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05/10/2024

12 de maio de 1958

Um sorriso suave embelezava seu rosto de senhora de cinquenta e dois anos. Cumpriam-se doze da morte de Pedro Henriquez Urena.
Ambos o recordamos e ela repetiu o que me havia dito em 1946: para minha juventude, a perda era irreparável, porém nada apagaria em mim a lembrança de meu grande mestre. Vaguei pelo quarto. Os olhos de minha mãe não se despegavam de mim. Condenada por uma cruel doença cardíaca, jamais manifestou cansaço ou queixou-se, e foi fonte de vida e de solidariedade para com os demais. Quando decidi retirar-me, reteve minhas mãos nas suas e me disse: Não permitas que te destruam. Adormeci pensando nessas palavras. Durante a noite sonhei que resolvia vários assuntos na cidade e em La Plata, e que os mesmos me angustiavam, embora não fossem de natureza que justificassem esta sensação. Pela manhã avisaram-me que minha mãe havia morrido.
Corri ao apartamento de Viamonte, junto a Maipú. Já se estavam cumprindo as primeiras formalidades próprias de tão triste circunstância. Na primeira pausa de minha dor abri, com segurança, a gaveta de sua mesinha. Aí estava a carta, escrita na véspera com sua serena letra inglesa. Pedia-me que tratasse de vários assuntos em Buenos Aires e em La Plata: eram aqueles assuntos com que eu havia sonhado.

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

04/08/2024

Tamam Shod

Ontem chegamos de Teerã. Quinhentos quilômetros de areais, povoados mortos, postos de caravanas em ruínas, as formas caprichosas da meseta iraniana. Estávamos cansados e, excitados. Um banho e um bom chá no Shah Abban, e saímos a caminhar.. Jardins, avenidas, cúpulas, minaretes. Em Isfahan a noite é feérica, o céu é perfeito.
Quando regressamos ao hotel, extenuados e felizes, conversamos até que o sono nos venceu.
Sonhei que no centro da prodigiosa cúpula da mesquita Lutfullah estava escondido um rubi de virtudes mágicas. O judicioso que pára justamente debaixo dele, guarda silêncio e prende a respiração, recebe a visão de um tesouro, assim como a indicação do lugar onde ele se encontra. Sua existência não pode ser definida nem se deve tentar sua posse, pois quem ousar se transforma em madeira, a madeira em nuvem, a nuvem em pedra e a pedra se quebra em mil pedaços. O rubi proporciona deleite ou assombro, mas não autoriza o enriquecimento.
De manha voltamos a Meidan e Shah. Visitamos o palácio Ali Qapu desde seus últimos corredores até a sala de música.
Surpreenderam-me as escadarias com degraus demasiadamente altos e incrivelmente estreitos. Alguém explicou que era para impedir o acesso aos cavalos inimigos.
Enquanto Melania se demorava no terraço que dá para a antiga quadra de pólo (a mais bela praça do mundo), não resisti mais. Cruzei até a Lutfullah, coloquei-me bem debaixo do conjunto da cúpula, fiquei em silêncio e contive a respiração. Uma luz ocre peneirava todos os matizes. Subitamente— meu Deus! — O tesouro era surpreendente, de inúmeras riquezas, perto, fácil de obter, entre as ruínas de um dos antigos mirantes ou pombais, ou casas de prazer fora da cidade. A visão me foi concedida em um segundo interminável de vertiginoso esplendor.
Regressei a Ali Qapu. Percorremos a mesquita das Sextas-Feiras, cruzamos a velha ponte de trinta e tantos arcos...
Terminarei estas notas ou me pulverizarei na pedra?

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

12/07/2024

In illo tempore

Cheguei no dia 18 de março de 1949 para ingressar no Colégio do México como bolsista. Os companheiros que haviam ido receber-me entre eles Sônia Henriquez Unena — levaram-me a uma pensão de estudantes e se despediram. Arrumei meus magros pertences (que incluíam um dicionário de latim) e me dispus a dormir. Depois de uma viagem de trinta e quatro horas, eu estava cansado.
Sonhei que haviam transcorrido dois meses. Nas vésperas do meu regresso a Buenos Aires, Alfonso Reyes me convidava para um fim de semana em um hotel de Cuernavaca e, como despedida, lia para mim sua tradução dos primeiros nove cantos da Ilíada, tradução que eu havia visto progredir, de sábado a sábado, nas inesquecíveis e distantes tardes da “Capela Alfonsina” na então Rua das Indústrias. Alfonso Reyes lendo Homero para mim, sozinho, e a meseta de Anahuac em redor! (Não afirmou Pedro Sarmiento de Gamboa ter encontrado em terra mexicana uma pegada de Ulisses?) Presenteei-o com a adição de poesias completas de Lugones, que incluía suas versões homéricas.
Na manhã seguinte despertei muito cedo. O colégio ficava há pouco mais de uma quadra, na rua Nápoles número 5. Cheguei quando as portas ainda estavam fechadas. Comprei um exemplar de Novedades e me pus a ler. Pouco depois vi Raimundo Lida. Subimos à sala de Filologia, no segundo andar. Uma hora mais tarde, disse-me Lida: “Don Alfonso o espera”. Desci. “Roy, dê-me suas duas mãos. Desde hoje, esta é sua casa. Sente-se”. E, sem mais demora: “Fale-me de Pedro”.
Comecei a falar. Desordenadamente. As lembranças me oprimiam.
Reyes (oh, ele havia sido seu amigo mais íntimo, de perto e de longe, durante quarenta anos) não ocultou sua emoção. A lembrança de Pedro Henrique Urefia, fixa como as estrelas, cálida como a amizade, nos unia.
Passaram os meses. Dias antes do meu regresso a Buenos Aires, Alfonso Reyes convidou-me para um fim de semana em um hotel em Cuernavaca, junto com D. Manuela. Imaginei o que ia ocorrer: levei o livro de Lugones. Durante dois dias (oh, deuses, para mim sozinho) D.
Alfonso me leu sua tradução rimada dos primeiros nove cantos da Ilíada.
Sonhei então, que chegava ao aeroporto da Capital asteca e que os companheiros que tinham ida receber-me, me levaram até uma pensão de estudantes e se despediam. Arrumei meus magros pertences (na verdade pouco usei o dicionário de latim) e ria manhã seguinte, já no Colégio, Raimundo Lida me disse: “Don Alfonso o espera”. Desci.
Roy, dê-me suas duas mãos. Desde hoje, esta é sua casa. Sente-se”. E, sem mais demora: “Fale-me de Pedro”. Comecei a falar. A lembrança de Henriquez Urena nos unia.

Roy Bartholomew, em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges