Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
23/04/2026
Amor e poesia
14/02/2026
Namorados públicos
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
23/01/2026
Uma estória de amor
A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguia se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. “Não se preocupe, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá…”
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
12/08/2025
O amor acaba
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos, em Manchete, 16/05/1964
19/09/2024
Uma estória de amor
A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguia se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. “Não se preocupe, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá...”
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
10/07/2024
Acerca da dor, do amor, da felicidade
Jurandir Freire Costa, em Sem fraude nem favor
01/05/2024
Ao que leva o amor
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
20/04/2024
Amor sem fim
Foi um amor sem fim. Namoraram, ficaram noivos. Às tardes ele ia fielmente à casa dela. Assentavam-se nas cadeiras de vime colocadas na calçada e conversavam. Faziam planos para o futuro como fazem todos os noivos. Enquanto isso ela bordava o enxoval. O tempo passou. A canastra do enxoval ficou cheia. E assim continuaram, fazendo planos para o futuro e cuidando do enxoval, até que ficaram velhinhos. Aí, deixaram de fazer planos para o futuro e passaram a confidenciar memórias do passado. Nunca brigaram. Nunca pensaram em se separar. Foram felizes até que a morte os separou.
Rubem Alves, in O Velho que Acordou Menino
15/04/2024
O presente
... amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
18/10/2023
Você quer ser amado ou quer ser amado à sua maneira?
Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso
13/10/2023
Amor
Clarice Lispector, in Toda as crônicas
19/09/2023
Epígrafe para uma antologia lírica
Amor, quantos crimes se cometem em teu nome!
Mário Quintana, in Caderno H
07/09/2023
Amor
Millôr Fernandes, in Millôr definitivo: Uma antologia de a Bíblia do Caos
26/07/2023
Presságio
Fernando Pessoa, in Antologia Poética
13/06/2023
Amor e fé
Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso
12/04/2023
Amor
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins
19/11/2021
Da felicidade, do amor, da harmonia
“Do mesmo modo que às vezes digo que, em lugar da felicidade, creio na harmonia, penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.”
José Saramago, in As palavras de Saramago
14/11/2021
O sempre amor
Adélia Prado
14/10/2021
Do amor
José Saramago, in As palavras de Saramago


