Foi que, uma noite, sozinho em casa e
avançando as horas, tomado de sono, deu-me entretanto de telefonar a
um ou outro conhecido, ainda que sem assunto e contra meu costume.
Como em duas, três tentativas, a
linha estivesse sempre ocupada, comecei, nem sei, a discar a esmo, do
modo por que a mão da gente num vazio desses se distrai,
tamborilando dedos, por exemplo, ou rabiscando letras e garatujas.
Suponho ter formado, de curto, um número impossível e imprevisto,
principiado por 7, 9 ou 8. E somenos cochilava, se por metade não
dormia.
Despertou-me um apelo brusco:
— Quer falar com Subles?
Que sim, respondi, com presteza que
ainda hoje não me explico. Verdade que eu conhecia o Subles, um
único Subles, sujeito de raras palavras e riso nenhum ao guichê,
funcionário bancário. Aquela hora, se bem o disse, eu não
esquivaria interlocutor, aceitava qualquer conversa. Também o torpor
que me nublava tirou-me de estranhar o acaso. Guardei o fone ao
ouvido.
Sobre pausa normal — convém
minuciar — soaram, fim de fio, confusas campainhas, e percebi
vozes, como as que no comum se entremetem para as ligações
interurbanas. Por uma vez admiti que a chamada partira do próprio
Subles, surpreendendo-me por coincidência enquanto eu usava o
aparelho; e quis imaginar de que lugar, e que motivo ou erro o trazia
a mim. Em tão contadas ocasiões o vira e por último fazia tanto
tempo, que nem poderia em rigor evocar-lhe a fala e as feições.
Momento e outro, alteou-se, não
entendido, o retalho de colóquio das telefonistas; depois borbulhou
no receptor apenas um gorgolejo morto, como o de dentro de um búzio.
Demoravam, quase entrei em dúvida. Só silêncio. Enfim, porém,
acertaram conexão linha adiante, onde regia voz oficial — crassa,
espessa:
— Aão?
— Alô, alô... — me apressei.
Do outro extremo, insistiu, autônomo,
o interrogador:
— Quer falar com Subles?
Concordei, sem fazer espantos, posto
sabendo que telefonava de moto alheio. Digo que por então eu me
lestara, livre da sonolência. Subles — sua memória — vinha
palpando. O contínuo quotidiar é que relega as impressões,
desmembra-as. Portanto, eu o tinha na lembrança, um pouco mais do
que antes achava: a cabeça grande, grisalha, um desmedir-se de
orelhas, as mãos, que muito se viam, hábeis no manipular recibos e
maços de dinheiro, e o vezo grave, polido, de cumprimentar
perguntando-nos: se toda a família passava bem?...
O fone captava simples estalidos, em
meio de sussurros, voo menos que o de morcegos, outramente seguidos
de rumores de arrasto, como se mudassem um cenário. Tinia com
intervalos, mais remoto, o toque de campainhas. E bem o diálogo de
telefonistas reescutava-se indistinto, ora uma frase se acentuando,
em idioma extraordinariamente estrangeiro. Dei que, pelo melhor,
arrumavam uma ligação mais que longínqua. Então, onde estaria
Subles? Telefonar-me, ele a mim, dividia-se em ridículo e absurdo.
De agora creio que me vi na maior suspensão. Continuei esperando.
Tornaram a chamar, e um ruído regular
se estabeleceu, transferindo-nos de circuito. Mas a voz que saltou se
distendia de ninguém, falseando timbre, tanto podia ser de homem ou
mulher, de um velho, de uma menina.
— Que quer? Que quer? — pareceu-me
perguntavam.
— Subles?! — exigi.
— Pode esperar Subles.
Por primeiro suspeitei estar sendo
usado num gracejo. Mas a mesma dicção incarnal se seguia acolá,
peremptória, por certo reclamando urgência. Teriam posto Subles
numa prisão, num manicômio? Dava-me pena imaginar: ele trajado de
preto, estragado, distante de todo o mundo. Devia ter naquele
instante uma inadiável comunicação a fazer-me, talvez um pedido.
Impacientei-me, bradei no bocal: — Alô! Alô!...
— Pode esperar Subles...
Pelo modo, através de engrenagem,
trocavam de sistema, aprofundando-me para outro âmbito: pensei na
possibilidade de uma rede clandestina. Tudo é tão clandestino,
tanta coisa é possível, que a vida é o não-resumo de um milagre.
Subles me chamava, de algum ponto perdido naquela trama.
— Alô?
Seria ele? Não o conhecia mais que
acauteladamente. Nunca me ocorrera dar-lhe uma palavra desnecessária.
Nunca o olhara de verdade.
Já aqui eu estava demasiadamente
acordado, atento, lúcido. Ápices de vozes se erguiam, trazidas e
levadas, feixe de murmúrios. A espaços, uma entressistia mais
forte, renovava o nome de Subles. E alguém chorava, seguro estou, a
um canto: emitia insuportável soluço, manso, em decrescendo; podia
ser também um mecanismo.
Precisei de fechar os olhos e haver
apenas o telefone; perto mesmo de mim, eu temia de repente qualquer
coisa. Para acalmar-me, seria bem-vinda a própria fala inumana, já
sabida, de séculos há pouco.
E, Subles, eu carecia de ouvi-lo.
Compreendi que lhe queria bem, que seria meu amigo. Seus olhos podiam
oferecer um raro entendimento profundo, principalmente só seu.
Subia-me, de muito, uma tensa calma, algo para além do medo,
inconcebível serenidade. Tentei entendê-la, substância evasiva,
notar seu espaço de sonho. Foi porém imensamente breve, sem
definição.
— Subles... — pedi, talvez só com
arrancado pensamento.
— Sabemos. Subles.
— Sim!
— Subles ainda não chegou.
— Aguardo?
— Subles chegará dentro em pouco...
Não sei dizer se círculos de
silêncio lançavam-me em seu centro, ou se um mar de música corroía
em mim o que não fosse apenas alma — isto é, o intimamente
estranho7. Esperei Subles, cujo recado urgia decifrar, de quem eu
tinha de ouvir uma revelação. Se não, se não a recebesse, talvez
o simples sentido da vida ficaria para mim para sempre
incompreendido. Um fio devia unir-nos, e não funcionara. Ou sim? Mas
aquela ausência humana tendia a desordenar-se, minha lembrança não
a deteve. Sucedeu outra vez a voz, tênue, silabuciada, movitiva:
— Subles acaba de chegar.
— Subles! Pode falar?
— Falar?! Mas ele já chegou!
Era outra coisa que uma voz, só, sem
respondibilidade, infixa. A orla do fone comprimia-me as cartilagens,
impunha-se sobre meu sangue — máquina, em tumulto. Senti que meus
cabelos eternamente subiam, num arrepio.
— Alô! Alô! Subles?! —
supliquei.
— Como poder ele falar, se já
chegou?! Como quer que ele fale?!
Não mais.
— Subles... — gemi.
— Ele já chegou.
Tremi de morte, glacial, eu suava. Sem
senso, surdo, meu corpo se contraía, e pulsou, num repugno à
vertigem, como um cavalo espavorido se rebela refugando. Que me
importava o bancário Subles?
Larguei o fone — eu me devolvia a
mim, ao quotidiano, ao normal, que nem uma pedra a um poço:
descendo, caindo, voltando. Durante um tempo, o telefone não tocava
outra vez, não chamou.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Nenhum comentário:
Postar um comentário