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13/10/2026

Zoo

O dromedário apesar-de. O camelo, além-de. A girafa, sobretudo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

09/10/2026

Sertão-Veneza

 



Só importa a Beleza. Mas a Beleza é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa

Em 9 de outubro de 1949, João Guimarães Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus Diários da Itália sua partida no trem das 9h15 de Milão para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus, restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse “sertão” insular, milenar e suspenso.

No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 –, Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da

Itália e no Diário da Alemanha, casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações, sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua cidade. Ele tem a motivação de quem, ao invés de viajar para longe e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão: veredas.

Sobre o desejo de empreender essa viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do Brasil em Munique: “Estou-me preparando para, daqui a dias, ir acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila, cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão em “Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em Nhecolândia, no Pantanal Mato-Grossense, cujo relato pode ser lido nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao pantanal e Uns índios – sua fala.

Viagem ao passado. Jornada de sonhos, mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou Italo Calvino. No livro As cidades invisíveis, o autor italiano resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza – ou às encantadas Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu personagem-protagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em epifanias. Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza – cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona como um reflexo – mas também como uma distorção – da cidade-mãe-mito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante, aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento quanto da eternidade.

Os mesmos detalhes e rigor, o mesmo fruir e encantamento que se percebe em A boiada também são saboreados em seus Diários da Itália. Rosa se mostra apaixonado pelas gôndolas e pelas conversas dos gondoleiros (ao chegar em Veneza, ele se deslumbra de tal forma que até a sua letra garranchada, tremida e inelegível se transforma). Em vários momentos, desenha essas embarcações venezianas, comenta seus nomes e anota também o que está ao redor. Parece não ter medo, só encanto e fascínio pelo rio e por aquele que o conduz. “(cidade de) Mestre: chegamos a Veneza às 6h40. As gondolas, no lusco-fusco, como bichos do mar. O deslumbramento. A lua aponta.”

Jacques Fux, em Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas

03/10/2026

A velha



Sua primeira menção, um tanto confusa, foi em qualquer manhã, pelo telefone. Uma senhora, muito velha e doente, pedia que o Cônsul lhe fosse à casa, para assunto de testamento. Frau Wetterhuse.
O recado se perdia, obrigação abstrata, no tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. Vê-los, vinha à mente a voz de Hitler ao rádio — rouco, raivoso. Contra esses, desde novembro, se implacara mais desbordada e atroz a perseguição, dosada brutal. Viesse a guerra, a primeira ordem seria matá-los?
O nome Wetterhuse extinguia-se num zumbido, com o que o Norte tem de mais brumoso. Mas, seguinte, na semana, voltava, a súplica, embaixada-de-jó, apelo insistido. Prometi-me de ir lá. Fazia todo o frio.
Sumia-se no dia noturno a bela, grande cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre. Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados glaciais chicotes — nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a suástica, a águia de abertas asas. A fora, as sombras dos troncos de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita. Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela natureza era manso, era mau? Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso, ante o critério último — o pecado de nascer — na tese anaximândrica. Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida.
A casa era no Harvesterhude, umbrosa, meio a um jardim que no verão teria sido amável, com seus olmos e os maciços de tuias e rododendros. Toquei e levaram-me ao salão — como se subterrâneo. Havia lá uma invernia de austeridade, o cheiro de irrenovável mofo e de humanidade macerada. Tapeçarias, reposteiros de falbalás, muito antigos móveis, tudo se unia num esfumado: as cinzas da neve. Assustava a esdruxularia daquele ambiente solífugo e antimundano, de sopor e semiviver, o sentido de solidão; circunstando um ar frio. Tinham acendido lareira. Dos lustres descia uma luz, de velas, era luz em cemitério. Esperava-se encontrar, em torno, duendes e lêmures. Encontravam-se criaturas — ao todo cinco mulheres, todas velhas, que se retraíam, estafermáticas, estornicadas nas vestes de veludo ou gorgorão de lã, de golas altas, longas mangas, terrível decoro.
Ao centro, numa poltrona em estrado — deveria ficar mais alta que nós, segundo um rito — a mais anciã. Era extraordinária de velha, exaustamente o rosto, todo angulado, cavado de sulcos, e em cujo esqualor olhos havia, ex-azuis, sem íris, de despupilada estátua. Passaria dos noventa, parecia centenária. Desde as aparências, porém, sabia-se que a gentil-dama, feita às sociais sobrancerias e ao comando íntimo, e a quem o recato levara a levantar-se do leito de semiparalítica, e ser vestida e colocada ali, em elevado assento, de mágoa hirta, de sua lívida vontade. E precisava de ser ouvida. Beijei-lhe a mão, os trêmulos dedos definhados.
Era a Dame Verônika. Dame Angélika, sua filha, e três parentas, as outras, ressemblantes, com, que nem que perucas, os tão brancos cabelos, que teriam sido amarelo-palha. Ordenadamente se sentavam, cada qual com mal pegado sorriso, prontas a conservar-se de parte, sentindo-se demasiado presentes ao versar do assunto conspirável. O qual, a justo ver, elas desconheciam.
Desfez-se um silêncio. Dame Verônika tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez; repetia-as, balbuz, sob algum afrontamento, com um arrulha de asma. Ora fechava os olhos, sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. Devia de estar repassando-se de algo, muito passado, trazido de um túnel, relutante na resistência à evocação, fato de estrangulada memória. Confundia-se; eu tinha de prestar ouvidos. De repente, encarou-me mais, dava-me o todo gris dos olhos. E começara a falar em português.
Falava-o, tão perfeitamente, e não mais naquela dicção fosca, mas ressurgida, anos d’ora-atrás. E vi — que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim, nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como se falasse figura, de um álbum desbotado.
— “Vivi em vosso país, vossa pequena formosa cidade de Petropolyís... Conheci vosso bom Imperador — ele estudava o hebraico. Vosso Imperador estimava meu marido, Káspar... Dr. Káspar Eswepp, sabeis? Vosso Imperador nos convidava ao paço...”
Relembrava — revocava — sorriu-se a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali, na parede, de corpo inteiro, o marido. — “Ele era judeu, sabeis?”
E — o retamente, o raso: a filha, também tão idosa Dame Angélika, seria teuto-hebreia uma mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código hediondo. Dona Verônica o disse, de soçobro. A filha, por sua eiva aboriginal, corria grave perigo. Ela, a Mãe, tinha de solicitar-se daquilo.
Sofria, seca. Preparava-se? Para desvendar-me seu motivo: o drama, sobreestranho, o coração da coisa, vagarosíssima verdade:
— “Minha filha não é filha do meu marido. Nem ela, nem ele jamais o souberam... Foi em vosso país... O pai da minha filha era um amigo nosso, que nos frequentava... O pai de minha filha não era de sangue judeu...”
Teve um sorrisinho titânico. Endireitou o busto, alisava-se o rosto, num ademã de extrema dignidade, fizera-se altiva. Num momento, ela precisara de profundar um poço, arrancar em si o que tanto sepultara à força do tempo, desistir do longo benefício do olvido. E já era a dor de dar, à fé, uma sua turpitude secreta, exsuscitar um negrego, a fementira. Seu coração não pesava um miligrama?
Ali, as outras quatro mulheres permaneciam, salvaguardadas, em circunstância de surda sociedade, sem participação emotiva. Aquelas meditavam o que não podiam entender — Dame Angélika, damas Filippa, Osna e Alwyna.
Dona Verônica não se voltara para a filha; só a mim encarava, ávida. Não sem intuito descobrira-me o inarrável. Tinha de satisfazer o problema, intentar o sarcimento. Sanar o obviável. — “Não? Sim?” E queria reforçar-se com minha opinião, tomar conselho. A filha não tinha sangue da outra raça. —“Por que, pois?” Pertencia-lhe, fidedigna,declarar aquilo, fatal como o sol, verifazer o real, renegar o inautêntico. Tomaria o grave passo. A tanto preço — o de se inquinar e malsinar-se, para o pouco restante da vida. Em dizer, porém, que não lhe era possível prestar fatos, produzir testemunhas, recorrer no caso à prova de sangue, nem ao menos apelar para a razão pública. Tão longe, tantos anos... Mas, quem sabe, poderia ter o apoio de um grande, forte país, de gente tão fidalga, de tanta ponderância! — “Sim. E?” Pegou o lenço, tivera um jacto de tosse. Ansiosa, querulante: — “Foi em vossa formosa, pequena cidade de Petropolyís...”
Não, em fato. Não. Tive de sacudir a cabeça. Dame Angélika nem mesmo era brasileira. Tudo indeterminado, sem fundamento certo, apenas o citar de um romance perdido no antigo, tão esfiapável, pátina, voz para memória. Quem iria querer crer? Ela mesma, Dona Verônica, não se lograva de ilusões. Ah, vivera demasiado tempo, distanciara-se das possibilidades manejáveis das coisas. Teve o chluque de um soluço. Ofegou. Ia abater-se. Súbito, porém, rompendo-se do desalento, algo flamejou nela, que nem um rebrilho de alma — uma glória — e exclamou:
— “Ele foi um vosso compatriota, um homem nobre... O amor de minha vida!...”
Sopitou-se, desopressa. Como poder pagar sua dívida dourada? Levantei-me; eu nem era um cooperador passivo do destino. Também aquelas senhoras presentes se levantaram, em sincera, distinta cortesia. Ali, borbulhavam pensamentos. Desfalecidos espíritos. Só silêncio. Dona Verônica mostrava-nos seu comprido rosto, escalavrado, blafardo, diáfano pergaminho. Dona Angélica passava-lhe meiga a mão por trás da cabeça. Todos nós jazíamos de pé, em volta dela. A longa mulher. O sistema do mundo. A velha vida.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

29/09/2026

Teatrinho




Temos de começar pela bibliografia: Journal (1943-1945), de Julien Green; e A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo.
É que os dois contam, cruzadamente, uma passagem, um caso que se deu, a 4 de agosto de 1944, no Mills College, Oakland, Califórnia, Estados Unidos. Emparelhá-los seria já de si curioso, texto e texto. Mas o próprio caso, em si, paga; veja-se que vale a pena.
Veríssimo é imparcial, jovial, sem rugosidades, entre distâncias. Aliteradamente, é um riacho: lúcido, lépido, límpido. E bom contrarregra. Tenham como traz os personagens. Diz:
De Julien Green: “... é um homem de estatura meã, construção sólida, tez dum moreno claro, cabelos e olhos escuros e um nariz gaulês, longo e fino. É retraído e tímido, dessa timidez que à primeira vista pode parecer empáfia. Só depois duma apresentação formal, durante a qual ele tirou da cabeça o panamá creme, é que passou a me cumprimentar, mas sempre cerimoniosamente.”
E de Carrera-Andrade: “Alto, corpulento, monumental, com seu bigode aparado, seus olhos de índio... Temos feito longos passeios pelo parque, a conversar sobre homens e livros, viagens e ideias. Ao cabo de dois dias começamos a divergir em quase todos os assuntos que atacamos.”
Mas, do que Veríssimo desdobra, entende-se também um Carrera-Andrade rei no intolerar, exorbitante:
“... Um dia, ao cabo de uma dissertação que lhe fiz relativamente à minha atitude diante do mundo, concluiu:
“— Mas você não é um escritor latino.
“— Por quê?
“— É um homem frio, metódico, insensível.
“— Insensível? Frio? Essa é boa...
“— Eu o tenho observado todos estes dias, tenho acompanhado as suas reações às coisas que lhe dizem, às pessoas que o cercam.”
Veríssimo sorri e desvê de mais explicar-se.
Mas Carrera-Andrade — que usa palmadas na coxa e outros jactos de impaciência — declara amor ao “povo”, tem pendores para isso. Sua má-vontade para com os norte-americanos se acende sempre. Assim:
“— Que se pode dizer dum país onde nem criados existem!
“— Mas, meu caro poeta — observo —, você não me disse que era socialista?
“— Pues si, amigo... Pero eso es diferente. Siempre habrá señores y esclavos.”
Dando a um o dado ao outro, compara-se agora. Green, no 3-V-43 de seu diário:
“Há os que deixam de repente de crer em Deus. Quanto a mim, noto que deixo, pouco a pouco, de crer na humanidade. Por muito tempo, ela se me impôs, com seus discursos, suas leis, seus livros, mas começo a vê-la sob o verdadeiro aspecto, que é triste, porque é uma velha louca, cujas crises de ferocidade alternam com sorrisos.”
Carrera-Andrade faz belos versos, será “um dos mais interessantes poetas modernos da América espanhola”. A pessoa de um homem é uma catarata de surpresas.
E Green, que convive com a Bíblia e compulsa o dicionário hebraico, ignora a existência de Carrera-Andrade, mas sabe que o Demônio existe. Green é um místico irresoluto. Passeia por si mesmo, como em claustro circular, plataforma para o invisível. Glosa a danação e a graça, o problema do mal, o destino, o pecado, o jogo entre Deus e o homem.
Mas, volta a falar Veríssimo, e a cena principia:
“... Acha Carrera-Andrade que Julien Green habita numa torre de marfim, alheio aos conflitos e inquietações sociais do momento.
“— E se promovêssemos um encontro..., por exemplo, um almoço com Green, para submetê-lo a uma sabatina? — pergunta-me ele.”
Arma-se o almoço. Julien Green vem sentar-se à mesa dos sul-americanos, sem suspeitar da cilada que lhe puseram. Veríssimo vai contando:
“... Finalmente Carrera-Andrade aproveita uma deixa e entra no assunto:
“— Mr. Green, não encontramos nos seus romances nenhuma inquietação relativa aos fenômenos sociais do nosso tempo. Não há neles nem mesmo menção desses problemas...
“Green fita no interlocutor seus olhos sombrios. O poeta continua:
“— Talvez tenha sido para evitar essa dificuldade que o senhor situou a ação de Adrienne Mesurat antes das duas Guerras...
“Todos nós esperamos a resposta com interesse. Uma expressão quase de agonia passa pela fisionomia de Julien Green. Ele olha para os lados, como a pedir socorro. Finalmente tartamudeia:
“— Problemas sociais? Como poderei escrever a respeito deles... se não os conheço? Só posso escrever sobre minha experiência humana... Essas questões sociais estão fora da minha experiência... Não é que eu não me interesse... Acontece que me sinto verdadeiramente perdido neste mundo.
“Carrera vai insistir. Isso me parece crueldade, crueldade de toureiro que, depois de farpear um touro, de vê-lo sangrando, exausto, quer ainda ir até o golpe final de espada.”
(Veríssimo é amigo de Thornton Wilder; leu o de Michael Gould, sabe que as paixões vivem de equívocos; opina:)
“Penso que um escritor da importância de Green merece não apenas admiração, mas também respeito. É, sem a menor dúvida, um romancista sério. Não falará a nossa língua, o que não quer absolutamente dizer que seja mudo. Não pertence ao nosso mundo, o que não quer dizer que deva ser votado ao inferno. Por outro lado parece-me que seus livros serão lembrados muitos anos depois que a obra de alguns dos escritores modernos de propaganda tenha sido completamente esquecida.
“Carrera-Andrade continua a atirar suas farpas. Acho melhor desviar a conversa do assunto. Vê-se claramente que Julien Green está infeliz.”
Mas — atenção — agora, à versão de Green no Journal:
“Ontem, na Casa Pan-americana, almocei em companhia de vários sul-americanos, um dos quais muito inteligente e os outros menos. Veríssimo, homem de grande modéstia apesar de seu sucesso, falou-me de meus livros. Ele é moço, com uma fisionomia agradável. À minha direita, uma espécie de bebê de bigodes pergunta-me, com voz em que já vibra a cólera, por que não escrevo romances ‘sociológicos’. Esse senhor sustenta, com efeito, que os romances devem servir para alguma coisa, que não são mais admissíveis as obras de arte que não sirvam para nada, e que seria ‘um real perigo haver escritores demais como Julien Green’. Digo-lhe então que esse perigo não é real, não é grande, e os outros todos começam a rir.”
E, pois, públicos aplausos: Não se diga que nosso patrício não se saiu excelentemente.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

24/09/2026

Azo de almirante



Longe, atrás uma de outra, passaram as mais que meia dúzia de canoas, enchusmadas e em celeuma, ao empuxo de remos, a toda a voga. O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer. Iam rumo ao Calcanhar, aonde se preparava alguma desordem. De um Hetério eram as canoas, que ele regia. Despropósito? O caso tem mais dúvida.

Eventos vários. Em fatal ano da graça, Hetério sobressaíra, a grande enchente de arrasar no começo de seus caminhos. Fora homem de família, merecedor de silêncio, só no fastio de vi­ver, sem hálito nem bafo. O gênio é punhal de que não se vê o cabo. Não o suspeitavam inclinado ou apontado ao êxito no século.
Na cheia, por chuvas e trombas, desesperara-se o povo, à estraga, em meio ao de repente mar — as águas antepassadas — por cima o Espírito Solto. Hetério teve então a suscitada.
Ajuntou canoas e acudiu, valedor, dado tudo, sabendo lidar com o fato, o jeito de chefe. Ímpetos maiores nunca houve, coisa que parecia glória. Salvou, quantidade. Voltado porém da socorreria, não achou casa nem corpos das filhas e mulher, jamais, que o rio levara.
Não exclamou. Não se pareceu mais com ninguém, ou ébrio por dentro, aquela novidade de caráter. Sacudia, com a cabeça, o perplexo existir, de dó sem parar, em tanta maneira. E nem a bola de bilhar tem caprichos cinemáticos. De modo ou ou­tro, já estava ele adquirindo as boas canoas, de que precisava.
Para o que de efeito. Destruíra-se a ponte da Fôa, cortando a estrada, ali de movimento. Hetério despachou-se para lá, tri­pulantes ele e os filhos, e outros moços, e arranjaram-se ao tra­vessio. Durado mais de ano, versaram aquilo, transpondo gente e carga, de banda para banda. Até cortejos de noivos passaram, sob baldaquim, até enterros, o bispo em pastoral, troços de soldados. Foi tudo justo. Obedeciam os outros a Hetério — o em posição personificada — o na maior, canoa barcaçosa, a caravela com caveiras.
Ao certo, nada explicava, ainda que de humor benigno, homem de cabeça perpétua; cerrando bem a boca é que a gente se convence a si mesmo. Morriam-lhe os inimigos, e ele nem por isso se alegrava, ao menos. Segue-se ver o que quisesse.
A ponte nova repronta, o bom ofício tocava a termo. Heté­rio, entretanto, se reaviara. Descobrira-se, rio acima, uma mu­lher milagreira jejuadora, a quem os crentes acorriam. Vieram também, para passadores, ele e os seus; todo o mundo é, de algum modo, inteligente. Travessavam, com acuração, os peregrinos da santa, aleijados, cegos, doentes de toda loucura e le­pra, o rico triste e o próximo precisado.
Semi-ator, Hetério, em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca, tivesse mudado talvez a lembrança da enchente e de sua ocasião de herói, que já era apenas virtude sem fama, um fragmento de lenda. Ao adiante, assim às águas — outras e outras. No rio nada durava.

Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas — de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente — de longe, soslonge.

Ainda não.
Seguindo-se antes outros atos. Desaparecida de lá a mulher beata, Hetério com os dele saíram-se imediatamente a mascatear, revendendo aos ribeirinhos mercadorias e miudezas, em faina de ciganos regatões. Sobe e descendo, nessa cabotagem trafegaram até a águas sãofranciscas, ou abocando a outros rios, as canoas mercantes separadas ou juntas, como de estanceio chegaram ao porto de Santo Hipólito e ao Porto-das-Galinhas, abaixo de Traíras, lugares de negócio, no das Velhas, de praias amarelas. Trazia ele então lápis e uma grande caderneta, em que assentava e repassava difíceis contas. Os que o seguiam, pensavam na riqueza.
Daí, vai, começou a construir-se barragem para enorme usina, a do Governo, em tumulto de trabalhadores, mil, totalmente, de dezenas de engenheiros. Rearvorado, logo Hetério lar­gou-se para lá, com seu lóide de canoas. Vales, a bacia, convertiam-se em remanso de imenso lago, em que podiam navegar com favor e proveito. Empreitaram-se, por fim, a contrato daqueles. Máquinas e casas, nas margens, barracões de madeira — e foi que um dos filhos de Hetério o deixou, para namorar e se casar. Hetério, ora, em oferecido tempo, encontrou um Normão, homem apaixonado, na maior imaginação. A paisagem ali tomava mais luz: fazia-se mais espelho — a represa, lisa — que não retinha, contudo, corpos de afogadas.
E esse Normão, propício, queria reaver sua mulher, que o pai guardava, prudente, de refém, na Fazenda-do-Calcanhar, beira­deã. Enquanto anos; e a usina deu-se por pronta. O rio não dei­xa paz ao canoeiro.

Assim ao de longe, contra raso sol, viu-se a fila de canoas, reta rápida, remadas no brilhar, com homens com armas, de Normão, que rumavam a rixa e fogo. Hetério comandava-as, defi­nitivo severamente decerto, sua figura apropriada, vogavante.

Certo, soube-se.
Aproaram aos fundos da do-Calcanhar, numa gamboa, e ata­caram, de faca em polpa. Troou, curto, o tiroteio. Normão, ven­cedor, raptada em paz a mulher, no ribanceiro acendeu fogueira de festa. As canoas todas entanto se perderam. Só na sua, Heté­rio continuou, a esporte de ir, rio abaixo, popeiro proezista, de levada, estava ferido, não a conduzia de por si, vogavagante; e seu outro filho na briga terminara, baleado.
Adiante, no travessão do Fervor, itaipava perigosa, a canoa fez rombo. Ainda ele mesmo virou-a então, de boca para baixo, num completamento. Safo, escafedeu-se de espumas, bra­cean­te, alcançou o brejo da beira, onde atolado se aquietou. Acha­ram-no — risonho morto, muito velho, velhaco — a qua­li­dade de sua pessoa.

Guimarães Rosa, em Tutameia

21/09/2026

Subles




Foi que, uma noite, sozinho em casa e avançando as horas, tomado de sono, deu-me entretanto de telefonar a um ou outro conhecido, ainda que sem assunto e contra meu costume.
Como em duas, três tentativas, a linha estivesse sempre ocupada, comecei, nem sei, a discar a esmo, do modo por que a mão da gente num vazio desses se distrai, tamborilando dedos, por exemplo, ou rabiscando letras e garatujas. Suponho ter formado, de curto, um número impossível e imprevisto, principiado por 7, 9 ou 8. E somenos cochilava, se por metade não dormia.
Despertou-me um apelo brusco:
— Quer falar com Subles?
Que sim, respondi, com presteza que ainda hoje não me explico. Verdade que eu conhecia o Subles, um único Subles, sujeito de raras palavras e riso nenhum ao guichê, funcionário bancário. Aquela hora, se bem o disse, eu não esquivaria interlocutor, aceitava qualquer conversa. Também o torpor que me nublava tirou-me de estranhar o acaso. Guardei o fone ao ouvido.
Sobre pausa normal — convém minuciar — soaram, fim de fio, confusas campainhas, e percebi vozes, como as que no comum se entremetem para as ligações interurbanas. Por uma vez admiti que a chamada partira do próprio Subles, surpreendendo-me por coincidência enquanto eu usava o aparelho; e quis imaginar de que lugar, e que motivo ou erro o trazia a mim. Em tão contadas ocasiões o vira e por último fazia tanto tempo, que nem poderia em rigor evocar-lhe a fala e as feições.
Momento e outro, alteou-se, não entendido, o retalho de colóquio das telefonistas; depois borbulhou no receptor apenas um gorgolejo morto, como o de dentro de um búzio. Demoravam, quase entrei em dúvida. Só silêncio. Enfim, porém, acertaram conexão linha adiante, onde regia voz oficial — crassa, espessa:
— Aão?
— Alô, alô... — me apressei.
Do outro extremo, insistiu, autônomo, o interrogador:
— Quer falar com Subles?
Concordei, sem fazer espantos, posto sabendo que telefonava de moto alheio. Digo que por então eu me lestara, livre da sonolência. Subles — sua memória — vinha palpando. O contínuo quotidiar é que relega as impressões, desmembra-as. Portanto, eu o tinha na lembrança, um pouco mais do que antes achava: a cabeça grande, grisalha, um desmedir-se de orelhas, as mãos, que muito se viam, hábeis no manipular recibos e maços de dinheiro, e o vezo grave, polido, de cumprimentar perguntando-nos: se toda a família passava bem?...
O fone captava simples estalidos, em meio de sussurros, voo menos que o de morcegos, outramente seguidos de rumores de arrasto, como se mudassem um cenário. Tinia com intervalos, mais remoto, o toque de campainhas. E bem o diálogo de telefonistas reescutava-se indistinto, ora uma frase se acentuando, em idioma extraordinariamente estrangeiro. Dei que, pelo melhor, arrumavam uma ligação mais que longínqua. Então, onde estaria Subles? Telefonar-me, ele a mim, dividia-se em ridículo e absurdo. De agora creio que me vi na maior suspensão. Continuei esperando.
Tornaram a chamar, e um ruído regular se estabeleceu, transferindo-nos de circuito. Mas a voz que saltou se distendia de ninguém, falseando timbre, tanto podia ser de homem ou mulher, de um velho, de uma menina.
— Que quer? Que quer? — pareceu-me perguntavam.
— Subles?! — exigi.
— Pode esperar Subles.
Por primeiro suspeitei estar sendo usado num gracejo. Mas a mesma dicção incarnal se seguia acolá, peremptória, por certo reclamando urgência. Teriam posto Subles numa prisão, num manicômio? Dava-me pena imaginar: ele trajado de preto, estragado, distante de todo o mundo. Devia ter naquele instante uma inadiável comunicação a fazer-me, talvez um pedido. Impacientei-me, bradei no bocal: — Alô! Alô!...
— Pode esperar Subles...
Pelo modo, através de engrenagem, trocavam de sistema, aprofundando-me para outro âmbito: pensei na possibilidade de uma rede clandestina. Tudo é tão clandestino, tanta coisa é possível, que a vida é o não-resumo de um milagre. Subles me chamava, de algum ponto perdido naquela trama.
— Alô?
Seria ele? Não o conhecia mais que acauteladamente. Nunca me ocorrera dar-lhe uma palavra desnecessária. Nunca o olhara de verdade.
Já aqui eu estava demasiadamente acordado, atento, lúcido. Ápices de vozes se erguiam, trazidas e levadas, feixe de murmúrios. A espaços, uma entressistia mais forte, renovava o nome de Subles. E alguém chorava, seguro estou, a um canto: emitia insuportável soluço, manso, em decrescendo; podia ser também um mecanismo.
Precisei de fechar os olhos e haver apenas o telefone; perto mesmo de mim, eu temia de repente qualquer coisa. Para acalmar-me, seria bem-vinda a própria fala inumana, já sabida, de séculos há pouco.
E, Subles, eu carecia de ouvi-lo. Compreendi que lhe queria bem, que seria meu amigo. Seus olhos podiam oferecer um raro entendimento profundo, principalmente só seu. Subia-me, de muito, uma tensa calma, algo para além do medo, inconcebível serenidade. Tentei entendê-la, substância evasiva, notar seu espaço de sonho. Foi porém imensamente breve, sem definição.
— Subles... — pedi, talvez só com arrancado pensamento.
— Sabemos. Subles.
— Sim!
— Subles ainda não chegou.
— Aguardo?
— Subles chegará dentro em pouco...
Não sei dizer se círculos de silêncio lançavam-me em seu centro, ou se um mar de música corroía em mim o que não fosse apenas alma — isto é, o intimamente estranho7. Esperei Subles, cujo recado urgia decifrar, de quem eu tinha de ouvir uma revelação. Se não, se não a recebesse, talvez o simples sentido da vida ficaria para mim para sempre incompreendido. Um fio devia unir-nos, e não funcionara. Ou sim? Mas aquela ausência humana tendia a desordenar-se, minha lembrança não a deteve. Sucedeu outra vez a voz, tênue, silabuciada, movitiva:
— Subles acaba de chegar.
— Subles! Pode falar?
— Falar?! Mas ele já chegou!
Era outra coisa que uma voz, só, sem respondibilidade, infixa. A orla do fone comprimia-me as cartilagens, impunha-se sobre meu sangue — máquina, em tumulto. Senti que meus cabelos eternamente subiam, num arrepio.
— Alô! Alô! Subles?! — supliquei.
— Como poder ele falar, se já chegou?! Como quer que ele fale?!
Não mais.
— Subles... — gemi.
— Ele já chegou.
Tremi de morte, glacial, eu suava. Sem senso, surdo, meu corpo se contraía, e pulsou, num repugno à vertigem, como um cavalo espavorido se rebela refugando. Que me importava o bancário Subles?
Larguei o fone — eu me devolvia a mim, ao quotidiano, ao normal, que nem uma pedra a um poço: descendo, caindo, voltando. Durante um tempo, o telefone não tocava outra vez, não chamou.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

16/09/2026

Arroio-das-Antas



E eu via o gado todo branco
minha alma era de donzelas.
Porandiba.

Aonde — o despovoado, o povoadozinho palustre, em feio o mau sertão — onde podia haver assombros? Trou­xe-se lá Drizilda, de nem quinze anos, que mais não chorava: firme delindo-se, terminalvelmente, sozinha viúva. Descontado que a esquecessem. Ela era quase bela; e alongavam-se-lhe os cabelos. A flor é só flor. A alegria de Deus anda vestida de amarguras.
De déu em doendo, à desvalença, para no retiramento ficar sempre vivendo, desde desengano. O irmão matara-lhe o marido, irregrado, revelde, que a desdenhava. De não ter filhos? Estranhos culpando-a, soante o costume, e o povo de parentes: fadada ao mal, nefandada. Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala.
Mandaram-na e quis, furtadamente, para não encarar com nin­guém, forrar-se a reprovas, dizques, piedade. Toda grande dis­tância pode ser celeste. Trás a dobrada serrania, ao último lugar do mundo, fim de som, do ido outro-lado. Arroio-das-Antas — onde só restavam velhos, mais as sobejas secas velhinhas, tristilendas. Pois era assim que era, havendo muita realidade. Que faziam essas almas?
Rodearam-na — solertes, duvidando, diversas — até ao coaxar da primeira rã. Nem achavam o acervo de perguntas, entre outroras. Seus olhos punham palavras e frases. Viera-lhes a moça, primor, mais vaga e clara que um pensamento; tinham, à fria percepção, de tê-la em mal ou em bem.
Dali — recanto agarrado e custoso, sem aconteceres — homens e mulheres cedo saíam, para tamanho longe; e, aquela, chegava? Tão não sabida nem possível, o comum não a minguando: como todo ser, coagido a calar-se, comove.
Sós, após, disputavam ainda, a bisbilhar, em roda, as candeias acesas. Nenhuma delas ganhara da vida jamais o muito — que ignoravam que queriam — feito romance, outra maneira de alma. O que a gente esperava era a noite. Mas a velhice era-lhes portentosa lanterna, arrulhavam ao Espírito-Santo.
Senão que, uma, avó Edmunda, sob mínima voz, abençoou-a: — “Meu cravinho branco...” Outra por ela puniu, afetando-se áspera: —“Gente invencioneira!” Suspiraram mor, em giro doce, enfim, entreentendidas, aguadas as vistas, com uma ternura que era quase uma saudade.
Drizilda depôs-se, sacudidos os cabelos, quisesse um parar — devagarzinho quietante — no limbo, no olvido, no não abo­lido. Fez tenção: de trabalhar, sobre só, ativa inertemente; sarado o dó de lembranças, afundando-se os dias, fora já de sobressaltos.
Sofria, sofria, enquanto a noite. Culpa capital — em escrú­pulo e recato, o delicado sofrimento, breve como uma pena de morte, peso de ninguém levantar. O marido, na cova; o irmão, preso condenado; rivais, os dois, por uma outra mulher, incerta ditosa, formosa... Deus é quem sabe o por não vir. A gente se esquece — e as coisas lembram-se da gente.
Por maiormente, o lugar — soledade, o ar, longas aves em cur­to céu — em que, múrmuras, nos fichus, sábias velhinhas se aconselhavam. Aqui, não deviam de estender notícias, o muito vulgado. Calava-se a ternura — infinito monossílabo. O que não pudera, nem soubera; não havendo um recomeçar. Pagava o mourejo, fado, sumida em si, vendo o chão, mentindo para a alma. Sem senhor, sem sombras, tão lesada; como as mais do campo, amarelas ou roxas, florzinha de má sorte? Um cachorro passava por ali, de volta para alguma infância. Desse tempo para a frente. Vigiavam-na as velhas, sem palavras.
Tramavam já com Deus, em bico de silêncio, as quantas cria­turas comedidas. De vê-la a borralheirar, doíam-se, passarinho na muda, flor, que ao fim se fana; nem podendo diverti-la, dentro em si, desse desistir. Mas, pretendiam mais. Tomavam, todas juntas, a fé de mortificadas orações, novenas, nôminas, se­têmplices. — “Deus e glória!” — adivinhavam, sérias de amor, se entusiasmavam. Elas, para o queimar e ferver de Deus, decerto prestassem — feixe de lenhazinha enxuta. Para o forçoso milagre!
Falava-se de uma ternura perfeita, ainda nem existente; o bem-querer sem descrença. Enquanto isso, o tempo, como sem­pre, fingia que passava. As velhinhas pactuavam a alegria de penar e mesmo abreviadas irem-se — a fito de que neste sertão vingassem ao menos uma vez a graça e o encanto.
Drizilda estremunhava-se, na disquietação, ainda com me­drosas pálpebras primitivas. Aqui ninguém viesse — o mundo todo invisível — só a virtude demorã, senhas de Maria e de Cristo, os cães com ternura nas narinas, borboletas terra-a-terra. Ela queria a saudade. Ora chovia ou sol, nhoso lazer, enfado­nhação, lutas luas de luar, nuvens nadas. Sua saudade — tendência secreta — sem memória. Ela, maternal com suas velhinhas, custódias, menina amante: a vovozinha... Moviam-na adiante, sob irresistíveis eflúvios, aspergiam-na, persignavam-lhe o tra­vesseiro e os cabelos. Comutava-se. Olhos de receber, a cabeça de lado feito a aceitar carinho — sorria, de dom.
Sua saudade cantava na gaiolazinha; não esperar inclui misteriosas certezas. Vinham as velhas, circulavam-na. Alguma proferia: — “Todo dia é véspera...” — e muito quando. Viam-na em rebroto — o ardente da vida — que, a tanto, um dia, ao fim, da haste se quebra. Rezavam, jejuavam, exigiam, trêmulas, po­derosas, conspiravam.
A avó Edmunda, de repente, então. — “Morreu, morreu de pe­nitências!” — a triunfar, em ordem, tão anciãs, as outras jubilavam.
Saía o enterro — Drizilda adiante, com a engrinaldada cruz — murchas, finais, as velhinhas, à manhã, mais almas.
E vinha de lá um cavalo grande, na ponta de uma flecha — entrante à estrada. Em galope curto, o Moço, que colheu rédea, recaracolando, desmontou-se, descobriu-se. Senhorizou-se: o­lhos de dar, de lado a mão feito a fazer carícia — sorria, dono. Nada; senão que a queria e amava, trespassava-se de sua vista e presença.
Ela percebeu-o puramente; levantou a beleza do rosto, reflor. Ia. E disse altinho um segredo: — “Sim”. Só o almêjo débil, entrepalpitado, que em volta as velhinhas agradeciam.
Assim são lembrados em par os dois — entreamor — Drizilda e o Moço, paixão para toda a vida. Aqui, na forte Fazenda, fe­liz que se ergueu e inda hoje há, onde o Arroio.

Guimarães Rosa, em Tutameia

12/09/2026

Zoo

O passarinho na gaiola pensa que uma árvore e o céu o prendem.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

10/09/2026

Antiperipléia



— E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido ru­fião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for ca­paz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém te­ve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam de­veras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acon­tecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, de­fino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Pa­ra mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e
brancas, nas es­tradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conse­lhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de ne­nhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arro­jo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum re­morso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, ma­luca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos den­tes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o ou­tro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se des­pencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me amea­çam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de reco­me­çar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as sau­da­des me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habi­tual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.

Guimarães Rosa, em Tutameia

04/09/2026

Zoo

O que se passou no cercado grande: Juntos, o gamo e a ema rimam. Ovinos pastam, os carneiros valentins. Impõe-se oficialmente aberto o pavão — cauda erguida verde. O jaburu anda, meticuloso passo angular, desmeias pernas tão suas. Os carneiros são da Barbaria! A ema persegue os carneiros — a ema que come cobra. Pulam da grama os gamos deitados, branquipretos, rabicurtos: feito passarinhos. O jaburu, bico fendidamente, também corrivoa, com algo de bruxo e de aranha. Só o pavão, melindroso humilde, fica: coifado com seu buquezinho de violetas.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

31/08/2026

Antiperipléia



— E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido ru­fião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for ca­paz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém te­ve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam de­veras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acon­tecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, de­fino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Pa­ra mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e brancas, nas es­tradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conse­lhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de ne­nhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arro­jo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum re­morso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, ma­luca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos den­tes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o ou­tro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se des­pencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me amea­çam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de reco­me­çar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as sau­da­des me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.

Guimarães Rosa, em Tutameia

27/08/2026

Zoo

Prova-se que a ideia da galinha nasceu muito antes do primeiro ovo.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra