço sacudiu-se.
O velho tocou-lhe no braço — “Te protege!” — disse, risse.
Depois, de novo, mestre, ia sentar-se na tora, num derrêio, por enfim; esfregava-se as pálpebras com as unhas dos dedos. As coisas, mesmas, por si, escolhem de suceder ou não, no prosseguir.
O moço se despedia, sem brusqueza. Só a saudação reverencial: — “Meu pai, a sua benção...” 
Tinham contas sem fim. Latiam os cães. Ia dar luar, o para cami­nhada, do homem e da onça, erradios, na mata do Gorutuba.

Guimarães Rosa, em Tutameia

28/03/2025

Mechéu

 

Esses tontos companheiros

que me fazem companhia…

Meio de moda.


Isto não é vida!…

É fase de metamorfose.

Do Entreespelho.


Muito chovendo e querendo os moços de fora qualquer espécie nova de recreio, puseram-lhe atenção: feito sob lente e luz espiassem o jogo de escamas de uma cobra, o arruivar das folhas da urtiga, o fim de asas de uma vespa. De enga­no em distância, aparecia-lhes exótico, excluso. Era o sujeito.

Tinha-se no caso de notar e troçar. Reapareceu, passou, pelo terreiro de frente da fazenda, atolava-se pelejando na lama lhôfa do curral. Mechéu, por nome Hermenegildo; explicou-o o fazendeiro Sãsfortes.

Semi-imbecil trabalhava, vivia, moscamurro, raivancudo, se­não de si não gostando de ninguém. Ante tudo enfuriava-se pron­to às mínimas e niglingas — rasgadela na roupa, esbarro involuntário ou nele fixarem olhar, pisar-lhe um porco o pé na hora da ração. Dava-se de não responsável de todo malfeito seu, desordem, descuido. Exigia para si o bom respeito das coisas.

Topou em toco, por exemplo, certa danada vez, quando leva­va aos camaradas na roça o almoço, desceu então o caixote da cabeça, feroz, de fera: para castigar o toco, voltou pela espingarda; já a comida é que mais não achou, que por bichos devorada! — e culpou de tudo a cozinheira. Sempre via o mal em carne e osso. Se quebrava xícara, atribuía-o à guilha da que coara o café; se do prato lavado em água fria não saía a gordura, incriminava o sangrador do suíno ou o salgador do toucinho; se o leite talhava, era por conta de quem buscara as vacas.

Melhor consigo mesmo se entendia, a meio de rangidos e resmungos. — Xiapo montão! — xingava, por diabo grande, gago, descompletado; proseava de ter uma só palavra. Entufava o aspecto, para tantas importâncias; feiancho, mais feio ficava. Opunha ao mundo as orelhas caramujas, comuns, olhos fundos — o esquerdo divergente. Com que, não era um ordinário rosto, fisionomia normal de homem, caricatura? De braços e peito peludos, fechada a barba: o que é ter a natureza na cara. Só se tardada errada em escopo. Seja que imperfeito alorpado.

Ainda abaixo dele, bobo, bem, meio idiota papudo era ou­tro, o que de alcunha o Gango; tolo tanto, que cheirava as coi­sas, mas nem sabia temer as cobras e os lagartos. Simiava-o esse, obediente mirava por modelo ao Mechéu, maramau, que o tra­tava de menor, sem estimação, exigia do Gango uma ideal excelência, forçando-o à lida, quisesse-o sacado pronto do ovo da estupidez.

Descalço — não suportava as botinas — punha Mechéu nos dias de serviço chapéu de palha; e de lebre, igual ao do Patrão, aos domingos, quando vestia roupa limpa, fazia a barba e saía a passear, a pé, ou, mau cavaleiro, a cavalo. Tinha o seu próprio, Supra-Vento, e arreios, jamais emprestados. Não ia à missa, não, nem bebia cachaça, jurava pelos venenos nas flores, repelia a longe os animais. Sentava-se, se o não viam, comendo às tripas insensatas. Superstição sua única era a de que não varressem ou lhe jogassem água nos pés, o que o impediria de casar. Irava-se, então entonces. Somente aceitava roupa feita para ele especial; modo algum, mesmo nova, a cosida para outro: referia os pelos do peito a ter usado camisa do Neca Velho, vizinho fazendeiro e também hirsuto, nunca porém vestira camisa do Neca. Mechéu, o firme. — Ele faz demais questão de continuar sendo sempre ele mesmo... — um dos moços observou.

Também de fora viera a menina, nenem, ooó, menininha de inéditos gestos, olhava para ela o Gango só a apreciar e bater cabeça. Mechéu pois disse: — Ele é meu parente não! — e a Menininha disse: — Você é bobo não, você é bom... — e mais a Meninazinha formosa então cantou: — Michéu, bambéu... Mi­chéu... bambéu... — pouquinho só, coisa de muita monta, ele se regalou, arredando dali o Gango, impante, fez fiau nele.

Sumo prazia-lhe ouvir debicarem alguém: que fulano fora à casa de baiano e a moça de lá não lhe abrira a porta; beltrano não ia à Vila à noite, por medo dos lobos; sicrano surrara peixa­no que sapecara terciano que sovara marrano, sucessos eis fa­ziam-no rir a pagar, não risada gargalhal, somenos chiada entre quentes dentes, vai vezes engasgava-se até, da ocasiãozada. Malvadezas contra outros o confortavam. A seguir, vigiava, suspeitoso de que sobre ele mesmo também viessem. Mais o exas­perava chamarem-lhe Tatú, apodo herdado do pai.

Tomava-se por infalível nôivo de toda e qualquer derradeira sacudida moça vista, marcava coió o casamento, que em do­min­go fatal sem falta: — Bimingo um... bimingo dois... bimingo três! — dedo e dedo contava. Assaz queria viver mais, e depois dos ou­tros, fora de morte, ficar para semente. Apare­ciam-lhe os cabe­los brancos, e renegava seus fossem, sim de um cavalo ruço do Patrão, por nome Vapor. De si mesmo, de nada nanja duvidava.

Lento o tempo, Mechéu descascava e debulhava milhos no paiol, fazia o Gango fazer. Ele agora estava irado com a chuva, e com o Patrão, que nela não dava jeito. Mas acatava ordens: quando lhe mandaram que viesse, veio. — Louvem-no — e reprovem alguém, outro — que ele de gozo empofa... — ensinou Sãsfortes, fazendeiro.

Mechéu marchava com desajeito, bamba bailava-lhe a perna direita, puxada pela esquerda. Soturno sáfio ante aqueles parou, turvava-se seu ar de desconfiança, inveja, queixa. — Será já em si o “eu” uma contradição? — sob susto e espanto um dos de fora proferiu. Mas, pensavam consigo mesmos, não para o Me­chéu — ilota e especulário. Deixaram-no de lado.

Tardiamente apenas se soube o que a seu respeito valesse; depois, anos.

Mechéu assim, a vida vira assim... — conta a fazendeira, Dona Joaquina, inesquecível, branquinhos os cabelos, azúis o­lhos bondosos.

Tudo o comum, copiado; do borrão do viver.

No que houve que o Gango morreu, chifrado de vaca.

Enquanto entanto o corpo estando presente, Mechéu nem fez caso, ele não tinha pelo Gango nenhum encarecimento, nunca o deixava botar mão no que de seu, nem entrar no cômodo em que assistia, debaixo da casa. Vez ou vez, mandasse o Gango cantarolar, para as escutar, simplórias parlendas, o canto sen­do dele o nome Mechéu mesmo, em falsete, o Gango tal afinado papagaio.

Mas, enterrado aquele, Mechéu aos tentos se estramontou, se cuspindo, se sumia, o boi em transtorno, desacertado do trabalho. — Está andando meio exercitado por aí, não se vê o que ele quer... — vinham dizer, pareceu que descabisbaixo indo obrar o demo em dobro.

Só da patroa Dona Joaquina se aproximou, de vira vez, perguntou ou afirmou: — A menininha não morre, não, nunca! De dó, a Senhora confirmou: — Nunca! — não sabia que menina. De saudade ou falta do Gango, ele houve pingos nos olhos, inqui­riu: — Nem eu!? Rezingava, pois assim, gueta, pataratices, mais frases: sobre os passarinhos, bem apresentados, o sol nas roças, o Supra-Vento, cavalo, ao qual por prima vez agradecesse.

Mas mesmo enfermou, daí, pessoalmente, de novembro para diante, repuxado e esmorecido, se esforçava com um tremor, sua pesadume remédios não paliavam. Ora fim que enfim se fechou no escuro cômodo, por mais de um dia, surgindo no seguinte aceitou o caneco com chá amargo, restava guedelhudado, rebarbado, os olhos mais cavos, demudado das feições.

Decerto não aguentava o que lhe vinha para pensar, nem vencia achar o de que precisava, só sacudia as pálpebras, com tantas rotações no pescoço: gesticulava para nenhum interlocutor; rodou, rodou, no mesmo lugar, passava as mãos nas árvores.

Muito devagar, sempre com cheio o caneco seguro direiti­nho, veio para junto do paredão do bicame, lá sozinho ficou pa­rado um tempo, até ao entardecer. Estava bem diferente, etc., es­perando um tudo diferente.

Não falemos mais dele.

Guimarães Rosa, em Tutameia

19/03/2025

Reminisção

 

Vai-se falar da vida de um homem; de cuja mor­te, portanto. Romão — esposo de Nhemaria, mais propria­men­te a Drá, dita também a Pintaxa — ímpar o par, uma e outro de extraordem. Escolheram-se, no Cunhãberá, destinado lugar, onde o mal universal cochila e dá o céu um azul do qual emergir a Virgem. Sua história recordada foi longa: de tigela e meia, a peso de horror. O fundo, todavia, de consolo. Esse é um amor que tem assunto. Mas o assunto enriquecido — como do ama­relo extraem-se ideias sem matéria. São casos de caipira.

Foi desde. Parece até que iam odiar-se, moço e moça, no então. Divulgue-se a Drá: cor de folha seca escura, estafermiça, abe­xigada, feia feito fritura queimada, ximbé-ximbeva; primei­ro sinis­ga de magra, depois gorda de odre, sempre própria a fi­gura do feio fora-da-lei. Medonha e má; não enganava pela cara. Olhar muito para uma ponta de faca, faz mal. Dizia-se: — “Indicada.”

Romão, hem, gostou dela, audaz descobridor. Pois — por querer também os avessos, conforme quem aceita e não confere? Inexplica-o a natureza, em seus efeitos e visíveis objetos; ou como o principal de qualquer pergunta nela quase nunca se contém. Romão, meão, condiçoado, normalote, pudesse achar negócio melhor. Mas ele tinha em si uma certa matemática. E há os súbitos, encobertos acontecimentos, dentro da gente.

De namoro e noivado, soube-se pouco. Também da sem-gra­ça cerimônia ou maneira, de que se casaram, padrinhos Iô Evo e Iá Ó e quiçá os de Romão e Drá anjos entes. Àquilo o povo assistiu com condolência? Tais vezes, a gente ao alheio se acomoda — preto no branco, café na xícara. Cunhãberá via-os não via, sem pensar em poder entender: anotava-os.

Mas o casal morou na Rua-dos-Altos, onde o Romão estava bom sapateiro. Para fora, deviam de ser moderados habitantes. Era um silêncio quase calado. Comparem-se: o vagalume, sua lu­zinha química; fatos misteriosos — a garça e o ninho por ela feito. Iam, consortes, para os anos que tendo de passar.

Se como o nem faro e cão — mas num estado de não e sim, rodavam tantas voltas — juntos, pois. A Drá contra a ocasião de querer-bem se tapava, cobreando pelos cabelos, nas mãos um pe­daço de pedra. Ela não perdoava a Deus. — “Padece o que é...” — deduzia Iá Ó. Da dor de feiura, de partir espelho. Iô Evo dis­se: que tomava culpa, de ter testemunhado.

Romão, hem, se botava de nada? Não o deixava ela, enxeren­te, trabalhar nem lazer; ralhava a brados surdos; afugentou os de sua amizade. Romão amava. Decerto ela também, se sabe hoje, segundo a luz de todos e as sombras individuais. O estudo do mundo.

Todo o tempo o atanazava, demais de cenhosa, caveirosa, dele, aquela mulher mandibular. Vês tu, ou vê você? Romão punha-lhe devoção, com pelejos de poeta, ou coisa ou outra, um gostar sentido e aprendido, preciso, sincero como o alecrim.

Tinhava-se, a Drá. Seus filhos não quiseram nascer. Romão imutava-se coitado. Disso ninguém dava razão: o atamento, o fusco de sua tanta cegueira? Sapateiro sempre sabe. Ou num fun­do guardasse memória pré-antiquíssima. Tudo vem a outro tempo.

Então, quando deles no diário ninguém mais se espantava, de vez, houve. Sortiu-se a Drá, o diabo às artes, égua aluada, e com formigas no umbigo. Em malefaturas, se perdeu, por outro, homem vindiço, mais moço. O povo, vendo, condenava-a; de pena do Romão — a tragar borras. Ele, não, a quem o caso de mais perto tocava. E a Iô Evo disse: que bom era ela crer, que valia, que dela gostavam... Romão olhava em ponto, pisava curto, tinham receio de sua responsabilidade.

Nem o moço de fora a quis mais. Desrazoável, mesmo assim, a Drá de casa se sumiu, com seus dentes de morder. Romão esperou, sem prazo. Se esforçava, nesse eixar-se, trincafiava, batia sola. Seguro que, por meio de Iá Ó, pediu que ela tornasse.

Drá voltou, empeçonhada, trombuda, feia como os trovões da montanha. Romão respeitava-a, sem ralar-se nem mazelar-se, trocando pesares por prazeres, fazendo-lhe muita fidelidade. Fez-lhe muita festa. De por aí, embora, seresma ela se aquietou, em desleixo e relaxo. Nem fazia nada, de cabeça que dói. Só em­pestava. Vivia e gemia — paralelamente. Chamou-a então Pintaxa o bufo do povo.

Foi, e teve ela uma grande doença, real, de que escapou pelo Romão, com seus carinhos e tratos. Sarou e engordou, deses­tragadamente, saco de carnes e banhas, caindo-lhe os cabelos da cabeça, nos beiços criado grosso buço, de quase barba. Era bem a Pintaxa, a esta só consideração. Cunhãberá jurou-a por castigada. Romão queria vê-la chupar laranjas, trivial, e se enfeitar sem ira nem desgosto. Ele envelhecia também. Os dois, à tarde, passeavam. Quem espera, está vivendo.

Depois, ele se enfermou, à-toa, de mal de não matar. A Drá alvoroçou o lugar. Ela chorava, adolorada: teve, de de em si, notícia, das que não se dão. Pedia socorro.

O povo e o padre no quarto, o Romão onde se prostrava, decente, chocho, em afogo, na cama. Ele estava tão cansado; buscava a Drá com os olhos. Que quis falar, quis, pôde é que foi não. Iá Ó passava um lenço, limpava-lhe a cara, a boca. Iô Evo mandou-o ter coragem, somente.

Dando-se, no Cunhãberá, o fato, de inaudimento.

Romão por derradeiro se soergueu, olhou e viu e sorriu, o sorriso mais verossímil. Os outros, otusos, imaginânimes, com olhos emprestados viam também, pedacinho de instante: o esbo­çoso, vislumbrança ou transparecência, o aflato! Da Drá, num estalar de claridade, nela se assumia toda a luminosidade, alva, belíssima, futuramente... o rosto de Nhemaria.

Romão dormido caiu, digo, hem, inteiro como um triângulo, rompido das amarras. Ele era a morte rodeada de ilhas por todos os lados. Mentiu que morreu. Deu tudo por tudo.

A Drá esperançada se abraçou com o quente cadáver, se afinava, chorando pela vida inteira. Todo fim é exato. Só ficaram as flores.

Guimarães Rosa, em Tutameia

24/02/2025

João Porém, o criador de perus


Se procuro, estou achando.
Se acho, ainda estou procurando?
Do Quatrêvo.

Agora o caso não cabendo em nossa cabeça. O pai teimava que ele não fosse João, nem não. A mãe, sim. Daí o engano e nome, no assento de batismo. Indistinguível disso, ele viçara, sensato, vesgo, não feio, algo gago, saudoso, semi-surdo; moço. Pai e mãe passaram, pondo-o sozinho. A aventura é obrigatória. Deixavam ao Porém o terreno e, ainda mais, um peru pastor e três ou duas suas peruas.
E tanto; aquilo tudo e egiptos. Desprendado quanto ao resto, João Porém votou-se às aves — vocação e meio de ganho. De dele rir-se? A de criar perus, os peruzinhos mofinos, foi sempre matéria atribulativa, que malpaga, às poucas estimas.
Não para o João. Qual o homem e tal a tarefa: congruíam-se, como um tom de vida, com riqueza de fundo e deveres muito recortados. Avante, até, próspero. Tomara a gosto. O pão é que faz o cada dia.
Já o invejavam os do lugar — o céu aberto ao público — aldeiazinha indiscreta, mal saída da paisagem. Ali qualquer certeza seria imprudência. Vexavam-no a vender o pequeno terreiro, próprio aos perus vingados gordos. Porém tardava-os, com a indecisão falsa do zarolho e o pigarro inconcusso da prudência. Tornaram; e Porém punha convicção no tossir, prático de economias quiméricas, tomadas as coisas em seu meio.
Desistiram então de insistir, ou de esperar que, mais-menos dia, surgida alguma peste, ele desse para trás. Mas lesavam-no, medianeiros, no negócio dos perus, produzidos já aos bandos; abusavam de seu horror a qualquer espécie de surpresas. Porém perseverava, considerando o tempo e a arte, tão clara e constantemente o sol não cai do céu. No fundo, coqueirais. Mas inventaram, a despautação, de espevitar o espírito.
Incutiram-lhe, notícia oral: que, de além-cercanias, em desfechada distância, uma ignorada moça gostava dele. A qual sacudida e vistosa — olhos azuis, liso o cabelo — Lindalice, no fino chamar-se. João Porém ouviu, de sus brusco, firmes vezes; miúdo meditou. Precisava daquilo, para sua saudade sem saber de quê, causa para ternura intacta. Amara-a por fé — diziam, lá eles. Ou o que mais, porque amar não é verbo; é luz lembrada. Se assim com aquela como o tivessem cerrado noutro ar, espaço, ponto. Sonha-se é rabiscos. Segredou seu nome à memória, acima de mil perus, extremadamente.
Embora de lá não quisesse sair, em busca, deixando o que de lei, o remédio de vida. — Não ia ver o amor? — instavam-no, de graça e com cobiça. Arrendar-lhe-iam o sítio, arranjavam-lhe cavalo e viático... Se bem pensou, melhor adiou: aficado, com recopiada paciência, de entre os perus, como um tutor de órfãos. Sustentava-se nisso, sem mecanismos no conformar-se, feito uma porção de não-relógios. A moça, o amor? A esperança, talvez, sempre cabedora. A vida é nunca e onde.
E vem que o tiveram de louvar — sob pressão de desenvolvimento histórico: um, dos de caminhão, da cidade, fechara com o Porém dos perus tráfico ajuste perfeito; e a bela vez é quando a fortuna ajuda os fracos.
Nem se dava disso, inepto exato, cuidando e ganhando, só em acrescentamentos, homem efetivo, já admirado, tido na conta de ouro. Pasmavam, os outros. Pudera crer na inventada moça, tendo-a a peito? Ágil, atentivo, sempre queria antigas novidades dela.
De dó ou cansaço, ou por medo de absurdos, acharam já de retroceder, desdizendo-a. Porém prestou-lhe a metade surda de seus ouvidos. Sabia ter conta e juízo, no furtivar-se; e, o que não quer ver, é o melhor lince. Aceitara-a, indestruía-a. Requieto, contudo, na quietude, na inquietude. O contrário da ideia-fixa não é a ideia solta.
— “Aconteceu que a moça morreu...” — arrependidos tiveram então de propor-lhe, ajuntados para o dissuadir, quase com proas. Porém gaguejou bem — o pensamento para ele mesmo de difícil tradução: — Esta não é a minha vez de viver... — quem sabe. Maior entortou o olhar, sinceramente evasivo, enquanto coléricos perus sacudiam grugulejos. Tanto acreditara? Segurava-se à falecida — pré-anteperdida. E fechou-se-lhe a estrada em círculo.
Porém, sem se impedir com isso, fiel à forte estreiteza, não desandava. Infelicidade é questão de prefixo. Manejava a tristeza animal, provisória e perturbável. Se falava, era com seus perus, e que viver é um rasgar-se e remendar-se. Era só um homem debaixo de um coqueiro.
Vem que viam que ele não a esquecia, viúvo como o vento. Andava o rumo da vida e suas aumentadas substituições. Ela não estava para trás de suas costas. Porém, Lindalice, ele a persentia. Tratava centena de peruzinhos em gaiolas, e outros tantos soltos, já com os pescoços vermelhos.
Bem que bem — e porque houvesse justo o coincidir fortuito — moveram de o fazer avistar-se com uma mocinha, de lá, também olhos azuis, lisos cabelos, bonita e esperta, igual à outra, a urdida e consumida. Talvez desse certo. Pois, por sombras! Porém aqui suspendeu suma a cabeça, só zarolhaz, guapamente — vez tudo, vez nada — a mais não ver.
Deixaram-no, portanto, dado às aranhas dos dias, anos, mundo passável, tempo sem assunto. E Porém morreu; nem estudou a quem largar o terreno e a criação. Assustou-os.
Tinham de o rever inteiro, do curso ordinário da vida, em todas as partes da figura — do dobrado ao singelo. João Porém, ramerrameiro, dia-a-diário — seu nariz sem ponta, o necessário siso, a força dos olhos caolhos — imóvel apaixonado: como a água, incolormente obediente.
Ele fora ali a mente mestra. Mas, com ele não aprendiam, nada. Ainda repetiam só: — “Porém! Porém...” Os perus, também.

Guimarães Rosa, em Tutameia

17/12/2024

Glosação em apostilas ao hipotrélico


Epígrafe

Irreplegível — Este vocábulo se encontra em Bernardes, Nova Floresta, IV, 348, como tradução dum lat. irreplegibile, usado por Tomás Morus numa contenda com um pretensioso na corte de Carlos V, conforme conta o padre Jeremias Drexelio no seu Faetonte. Parece tratar-se de uma palavra hipotética, adrede inventada por Morus para pôr em apuros o contendor. Maximiano Lemos, Enciclopédia Portuguesa, Ilustrada, e Cândido de Figueiredo filiam ao lat. in e replere, encher, e dão ao vocábulo o sentido de insaciável, cuja impossibilidade Horácio Scrosoppi provou em suas Cartas Anepígrafas, págs. 73-80.”
Antenor Nascentes. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.

§ 1
Evidentemente os glossemas imprizido, sengraçante e antipodático não têm nem merecem ter sentido; são vacas mansas, aqui vindo só de propósito para não valer.

§ 2
À neologia, emprego de palavras novas, chamava Cícero “verborum insolentia”. Originariamente, insolentia designaria apenas: singularidade, coisa ou atitude desacostumada, insólita; mas, como a novidade sempre agride, daí sua evolução semântica, para: arrogância, atrevimento, atitude desaforada, petulância grosseira.

§ 3
Também ocorre a neologia nos psicopatas, nos delirantes crônicos principalmente. Dois exemplos recordo, de meus tempos médicos:
— “Estou estramonizada!” — queixava-se uma doente, de lhe aplicarem medicação excessiva.
— “Enxergo umas pirilâmpsias...” — dizia outro, de suas alucinações visuais.

§ 4
A maior glória desse (Félicien de) Champsaur, ficcionista que se extinguiu com pouco barulho, consiste, se não nos enganamos, em haver criado o vocábulo ‘arriviste’, que nós outros transportamos ao português ‘arrivista’, não sem escândalo das vestais do idioma.”
Agrippino Grieco. Amigos e Inimigos do Brasil.

§ 5
Houve também um tempo do galicismo. Dele é que nos vêm os termos “galicista”, “galicíparla”, “galiparla” e “galiparlista”... Nessa era, jacto (jato) significava apenas “arremesso, impulso, saída impetuosa de um líquido”. Alguém fez “ludopédio” contra o anglicismo futebol e o Dr. Estácio de Lima propôs um “anhydropodotheca” para substituir galocha.

§ 7
Por falar: duas esplêndidas criações da gíria popular merecem, s.m.j., imediata dicionarização e incorporação à linguagem culta: gamado (gamar, gamação etc.) e aloprado.

§ 8
Edmundo Barbosa da Silva. Embaixador, sertanejo, oxoniano e curvelano, da beira do Bicudo; e gentleman farmer, gentilhomme campagnard, gentil-homem principalmente. Dono da Fazenda-da-Pedra, entre São Fidélis e Campos.

§ 9
Informação do Dr. Camilo Ermelindo da Silva, que, aliás, quando passávamos por Dourados, vindo da fronteira com o Paraguai, deu-nos um dos almoços mais lautos e lúcidos de nossa lembrança.

Pós-escrito:

Confira-se o de Quintiliano, sobre as palavras:
Usitatis tutius utimur, nova non sine quodam periculo fingimus. Nam si recepta sunt, modicum laudem adferunt orationi, repudiata etiam in iocos exeunt. Audendum tamen; namque, ut Cicero ait, etiam quae primo dura visa sunt, usu molliuntur.”
(“O mais seguro é usar as usadas, não sem um certo perigo cunham-se novas. Porque, aceitas, pouco louvor ao estilo acrescentam, e, rejeitadas, dão em farsa. Ousemos, contudo; pois, como Cícero diz, mesmo aquelas que a princípio parecem duras, vão com o uso amolecendo.”)

Guimarães Rosa, em Tutameia

04/12/2024

Prefácio | Hipotrélico


Hei que ele é.
Do Irreplegível.

Há o hipotrélico. O termo é novo, de impesquisada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou, talvez, vice-dito: indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.
Somos todos, neste ponto, um tento ou cento hipotrélicos? Salvo o excepto, um neologismo contunde, confunde, quase ofende. Perspica-nos a inércia que soneja em cada canto do espírito, e que se refestela com os bons hábitos estadados. Se é que um não se assuste: saia todo-o-mundo a empinar vocábulos seus, e aonde é que se vai dar com a língua tida e herdada? Assenta-nos bem à modéstia achar que o novo não valerá o velho; ajusta-se à melhor prudência relegar o progresso no passado.
Sobre o que, aliás, previu-se um bem decretado conceito: o de que só o povo tem o direito de se manifestar, neste público particular. Isto nos aquieta. A gente pensa em democráticas assembleias, comitês, comícios, para a vivíssima ação de desenvolver o idioma; senão que o inconsciente coletivo ou o Espírito Santo se exerçam a ditar a vários populares, a um tempo, as sábias, válidas inspirações. Haja para. Diz-se-nos também, é certo, que tudo não passa de um engano de arte, leigo e tredo: que quem inventa palavras é sempre um indivíduo, elas, como as criaturas, costumando ter um pai só; e que a comunidade contribui apenas dando-lhes ou fechando-lhes a circulação. Não importa. Na fecundidade do araque apura-se vantajosa singeleza, e a sensatez da inocência supera as excelências do estudo. Pelo que, terá de ser agreste ou inculto o neologista, e ainda melhor se analfabeto for.
Seja que, no sem-tempo quotidiano, não nos lembremos das e muitíssimas que foram fabricadas com intenção — ao modo como Cícero fez qualidade (“qualitas”), Comte altruísmo, Stendhal egotismo, Guyau amoral, Bentham internacional, Turguêniev niilista, Fracástor sífilis, Paracelso gnomo, Voltaire embaixatriz (“ambassadrice”), Van Helmont gás, Coelho Neto paredro, Ruy Barbosa egolatria, Alfredo Taunay necrotério; e mais e mais e mais, sem desdobrar memória. Palavras em serviço efetivo, já hoje viradas naturais, com o fácil e jeito e unto de espontâneas, conforme o longo uso as sovou.
De acordo, concedemos. Mas, sob cláusula: a de que o termo engenhado venha tapar um vazio. Nem foi menos assim que o dr. Castro Lopes, a fim de banir galicismos, e embora se saindo com processo direto e didático, deixadas fora de conta quaisquer sutilezas psicológicas ou estéticas, conseguiu pôr em praça pelo menos estes, como ele mesmo dizia, “produtos da indústria nacional filológica”: cardápio, convescote, preconício, necrópole, ancenúbio, nasóculos, lucivéu e lucivelo, fádico, protofonia, vesperal, posturar, postrídio, postar (no correio) e mamila. E, donde: palavra nova, só se satisfizer uma precisão, constatada, incontestada.
Verdade é que outros também nos objetam que esta maneira de ver reafirma apenas o estado larval em que ainda nos rojamos, neste pragmático mundo da necessidade, em que o objetivo prevale o subjetivo, tudo obedece ao terra-a-terra das relações positivas, e, pois, as coisas pesam mais do que as pessoas. Por especiosa, porém, rejeitamos a argumentação. Viver é encargo de pouco proveito e muito desempenho, não nos dando por ora lazer para nos ocuparmos em aumentar a riqueza, a beleza, a expressividade da língua. Nem nos faz falta capturar verbalmente a cinematografia divididíssima dos fatos ou traduzir aos milésimos os movimentos da alma e do espírito. A coisa pode ir indo assim mesmo à grossa.
E fique à conta dos tunantes da gíria e dos rústicos da roça — que palavrizam autônomos, seja por rigor de mostrar a vivo a vida, inobstante o escasso pecúlio lexical de que dispõem, seja por gosto ou capricho de transmitirem com obscuridade coerente suas próprias e obscuras intuições. São seres sem congruência, pedestres ainda na lógica e nus de normas. Veja-se o que diz Gustavo Barroso, no “Terra de Sol”: “‘Subdorada’ era o adjetivo que lhes exprimia a admiração. Não sei onde o foram encontrar. No sertão há dessas expressões; nascem ninguém sabe como; vivem eternamente ou desaparecem um dia sem também se saber como.” Confere. Pode-se lá, porém, permitir que a palavra nasça do amor da gente, assim, de broto e jorro: aí a fonte, o miriquilho, o olho-d’água; ou como uma borboleta sai do bolso da paisagem?
Do que tal se infere serem os neologismos de um sertanejo desses, do Ceará ou de Minas Gerais, coisas de desadoro, imanejáveis, senão perigosas para as santas convenções. Se nem ao menos tão longe, mas por aqui, no Estado do Rio, nosso amigo Edmundo se surpreendeu com a resposta, desbarbadamente hermética, de um de seus meeiros, a quem perguntara como ia o milho: — “Vai de minerol infante.” — “Como é?” — “Está cobrindo os tocos...” O que já pode parecer excessiva força de ideias.
Dito seja, a demais, que o vezo de criar novas palavras invade muitas vezes o criador, como imperial mania. Um desses poetas, por exemplo, de inabafável vocação para contraventor do vernáculo, foi o fazendeiro Chico de Matos, de Dourados; coitado, morreu de epitelioma. Duas das suas se fizeram, na região: intujuspéctico, que quase por si se define — com o sentido de pretensioso impostor e enjoado soturno; e incorubirúbil, que onomatopeicamente pode parecer o gruziar de um peru ou o propagar-se de golpes com que se sacoleja a face límpida de uma água, mas que designa apenas quem é “cheio de dedos”, “cheio de maçada”, “cheio de voltas”, “cheio de nós pelas costas”, muito susceptível e pontilhoso. Não são de não se catalogar?
Já outro, contudo, respeitável, é o caso — enfim — de “hipotrélico”, motivo e base desta fábula diversa, e que vem do bom português. O bom português, homem-de-bem e muitíssimo inteligente, mas que, quando ou quando, neologizava, segundo suas necessidades íntimas.
Ora, pois, numa roda, dizia ele, de algum sicrano, terceiro, ausente:
E ele é muito hiputrélico...
Ao que, o indesejável maçante, não se contendo, emitiu o veto:
Olhe, meu amigo, essa palavra não existe.
Parou o bom português, a olhá-lo, seu tanto perplexo:
Como?!... Ora... Pois se eu a estou a dizer?
É. Mas não existe.
Aí, o bom português, ainda meio enfigadado, mas no tom já feliz de descoberta, e apontando para o outro, peremptório:
O senhor também é hiputrélico...
E ficou havendo.

Guimarães Rosa, em Tutameia

26/11/2024

Estoriinha


Senão quando o vapor apitou e se avistou subindo o rio, aportava da Bahia cheio de pessoas.
Mearim viu-a e viu que de bem desde a adivinhara, estava para cada hora, por fatalidade de certeza. Sempre de qualquer escuro ou confuso ela se aproximava, apontada. Ele não estremeceu, provado para o silêncio e engasgo. Se entregava a afinal — ao de Deus a acontecer.
Dez passos, de lado, vigiava o Rijino também o vapor chegar, como os bichos olham o fogo. Rijino inteirado se quadrava, escondendo essas mãos de costas peludas. Mearim abaixou o rosto, com as ideias e culpas. Se dava de cansado, no impossível de se ser ciente das próprias ações.
Mesma, passageira, ela, alta, saia pintada, irrevogável, bonita como uma jiboia, os cabelos cor de égua preta.
Foi ver, foi visto. Não adiantava ter-se soltado, deciso deixando-a, não podia fugir para os fins da terra. Lá fez ela aceno, linda a mão de paixão ou ameaça, porquanto o vapor zoava, as fumaças se desenfeixando. Mearim não a abarcava — da memória, que é o que sem arrumo há, das muitas partes da alma — a cada sete batidas um coração discorda. Saudosa, por cheiro, tato, sabor, a voz às vezes branda, cochicho que na orelha dele virava cócegas, no fúrio aconchego. De repente, à má bruxa, a risada. O remorso tira essas roupagens. A gente tem de existir — por corpo, real, continuado — condenado. Ela chupava-lhe a respiração das ventas.
Ao Rijino, ele bem que citara avisos, quando retornando: — “Aqui, convém eu não ficar, o Sãofrancisco todo é alertamente...” — temia ela viesse, pleiteava vasto socorro. Rijino duro remordia, os dentes apertava, para nem no instante se envergonhar, o queixo afirmado; nem a gente tem poder de se afinar nas fei­ções. — “Não pense na fulana...” só para a obediência. Rijino não dava conselhos, situado positivo.
Atual ali entanto ela estava, o vapor a entrar, recebido, por meio de zoeira, novidade, grita, deduzido dos extremos do Juazeiro. Seguro o Rijino pontual soubesse que um dia ela aparecia, havia de vir, com isso ele contava, que a desunião faz as enormes forças. Ela era a de não se desvanecer. Tudo — total, o balanço dos anos — tem horas se percebe, ligeiro demais, lumiado se concebe. Que era que o Rijino propositava? Ela se pertencia.
Mearim direto a ele, mano mais velho, viera, devido o que havido, depois, cheio de duvidar, doente de despojo. Mas no espaço das Três-Marias o Rijino mais contudo não laborava — de uns e outros ouviu; e, a ele mesmo, o reprovaram, lá, informadamente. Se mudara, o enganado Rijino, sempre por aí — em rumo que Mearim tomou — o rio, escorreito.
Topou-o no porto. Subido da surpresa, frente a ele se propôs, faltoso e irmão, cara à cara: — “Me mate. Errei, enxerguei, me puni. Seja pelo leal, que não fui...” — e esperou o novo. Sem em-de sentenciar, o Rijino fechou as mãos, em par, socava o ar, feito o boneco tãomente. Declarou, custoso: — “Nossa mãe essas mais lágrimas não houvera de carpir...” Se encostou, sinaladamente envelhecera, o mais velho. Mas não estava amotinado. Antes, tivera sabendas de que Mearim contrito a largara. Definiu: — “Tu tivesses flagelos...”
Sincero com afeto, quis que Mearim ali em Maria-da-Cruz parasse, onde em fatos ganhava, com caber para companheiro. Deu a ele cama e lugar em mesa, na casa. Lhe cedia revólver ou rifle: conforme que ninguém prospera sem inimigos achados. Mearim entendia. Mas, o que reteve, sentiu, ainda não pedindo perdão. Rijino imaginava em alguém ausente — escarrava. Outramaneira por dentro devia de curtir resumos, de tanta espécie. Dela, de Elpídia, mais nunca nada referia, tirante o de abafo. Ia, a cada vez, exato, ficava vendo vapores. Todo o mundo — rio-abaixo, rio-acima — acaba algum dia passando por estes cais.
Mearim ia, tal, também, com pena, espiava o ar aberto, ora com nojos de tão fácil se arrepender, desmentia os pensamentos.
O vapor manobrava em o se encostar, ela outro instante desaparecia. Mulher de atentada vontade. Rijino a trouxera e esposara, brejeira do Verde-Grande, quebradora de empecilhos. Do Rijino não gostou — nem os anjos-da-guarda.
Dele, Mearim, sim, querido, marcado, convivido. Entre o que, moço, ele sentia, sem saber olhar: só menção de responder, amor a futura vista. Ela fez que feliz oprimido a levasse; saídos escondidos, levara-o, para parar em Paulo-Afonso. Meses que passar, o quanto, despropósitos de vida. Essa ação de estar, ele acaba calcado não aguentara: o susto, uns medos, em madrugada, desgostosura, à voz de reprova, neste mundo tão sujeito.
Sem hoje nem onde, então ele se escapara, para qualquer comarca. Antes carecesse de concórdia, outras pausas, a natureza dele sendo mais quieta. Do que agora mudava. Dela tendo saudades, certas. Somente assim — sozinha e triste imaginada, sempre não enxergada, sua formosura em vai-vem, a jovem dormida nas florestas.
Ela, vem, que decidida, desastrada. E era o que o Rijino pelo jeito aprovava. Movendo drede para isso que ele Mearim ali em Maria-da-Cruz ficasse, para chamar atraído aquele açoite de amor. Rijino o ponto arrumara, não temendo o que fero se gera — na separação das pessoas. Mearim desentendia, returbado. Estimava, por dó ou grato expor, Rijino, que dele com agarrada e estúrdia afeição cuidava, como um pai, aborrecido, odioso. Mesmo a ela Rijino decerto notícias enviara, a fim de que viesse, e dinheiro! Há o fechado e o aberto. Havia.
A hora era cedo. O povo, influído, mais se ajuntava. Esses vapores aqui chegavam corretos no horário. Aí estavam desembarcando.
Ela, direita — uns meninos carregando o baú e trouxas. Só via a ele, Mearim, receava nada, os brincos balançando, tocando-lhe as faces, vinha com a felicidade. Ele no tolhimento; acolá o Rijino; o silêncio triplicado. Aquele perfume chegava ao sangue da gente. O Rijino deu passo.
Rijino em chofre segurara-a por um braço. — “Tu!” — demo, doloroso. — “Tu, não!” — ela renitiu, os dois em enrolamento, curto esforço. Ela puxara por um punhal, no mesmo lance, revirava-o, isso, o chiar de água em brasas. Rijino, pafo, caído, uma toda vez, findado. Só ela e o irremediado intervalo. Seja como se outra, destorcido o rosto, claro, à lástima arregalada, espiava para o alto e para o chão, por tudo o completo cansaço.
Ela estava ajoelhada.
Mearim, seus olhos se abriram muito, então, brilhados, tanto destapavam. Com que aí chegava povo, o excesso, as justiças e os soldados.
Mearim se levantou, de ajoelhado também, o sangue respingara-o. Seu coração entendeu. Iria, desde que enterrado o morto, à Lapa do Santuário do Santo-Senhor-Bom-Jesus, por um perdão, pela dor de todos. Depois, a vida dele era só aquela mulher, e mais, sofrida tida e achada, livre ou entre grades, mas que lhe pertencia, em reprofundo, mediante amor.

Guimarães Rosa, em Tutameia