Mostrando postagens com marcador Amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amor. Mostrar todas as postagens

23/04/2026

Amor e poesia



Ela era uma mocinha. Trabalhava no restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe – andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
– Onde você esteve? — a tia lhe perguntou com severidade.
– Na praia — ela respondeu sem acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz do luar.
– O que foi que ele lhe fez? — ela perguntou.
– Ele leu um poema — a moça respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com um profundo suspiro falou:
– Leu-lhe um poema... Então você está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a música.

***

Florentino Ariza perdeu o emprego de escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial, passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios. Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil. Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços. Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas cartas...

***

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real – as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade, filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade, o sultão a amou para sempre...

***

Conselho de Nietzsche: Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

14/02/2026

Namorados públicos

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins – os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, – e o que é formidável – guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi “apitado” várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um “peguinha” na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de amor. Tréguas aos namorados!

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

23/01/2026

Uma estória de amor

A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia­-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguia se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou­-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. “Não se preocupe, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá…”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

12/08/2025

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos, em Manchete, 16/05/1964

19/09/2024

Uma estória de amor

A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguia se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. “Não se preocupe, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá...”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

10/07/2024

Acerca da dor, do amor, da felicidade


 “Numa cena do filme Terra das Sombras, o personagem do historiador inglês C. S. Lewis pergunta a um colega de universidade se ele é feliz. O colega responde: ‘Eu sou o que sou; a vida é o que é. O que tem isso tem a ver com felicidade?’
O diálogo dizia respeito ao amor. Lewis estava apaixonado pela poetisa americana Joy Gresham, e o colega ignorava o que era amar. Na sequência, Joy morre inesperadamente de câncer. O sofrimento de Lewis é imenso e a moral do filme é clara: sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas, como a do colega de Lewis. Nada substitui a felicidade erótica; nada traz o alento do amor-paixão romântico correspondido. Diante dele tudo empalidece; sem ele, até o que engrandece perde a razão de ser.”

Jurandir Freire Costa, em Sem fraude nem favor

01/05/2024

Ao que leva o amor

– (Eu te amo)
– (É isso então o que sou?)
– (Você é o amor que tenho por você)
– (Sinto que vou me reconhecer... estou quase vendo... falta tão pouco)
– (Eu te amo)
– (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro.)

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

20/04/2024

Amor sem fim

Foi um amor sem fim. Namoraram, ficaram noivos. Às tardes ele ia fielmente à casa dela. Assentavam-se nas cadeiras de vime colocadas na calçada e conversavam. Faziam planos para o futuro como fazem todos os noivos. Enquanto isso ela bordava o enxoval. O tempo passou. A canastra do enxoval ficou cheia. E assim continuaram, fazendo planos para o futuro e cuidando do enxoval, até que ficaram velhinhos. Aí, deixaram de fazer planos para o futuro e passaram a confidenciar memórias do passado. Nunca brigaram. Nunca pensaram em se separar. Foram felizes até que a morte os separou.

Rubem Alves, in O Velho que Acordou Menino

15/04/2024

O presente

... amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

18/10/2023

Você quer ser amado ou quer ser amado à sua maneira?

Confesso que não li o livro As 5 linguagens do amor, de Gary Chapman, mas ouvi a respeito e a ideia me parece interessante. Basicamente, o autor afirma que as pessoas manifestam o amor de cinco formas diferentes: através do toque físico, das palavras, dos presentes, dos atos de serviço e do tempo que dispensam ao outro. Algumas pessoas exploram diversas dessas formas; outras, apenas uma ou duas, mas todos o fazem de alguma maneira.
Frequentemente ouvimos as pessoas queixarem-se de falta de amor – sejam aquelas que vivem em relacionamentos estáveis, sejam aquelas que vivem em busca deles. As pessoas reclamam do egoísmo alheio, sentem que apenas elas se doam nas relações (ou nas tentativas de se relacionar) e consideram-se injustiçadas por, teoricamente, darem mais amor do que recebem.
Há algum tempo, assisti à palestra de uma amiga sobre Direito de Família e ela associou as ideias de Gary Chapman aos processos de divórcio, afirmando que algumas vezes as separações acontecem porque as pessoas não são capazes de identificar o amor no comportamento do outro, apesar de ele existir. E muitas vezes a perpetuação desses processos são formas de tentar manter o vínculo com o outro, uma vez que, nesses casos, o afeto perdura.
Realmente é muito difícil tentar entender e sentir como amor atos que não nos parecem amor, frequentemente porque a nossa forma de amar é mais óbvia. Sobretudo para aqueles que, como eu, são os adeptos das palavras e do toque, tão facilmente identificados como expressões de afeto, é difícil entender o amor nos atos mais práticos ou mais subjetivos.
É muito mais fácil acusar o outro por suas supostas falhas do que analisar calmamente os atos, buscando entender o que eles querem verdadeiramente transmitir. É fácil queixar-se por não ser amado quando, na verdade, estamos reclamando por não sermos amados à nossa maneira. E isso vale para todos os nossos relacionamentos: conjugais, familiares, amizades.
Muitas vezes, a personalidade e a história de vida das pessoas trazem certos bloqueios à expressão verbal do amor ou aos beijos e abraços. Uma criação mais fria por parte dos pais, insegurança com o próprio corpo, questões culturais e quiçá astrológicas podem fazer com que alguns amores fiquem camuflados no dia a dia. O que não quer dizer que eles não existam, nem que essas pessoas não façam o melhor que podem.
Isso não significa que nossas formas de amar não devam ser revistas ou repensadas. Parece-me que também é preciso fazer um certo esforço para tentar dar um pouco do que os outros esperam. Ao mesmo tempo, é preciso não esperar exclusivamente um amor que seja o reflexo do nosso.
Um “Eu te amo” reside em muitas frases diferentes. Em “Comprei essa bolacha que eu sei que você gosta”, em “Deixa que eu te ajudo com a declaração de imposto de renda”, em “Vem aqui que você precisa cortar a unha”, em “Eu te busco no aeroporto”, em “Apaga essa merda desse cigarro”, em “Pega um casaco que tá frio lá fora”, em “Você tem dinheiro pro táxi?”. Algumas vezes o “Eu te amo” sai em forma de “Eu te amo”. Tantas outras não. Mas ele está lá. Basta estar disposto a encontrá-lo em vez de reclamar a sua suposta ausência.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

13/10/2023

Amor

Uma vez há muito tempo encontrei numa fila qualquer um amigo e estávamos conversando quando ele se espantou e me disse: olhe que coisa esquisita. Olhei para trás e vi – da esquina para a gente – um homem vindo com o seu tranquilo cachorro puxado pela correia.
Só que não era cachorro. A atitude toda era de cachorro e a do homem era a de um homem com o seu cão. Este é que não era. Tinha focinho acompridado de quem pode beber em copo fundo, rabo longo, mas duro – é verdade que poderia ser apenas uma variação individual da raça. Pouco provável no entanto. Meu amigo levantou a hipótese de quati. Mas achei o bicho com muito mais andar de cachorro para ser quati. Ou seria o quati mais resignado e enganado que já vi. Enquanto isso o homem calmamente se aproximando. Calmamente não. Havia certa tensão nele. Era uma calma de quem aceitou a luta: seu ar era de um natural desafiador. Não se tratava de um pitoresco: era por coragem que andava em público com o seu estranho bicho. Meu amigo sugeriu a hipótese de outro animal de que na hora não se lembrou o nome. Mas nada me convencia. Só depois entendi que minha atrapalhação não era propriamente minha: vinha de que aquele bicho ele próprio já não sabia o que era, e não podia portanto me transmitir uma imagem nítida.
Até que o homem passou perto. Sem um sorriso, costas duras, altivamente se expondo; não, nunca foi fácil ser julgado pela fila humana que exige mais e mais. Fingia prescindir de admiração ou piedade. Mas cada um de nós reconhece o martírio de quem está protegendo um sonho.
– Que bicho é esse? – perguntei-lhe e intuitivamente meu tom foi suave para não feri-lo com uma curiosidade. Perguntei que bicho era aquele mas na pergunta o tom talvez incluísse: por que você faz isso? Que carência é essa que faz você inventar um cachorro? E por que não um cachorro mesmo então? Pois se os cachorros existem! Ou você não teve outro modo de possuir a graça desse bicho senão com uma coleira? Mas você esmaga uma rosa se apertá-la com carinho demais. Sei que o tom é uma unidade indivisível por palavras. Mas estilhaçar o silêncio em palavras é um dos meus modos desajeitados de amar o silêncio. E é quebrando o silêncio que muitas vezes tenho matado o que compreendo. Se bem que – glória a Deus – sei mais silêncio que palavras.
O homem sem parar respondeu curto embora sem aspereza.
E era quati mesmo. Ficamos olhando. Nem meu amigo nem eu sorrimos. Este era o tom e esta era a intuição. Ficamos olhando.
Era um quati que se pensava cachorro. Às vezes com seus gestos de cachorro retinha o passo para cheirar coisas – o que retesava a correia e retinha um pouco o dono na usual sincronização de homem e cachorro. Fiquei olhando aquele quati que não sabia quem era. Imagino: se o homem o leva para brincar na praça, tem uma hora que o quati se constrange todo: “Mas santo Deus, por que é que os cachorros me olham tanto e latem feroz para mim?” Imagino também que depois de um perfeito dia de cachorro o quati se diga melancólico olhando as estrelas: “Que tenho afinal? Que me falta? Sou tão feliz como qualquer cachorro, por que então este vazio e esta nostalgia? Que ânsia é esta, como se eu só amasse o que não conheço?” E o homem – o único a poder de livrá-lo da pergunta – este homem nunca lhe dirá quem ele é para não perdê-lo para sempre.
Penso também na iminência de ódio que há no quati. Ele sente amor e gratidão pelo homem. Mas por dentro não há como a verdade deixar de existir: e o quati só não percebe que o odeia porque está vitalmente confuso.
Mas se ao quati fosse de súbito revelado o mistério de sua verdadeira natureza? Estremeço ao pensar no fatal acaso que fizesse esse quati se deparar com outro quati, e neste reconhecer-se, ao pensar nesse instante em que ele ia sentir o mais feliz pudor que nos é dado: eu... nós... Bem sei que ele teria direito quando soubesse de massacrar o homem com o ódio pelo que de pior um ser pode fazer a outro ser: adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo. Eu sou pelo bicho e tomo o partido das vítimas do amor ruim. Mas imploro ao quati que perdoe o homem e que o perdoe com muito amor. Antes de abandoná-lo.

Clarice Lispector, in Toda as crônicas

07/09/2023

Amor

♦ Amor com amor se paga. E nada mais.
♦ Amor de homem e mulher: enigmas, mistérios e equívocos traçados numa rede de quebra-cabeças, charadas e adivinhações sem chaves nem conceituações.
♦ Da cintura para cima o amor é platônico. Da cintura para baixo é anacrônico.
♦ Fala-se muito em não saber amar. O difícil é se deixar amar.
♦ Lição primeira e única – amor não é coisa para amador.
♦ O amor chega sem ser pressentido e sai fazendo aquele quebra-quebra.
♦ O amor está pro casamento como uma herança está prum contrato de compra e venda.
♦ Amar o próximo / É folgado / O difícil é se dar / Com o homem do lado.
♦ O sol não brilha sobre os mal-amados.

Millôr Fernandes, in Millôr definitivo: Uma antologia de a Bíblia do Caos

26/07/2023

Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa, in Antologia Poética

13/06/2023

Amor e fé

Kate estava na fila do Burger King. Era mais um dia falho de verão em Belfast, no qual um casaco leve nunca bastava. Passava as mãos pelos braços, que estavam levemente arrepiados, levantando seus poucos pelos loiros. Bill estava atrás dela e reparava, encantado, na nuca de Kate, que era muito mais comprida do que o normal.
Ela tinha 18 anos e ele acabara de completar 20. Apaixonaram-se assim que ela se virou com a bandeja, que equilibrava a batata frita apoiada no refrigerante, e deu de cara com ele. Bill, na verdade, já havia se apaixonado quando deu de nuca com ela. Nem precisou da cara.
Tratava-se de um típico romance de Burger King, sem maiores complicações. Não havia crises de ciúmes, desconfiança nem longas discussões. Eram simples como sorvete e hambúrguer. Gostavam-se, riam, beijavam-se e passeavam por aquela estranha cidade, frequentemente abrigados em um guarda-chuva amarelo.
Passaram-se dois meses até que resolveram encarar o assunto. Eram jovens, mas já haviam vivido o suficiente para saber que aquilo não seria simples. No melhor estilo Romeu e Julieta, Bill era católico e Kate era protestante. Ou melhor: a família dele era católica e a dela era protestante. Eles já nem eram muita coisa. Eram apenas jovens que acreditavam em coisas mais simples como o novo álbum do Ed Sheeran e a necessidade de encontrar um bom emprego para sobreviver. Ainda assim, sabiam que não seria fácil.
A marcha da Ordem Laranja seria no fim de semana seguinte, mas, mesmo assim, resolveram contar aos pais sobre o namoro recente. Não havia momento menos propício para fazê-lo do que aquele, que marcava a longa e dolorida divisão religiosa do país. Mas eles não podiam mais esperar. Amor jovem nunca pode esperar. Contaram, cada um em sua casa, na mesma hora. Explicaram-se, justificaram-se, prometeram. E, curiosamente, católicos e protestantes, por serem tão diferentes, reagiram exatamente da mesma forma: acabem com isso agora. Agora.
Como não poderia deixar de ser numa história como esta, Bill e Kate resolveram fugir. O destino escolhido era Londres, onde, em tese, poderiam ser livres. Planejaram tudo às pressas e com pouco dinheiro. Saíram de suas casas com mochilas nas costas. Era, efetivamente, o dia da marcha da Ordem Laranja. Algo quase simbólico para aquela rebeldia. Encontraram-se perto da Queen’s University e caminharam apressados rumo à estação de trem.
Quando passavam por uma das ruas isoladas pela polícia local para que a marcha protestante não passasse em frente a uma igreja católica, ouviram gritos. Cerca de seis homens embriagados espancavam-se em nome da fé. Foi quando um deles arremessou uma garrafa de vidro. A garrafa voou incerta, até chegar com toda força à longa nuca de Kate. A velocidade entre o golpe, o desmaio, o tombo para a frente, a queda, o esmagamento da frente do crânio pela pancada contra a calçada e a morte de Kate foi tão curta quanto o tempo que os homens levaram para avançar contra Bill. Os bêbados protestantes julgando-o católico e os bêbados católicos julgando-o protestante. Bill foi atingido em quase todos os pontos do corpo. Teve a sorte de ficar desacordado logo com o primeiro soco no rosto. Caído no chão, recebeu incontáveis chutes, perdeu dentes, quebrou costelas. Por sorte, Bill também não sobreviveu.
Nenhum dos dois teve tempo de entender o que aconteceu nem de chorar a perda de tamanha paixão. Seus corpos foram recolhidos e enterrados em cemitérios diferentes, em pontos opostos da cidade, honrando o fato de um ser católico e a outra protestante. Ambos tiveram missa de sétimo dia, para que a mesma fé que lhes matou agora assegurasse que eles entrassem serenos no reino de Deus.
Os pais dele culparam os protestantes pela morte do filho, sobretudo a finada namorada, tão morta quanto perigosa, do alto dos seus 18 anos. Os pais dela culparam os católicos pela dolorosa perda, especialmente o rapaz, que tirou a filha do caminho correto para levá-la até a morte.
As famílias encontraram conforto na igreja para poderem seguir adiante, com o peito cheio de saudades. E, em nome de Deus, também cheio de ódio.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

12/04/2023

Amor

Love is a mortal sample of immortality.
O amor é uma amostra mortal da imortalidade.

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

19/11/2021

Da felicidade, do amor, da harmonia

 “Do mesmo modo que às vezes digo que, em lugar da felicidade, creio na harmonia, penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.”

José Saramago, in As palavras de Saramago

14/11/2021

O sempre amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
Amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.

Adélia Prado

14/10/2021

Do amor

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.
Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in As palavras de Saramago