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04/04/2020

O maior computador do mundo


O magnífico monumento inglês chamado Stonehenge ergue-se solitário sobre a planície de Salisbury, ladeado por um estacionamento e uma loja de presentes para turistas. É famoso por suas grandes pedras e curiosa arquitetura: um círculo de pedras maciças e bem talhadas.
Em 1964, um astrônomo inglês, Gerald S. Hawkins, publicou seu tratado - hoje famoso - sobre Stonehenge como computador astronômico. Seu artigo, intitulado “Stonehenge: um computador neolítico”, foi publicado no número 202 da prestigiada revista inglesa Nature. Em 1965, foi editado o famoso livro de Hawkins, Stonehenge decoded.
Hawkins abalou o mundo arqueológico ao afirmar que o sítio megalítico não era apenas um templo circular erguido por alguns reis egocêntricos, mas um sofisticado computador para observação celeste.
Ele inicia seu artigo da Nature com uma citação de Diodoro sobre a Grã-Bretanha pré-histórica encontrada no livro de Diodoro, History of the Ancient World, escrito por volta de 50 a.C.:
Vista desta ilha, a Lua parece estar a uma pequena distância da Terra, mostrando proeminências como as da Terra, que são visíveis a olho nu. Diz-se que o deus [Lua?] visita a ilha a cada dezenove anos, período no qual se completa o retorno das estrelas ao mesmo lugar no céu. Há na ilha, ainda, tanto um magnífico local sagrado dedicado a Apolo [Sol] como um templo notável [...] e os sacerdotes são chamados boraedae, e a sucessão ao cargo permanece sempre nas mesmas famílias.
A teoria básica de Hawkins é que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. A proposição inicial era de que os alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados em computador a partir de plantas em escala reduzida, comparavam suas direções com os azimutes do nascer e do pôr do sol e da lua, nos solstícios e equinócios, calculados para o ano 1.500 a.C. Hawkins afirma ter encontrado 32 alinhamentos “significativos”.
A segunda proposição é que os 56 buracos de Aubrey eram usados como “computador” (ou seja, marcas de totalização) para aprevisão de movimentos da lua e dos eclipses, para os quais ele alega ter estabelecido um “ciclo até hoje desconhecido de 56 anos com irregularidade de 15%; e que o nascer da lua cheia mais próximo do solstício de inverno sobre a Pedra do Calcanhar sempre predizia com sucesso um eclipse. É interessante notar que não mais do que metade desses eclipses era visível de Stonehenge”. Diz Hawkins em Stonehenge decoded:
O número 56 é de grande importância para Stonehenge por ser o número de buracos de Aubrey dispostos à volta do círculo externo. Vistos do centro, esses buracos situam-se em espaçamentos iguais de azimute ao redor do horizonte, e, portanto, não podem marcar o Sol, a Lua ou qualquer outro objeto celeste. Isso é confirmado pelas evidências dos arqueólogos; os buracos abrigaram fogueiras e cremações de corpos, mas nunca pedras. Bem, se os responsáveis por Stonehenge desejavam dividir o círculo, por que não fizeram simplesmente 64 buracos valendo-se da bissecção de segmentos do círculo - 32,16, 8, 4 e 2 -? Acho que os buracos de Aubrey proporcionavam um sistema de contagem de anos, um buraco para cada ano, para ajudar a prever os movimentos da Lua. Talvez se fizessem cremações em um buraco de Aubrey específico no decorrer do ano, ou talvez aquele buraco fosse assinalado com uma pedra móvel.
Stonehenge pode ser usado como uma máquina de cálculo digital [...] A pedra no buraco 56 prevê o ano em que um eclipse do Sol ou da Lua irá ocorrer no período de 15 dias por volta do meio do inverno - o mês da Lua de inverno. Ela também irá prever eclipses para a Lua de verão.
Os críticos de Hawkins, as principais mentes acadêmicas de sua época, debruçaram-se imediatamente sobre suas descobertas e puseram-se a criticá-las. Em 1966, um artigo intitulado “Decodificador equivocado?”, de R. J. Atkinson, astrônomo inglês, foi publicado na Nature (volume 210, 1966), e criticava Hawkins por muitas de suas declarações relativas à natureza de Stonehenge como computador astronômico.
Disse Atkinson acerca de Stonhenge decoded, de Hawkins:
É tendencioso, arrogante, descuidado e pouco convincente, e pouco nos ajuda a compreender melhor Stonehenge.
Os cinco capítulos iniciais, sobre o pano de fundo legendário e arqueológico, foram compilados sem senso crítico, e contêm vários erros bizarros e interpretações estranhas. O resto do livro é uma tentativa mal-sucedida de emprestar corpo à alegação do autor - que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. De suas duas alegações principais, a primeira diz respeito a alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados com um computador a partir de plantas baixas em escala reduzida, pouco adequados a esse propósito.
A crítica mordaz de Atkinson em relação a Hawkins é reveladora, pois mostra como os acadêmicos já estabelecidos podem ser resistentes a novas ideias. A relutância de Atkinson em acreditar que Stonehenge era um tipo de computador astronômico provavelmente se deve à crença popular de que o homem antigo simplesmente não vivia um estágio civilizacional que lhe permitisse dedicar-se a temas intelectuais superiores.
Mas esses críticos não são mais ouvidos, e parece não haver dúvidas, mesmo por parte dos arqueólogos mais conservadores, de que Stonehenge é um tipo de templo astronômico. Diversas verdades astronômicas simples podem ser discernidas em Stonehenge. Por exemplo: há 29,53 dias entre as luas cheias, e há 29,5 monólitos no círculo exterior de Sarsen.
Dezenove das imensas “pedras azuis” encontram-se na ferradura interior, com diversas explicações e usos possíveis. Há um período de quase dezenove anos entre os pontos extremos do nascer e do pôr da lua. Além disso, se uma lua cheia ocorre em um dia específico do ano, digamos no solstício de verão, faltarão dezenove anos até outra lua cheia ocorrer no mesmo dia do ano. Finalmente, há dezenove anos de eclipses (ou 223 luas cheias) entre eclipses similares, tais como o eclipse que ocorre quando o Sol, a Lua e a Terra retornam às mesmas posições relativas. As posições dos outros planetas variam em ciclos ainda mais longos.
Sugere-se ainda que os cinco grandes arcos de trílitos representam os cinco planetas visíveis a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
O escritor inglês especializado em antiguidades, John Ivimy, faz uma espantosa sugestão no final de seu popular livro sobre Stonehenge, The Aphinx and the megaliths. Ele passa a maior parte do livro tentando provar a tese de que Stonehenge foi construído por um punhado de aventureiros egípcios que foram enviados às ilhas Britânicas para estabelecer uma série de sítios astronômicos em latitudes mais elevadas, a fim de poderem prever com precisão eclipses solares, algo que os observatórios egípcios não podiam fazer, pois estavam próximos demais do equador.
Ivimy apresenta evidências como a construção megalítica, os cortes em “L” nos gigantescos blocos de pedra, o óbvio propósito astronômico e, acima de tudo, o uso de um sistema numérico baseado no número seis, e não no dez, como usamos hoje. Ivimy mostra que os egípcios usavam um sistema numérico baseado no número seis, e que o mesmo sistema foi empregado em Stonehenge. Posteriormente, sugere que os mórmons usam um sistema numérico com base no número seis para construírem seus templos, especialmente o grande templo de Salt Lake City.
No fim, a tese de Ivimy é bastante controvertida: ele acredita que Brigham Young e os primeiros povoadores mórmons de Utah são a reencarnação do mesmo grupo de pioneiros egípcios enviados à Inglaterra para construir Stonehenge. Diz Ivimy:
Sempre se fez referência ao grande domo de madeira, feito totalmente sem metal, que cobre o Tabernáculo Mórmon. Será que sua construção foi inspirada em uma pálida recordação do modo como as mesmas pessoas, em uma encarnação vivida alguns séculos antes, usaram um domo para cobrir aquele que depois se tornou o Templo de Apolo Hiperbóreo?
É fascinante a ideia de que os egípcios teriam ido à Inglaterra para construir um observatório megalítico com o intuito de prever eclipses lunares com precisão. Há registros de que, em 2.000 a.C., aproximadamente, um imperador chinês mandou executar seus dois principais astrônomos por deixarem de prever um eclipse solar. Um dos proponentes da teoria dos astronautas da Antiguidade, Raymond Drake, pergunta: “Será que hoje algum soberano ligaria para isso?” Egípcios, chineses, maias e muitas outras culturas antigas tinham obsessão por eclipses e por outros fenômenos planetários e solares. Acredita-se que associavam catástrofes, inclusive o afundamento da Atlântida, a movimentos planetários e eclipses. Talvez os antigos egípcios, maias e outros povos imaginassem poder prever o próximo cataclismo acompanhando os eclipses lunares e as posições dos planetas em relação à Terra.
Heródoto escreveu sobre cataclismos e astronomia no antigo Egito em seu Livro Dois, capítulo 142:
[...] Até agora os egípcios e seus sacerdotes contaram a história. E mostraram que já existiram 341 gerações de homens desde o primeiro rei até este último, o sacerdote de Hephaestus [...] Bem, em todo esse tempo, 11.340 anos, disseram que o Sol se afastou de seu caminho correto em quatro ocasiões; e nasceu onde hoje se põe, e se pôs onde hoje nasce; mas nada no Egito foi alterado com isso, nem no que concerne ao rio ou aos frutos da terra, nem no que concerne às doenças ou à morte.
Se Heródoto merece crédito, então a Terra deslocou-se ao redor de seu eixo, o que hoje chamamos de deslocamento polar. Com isso, o sol parece nascer em uma direção diferente da normal. Os deslocamentos polares são acompanhados de uma ampla gama de mudanças na terra e de severos fenômenos climáticos. Portanto, se os egípcios estavam familiarizados com esse tipo de ocorrência, e não tinham sido muito afetados pelos cataclismos, é possível que tenham se esforçado para aprimorar seus conhecimentos astronômicos, incluindo-se aí a colonização da Inglaterra e a construção de Stonehenge.
Com efeito, as magistrais mentes megalíticas colonizaram praticamente todo o planeta, do Egito à Inglaterra, Américas, Ilha de Páscoa e Tonga. Há megálitos em lugares remotos como a Manchúria, as Filipinas, a Mongólia e as colinas Assam, no nordeste da índia. Houve época em que essas mentes magistrais estiveram por toda parte. Mas que tecnologia esses mestres construtores utilizavam?
David Hatcher Childres, in A Incrível Tecnologia dos Antigos

31/03/2020

Os espantosos megálitos dos Andes

  Sacsayhuaman

Na porção plana de uma colina que avista o Vale de Cuzco, no Peru, há uma fortaleza colossal chamada Sacsayhuaman, um dos mais imponentes edifícios já construídos. Sacsayhuaman é formada por três ou quatro paredes em terraço que sobem pela colina, e as ruínas incluem portais, escadarias e rampas.
Gigantescos blocos de pedra, alguns pesando mais de 200 toneladas, estão perfeitamente encaixados. Os enormes blocos estão cortados, facetados e encaixados tão bem que até hoje não é possível enfiar uma lâmina de canivete, ou mesmo uma folha de papel entre eles. Não foi usado cimento, e não há dois blocos iguais. Contudo, eles se encaixam perfeitamente, e alguns engenheiros afirmaram que nenhum construtor moderno, com a ajuda de instrumentos e ferramentas do mais puro aço, seria capaz de produzir resultados mais precisos. Cada pedra teve de ser planejada com muita antecedência; uma pedra de 21 toneladas, para não falar de uma pesando de 80 a 200 toneladas, não pode apenas ser posta descuidadamente no lugar, esperando-se atingir aquele grau de precisão! As pedras estão encaixadas e ajustadas em suas posições, com entalhes do tipo rabo-de-andorinha, tornando-as à prova de terremotos. Com efeito, após muitos terremotos devastadores nos Andes ao longo dos últimos séculos, os blocos ainda estão encaixados perfeitamente, enquanto a catedral espanhola, em Cuzco, precisou ser reconstruída duas vezes.
O mais incrível é que os blocos não são feitos com pedras locais, mas, segundo alguns relatos, provêm de pedreiras do Equador, a mais de 2.400 quilômetros dali! Outros estudiosos localizaram pedreiras bem mais próximas, a cerca de 8 quilômetros, apenas. Embora se suponha que a fantástica fortaleza tenha sido feita há apenas alguns séculos pelos incas, não há registros de sua construção, e tampouco ela figura nas lendas nativas. Como se explica que os incas, que não tinham conhecimento de matemática superior, não possuíam linguagem escrita, não dispunham de ferramentas de ferro e nem usavam rodas, podem receber o crédito pela construção desse complexo ciclópico de muralhas e edificações? Francamente, é preciso fazer força para encontrar uma explicação, que tampouco seria simples.
Quando os espanhóis chegaram a Cuzco e viram essas estruturas, pensaram ser obras do próprio demônio, em virtude de sua grandeza. De fato, em nenhum outro lugar se vê blocos tão grandes encaixados com tamanha perfeição. Viajei pelo mundo todo à procura de mistérios antigos e cidades perdidas, mas nunca vi nada parecido.
Os construtores das muralhas não eram apenas bons pedreiros - eram incomparáveis! Trabalhos de cantaria similares podem ser vistos em todo o Vale de Cuzco. Geralmente, são feitos com blocos de pedra bem talhados e retangulares, pesando até 1 tonelada. Um grupo de pessoas fortes pode erguer um bloco e colocá-lo no lugar; sem dúvida, foi assim que algumas das menores estruturas foram feitas. Mas em Sacsayhuaman, Cuzco e outras cidades incas antigas, podemos ver blocos imensos com 30 ângulos ou mais em cada um.
Na época da conquista espanhola, Cuzco estava em seu apogeu, com população estimada em 100 mil incas. A fortaleza de Sacsayhuaman poderia abrigar todos os habitantes dentro de seus muros em caso de guerra ou de catástrofe natural. Alguns historiadores afirmaram que a fortaleza foi construída alguns anos antes da invasão espanhola, e creditaram a estrutura aos incas. Mas os incas não conseguem se lembrar exatamente como ou quando ela foi feita! Só resta um relato antigo do transporte das pedras, encontrado na obra de Garcilaso de la Vega, The inccus. Em seus comentários, Garcilaso fala de uma pedra monstruosa levada a Sacsayhuaman desde Ollantaytambo, a uma distância de cerca de 72 quilômetros.
Os índios dizem que, por causa do grande trabalho que teve para ser levada, a pedra ficou cansada e chorou lágrimas de sangue porque não conseguiu um lugar na edificação. A realidade histórica é transmitida pelos amantas (filósofos e médicos) dos incas, que costumavam falar sobre isso. Dizem que mais de 20 mil índios levaram a pedra até o local, arrastando-a com grossas cordas. A rota que seguiram para levar a pedra era muito difícil. Havia muitas colinas para subir e descer. Cerca de metade dos índios puxava a pedra com as cordas colocadas na frente. A outra metade segurava a pedra por trás, com medo de que ela pudesse se soltar e cair em uma ravina da qual não poderia ser removida.
Em uma dessas colinas, por falta de cautela e esforço mal coordenado, o peso da pedra foi excessivo para aqueles que a sustentavam por trás. A pedra rolou colina abaixo, matando 3 ou 4 mil índios que a sustentavam. Apesar desse infortúnio, eles conseguiram tornar a erguê-la. Ela foi posta na planície onde hoje repousa.
Embora Garcilaso de la Vega descreva o transporte da pedra, muitos duvidam da veracidade dessa história. Essa pedra não pertence à fortaleza de Sacsayhuaman e, segundo alguns pesquisadores, é menor do que aquelas lá usadas, embora a pedra nunca tenha sido identificada positivamente. Mesmo que a história seja real, talvez os incas tenham procurado reproduzir aquela que, segundo eles, teria sido a técnica de construção usada pelos antigos construtores. Apesar de não se poder negar a maestria dos artífices incas, para alguém acreditar nessa história precisa, antes, questionar como eles teriam transportado e colocado os blocos de 100 toneladas tão bem, tendo em conta o trabalho que tiveram com apenas uma pedra.
O fato de os incas terem descoberto essas ruínas megalíticas e construído algo sobre elas, afirmando que eram obra deles, não é lá uma teoria muito alarmante. Com efeito, é bem provável que seja verdade. Os antigos governantes egípcios, com frequência, reclamavam para si obeliscos, pirâmides e outras estruturas já existentes, chegando por vezes a apagar o cartucho do verdadeiro construtor, substituindo-o pelo seu. A Grande Pirâmide parece ter sido vítima de tal ardil. O faraó Kufu, ou Quéops, como era conhecido na Grécia, mandou gravar seu cartucho na base da Grande Pirâmide. Esse é o único texto que se pode encontrar nela, mas, ao que tudo indica, a pirâmide não foi construída por Quéops. Talvez nem seja um túmulo, mas isso é uma outra história.
Se os incas chegaram e descobriram muralhas e alicerces de cidades já existentes, por que não se instalaram por lá, pura e simplesmente? Até hoje, bastam algumas pequenas reformas e um teto em algumas das estruturas para torná-las habitáveis. De fato, quase tudo indica que os incas simplesmente encontraram as estruturas e acrescentaram-lhes alguns detalhes. Há muitas lendas andinas que relatam que Sacsayhuaman, Machu Picchu, Tiahuanaco e outras ruínas megalíticas teriam sido construídas por um povo gigante. Alain Gheerbrant comenta em suas notas ao livro de Garcilaso:
Foram usados três tipos de pedra para construir a fortaleza de Sacsayhuaman. Dois deles, inclusive os que foram usados para fazer os gigantescos blocos da muralha externa, foram encontrados praticamente no local. Só o terceiro tipo de pedra (andesito negro), para as edificações internas, foi levado de pedreiras relativamente distantes; as pedreiras de andesito negro mais próximas ficavam em Huaccoto e Rumicolca, a 14 e a 40 quilômetros de Cuzco, respectivamente. Com relação aos gigantescos blocos da muralha externa, nada prova que não tenham sido desbastados a partir de uma massa de pedras existente no local; isso solucionaria o mistério.
Gheerbrant acredita que os incas nunca chegaram a movimentar as pedras até Sacsayhuaman, mas, mesmo que as tenham cortado e preparado-as no local, um ajuste tão preciso exigiria aquilo que os engenheiros modernos chamam de esforço sobre-humano. Além disso, a gigantesca cidade de Tiahuanaco, na Bolívia, também foi erguida com blocos de pedra de 100 toneladas. As pedreiras ficavam longe dali, e o lugar é definitivamente pré-incaico. Proponentes da teoria de que os incas encontraram essas cidades nas montanhas e nelas se fixaram, diriam que os construtores de Tiahuanaco, Sacsayhuaman e de outras estruturas megalíticas da região de Cuzco eram o mesmo povo.
Citando novamente Garcilaso de la Vega, que escreveu sobre essas estruturas logo após a conquista:
[...] como podemos explicar o fato de os índios peruanos serem capazes de cortar, escavar, erguer, portar, içar e aplicar blocos de pedra tão imensos, fazendo-o, como disse antes, sem o auxílio de uma só máquina ou instrumento? Um enigma como esse não pode ser resolvido facilmente sem a ajuda da magia, especialmente se nos lembrarmos da grande familiaridade desses povos com os demônios.
Os espanhóis desmantelaram Sacsayhuaman o máximo que puderam. Quando Cuzco foi conquistada, Sacsayhuaman tinha três torres redondas no alto da fortaleza, por trás de três muralhas megalíticas concêntricas. Elas foram desmontadas pedra por pedra, que foram usadas para construir novas estruturas para os espanhóis.
Uma teoria interessante sobre as construções com pedras gigantescas e perfeitamente encaixadas é que foram produzidas por meio de uma técnica hoje perdida de amolecimento e moldagem da pedra. Hiram Bingham, descobridor de Machu Picchu, escreveu em seu livro Across South America sobre uma planta de que ouvira falar, cujos sumos amoleciam a pedra a ponto de ela poder ser encaixada em cantarias muito apertadas.
Em seu livro Exploration Fawcett, o coronel Fawcett comentou que ouvira falar de como as pedras eram encaixadas usando-se um líquido que as amoleciam até adquirirem a consistência do barro. Brian Fawcett, que editou o livro do pai, conta essa história em suas notas de rodapé: um amigo que trabalhava em uma mineradora a 4.600 metros em Cerro de Pasco, região central do Peru, descobriu um jarro em um túmulo incaico ou pré-incaico. Ele abriu o recipiente pensando que fosse chicha, uma bebida alcoólica, rompendo o antigo lacre de cera ainda intacto. Depois, por acidente, o jarro foi derrubado sobre uma pedra. Fawcett prossegue, mencionando o amigo:
Dez minutos depois, curvei-me sobre a pedra e casualmente examinei a poça de líquido derramado. Não era mais líquido; a pedra sobre a qual o jarro caíra estava macia como cimento fresco! E como se a pedra tivesse derretido, como cera aquecida.
Ao que parece, Fawcett acreditava que a planta poderia ser encontrada no rio Pirene, em Chuncho, Peru, e disse que tinha folhas vermelhas, escuras, e mais ou menos 30 centímetros de altura. Conta-se, ainda, a história de um biólogo que observava um pássaro raro na Amazônia. Ele viu quando a ave fez um ninho em uma rocha esfregando-a com um graveto. A seiva do graveto dissolveu a rocha, criando uma cavidade na qual a ave pôde acomodar seu ninho.
Toda essa especulação pode ser posta de lado por conta de descobertas mais recentes apresentadas na Scientific American (fevereiro de 1986). Em um fascinante artigo, o pesquisador francês, Jean-Pierre Protzen, apresenta suas experiências na duplicação da construção de Sacsayhuaman e Ollantaytambo. Protzen passou muitos meses perto de Cuzco fazendo experiências com diferentes métodos de modelagem e de encaixe, valendo-se dos mesmos tipos de pedras empregados pelos incas (ou por seus antecessores megalíticos). Descobriu que a extração e a formatação das pedras podem ser feitas com os martelos de pedra encontrados em abundância na região. O ajuste preciso das pedras foi uma questão relativamente simples, diz ele. Ele martelava as depressões côncavas nas quais as pedras se encaixavam por tentativas, até ficarem bem justas. Isso significava erguer e juntar as pedras continuamente, desbastando-as pouco a pouco. Esse processo consome um bom tempo, mas é simples e funciona.
Contudo, mesmo para Protzen restam alguns mistérios. Ele não conseguiu descobrir como os construtores megalíticos manuseavam as pedras maiores. O processo de ajuste exigiria repetidos movimentos de levantamento e deposição da pedra sendo encaixada, com uma sequência de marteladas entre um movimento e outro. Ele não sabe como pedras de 100 toneladas eram manipuladas nesse estágio, e algumas, na verdade, são até mais pesadas.
Segundo Protzen, para transportar as pedras desde as pedreiras foram construídas estradas e rampas especiais. Muitas das pedras foram arrastadas sobre estradas cobertas de pedregulhos, o que, segundo sua teoria, originou sua superfície polida. A maior pedra de Ollantaytambo pesa 150 toneladas. Ela pode ter sido puxada sobre uma rampa com uma força de 118 mil quilos. Tal proeza exigiria 2.400 homens, no mínimo. Reunir essa equipe parece possível, mas onde se apoiavam? Protzen diz que as rampas teriam, no máximo, 8 metros de largura. Mais espantoso ainda, para Protzen, é que as pedras de Sacsayhuaman tinham um acabamento fino, mas não foram polidas e não mostram sinais de arraste. Ele não conseguiu descobrir como foram transportadas desde a pedreira de Rumiqolqa, situada a 35 quilômetros dali.
O artigo de Protzen reflete uma pesquisa bem-feita, e mostra que a ciência moderna ainda não consegue explicar ou reproduzir as proezas de construção encontradas em Sacsayhuaman e Ollantaytambo. Erguer continuamente e desbastar um bloco de pedra de 100 toneladas para fazer com que se encaixe perfeitamente é uma tarefa de engenharia grandiosa demais para ter sido uma prática. A teoria de Protzen teria funcionado bem nas construções posteriores, menores e perfeitamente retilíneas, mas falha nas construções megalíticas mais antigas. Talvez teorias como levitação ou amolecimento de pedras ainda não devam ser descartadas! Uma última observação intrigante feita por Protzen é que as marcas de corte encontradas em algumas pedras são muito similares àquelas encontradas no pyramidion de um obelisco egípcio inacabado, descoberto em Assuã. Seria coincidência? Ou uma civilização antiga estaria associada aos dois locais?
David Hatcher Childress, in A Incrível Tecnologia dos Antigos

26/11/2015

A destruição do conhecimento


Com o avanço de nossa tecnologia, conseguimos vislumbrar o futuro e o espaço sideral com um olhar diferente do que tinham os cientistas e pensadores do início do século XX. Do mesmo modo, hoje podemos analisar o passado com maior percepção e conhecimento tecnológico, pois assim como pudemos imaginar um futuro diferente daquele que nossos avós conseguiram idealizar, nós também podemos olhar o passado de forma distinta daquela imaginada pelos cientistas e especialistas de um século atrás.
Assim como nosso escopo do universo foi forçado a recuar até os mais distantes pontos do espaço, temos hoje condição de recuar até os pontos mais remotos da história. E muitos pesquisadores estão fazendo exatamente isso.
A Atlântida, com sua cultura avançada, é mencionada em textos antigos. Para começar, é citada nos Diálogos de Platão (extraídos, segundo o texto, de antigos registros egípcios), e quase todas as antigas culturas do planeta têm mitos e lendas sobre um mundo anterior e sobre o cataclismo que o destruiu. Maias, astecas e hopis acreditavam na destruição de quatro mundos (ou mais) antes do nosso. Pode ser que a destruição da Atlântida não seja sequer o mais recente cataclismo a afligir a Terra.
Os livros mais conhecidos do mundo, como a Bíblia, o Mahabharata, o Corão e até o Tao Te Ching mencionam cataclismos e antigas civilizações destruídas. Antigas civilizações e histórias a respeito delas preencheram milhares, até centenas de milhares de volumes de livros que eram guardados em bibliotecas espalhadas pelo mundo na Antiguidade. Muitas das bibliotecas antigas eram tão vastas que ficaram famosas entre os historiadores locais. A Biblioteca de Alexandria é um exemplo conhecido.
Infelizmente, é fato que, ao longo da história, bibliotecas e arquivos imensos foram deliberadamente destruídos. Segundo o famoso astrônomo Carl Sagan, existiu um livro intitulado A verdadeira história da humanidade nos últimos 100 mil anos, e encontrava-se no acervo de Alexandria. Infelizmente, este livro, como milhares de outros, foi queimado por cristãos fanáticos no século III. Os exemplares que se salvaram foram queimados alguns séculos depois pelos muçulmanos para aquecer a água do banho.
Todos os textos chineses antigos foram destruídos em 212 a.C. por ordem do imperador Chin Shih Huang Ti, construtor da famosa Muralha da China. Enormes lotes de textos antigos - praticamente tudo que dizia respeito à história, à filosofia e à ciência - foram apreendidos e queimados. Bibliotecas inteiras foram destruídas, inclusive a biblioteca real, e algumas das obras de Confúcio e de Mêncio também desapareceram nessa devastação do conhecimento. Felizmente, alguns livros sobreviveram porque algumas pessoas os ocultaram em cavernas subterrâneas, e muitas obras foram escondidas em templos taoístas, onde até hoje são religiosamente mantidas e preservadas.
Os conquistadores espanhóis destruíram todos os códices maias que encontraram. Dos muitos milhares de livros encontrados, tem-se conhecimento de apenas três ou quatro ainda existentes. Tal como as seitas cristãs fanáticas do século III e o imperador Chin Shih Huang Ti no século III a.C., os conquistadores espanhóis quiseram apagar todo e qualquer conhecimento do passado e os registros que o preservavam.
A Europa e o Mediterrâneo mergulharam na infame Idade das Trevas, quando a igreja cristã sofreu seu primeiro Cisma após uma série de concílios, a começar pelo de Nicéia, em 325. O último patriarca da igreja cristã primitiva, Nestório, foi deposto pelo Concílio de Éfeso em 431, sendo banido para a Líbia e provocando o deslocamento da igreja nestoriana para o Oriente. O conflito dizia respeito à antiga doutrina cristã da reencarnação, e à ideia de que Cristo teria natureza dupla: Jesus seria um Mestre, enquanto Cristo seria o arcanjo Melquisedeque.
No ímpeto desse conflito, todos os livros do império bizantino foram destruídos, exceto a nova versão da Bíblia, autorizada pela Igreja Católica. A Biblioteca de Alexandria foi destruída nessa época, quando a grande matemática e filósofa Hypatia foi arrastada de sua carruagem e dilacerada por uma multidão, que depois se dirigiu à biblioteca e incendiou-a. Assim teve início a supressão da ciência e do conhecimento, particularmente de nosso passado mais remoto. O conhecimento tem sido suprimido ao longo dos últimos dois mil anos. Às vezes, diz-se que a história é escrita pelos vencedores das guerras, e não pelos perdedores; e tendo em vista a quantidade de propaganda política reconhecidamente bélica que ainda é tida como “história” popular no século XX, deveríamos realmente examinar boa parte da história antiga sob esse prisma. Sabendo dessa supressão, é espantoso que os poucos textos antigos que sobreviveram abordem, com efeito, civilizações avançadas e os cataclismos que as destruíram. Do mesmo modo, falam de sábios que viviam em harmonia com a Terra e com o funcionamento natural de todas as coisas. Em algum momento do passado remoto, porém, o homem perdeu a harmonia com a natureza, e uma catástrofe atingiu todo o planeta.
Vemos aqui um notável paralelo entre o antigo “mito” da Atlântida e a situação em que o homem moderno se encontra hoje. Será que o homem moderno irá sobreviver à sua própria tecnologia e tribalismo? Ou será que irá se destruir nos mecanismos naturais de suas práticas nocivas e em desarmonia com a Terra?
David Hatcher Childress, in A incrível tecnologia dos antigos