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07/06/2022

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, Meditação sob os lajedos

03/01/2020

Eclipses

Ninguém partiu
ou ficou abandonado:
como quem foi ali
comprar cigarros,
tinta que se foi,
no muro esquecida,
descascando calada;
o amor se foi
devagar feito sombra
a voltar para a árvore,
devagar feito féretro
atravessando a cidade,
feito estrela fátua,
a se apagar
na própria claridade.
Alberto da Cunha Melo