Guimarães Rosa, em Tutameia
18/05/2025
Se eu seria personagem
01/05/2025
Ripuária
Guimarães Rosa, em Tutameia
07/04/2025
No prosseguir
Guimarães Rosa, em Tutameia
28/03/2025
Mechéu
Esses tontos companheiros
que me fazem companhia…
Meio de moda.
— Isto não é vida!…
— É fase de metamorfose.
Do Entreespelho.
Muito chovendo e querendo os moços de fora qualquer espécie nova de recreio, puseram-lhe atenção: feito sob lente e luz espiassem o jogo de escamas de uma cobra, o arruivar das folhas da urtiga, o fim de asas de uma vespa. De engano em distância, aparecia-lhes exótico, excluso. Era o sujeito.
Tinha-se no caso de notar e troçar. Reapareceu, passou, pelo terreiro de frente da fazenda, atolava-se pelejando na lama lhôfa do curral. Mechéu, por nome Hermenegildo; explicou-o o fazendeiro Sãsfortes.
Semi-imbecil trabalhava, vivia, moscamurro, raivancudo, senão de si não gostando de ninguém. Ante tudo enfuriava-se pronto às mínimas e niglingas — rasgadela na roupa, esbarro involuntário ou nele fixarem olhar, pisar-lhe um porco o pé na hora da ração. Dava-se de não responsável de todo malfeito seu, desordem, descuido. Exigia para si o bom respeito das coisas.
Topou em toco, por exemplo, certa danada vez, quando levava aos camaradas na roça o almoço, desceu então o caixote da cabeça, feroz, de fera: para castigar o toco, voltou pela espingarda; já a comida é que mais não achou, que por bichos devorada! — e culpou de tudo a cozinheira. Sempre via o mal em carne e osso. Se quebrava xícara, atribuía-o à guilha da que coara o café; se do prato lavado em água fria não saía a gordura, incriminava o sangrador do suíno ou o salgador do toucinho; se o leite talhava, era por conta de quem buscara as vacas.
Melhor consigo mesmo se entendia, a meio de rangidos e resmungos. — Xiapo montão! — xingava, por diabo grande, gago, descompletado; proseava de ter uma só palavra. Entufava o aspecto, para tantas importâncias; feiancho, mais feio ficava. Opunha ao mundo as orelhas caramujas, comuns, olhos fundos — o esquerdo divergente. Com que, não era um ordinário rosto, fisionomia normal de homem, caricatura? De braços e peito peludos, fechada a barba: o que é ter a natureza na cara. Só se tardada errada em escopo. Seja que imperfeito alorpado.
Ainda abaixo dele, bobo, bem, meio idiota papudo era outro, o que de alcunha o Gango; tolo tanto, que cheirava as coisas, mas nem sabia temer as cobras e os lagartos. Simiava-o esse, obediente mirava por modelo ao Mechéu, maramau, que o tratava de menor, sem estimação, exigia do Gango uma ideal excelência, forçando-o à lida, quisesse-o sacado pronto do ovo da estupidez.
Descalço — não suportava as botinas — punha Mechéu nos dias de serviço chapéu de palha; e de lebre, igual ao do Patrão, aos domingos, quando vestia roupa limpa, fazia a barba e saía a passear, a pé, ou, mau cavaleiro, a cavalo. Tinha o seu próprio, Supra-Vento, e arreios, jamais emprestados. Não ia à missa, não, nem bebia cachaça, jurava pelos venenos nas flores, repelia a longe os animais. Sentava-se, se o não viam, comendo às tripas insensatas. Superstição sua única era a de que não varressem ou lhe jogassem água nos pés, o que o impediria de casar. Irava-se, então entonces. Somente aceitava roupa feita para ele especial; modo algum, mesmo nova, a cosida para outro: referia os pelos do peito a ter usado camisa do Neca Velho, vizinho fazendeiro e também hirsuto, nunca porém vestira camisa do Neca. Mechéu, o firme. — Ele faz demais questão de continuar sendo sempre ele mesmo... — um dos moços observou.
Também de fora viera a menina, nenem, ooó, menininha de inéditos gestos, olhava para ela o Gango só a apreciar e bater cabeça. Mechéu pois disse: — Ele é meu parente não! — e a Menininha disse: — Você é bobo não, você é bom... — e mais a Meninazinha formosa então cantou: — Michéu, bambéu... Michéu... bambéu... — pouquinho só, coisa de muita monta, ele se regalou, arredando dali o Gango, impante, fez fiau nele.
Sumo prazia-lhe ouvir debicarem alguém: que fulano fora à casa de baiano e a moça de lá não lhe abrira a porta; beltrano não ia à Vila à noite, por medo dos lobos; sicrano surrara peixano que sapecara terciano que sovara marrano, sucessos eis faziam-no rir a pagar, não risada gargalhal, somenos chiada entre quentes dentes, vai vezes engasgava-se até, da ocasiãozada. Malvadezas contra outros o confortavam. A seguir, vigiava, suspeitoso de que sobre ele mesmo também viessem. Mais o exasperava chamarem-lhe Tatú, apodo herdado do pai.
Tomava-se por infalível nôivo de toda e qualquer derradeira sacudida moça vista, marcava coió o casamento, que em domingo fatal sem falta: — Bimingo um... bimingo dois... bimingo três! — dedo e dedo contava. Assaz queria viver mais, e depois dos outros, fora de morte, ficar para semente. Apareciam-lhe os cabelos brancos, e renegava seus fossem, sim de um cavalo ruço do Patrão, por nome Vapor. De si mesmo, de nada nanja duvidava.
Lento o tempo, Mechéu descascava e debulhava milhos no paiol, fazia o Gango fazer. Ele agora estava irado com a chuva, e com o Patrão, que nela não dava jeito. Mas acatava ordens: quando lhe mandaram que viesse, veio. — Louvem-no — e reprovem alguém, outro — que ele de gozo empofa... — ensinou Sãsfortes, fazendeiro.
Mechéu marchava com desajeito, bamba bailava-lhe a perna direita, puxada pela esquerda. Soturno sáfio ante aqueles parou, turvava-se seu ar de desconfiança, inveja, queixa. — Será já em si o “eu” uma contradição? — sob susto e espanto um dos de fora proferiu. Mas, pensavam consigo mesmos, não para o Mechéu — ilota e especulário. Deixaram-no de lado.
Tardiamente apenas se soube o que a seu respeito valesse; depois, anos.
— Mechéu assim, a vida vira assim... — conta a fazendeira, Dona Joaquina, inesquecível, branquinhos os cabelos, azúis olhos bondosos.
Tudo o comum, copiado; do borrão do viver.
No que houve que o Gango morreu, chifrado de vaca.
Enquanto entanto o corpo estando presente, Mechéu nem fez caso, ele não tinha pelo Gango nenhum encarecimento, nunca o deixava botar mão no que de seu, nem entrar no cômodo em que assistia, debaixo da casa. Vez ou vez, mandasse o Gango cantarolar, para as escutar, simplórias parlendas, o canto sendo dele o nome Mechéu mesmo, em falsete, o Gango tal afinado papagaio.
Mas, enterrado aquele, Mechéu aos tentos se estramontou, se cuspindo, se sumia, o boi em transtorno, desacertado do trabalho. — Está andando meio exercitado por aí, não se vê o que ele quer... — vinham dizer, pareceu que descabisbaixo indo obrar o demo em dobro.
Só da patroa Dona Joaquina se aproximou, de vira vez, perguntou ou afirmou: — A menininha não morre, não, nunca! De dó, a Senhora confirmou: — Nunca! — não sabia que menina. De saudade ou falta do Gango, ele houve pingos nos olhos, inquiriu: — Nem eu!? Rezingava, pois assim, gueta, pataratices, mais frases: sobre os passarinhos, bem apresentados, o sol nas roças, o Supra-Vento, cavalo, ao qual por prima vez agradecesse.
Mas mesmo enfermou, daí, pessoalmente, de novembro para diante, repuxado e esmorecido, se esforçava com um tremor, sua pesadume remédios não paliavam. Ora fim que enfim se fechou no escuro cômodo, por mais de um dia, surgindo no seguinte aceitou o caneco com chá amargo, restava guedelhudado, rebarbado, os olhos mais cavos, demudado das feições.
Decerto não aguentava o que lhe vinha para pensar, nem vencia achar o de que precisava, só sacudia as pálpebras, com tantas rotações no pescoço: gesticulava para nenhum interlocutor; rodou, rodou, no mesmo lugar, passava as mãos nas árvores.
Muito devagar, sempre com cheio o caneco seguro direitinho, veio para junto do paredão do bicame, lá sozinho ficou parado um tempo, até ao entardecer. Estava bem diferente, etc., esperando um tudo diferente.
Não falemos mais dele.
Guimarães Rosa, em Tutameia
19/03/2025
Reminisção
Vai-se falar da vida de um homem; de cuja morte, portanto. Romão — esposo de Nhemaria, mais propriamente a Drá, dita também a Pintaxa — ímpar o par, uma e outro de extraordem. Escolheram-se, no Cunhãberá, destinado lugar, onde o mal universal cochila e dá o céu um azul do qual emergir a Virgem. Sua história recordada foi longa: de tigela e meia, a peso de horror. O fundo, todavia, de consolo. Esse é um amor que tem assunto. Mas o assunto enriquecido — como do amarelo extraem-se ideias sem matéria. São casos de caipira.
Foi desde. Parece até que iam odiar-se, moço e moça, no então. Divulgue-se a Drá: cor de folha seca escura, estafermiça, abexigada, feia feito fritura queimada, ximbé-ximbeva; primeiro sinisga de magra, depois gorda de odre, sempre própria a figura do feio fora-da-lei. Medonha e má; não enganava pela cara. Olhar muito para uma ponta de faca, faz mal. Dizia-se: — “Indicada.”
Romão, hem, gostou dela, audaz descobridor. Pois — por querer também os avessos, conforme quem aceita e não confere? Inexplica-o a natureza, em seus efeitos e visíveis objetos; ou como o principal de qualquer pergunta nela quase nunca se contém. Romão, meão, condiçoado, normalote, pudesse achar negócio melhor. Mas ele tinha em si uma certa matemática. E há os súbitos, encobertos acontecimentos, dentro da gente.
De namoro e noivado, soube-se pouco. Também da sem-graça cerimônia ou maneira, de que se casaram, padrinhos Iô Evo e Iá Ó e quiçá os de Romão e Drá anjos entes. Àquilo o povo assistiu com condolência? Tais vezes, a gente ao alheio se acomoda — preto no branco, café na xícara. Cunhãberá via-os não via, sem pensar em poder entender: anotava-os.
Mas o casal morou na Rua-dos-Altos, onde o Romão estava bom sapateiro. Para fora, deviam de ser moderados habitantes. Era um silêncio quase calado. Comparem-se: o vagalume, sua luzinha química; fatos misteriosos — a garça e o ninho por ela feito. Iam, consortes, para os anos que tendo de passar.
Se como o nem faro e cão — mas num estado de não e sim, rodavam tantas voltas — juntos, pois. A Drá contra a ocasião de querer-bem se tapava, cobreando pelos cabelos, nas mãos um pedaço de pedra. Ela não perdoava a Deus. — “Padece o que é...” — deduzia Iá Ó. Da dor de feiura, de partir espelho. Iô Evo disse: que tomava culpa, de ter testemunhado.
Romão, hem, se botava de nada? Não o deixava ela, enxerente, trabalhar nem lazer; ralhava a brados surdos; afugentou os de sua amizade. Romão amava. Decerto ela também, se sabe hoje, segundo a luz de todos e as sombras individuais. O estudo do mundo.
Todo o tempo o atanazava, demais de cenhosa, caveirosa, dele, aquela mulher mandibular. Vês tu, ou vê você? Romão punha-lhe devoção, com pelejos de poeta, ou coisa ou outra, um gostar sentido e aprendido, preciso, sincero como o alecrim.
Tinhava-se, a Drá. Seus filhos não quiseram nascer. Romão imutava-se coitado. Disso ninguém dava razão: o atamento, o fusco de sua tanta cegueira? Sapateiro sempre sabe. Ou num fundo guardasse memória pré-antiquíssima. Tudo vem a outro tempo.
Então, quando deles no diário ninguém mais se espantava, de vez, houve. Sortiu-se a Drá, o diabo às artes, égua aluada, e com formigas no umbigo. Em malefaturas, se perdeu, por outro, homem vindiço, mais moço. O povo, vendo, condenava-a; de pena do Romão — a tragar borras. Ele, não, a quem o caso de mais perto tocava. E a Iô Evo disse: que bom era ela crer, que valia, que dela gostavam... Romão olhava em ponto, pisava curto, tinham receio de sua responsabilidade.
Nem o moço de fora a quis mais. Desrazoável, mesmo assim, a Drá de casa se sumiu, com seus dentes de morder. Romão esperou, sem prazo. Se esforçava, nesse eixar-se, trincafiava, batia sola. Seguro que, por meio de Iá Ó, pediu que ela tornasse.
Drá voltou, empeçonhada, trombuda, feia como os trovões da montanha. Romão respeitava-a, sem ralar-se nem mazelar-se, trocando pesares por prazeres, fazendo-lhe muita fidelidade. Fez-lhe muita festa. De por aí, embora, seresma ela se aquietou, em desleixo e relaxo. Nem fazia nada, de cabeça que dói. Só empestava. Vivia e gemia — paralelamente. Chamou-a então Pintaxa o bufo do povo.
Foi, e teve ela uma grande doença, real, de que escapou pelo Romão, com seus carinhos e tratos. Sarou e engordou, desestragadamente, saco de carnes e banhas, caindo-lhe os cabelos da cabeça, nos beiços criado grosso buço, de quase barba. Era bem a Pintaxa, a esta só consideração. Cunhãberá jurou-a por castigada. Romão queria vê-la chupar laranjas, trivial, e se enfeitar sem ira nem desgosto. Ele envelhecia também. Os dois, à tarde, passeavam. Quem espera, está vivendo.
Depois, ele se enfermou, à-toa, de mal de não matar. A Drá alvoroçou o lugar. Ela chorava, adolorada: teve, de de em si, notícia, das que não se dão. Pedia socorro.
O povo e o padre no quarto, o Romão onde se prostrava, decente, chocho, em afogo, na cama. Ele estava tão cansado; buscava a Drá com os olhos. Que quis falar, quis, pôde é que foi não. Iá Ó passava um lenço, limpava-lhe a cara, a boca. Iô Evo mandou-o ter coragem, somente.
Dando-se, no Cunhãberá, o fato, de inaudimento.
Romão por derradeiro se soergueu, olhou e viu e sorriu, o sorriso mais verossímil. Os outros, otusos, imaginânimes, com olhos emprestados viam também, pedacinho de instante: o esboçoso, vislumbrança ou transparecência, o aflato! Da Drá, num estalar de claridade, nela se assumia toda a luminosidade, alva, belíssima, futuramente... o rosto de Nhemaria.
Romão dormido caiu, digo, hem, inteiro como um triângulo, rompido das amarras. Ele era a morte rodeada de ilhas por todos os lados. Mentiu que morreu. Deu tudo por tudo.
A Drá esperançada se abraçou com o quente cadáver, se afinava, chorando pela vida inteira. Todo fim é exato. Só ficaram as flores.
Guimarães Rosa, em Tutameia
24/02/2025
João Porém, o criador de perus
Guimarães Rosa, em Tutameia
17/12/2024
Glosação em apostilas ao hipotrélico
Guimarães Rosa, em Tutameia
04/12/2024
Prefácio | Hipotrélico
Guimarães Rosa, em Tutameia
26/11/2024
Estoriinha
Guimarães Rosa, em Tutameia






