21/09/2026

Subles




Foi que, uma noite, sozinho em casa e avançando as horas, tomado de sono, deu-me entretanto de telefonar a um ou outro conhecido, ainda que sem assunto e contra meu costume.
Como em duas, três tentativas, a linha estivesse sempre ocupada, comecei, nem sei, a discar a esmo, do modo por que a mão da gente num vazio desses se distrai, tamborilando dedos, por exemplo, ou rabiscando letras e garatujas. Suponho ter formado, de curto, um número impossível e imprevisto, principiado por 7, 9 ou 8. E somenos cochilava, se por metade não dormia.
Despertou-me um apelo brusco:
— Quer falar com Subles?
Que sim, respondi, com presteza que ainda hoje não me explico. Verdade que eu conhecia o Subles, um único Subles, sujeito de raras palavras e riso nenhum ao guichê, funcionário bancário. Aquela hora, se bem o disse, eu não esquivaria interlocutor, aceitava qualquer conversa. Também o torpor que me nublava tirou-me de estranhar o acaso. Guardei o fone ao ouvido.
Sobre pausa normal — convém minuciar — soaram, fim de fio, confusas campainhas, e percebi vozes, como as que no comum se entremetem para as ligações interurbanas. Por uma vez admiti que a chamada partira do próprio Subles, surpreendendo-me por coincidência enquanto eu usava o aparelho; e quis imaginar de que lugar, e que motivo ou erro o trazia a mim. Em tão contadas ocasiões o vira e por último fazia tanto tempo, que nem poderia em rigor evocar-lhe a fala e as feições.
Momento e outro, alteou-se, não entendido, o retalho de colóquio das telefonistas; depois borbulhou no receptor apenas um gorgolejo morto, como o de dentro de um búzio. Demoravam, quase entrei em dúvida. Só silêncio. Enfim, porém, acertaram conexão linha adiante, onde regia voz oficial — crassa, espessa:
— Aão?
— Alô, alô... — me apressei.
Do outro extremo, insistiu, autônomo, o interrogador:
— Quer falar com Subles?
Concordei, sem fazer espantos, posto sabendo que telefonava de moto alheio. Digo que por então eu me lestara, livre da sonolência. Subles — sua memória — vinha palpando. O contínuo quotidiar é que relega as impressões, desmembra-as. Portanto, eu o tinha na lembrança, um pouco mais do que antes achava: a cabeça grande, grisalha, um desmedir-se de orelhas, as mãos, que muito se viam, hábeis no manipular recibos e maços de dinheiro, e o vezo grave, polido, de cumprimentar perguntando-nos: se toda a família passava bem?...
O fone captava simples estalidos, em meio de sussurros, voo menos que o de morcegos, outramente seguidos de rumores de arrasto, como se mudassem um cenário. Tinia com intervalos, mais remoto, o toque de campainhas. E bem o diálogo de telefonistas reescutava-se indistinto, ora uma frase se acentuando, em idioma extraordinariamente estrangeiro. Dei que, pelo melhor, arrumavam uma ligação mais que longínqua. Então, onde estaria Subles? Telefonar-me, ele a mim, dividia-se em ridículo e absurdo. De agora creio que me vi na maior suspensão. Continuei esperando.
Tornaram a chamar, e um ruído regular se estabeleceu, transferindo-nos de circuito. Mas a voz que saltou se distendia de ninguém, falseando timbre, tanto podia ser de homem ou mulher, de um velho, de uma menina.
— Que quer? Que quer? — pareceu-me perguntavam.
— Subles?! — exigi.
— Pode esperar Subles.
Por primeiro suspeitei estar sendo usado num gracejo. Mas a mesma dicção incarnal se seguia acolá, peremptória, por certo reclamando urgência. Teriam posto Subles numa prisão, num manicômio? Dava-me pena imaginar: ele trajado de preto, estragado, distante de todo o mundo. Devia ter naquele instante uma inadiável comunicação a fazer-me, talvez um pedido. Impacientei-me, bradei no bocal: — Alô! Alô!...
— Pode esperar Subles...
Pelo modo, através de engrenagem, trocavam de sistema, aprofundando-me para outro âmbito: pensei na possibilidade de uma rede clandestina. Tudo é tão clandestino, tanta coisa é possível, que a vida é o não-resumo de um milagre. Subles me chamava, de algum ponto perdido naquela trama.
— Alô?
Seria ele? Não o conhecia mais que acauteladamente. Nunca me ocorrera dar-lhe uma palavra desnecessária. Nunca o olhara de verdade.
Já aqui eu estava demasiadamente acordado, atento, lúcido. Ápices de vozes se erguiam, trazidas e levadas, feixe de murmúrios. A espaços, uma entressistia mais forte, renovava o nome de Subles. E alguém chorava, seguro estou, a um canto: emitia insuportável soluço, manso, em decrescendo; podia ser também um mecanismo.
Precisei de fechar os olhos e haver apenas o telefone; perto mesmo de mim, eu temia de repente qualquer coisa. Para acalmar-me, seria bem-vinda a própria fala inumana, já sabida, de séculos há pouco.
E, Subles, eu carecia de ouvi-lo. Compreendi que lhe queria bem, que seria meu amigo. Seus olhos podiam oferecer um raro entendimento profundo, principalmente só seu. Subia-me, de muito, uma tensa calma, algo para além do medo, inconcebível serenidade. Tentei entendê-la, substância evasiva, notar seu espaço de sonho. Foi porém imensamente breve, sem definição.
— Subles... — pedi, talvez só com arrancado pensamento.
— Sabemos. Subles.
— Sim!
— Subles ainda não chegou.
— Aguardo?
— Subles chegará dentro em pouco...
Não sei dizer se círculos de silêncio lançavam-me em seu centro, ou se um mar de música corroía em mim o que não fosse apenas alma — isto é, o intimamente estranho7. Esperei Subles, cujo recado urgia decifrar, de quem eu tinha de ouvir uma revelação. Se não, se não a recebesse, talvez o simples sentido da vida ficaria para mim para sempre incompreendido. Um fio devia unir-nos, e não funcionara. Ou sim? Mas aquela ausência humana tendia a desordenar-se, minha lembrança não a deteve. Sucedeu outra vez a voz, tênue, silabuciada, movitiva:
— Subles acaba de chegar.
— Subles! Pode falar?
Falar?! Mas ele já chegou!
Era outra coisa que uma voz, só, sem respondibilidade, infixa. A orla do fone comprimia-me as cartilagens, impunha-se sobre meu sangue — máquina, em tumulto. Senti que meus cabelos eternamente subiam, num arrepio.
— Alô! Alô! Subles?! — supliquei.
— Como poder ele falar, se já chegou?! Como quer que ele fale?!
Não mais.
— Subles... — gemi.
Ele já chegou.
Tremi de morte, glacial, eu suava. Sem senso, surdo, meu corpo se contraía, e pulsou, num repugno à vertigem, como um cavalo espavorido se rebela refugando. Que me importava o bancário Subles?
Larguei o fone — eu me devolvia a mim, ao quotidiano, ao normal, que nem uma pedra a um poço: descendo, caindo, voltando. Durante um tempo, o telefone não tocava outra vez, não chamou.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

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