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21/01/2026

Cabeceira

O mundo se bate por uma variável
língua e não nos entendemos.
Aros na estiagem são o fonema
que faliu sem gerar comunicação.
Não houve tempo, nem vontade
para coser o pacto? Era preciso,
sob pena de se exaurir o homem.
Esperamos em vão o repasto,
tarde o centeio explodiu em pão.
Que fazer? A relva onde os cavalos
crisparam se apagou, arreios cospem
a lição de pedra. Como não ver
o golpe que vitimou a todos?
Testemunhamos o cós armado
do inimigo, a pira onde a liberdade
expirou, os prazos insondáveis.
Nós, tão confortados pela certeza
de que o passado era um bazar.
E que entre rubis, enxovais,
nenhuma traça fiava às avessas.
Ideias, no entanto, forçam as paredes.
Entre o que fizemos, e não,
algo se revela necessário ainda.

Edimilson de Almeida Pereira, em Guelras

17/01/2026

Persona

A inocência fora de seu tempo ameaça como
os saqueadores. Isso seria um argumento, não
fosse a carne exposta. Inocentes e saqueadores
compram alimentos, vão ao comício, se apertam
e, por um segundo, desenham a linha sem norte
da intolerância.
Entre vozes perdidas, uma canção vidente.

Não é por ela que a tarde paralisa e avança.

Turbulento navio.

Por tão explícito motivo, a pele que antes nos
cobria, escama-se.

Na desnuda paisagem, vocifera a infância.

Edimilson de Almeida Pereira, em Guelras

09/01/2026

Noturno

Se os poetas as temeram no passado – um por
imaginá-la indo à morte por tocar a esfera
e outro por intuí-la no calor da cidade
estranha
por que não exibiria o horror nas pupilas
o recém-chegado?
Um pardal furioso desce sobre os farelos. Ao
seu impacto, o menino cresce. Logo os
pombos lutam pelos restos.
A infância se enerva.

Uma boca derrama os seus amaros signos. Não
é a bruxa
o morcego não é
e nos penumbra.

A boca que rediz não satura os pássaros. O seu
guia é contrário à paz das almas.

Edimilson de Almeida Pereira, em Guelras

30/12/2025

Eixo

Alguém, nessa noite, pensa em ti
com tal força que desvia o curso da flora.
Poderiam, ambos, retificar
o uso dos sistemas: letra,
número,
intenção ou gesto nessa fração noturna,
não são mais do que celas
em desalinho.
Saquem os apetrechos.
Não importa a contenda que se arma
às armas.
O que julga saber e os que julgam
são uma esteira, apenas,
para a mudança da flora. Nessa noite,
em que alguém
pensa forte em ti e absorves
o pensamento imenso,
nessa noite,
o que nunca pudemos ser está pronto.

Edimilson de Almeida Pereira, em Guelras